Newsletter rita podesta

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Newsletter rita podesta

  1. 1. Volume 0 Edição Gratuita. Além Mar. receu ao mesmo tempo em que familiar será viver familiar e diferente. Me por aqui - quando eu já peguei falando inglês nas estiver inundada nesse Vivendo as (in) diferenças. ruas, pois meu pensamen- velho mundo novo. to, talvez cansado, remetia Espero, portanto, que seja à lógica de que ao mudar esse um bom espaço de de país deveria mudar de desabafo para jogar todas idioma. As primeiras pala- essas palavras iguais e di- vras de um legítimo portu- “Boa sorte menina além mar.” guês me soaram estranhas ferentes e relatar, em um português brasileiro que Foram as palavras de um e me exigiam atenção re- começa a ter ares de por- amigo ao despedir-se no dobrada para entender – tuguês lusitano, minhas Brasil. Fez-me pensar co- logo eu que me distraio descobertas e absorções mo seria o mar de cá. Se tão facilmente. Aos poucos desse novo lar. Vou me as ondas seriam maiores, me habituo. Me esforço vestir ora de estudante, o tempo mais cruel, ou para dizer metro e não familiar da cidade, ora de até, se as ressacas seriam metrô, me policio para turista cheia de olhares mais fortes. Como seriam pedir um saco e não uma curiosos. E espero dicas, enfim, os portugueses, sacola ao supermercado sugestões e impressões. aqueles que certo dia fize- enquanto estou na bicha e Aceitos roteiros, lugares ram da minha terra um não na fila. Devagar, vou novos, livros, música, e- país, do meu país uma me sentindo absorvida por ventos – tudo que me aju- nação que aprendeu a palavras novas. de a perceber essa terra andar sozinha, mesmo que Porém não só palavras, mãe para, enfim, poder tenha ficado por muito mas costumes, conheci- dizer que tenho formada a tempo com as pernas um mentos, cultura. Estranho minha opinião sobre a ci- pouco bambas. Seriam como, para mim, o Brasil e dade. amáveis com sua tão anti- Portugal se misturam cons- Até então, me sinto segura ga cria? Ou olhariam torto tantemente em Lisboa. em dizer que é bela a Lis- como a mãe que vigia o Como me remeto ao som boa e, como boa pessoana, filho que tenta andar lon- da viola quando escuto o que só vou sentir essa ci- ge de suas asas? fado, me sinto à vontade dade se me aventurar em O que, portanto, seria de em um pequeno bar em perder-me entre morros e mim além dos limites do uma esquina apertada de ruelas, afinal, “sentir é meu mar não sabia ao Alfama e até, como não estar distraído” e quando certo. Mas ao pegar um me assustam tanto as la- eu menos perceber, esta- avião para Lisboa, direto deiras, como se estivesse rei distraidamente a andar da minha terra grande nas minhas montanhas como se estivesse peram- com ares de cidade peque- gerais. Talvez porque a bulando pelos assoalhos na – Belo Horizonte, Minas tendência é procurar o da minha própria casa. Gerais – o sentimento de familiar quando estamos euforia acobertou qual- em ambiente desconheci- quer receio ou arrependi- do. E encontrá-lo pode ser mento. E assim, continua delicioso enquanto, não desde o dia que cheguei. achá-lo, é essencial. Assim, No princípio, tudo me pa- aguardo ansiosa para o dia
  2. 2. VIVENDO AS (IN) DIFERENÇAS. Sou um evadido. Sou um evadido. Logo que nasci Fecharam-me em mim, Ah, mas eu fugi. Se a gente se cansa Do mesmo lugar, Do mesmo ser Por que não se cansar? Minha alma procura-me Mas eu ando a monte, Oxalá que ela Nunca me encontre. Ser um é cadeia, Ser eu é não ser. Viverei fugindo Mas vivo a valer. Fernando Pessoa Seja lá o que for. (Tu que consolas, que não exis- com uma nitidez absoluta. tes e por isso consolas, Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros Ou deusa grega, concebida co- que passam, mo estátua que fosse viva, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Ou patrícia romana, impossivel- Vejo os cães que também existem, mente nobre e nefasta, E tudo isto me pesa como uma condenação ao Ou princesa de trovadores, degredo, gentilíssima e colorida, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) Ou marquesa do século dezoito, Álvaro de Campos decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê - Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que ins- pire! Meu coração é um balde despe- jado. Como os que invocam espíritos 2 invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua
