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O problema da causalidade
«Talvez um exemplo concreto possa ajudar a compreender o modo como David Hume abordou
o problema da causalidade.
Imagine um bebé a quem os pais sempre tenham dado brinquedos macios e moles para se
entreter. Esse bebé atira frequentemente os brinquedos para fora do berço, e eles caem no
chão com um baque surdo. Um dia, o tio dá-lhe uma bola de borracha. O bebé examina-a de
todos os ângulos, cheira-a, mete-a na boca, apalpa-a, depois deixa-a cair. Não obstante o
exame cuidadoso a que submeteu a bola, o menino não tem maneira de saber que, em vez de
cair suavemente no chão como os outros brinquedos, ela salta. Só pelo exame de uma coisa,
diz-nos Hume constantemente, não poderemos dizer quais os efeitos que ela pode produzir. Só
podemos determinar as suas consequências em resultado da
experiência.
Imagine agora que o tio do menino ficou à espera de ver
como brincaria ele com o seu presente. Quando o tio vê a
bola cair, espera que ela salte. Se você lhe perguntar o que
fez a bola saltar, ele responderá: ‘O meu sobrinho deixou-a
cair’; ou ainda: ´Há uma conexão necessária entre deixar cair
uma bola e ela saltar’.
Mas Hume faz uma pergunta mais profunda. Qual é a
experiência que o tio tem e que falta à criança? O tio faz uso
de conceitos como ´causa’ e ‘conexão necessária’. Se não se
tratar apenas de palavras vazias, têm de se reportar de
algum modo à experiência. Mas qual é, no caso presente, a
experiência? A experiência do tio difere da experiência do
sobrinho em quê?
A diferença consiste, para Hume, num facto simples. Ao contrário do sobrinho, o tio pôde
observar, num grande número de casos, primeiro uma bola de borracha cair ao chão e, depois,
o salto que ela dá. Na verdade, nunca na sua experiência houve um só caso em que uma bola
de borracha tenha sido deixada cair numa superfície dura sem saltar, ou uma bola de borracha
tenha começado a saltar sem primeiro ter caído ou ter sido atirada. Segundo Hume, há uma
‘conjunção constante’ entre a queda da bola e o salto que dá.
Mas como é que essa diferença de experiências entre o tio e o sobrinho engendra conceitos
como ´causa’ e ‘conexão necessária’? O tio viu uma bola de borracha cair ao chão e saltar em
muitas ocasiões, enquanto o sobrinho só viu isso acontecer uma vez. Todavia, o tio não viu
nada que o sobrinho não tivesse visto também, apenas teve mais vezes a mesma sequência
de experiências. Ambos observam que uma bola cai e depois salta – nada mais. O tio, porém,
acredita que há uma conexão necessária entre a bola cair e saltar. E isto não é alguma coisa
que ele encontre na sua experiência; a sua experiência é a mesma que a do sobrinho, só que
se repetiu muitas vezes. Então, donde vem a ideia de uma conexão necessária, de uma
ligação causal, se nunca foi diretamente observada?
A ideia de que existem conexões causais entre os acontecimentos tem um papel importante no
modo como compreendemos o mundo. Mas, quando vamos atrás desta ideia com seriedade ,
descobrimos que a conexão causal não é uma coisa que tenhamos alguma vez observado
concretamente. Podemos dizer que o acontecimento A causa o acontecimento B , mas, quando
examinamos a situação, descobrimos que é o acontecimento A seguido do acontecimento B
aquilo que de facto observámos. Não existe uma terceira entidade, uma ligação causal, que
também seja observada. Donde vem então essa ideia?»
Adapatado a partir de: Bryan Magee, Os grandes filósofos, Editorial Presença, Lisboa, 1989, pp. 141-143
1. De acordo com o texto, a relação causa efeito parece-nos uma relação necessária mas não é. Porquê?
2. O que se tenta provar com o exemplo da bola de borracha?
3. O que são conexões causais? Dê um exemplo.
4. Responda à última questão colocada pelo autor.
.
Quando por conseguinte temos alguma suspeita de que um termo filosófico é empregue sem
nenhum significado ou ideia (como é muito frequente), basta-nos perguntar sobre a impressão
de que a ideia supostamente deriva. E se for impossível encontrar alguma, isto servirá para
confirmar a nossa suspeita. Ao clarificar assim as ideias, podemos razoavelmente esperar que
possam ser removidos todos os conflitos que possam surgir sobre a sua natureza e realidade.
As consequências destas linhas são estonteantes.
Consideremos a ideia de um eu durável, algo de substancial que persiste por detrás das muitas
mudanças que experimentamos ao vivermos a vida. Suponho, por exemplo, que esta manhã
sou essencialmente o mesmo eu que era quando me fui deitar a noite passada. Não só isso,
acho também que sou o mesmo eu que era na juventude que desaproveitei. Acho que serei o
mesmo eu enquanto viver. Sem dúvida, algumas coisas mudaram: cresci, ganhei algumas
cicatrizes, o meu cabelo está a tornar-se um pouco grisalho. Contudo, parece haver algo de
essencial, o meu verdadeiro eu, que persiste em todas estas alterações acidentais.
Se concordarmos com o princípio de Hume sobre a relação entre ideias e impressões, e se
estivermos convencidos de que o seu método de remover ideias fictícias é o caminho certo,
temos apenas que perguntar: «De que impressão é a minha ideia derivada?» Ao olhar para
dentro de mim, afirma Hume, não encontro nada, excepto uma série de impressões fugazes –
ódio, amor, calor, dor, imagens, sons, cheiros e coisas do género –, mas nada permanente,
nada que persista em todas as alterações. Em suma, nenhuma impressão corresponde à
nossa ideia de eu. A ideia presente na palavra «eu» pode juntar-se a «unicórnio»: «eu» é uma
palavra que expressa uma ideia ilusória, uma ficção da imaginação.
