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Mahatma Gandhi de Rita Vilela
INFORMAÇÃO AO LEITOR
Numa linguagem clara, dirigida aos espíritos mais curiosos, a coleção «Génios do Mundo» tem como objetivo dar a
conhecer a vida e a obra de figuras ímpares e incontornáveis da História da Humanidade.
Contada de uma forma simples e com alguma fantasia da autora, cada história não pretende fazer uma apresentação
exaustiva da vida de cada génio. A seleção dos acontecimentos foi feita segundo critérios unicamente editoriais, de acordo
com o espírito da coleção, podendo excluir factos reais.
Morada: Rua Castilho, 57 – 1.º direito, 1250-068 Lisboa
Telefone: 213 713 130
Fax: 213 713 139
E-mail: publicacoes@zeroaoito.pt
Edição original PASS Edições
Título: Génios do Mundo – Mahatma Gandhi
Texto: Rita Vilela
Revisão de texto: Rute Mota
Ilustrações: Vasco Gargalo
Design: Zero a Oito
2.ª edição: abril 2016
ISBN: 978-989-648-025-7
Depósito Legal: 408739/16
Impressão e acabamento: Publito – Estúdios de Artes Gráficas, Lda.
O conteúdo desta obra não pode ser reproduzido nem transmitido, no todo ou em parte,
por processo eletrónico ou mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio
sem prévia autorização por escrito da Zero a Oito.
Uma chancela da Zero a Oito – Edição e Conteúdos, Lda.
Génios
doMundo
Texto:
Rita
Vilela Ilustrações: Vasco
Ga
rgalo
5
O
Ric corria como nunca correra antes.
A boca já lhe sabia a sangue, a «dor
de burro» instalara-se no lado direito,
mas ele sabia que não podia parar. O som de passos e as
respirações ofegantes atrás de si, era isso que indicavam:
eles estavam muito perto.
Optou por abandonar a estrada e progredir pelo
bosque que crescia junto à escola. Talvez ali conseguisse
despistá-los.
Rapidamente percebeu que fora um erro: no
meio da mata, seria difícil encontrar alguém que o pu-
desse ajudar.
Apesar dos seus intentos, os perseguidores manti-
nham-senoseuencalço.Lamentounãoseteresforçadomais
nas aulas de Educação Física, lamentou ter comido tanto
Capítulo 1
76
desejou que os seus perseguidores o encontrassem, para
haver alguém a quem pudesse pedir ajuda.
***
O Luís e o Pedro embrenhavam-se na mata, de
mapa e bússola na mão.
O Luís, de dezassete anos, tentava ensinar ao ir-
mão as técnicas básicas de orientação.
– Estás a ver – dizia-lhe, apontando o mapa –,
este traço azul representa uma linha de água, um rio ou
ribeiro. Tudo o que é azul tem que ver com água. Estas
linhas castanhas, quase paralelas, são curvas de nível.
Quando estão muito espaçadas, como aqui, significa uma
zona plana. Quanto mais juntas, mais inclinado é o ter-
reno. A forma das linhas diz-nos a forma do monte. A
preto, estão assinaladas casas, muros, caminhos…
O Pedro, mais novo três anos, não parecia muito
interessado. Ele gostava de passear no campo, mas não
tinha paciência para mapas e bússolas. Assim, em vez de
reparar nas linhas que o irmão lhe indicava, os seus olhos
percorriam a paisagem em redor.
– O que é aquilo ali? – questionou, reparando
numa mancha amarela que se via junto aos arbustos, a
alguma distância.
O Luís esticou-se para ver melhor.
– Parece uma pessoa deitada.
ao almoço e lamentou ter deixado que a mãe o convencesse
a trazer aquela camisola amarela que se via a léguas…
O impacto de um ramo contra o seu braço inter-
rompeu as lamentações, mas não o deteve. Continuou a
correr sem sentir o traço vermelho vivo que lhe marcava
agora a pele, logo abaixo da manga arregaçada.
O seu coração batia, descompassado, ameaçan-
do sair-lhe do peito. Os pulmões pediam mais ar do que
aquele que o Ric lhes conseguia fornecer.
