Leon Tolstoi
Guerra e Paz
Livro I
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2a
edição
Publicações Europa-América
c Publicações Europa- América,
Tradução ...
Livro Primeiro
Primeira Parte
Nota. - Grafamos em itálico o que no texto russo está em francês.
Era costume da alta sociedade da época usar habitualment...
avós, e a que adicionavam esse sotaque protector, essas entoações suaves tão naturais a
quem envelheceu na sociedade e com...
cumpri-la-á. É a única coisa em que tenho confiança. O nosso sublime imperador tem um
grande papel a desempenhar no mundo,...
Quando Ana Pavlovna pronunciou o nome da imperatriz pintou-se-lhe no rosto,
subitamente, a dedicação e o respeito mais pro...
constrangido e acentuado que de costume, enquanto as rugas que se lhe formavam em
tomo da boca denunciavam mais claramente...
Capítulo II
O salão de Ana Pavlovna foi-se enchendo a pouco e pouco. Toda a aristocracia de
Petersburgo tinha aparecido, g...
imperfeições, o lábio curto de mais e a boca entreaberta, tinham nela um atractivo especial,
uma beleza própria. Era uma a...
um pouco maior que as outras pessoas, mas o receio que se pintara no rosto de Ana
Pavlovna podia ser antes motivado por es...
assistia na Rússia. Não ignorava que nestas salas estava reunida a fina flor da gente instruída
de Petersburgo e por isso ...
Capítulo III
A soirée de Ana Pavlovna atingia o auge. Os fusos esparsos pela sala roncavam sem
atritos e constantemente. S...
no centro do outro grupo.
A princesa Helena sorriu: levantou-se, conservando nos lábios esse sorriso imutável
de mulher im...
de lugar, e, aproximando dela um fauteil, sentou-se a seu lado.
O encantador Hipólito impressionava pela sua extraordinári...
conversa com o abade, falando muito alto, deu-se pressa em comparecer no local
ameaçado. Efectivamente. Pedro tinha-se emb...
Capítulo IV
Nessa altura um novo convidado penetrou no salão. Era o jovem príncipe André
Bolkonski, o marido da princesinh...
- Não, é impossível - respondeu André, rindo e fazendo compreender a Pedro, pela
maneira como lhe apertou a mão, que isso ...
mas não me é fácil dirigir-me assim ao imperador. Achava melhor que pedisse antes a
Rumiantsov por intermédio do príncipe ...
- Meu querido amigo, meu benfeitor! Não esperava outra coisa de si; eu bem sabia
que era bom.
O príncipe fez menção de par...
Capítulo V
- Mas que me diz dessa última comédia da sagração de Milão? - observou Ana
Pavlovna.- E a nova comédia dos povo...
- O imperador Alexandre - disse ela com aquele tom sério com que se referia sempre
à família imperial- declarou que deixar...
porque os Bourbons fugiram da Revolução abandonando o povo à anarquia; só Napoleão
soube compreender a Revolução e dominá-...
apesar dos sacrílegos argumentos de Pedro, o visconde não perdia as estribeiras, quando se
convenceu de que não era possív...
reclamara que lhe fizessem esse favor.
- Em Moscovo há uma senhora. E é muito avara. E precisava de arranjar dois lacaios ...
Capítulo VI
Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reunião, os convidados
principiaram a retirar-se.
Pedr...
murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da princesa e o do príncipe,
aguardando que os amos acabassem de fa...
Hipólito riu estrepitosamente.
- Sabe que é terrível com o seu arzinho inocente - prosseguiu o visconde. - Lamento o pobre...
encontrara na recepção.
- Basta de frioleiras - voltou André, interrompendo-o.- Falemos de coisas sérias.
Estás decidido p...
Capítulo VII
Na sala contígua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. André teve um sobressalto,
como se recuperasse os sentid...
princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita de si que ela mostrara quando, no salão de
Ana Pavlovna, conversava com...
Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma súplica e uma ameaça, e sobretudo
qualquer coisa em que se lia que ela havia de...
Capítulo VIII
Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro tinha
os olhos pousados no príncip...
havia habitualmente mais enérgico parecia nestes instantes de uma excitação quase
anormal.
- Tu não compreendes porque eu ...
Nas melhores relações, nas mais amistosas e mais simples relações, a adulação ou os
louvores são coisas indispensáveis, ta...
Capítulo IX
Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era uma
noite de Junho, uma noite típic...
entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava por uma corrente para
atemorizar os companheiros.
- Eu aposto por ...
aproximadamente vinte e cinco anos. Não usava bigode, como os outros oficiais de
infantaria daquela época, e tinha a boca,...
à última gota, de um só trago, sentado na janela, neste sítio - debruçou-se e apontou para o
parapeito inclinado no sentid...
equilíbrio. Um lacaio que se tinha posto a apanhar os pedaços de vidro da janela deteve-se,
sempre debruçado para o chão, ...
- É inútil, não desiste - disse Anatole.- Esperem aí, que eu ensino-o. Ouve lá, eu
aposto contigo, mas fica para amanhã. A...
Capítulo X
O príncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito à princesa Drubetskaia na
reunião em casa de Ana Pavlovna...
Estas mesmas palavras, com uma expressão sempre igual no rosto cheio e sorridente,
bem escanhoado, e um aperto de mão enér...
pusessem os seus agasalhos e partissem. A conversa travou-se sobre a grande novidade do
dia, a doença do velho e riquíssim...
se para ela, de maneira a que as raparigas a não ouvissem, e estas logo fingiram nada
entender. - Dizem que só tem filhos ...
Capítulo XI
Houve um momento de silêncio. A condessa olhava para a sua visita com um sorriso
amável, sem esconder, aliás, ...
Guerra e paz
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Guerra e paz

  1. 1. Leon Tolstoi Guerra e Paz Livro I
  2. 2. http://groups.google.com/group/digitalsource 2a edição Publicações Europa-América c Publicações Europa- América, Tradução de Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões Editor: Francisco Lyon de Castro Edição n.º 006112129
  3. 3. Livro Primeiro
  4. 4. Primeira Parte
  5. 5. Nota. - Grafamos em itálico o que no texto russo está em francês. Era costume da alta sociedade da época usar habitualmente a língua francesa nas conversações mundanas. Capítulo I - Pois bem, meu príncipe. Génova e Luca mais não são do que apanágios, domínios, da família Bonaparte. Não, previno-o de que, se me diz que não teremos guerra, se se permitir ainda atenuar todas as infâmias, todas as atrocidades desse - Anticristo (palavra de honra, para mim, é o que ele é), desconheço-o, deixo de considerá-lo meu amigo, meu fiel servidor, como costumo dizer. Vamos, vejamos, como está, como está? Bem veio que lhe meto medo. Sente-se e conte-me novidades. Foi com estas palavras que em Julho de 1805 a conhecida dama de honor, íntima da imperatriz Maria Fiodorovna. Ana Pavlovna Scherer, acolheu o príncipe Vassili, pessoa importante e de alta estirpe, o primeiro dos convidados a chegar à sua recepção daquela noite. Havia algum tempo já que Ana Pavlovna tossicava, estava com gripe, como ela dizia - gripe era então um novo vocábulo, que poucas pessoas ainda empregavam. Nessa mesma manhã tinha ela mandado entregar, por um lacaio de libré encarnada, a toda a gente, indistintamente, um bilhetinho redigido nestes termos: Se não tem nada melhor a fazer. Senhor Conde - ou então: meu príncipe -, e se a perspectiva de passar a noite em casa de uma pobre doente não o assusta muito, sentir-me- ei encantada de o ver em minha casa entre as 7 e as 10 horas. Annette Scherer. - Meu Deus, que violência! - retorquiu o príncipe no seu uniforme de gala, o peito coberto de condecorações, na face achatada um ar florescente, sem ligar a mínima importância a semelhante acolhimento. Exprimia-se nesse francês precioso, que falavam e em que até pensavam os nossos
  6. 6. avós, e a que adicionavam esse sotaque protector, essas entoações suaves tão naturais a quem envelheceu na sociedade e com prestígio na corte. Aproximou-se de Ana Pavlovna, beijou-lhe a mão, exibindo a calva perfumada e reluzente, e sentou-se, tranquilamente, num divã. - Antes de mais nada, diga-me, como tem passado, querida amiga? Tranquilize este seu amigo - prosseguiu ele no mesmo tom e numa voz em que, sob a cortesia e a afabilidade, transpareciam a indiferença e até mesmo urna certa mofa. - Como é que uma pessoa há-de passar bem de saúde.., quando, moralmente, não pode deixar de sofrer? Quem é que no nosso tempo há-de estar sereno, desde que seja pessoa de coração? - redarguiu Ana Pavlovna.- Vai ficar toda a noite, não é verdade? - E a festa na Embaixada de Inglaterra? É hoje quarta-feira. Não posso deixar de aparecer - disse o príncipe.- Minha filha ficou de passar por aqui para me levar. - Julguei que a festa tinha sido adiada. Confesso-lhe que todas estas festas e todos estes jogos de artifício começam a tornar-se insípidos. - Se tivessem sabido que era esse o seu desejo, teriam adiado a festa - tornou o príncipe, o qual, como um relógio certo, tinha por hábito dizer, em determinadas circunstâncias, frases que ele próprio não esperava que fossem acreditadas. - Não me atormente. Afinal, que decidiram em relação ao telegrama de Novosiltzov? O senhor costuma saber tudo. - Que lhe hei-de eu dizer? - volveu o príncipe num tom frio e enfastiado.- Que decidiram? Decidiram que Bonaparte chegou a ponto de não poder recuar e eu acho que está aqui, está a acontecer-nos o mesmo. O príncipe Vassili falava sempre com indolência, como um actor que recita um papel há muito decorado. Ana Pavlovna, pelo contrário, apesar dos seus quarenta anos, toda ela era vivacidade e expansão. Ser entusiasta era a sua função social, e até mesmo quando não era essa a sua disposição natural procurava sê-lo, para que as pessoas suas conhecidas se não sentissem desapontadas. O sorriso constrangido que lhe andava sempre no rosto, conquanto não dissesse muito bem com os seus traços já fatigados, denunciava, como acontece nas crianças mimadas, a existência de um pecadilho, pecadilho de que ela não queria, nem podia, nem mesmo julgava útil corrigir-se. No decurso da conversa sobre política. Ana Pavlovna exaltou-se. - Ah! Não me fale da Áustria! Talvez eu seja uma parva, mas estou convencida de que a Áustria não quis nem quer a guerra. Está a atraiçoar-nos. É à Rússia sozinha que compete salvar a Europa. O nosso benfeitor conhece a alta missão a que está destinado e
  7. 7. cumpri-la-á. É a única coisa em que tenho confiança. O nosso sublime imperador tem um grande papel a desempenhar no mundo, e é tão virtuoso e tão nobre que Deus não o abandonará e há-de cumprir a sua missão: esmagar a hidra da Revolução, ainda mais terrível desde que encarnou nesse assassino e nesse salteador. É a nós, e só a nós, a quem compete resgatar o sangue do justo... E pergunto-lhe eu agora: com quem poderemos nós contar? A Inglaterra, com o seu espírito comercial, não compreende nem pode compreender toda a grandeza da alma do imperador Alexandre. Recusou-se a evacuar Malta. O que ela quer é ver, procurar na nossa conduta ideias reservadas. Que é que eles disseram a Novosiltzov?... Nada. Não compreenderam, não podem compreender o desinteresse do nosso imperador, que nada quer para ele e tudo faz para bem da humanidade. E que prometeram eles? Nada. E até aquilo que prometeram acabará por não vir a realizar-se. A Prússia já declarou que Bonaparte era invencível e que a Europa inteira nada podia contra ele... E eu por mim, não acredito numa só palavra do que dizem Hardenberg ou Haugwitz. Essa famosa neutralidade prussiana não passa de uma armadilha. Só em Deus confio e no alto destino do nosso augusto imperador. Ele salvará a Europa!... De súbito calou-se, sorrindo ela mesma, antes de mais ninguém, da veemência das suas próprias palavras. - Estou persuadido - disse o príncipe com um sorriso- de que se a tivessem mandado a si, minha querida amiga, em lugar, do nosso muito querido Wintzengerode, a esta hora tínhamos tomado de assalto a adesão do rei da Prússia. Quer dar-me uma xícara de chá? - Com certeza. A propósito - acrescentou ela num tom sereno -, tenho hoje duas pessoas muito interessantes: o visconde de Mortemart; está aparentado com os Montmorency pelos Rohans, um dos mais ilustres nomes da França. É um dos nossos bons emigrados, autêntico! E também o abade Morio. Conhece este espírito profundo? Foi recebido pelo imperador. Conhece-o? - Terei um grande prazer! Diga-me uma coisa - acrescentou, negligentemente, e como se só naquele momento se tivesse lembrado disso, quando, realmente, esse era o objectivo principal da sua visita. - É verdade que a imperatriz-mãe se interessa pela nomeação do barão de Funke para o lugar de primeiro-secretário em Viena? Esse barão, ao que parece, é uma triste personagem. O príncipe Vassili pretendia ver nomeado para esse posto um filho seu, e o barão era a pessoa indicada para tal cargo pelas pessoas que procuravam ganhar a influência da imperatriz Maria Fiodorovna. - O Senhor Barão de Funke foi recomendado à imperatriz pela irmã - foi tudo quanto ela disse em resposta, secamente, e com um ar triste.