Mas as coisas tornam-se muito piores. A abordagem que Hume faz da natureza do
entendimento humano começa com uma distinção entre dois tipos de «objectos da razão
humana»: relações de ideias e matérias de facto. As relações de ideias podem ser descobertas
apenas pela razão. Podemos saber que os solteiros são homens não casados ou que duas
vezes cinco é metade de vinte pensando apenas sobre as relações entre as ideias em causa.
As matérias de facto, porém, podem apenas ser descobertas pela experiência. Podemos
meditar o tempo que quisermos sobre a proposição de que o sol está a brilhar, mas só
saberemos se ela é verdadeira olhando pela janela. Há outra diferença entre estes dois tipos
de proposição. O contrário de uma matéria de facto é possível, mas se negarmos uma relação
entre ideias verdadeira, incorremos numa contradição. O sol pode não ser brilhante, mas não
se pode estar mais longe da verdade do que quando alegamos que os solteiros são casados.
James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006, págs. 66-68).
Trad. Maria Miguel Pires (rev. científica Logosferas).
Picasso
— Aí, tens toda a razão. Mas talvez Hume seja justamente um filósofo que pensa de forma um
pouco diferente. Mais do que qualquer outro, ele tem como ponto de partida o mundo
quotidiano. Acho que Hume tinha um sentido muito apurado para o modo como as crianças —
ou seja, os novos cidadãos do mundo — vivem a realidade.— Eu vou conter-me.— Enquanto
empirista, Hume via como sua tarefa a supressão de todos os conceitos e construções
especulativas pouco claros que os teus homens tinham concebido até então. Nessa altura,
estava em circulação na escrita e em conversas todo o tipo de conceitos da Idade Média e dos
filósofos racionalistas do século XVII. Hume queria regressar à sensibilidade humana original
do mundo. Segundo ele, nenhuma filosofia pode alguma vez ignorar as experiências
quotidianas ou dar-nos regras de comportamento diferentes daquelas que obtemos por meio
da nossa reflexão sobre a vida quotidiana.— Até agora isso parece aliciante. Podias dar
exemplos?— Na época de Hume, estava muito difundida a ideia de que existem anjos. Por
anjo, entendemos uma figura humana com asas. Alguma vez viste um ser desses, Sofia? —
Não.— Mas já viste uma figura humana?
— Que pergunta tão boba.— E também já viste asas?— Claro, mas nunca num homem.—
Segundo Hume, os “anjos” são uma ideia complexa. Esta ideia é constituída por duas
experiências diferentes que não estão juntas na realidade, mas foram ligadas na fantasia
humana. Por outras palavras, a ideia é falsa e deve ser rejeitada. Do mesmo modo, temos de
fazer uma arrumação em todos os nossos pensamentos e ideias. Tal como Hume afirmou:
“Pegando ao acaso em qualquer volume acerca de teologia ou filosofia da escola, devemos
perguntar: Contém algum raciocínio abstrato acerca da grandeza ou dos números? Não.
Contém algum raciocínio sobre fatos e sobre a realidade baseado na experiência? Não. Então,
lançai-o à fogueira porque só contém ilusão e aparência.”— Bastante drástico. — Mas há o
mundo, Sofia. Mais fresco e nítido nos seus contornos do que anteriormente. Hume queria
regressar ao modo como uma criança vê o mundo — antes de ideias e reflexões ocuparem
espaço na mente. Não disseste que muitos filósofos, dos quais ouviste falar, vivem no seu
próprio mundo e que o mundo real te interessa mais?— Sim, mais ou menos isso. — Hume
poderia ter dito exatamente o mesmo. Mas observemos mais exatamente o seu raciocínio.
— Estou a ouvir.— Hume verifica em primeiro lugar que o homem possui por um lado
“impressões”, e por outro “ideias”. Por impressão, ele entende a sensação imediata da
realidade exterior. Por ideia ele entende a recordação dessa sensação.— Exemplos, por
favor.— Se te queimas num fogão quente, tens uma impressão imediata. Mais tarde, podes
recordar que te queimaste. É a isso que Hume chama ideia. A diferença é que a impressão é
mais forte e viva do que a recordação posterior da impressão. Podes dizer que a impressão
sensível é o original e a ideia ou recordação a cópia pálida. Porque, afinal, a impressão é a
causa direta da ideia que é conservada na mente.
— Até agora estou a acompanhar bem.— Mais adiante, Hume sublinha que tanto uma
impressão como uma ideia podem ser ou “simples ou complexas”. Ainda te lembras que em
Locke falamos de uma maçã. A experiência imediata de uma maçã é também uma impressão
complexa. Assim, a ideia de uma maçã é também uma ideia complexa.— Desculpa a
interrupção, mas isso é muito importante?
