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1 	 Introdução                                         qüência a impermeabilização do solo, que fun-                      ...
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A cidade de São Paulo tem grande parte de suas áreas úmidas drenadas e aterradas. A ocupação das várzeas traz diversos problemas para o município, comprometendo a paisagem natural dos rios e córregos... Crocaneli, Pérola F. e Stuermer, Monica M., Revista Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan/jun 2008.

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Renaturalização de rios e córregos no município de São Paulo

  1. 1. Artigos Renaturalização de rios e córregos no município de São Paulo Pérola Felipette Brocaneli Doutora em Paisagem e Ambiente – FAU-USP; Professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Mackenzie. São Paulo – SP [Brasil] perola@mackenzie.br Monica Machado Stuermer Doutora em Engenharia Ambiental – POLI-USP; Professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Mackenzie; São Paulo – SP [Brasil] mstuermer@mackenzie.br A cidade de São Paulo tem grande parte de suas áreas úmidas drenadas e aterradas. A ocupação das várzeas traz diversos problemas para o município, comprometendo a paisagem natural dos rios e córregos. Os problemas abrangem desde a interrupção dos processos ecossistêmicos até questões de dre- nagem superficial. A reabertura de alguns trechos dos rios e córregos do município talvez contribua para a conscientização ambiental dos paulistanos, principalmente a respeito da loca- lização dos rios e da péssima condição das águas. A abertura dos canais como solução para o retardo do escoamento das águas superficiais tem sido avaliada como menos dispendiosa do que a construção e manutenção de piscinões. Este pode ser o início de um processo de valorização das áreas úmidas do município de São Paulo, mesmo que de maneira indireta. Palavras-chave: Drenagem. Identidade ambiental. Renaturalização. Rios. São Paulo.Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008. 147
  2. 2. 1 Introdução qüência a impermeabilização do solo, que fun- cionava como sistema de armazenamento natural A paisagem natural da cidade de São Paulo das águas. Acrescenta-se a esse problema a prática na época de sua fundação era composta por re- de canalizações dos rios e córregos, alterando o cursos naturais em harmonia com a estrutura e comportamento das enchentes e exigindo cada vez identidade local (LYNCH, 1988). mais medidas para disciplinar e conter as águas. A região, parte do bioma da Mata Atlântica, Neste trabalho, pretende-se estudar a forma apresentava, inicialmente, grande riqueza em água como a cidade perdeu a relação com suas águas e doce, em razão da profusão de nascentes entreme- a percepção do território, em especial das áreas de adas a um “mar de morros” (AB’SABER, 2003), várzea. Busca-se também propor um resgate dos responsáveis pela formação e manutenção de inú- rios e córregos na paisagem urbana, por meio de meros rios e córregos que se espraiavam em planí- outras formas de ocupação das áreas inundáveis cies e várzeas, compondo, assim, as áreas úmidas da cidade. das “terras baixas” da região. A Figura 1 apresenta, parcialmente, o farto sistema hídrico e a grande extensão de áreas de 2 Histórico da ocupação das inundação do município de São Paulo. áreas úmidas do município de São Paulo A maior parte do território do município de São Paulo localiza-se em um planalto sobre uma bacia sedimentar, de topografia amena, circunda- da por terras altas e serras (AB’SABER, 2007). O farto sistema hídrico e a topografia amigável do espigão central (com cotas variando de 800 a 820 metros) impulsionaram a ocupação original da co- lina histórica de São Paulo e direcionaram sua ex- pansão territorial ao longo de seus vales (PRADO Figura 1: 1650 – vista do Vale do rio Tietê a partir do encontro com o Jurubatuba (atual Pinheiros) JR., 1972). Fonte: Aziz Ab’ Saber apud Alvim, 2003, p. 222. Os rios paulistanos fugiam aos mercados ex- portadores, que rumavam em direção ao interior do país, e não à costa brasileira. Passaram a ser A proximidade da água foi fator preponde- utilizados apenas no século XVIII pela monções, rante para a escolha do território a ser ocupado, que se constituíam em frotas comerciais a fim de uma vez que, ao mesmo tempo, o rio e a várzea transportar alimento às minas de Goiás e Mato proporcionavam alimento e proteção à província. Grosso. Para as bandeiras, o rio representava um Em meio a esse cenário, iniciou-se a urba- obstáculo à marcha, e seu uso era ocasional; já nização de uma das maiores megacidades da para as monções, era a regra, um disciplinador do atualidade. movimento1. Os rios Tietê e Tamanduateí foram No entanto, o processo de urbanização, ocor- muito importantes durante o período de coloni- rido a partir dos anos 1960, trouxe como conse- zação brasileira, pois por meio deles iniciou-se a148 Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.