  8. 8. Quando Ana Pavlovna pronunciou o nome da imperatriz pintou-se-lhe no rosto, subitamente, a dedicação e o respeito mais profundos e sinceros, ao mesmo tempo que lhe desceu sobre a máscara aquele ar de tristeza que nunca a abandonava sempre que, no decurso de uma conversa, se falava na sua augusta protectora. E acrescentou que Sua Majestade se tinha dignado testemunhar ao barão de Funke muita estima, enquanto o olhar novamente se lhe velava de tristeza. O príncipe, como que indiferente, mantinha-se calado. Ana Pavlovna, com a sua finura especial de dama da corte e o seu tacto feminino, ao mesmo tempo- que dirigia um remoque ao príncipe por ter ousado exprimir-se tão livremente a respeito da conduta de uma pessoa recomendada à imperatriz, procurava de certo modo consolá-lo. - Mas, a propósito da sua família - disse-lhe ela -, não sei se sabe que a sua filha, desde que frequenta a sociedade, faz as delícias de toda a gente. Dizem que é linda como os deuses. O príncipe curvou-se em sinal de estima e gratidão. - Costumo dizer muitas vezes de mim para comigo - continuou Ana Pavlovna, depois de um momento de silêncio, aproximando-se do príncipe com um sorriso gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas sobre assuntos políticos e mundanos e que as confidências íntimas iam principiar -, muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo é coisa muito desigualmente repartida. Porque seria que o destino lhe deu a si, meu amigo, dois filhos tão belos, à parte o Anatole, o seu benjamim, que não me agrada por aí além - tinha lançado esta observação num tom que não admitia réplica, franzindo as sobrancelhas... -, tão encantadores? Sim, quando o senhor, na verdade, é a pessoa que menos importância liga aos filhos; não os merece. E teve um sorriso vitorioso. - Que quer? Lavater diria que eu não tenho a bossa da paternidade - respondeu o príncipe. - Deixemo-nos de brincadeiras. Quero falar-lhe a sério. Sabe? Estou descontente com o seu, filho mais novo. Aqui entre nós - e um ar de tristeza lhe perpassou pelo rosto -, falaram dele perante Sua Majestade, e lamentam-no, a si... O príncipe não respondeu, mas ela, lançando-lhe um olhar significativo, aguardava, sem dizer palavra, que ele dissesse qualquer coisa. O príncipe Vassili franziu as sobrancelhas. - Que quer que eu faça? - acabou por dizer.- Bem sabe que fiz tudo o que um pai pode fazer pela educação dos seus filhos, e o que é certo é que ambos não passam de dois imbecis. O Hipólito, pelo menos, é um imbecil sossegado, enquanto o Anatole é um imbecil turbulento. É a única diferença entre os dois - acrescentou com um sorriso mais
  9. 9. constrangido e acentuado que de costume, enquanto as rugas que se lhe formavam em tomo da boca denunciavam mais claramente do que nunca a amargura e a irritação que inopinadamente o invadiam. - Para que é que as pessoas como o senhor hão-de ter filhos? Se não fosse pai, nada teria a censurar-lhe - disse Ana Pavlovna, erguendo os olhos cismadores. - Sou o seu fiel escravo, e só a si o posso confiar. Os meus filhos são os impecilhos da minha existência. São a minha cruz, compreendo-o perfeitamente. Que quer?... Calou-se, mostrando com um gesto que se submetia ao cruel destino. Ana Pavlovna assumiu uma atitude cismadora. - Nunca se lembrou, meu caro príncipe, de casar o seu filho pródigo, o Anatole? Dizem que as solteironas têm a mania do casalhento. Não creio que eu já esteja em idade de ter fraquezas semelhantes, mas o que é certo é que conheço uma criaturinha que é muito infeliz com o pai, uma nossa parente, uma princesa Bolkonskaia. O príncipe Vassili não respondeu, embora, com o seu golpe de vista e a sua finura de homem de sociedade, desse a entender, num simples movimento de cabeça, que não esqueceria o facto. - Pois a verdade é que o Anatole me custa por ano à volta de quarenta mil rublos - disse ele, sem que, evidentemente, lhe fosse possível refrear o curso dos pensamentos. Esteve alguns instantes calado. - Que será feito dele, dentro de uns cinco anos, se as coisas continuarem da mesma maneira? Aqui tem a vantagem de se ser pai. É rica, essa sua princesa? - O pai é riquíssimo e avaro. Vive no campo. Deve ter ouvido falar nele. É um tal príncipe Bolkonski, que se reformou ainda em vida do falecido imperador e a quem chamavam o «rei da Prússia». É um homem bastante inteligente, mas com as suas manias. Não é nada cómodo. A pobre pequena é infeliz como tudo. Tem um irmão que casou há pouco com Lisa Meinen, um ajudante-de-campo de Kutuzov. Deve aparecer hoje por aí. - Ouça, querida Annette - disse o príncipe, pegando, subitamente, na mão da sua interlocutora e puxando-a a si. - Arranje-me isso e eu serei o seu muito fiel escravo para sempre: o seu «escrafo», como o meu estaroste costuma escrever nos seus relatórios: com um f. Se é de excelente família e rica, não é preciso mais nada. E com os seus gestos fáceis, familiares e graciosos que tanto o distinguiam, o príncipe inclinou-se, apertou a mão da dama de honor, beijou-a, e de novo se enterrou na sua macia poltrona, desviando a vista. - Espere - disse Ana Pavlovna, pensativa. - Ainda hoje mesmo falarei à Lisa, a mulher do jovem Bolkonski. E talvez as coisas se arranjem. Na sua família começarei a aprender para solteirona.
  10. 10. Capítulo II O salão de Ana Pavlovna foi-se enchendo a pouco e pouco. Toda a aristocracia de Petersburgo tinha aparecido, gente de idades e caracteres muito diversos, mas toda do mesmo mundo. Chegou também a filha de Vassili, a bela Helena, que vinha buscar o pai para a festa da Embaixada de Inglaterra. Exibia o seu monograma imperial e trazia um vestido de noite. E também apareceu a jovem e pequenina princesa Bolkonskaia, conhecida por a mulher mais sedutora de Petersburgo, que casara no último Inverno e ainda não aparecera na sociedade por causa do seu estado de gravidez, mas que costumava frequentar as reuniões íntimas. Por fim também surgiu o príncipe Hipólito, o filho do príncipe Vassili, na companhia de Mortemart, a quem apresentou, e em seguida o abade Morio e muitos outros. - Ainda a não viram, não a conhecem? Não conhecem minha tia? - dizia Ana Pavlovna para os seus convidados, e com a maior gravidade ia-os conduzindo um por um, à medida que chegavam, - até junto de uma minúscula senhora de idade, enfeitada de grandes fitas, que estava na sala contígua. Depois, pronunciando o nome de cada um deles, passeava, lentamente, os olhos entre os seus convidados e minha tia, e daí a pouco desaparecia. Todos eram obrigados a cumprir aquele ritual, saudando esta tia desconhecida e inútil, que a ninguém interessava. Ana Pavlovna, muito séria e solene, assistia à cerimónia dos cumprimentos, dando a sua aprovação, sem abrir a boca. Minha tia falava a toda a gente, invariavelmente, nos mesmos termos, do estado da saúde de cada um, do estado da sua própria saúde e do estado da saúde de Sua Majestade, o qual, graças a Deus, passava agora melhor. E todos, sem mostrar, por decoro, que se davam pressa, se iam despedindo da idosa senhora com a sensação de alívio que se tem depois de se cumprir uma enfadonha obrigação e, claro está, para a não tornarem a ver em toda a roda da noite. A jovem princesa Bolkonskaia tinha trazido consigo o seu bordado num pequenino saco de veludo lavrado a ouro. O seu bonito làbiozinho superior, ligeiramente sombreado por uma breve penugem, era um pouco curto, mas nem por isso parecia menos gracioso entreaberto nem era menos delicioso no momo que fazia ao apoiar-se no lábio inferior. Como em geral acontece com todas as pessoas realmente sedutoras, estas suas pequeninas
  11. 11. imperfeições, o lábio curto de mais e a boca entreaberta, tinham nela um atractivo especial, uma beleza própria. Era uma alegria para todos a presença desta futura mãe tão bonita, cheia de saúde e de vida, suportando perfeitamente os incómodos do seu estado. Os velhos e os jovens entediados e cheios de enfado imaginavam-se como ela só por terem passado alguns momentos na sua intimidade. Todos os que conversavam alguns instantes com a princesinha podiam ver como o seu luminoso sorriso cintilava após cada uma das suas palavras e como os seus dentes sempre à mostra eram de uma brancura esplendorosa, quanto bastava para que todos se sentissem naquele momento de uma particular afabilidade. E era assim a ilusão que ela criava em toda a gente. A princesinha, no seu andar ondulante, caminhando em passinhos rápidos, deu a volta à sala, o saco de trabalho na mão, e depois de imprimir um jeito gracioso à toilette veio sentar-se num divã, junto do samovar de prata, como se tudo que ela fizesse fosse uma espécie de divertimento não só para ela própria, mas também para aqueles que a cercavam. - Trouxe comigo o meu trabalho! - exclamou ela, abrindo o saquinho bordado a ouro e como se se dirigisse, a toda a gente ao mesmo tempo. - Cuidado. Annette, não me faça uma partida - prosseguiu ela, desta vez para a dona da casa. - Mandou-me dizer que era apenas uma pequena reunião; olhe como eu venho vestida. Dizendo o que estendeu os braços para melhor deixar ver o seu elegante vestido cinzento, guarnecido de rendas, com uma larga fita a servir de cinto, um pouco abaixo do seio. - Esteja descansada. Lisa, será sempre a mais bela - replicou Ana Pavlovna. - Sabe, o meu marido vai abandonar-me - prosseguiu ela no mesmo tom, dirigindo-se a um general.- Vai procurar a morte. Diga-me: para que serve esta maldita guerra? - disse ao príncipe Vassili, e, sem esperar qualquer resposta, voltou-se para a filha deste, a bela Helena. - Que pessoa deliciosa, aquela princesinha! - murmurou o príncipe Vassili, em voz baixa, para Ana Pav1ovna. Pouco depois da princesinha, entrou na sala um jovem corpulento e maciço, de cabelo rapado, lunetas, calças claras, à moda da época, um alto jabot e fraque pardacento. Este moço era filho natural de uma célebre personagem do tempo de Catarina, o conde Besukov, naquela altura moribundo em Moscovo. Ainda não tinha qualquer ocupação, acabava de chegar do estrangeiro, onde fora educado, e era a primeira vez que aparecia na sociedade. Ana Pav1ovna acolheu-o com a saudação que costumava usar para com as pessoas de mais baixa classe. No entanto, apesar deste seu acolhimento de inferior qualidade, ao vé-1o entrar deixou transparecer no rosto medo e inquietação, como quando nos vemos perante qualquer coisa de desmedido e fora do seu lugar. Pedro era, realmente,
  12. 12. um pouco maior que as outras pessoas, mas o receio que se pintara no rosto de Ana Pavlovna podia ser antes motivado por esse olhar ao mesmo tempo tímido e penetrante, observador e franco, que o distinguia de todos os demais convidados. - É muito amável da sua parte. Senhor Pedro, ter vindo visitar uma pobre doente - disse-lhe Ana Pavlovna, trocando um olhar de pânico com a tia, a quem o ia conduzindo. Pedro resmungou uma frase incompreensível enquanto com os olhos continuava à procura de qualquer coisa. Teve um sorriso jovial ao cumprimentar a princesinha, como se ela fosse um conhecimento íntimo, e aproximou-se da tia. O medo de Ana Pavlovna não era destituído de fundamento, pois a verdade é que Pedro afastou-se dessa senhora sem esperar que a tia concluísse as suas considerações acerca da saúde de Sua Majestade. Ana Pavlovna, horrorizada, deteve-o. - Não conhece o abade Morio? É uma pessoa muito interessante... - disse-lhe ela. - Sim, ouvi falar do seu plano de paz perpétua, que é aliciante. Mas será possível?... - Acha que sim?... - observou Ana Pavlovna, para dizer alguma coisa, pronta a voltar ao cumprimento dos seus deveres de dona de casa. Pedro, porém, cometeu uma segunda indelicadeza: primeiro afastara-se da sua interlocutora antes de ela ter acabado de falar; agora retinha esta, dirigindo-lhe a palavra, quando ela precisava de o deixar. De cabeça baixa e afastando as suas grandes pernas, pôs- se a demonstrar a Ana Pavlovna a razão por que considerava quimérico o plano do abade Morio. - Falaremos disso mais tarde - disse Ana Pavlovna, sorrindo. E, libertando-se daquele jovem sem hábitos de sociedade, regressou às suas ocupações de dona de casa, continuando a ouvir e a observar, pronta sempre a intervir onde a conversa esmorecesse. Tal qual como um contramestre de uma fábrica de fiação que, depois de instalar cada um dos seus operários diante do seu tear, se põe a andar de um lado para o outro, observando se os fusos param ou se estão a produzir qualquer ruído anormal, rangente ou áspero de mais, e incansavelmente os retém ou lhes imprime o andamento necessário, assim Ana Pav1ovna ia e vinha pelo salão, se aproximava dos grupos que se calavam ou falavam de mais, e com uma palavra pronunciada a tempo obrigava a máquina a comportar-se nos justos limites das conveniências mundanas. Mas todos estes múltiplos cuidados não a impediam de deixar perceber aos outros o receio especial que lhe causava o comportamento de Pedro. Ia-o seguindo atentamente com os olhos quando ele se aproximava para escutar o que se dizia ao pé de Mortemart e depois dirigia-se para o outro grupo onde pontificava o abade. Para Pedro, que tinha sido educado no estrangeiro, esta soirée em casa de Ana Pavlovna era a primeira reunião mundana a que
  13. 13. assistia na Rússia. Não ignorava que nestas salas estava reunida a fina flor da gente instruída de Petersburgo e por isso abria muito os olhos, como uma criança diante de uma loja de brinquedos. Só receava perder qualquer sábia observação que lhe fosse dado ouvir. Ao ver reunidas ali todas aquelas personagens de aspecto distinto e cheias de certezas, estava sempre à espera de qualquer coisa particularmente espiritual. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa tinha-lhe parecido interessante. Deteve-se, aguardando o momento de expor o seu ponto de vista, como costuma fazer a gente nova.