— Se é! Apesar de os filósofos se terem preocupado com uma série de problemas aparentes,
não podes agora desistir quando se trata de construir um raciocínio. Hume teria certamente
dado razão a Descartes quanto à importância de se construir um raciocínio a partir da base.—
Para Hume, a questão é que, por vezes, podemos juntar coisas sem que exista um objeto
composto correspondente na realidade. Assim, surgem ideias falsas de coisas que não existem
na natureza. Já mencionamos os anjos. E, antes disso, já se tinha falado de crocofantes. Um
outro exemplo é o Pégaso, um cavalo com asas. Em todos estes exemplos, temos de
reconhecer que a nossa mente fez uma construção no vazio. Retirou as asas de uma
impressão e os cavalos de outra. Todos os elementos foram percebidos uma vez e por isso
entraram no palco da mente como impressões verdadeiras. No fundo, a mente não inventou
nada. A mente agarrou na tesoura e na cola e construiu ideias falsas.— Entendo. E agora
também compreendo que isso pode ser importante.— Ainda bem. Hume quer examinar cada
ideia e descobrir se ela é composta de um modo que não encontramos na realidade. Ele
pergunta: em que impressões tem origem esta ideia? Em primeiro lugar, ele tem que
determinar de que ideias simples é composto um conceito. Deste modo, obtém um método
crítico para analisar as ideias humanas. E é assim que quer organizar os nossos pensamentos
e ideias.— Tens um ou dois exemplos?— Na época de Hume, muitas pessoas tinham uma
ideia clara do paraíso. Talvez ainda te lembres que Descartes explicara que ideias claras e
evidentes em si podiam ser uma garantia deque existe uma correspondência na realidade.
— Como já disse, não sou esquecida.— É-nos imediatamente claro que “paraíso” é uma ideia
extremamente complexa. Vou referir apenas alguns elementos: no “paraíso” há um “portão de
pérolas”, há “estradas de ouro” e “exércitos de anjos” — e assim por diante. Mas ainda não
examinamos tudo nos seus elementos particulares. Porque também “portão de pérolas”,
“estradas de ouro” e “exércitos de anjos” são ideias compostas. Só quando verificamos que a
nossa ideia complexa de paraíso é constituída por ideias simples como “pérola”, “portão”,
“estrada”, “ouro”, “figura vestida de branco” e “asa”, é que podemos perguntar se já tivemos de
fato alguma vez “impressões simples ”correspondentes.— E temos. Mas depois montamos
todas as impressões simples numa ilusão.— Sim, Exato, porque quando sonhamos, usamos,
por assim dizer, tesoura e cola. Mas Hume sublinha que toda a matéria, a partir da qual
formamos as nossas ilusões, chega à nossa mente na forma de impressões simples. Uma
pessoa que nunca tenha visto ouro também não poderá imaginar nenhuma estrada de ouro. —
Ele é muito esperto. E quanto a Descartes e a sua ideia clara de Deus?
Jostein Gaarder, O mundo de Sofia
DAVID HUME: unicórnios, eus e homens não casados
Hume começa, tal como Locke, por considerar os conteúdos da mente, os objetos do
entendimento humano ou – nas suas palavras – as perceções da mente ou materiais do
pensamento. Hume divide estes conteúdos em impressões e ideias. Há uma clara distinção, já
notada por Locke, entre sentir realmente dor, calor, raiva, ver uma paisagem, ouvir uma sirene
ou desejar uma bebida fresca e recordar mais tarde ou imaginar estas experiências. Hume usa
o termo «impressões» para indicar «as nossas perceções mais vívidas, quando ouvimos, ou
vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos». As ideias têm menos força, são cópias fracas
das impressões, trazidas à mente pela memória ou pela imaginação.
Qual, para Hume, é a relação entre ideias e impressões? Hume afirma que «todas as nossas
ideias ou perceções mais débeis são cópias das nossas impressões ou perceções mais
“vividas”». Por outras palavras, as ideias derivam apenas da experiência. É claro que Hume
sabe que algumas ideias – por exemplo, a minha ideia de unicórnio – não correspondem
exatamente a uma impressão particular. Mas as partes que compõem a minha ideia de um
unicórnio – ideias de cavalos e de chifres – são cópias de coisas que já vi no mundo. Limitei-me
a combinar ideias derivadas da experiência de uma maneira nova. A ideia de Hume é que
apesar de a mente parecer porventura quase ilimitada na sua capacidade de imaginar e pensar
abstratamente, a matéria bruta sobre a qual ela opera é sempre extraída de impressões.
É este o cerne do empirismo, e Hume oferece alguns argumentos em sua defesa. Sugere que
pensemos nas nossas próprias ideias e que tentemos apontar uma que não dependa de uma
impressão original. Ataca também diretamente a ideia favorita dos racionalistas – a ideia de
Deus –, e mostra que podemos adquiri-la pensando nas qualidades das nossas mentes
exagerando depois tanto quanto quisermos o que há nelas de bom e de sábio. Finalmente,
considera os indivíduos que têm falta de uma aptidão sensorial – os cegos, por exemplo – e
nota que estes não têm nenhuma ideia de cor. A explicação, argumenta, é que as ideias são
cópias das impressões, e que quem nunca teve impressões relevantes não pode ter as ideias
correspondentes.
Há certos factos sobre impressões e ideias que nas mãos de Hume têm consequências
filosóficas de longo alcance. Comparadas com as impressões, as ideias são naturalmente fracas
e obscuras e é fácil cometer dois tipos de erros quando pensamos sobre elas. Em primeiro
lugar, podemos confundir uma ideia com outra, podemos pensar que se justifica tirar uma
certa conclusão acerca de uma ideia quando o que realmente acontece é que estamos a
pensar numa ideia semelhante, mas diferente. Em segundo lugar, e pior, usamos palavras para
representar ideias, e o nosso discurso pode desenrolar-se alegremente mesmo que as partes
relevantes da nossa linguagem não tenham correspondência com alguma ideia fixa ou
determinada. Numa disputa filosófica, quando não estamos a falar em cavalos e de chifres,
mas em ideias muito complexas e abstratas, é fácil termos uma conversa em que são usadas as
mesmas palavras para mencionar coisas diferentes. Podemos até discutir sobre nada. A nossa
disputa poderá ser sobre ideias ilusórias, meros fantasmas sem base na experiência – o
equivalente filosófico dos unicórnios.
James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006, págs. 66-68). Trad.
Maria Miguel Pires (rev. científica Logosferas).