  3. 3. Artigosexploração do interior brasileiro, por parte das No rio Bexiga, não existia represamento, sen-tropas conduzidas por bandeirantes. do sua contribuição direta ao rio Anhangabaú. O Durante a travessia pelas terras e paragens rio Saracura teve suas águas represadas, formandopaulistas, já nos idos do século XVIII, os relatos o Tanque Reúno. Não tão próximo às nascentes,de viajantes apresentavam claramente as interven- também reunia quantidade de água considerávelções antrópicas (LANGENBUCH, 1971). Não e abastecia o Chafariz do Piques, por meio de seuseria possível instalar uma província ou uma ci- reservatório, a Bacia da Pirâmide. As águas eramdade em meio a um ambiente totalmente natural aduzidas pelo Morro do Chá e bairro de Santasem abrir clareiras, construir estradas, edificações Ifigênia, para alimentar o lago central do Jardimpara habitação e produção de bens, tais como ar- Botânico – atual Jardim da Luz.mazéns para troca e estocagem de mercadorias. O Tanque do Zuniga era conhecido por Na paisagem da imperial cidade de São Paulo, Praça das Alagoas, e abrigava as nascentes for-havia muitos rios e córregos; no entanto, foi no madoras do rio Yacuba, que, em seu trajeto até o rio Anhangabaú, recolhia as águas de quali-entorno de alguns que a cidade se desenvolveu ini- dade duvidosa da Bica do Acu. O dessecamentocialmente, utilizando-os nos primeiros processos do Tanque do Zuniga transformou a Praça dasde abastecimento da população. Alagoas no Largo do Payssandu, e o encaminha- A cidade imperial de São Paulo desaguava mento das águas foi feito em canos de ferro até agrande parte de seus recursos hídricos na bacia do Rua Payssandu.rio Tamanduateí, um dos principais afluentes do Contribuindo para esse cenário de desse-rio Tietê, e de grande extensão e abrangência. camento da cidade, o desenvolvimento da trama O principal afluente do rio Tamanduateí na urbana drenou diversos rios e córregos e estrutu-área central e histórica era o rio Anhangabaú, rou a rede de transporte por meio dos fundos deque recebia as contribuições dos córregos Yacuba, vale, como é o caso da Avenida Nove de Julho,Saracura e Bexiga. Desaguando a montante do construída sobre o leito do rio Saracura; Avenidario Anhangabaú havia os rios Cabuçu Pequeno e 23 de Maio, sobre o rio Anhangabaú; AvenidaCabuçu de Cima – este recebia as águas do Cabuçu dos Estados, sobre o rio Tamanduateí; Avenidade Baixo. As águas do Tanque do Arouche esco- Pacaembu, sobre o córrego do Pacaembu, e outrosavam contribuindo para formação do Córrego tantos corpos hídricos da cidade que foram supri-do Carvalho, que desaguava a jusante do rio midos da leitura paisagística.Anhangabaú no rio Tamanduateí. A modernização da paisagem (ALVIM, O rio Anhangabaú teve suas nascentes repre- 2006) não se restringe ao território da cidade, massadas, formando os tanques Municipal e de Santa abrange a extensão ao longo dos rios e córregos,Teresa, no antigo Morro do Caaguaçu, na altura pois os rios, além de potenciais reservas para odo Paraíso. Esses dois tanques foram as primeiras abastecimento das populações, logo são visualiza-alternativas de abastecimento da cidade e, por- dos como potencial hidroelétrico, principalmentetanto, motivo de estudo para possível regulari- em um momento em que a cidade de São Paulo vivezação da vazão destinada aos diversos chafarizes a industrialização e a modernização dos serviçosde abastecimento existentes em 1884. No entan- urbanos, e a atenção política está voltada para ato, não havia potencialidade hídrica para tanto criação de infra-estrutura necessária à expansão(GASPAR, 1970). econômica da cidade e do estado. Projeta-se, en-Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008. 149
  4. 4. tão, a transformação da paisagem para adequar As vias marginais, consolidadas sobre os a natureza às necessidades do desenvolvimento antigos acessos dos clubes aos rios, descaracte- econômico. rizaram a paisagem natural das várzeas, espaços O fim do século XIX e a primeira metade de convivência nos quais se podia admirar o pôr- do século XX foram momentos tecnocentristas do-sol espelhado nas águas dos rios, os barcos a (SARAIVA, 1999), nos quais todas as alternativas remo e as competições de natação. econômicas giraram em torno do desenvolvimento A partir do Plano de Avenidas, de Prestes de técnicas. A Light, ao receber a concessão para Maia, em 1930, os fundos de vale foram vistos explorar o Alto