Tropeçou numa raiz saliente, mas conseguiu não
cair e continuou a acelerar no meio da vegetação cada vez
mais densa, pedindo ao corpo para continuar a dar o seu
melhor.
O medo, que crescia a cada passo, levava-o a agir
como se atrás de si não seguissem homens, mas monstros.
Ao fim de algum tempo, pareceu-lhe que deixara
de ouvir sons nas suas costas. Teria conseguido despistá-los?
Sem abrandar, ousou olhar para trás, para con-
trolar a distância dos seus perseguidores, e foi esse gesto
que fez toda a diferença. Não viu o desnível que se abria
à sua frente e tropeçou nele. Voou sobre os arbustos e foi
embater contra uma árvore.
O mundo começou a girar à sua volta, a lumi-
nosidade foi desaparecendo à medida que a sensação de
desmaio lhe dominava o corpo. Por momentos, quase
98
– Não posso virar as costas e deixar ali alguém
que pode estar a precisar de ajuda.
– E se é uma emboscada? – argumentou o Pedro,
olhando em volta. – Pode ser só um boneco para atrair curio-
sos, e, quando nos aproximarmos, caímos numa armadilha.
– Não sejas tolo! Vem comigo.
– Vamos antes chamar a polícia – propôs o Pedro.
OLuísignorouosseuscomentárioseaproximou-
-se do corpo, enquanto o irmão se mantinha a uma dis-
tância segura, preparado para começar a correr ao pri-
meiro sinal de perigo.
– Está… vivo? – perguntou por fim o Pedro, al-
guns metros afastado.
– É um rapaz e está ferido. Ajuda aqui – pediu o
Luís, após uma primeira observação.
– Isso é sangue, não é? – quis saber o Pedro, que a
três passos de distância já se começara a sentir mal disposto
com a visão da mancha vermelho-escura que tingia a perna
direita das calças do rapaz. – E agora, o que é que fazemos?
O Luís pensou um pouco e tomou a sua decisão,
enquanto o Pedro, nervoso, andava às voltas, repetindo a
frase «e agora, o que é que fazemos?».
– Não sei se terá magoado a coluna, por isso é
perigoso deslocá-lo. Tu ficas aqui, que eu vou num ins-
tante chamar ajuda – ordenou ao irmão mais novo.
– É melhor irmos embora – sugeriu o Pedro.
– A posição do corpo não é muito normal. Pode
ter caído. Vamos lá ver.
– Não se mexe. E se está morto? É melhor irmos
embora – insistiu o mais novo, começando a sentir-se
nervoso.
1110
Em resposta à sua voz, o rapaz abriu os olhos.
Uns olhos grandes, assustados.
– Como estás? Consegues falar? – questionou o
Luís.
– O que aconteceu? – perguntou o miúdo, confuso.
– Encontrámos-te aqui, desmaiado. Estás bem?
O rapaz tentou sentar-se, mas, quando mexeu a
perna, uma pontada de dor fê-lo parar e encheu-lhe os
olhos de lágrimas.
– Dói tanto. Tanto! – queixou-se.
– Deixa-me ver – disse o Luís, arregaçando-lhe
a perna direita das calças para espreitar. Uma massa de
sangue seco foi a única coisa que conseguiu ver. Teve
medo de mexer mais.
– O meu nome é Luís. Como te chamas?
A palavra «Ric», abreviatura de Ricardo, foi dita
com um esgar de dor.
A palidez do rosto do Ric sugeria que estaria
prestes a desmaiar. O Luís lembrava-se de ter ouvido co-
mentar que, quando as pessoas estavam em choque, após
um acidente, deveriam ser mantidas despertas. Tinha
ideia de ser perigoso deixá-las adormecer.
– Espera, espera, Ric! Fica comigo um bocadi-
nho, tenho algo importante para te dizer – exclamou, ain-
da sem saber por onde começar.
– Não. Não – respondeu prontamente o Pedro,
que já imaginava o ferido a ter um ataque e a morrer nos
seus braços. – Fazemos assim: tu ficas com ele, e eu vou
procurar ajuda.
– Mas consegues dar com o caminho? – duvidou
o Luís.
– Claro! – afirmou o irmão. – Tu ensinaste-me
como se faz, lembras-te?