Já David Hume foi bastante crítico em relação a Descartes nesta questão (de haver um
conhecimento absoluto) e avançou com a sua própria tese sobre o assunto. Diz Bertrand
Russel sobre o escocês:
"O que preocupa Hume é o conhecimento incerto, tal como o que é obtido de dados empíricos
por inferências que não são demonstrativas. Isso inclui todo o nosso conhecimento a respeito
do futuro, e a respeito de partes não observadas do passado e do presente. De facto, inclui
tudo excepto, por um lado, observação directa, e, por outro, a lógica e a matemática."
Em primeiro lugar, David Hume separa conhecimento de relação de ideias e conhecimento de
factos ou probabilidade. Se no conhecimento as “relações de ideias são dependentes das
próprias ideias”, na probabilidade existem três relações: a identidade, as situações no tempo e
lugar e a causalidade.
Assim, enquanto a negação do conhecimento de relação de ideias implica contradição, na
probabilidade (conhecimento dos factos), a negação é igualmente uma probabilidade. Desse
modo, as descobertas filosóficas devem ser caracterizadas pelo probabilismo, pois o Homem
tem várias limitações temporais e perceptivas. Ou seja, todas as explicações devem ser vistas
como tentativas destinadas a serem substituídas por outras, o que dá espaço à opinião e à
controvérsia.
David Hume rejeita “todo o tipo de ilusões metafísicas”, toda a crença em milagres. Segundo
ele, os milagres violam as leis da Natureza, que se baseiam na experiência.
No entanto, Hume, não é um céptico radical que negue totalmente a capacidade do sujeito
para conhecer algo, o que acaba por ser uma contradição, pois ao afirmar a impossibilidade de
alcançar o conhecimento, já está a concluir algo – conhecer que o conhecimento não é
possível.
Hume nega a existência de princípios evidentes inatos em nós. Para ele, todo o conhecimento
é como que uma cópia de algo, cujo objecto já tivemos acesso de alguma maneira.
Hume põe ainda o problema da causalidade em cima da mesa. Ele refuta o princípio da
causalidade segundo o qual todas as acções têm uma relação causa efeito, submetendo-o a
uma análise critica bastante rigorosa, baseando-se na sua teoria de conhecimento segundo a
qual sem impressão sensível não há conhecimento, visto todas as ideias derivarem das
sensações, à qual deve corresponder uma impressão.
A partir daí, ele negou que possamos fazer qualquer ideia de causalidade pois ela é apenas
resultado do nosso hábito mental, visto que na Natureza nada nos mostra que sempre que
acontece alguma coisa, tem que acontecer outra.
Só temos essa ideia porque nos habituamos a ver a sucessão de fenómenos um por um, o que
nos induziu em erro.
Por exemplo, quando está vento e uma árvore abana dizemos que esta é uma relação causa
efeito, quando nada nos prova que assim é. Apenas o dizemos porque nos habituamos a ver
os dois fenómenos ocorrer muitas vezes simultaneamente. A experiência até nos pode dizer
que o vento pôs os galhos da árvore em movimento, mas ela nunca nos diz nada sobre
acontecimentos futuros, com os quais ainda não tivemos qualquer contacto: única fonte de
conhecimento valida. Isto porque a inferência causais estão sempre sujeitas ao erro perante
novos objectos, novos sujeitos e novas situações, que podem mudar as ideias que temos em
nós. Desse modo, vemos que para Hume, o conhecimento só pode corresponder a acções
passadas, ou quando muito actuais e nunca futuras. Para ele, “cada caso, é um caso” e nada
nos diz o que vai acontecer amanhã.
Esta questão é de grande importância para David Hume, porque o racionalismo de Descartes
apoia-se sobretudo nas relações causa efeito.
Provando que não existem relações na Natureza e apenas fenómenos desligados uns dos
outros, Hume rejeita, o inatismo cartesiano, introduzindo um dado novo nas teses empiristas
afirmando que a identidade entre a ordem das coisas e das ideias é fruto dos nossos hábitos
mentais ou na crença que existe uma ligação necessária entre os fenómenos.
A partir daí, Hume nega as três verdades de René Descartes (o ser, Deus e o mundo).
Em relação ao “eu”, que Descartes provara através da intuição, Hume não acredita que o
pensamento intuitivo seja um caminho seguro para a verdade, devido à impossibilidade do
Homem poder enumerar causas.
Todos nós mudados em muitos aspectos à medida que os anos passam, sem que nós próprios
mudemos em si mesmo. No entanto, Hume nega a distinção entre os vários aspectos de uma
pessoa e o sujeito que transporta essas mesmas características. Ou seja, para o escocês,
quando fazemos uma introspecção, notamos um conjunto de percepções, sentimentos,
memorias e pensamento, mas nunca nos apercebemos de algo a que possamos chamar de
“eu”. Ou seja, o ser humano não passa de um conjunto de “percepções transitórias” que a nada
pertencem e de um composto de elementos relacionados em permanente mudança.
Depois, relativamente à questão da existência de Deus, que Descartes provara baseando-se
em que tudo tem uma causa, e a primeira dessas causas era Deus,
Hume diz ser impossível conhecer Deus pois a provas cartesianas estão fundadas na
existência de ideias inatas, originárias da razão, nas quais não acredita. Ou seja, para ele o
Homem não pode conhecer algo do qual não tem uma única percepção.
Por fim, Hume nega igualmente a existência do mundo exterior que para ele não passa de uma
crença. E é uma crença que não podemos eliminar, mas que também não podemos provar por
qualquer tipo de argumento, seja ele dedutivo ou indutivo.