  14. 14. Capítulo III A soirée de Ana Pavlovna atingia o auge. Os fusos esparsos pela sala roncavam sem atritos e constantemente. Se se abstraísse de minha tia, junto da qual não estava senão uma senhora idosa, de rosto esquálido e como que consumido pelas lágrimas, algo deslocada no meio daquela brilhante sociedade, todos os demais convidados se haviam repartido em três grupos. Um deles, formado especialmente de homens, tinha por centro o abade; no outro, uma roda de gente nova, pontificava a princesa Bolkonskaia, toda rosada e de formas um tudo-nada amplas de mais, atendendo à sua juventude; o terceiro era dirigido por Mortemart e Ana Pavlovna. O visconde era um jovem amável, de traços finos e maneiras suaves, que a si mesmo, visivelmente, se considerava uma figura sensacional, embora, por mera boa educação, se oferecesse, modestamente, à curiosidade da sociedade em que se encontrava. Ana Pav1ovna, visivelmente também, dele tirava partido para regalo dos seus convidados. A semelhança do chefe de mesa, que gosta de apresentar, como coisa superlativamente delicada, uma posta de carne em que ninguém ousaria tocar numa cozinha sórdida, assim, na sua reunião. Ana Pavlovna ia servindo aos seus convidados, primeiro o visconde, e em seguida o abade, como se se tratasse de iguarias superlativamente requintadas. No grupo de Mortemart tinha vindo à baila, imediatamente, o assassínio do duque de Enghien. O visconde era de opinião de que o duque fora vítima da sua magnanimidade e que havia razões particulares para o ressentimento de Bonaparte. - Ah!, vejamos. Conte-nos isso, visconde - exclamou Ana Pavlovna, apercebendo-se com júbilo de que esta simples frase: Conte-nos isso, visconde, tinha um sabor a Luís XV. O visconde inclinou-se em sinal de obediência e sorriu com toda a cortesia. Ana Pavlovna fez que o grupo o rodeasse e convidou toda a gente a ouvir a sua história. - O visconde conheceu monsenhor pessoalmente - segredou ela ao ouvido de um dos convidados. - O visconde é um narrador perfeito - garantia a outro.- Vê-se logo nele o homem de sociedade - dizia a um terceiro. E o jovem foi apresentado à sociedade sob o seu ângulo mais distinto e favorável, como um rosbife, num prato bem quente, todo guarnecido de salsa. O visconde preparou-se para dar princípio à sua narrativa e sorriu com finura. - Venha cá, querida Helena - disse Ana Pavlovna à bela princesa, que estava a distância,
  15. 15. no centro do outro grupo. A princesa Helena sorriu: levantou-se, conservando nos lábios esse sorriso imutável de mulher impecavelmente bela com que entrara no salão. No ligeiro roçagar do seu vestido de baile todo branco, guarnecido de hera e musgo, no esplendor das suas brancas espáduas, no brilho da sua cabeleira e no cintilar dos seus brilhantes, avançou por entre uma ala de cavalheiros, e, empertigada, sem fitar ninguém em especial, embora sorrindo a todos, como se assim fosse dando a cada um o direito de admirar a beleza da sua cintura, dos seus ombros cheios, do seu decote muito pronunciado, conforme a moda da época, levando após si, na sua esteira, todo o esplendor da reunião, aproximou-se de Ana Pavlovna. Helena era tão bela que não traía a mais pequena sombra de coquetterie; pelo contrário, parecia ter vergonha da sua incontestável, da sua por de mais poderosa e por de mais triunfante beleza. Dir-se-ia ser seu desejo, sem o conseguir, amortecer-lhe o próprio esplendor. - Que bela mulher! - eis a frase que vinha aos lábios de toda a gente quando ela passava. Como ao peso de uma estranha impressão, o visconde curvou-se um pouco e baixou os olhos no Momento em que ela se instalava diante dele e o iluminava, a ele também, com o seu imutável sorriso. - Minha senhora, diante de um tal auditório, receio não ser capaz - disse ele, inclinando-se e sorrindo. A princesa apoiou num guéridon um dos seus braços nus, bem modelados, sem pensar que seria útil responder. Esperava, sorridente. Enquanto durou a história manteve- se com o busto erecto, contemplando, uma vez por outra, o seu lindo braço, cuja foi-ma perfeita se esmagava contra a mesa, ou o próprio colo, mais encantador ainda, sobre o qual ajeitava a gargantilha de diamantes; várias vezes procurou acertar as pregas do vestido, e, quando a narrativa produzia algum efeito, trocava um olhar com Ana Pavlovna, copiando, imediatamente, a expressão da dama de honor, para depois imobilizar, de novo, a máscara no seu resplandecente sorriso. Como Helena, a princesinha tinha também abandonado a sua mesa de chá. - Espere, vou buscar o meu bordado - disse ela. - Então, em que está a pensar? - acrescentou, dirigindo-se ao príncipe Hipólito. - Traga-me o meu saquinho. A princesa, que sorria, e dirigia a palavra a todos, produziu um certo burburinho ao sentar-se, alegremente, enquanto ajeitava as pregas do vestido. - Agora, sim! - exclamou, e, pedindo que se principiasse, pôs-se ela própria a trabalhar. O príncipe Hipólito, que veio trazer-lhe o saquinho, acompanhou-a na sua mudança
  16. 16. de lugar, e, aproximando dela um fauteil, sentou-se a seu lado. O encantador Hipólito impressionava pela sua extraordinária parecença com a irmã, tanto mais que, apesar dessa semelhança, era muitíssimo feio. Os seus traços pareciam-se, de facto, com os da irmã, mas nesta tudo resplandecia iluminado pelo seu eterno sorriso, jovem, satisfeito, pleno de vida, e 1)ela rara perfeição da sua beleza clássica; no irmão, pelo contrário, o rosto era como que entenebrecido pela falta de inteligência e por uma constante expressão a um tempo suficiente e azeda. Quanto à figura, era de corpo magro e enfesado. Tinha os olhos, o nariz, a boca continuamente contraídos numa careta indefinida e desagradável; os braços e as pernas tomavam-lhe sempre posições pouco naturais. - Não se trata de uma história de fantasmas? - murmurou ele, ao sentar-se ao lado da princesa, enquanto assestava o lorgnon, como se não pudesse dispensar esse acessório para abordar uma conversa. - Não, meu caro! - exclamou o narrador, surpreendido, encolhendo os ombros. - É que detesto as histórias de fantasmas - tornou ele, num tom de que se depreendia que ele falava e só depois de falar compreendia o que queria dizer. Tamanha era a segurança que punha nas suas palavras que ninguém poderia dizer se essas palavras eram muito sensatas ou muito estúpidas. Vestia um fraque verde-carregado, uns calções cor-de-rosa-pálidos, meias de seda e escarpins. O visconde contava com muito agrado a história, então muito divulgada, segundo a qual o duque de Enghien tinha ido secretamente a Paris encontrar-se com Mademoiselle Georges e aí se lhe deparara Bonaparte, que, por essa altura, também era íntimo da famosa actriz. Na presença do duque. Napoleão tinha tido, de súbito, um pequeno desmaio, coisa que lhe acontecia frequentes vezes, e ficara à mercê do duque, circunstância de que este não quisera tirar partido. Bonaparte, mais tarde, vingara-se desta magnanimidade do duque mandando matar o adversário. A história era muito bonita e cheia de interesse, sobretudo naquele ponto em que os dois rivais se reconheciam de repente, e as senhoras pareceram muito emocionadas com isso. - Encantador - exclamou Ana Pavlovna, lançando um olhar interrogativo à princesinha. - Encantador - murmurou a princesinha, espetando a agulha no bordado, como para mostrar que o interesse e o encanto da história a impediam de trabalhar. O visconde mostrou apreciar esta homenagem muda, e, sorrindo, grato, prosseguiu na sua narrativa; mas nesse momento Ana Pavlovna, que ainda não tinha deixado de observar o jovem que tanto a assustava, ao ver que ele punha calor demasiado na sua
  17. 17. conversa com o abade, falando muito alto, deu-se pressa em comparecer no local ameaçado. Efectivamente. Pedro tinha-se embrenhado com o abade numa conversa sobre o equilíbrio político, e este, visivelmente interessado pelo ingénuo entusiasmo do jovem, pusera-se a desenvolver perante ele as suas teorias favoritas. Ambos ouviam e respondiam com grande vivacidade e muito espontaneamente, e isso não agradava a Ana Pavlovna. - A solução é o equilíbrio europeu e o direito dos povos - dizia o abade. - É de toda a conveniência para um Estado poderoso como a Rússia, reputado bárbaro, colocar-se generosamente à frente de uma liga que tenha por objectivo o equilíbrio da Europa, e é assim que a Rússia salvará o mundo! - E como é que se obterá esse equilíbrio? - principiou Pedro. Mas neste momento Ana Pavlovna aproximou-se, e, fitando este com severidade, perguntou ao italiano como é que ele achava o clima do país. O rosto do abade mudou repentinamente, tomando aquela expressão mortificada e doce que era a sua expressão habitual quando falava com senhoras. - Tão encantado ando com a gentileza de espírito e a distinção da gente da sociedade, sobretudo do elemento feminino, em cujo meio tive a felicidade de ser recebido, que ainda não tive tempo de pensar no clima - respondeu ele. Sem abandonar o abade nem Pedro. Ana Pavlovna, para melhor os observar, arrastou-os consigo para o grupo em que estava.
  18. 18. Capítulo IV Nessa altura um novo convidado penetrou no salão. Era o jovem príncipe André Bolkonski, o marido da princesinha, um belo moço, de pequena estatura e traços acentuados e secos. Tudo nele, desde o olhar lasso e enfadado ao andar tranquilo e circunspecto, oferecia o mais violento contraste com a sua mulherzinha, a inquietação em pessoa. Conhecia tão bem por dentro e por fora a gente da sociedade, que tanto o enfadava, que bastava vê-la e ouvir-lhe o ruído das vozes para a sentir insuportável. E entre todas as pessoas que mais o exasperavam contava-se, precisamente, a sua linda mulherzinha. Com um ricto que lhe alterou os traços regulares, afastou-se dela assim que a viu. Depois, beijando a mão de Ana Pavlovna e piscando os olhos, perpassou a vista pela assistência. - Alistou-se para ir para a guerra, meu príncipe? - disse Ana Pavlovna. - O general Kutuzov - volveu Bolkonski, acentuando a última sílaba zov, como os Franceses - teve a condescendência de me chamar para ajudante-de-campo... - E Lisa, sua mulher? - Irá para o campo. - E não tem escrúpulos de nos privar da presença da sua encantadora mulher? - André - exclamou esta última, dirigindo-se ao marido com a mesma coquetterie com que se dirigia aos estranhos -, que história é essa de Mademoiselle Georges e Bonaparte que o visconde acaba de nos contar? O príncipe André franziu as sobrancelhas e desviou a cara. Pedro, que desde o momento em que André entrara no salão não mais tinha deixado de o seguir com o seu olhar alegre e amistoso, aproximou-se dele e pegou-lhe no braço. O príncipe André, sem se voltar, teve uma visagem de descontentamento para com aquele que lhe pegava no braço, mas, ao deparar-se-lhe o rosto sorridente de Pedro, um sorriso inesperado, amável e bom se lhe pintou também na figura. - Que vejo?! Também tu na alta-roda?! - exclamou. - Tinha a certeza de que o havia de encontrar aqui - retorquiu Pedro.- Queria pedir- lhe que me desse de cear - acrescentou em voz baixa, para não perturbar o visconde, que continuava a sua história - É possível?