O Luís não estava muito seguro, mas a confiança
na voz do Pedro tranquilizou-o. Antes de o irmão partir,
o Luís assinalou no mapa o local onde estavam e indicou-
-lhe a direção que deveria seguir. O Pedro, impaciente,
mal ouvia as suas explicações, ele queria, acima de tudo,
afastar-se dali, antes que alguma coisa má acontecesse
ao ferido.
Assim que o irmão partiu, o Luís concentrou
toda a sua atenção no rapaz que principiava a gemer. Não
devia ter mais do que doze, treze anos. O rosto não lhe
era estranho, tinha ideia de já o ter visto na escola.
O rapaz emitiu novo gemido e moveu ligeira-
mente o braço.
«Acorda miúdo, acorda!», pensou o Luís, segu-
rando-lhe na mão e falando baixinho.
– Não tenhas medo, eu estou aqui, e a ajuda vem
a caminho. Já não falta muito.
1312
A
ânsia de se afastar daquele corpo fe-
rido fora tanta que o Pedro começara
imediatamente a andar no sentido in-
dicado pelo irmão, ignorando mapa e bússola.
Estava confiante, na altura, que encontraria facil-
mente o trilho por onde tinham vindo. Mas após ter an-
dado um bom bocado, sem encontrar um único caminho,
as dúvidas começavam a surgir…
***
O Luís debatia-se com outro tipo de problemas.
«Tenho de o manter desperto», repetiu para si mesmo,
começando a fazer perguntas com esse objetivo.
– Quantos anos tens?
– Doze – respondeu o Ric, começando a fechar
os olhos.
Capítulo 2
1514
Ficou uns instantes calado, a recuperar forças, e
depois acrescentou:
– Desde que isto começou, ir para a escola tem
sido um pesadelo. Nem imaginas o que é ser pressiona-
do pelos três, todos mais altos e mais fortes do que eu.
Houve uns dias que nem fui ao recreio, com receio de os
encontrar. É horrível! Hoje, quando não lhes dei o relógio,
pensei que iam dar cabo de mim. Porque é que me acon-
tecem coisas destas? Não há nada pior do que nos vermos
cercados, encurralados...
Com uma expressão de dor e de fadiga, o Ric vol-
tou a fechar os olhos.
O Luís não sabia o que fazer, o que perguntar a
seguir. Onde ele morava? O que é que gostava de fazer
nos tempos livres? Percebeu que não chegaria longe com
aquele tipo de questões.
Recordou então que o irmão adorava histórias e
era capaz de ficar horas entretido a ouvi-las. Mas o que
é que poderia contar ao Ricardo? As únicas histórias que
conhecia eram para crianças! E então veio-lhe à ideia um
tema: «Gandhi».
A Marta, a irmã mais velha do Luís e do Pedro, ti-
vera recentemente de fazer um trabalho, para a universida-
de, sobre a independência da Índia e sobre o papel de um
homem muito especial, cujas ações tinham tornado isso
– Não me queres contar o que se passou? – in-
sistiu o Luís.
O Ric começou a falar, com voz fraca.
– Lá na escola há um grupo de rapazes que se
chama a si próprio o Gang. Eles gozam, insultam, empur-
ram, batem e ameaçam. As vítimas deles estão tramadas se
não fazem o que eles dizem… Um amigo meu foi apanha-
do por eles e acabou por mudar de escola. O mês passado
escolheram-me a mim, arranjaram-me uma alcunha, já me
atiraram com lixo e bombinhas de mau cheiro. Quando me
apanham distraído dão-me encontrões e pontapés e depois
riem-se muito. Já fiquei sem o lanche…
O Luís ouvia atentamente, sem interromper.
– Hoje, quando eles quiseram ficar com o relógio
queomeupaimeofereceu,decidiquenãoodavaefugi.Cor-
ri como um doido, quase fui atropelado a atravessar a estrada
e depois tive a ideia estúpida de me esconder na mata. Já es-
tava a ser perseguido por eles há bastante tempo quando, ao
olhar para trás, tropecei e caí. Não me lembro de mais nada.
– E depois? – questionou o Luís, sem saber mais
o que dizer.
A pergunta motivou um desabafo.