David Hume também refuta a ideia de um conhecimento universal, claro e distinto. Visto que
dentro das limitações o nosso conhecimento é sempre incompleto, a realidade reduz-se aos
fenómenos aos quais os nossos sentidos têm acesso, sendo que cada um pode ter sensações
diferentes nessa experiência, abrindo-se espaço à subjectividade.
in Trabalhos de Filosofia

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  • 1. O problema da causalidade «Talvez um exemplo concreto possa ajudar a compreender o modo como David Hume abordou o problema da causalidade. Imagine um bebé a quem os pais sempre tenham dado brinquedos macios e moles para se entreter. Esse bebé atira frequentemente os brinquedos para fora do berço, e eles caem no chão com um baque surdo. Um dia, o tio dá-lhe uma bola de borracha. O bebé examina-a de todos os ângulos, cheira-a, mete-a na boca, apalpa-a, depois deixa-a cair. Não obstante o exame cuidadoso a que submeteu a bola, o menino não tem maneira de saber que, em vez de cair suavemente no chão como os outros brinquedos, ela salta. Só pelo exame de uma coisa, diz-nos Hume constantemente, não poderemos dizer quais os efeitos que ela pode produzir. Só podemos determinar as suas consequências em resultado da experiência. Imagine agora que o tio do menino ficou à espera de ver como brincaria ele com o seu presente. Quando o tio vê a bola cair, espera que ela salte. Se você lhe perguntar o que fez a bola saltar, ele responderá: ‘O meu sobrinho deixou-a cair’; ou ainda: ´Há uma conexão necessária entre deixar cair uma bola e ela saltar’. Mas Hume faz uma pergunta mais profunda. Qual é a experiência que o tio tem e que falta à criança? O tio faz uso de conceitos como ´causa’ e ‘conexão necessária’. Se não se tratar apenas de palavras vazias, têm de se reportar de algum modo à experiência. Mas qual é, no caso presente, a experiência? A experiência do tio difere da experiência do sobrinho em quê? A diferença consiste, para Hume, num facto simples. Ao contrário do sobrinho, o tio pôde observar, num grande número de casos, primeiro uma bola de borracha cair ao chão e, depois, o salto que ela dá. Na verdade, nunca na sua experiência houve um só caso em que uma bola de borracha tenha sido deixada cair numa superfície dura sem saltar, ou uma bola de borracha tenha começado a saltar sem primeiro ter caído ou ter sido atirada. Segundo Hume, há uma ‘conjunção constante’ entre a queda da bola e o salto que dá. Mas como é que essa diferença de experiências entre o tio e o sobrinho engendra conceitos como ´causa’ e ‘conexão necessária’? O tio viu uma bola de borracha cair ao chão e saltar em muitas ocasiões, enquanto o sobrinho só viu isso acontecer uma vez. Todavia, o tio não viu nada que o sobrinho não tivesse visto também, apenas teve mais vezes a mesma sequência de experiências. Ambos observam que uma bola cai e depois salta – nada mais. O tio, porém, acredita que há uma conexão necessária entre a bola cair e saltar. E isto não é alguma coisa que ele encontre na sua experiência; a sua experiência é a mesma que a do sobrinho, só que se repetiu muitas vezes. Então, donde vem a ideia de uma conexão necessária, de uma ligação causal, se nunca foi diretamente observada? A ideia de que existem conexões causais entre os acontecimentos tem um papel importante no modo como compreendemos o mundo. Mas, quando vamos atrás desta ideia com seriedade , descobrimos que a conexão causal não é uma coisa que tenhamos alguma vez observado concretamente. Podemos dizer que o acontecimento A causa o acontecimento B , mas, quando examinamos a situação, descobrimos que é o acontecimento A seguido do acontecimento B aquilo que de facto observámos. Não existe uma terceira entidade, uma ligação causal, que também seja observada. Donde vem então essa ideia?» Adapatado a partir de: Bryan Magee, Os grandes filósofos, Editorial Presença, Lisboa, 1989, pp. 141-143 1. De acordo com o texto, a relação causa efeito parece-nos uma relação necessária mas não é. Porquê? 2. O que se tenta provar com o exemplo da bola de borracha? 3. O que são conexões causais? Dê um exemplo. 4. Responda à última questão colocada pelo autor. .
  • 2. Quando por conseguinte temos alguma suspeita de que um termo filosófico é empregue sem nenhum significado ou ideia (como é muito frequente), basta-nos perguntar sobre a impressão de que a ideia supostamente deriva. E se for impossível encontrar alguma, isto servirá para confirmar a nossa suspeita. Ao clarificar assim as ideias, podemos razoavelmente esperar que possam ser removidos todos os conflitos que possam surgir sobre a sua natureza e realidade. As consequências destas linhas são estonteantes. Consideremos a ideia de um eu durável, algo de substancial que persiste por detrás das muitas mudanças que experimentamos ao vivermos a vida. Suponho, por exemplo, que esta manhã sou essencialmente o mesmo eu que era quando me fui deitar a noite passada. Não só isso, acho também que sou o mesmo eu que era na juventude que desaproveitei. Acho que serei o mesmo eu enquanto viver. Sem dúvida, algumas coisas mudaram: cresci, ganhei algumas cicatrizes, o meu cabelo está a tornar-se um pouco grisalho. Contudo, parece haver algo de essencial, o meu verdadeiro eu, que persiste em todas estas alterações acidentais. Se concordarmos com o princípio de Hume sobre a relação entre ideias e impressões, e se estivermos convencidos de que o seu método de remover ideias fictícias é o caminho certo, temos apenas que perguntar: «De que impressão é a minha ideia derivada?» Ao olhar para dentro de mim, afirma Hume, não encontro nada, excepto uma série de impressões fugazes – ódio, amor, calor, dor, imagens, sons, cheiros e coisas do género –, mas nada permanente, nada que persista em todas as alterações. Em suma, nenhuma impressão corresponde à nossa ideia de eu. A ideia presente na palavra «eu» pode juntar-se a «unicórnio»: «eu» é uma palavra que expressa uma ideia ilusória, uma ficção da imaginação. Mas as coisas tornam-se muito piores. A abordagem que Hume faz da natureza do entendimento humano começa com uma distinção entre dois tipos de «objectos da razão humana»: relações de ideias e matérias de facto. As relações de ideias podem ser descobertas apenas pela razão. Podemos saber que os solteiros são homens não casados ou que duas vezes cinco é metade de vinte pensando apenas sobre as relações entre as ideias em causa. As matérias de facto, porém, podem apenas ser descobertas pela experiência. Podemos meditar o tempo que quisermos sobre a proposição de que o sol está a brilhar, mas só saberemos se ela é verdadeira olhando pela janela. Há outra diferença entre estes dois tipos de proposição. O contrário de uma matéria de facto é possível, mas se negarmos uma relação entre ideias verdadeira, incorremos numa contradição. O sol pode não ser brilhante, mas não se pode estar mais longe da verdade do que quando alegamos que os solteiros são casados. James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006, págs. 66-68). Trad. Maria Miguel Pires (rev. científica Logosferas).