Tietê, comprometeu-se a estabe- como solução para a ampliação do sistema viá- lecer uma hidrovia que atingisse o alto da Serra rio urbano, transformando o sistema hídrico da do Mar para escoamento de mercadorias por meio cidade e trazendo novas complicações para a as dos rios Tietê, Pinheiros e Grande. Os rios eram questões de drenagem do território. vistos também como vias de comunicação secun- Vários planos para resolver os problemas dárias à estrada de ferro, e seriam utilizados no da drenagem no município se sucederam, mas, caso da inacessibilidade às ferrovias, em razão das como sempre, eram projetos de longa duração. grandes distâncias entre as fazendas produtoras A evolução da ocupação urbana exigiu a suces- de café e os troncos ferroviários centrais. siva revisão das vazões de projeto. Por exemplo, Em 1924, apesar da discutida poluição do no trecho do rio Tietê compreendido entre a foz rio Tietê, foi realizada a primeira travessia de São do Tamanduateí e o município de Osasco, a va- Paulo a nado. No entanto, muitos clubes, perce- zão de projeto do plano de 1894 era de 174 m3/ bendo a situação de poluição crescente dos rios, s, passando a 400 m3/s no projeto de Saturnino optaram por construir piscinas particulares em Brito (1925); 650 m3/s, no Plano Hibrace (1968), vez de lutar pelo direito ao direito desse recurso e 1.188 m3/s, no Projeto Promon, de 1986. Os natural. A poluição e a retificação dos rios, as- estudos de enchentes elaborados pelo Consórcio sim como as proibições de banhos nus, causaram Hidroplan (1995) já indicaram valores cerca de abandono da prática de natação. 20% superiores aos obtidos no Projeto Promon. A mesma defasagem entre capacidades e deman- Com o final da disputa da Travessia de São Paulo a Nado do Tietê em 1944, das hidrológicas também é verificada em diver- encerrou-se um ciclo na história da sos rios e córregos que sofreram intervenções aquática paulista, em que o rio teve na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) presença marcante. […] A suspensão (DAEE,1998). daquela prova correspondeu ao ates- Em quase todos os processos de trans- tado de óbito do rio, cujo significado formação da paisagem ocorridos no município para a natação paulista tinha come- de São Paulo, a vegetação foi praticamente di- çado a declinar quando a A. A. São zimada, e a água dos rios, como elemento da Paulo, o Clube Espéria, o Sport Club paisagem, também sofreu diversas descaracte- Germania e o Clube de Regatas do rizações. A cidade não soube respeitar a natu- Tietê construíram suas piscinas no reza, não conservou seus rios e ribeirões; ao período compreendido entre 1929 e contrário, escondeu-os em grossas tubulações 1934. (NICOLINI, 2001, p. 106). sob a terra.150 Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.
  5. 5. Artigos3 Renaturalização de rios e de um melhor e mais rápido escoamento das águas córregos no município de pluviais e fluviais do município. São Paulo O Projeto Tietê, executado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), é uma das As principais zonas de vida silvestre (ODUM, maiores obras de drenagem urbana do Brasil e faz1988) geralmente estão lindeiras à cidade, sendo, parte do Programa de Combate às Inundações damuitas vezes, coincidentes com áreas naturais ou Região da Grande São Paulo. O Projeto é umaÁreas de Preservação Ambiental (APAs). Os sis- parceria do Governo de São Paulo com o Japantemas hídricos, que têm suas nascentes nessas Bank for International Cooperation (JBIC) queáreas, no processo de expansão do tecido urbano financia 75% das obras. O leito do rio Tietê foisão contaminados ou poluídos, ou até dizimados, aprofundado, em média, 2,5 m, numa extensãoobrigando a busca por água em áreas mais dis- de 24,5 km. A largura das margens foi aumentadatantes – o que onera a infra-estrutura da cidade. de 26 m para até 45 m, dando ao rio o dobro daO rio Tietê, que é o principal corpo hídrico do capacidade de vazão.Estado de São Paulo, no trecho em que atravessa O escoamento do município de São Pauloa capital, distando apenas 150 km de sua nascen- deve obedecer às diretrizes do Plano Diretorte em Salesópolis, encontra-se altamente poluído Metropolitano do Alto Tietê (PDMAT, 1998),(BROCANELI, 1998). que, por meio do estudo dos hidrogramas dos di- Visando primordialmente ao combate às versos afluentes do rio Tietê, estabeleceu vazõesenchentes na RMSP, por meio de uma aborda- máximas a serem lançadas