  3. 3. VOLUME 0 Entre Cantos. Lisboa cada dia é mais familiar e ao mesmo tempo mais estranha para mim. Fico contente que já me aventuro em ruas estreitas e já decorei, como um caminho da ro- ça, as curvas íngremes que me se juntam com a nova decoração de Natal. levam até em casa. Cumprimento Roupas dependuradas nas varandas estão à alguns vizinhos, reconheço os ca- mão de quem passa entre as calçadas que se chorros que perambulam nas cal- entortam, crescem e depois diminuem ao çadas e já decorei os preços de tamanho de um corpo só. supermercados e do quilo de fru- tas nos inúmeros pequenos merca- Não sei muito bem identificar os vestígios dos da minha freguesia. Entretan- ditos das ocupações Romanas e Árabes de to, ao mesmo tempo, se me pego outrora, talvez nos pátios e largos, mas, é no largo da Graça e me debruço na certo, que Alfama é repleta de passado, é vista defronte a igreja, em questão feita de memória – percebe-se na arquitetu- de segundos me dou conta de que, ra, nos odores, nos sons. Como se escondes- do topo onde vivo, vejo um mar de se segredos mas nem por isso se fechasse freguesias que sequer passei per- em seus becos escuros. Ao contrário, parece to. que se abre, abraça turistas curiosos `a pro- cura das casas de fado e com mapas inúteis Porém, digo certa de que, até onde nas mãos, pois neles não estão listadas as oça fui, já tenho meus cantos preferi- omo a m sperar, c travessas e calçadas, muito menos dizem “E e dos e dentre os recantos, me en- rrumar que para descer é preciso subir e descer em espera a contro sempre encantada com um solteira que ridas em particular, Alfama. Confesso seguida. E quando consegue-se descer, se fitas colo o, que as estiver no ponto certo é jogado perto do mar marid dia sem vergonha que em questão de ela que é e por mais belo que este seja, dá uma nos- anuncie m da jan segundos me perco por lá e fico talgia instantânea, do aconchego, da visão “ Antônio. sem saber para onde ir e se já esti- de Santo ve ou não em tal lugar. Mas sem- miúda, também porque lá ameniza-se o ven- to frio e, ao menos no inverno, esse calor pre me impressiono. Incrível como humano se aventurando em ruas estreitas uma confusão de ruas tortas, ba- parece-me uma saída esperta. res, casas, casos e inúmeros ou- Mas há também um pouco de tristeza que tros tropeços se misturam em uma torna Alfama ainda mais peculiar. Surpreen- harmonia única. Resquícios da de- dem os prédios esquecidos, com suas portas coração da Festa de Santo Antônio e janelas fadadas ao silêncio, fechadas por tijolos e cimento. Casas que pedem socorro, becos que não conhecem um feixe de luz, azulejos que já não se aguentam na parede. Porém essa tristeza logo perde força, pois basta ir um pouco adiante e lá estão as varandas floridas, os candeeiros acesos e os azulejos intactos que gritam história e cultura. No percurso esbarra-se em igrejas, em cafés nos quais parecem frequentar só o dono e seus amigos convidados no fim da tar- de para uma xícara de café, o pastel de nata e o pão quentinho. Depois, basta subir, descer, perambular por arcos, becos e vielas. Andar até as pernas pedirem sossego e então descansar onde a rua alarga-se e a conversa rende, ou sentar-se em um banco de esquina apertado onde as pernas mal cabem. E daí, ver a vida passar, como se o tempo não tivesse permissão de subir morros. E esperar, como a moça solteira que espera ar- rumar marido, que as fitas coloridas anunciem da janela que é dia de Santo Antônio. 3 Pois dizem que, seja pela tradição, pelo milagre ou apenas pela boa desculpa de brindar e dançar, é quando toda Alfama veste-se de alegria. Não vejo a hora. Até lá, me aventu- ro ansiosa em freguesias alheias.
  4. 4. VIVENDO AS (IN) DIFERENÇAS. Jogados. Rita de Podestá. Algo incomodava. Pequeno mas que em pequenas frases clichês, é a melhor Ensino à DistânciaPós- graduação em Estudos cutucava forte, que remexia, agitava e maneira de viver o que ora assusta ou Literários Comparados. confundia. Até que de repente ela incomoda. Universidade Nova de Lisboa. ouviu o otimismo alheio: vou fazer esse E foi assim que ela resolveu encarar a Professora: Helena lugar ficar bom! E, sem muito pensar, aventura de vez. Abarrotada de tanto Barbas Lisboa.Maio de 2010. gostou do som daquelas palavras espe- passado achou que seus trajes de presente rançosas e resolveu plagiar a simplici- agregados a um pouco de futuro poderiam dade desse pensamento alto pois, a cair-lhe bem. Vestiu-os e saiu a rua para esperança, é direito igual que ninguém começar tudo outra vez com um novo e tira do outro, ela precisa de existir verde olhar. para catalisar a ação, sustentar o otimismo e que, mesmo quando afogada 19 de maio de 2010. Acesso aqui o site ou clique para contato: rita.podesta@gmail.com

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