– É tão injusto. Eu não me meto com ninguém,
porque é que vêm implicar comigo? Eu só quero que me
deixem em paz!
1716
do» ou «mas ata-ma», ou lá como é que aquilo se pronun-
ciava. Apeteceu-lhe responder «não sei, nem quero saber,
estou cheio de dores», mas calou-se.
– Falo nisso, pois, uma vez, quando regressou à
África do Sul, ao sair do navio que o trouxera da Índia, ele
foi cercado por uma multidão em fúria.
– O que é que ele fez para merecer isso?
– Absolutamente nada. Foi acusado de duas coi-
sas de que era inocente.
O Ric reagiu, desconfiado. Ele detestava quando,
em resposta a uma queixa sua, o pai lhe lembrava que
havia sempre alguém pior do que ele. Mas, em breve, a
história começou a interessá-lo.
O Ric fechou os olhos, à medida que o Luís falava,
e imaginou a cena: Gandhi, de pé, cercado pela multidão
ameaçadora. «Viu-o» a ser afastado do amigo que estava
com ele e a ficar isolado, sozinho, rodeado de gente hostil.
Imaginou-se no lugar dele e sentiu o medo que ele deveria
ter sentido e o impacto das pedras, dos ovos podres e dos
pedaços de tijolo que lhe atiravam. Sentiu-se a ponto de
desmaiar, como acontecera com Gandhi que se agarrara à
vedação de uma casa, tentando manter-se de pé e recupe-
rar o fôlego, enquanto lhe continuavam a bater.
E depois, quando tudo parecia perdido, «viu» a
mulher do chefe de polícia que, corajosamente, se colocou
possível: Mahatma Gandhi. Para recolher informação para
o trabalho, Marta consultara a Internet, alugara um filme
sobre a vida dele, lera o seu livro A minha vida e as minhas
experiências com a verdade e andava tão entusiasmada
que, sempre que apanhava os irmãos a jeito, aproveitava
para lhes contar os episódios mais interessantes daquilo
que ia aprendendo. E, apesar de o Pedro e do Luís estarem
sempre a provocá-la, acusando-a de não saber falar sobre
mais nada, o que é certo é que a personalidade de Gandhi
começara a conquistá-los.
– Sabes quem era Mahatma Gandhi? – pergun-
tou o Luís. – Na realidade, ele chamava-se Mohandas
Karamchand, mas as pessoas chamavam-lhe Mahatma
que significa «Grande Alma».
O rapaz olhou-o como se ele estivesse a delirar. A
que propósito é que vinha essa questão? E que interesse é
que tinha se Gandhi se chamava «não andas escarrancha-
1918
uma forma de não ser assim: se ele comesse um dado ali-
mento, ficaria mais forte, mais rápido, mais corajoso. Con-
vém esclarecer que o rapaz que o desafiava era tudo isso,
musculado, atlético, capaz de correr longas distâncias, exí-
mio saltador e muito resistente aos castigos corporais que
se usavam na época. O amigo dizia que a diferença entre
eles tinha que ver com o consumo desse alimento e acres-
centava que as pessoas que o comiam não tinham espinhas
no rosto e as suas feridas cicatrizavam logo.
– Que alimento é esse? – perguntou o Ric, espe-
rançado que pudesse funcionar no seu caso.
entre ele e a multidão, de sombrinha aberta, protegendo-o.
Na imagem criada pelo Ric, aquela mulher tinha a cara da
sua colega Margarida, a única rapariga da turma que ele
imaginava com coragem para fazer uma coisa dessas.
O Luís continuava a descrição.
– Gandhi conseguiu, com a ajuda do chefe de
polícia, proteger-se na casa de uns amigos, mas na rua a
multidão continuava a gritar «queremos Gandhi» e pare-
cia disposta a invadir a casa para o apanhar.
– O que aconteceu a seguir? – questionou o Ric,
curioso.
– A polícia ajudou-o a escapar, disfarçado de
guarda, mas foi por pouco. Sem ajuda, possivelmente te-
ria sido morto. A multidão, lá fora, cantava «enforque-
mos o velho Gandhi numa das nossas macieiras».
– Não ganhou para o susto!
– E não só. Ficou coberto de mossas por todo o
corpo, apesar de ter apenas uma ferida aberta.