  • 3. Picasso — Aí, tens toda a razão. Mas talvez Hume seja justamente um filósofo que pensa de forma um pouco diferente. Mais do que qualquer outro, ele tem como ponto de partida o mundo quotidiano. Acho que Hume tinha um sentido muito apurado para o modo como as crianças — ou seja, os novos cidadãos do mundo — vivem a realidade.— Eu vou conter-me.— Enquanto empirista, Hume via como sua tarefa a supressão de todos os conceitos e construções especulativas pouco claros que os teus homens tinham concebido até então. Nessa altura, estava em circulação na escrita e em conversas todo o tipo de conceitos da Idade Média e dos filósofos racionalistas do século XVII. Hume queria regressar à sensibilidade humana original do mundo. Segundo ele, nenhuma filosofia pode alguma vez ignorar as experiências quotidianas ou dar-nos regras de comportamento diferentes daquelas que obtemos por meio da nossa reflexão sobre a vida quotidiana.— Até agora isso parece aliciante. Podias dar exemplos?— Na época de Hume, estava muito difundida a ideia de que existem anjos. Por anjo, entendemos uma figura humana com asas. Alguma vez viste um ser desses, Sofia? — Não.— Mas já viste uma figura humana? — Que pergunta tão boba.— E também já viste asas?— Claro, mas nunca num homem.— Segundo Hume, os “anjos” são uma ideia complexa. Esta ideia é constituída por duas experiências diferentes que não estão juntas na realidade, mas foram ligadas na fantasia humana. Por outras palavras, a ideia é falsa e deve ser rejeitada. Do mesmo modo, temos de fazer uma arrumação em todos os nossos pensamentos e ideias. Tal como Hume afirmou: “Pegando ao acaso em qualquer volume acerca de teologia ou filosofia da escola, devemos perguntar: Contém algum raciocínio abstrato acerca da grandeza ou dos números? Não. Contém algum raciocínio sobre fatos e sobre a realidade baseado na experiência? Não. Então, lançai-o à fogueira porque só contém ilusão e aparência.”— Bastante drástico. — Mas há o mundo, Sofia. Mais fresco e nítido nos seus contornos do que anteriormente. Hume queria regressar ao modo como uma criança vê o mundo — antes de ideias e reflexões ocuparem espaço na mente. Não disseste que muitos filósofos, dos quais ouviste falar, vivem no seu próprio mundo e que o mundo real te interessa mais?— Sim, mais ou menos isso. — Hume poderia ter dito exatamente o mesmo. Mas observemos mais exatamente o seu raciocínio. — Estou a ouvir.— Hume verifica em primeiro lugar que o homem possui por um lado “impressões”, e por outro “ideias”. Por impressão, ele entende a sensação imediata da realidade exterior. Por ideia ele entende a recordação dessa sensação.— Exemplos, por favor.— Se te queimas num fogão quente, tens uma impressão imediata. Mais tarde, podes recordar que te queimaste. É a isso que Hume chama ideia. A diferença é que a impressão é mais forte e viva do que a recordação posterior da impressão. Podes dizer que a impressão sensível é o original e a ideia ou recordação a cópia pálida. Porque, afinal, a impressão é a causa direta da ideia que é conservada na mente. — Até agora estou a acompanhar bem.— Mais adiante, Hume sublinha que tanto uma impressão como uma ideia podem ser ou “simples ou complexas”. Ainda te lembras que em Locke falamos de uma maçã. A experiência imediata de uma maçã é também uma impressão complexa. Assim, a ideia de uma maçã é também uma ideia complexa.— Desculpa a interrupção, mas isso é muito importante?