  19. 19. - Não, é impossível - respondeu André, rindo e fazendo compreender a Pedro, pela maneira como lhe apertou a mão, que isso era coisa que nem se perguntava. Quis dizer mais, mas nessa altura o príncipe Vassili e a filha levantaram-se, e os jovens abriram alas para os deixar passar. - Desculpe, meu caro visconde - disse em francês o príncipe Vassili, segurando-o amistosamente pela manga, para que ele se não levantasse. - Esta estopada da festa em casa do embaixador priva-me do prazer de o ouvir e obriga-me a interrompê-lo. Lamento muito ter de abandonar a sua maravilhosa recepção - disse ele, dirigindo-se a Ana Pavlovna. Sua filha, a princesa Helena, soerguendo ligeiramente a cauda do vestido, passou entre uma ala de cadeiras e o sorriso ainda lhe iluminou mais o belo rosto. Pedro contemplou esta beldade, ao vê-la passar diante de si, com olhos onde havia admiração e quase receio. - É muito bela - disse o príncipe André. - É - repetiu Pedro. Ao passar, o príncipe Vassili pegou no braço de Pedro, e voltando-se para Ana Pavlovna: - Domestique-me este urso - disse. - Há um mês que o tenho em minha casa e é a primeira vez que o vejo na sociedade. Não há nada melhor para os rapazes que o convívio das mulheres inteligentes. Ana Pavlovna teve um sorriso e prometeu tomar conta de Pedro, o qual, como ela muito bem sabia, era aparentado com o príncipe Vassili pelo lado paterno. A senhora idosa que estava a fazer companhia a minha tia levantou-se, apressadamente, e correu para falar com o príncipe Vassili, que já estava no vestíbulo. Perdera por completo o falso ar de interesse mundano que aparentara até então. O seu bondoso rosto macerado pelas lágrimas só reflectia receio e inquietação. - Que me diz, príncipe, do meu Bóris?! - exclamou ela, correndo atrás dele. Pronunciava o nome Bóris acentuando particularmente o o. - Já não posso estar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que hei-de eu comunicar ao meu desventurado filho? Conquanto o príncipe Vassili estivesse a ouvi-la com desprazer e quase que impolidamente, dando a perceber, mesmo, uma certa impaciência, a senhora que o perseguia sorria-lhe com uma amabilidade enternecedora e, para o não deixar afastar-se dela, pegava-lhe, inclusivamente, num braço. - Não lhe custava nada dizer uma palavrinha ao imperador, estou convencida de que ele seria logo transferido para a Guarda - prosseguiu ela. - Esteja certa de que farei tudo o que puder, princesa - respondeu o príncipe Vassili -,
  20. 20. mas não me é fácil dirigir-me assim ao imperador. Achava melhor que pedisse antes a Rumiantsov por intermédio do príncipe Galitâne. Era bem melhor. A senhora idosa era a princesa Drubetzkaia, um dos mais ilustres nomes da aristocracia russa, mas, pobre, há muito que não frequentava a sociedade e tinha perdido as suas antigas relações. Viera àquela reunião para tentar obter a transferência do seu filho único para a Guarda. Não se apresentara na recepção de Ana Pavlovna senão para falar ao príncipe Vassili e não fora por outra razão que escutara a história do visconde. Mas as palavras do príncipe Vassili tinham-na desolado; no belo rosto pintou-se-lhe, por instantes, uma espécie de irritação, mas não por muito tempo. Logo se pôs a sorrir, e apertando muito o braço do príncipe: - Ouça, príncipe – disse -, nunca lhe pedi coisa alguma, nunca mais lhe tornarei a pedir seja o que for, nunca lhe falei na amizade de meu pai por si. Mas agora peço-lhe em nome de Deus que faça isso por meu filho e ficar-lhe-ei reconhecida até ao fim da vida - acrescentou, precipitadamente.- Não se zangue e prometa-me interessar-se. Já pedi a Galitzine, e ele não me quis atender. Seja bom menino como antigamente - e procurava sorrir, embora as lágrimas lhe boiassem nos olhos. - Pai, vamos chegar tarde! - exclamou a princesa Helena, que esperava à porta, inclinando a bela cabeça sobre o ombro de estátua antiga. A influência de que se desfruta na sociedade é um capital que convém salvaguardar para que se não dissipe. O príncipe Vassili sabia-o muitíssimo bem, e, por isso, persuadido de que, se se pusesse a interceder por toda a gente, nada mais poderia pedir para si próprio, raramente lançava mão do crédito de que dispunha. No caso da princesa Drubetzkaia, no entanto, sobretudo depois do seu último apelo, viera-lhe ao espírito uma espécie de remorso. Tinha ela evocado qualquer coisa de muito verdadeiro. Os primeiros passos na carreira devia-os ele, efectivamente, ao pai da princesa. Além disso, pela forma como ela agia, verificava estar em presença de uma dessas mulheres, ou, antes, de uma dessas mães, que, quando se lhes mete qualquer coisa na cabeça, só desistem desde que conseguem o que desejam, ou então, no caso de uma negativa, são muito capazes de teimar, dia após dia e a toda a hora, chegando inclusivamente a recorrer a cenas públicas. Foi esta última consideração que o demoveu. - Querida Ana Mikailovna - disse ele, no seu tom familiar habitual e ao mesmo tempo desprendido -, é-me quase impossível fazer o que me pede; mas, para lhe demonstrar quanto a estimo e como respeito a memória do seu falecido pai, prometo-lhe que farei tudo quanto estiver na minha mão. Dou-lhe a minha palavra de que o seu filho será transferido para a Guarda. Está contente?
  21. 21. - Meu querido amigo, meu benfeitor! Não esperava outra coisa de si; eu bem sabia que era bom. O príncipe fez menção de partir. - Espere, mais duas palavras. Uma vez na Guarda... -hesitou.- Como está em boas relações com Mikail Ilarionovitch Kutuzov, peço-lhe que lhe fale de Bóris para ajudante- de-campo; ficarei assim mais tranquila e nada mais lhe pedirei... O príncipe Vassili teve um sorriso. - Nada lhe prometo. Mal imagina os pedidos que chovem sobre Kutuzov desde que foi nomeado general-chefe. Ele próprio me disse que todas as senhoras de Moscovo tinham armado um complot para lhe oferecer os filhos como ajudantes-de-campo. - Ah!, prometa-me. Não o deixarei partir, meu querido amigo, meu benfeitor... - Pai - voltou a bela Helena, no mesmo tom -, vamos chegar tarde. - Bem, até à vista, adeus. Está a ver? - Então fala amanhã ao imperador? - Sem falta, mas no que diz respeito a Krituzov não prometo nada. - Ah!, prometa, prometa. Basile - exclamou Ana Mikailovna, perseguindo-o com um sorriso de mulher coquette, outrora natural nela, certamente, mas que então estava longe de se harmonizar com a sua máscara decrépita. Evidentemente que tinha esquecido a idade e, pela força do hábito, pusera em campo todos os seus expedientes femininos. No entanto, mal o príncipe Vassili saiu, logo ela retomou o aspecto frio e constrangido que aparentava anteriormente. Voltou ao grupo em que o visconde continuava a contar as suas histórias e fingiu que escutava, aguardando a oportunidade de se eclipsar, pois o assunto que a levara ali estava resolvido.
  22. 22. Capítulo V - Mas que me diz dessa última comédia da sagração de Milão? - observou Ana Pavlovna.- E a nova comédia dos povos de Génova e Luca, que iam apresentar as suas homenagens ao senhor Bonaparte sentado no trono e recebendo as homenagens das nações! Adoráveis! Não, mas é de endoidecer! Dir-se-ia que o mundo inteiro perdeu a cabeça! O príncipe André pôs-se a sorrir olhando nos olhos Ana Pavlovna. - É Deus quem ma dá, ai de quem lhe tocar - disse ele. Foram estas as palavras que Bonaparte proferiu na coroação. Dizem que estava muito belo quando pronunciou estas palavras - acrescentou, e repetiu a frase em italiano - Dio me l’ha data e guai a chi la tocca. - Espero, enfim - prosseguiu Ana Pavlovna - que esta seja a gota que fará transbordar o vaso. Os soberanos já não podem mais com este homem, que a todos ameaça. - Os soberanos? Não falo da Rússia - observou o visconde com o seu ar cortês e desencantado, - Os soberanos, minha senhora! Que fizeram eles por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada - continuou com animação. - E pode crer, estão a receber o castigo pela traição à causa dos Bourbons. Os soberanos? Mandam embaixadores cumprimentar o usurpador. E, suspirando, retirou-se com uma expressão desdenhosa. O príncipe Hipólito, depois de ter estado a fitar longamente o visconde com o seu lorgnon, ao ouvir estas palavras, desviou-se subitamente, voltando-se para a princesinha, e, pedindo-lhe urna das suas agulhas, pôs-se a indicar-lhe, desenhando-as em cima da mesa, as armas dos Condés! E explicava-lhas com uma tal seriedade que dir-se-ia que ela lhe pedira um tal serviço. - Bastão de goles, denteado de goles de blau, é a casa de Condé - murmurou ele. A princesa ouvia-o, sorrindo. - Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da França - prosseguiu o visconde com ar de quem não ouve o que os outros dizem e está apenas a seguir o fio das suas ideias a respeito de um assunto que conhece melhor do que ninguém -, não sei onde iremos parar. Com tantas intrigas, tantas violências, tantos exílios, tantos suplícios, não tarda que a sociedade francesa, a alta sociedade, claro está, se veja completamente aniquilada e para sempre, e então... Teve um movimento de ombros ao afastar os braços. Pedro quis dar a sua opinião, pois a conversa interessava-o, mas Ana Pavlovna que o vigiava de perto, interrompeu-o.
  23. 23. - O imperador Alexandre - disse ela com aquele tom sério com que se referia sempre à família imperial- declarou que deixaria os próprios franceses escolherem a sua forma de governo. E estou convencida de que não há dúvida de que toda a nação, uma vez liberta do jugo do usurpador, se lançará nos braços do seu soberano legítimo - acrescentou ela, para se mostrar amável para com um emigrado e um realista. - Duvido - observou o príncipe André.- O Senhor Visconde tem toda a razão ao pensar que as coisas já foram longe de mais. Creio que será muito difícil voltar ao passado. - Pelo que eu tenho ouvido dizer - interveio Pedro, corando -, quase toda a nobreza está já do lado de Bonaparte. - Isso é o que dizem os bonapartistas - observou o visconde sem olhar para Pedro. - É muito difícil, actualmente, conhecer a opinião pública em França. - Bonaparte disse-o - objectou o príncipe André, sorrindo. Via-se muito bem que o visconde lhe não agradava e que, sem olhar para ele, era ele que visava como seu adversário. - «Mostrei-lhes o caminho da glória» - acrescentou ele, depois de uma ligeira pose, citando as próprias palavras de Napoleão: «eles não o quiseram; abri-lhes as minhas antecâmaras, entraram por ali dentro aos montes».., não sei até que ponto teve o direito de o dizer. - Nenhum - replicou o visconde.- Depois do assassinato do duque, até os seus mais fiéis partidários deixaram de ver nele um herói. Se essa peste chegou a ser um herói para certa gente - acrescentou, dirigindo-se a Ana Pavlovna -, depois do assassinato do duque há mais um mártir no Céu, um herói de menos na Terra. Mal tiveram tempo. Ana Pavlovna e os outros, de aprovar estas palavras com um sorriso, e já Pedro se tinha lançado, uma vez mais, no meio da conversa. Ana Pavlovna, conquanto pressentisse que ele ia dizer coisas fora de propósito, não foi capaz de o deter. - A execução do duque de Enghien - disse o Senhor Pedro- foi uma necessidade pública; e para mim o facto de Napoleão não ter receio de assumir a responsabilidade de um tal acto só atesta precisamente a sua grandeza de alma. - Oh! Meu Deus! - murmurou Ana Pavlovna, aterrorizada. - Como. Senhor Pedro, acha que o assassinato é grandeza de alma? - disse a princesinha, sorrindo e debruçando-se sobre o seu bordado, - Ah! Oh! - exclamaram várias pessoas. - Capital! - disse em inglês o príncipe Hipólito, dando palmadas na coxa. O visconde contentou-se em encolher os ombros. Pedro olhou triunfantemente os seus interlocutores através das suas lunetas. - Eu falo assim - prosseguiu ele, pondo de lado todos os rodeios de linguagem-
  24. 24. porque os Bourbons fugiram da Revolução abandonando o povo à anarquia; só Napoleão soube compreender a Revolução e dominá-la. E aí está porque, em nome do bem-estar de todos, ele não podia deter-se perante a vida de um homem. - Não quereria sentar-se aqui a esta mesa? - interrogou Ana Pavlovna. Mas Pedro, sem lhe responder, continuou: - Sim - disse ele, cada vez mais animado - Napoleão é grande porque soube elevar-se acima da Revolução, porque sufocou os abusos a que ela tinha levado, aproveitando o que nela havia de bom, isto é, a igualdade dos cidadãos e a liberdade do pensamento e da imprensa. E não foi por outro motivo que subiu ao Poder. - Realmente - interrompeu o visconde -, se, tornando conta do Poder, ele o não tem aproveitado para cometer um crime, e confiasse o trono ao seu rei legítimo, era justo chamar-lhe um grande homem. - Napoleão nunca podia ter agido dessa maneira. O povo confiara-lhe o Poder exactamente para que ele o livrasse dos Bourbons, e por isso mesmo é que o povo viu nele o estofo de um grande homem. A Revolução foi uma grande coisa - continuou o Senhor Pedro, demonstrando, com esta audaciosa e provocante afirmação, não só a sua muita juventude, mas também o seu desejo de dizer tudo de uma vez. - A Revolução e o regicídio, grandes coisas?... Depois disso... Mas não seria melhor sentar-se aqui a esta mesa? - repetia Ana Pavlovna. - O Contrato Social - disse o visconde com um sorriso condescendente. - Eu não falo do regicídio, falo de ideias. - Sim, sim, as ideias de pilhagem, de assassínio, de regicídio - interrompeu ainda uma voz irónica. - Claro Que se praticaram excessos, mas não era isso que tinha importância; o que importava eram os direitos do homem, a abolição dos privilégios, a igualdade dos cidadãos. E estas ideias manteve-as Napoleão integralmente, - A liberdade e a igualdade - exclamou, desdenhosamente, o visconde, que parecia querer, finalmente, mostrar a sério àquele mancebo a tolice dos seus argumentos -, tudo isso são frases sonoras de há muito sem sentido. Quem é que não gosta da liberdade e da igualdade? Já o Salvador pregava a liberdade e a igualdade. Foram os homens mais felizes depois da Revolução? Pelo contrário, nós é que queríamos a liberdade, e Napoleão foi quem acabou com ela. O Príncipe André, sorrindo, ora fitava Pedro, ora o visconde, ora a dona da casa. No primeiro momento, quando Pedro pronunciou as primeiras palavras. Ana Pavlovna ficou como fulminada, não obstante todos os seus hábitos de sociedade. Mas, ao verificar que,