Sem necessidade de imaginar, o Ric sentiu no seu
corpo o que Gandhi sentira no dele.
– Nestes casos, o que dava mesmo jeito era ter
uma poção mágica – comentou o rapaz.
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  • 2. INFORMAÇÃO AO LEITOR Numa linguagem clara, dirigida aos espíritos mais curiosos, a coleção «Génios do Mundo» tem como objetivo dar a conhecer a vida e a obra de figuras ímpares e incontornáveis da História da Humanidade. Contada de uma forma simples e com alguma fantasia da autora, cada história não pretende fazer uma apresentação exaustiva da vida de cada génio. A seleção dos acontecimentos foi feita segundo critérios unicamente editoriais, de acordo com o espírito da coleção, podendo excluir factos reais. Morada: Rua Castilho, 57 – 1.º direito, 1250-068 Lisboa Telefone: 213 713 130 Fax: 213 713 139 E-mail: publicacoes@zeroaoito.pt Edição original PASS Edições Título: Génios do Mundo – Mahatma Gandhi Texto: Rita Vilela Revisão de texto: Rute Mota Ilustrações: Vasco Gargalo Design: Zero a Oito 2.ª edição: abril 2016 ISBN: 978-989-648-025-7 Depósito Legal: 408739/16 Impressão e acabamento: Publito – Estúdios de Artes Gráficas, Lda. O conteúdo desta obra não pode ser reproduzido nem transmitido, no todo ou em parte, por processo eletrónico ou mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio sem prévia autorização por escrito da Zero a Oito. Uma chancela da Zero a Oito – Edição e Conteúdos, Lda. Génios doMundo Texto: Rita Vilela Ilustrações: Vasco Ga rgalo
  • 3. 5 O Ric corria como nunca correra antes. A boca já lhe sabia a sangue, a «dor de burro» instalara-se no lado direito, mas ele sabia que não podia parar. O som de passos e as respirações ofegantes atrás de si, era isso que indicavam: eles estavam muito perto. Optou por abandonar a estrada e progredir pelo bosque que crescia junto à escola. Talvez ali conseguisse despistá-los. Rapidamente percebeu que fora um erro: no meio da mata, seria difícil encontrar alguém que o pu- desse ajudar. Apesar dos seus intentos, os perseguidores manti- nham-senoseuencalço.Lamentounãoseteresforçadomais nas aulas de Educação Física, lamentou ter comido tanto Capítulo 1
  • 4. 76 desejou que os seus perseguidores o encontrassem, para haver alguém a quem pudesse pedir ajuda. *** O Luís e o Pedro embrenhavam-se na mata, de mapa e bússola na mão. O Luís, de dezassete anos, tentava ensinar ao ir- mão as técnicas básicas de orientação. – Estás a ver – dizia-lhe, apontando o mapa –, este traço azul representa uma linha de água, um rio ou ribeiro. Tudo o que é azul tem que ver com água. Estas linhas castanhas, quase paralelas, são curvas de nível. Quando estão muito espaçadas, como aqui, significa uma zona plana. Quanto mais juntas, mais inclinado é o ter- reno. A forma das linhas diz-nos a forma do monte. A preto, estão assinaladas casas, muros, caminhos… O Pedro, mais novo três anos, não parecia muito interessado. Ele gostava de passear no campo, mas não tinha paciência para mapas e bússolas. Assim, em vez de reparar nas linhas que o irmão lhe indicava, os seus olhos percorriam a paisagem em redor. – O que é aquilo ali? – questionou, reparando numa mancha amarela que se via junto aos arbustos, a alguma distância. O Luís esticou-se para ver melhor. – Parece uma pessoa deitada. ao almoço e lamentou ter deixado que a mãe o convencesse a trazer aquela camisola amarela que se via a léguas… O impacto de um ramo contra o seu braço inter- rompeu as lamentações, mas não o deteve. Continuou a correr sem sentir o traço vermelho vivo que lhe marcava agora a pele, logo abaixo da manga arregaçada. O seu coração batia, descompassado, ameaçan- do sair-lhe do peito. Os pulmões pediam mais ar do que aquele que o Ric lhes conseguia fornecer. Tropeçou numa raiz saliente, mas conseguiu não cair e continuou a acelerar no meio da vegetação cada vez mais densa, pedindo ao corpo para continuar a dar o seu melhor. O medo, que crescia a cada passo, levava-o a agir como se atrás de si não seguissem homens, mas monstros. Ao fim de algum tempo, pareceu-lhe que deixara de ouvir sons nas suas costas. Teria conseguido despistá-los? Sem abrandar, ousou olhar para trás, para con- trolar a distância dos seus perseguidores, e foi esse gesto que fez toda a diferença. Não viu o desnível que se abria à sua frente e tropeçou nele. Voou sobre os arbustos e foi embater contra uma árvore. O mundo começou a girar à sua volta, a lumi- nosidade foi desaparecendo à medida que a sensação de desmaio lhe dominava o corpo. Por momentos, quase