  • 4. — Se é! Apesar de os filósofos se terem preocupado com uma série de problemas aparentes, não podes agora desistir quando se trata de construir um raciocínio. Hume teria certamente dado razão a Descartes quanto à importância de se construir um raciocínio a partir da base.— Para Hume, a questão é que, por vezes, podemos juntar coisas sem que exista um objeto composto correspondente na realidade. Assim, surgem ideias falsas de coisas que não existem na natureza. Já mencionamos os anjos. E, antes disso, já se tinha falado de crocofantes. Um outro exemplo é o Pégaso, um cavalo com asas. Em todos estes exemplos, temos de reconhecer que a nossa mente fez uma construção no vazio. Retirou as asas de uma impressão e os cavalos de outra. Todos os elementos foram percebidos uma vez e por isso entraram no palco da mente como impressões verdadeiras. No fundo, a mente não inventou nada. A mente agarrou na tesoura e na cola e construiu ideias falsas.— Entendo. E agora também compreendo que isso pode ser importante.— Ainda bem. Hume quer examinar cada ideia e descobrir se ela é composta de um modo que não encontramos na realidade. Ele pergunta: em que impressões tem origem esta ideia? Em primeiro lugar, ele tem que determinar de que ideias simples é composto um conceito. Deste modo, obtém um método crítico para analisar as ideias humanas. E é assim que quer organizar os nossos pensamentos e ideias.— Tens um ou dois exemplos?— Na época de Hume, muitas pessoas tinham uma ideia clara do paraíso. Talvez ainda te lembres que Descartes explicara que ideias claras e evidentes em si podiam ser uma garantia deque existe uma correspondência na realidade. — Como já disse, não sou esquecida.— É-nos imediatamente claro que “paraíso” é uma ideia extremamente complexa. Vou referir apenas alguns elementos: no “paraíso” há um “portão de pérolas”, há “estradas de ouro” e “exércitos de anjos” — e assim por diante. Mas ainda não examinamos tudo nos seus elementos particulares. Porque também “portão de pérolas”, “estradas de ouro” e “exércitos de anjos” são ideias compostas. Só quando verificamos que a nossa ideia complexa de paraíso é constituída por ideias simples como “pérola”, “portão”, “estrada”, “ouro”, “figura vestida de branco” e “asa”, é que podemos perguntar se já tivemos de fato alguma vez “impressões simples ”correspondentes.— E temos. Mas depois montamos todas as impressões simples numa ilusão.— Sim, Exato, porque quando sonhamos, usamos, por assim dizer, tesoura e cola. Mas Hume sublinha que toda a matéria, a partir da qual formamos as nossas ilusões, chega à nossa mente na forma de impressões simples. Uma pessoa que nunca tenha visto ouro também não poderá imaginar nenhuma estrada de ouro. — Ele é muito esperto. E quanto a Descartes e a sua ideia clara de Deus? Jostein Gaarder, O mundo de Sofia DAVID HUME: unicórnios, eus e homens não casados
  • 5. Hume começa, tal como Locke, por considerar os conteúdos da mente, os objetos do entendimento humano ou – nas suas palavras – as perceções da mente ou materiais do pensamento. Hume divide estes conteúdos em impressões e ideias. Há uma clara distinção, já notada por Locke, entre sentir realmente dor, calor, raiva, ver uma paisagem, ouvir uma sirene ou desejar uma bebida fresca e recordar mais tarde ou imaginar estas experiências. Hume usa o termo «impressões» para indicar «as nossas perceções mais vívidas, quando ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos». As ideias têm menos força, são cópias fracas das impressões, trazidas à mente pela memória ou pela imaginação. Qual, para Hume, é a relação entre ideias e impressões? Hume afirma que «todas as nossas ideias ou perceções mais débeis são cópias das nossas impressões ou perceções mais “vividas”». Por outras palavras, as ideias derivam apenas da experiência. É claro que Hume sabe que algumas ideias – por exemplo, a minha ideia de unicórnio – não correspondem exatamente a uma impressão particular. Mas as partes que compõem a minha ideia de um unicórnio – ideias de cavalos e de chifres – são cópias de coisas que já vi no mundo. Limitei-me a combinar ideias derivadas da experiência de uma maneira nova. A ideia de Hume é que apesar de a mente parecer porventura quase ilimitada na sua capacidade de imaginar e pensar abstratamente, a matéria bruta sobre a qual ela opera é sempre extraída de impressões. É este o cerne do empirismo, e Hume oferece alguns argumentos em sua defesa. Sugere que pensemos nas nossas próprias ideias e que tentemos apontar uma que não dependa de uma impressão original. Ataca também diretamente a ideia favorita dos racionalistas – a ideia de Deus –, e mostra que podemos adquiri-la pensando nas qualidades das nossas mentes exagerando depois tanto quanto quisermos o que há nelas de bom e de sábio. Finalmente, considera os indivíduos que têm falta de uma aptidão sensorial – os cegos, por exemplo – e nota que estes não têm nenhuma ideia de cor. A explicação, argumenta, é que as ideias são cópias das impressões, e que quem nunca teve impressões relevantes não pode ter as ideias correspondentes. Há certos factos sobre impressões e ideias que nas mãos de Hume têm consequências filosóficas de longo alcance. Comparadas com as impressões, as ideias são naturalmente fracas e obscuras e é fácil cometer dois tipos de erros quando pensamos sobre elas. Em primeiro lugar, podemos confundir uma ideia com outra, podemos pensar que se justifica tirar uma certa conclusão acerca de uma ideia quando o que realmente acontece é que estamos a pensar numa ideia semelhante, mas diferente. Em segundo lugar, e pior, usamos palavras para representar ideias, e o nosso discurso pode desenrolar-se alegremente mesmo que as partes relevantes da nossa linguagem não tenham correspondência com alguma ideia fixa ou determinada. Numa disputa filosófica, quando não estamos a falar em cavalos e de chifres, mas em ideias muito complexas e abstratas, é fácil termos uma conversa em que são usadas as mesmas palavras para mencionar coisas diferentes. Podemos até discutir sobre nada. A nossa disputa poderá ser sobre ideias ilusórias, meros fantasmas sem base na experiência – o equivalente filosófico dos unicórnios. James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006, págs. 66-68). Trad. Maria Miguel Pires (rev. científica Logosferas).