  25. 25. apesar dos sacrílegos argumentos de Pedro, o visconde não perdia as estribeiras, quando se convenceu de que não era possível sufocar tais palavras, ganhou ânimo e, unindo as suas forças às do visconde, caiu sobre o orador. - Mas, meu caro Senhor Pedro – exclamou -, como é que o senhor explica que esse grande homem mandasse executar o duque, um simples cidadão afinal, sem julgamento prévio e sem que ele fosse culpado? - E eu - acrescentou o visconde- atrever-me-ei a perguntar como é que o senhor explica o 18 de Brumário. Não acha que foi um logro? É um logro que não parece próprio da maneira de proceder de um grande homem. - E os deportados de África chacinados à ordem dele? É horrível! - exclamou a princesinha, fazendo um gesto de pânico. - É um plebeu, diga o senhor o que disser - corroborou o príncipe Hipólito. O Senhor Pedro não sabia a quem prestar atenção; fitava-os a todos, sorrindo. O seu sorriso não era como o das demais pessoas, à mistura com qualquer coisa de sério. Ele, pelo contrário, quando se lembrava de sorrir, perdia, de repente, toda a seriedade, e a máscara, sempre um pouco enfadonha, transfigurava-se-lhe: ficava com o seu quê de infantil, de pobre diabo, um pouco estúpido até, com o ar de quem quer pedir perdão. O visconde, que o via pela primeira vez, compreendeu imediatamente que aquele jacobino não era tão terrível nos actos como nas palavras. Todos se calaram. - Como querem que Pedro responda a toda a gente ao mesmo tempo? - interrogou o príncipe André. - Além disso, nos actos de um homem de Estado é preciso saber distinguir os que ele pratica como simples particular dos que ele pratica como chefe do exército ou como imperador. Parece-me da mais elementar justiça. - Claro, claro - interveio Pedro, satisfeito com a ajuda que recebia. - É impossível não o reconhecer - continuou o príncipe André. - Napoleão, o homem, é grande na ponte de Arcole, no hospital de Jafa, quando aperta a mão aos pestíferos, mas.., mas há outros actos seus difíceis de justificar. O príncipe André, que manifestamente pretendera atenuar o embaraço que tinham provocado as palavras de Pedro, ergueu-se para se retirar, e fez sinal à mulher. De súbito, o príncipe Hipólito, levantando-se, pediu a todos, com um gesto, que se conservassem sentados e principiou a dizer: - Contaram-me hoje uma anedota moscovita encantadora; têm de a ouvir. Queira perdoar-me, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira, perde o sal. E o príncipe Hipólito pôs-se a falar russo como o falam os franceses chegados à Rússia há menos de um ano. Todos prestaram atenção, tão viva e instantemente o príncipe
  26. 26. reclamara que lhe fizessem esse favor. - Em Moscovo há uma senhora. E é muito avara. E precisava de arranjar dois lacaios para a sua carruagem. E de grande estatura. Era assim que ela gostava. E tinha uma criada de quarto também de grande estatura. E então disse... Neste ponto, o príncipe Hipólito teve um momento de reflexão, mostrando certa dificuldade em combinar as frases. - E então disse.., sim, disse: «Menina (para a criada de quarto) enfia a libré e vem daí comigo fazer visitas.» Nesta altura o príncipe Hipólito deu uma gargalhada, rindo antes de mais ninguém, o que criou um pouco de embaraço ao narrador. Entretanto, várias pessoas, entre as quais a senhora idosa e Ana Pavlovna, sorriram. - Lá foram. De repente levantou-se um grande vendaval. A rapariga ficou sem o chapéu e a cabeleira desprendeu-se-lhe... Aqui não pôde aguentar-se mais e um grande acesso de riso o tomou, ao mesmo tempo que dizia: - E toda a gente soube... E assim terminou a anedota, ainda que ninguém pudesse compreender porque a tinha ele contado e a que propósito lhe parecera indispensável narrá-la em russo. Ana Pavlovna e os demais convivas apreciaram a cortesia mundana do príncipe Hipólito, que assim tinha posto ponto final ao penoso e pouco cortês despropósito do Senhor Pedro. A conversa dispersou-se em seguida por miúdos e insignificantes dizeres a propósito de bailes em perspectiva ou já passados, em alusões a espectáculos ou então em referências a circunstâncias ou a locais onde as pessoas poderiam vir a encontrar-se.
  27. 27. Capítulo VI Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reunião, os convidados principiaram a retirar-se. Pedro era um desajeitado. Gordo, estatura acima de mediana, largo de ombros, com enormes mãos vermelhuscas, se não sabia estar numa sala, como se costuma dizer, muito menos sabia sair dela, quer dizer, muito menos sabia pronunciar, antes de partir, as palavras atenciosas da praxe. Além disso, era distraído. Quando se levantou, em vez de pegar no chapéu que lhe pertencia, pegou num tricórnio empenachado de general e assim esteve, com ele na mão, sacudindo o penacho, até que o proprietário veio pedir-lhe que lho restituísse. É certo que estas suas distracções e o seu desconhecimento de usos e costumes da sociedade eram largamente compensados por um ar ingénuo, simples e modesto. Ana Pavlovna virou-se para onde ele estava, e cheia de indulgência cristã perdoou-lhe a intempestiva saída, dizendo-lhe, enquanto meneava a cabeça: - Espero tornar a vê-lo, mas também desejo que mude de ideias, meu caro Senhor Pedro. Pedro nada teve para responder a estas palavras, contentando-se em inclinar-se e em mostrar mais uma vez o seu sorriso, um sorriso em que se lia: «As minhas ideias são as minhas ideias, mas, no entanto, reparem como eu sou bom rapaz,» Ora era isso exactamente o que Ana Pavlovna e todos os demais estavam a dizer com os seus botões. O príncipe André saiu para o vestíbulo, e ao mesmo tempo que voltava as costas ao lacaio que lhe vestia o sobretudo ouvia, distraidamente, a frívola tagarelice da mulher com o príncipe Hipólito, que também se preparava para abalar. O príncipe Hipólito, ao lado da linda princesinha grávida, fixava-a obstinadamente com o lorgnon. - Vá-se embora. Annette, está a apanhar frio - disse ela, despedindo-se de Ana Pavlovna. - Está decidido - acrescentou em voz baixa. Ana Pavlovna já tivera tempo de dizer duas palavras a Lisa sobre o projecto de casamento entre Anatole e a cunhada da princesinha. - Conto consigo, querida amiga - respondeu Ana Pavlovna igualmente em voz baixa - , escreva-lhe e diga-me depois como encarará o pai o caso. Até à vista - e saiu do vestíbulo. O príncipe Hipólito aproximou-se da princesinha e, debruçando-se muito para ela,
  28. 28. murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da princesa e o do príncipe, aguardando que os amos acabassem de falar, ali estavam, um com um xale, o outro com um sobretudo, e ouviam-nos falar francês, língua que desconheciam, mas dando-se ares de quem compreende e o não quer dar a perceber. A princesa, como de costume, sorria enquanto falava e escutava sorrindo, - Estou radiante por não ter ido à Embaixada - dizia o príncipe Hipólito. - Que estopada... Encantadora noite, não é verdade? Um encanto. - Dizem que o baile vai ser uma beleza - retorquiu a princesa, desenhando-se-lhe um trejeito no lábio sombreado pela ligeira penugem. - Vão lá aparecer todas as nossas beldades mundanas. - Nem todas, visto que a princesa lá não estará; nem todas - disse o príncipe Hipólito com jovialidade, e, pegando no xale, que tirou das mãos do lacaio, a quem deu mesmo um encontrão, lançou-o sobre os ombros da princesa. Por falta de jeito ou de propósito, quem o poderia dizer?, quedou-se muito tempo sem baixar as mãos, embora o xale já estivesse no seu lugar. Dir-se-ia enlaçar a jovem princesa. Evitando-o graciosamente, e sem deixar de sorrir, a princesa voltou-se e olhou para o marido. O príncipe André, de olhos fechados, parecia fatigado e sonolento. - Está pronta? - perguntou ele à mulher, envolvendo-a num olhar. O príncipe Hipólito enfiou apressadamente o sobretudo, que lhe descia até aos tacões, à última moda, e, tropeçando nas pregas do casacão, deu-se pressa em seguir a princesa, escadaria abaixo, que subia para a carruagem, auxiliada pelo lacaio. - Princesa, até à vista! - gritou ele, tropeçando nas palavras como tinha tropeçado nas dobras do sobretudo. A princesa, soerguendo o vestido, entrou na obscuridade da carruagem; o marido afivelava o sabre; o príncipe Hipólito, com o pretexto de ser útil, incomodava toda a gente. - Com licença - disse em russo o príncipe André, num tom seco e pouco amável, dirigindo-se a Hipólito, que lhe vedava a passagem. - Pedro, espero-te em casa - articulou a mesma voz com um ar afável e carinhoso. O postilhão pôs a equipagem em andamento, que arrancou com fragor. O príncipe Hipólito ficara na escadaria, rindo ainda, aos sacões, enquanto esperava pelo visconde, a quem prometera reconduzir a casa. - Pois bem, meu caro, a sua princesinha é um encanto, um encanto - dizia o visconde, ao sentar-se ao lado de Hipólito.- Mas o que se chama um encanto. - E atirando um beijo com a ponta dos dedos: - E francesa até à medula.
  29. 29. Hipólito riu estrepitosamente. - Sabe que é terrível com o seu arzinho inocente - prosseguiu o visconde. - Lamento o pobre marido, esse oficialzito, que se dá ares de príncipe reinante. Hipólito continuava a rir a bom rir, e, mesmo rindo, foi dizendo: - E dizia o senhor que as damas russas não chegavam aos calcanhares das francesas. É preciso é saber tratar com elas. Pedro, que chegara primeiro, como íntimo da casa que era, entrou no gabinete do príncipe André, e mal se sentou no divã tirou da estante o primeiro livro que lhe veio à mão - calhou ser os Comentários, de César -, pondo-se a ler, ao acaso, apoiado sobre os cotovelos. - Fizeste-la bonita em casa de Mademoiselle Scherer! É certo e sabido que a pobre senhora vai cair doente - disse o príncipe André, ao entrar no gabinete, enquanto esfregava as mãos brancas. Pedro voltou-se com todo o peso do seu corpo, e de tal maneira que o divã rangeu debaixo dele. O seu rosto animado fixou-se no do seu companheiro e com um sorriso aberto fez-lhe um gesto amistoso. - Realmente, o abade é uma pessoa muito interessante, mas não compreende as coisas como elas são... Na minha opinião, a paz perpétua é possível, mas, como direi?..., não por meio do equilíbrio político... André, visivelmente, não apreciava estas discussões abstractas. - Ah, não, meu caro, não podemos dizer em toda a parte o que pensamos. Ora conta- me lá, já te resolveste, finalmente, a fazer qualquer coisa? Que queres tu ser, cavaleiro da Guarda ou diplomata? - perguntou o príncipe André, depois de alguns instantes de silêncio. Pedro voltou a sentar-se no divã, encolhendo as pernas debaixo de si. - Veja lá, não sei, realmente. Nem uma nem outra dessas situações se me dá com o feitio. - No entanto, precisas de tomar uma resolução. Teu pai está à espera que te decidas. Pedro fora enviado para o estrangeiro, aos dez anos, na companhia de um padre, seu preceptor. E por lã ficara até aos vinte. Quando voltou para Moscovo, o pai despediu o padre e disse ao jovem: «Agora vai até Petersburgo, observa e escolhe. Estou de acordo desde já com o que tu decidires. Aqui tens uma carta para o príncipe Vassili e dinheiro. Vai- me dando notícias, e conta comigo.» Havia já três meses que Pedro procurava decidir-se por uma carreira e não chegava a conclusão alguma. Era a tal escolha que o príncipe André aludia. Pedro passou a mão pela testa. - Estou convencido de que o homem é mação - murmurou, pensando no abade que
  30. 30. encontrara na recepção. - Basta de frioleiras - voltou André, interrompendo-o.- Falemos de coisas sérias. Estás decidido pela Guarda montada?... - Não, mas vou dizer-lhe urna coisa que me veio a cabeça. Estamos actualmente em guerra com Napoleão. Se se tratasse, de uma guerra de libertação, então, sim, compreendia, seria mesmo o primeiro a alistar-me. Mas ajudar a 1nglaterra e a Áustria contra o maior homem que há no mundo.., não está certo. O príncipe André contentou-se, em encolher os ombros perante as infantis considerações de Pedro. O seu ar queria dizer que nada tinha a replicar a uma tal patetice; e, com efeito, seria difícil responder de outra maneira a uma tal ingenuidade. - Se as pessoas fossem para a guerra só por convicção, não haveria guerra - disse ele. - E era isso que convinha - respondeu Pedro. O Príncipe André sorriu. - É muito possível, mas aí está uma coisa que nunca acontecerá. - E então por que diabo é que o André vai para a guerra? perguntou Pedro, - Porquê? Não sei. É assim. Além disso, eu vou... - Calou-se.- Eu vou porque esta vida que levo aqui, esta vida não me- convém.