  • 5. 98 – Não posso virar as costas e deixar ali alguém que pode estar a precisar de ajuda. – E se é uma emboscada? – argumentou o Pedro, olhando em volta. – Pode ser só um boneco para atrair curio- sos, e, quando nos aproximarmos, caímos numa armadilha. – Não sejas tolo! Vem comigo. – Vamos antes chamar a polícia – propôs o Pedro. OLuísignorouosseuscomentárioseaproximou- -se do corpo, enquanto o irmão se mantinha a uma dis- tância segura, preparado para começar a correr ao pri- meiro sinal de perigo. – Está… vivo? – perguntou por fim o Pedro, al- guns metros afastado. – É um rapaz e está ferido. Ajuda aqui – pediu o Luís, após uma primeira observação. – Isso é sangue, não é? – quis saber o Pedro, que a três passos de distância já se começara a sentir mal disposto com a visão da mancha vermelho-escura que tingia a perna direita das calças do rapaz. – E agora, o que é que fazemos? O Luís pensou um pouco e tomou a sua decisão, enquanto o Pedro, nervoso, andava às voltas, repetindo a frase «e agora, o que é que fazemos?». – Não sei se terá magoado a coluna, por isso é perigoso deslocá-lo. Tu ficas aqui, que eu vou num ins- tante chamar ajuda – ordenou ao irmão mais novo. – É melhor irmos embora – sugeriu o Pedro. – A posição do corpo não é muito normal. Pode ter caído. Vamos lá ver. – Não se mexe. E se está morto? É melhor irmos embora – insistiu o mais novo, começando a sentir-se nervoso.
  • 6. 1110 Em resposta à sua voz, o rapaz abriu os olhos. Uns olhos grandes, assustados. – Como estás? Consegues falar? – questionou o Luís. – O que aconteceu? – perguntou o miúdo, confuso. – Encontrámos-te aqui, desmaiado. Estás bem? O rapaz tentou sentar-se, mas, quando mexeu a perna, uma pontada de dor fê-lo parar e encheu-lhe os olhos de lágrimas. – Dói tanto. Tanto! – queixou-se. – Deixa-me ver – disse o Luís, arregaçando-lhe a perna direita das calças para espreitar. Uma massa de sangue seco foi a única coisa que conseguiu ver. Teve medo de mexer mais. – O meu nome é Luís. Como te chamas? A palavra «Ric», abreviatura de Ricardo, foi dita com um esgar de dor. A palidez do rosto do Ric sugeria que estaria prestes a desmaiar. O Luís lembrava-se de ter ouvido co- mentar que, quando as pessoas estavam em choque, após um acidente, deveriam ser mantidas despertas. Tinha ideia de ser perigoso deixá-las adormecer. – Espera, espera, Ric! Fica comigo um bocadi- nho, tenho algo importante para te dizer – exclamou, ain- da sem saber por onde começar. – Não. Não – respondeu prontamente o Pedro, que já imaginava o ferido a ter um ataque e a morrer nos seus braços. – Fazemos assim: tu ficas com ele, e eu vou procurar ajuda. – Mas consegues dar com o caminho? – duvidou o Luís. – Claro! – afirmou o irmão. – Tu ensinaste-me como se faz, lembras-te? O Luís não estava muito seguro, mas a confiança na voz do Pedro tranquilizou-o. Antes de o irmão partir, o Luís assinalou no mapa o local onde estavam e indicou- -lhe a direção que deveria seguir. O Pedro, impaciente, mal ouvia as suas explicações, ele queria, acima de tudo, afastar-se dali, antes que alguma coisa má acontecesse ao ferido. Assim que o irmão partiu, o Luís concentrou toda a sua atenção no rapaz que principiava a gemer. Não devia ter mais do que doze, treze anos. O rosto não lhe era estranho, tinha ideia de já o ter visto na escola. O rapaz emitiu novo gemido e moveu ligeira- mente o braço. «Acorda miúdo, acorda!», pensou o Luís, segu- rando-lhe na mão e falando baixinho. – Não tenhas medo, eu estou aqui, e a ajuda vem a caminho. Já não falta muito.