  • 6. Já David Hume foi bastante crítico em relação a Descartes nesta questão (de haver um conhecimento absoluto) e avançou com a sua própria tese sobre o assunto. Diz Bertrand Russel sobre o escocês: "O que preocupa Hume é o conhecimento incerto, tal como o que é obtido de dados empíricos por inferências que não são demonstrativas. Isso inclui todo o nosso conhecimento a respeito do futuro, e a respeito de partes não observadas do passado e do presente. De facto, inclui tudo excepto, por um lado, observação directa, e, por outro, a lógica e a matemática." Em primeiro lugar, David Hume separa conhecimento de relação de ideias e conhecimento de factos ou probabilidade. Se no conhecimento as “relações de ideias são dependentes das próprias ideias”, na probabilidade existem três relações: a identidade, as situações no tempo e lugar e a causalidade. Assim, enquanto a negação do conhecimento de relação de ideias implica contradição, na probabilidade (conhecimento dos factos), a negação é igualmente uma probabilidade. Desse modo, as descobertas filosóficas devem ser caracterizadas pelo probabilismo, pois o Homem tem várias limitações temporais e perceptivas. Ou seja, todas as explicações devem ser vistas como tentativas destinadas a serem substituídas por outras, o que dá espaço à opinião e à controvérsia. David Hume rejeita “todo o tipo de ilusões metafísicas”, toda a crença em milagres. Segundo ele, os milagres violam as leis da Natureza, que se baseiam na experiência. No entanto, Hume, não é um céptico radical que negue totalmente a capacidade do sujeito para conhecer algo, o que acaba por ser uma contradição, pois ao afirmar a impossibilidade de alcançar o conhecimento, já está a concluir algo – conhecer que o conhecimento não é possível. Hume nega a existência de princípios evidentes inatos em nós. Para ele, todo o conhecimento é como que uma cópia de algo, cujo objecto já tivemos acesso de alguma maneira. Hume põe ainda o problema da causalidade em cima da mesa. Ele refuta o princípio da causalidade segundo o qual todas as acções têm uma relação causa efeito, submetendo-o a uma análise critica bastante rigorosa, baseando-se na sua teoria de conhecimento segundo a qual sem impressão sensível não há conhecimento, visto todas as ideias derivarem das sensações, à qual deve corresponder uma impressão. A partir daí, ele negou que possamos fazer qualquer ideia de causalidade pois ela é apenas resultado do nosso hábito mental, visto que na Natureza nada nos mostra que sempre que acontece alguma coisa, tem que acontecer outra. Só temos essa ideia porque nos habituamos a ver a sucessão de fenómenos um por um, o que nos induziu em erro. Por exemplo, quando está vento e uma árvore abana dizemos que esta é uma relação causa efeito, quando nada nos prova que assim é. Apenas o dizemos porque nos habituamos a ver os dois fenómenos ocorrer muitas vezes simultaneamente. A experiência até nos pode dizer que o vento pôs os galhos da árvore em movimento, mas ela nunca nos diz nada sobre
  • 7. acontecimentos futuros, com os quais ainda não tivemos qualquer contacto: única fonte de conhecimento valida. Isto porque a inferência causais estão sempre sujeitas ao erro perante novos objectos, novos sujeitos e novas situações, que podem mudar as ideias que temos em nós. Desse modo, vemos que para Hume, o conhecimento só pode corresponder a acções passadas, ou quando muito actuais e nunca futuras. Para ele, “cada caso, é um caso” e nada nos diz o que vai acontecer amanhã. Esta questão é de grande importância para David Hume, porque o racionalismo de Descartes apoia-se sobretudo nas relações causa efeito. Provando que não existem relações na Natureza e apenas fenómenos desligados uns dos outros, Hume rejeita, o inatismo cartesiano, introduzindo um dado novo nas teses empiristas afirmando que a identidade entre a ordem das coisas e das ideias é fruto dos nossos hábitos mentais ou na crença que existe uma ligação necessária entre os fenómenos. A partir daí, Hume nega as três verdades de René Descartes (o ser, Deus e o mundo). Em relação ao “eu”, que Descartes provara através da intuição, Hume não acredita que o pensamento intuitivo seja um caminho seguro para a verdade, devido à impossibilidade do Homem poder enumerar causas. Todos nós mudados em muitos aspectos à medida que os anos passam, sem que nós próprios mudemos em si mesmo. No entanto, Hume nega a distinção entre os vários aspectos de uma pessoa e o sujeito que transporta essas mesmas características. Ou seja, para o escocês, quando fazemos uma introspecção, notamos um conjunto de percepções, sentimentos, memorias e pensamento, mas nunca nos apercebemos de algo a que possamos chamar de “eu”. Ou seja, o ser humano não passa de um conjunto de “percepções transitórias” que a nada pertencem e de um composto de elementos relacionados em permanente mudança. Depois, relativamente à questão da existência de Deus, que Descartes provara baseando-se em que tudo tem uma causa, e a primeira dessas causas era Deus, Hume diz ser impossível conhecer Deus pois a provas cartesianas estão fundadas na existência de ideias inatas, originárias da razão, nas quais não acredita. Ou seja, para ele o Homem não pode conhecer algo do qual não tem uma única percepção. Por fim, Hume nega igualmente a existência do mundo exterior que para ele não passa de uma crença. E é uma crença que não podemos eliminar, mas que também não podemos provar por qualquer tipo de argumento, seja ele dedutivo ou indutivo. David Hume também refuta a ideia de um conhecimento universal, claro e distinto. Visto que dentro das limitações o nosso conhecimento é sempre incompleto, a realidade reduz-se aos fenómenos aos quais os nossos sentidos têm acesso, sendo que cada um pode ter sensações diferentes nessa experiência, abrindo-se espaço à subjectividade. in Trabalhos de Filosofia