  31. 31. Capítulo VII Na sala contígua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. André teve um sobressalto, como se recuperasse os sentidos, e a sua máscara tomou a expressão com que se exibira nos salões de Ana Pavlovna. Pedro tirou os pés de cima do divã. A princesa entrou. Tinha outro vestido, um vestido íntimo, mas nem por isso menos fresco e elegante. O príncipe André levantou-se e ofereceu-lhe, cortesmente, uma cadeira, - Uma coisa eu nunca deixo de perguntar a mim mesma - disse ela, como sempre, em francês, sentando-se com prontidão - porque é que a Annette se não teria casado? Que tolos vocês foram, senhores, não casando com ela! Desculpem, mas vocês não percebem nado de saias. Muito gosta de discutir. Senhor Pedro... - Precisamente, não faço outra coisa senão discutir com o seu marido. Não compreendo porque é que ele quer ir para a guerra - disse Pedro, dirigindo-se à princesa sem o mais pequeno acanhamento, coisa, aliás, perfeitamente natural, tratando-se de um rapaz e de uma senhora jovem. A princesa estremeceu. Evidentemente que as palavras de Pedro a tinham atingido no ponto sensível. - É o que eu lhe estou sempre a dizer! - redarguiu ela. Não compreendo, decididamente não compreendo como é que os homens não podem passar sem a guerra! E que nós, mulheres, não possamos fazer nada, não tenhamos voz nesse capítulo! Ora, ouça, faça de conta que é um juiz. Passo a vida a dizer-lhe a mesma coisa. O André é ajudante- de-campo do tio, tem aqui uma brilhante situação. Toda a gente o conhece, toda a gente o aprecia. No outro dia, em casa dos Apraxine, ouvi uma senhora perguntar: «Este é que é o famoso príncipe André? Palavra!» - Ele pôs-se a rir. - É assim que o recebem em toda a parte. Tinha toda a facilidade em vir a ser ajudante-de-campo do imperador. Sabe que o imperador lhe dirigiu graciosamente a palavra? A Annette e eu estamos convencidas de que era tão fácil! Que acha? Pedro olhou para o príncipe André, e, vendo que a conversa não agradava ao amigo, nada respondeu. - Quando parte? - interrogou ele. - Ah! Não me fale dessa partida, não me fale. Não quero ouvir falar nisso! - exclamou a
  32. 32. princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita de si que ela mostrara quando, no salão de Ana Pavlovna, conversava com Hipólito, mas que naquele ambiente de intimidade familiar em que Pedro era recebido não caía nada bem. - Actualmente, quando me lembro de que temos de interromper todas as nossas queridas relações... E, além disso, não sei, sabes. André? - Teve para o marido um ligeiro piscar de olhos. - Tenho medo, tenho medo! - acrescentou muito baixo, estremecendo. O marido olhou para ela com o ar surpreendido que teria se estivesse mais alguém presente que não fosse Pedro e ele próprio. André. Depois, com uma fria polidez, disse: - Que receias. Lisa? Não compreendo... - Ora aqui está o egoísmo dos homens! Não há um que se salve: são todos, todos egoístas, para satisfazerem os seus caprichos! Só Deus sabe porque é que ele me vai deixar enclausurada no campo. - Com meu pai e minha irmã, não te esqueças - articulou, tranquilamente, o príncipe André. - Nem por isso estarei menos só, sem as minhas amigas... E ainda ele quer que eu não tenha medo. Tinha adoptado um tom de amuo e fazia um trejeito que lhe dava um ar já não alegre, mas quase animal, um ar de um pequenino esquilo. Calou-se, pensando não ser conveniente falar diante de Pedro do seu estado, no fundo a causa de tudo. - Continuo a não compreender de que é que tens medo - disse, lentamente, o príncipe André, sem deixar de a fitar. A princesa corou e fez um gesto impetuoso. - Não. André, eu acho é que mudou tanto, tanto... - O teu médico aconselhou-te a que te deitasses cedo - disse o príncipe André. - Era melhor que te retirasses. A princesa nada disse, mas, de súbito, o seu lábio, sombreado por uma penugem ligeira, pôs-se a tremer; André levantou-se, encolhendo os ombros, e começou a andar de um lado para o outro. Pedro, com um ar espantado e ingénuo, olhava por detrás das lunetas ora um ora outro, e agitava-se, como se ele também quisesse levantar-se, mas continuava indeciso. - Quero lá saber que esteja aqui o Senhor Pedro - disse, abruptamente, a princesinha, e pelo seu delicado rosto perpassou, de súbito, um ricto como de quem vai chorar.- Há muito tempo que eu te queria dizer. André. Porque é que mudaste tanto para comigo? Que te fiz eu? Vais para a guerra e não tens pena de mim. Porquê? - Lisa! - foi tudo quanto disse André.
  33. 33. Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma súplica e uma ameaça, e sobretudo qualquer coisa em que se lia que ela havia de arrepender-se de ter proferido aquelas palavras. Precipitadamente, ela continuou: - Tratas-me como uma doente ou como uma criança. Eu bem vejo. Achas que eras assim há seis meses? - Lisa, peço-te que te cales - disse André numa voz cortante. Pedro, cada vez mais perturbado com aquela troca de palavras, levantou-se e aproximou-se da princesa. Dir-se-ia não poder suportar a vista das lágrimas e ele próprio estava quase a chorar. - Sossegue, princesa. É o que lhe parece; porque eu próprio tive a mesma impressão.., porque... é que... Ah!, desculpe-me, sinto que estou aqui a mais... Ah!, sossegue... Adeus... O príncipe André segurou-o por um braço. - Um momento. Pedro. A princesa é tão boa que não quererá privar-me do prazer de passar a noite contigo. - Vê, vê, não pensas senão nele! - exclamou a princesa, sem poder reter as lágrimas, onde havia revolta. - Lisa - disse o príncipe secamente, erguendo o tom da voz a uma altura tal que significava ter perdido por completo a paciência. Subitamente, o arzinho de esquilo furioso que se pintara no rosto da princesa converteu-se num medo impressionante, digno de piedade. Lançou, furtivamente, com os seus belos olhos um rápido olhar ao marido e teve essa expressão tímida e submissa de um cão batido que foge com a cauda entre as pernas. - Meu Deus, meu Deus! - murmurou, pegando na cauda do vestido, e, aproximando-se do marido, beijou-o na testa. - Boa noite. Lisa - disse o príncipe André erguendo-se e beijando-lhe a mão com cortesia, como se fosse uma estranha.
  34. 34. Capítulo VIII Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro tinha os olhos pousados no príncipe André, que passava a fina mão pela testa. - Vamos cear - disse ele, suspirando. Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Entraram na sala de jantar, elegantíssima, recém-arranjada e ricamente posta. Tudo, desde os guardanapos às pratas, à baixela e aos cristais, tinha esse aspecto novo característico das casas dos recém-casados. No meio do repasto o príncipe André apertou a cabeça entre as mãos, e, como alguém muito preocupado que finalmente resolve abrir-se, principiou a dizer, com um nervosismo que Pedro lhe não conhecia. - Não, te cases nunca, nunca, meu amigo; é o conselho que te dou. Não te cases antes de estares convencido de que fizeste tudo de que eras capaz, antes de teres deixado de amar a mulher que escolheste, antes de a teres visto bem; sem isso, enganar-te-ás cruelmente e sem remissão. Casa-te quando fores velho e já não prestares para coisa alguma... Se o não fizeres, perder-se-á tudo quanto houver em ti de bom e de grande. Tudo irá por água abaixo. Sim, sim, sim! Não me olhes com essa cara de espanto. Se estás convencido de que serás capaz de fazer alguma coisa no futuro, verificarás que tudo acabou para ti, que tudo te está vedado, salvo o salão onde virás a encontrar-te ao nível de qualquer lacaio ou de qualquer imbecil... E aqui tens! Teve um gesto enérgico. Pedro tirou as lunetas, ficando com outra cara, ainda mais bondosa, e fitou o amigo com espanto. - A minha mulher - continuou o príncipe André- é uma excelente senhora. É uma dessas raras pessoas que não fazem perigar a nossa honra. Mas. Deus meu, o que daria eu para me não ter casado! És tu a primeira e a única pessoa a quem o digo, porque sou teu amigo. Enquanto falava, o príncipe André cada vez se parecia menos com esse Bolkonski enterrado numa cadeira em casa de Ana Pavlovna deixando passar por entre dentes, de olhos piscos, frases francesas. Todos os músculos da sua seca máscara estavam agitados por movimentos nervosos; os seus olhos, em que o fogo da vida, até então, parecia extinto, brilhavam agora com um fulgor luminoso e claro. Dir-se-ia que quanto menos vida nele
  35. 35. havia habitualmente mais enérgico parecia nestes instantes de uma excitação quase anormal. - Tu não compreendes porque eu falo assim. No entanto estás diante da história de toda uma existência. Tu dizes Bonaparte e a sua carreira - continuou ele, embora Pedro nada tivesse dito acerca de Bonaparte. - Dizes: Bonaparte. Mas Bonaparte, quando trabalhava, quando caminhava, passo a passo, para o seu fim era livre, não tinha mais nada em vista senão esse objectivo, e atingiu-o. Porém, se tu te ligares a uma mulher, como um forçado com uma braga aos pés, perderás toda a liberdade. E tudo quanto em ti possa haver de esperança e de energia tornar-se-á um peso morto, que te oprimirá de desgosto. Os salões, a má-língua, os bailes, a vaidade, as futilidades, eis daí por diante o círculo vicioso de que é impossível uma pessoa evadir-se. Vou partir para a guerra, para a maior das guerras, e não sei nada, e não presto para nada. Sou muito amável e muito cáustico e as pessoas ouvem-me quando eu falo em casa de Ana Pavlovna. E aí tens essa estúpida sociedade mundana sem a qual não podem passar nem a minha mulher nem essas mulheres... Se tu ao menos pudesses fazer uma ideia do que são todas as mulheres distintas e todas as mulheres em geral. Meu pai tem razão. O egoísmo, a vaidade, a tolice, a nulidade em tudo, aí tens a mulher quando se mostra tal qual é. Quando a gente a vê na sociedade, julga que vale alguma coisa, e não vale nada, nada, nada! É o que te digo: não te cases, meu caro, não te cases - concluiu. - Que vontade de rir que isto me dá - disse Pedro. - Pois é o André, o André, precisamente, que se considera a si próprio um incapaz, que considera falhada a sua vida? O André que tem o futuro diante de si, todo um futuro? O André... «De que não será capaz?», pensou, mas o tom da sua voz denunciava claramente a alta estima em que ele tinha o amigo e o que esperava dele para mais tarde. «Como pode ele falar assim!», dizia Pedro de si para consigo. E efectivamente Pedro via no príncipe André como que um modelo de todas as perfeições, precisamente porque ele era dotado no mais alto grau das qualidades que ele próprio não tinha, essas qualidades que mais do que quaisquer outras exigem força de vontade. Sempre lhe causara admiração a serenidade que o príncipe André sabia manter nas relações com as pessoas mais diversas e a sua memória extraordinária, as suas vastas leituras - tinha lido tudo, sabia tudo, compreendia tudo - e sobretudo a sua capacidade de trabalho e de assimilação. E, se é verdade que frequentes vezes o impressionava, a ele. Pedro, a pouca tendência que o príncipe André manifestava pela reflexão e pela filosofia, coisas para que Pedro sentia mais inclinação, estava longe de pensar que isso constituísse um defeito; pensava até que representava uma força.
  36. 36. Nas melhores relações, nas mais amistosas e mais simples relações, a adulação ou os louvores são coisas indispensáveis, tal qual como o azeite é indispensável nas rodas dos carros. - Sou um homem liquidado - murmurou o príncipe André. Para que havemos nós de perder tempo a falar de mim? Falemos antes de ti - acrescentou depois de um curto silêncio e sor- rindo, como se regressasse, finalmente, a um assunto mais consolador. Nessa altura um sorriso apareceu nos lábios de Pedro. - E para que havemos nós de falar de mim? - disse abandonando-se a uma despreocupada alegria.- Que sou eu, no fim de contas? Sou um bastardo! - E, subitamente, corou até às orelhas. Via-se bem que fizera um grande esforço para pronunciar estas palavras.- Sem nome, sem fortuna... E, de resto, para falar francamente... - Quereria ter dito tanto melhor, mas não concluiu a frase. - Enquanto espero, sou livre, estou satisfeito com a minha sorte. Mas o certo é que não sei o que hei-de fazer. Seriamente, queria pedir-lhe que me aconselhasse. O príncipe André olhou-o com bondade, mas, apesar disso, no seu olhar amável e amistoso sentia-se-lhe a superioridade. - Gosto de ti, sobretudo porque és tu, entre toda a gente das nossas relações, o único ser vivo. Dizes que estás satisfeito. Escolhe o que quiseres, é indiferente. Em toda a parte serás feliz. Só te peço uma coisa: deixa de conviver com esses Kuraguine, deixa a vida que levas. Isso não te convém: toda essa devassidão, esse convívio com hússares, tudo que... - Que quer, meu caro? - disse Pedro encolhendo os ombros. - As mulheres, meu caro, as mulheres! - Não compreendo - retorquiu André. - As verdadeiras senhoras, sim, essas são outra coisa, mas as mulheres de Kuraguine, as mulheres e o vinho, confesso-te que não compreendo! Pedro vivia em casa do príncipe Vassili Kuraguine e acompanhava nas suas orgias o filho deste. Anatole, esse mesmo Anatole que queriam casar, para o corrigir, com a irmã do príncipe André. - Quer saber? - disse Pedro, como se acabasse de ter uma feliz ideia. - Seriamente, há muito tempo que penso nisto. Com a vida que levo, nem posso decidir-me por coisa alguma, nem reflectir seja sobre o que for. Só dores de cabeça e o nosso dinheiro perdido. O Anatole convidou-me para esta noite, mas não vou. - Dás-me a tua palavra de honra? - Palavra de honra!