  • 7. 1312 A ânsia de se afastar daquele corpo fe- rido fora tanta que o Pedro começara imediatamente a andar no sentido in- dicado pelo irmão, ignorando mapa e bússola. Estava confiante, na altura, que encontraria facil- mente o trilho por onde tinham vindo. Mas após ter an- dado um bom bocado, sem encontrar um único caminho, as dúvidas começavam a surgir… *** O Luís debatia-se com outro tipo de problemas. «Tenho de o manter desperto», repetiu para si mesmo, começando a fazer perguntas com esse objetivo. – Quantos anos tens? – Doze – respondeu o Ric, começando a fechar os olhos. Capítulo 2
  • 8. 1514 Ficou uns instantes calado, a recuperar forças, e depois acrescentou: – Desde que isto começou, ir para a escola tem sido um pesadelo. Nem imaginas o que é ser pressiona- do pelos três, todos mais altos e mais fortes do que eu. Houve uns dias que nem fui ao recreio, com receio de os encontrar. É horrível! Hoje, quando não lhes dei o relógio, pensei que iam dar cabo de mim. Porque é que me acon- tecem coisas destas? Não há nada pior do que nos vermos cercados, encurralados... Com uma expressão de dor e de fadiga, o Ric vol- tou a fechar os olhos. O Luís não sabia o que fazer, o que perguntar a seguir. Onde ele morava? O que é que gostava de fazer nos tempos livres? Percebeu que não chegaria longe com aquele tipo de questões. Recordou então que o irmão adorava histórias e era capaz de ficar horas entretido a ouvi-las. Mas o que é que poderia contar ao Ricardo? As únicas histórias que conhecia eram para crianças! E então veio-lhe à ideia um tema: «Gandhi». A Marta, a irmã mais velha do Luís e do Pedro, ti- vera recentemente de fazer um trabalho, para a universida- de, sobre a independência da Índia e sobre o papel de um homem muito especial, cujas ações tinham tornado isso – Não me queres contar o que se passou? – in- sistiu o Luís. O Ric começou a falar, com voz fraca. – Lá na escola há um grupo de rapazes que se chama a si próprio o Gang. Eles gozam, insultam, empur- ram, batem e ameaçam. As vítimas deles estão tramadas se não fazem o que eles dizem… Um amigo meu foi apanha- do por eles e acabou por mudar de escola. O mês passado escolheram-me a mim, arranjaram-me uma alcunha, já me atiraram com lixo e bombinhas de mau cheiro. Quando me apanham distraído dão-me encontrões e pontapés e depois riem-se muito. Já fiquei sem o lanche… O Luís ouvia atentamente, sem interromper. – Hoje, quando eles quiseram ficar com o relógio queomeupaimeofereceu,decidiquenãoodavaefugi.Cor- ri como um doido, quase fui atropelado a atravessar a estrada e depois tive a ideia estúpida de me esconder na mata. Já es- tava a ser perseguido por eles há bastante tempo quando, ao olhar para trás, tropecei e caí. Não me lembro de mais nada. – E depois? – questionou o Luís, sem saber mais o que dizer. A pergunta motivou um desabafo. – É tão injusto. Eu não me meto com ninguém, porque é que vêm implicar comigo? Eu só quero que me deixem em paz!