  37. 37. Capítulo IX Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era uma noite de Junho, uma noite típica de Petersburgo, sem obscuridade. Meteu-se numa carruagem de aluguer, decidido a voltar para casa. Mas à medida que se aproximava, ia sentindo que lhe não era possível dormir numa noite daquelas, que mais parecia um crepúsculo ou uma aurora. A vista perdia-se ao longe pelas ruas desertas. No caminho. Pedro lembrou-se de que em casa de Anatole Kuraguine deviam estar reunidos os convivas habituais, os jogadores, que depois do jogo se entregavam, normalmente, ao prazer da bebida, um dos seus divertimentos favoritos. «Se eu fosse a casa de Kuraguine?», disse ele para consigo mesmo. De súbito, porém, lembrou-se de que tinha dado a palavra de honra a André. Mas, de repente também, coisa natural nas pessoas que é de uso considerar-se sem carácter, sentiu um tão intenso desejo de voltar uma vez ainda a gozar aquela louca vida, que ele tão bem conhecia, que se decidiu. E então veio-lhe à mente que o compromisso tomado não valia nada, visto que antes de o ter assumido para com o príncipe André tinha prometido ao Anatole que iria a casa dele; e depois, em conclusão, dizia de si para consigo: «Todas estas palavras de honra são coisas convencionais, sem qualquer fundamento sério, sobretudo quando uma pessoa pensa que amanhã pode estar morta ou em circunstâncias tais que as palavras de honra e desonra não tenham o mais pequeno significado.» Pedro costumava fazer muitas vezes raciocínios deste gosto, que tornavam nulos todos os seus projectos e todas as suas resoluções. E dirigiu-se para casa de Kuraguine. Quando chegou à escadaria da vasta mole formada pelas casernas da Guarda montada, onde Anatole vivia, subiu os degraus iluminados e deparou-se-lhe a porta aberta. Não havia ninguém no vestíbulo; por um lado e pelo outro só se viam garrafas vazias, sobretudos, galochas; cheirava a vinho. Ouviam-se ruídos de vozes e gritos distantes. O jogo e a ceia tinham acabado, mas os convivas ainda se não haviam dispersado. Pedro despiu o sobretudo e entrou na primeira dependência, em que se viam ainda os restos do festim e onde um lacaio, julgando-se só, bebia, às escondidas, os restos de vinho dos copos. Da sala contígua saía um alarido: risos, gritos de pessoas conhecidas e grunhidos de ursos. Oito rapazes comprimiam-se, muito excitados, junto da janela aberta. Três outros
  38. 38. entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava por uma corrente para atemorizar os companheiros. - Eu aposto por Stevens cem rublos! - gritou uma voz. - Que ideia essa de apostar por ele! - exclamou um terceiro.- Kuraguine, sê tu o árbitro. - Está bem, então deixem o Michka (Nome familiar do urso na Rússia. (N, dos T.); vamos lá fazer a aposta. - De um só trago, ou então perde! - gritou uma quarta voz. - Iakov, traz uma garrafa. Iakov! - clamou o dono da casa, um rapagão magnífico, que estava no meio de todos os outros, envergando apenas uma ligeira blusa toda aberta no peito - Um momento, meus amigos! Eh! Até que enfim. Petrucha, meu caro! - exclamou dirigindo-se a Pedro. Uma outra voz, a de um homem de pequena estatura, de olhos azuis-claros, que contrastava pelos seus modos cordatos no meio de todas aquelas vozes avinhadas, gritou da janela: - Vamos, serve de árbitro na aposta! - Era Dolokov, um oficial do regimento Seminovski, famoso jogador e não menos famoso espadachim, que compartilhava dos aposentos de Anatole. Pedro sorria, lançando um olhar alegre a toda a companhia. - Não há maneira de ninguém se entender. De que se trata? - Esperem, ele não está bêbado. Venha de lá uma garrafa - disse Anatole, e, pegando num copo de cima da mesa, deu dois passos para Pedro. - Antes de mais nada, bebe, Pedro pôs-se a beber copo sobre copo, olhando de soslaio para toda aquela gente embriagada que se tinha juntado ao pé da janela e escutava o que se dizia. Anatole deitava- lhe vinho no copo e contava que Dolokov apostara com o inglês Stevens, oficial de marinha ali presente, que ele. Dolokov, seria capaz de beber uma garrafa de rum sentado na janela do segundo andar com as pernas dependuradas para a parte de fora. - Então, despeja-me lá essa garrafa! - exclamou Anatole, apresentando a Pedro o último copo.- Enquanto o não beberes, não te largo. - Não, já basta - tornou Pedro recusando, ao mesmo tempo que se aproximava da janela. Dolokov segurava o inglês por uma mão e explicava claramente, com precisão, as condições da aposta, dirigindo-se de preferência a Anatole e a Pedro. Dolokov era de estatura meã, frisado, com olhos azuis-claros. Tinha
  39. 39. aproximadamente vinte e cinco anos. Não usava bigode, como os outros oficiais de infantaria daquela época, e tinha a boca, o traço mais característico da sua figura, completamente descoberta. Era uma boca com um desenho extraordinariamente fino. O lábio superior descia sobre o forte lábio inferior formando dois ângulos agudos, em cujos cantos se via sempre esboçado uma espécie de duplo sorriso, um sorriso de cada lado. No seu conjunto, sobretudo com os seus olhos decididos, impudentes e inteligentes, dava uma impressão que obrigava as pessoas a fitá-lo. Dolokov não era rico nem tinha qualquer parente. E, conquanto Anatole gastasse dezenas de milhares de rublos. Dolokov compartilhava das suas instalações e sabia arranjar as coisas de tal maneira que o próprio Anatole e todos os seus conhecidos o estimavam mais que ao próprio dono da casa. Sabia todos os jogos e ganhava quase sempre. Por mais que bebesse, tinha sempre a cabeça no seu lugar. Kuraguine e Dolokov eram naquela época, tanto um como o outro, verdadeiras celebridades no mundo das cabeças loucas e dos boémios de Petersburgo. Trouxeram a garrafa de rum. Dois lacaios, azafamados e visivelmente estupefactos, desnorteados no meio dos gritos e das ordens que lhes davam, procuravam demolir o caixilho que impedia que uma pessoa se sentasse sobre o parapeito exterior da janela. Anatole aproximou-se com ares vitoriosos. Tinha necessidade de quebrar fosse o que fosse. Afastou os lacaios e pôs-se a puxar pelo caixilho, o qual não cedeu. Quebrou um vidro. - Experimenta tu, valentão - exclamou dirigindo-se a Pedro. Pedro agarrou-se à couceira, puxou e arrancou com fragor o enquadramento de castanho. - Tudo fora, senão depois são capazes de dizer que eu me agarrei a alguma coisa - intimou Dolokov. - O inglês perdeu a cabeça... Eh! Não é verdade? - inquiriu Anatole. - Com certeza - disse Pedro olhando para Dolokov, que, com a garrafa na mão, se aproximava da janela, através da qual se via o céu claro e a aurora, que se confundia com o crepúsculo. Dolokov, sempre com a garrafa na mão, saltou para cima da janela. - Ouçam! - gritou de pé sobre o parapeito, voltado para a assistência. Todos se calaram. - Aposto - falava em francês para que o inglês o compreendesse, embora este não fosse um portento nessa língua -, aposto cinquenta imperiais; quer apostar cem? - acrescentou, para o inglês. - Não, cinquenta - retorquiu este. - Bom, aposto cinquenta imperiais em como sou capaz de beber a garrafa de rum até
  40. 40. à última gota, de um só trago, sentado na janela, neste sítio - debruçou-se e apontou para o parapeito inclinado no sentido da rua- e sem me segurar a coisa alguma... Está, apostado? - Perfeitamente - volveu o inglês. Anatole voltou-se para este, e, segurando-o por um botão da farda, olhou-o de cima, pois o outro era de pequena estatura, e pôs-se a repetir-lhe em inglês as condições da aposta. - Atenção! - gritou Dolokov, batendo com a garrafa na janela, para que o ouvissem- Um momento. Kuraguine. Ouçam. Se houver alguém capaz de fazer o mesmo, dou-lhe cem imperiais. Estão a compreender? O inglês disse «sim» com a cabeça, sem com isso querer dizer que tinha intenção de aceitar a nova aposta. Anatole não o largava, e, embora ele tivesse dado a entender que compreendera, traduzia-lhe para inglês as palavras de Dolokov. Um rapazola escanzinado, um hússar da Guarda, que toda a noite estivera a perder ao jogo, trepou à janela, debruçou- se e olhou lá para baixo. - Ui! Ui! Ui! exclamou, apontando as pedras da calçada. - Fora daí! - gritou Dolokov, obrigando a descer da janela o oficial, que, embaraçado nas esporas, tropeçou. Depois de ter colocado a garrafa no parapeito da janela, para assim a ter à mão. Dolokov, com prudência e serenidade içou-se para o rebordo do janelão. Depois de ter passado as pernas por cima, do alizar e de haver avançado, com o auxílio das mãos, até ao extremo do parapeito, escolheu o lugar, sentou-se, deixou pender as pernas, deslocou-se para a direita e para a esquerda e pegou na garrafa. Anatole trouxe duas velas e pousou-as sobre o parapeito, embora já fizesse dia claro. O dorso de Dolokov, de camisa branca, a cabeça anelada, recebia luz dos dois lados. Toda a gente se tinha juntado em volta da janela. O inglês estava na primeira fila. Pedro sorria sem dizer nada. Um dos presentes, mais velho do que os outros, furioso e apavorado, arremeteu, de súbito, para a janela e quis agarrar Dolokov pela camisa. - Meus senhores, isto é uma loucura; o rapaz vai matar-se! - exclamou esta criatura, mais razoável que as restantes. Anatole deteve-o. - Não lhe toques; se o assustas, ele mata-se. Hem!... E nesse caso?... Hem! Dolokov voltou-se, compôs-se e colocou-se em posição com o auxílio das mãos. - Se mais alguém mete o bedelho na minha vida - disse, deixando cair as palavras dos lábios finos e cerrados -, obrigo-o a descer imediatamente por aqui. Está combinado?... Ao dizer «Está combinado?», voltou-se ainda, soltou as mãos, pegou na garrafa e levou-a à boca, atirando a cabeça para trás e erguendo no ar a mão livre para estabelecer o
  41. 41. equilíbrio. Um lacaio que se tinha posto a apanhar os pedaços de vidro da janela deteve-se, sempre debruçado para o chão, sem perder de vista a janela e as costas de Dolokov. Anatole conservava-se direito, de olhos arregalados. O inglês, mordendo os lábios, desviava os olhos. Aquele que tentara intervir tinha-se afastado para um canto e estiraçara-se num divã com a cara para a parede. Pedro tapou a cara e um ligeiro sorriso parecia errar-lhe na máscara, onde se estampavam agora susto e terror. Todos se calavam. Pedro tirou a mão dos olhos. Dolokov mantinha-se na mesma posição, mas com a cabeça de tal modo caída para trás que os cabelos anelados, pela retaguarda, afloravam-lhe o colarinho, e a mão com que segurava a garrafa cada vez se erguia mais, animada por um certo tremor, e como se fizesse esforço. A garrafa, que se esvaziava a olhos vistos, elevava-se ao mesmo tempo no ar, obrigando a cabeça a descair para trás. «Que tempo que isto leva!», murmurou Pedro consigo mesmo. Afigurava-se-lhe haver decorrido mais de meia hora. Subitamente Dolokov teve um movimento de espinha para a retaguarda e a mão foi-lhe sacudida por um tremor nervoso, quanto bastou para fazer avançar o corpo sentado no parapeito resvaladiço. Todo ele se deslocou, e as mãos e a cabeça, com o esforço, estremeceram-lhe ainda mais. Uma das mãos ergueu-se para se agarrar ao alizar da janela, mas logo descaiu. Pedro voltou a fechar os olhos e prometeu não tornar a abri-los. Subitamente percebeu que tinha havido um movimento na assistência. Abriu os olhos: Dolokov estava de pé sobre o parapeito, o rosto pálido e alegre. - Vazia! Atirou com a garrafa ao inglês, que a agarrou no ar. Deu um pulo da janela. Todo ele cheirava a rum. - Muito bem! Que valentão! Bela aposta, cos diabos! - dizia-se por todos os lados. O inglês tinha puxado da bolsa e contava o dinheiro. Dolokov franzia as sobrancelhas sem dizer palavra. Pedro precipitou-se para a janela. - Meus senhores. Quem é que quer apostar comigo? Estou pronto a fazer o mesmo! - gritou ele, de chofre.- De resto, dispenso as apostas. Venha de lá uma garrafa. Exactamente!... Uma garrafa. - Isso mesmo! Isso mesmo! - exclamou Dolokov, rindo. - Que mosca é que te mordeu? Estás maluco? Quem é que vai consentir nisso? Até a subir uma escada tens vertigens - dizia-se por aqui e por ali. - Vão ver como eu a bebo. Deixem-me ver uma garrafa! gritava Pedro, batendo no tampo duma mesa, com uma teimosia de bêbado. E trepou para cima da janela. Agarraram-no por um braço; mas ele era tão forte que sacudia de si os que tentavam aproximar-se dele.