  • 9. 1716 do» ou «mas ata-ma», ou lá como é que aquilo se pronun- ciava. Apeteceu-lhe responder «não sei, nem quero saber, estou cheio de dores», mas calou-se. – Falo nisso, pois, uma vez, quando regressou à África do Sul, ao sair do navio que o trouxera da Índia, ele foi cercado por uma multidão em fúria. – O que é que ele fez para merecer isso? – Absolutamente nada. Foi acusado de duas coi- sas de que era inocente. O Ric reagiu, desconfiado. Ele detestava quando, em resposta a uma queixa sua, o pai lhe lembrava que havia sempre alguém pior do que ele. Mas, em breve, a história começou a interessá-lo. O Ric fechou os olhos, à medida que o Luís falava, e imaginou a cena: Gandhi, de pé, cercado pela multidão ameaçadora. «Viu-o» a ser afastado do amigo que estava com ele e a ficar isolado, sozinho, rodeado de gente hostil. Imaginou-se no lugar dele e sentiu o medo que ele deveria ter sentido e o impacto das pedras, dos ovos podres e dos pedaços de tijolo que lhe atiravam. Sentiu-se a ponto de desmaiar, como acontecera com Gandhi que se agarrara à vedação de uma casa, tentando manter-se de pé e recupe- rar o fôlego, enquanto lhe continuavam a bater. E depois, quando tudo parecia perdido, «viu» a mulher do chefe de polícia que, corajosamente, se colocou possível: Mahatma Gandhi. Para recolher informação para o trabalho, Marta consultara a Internet, alugara um filme sobre a vida dele, lera o seu livro A minha vida e as minhas experiências com a verdade e andava tão entusiasmada que, sempre que apanhava os irmãos a jeito, aproveitava para lhes contar os episódios mais interessantes daquilo que ia aprendendo. E, apesar de o Pedro e do Luís estarem sempre a provocá-la, acusando-a de não saber falar sobre mais nada, o que é certo é que a personalidade de Gandhi começara a conquistá-los. – Sabes quem era Mahatma Gandhi? – pergun- tou o Luís. – Na realidade, ele chamava-se Mohandas Karamchand, mas as pessoas chamavam-lhe Mahatma que significa «Grande Alma». O rapaz olhou-o como se ele estivesse a delirar. A que propósito é que vinha essa questão? E que interesse é que tinha se Gandhi se chamava «não andas escarrancha-
  • 10. 1918 uma forma de não ser assim: se ele comesse um dado ali- mento, ficaria mais forte, mais rápido, mais corajoso. Con- vém esclarecer que o rapaz que o desafiava era tudo isso, musculado, atlético, capaz de correr longas distâncias, exí- mio saltador e muito resistente aos castigos corporais que se usavam na época. O amigo dizia que a diferença entre eles tinha que ver com o consumo desse alimento e acres- centava que as pessoas que o comiam não tinham espinhas no rosto e as suas feridas cicatrizavam logo. – Que alimento é esse? – perguntou o Ric, espe- rançado que pudesse funcionar no seu caso. entre ele e a multidão, de sombrinha aberta, protegendo-o. Na imagem criada pelo Ric, aquela mulher tinha a cara da sua colega Margarida, a única rapariga da turma que ele imaginava com coragem para fazer uma coisa dessas. O Luís continuava a descrição. – Gandhi conseguiu, com a ajuda do chefe de polícia, proteger-se na casa de uns amigos, mas na rua a multidão continuava a gritar «queremos Gandhi» e pare- cia disposta a invadir a casa para o apanhar. – O que aconteceu a seguir? – questionou o Ric, curioso. – A polícia ajudou-o a escapar, disfarçado de guarda, mas foi por pouco. Sem ajuda, possivelmente te- ria sido morto. A multidão, lá fora, cantava «enforque- mos o velho Gandhi numa das nossas macieiras». – Não ganhou para o susto! – E não só. Ficou coberto de mossas por todo o corpo, apesar de ter apenas uma ferida aberta. Sem necessidade de imaginar, o Ric sentiu no seu corpo o que Gandhi sentira no dele. – Nestes casos, o que dava mesmo jeito era ter uma poção mágica – comentou o rapaz. – Tem piada falares nisso. Sabes que Gandhi, quando era miúdo, era baixo, franzino e medroso. E, um dia, um amigo começou a tentar convencê-lo de que havia