  42. 42. - É inútil, não desiste - disse Anatole.- Esperem aí, que eu ensino-o. Ouve lá, eu aposto contigo, mas fica para amanhã. Agora vamos todos para casa da... - Está bem - exclamou Pedro. - Vamos embora!... Mas o Michka também vai connosco. - Apoderou- se do urso, e agarrando nele com ambas as mãos para o obrigar a levantar-se, pôs-se a rodopiar com o bicho pelo meio da sala.
  43. 43. Capítulo X O príncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito à princesa Drubetskaia na reunião em casa de Ana Pavlovna relativamente a seu único filho. Bóris. Falaram nele ao imperador, e a título excepcional foi promovido a alferes do regimento Seminovski. Mas não foi nomeado ajudante-de-campo, nem adido ao quartel-general de Kutuzov, apesar dos pedidos e das intrigas de Ana Mikailovna. Pouco tempo depois da reunião em casa da dama de honor. Ana Mikailovna voltou para Moscovo e foi instalar-se em casa dos Rostov, seus ricos parentes, onde sempre se hospedava. Era ali que tinha sido educado desde criança e onde ainda vivia o seu Bóris adorado, só agora admitido no exército e que acabava de ser promovido a alferes da Guarda. O regimento tinha saído de Petersburgo a 10 de Agosto, e o rapaz, que ficara em Moscovo por causa do equipamento, devia ir ao encontro dele em Radzivilov. Em casa dos Rostov celebrava-se o aniversário das duas Natalias, a mãe e a filha mais nova. Desde manhã que era um chegar e partir de carruagens sem fim com visitas para o palácio da condessa Rostov, na Povarskaia, palácio que toda a gente conhecia em Moscovo. A condessa, acompanhada pela filha mais velha, uma linda mulher, estava no salão, rodeada das suas visitas, que não cessavam de chegar. Era a condessa Rostov urna senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A lentidão do seu passo e a morosidade da sua fala, consequências do quebranto das suas forças, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia também se encontrava presente, íntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e a manter a conversação. A gente nova estava nas dependências das traseiras, desinteressada das visitas. O conde lá se encarregava, de as acolher e de as conduzir, convidando toda a gente para jantar. - Estou-lhe muito reconhecido, muito, meu caro ou minha cara - dizia a toda a, gente, sem excepção, minha cara ou meu caro, sem pôr nisso qualquer distinção, quer as pessoas fossem de uma classe inferior ou superior -, estou-lhe muito reconhecido em meu nome e em nome das festejadas. Não deixe de vir jantar connosco: ficaria melindrado, meu caro. Peço-lhe, cordialmente, em nome da família, minha cara.
  44. 44. Estas mesmas palavras, com uma expressão sempre igual no rosto cheio e sorridente, bem escanhoado, e um aperto de mão enérgico, sempre o mesmo, e breves e frequentes flexões, repetia-as ele a todos, sem excepção e sem alterar uma vírgula. Depois de acompanhar aquele que partia, ei-lo que voltava para junto daquele ou daquela que ficava no salão. Puxava de uma cadeira, e com os modos de um homem à vontade em sociedade, estendia as pernas desprendidamente, e, de mãos assentes nos joelhos, meneava a cabeça com um ar entendido, fazendo conjecturas sobre o estado do tempo, dando conselhos higiénicos, ora em russo, ora em francês, num francês bastante mau, mas pronunciado com segurança, e depois, como uma pessoa que se sente fatigada mas quer cumprir a sua obrigação até ao fim, acompanhava as pessoas, assentando as farripas brancas sobre a calva e tornando a repetir o eterno convite. Uma que outra vez, no regresso do vestíbulo, atravessava o jardim de Inverno e a sala de espera, dirigindo-se a uma grande dependência pavimentada de mármore, onde se preparava uma mesa de oitenta talheres: lançava urna olhadela aos criados, afadigados a acarretar pratas e porcelanas, a arranjar a mesa e a estender as toalhas adamascadas, e mandava chamar Dimitri Vassilievich, um jovem fidalgo, uma espécie de seu factótum, a quem dizia: - Atenção. Mitenka, é preciso que tudo esteja em ordem. óptimo! óptimo! - Depois acrescentava, inspeccionando, satisfeito, a imensa mesa elástica. - O mais importante é uma mesa bem posta. Bom, bom... - E voltava, contente, ao salão. - Maria Lvovna Karaguine e sua filha! - anunciou em voz de baixo o imenso escudeiro às ordens da condessa penetrando no salão. A condessa, pensativa, tomou uma pitada de rapé da sua caixa dourada com o retrato do marido, - Ah! Que maçada estas visitas! - exclamou ela. - É a última que eu recebo. Que pessoa tão amaneirada! Manda entrar - ordenou para o lacaio numa voz áspera que queria dizer: «Bom, acabemos com isto!» Uma senhora, alta, de grande corpulência, ar altivo, acompanhada de sua filha, uma menina de nédias bochechas, toda sorridente, entrou na sala no meio de um ruge-ruge de vestidos. - Querida condessa, há tanto tempo.., tem estado de cama, pobre criança.., no baile dos Rasumovski.., e a condessa Apraksine.., fiquei tão contente!... - exclamavam vozes femininas muito animadas, interrompendo-se umas às outras mutuamente e confundindo-se com o sussurrar dos tecidos e o arrastar das cadeiras. Entabulou-se uma conversa tão pouco importante que permitia, assim que havia uma pausa, que as pessoas se levantassem e dissessem, rio meio do burburinho da partida: «Estou encantada; a saúde da mãe.., e a condessa Apraksine», e, em seguida, no meio de um novo ruge-ruge, passassem para o vestíbulo,
  45. 45. pusessem os seus agasalhos e partissem. A conversa travou-se sobre a grande novidade do dia, a doença do velho e riquíssimo conde Bezukov, um dos mais belos homens do tempo de Catarina, e o comportamento do filho ilegítimo do mesmo. Pedro, que se tinha portado pessimamente ria recepção em casa de Ana Pavlovna. - Muito lamento o pobre conde - disse a visita que acabava de chegar -; esta tão mal e, ainda por cima, com o desgosto daquele filho, acaba por morrer! - Que aconteceu? - inquiriu a condessa, fingindo ignorar o assunto a que aludia a interlocutora, embora já tivesse ouvido contar a história pelo menos umas quinze vezes, - São aquilo as educações modernas! Aquele tempo no estrangeiro fez com que o rapaz se tornasse insubmisso, e agora, em Petersburgo, segundo dizem, tais horrores fez que tiveram de recorrer à policia. - Que me diz! - murmurou a condessa. - São as más companhias - interveio a princesa Ana Mikailovna. - O filho do príncipe. Vassili, ele e um tal Dolokov fizeram trinta por urna linha. Dois deles sofreram- lhe as consequências: Dolokov foi obrigado a descer de posto e o filho do conde Bezukov, esse, mandaram-no para Moscovo. Quanto a Anatole Kuraguine, valeu-lhe o pai, que conseguiu abafar o escândalo. Mas também foi afastado de Petersburgo. - Que fizeram eles, afinal? - perguntou a condessa. - São uns autênticos bandidos. Principalmente esse Dolokov - disse a visita. - É o filho de Maria Ivanovna Dolokov, uma senhora da maior respeitabilidade. Pois não sabem? Imaginem que arranjaram um urso e levaram-no com eles de carruagem para casa de urnas actrizes. A polícia foi atrás deles, e eles não estiveram com meias medidas: apanham um guarda, amarram-no, costas com costas, com o urso, e atiram com os dois para o Moika (Canal do rio Neva que divide o centro da cidade do bairro de Kazari. (N, dos T.). O urso pôs-se a nadar com o polícia às costas. - Só queria ver a cara do polícia, minha amiga! - exclamou o conde, rindo a bom rir. - Parece impossível! Que horror! Como é que o conde pode achar graça a uma coisa destas? Mas as próprias senhoras não podiam suster o riso. - Foi difícil salvá-lo, àquele desgraçado - continuou a visita. - E dizer que, é o filho do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov quem e dedica a divertimentos tão intelectuais! E há quem o ache bem educado e espiritual. Ora aqui têm o resultado dessas educações no estrangeiro! Tenho a certeza de que ninguém aqui o vai receber, apesar de toda a sua fortuna. Quiseram-mo apresentar. Mas eu disse redondamente que não: tenho filhas. - Porque diz que, esse homem é assim tão rico? - perguntou a condessa, debruçando-
  46. 46. se para ela, de maneira a que as raparigas a não ouvissem, e estas logo fingiram nada entender. - Dizem que só tem filhos naturais. Com certeza.., o Pedro também é filho natural. A visita teve um gesto evasivo. - Dizem que tem um caterva de ilegítimos. A princesa Ana Mikailovna interveio, desejosa, é claro, de mostrar que tinha relações e que conhecia em pormenor todas as intrigas mundanas. - A verdade é esta - disse ela, com um ar entendido e quase em voz baixa. - A reputação do conde Cirilo Vladimirovitch toda a gente a conhece... Nem sequer sabe o nome dos filhos que tem, mas este Pedro era o seu preferido. - Que belo homem esse velho - murmurou a condessa - ainda o ano passado! Nunca vi um homem mais belo! - Agora está muito mudado - observou Ana Mikailovna.- O que eu queria dizer é que o príncipe Vassili, parente dele pelo lado materno, é que devia ser o seu herdeiro directo, mas ele gosta muito do Pedro; mandou-o educar e até escreveu a recomendá-lo ao imperador... Por isso ninguém sabe para quem irá a sua imensa fortuna, se para o Pedro se para o príncipe Vassili. Quarenta mil almas e milhões, milhões! Sei isto de fonte limpa, pois foi o próprio príncipe Vassili quem mo contou. De resto. Cirilo Vladimirovitch também é meu primo afastado pelo lado materno. E é padrinho do Bóris - insinuou ela, como se não ligasse a mais pequena importância ao facto. - O príncipe Vassili está desde ontem em Moscovo. Dizem que anda em inspecção - murmurou a visita. - Sim, mas, aqui entre nós - disse a condessa -, isso é um pretexto. O que ele veio fazer foi visitar o conde Cirilo Vladimirovitch logo que o soube muito mal. - Seja como for, minha amiga, é uma rica história - disse, de chofre, o conde, e, ao verificar que a interlocutora o não ouvia, voltou-se para as raparigas- Estou a ver a cara do polícia! E, mimando os gestos desesperados do pobre diabo, pôs-se de novo a rir, com grandes gargalhadas sonoras e profundas, que lhe faziam estremecer todo o rechonchudo corpo, um corpo de quem come bem e bebe melhor. - Então, está combinado, janta connosco - disse ele.
  47. 47. Capítulo XI Houve um momento de silêncio. A condessa olhava para a sua visita com um sorriso amável, sem esconder, aliás, que lhe não seria desagradável vê-la erguer-se para se ir embora. A filha já se preparava para se despedir, depois de lançar um olhar interrogativo à mãe, quando, de súbito, se ouviram na sala contígua passos precipitados de homens e senhoras, ao mesmo tempo que urna cadeira era arrastada e caía, impelida por alguém que passava. Então entrou na sala uma menina dos seus treze anos, que trazia fosse o que fosse na saia de musselina, e que parava no meio do salão. Era evidente que fora por engano e sem premeditação que viera até ali. Simultaneamente, à porta, apareceram um estudante, de gola cor de framboesa, um oficial da Guarda, uma rapariguinha dos seus quinze anos e um rapazinho, gordo e rubicundo, com um casaquito curto, O conde precipitou-se para a pequenita e impediu-lhe a entrada abrindo os braços. - Ah!, aí vem ela! - gritou ele, rindo - A heroína da festa. Minha querida fadazinha! - Minha querida, há horas para tudo - disse a condessa, fingindo-se severa- Estragas a pequena Elie - acrescentou dirigindo-se ao marido, - Bom dia, minha querida, felicito-a - disse a senhora Karaguine. - Que criança encantadora! - prosseguiu ela para a mãe. Era uma rapariguinha de olhos negros, a boca muito grande, não bonita, mas cheia de vida, com os ombros infantis descobertos, palpitando no corpete, graças à rapidez com que caminhara, os caracóis negros repuxados para trás, os braços pequeninos nus, as perninhas a sair de uma calças de rendas, e nos pés sapatos abertos. Estava naquela idade graciosa em que uma rapariga já não é criança e em que a criança ainda não é rapariga. Depois de ter conseguido escapar-se dos braços do pai, correu para a mãe e, sem prestar a mais pequena atenção às suas severas reprimendas, escondeu a cara buliçosa nas rendas da mantilha materna e pôs-se a rir. Enquanto ria ia falando, com palavras sincopadas, para a boneca que levava metida na saia. - Vês?... Mimi... Vês? E Natacha mais não pôde dizer - tudo a fazia rir. - Deixou-se pender contra a mãe e rompeu a rir com tanta vontade e tão alto que ninguém, inclusivamente a visita de maneiras afectadas, pôde resistir ao riso. Todos riram também.

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