no rio em períodos degem integrada dos problemas em todas as prin- chuva crítica.cipais sub-bacias da bacia hidrográfica do Alto Segundo o DAEE, o Plano Diretor deTietê, em 1998 foi elaborado o Plano Diretor de Macrodrenagem (1998) visa diagnosticar os pro-Macrodrenagem da bacia do Alto Tietê, que busca blemas existentes ou previstos no horizonte docomplementar as obras de melhoria hidráulica dos projeto (2020) e determinar, do ponto de vistarios Tietê e Tamanduateí. O Plano Diretor, em sua técnico-econômico e ambiental, as soluções maisestruturação atual, contempla soluções para as se- interessantes. Tais soluções não envolvem apenasguintes bacias: obras, mas também recomendações quanto ao ge- renciamento da drenagem, o disciplinamento de • Bacia do rio Tamanduateí (estão incluídas as uso e ocupação do solo, educação ambiental e ou- sub-bacias dos ribeirões dos Meninos e Couros tras medidas não-estruturais. e do córrego do Oratório); O Plano introduziu como uma das premissas • Bacia do córrego Pirajuçara; fundamentais para o desenvolvimento dos estudos • Bacia do rio Aricanduva e Calha do rio Tietê; e diagnósticos a fixação do conceito da chamada • Bacia do ribeirão Vermelho; vazão de restrição. • Bacia do Médio Juqueri; Há um limite físico para expansão e aumento • Bacia do rio Baquirivu. da capacidade hidráulica de escoamento dos prin- cipais cursos d’água drenantes da bacia do Alto Recentemente, concluíram-se as obras para o Tietê, como é o caso específico das calhas dosrebaixamento do leito do rio Tietê e também para rios Tietê e Tamanduateí. Uma vez diagnosticadaa impermeabilização das margens, tudo em prol a capacidade restritiva de um determinado cursoExacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008. 151
  6. 6. d’água, busca-se um conjunto de obras adequado fundo de vale, expandindo e reforçando o padrão a sua sub-bacia correspondente, de forma que sua de ocupação das áreas úmidas da cidade. No en- vazão de restrição não seja ultrapassada. tanto, há de se ressaltar que o PROCAV 1 iniciou Uma das soluções tecnocêntricas adotadas a implantação de suas diretrizes em 1987, quan- pelo município de São Paulo foi a construção de do as questões ambientais já estavam em pauta uma série de reservatórios a montante das cheias, no cenário mundial, mas ainda não havia maior para estabilizar o escoamento. Tais reservatórios, consciência das questões ambientais urbanas. Já denominados popularmente de piscinões, atuam o PROCAV 2, de 1994, foi um investimento que na contenção de grande parte das águas que de- não considerou as questões ambientais urbanas veriam estar infiltrando-se no solo para o equilí- e/ou conceitos ecossistêmicos aliados à ecolo- brio do ciclo hidrológico e dos lençóis freáticos, gia da paisagem e às diretrizes de planejamento e que, escoando rapidamente até o leito do prin- ambiental para a formação das cidades sustentá- cipal rio do sistema hídrico da cidade, o Tietê, veis, contemplados na AGENDA 21, produto da causam cheias e extrapolam o volume previsto no Conferência das Nações Unidades para o Meio Plano Diretor de Macrodrenagem do Alto Tietê Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD – (PDMAT) (CANHOLI, 2007)3. ECO-92, Rio de Janeiro). Associada aos reservatórios, a administração Tanto o PROCAV 1 quanto o PROCAV 2 municipal criou dois Programas de Canalização utilizaram sistemas de canalização associados aos de Córregos, Implantação de Vias e Recuperação reservatórios de contenção de cheias, conhecidos Ambiental e Social dos Fundos de Vale, respecti- popularmente como “piscinões”. No entanto, são vamente denominados PROCAV 1 e PROCAV 2. poucos os sistemas que se utilizam de canalizações O PROCAV 1 foi um programa da Prefeitura associadas aos reservatórios do tipo “piscinão” da Cidade de São Paulo, de obras múltiplas realiza- que não apresentam problemas de manutenção ou das em bacias hidrográficas do município, inicia- extravasão. Um exemplo bem-sucedido é o sistema do em 1987 com a canalização de nove córregos, executado na região de Higienópolis/Consolação, num total de 27,9 km de canais, 23,8 km de aveni- zona oeste do município. das, remoção de 1.590 famílias e 995 imóveis das O ribeirão do Pacaembu foi canalizado na áreas de intervenções das obras. O PROCAV 2, iniciado em 1994, contemplou a canalização de 11 década de 1920-1930, quando a Cia. City deu iní- córregos distribuídos pelas zonas leste, norte e sul cio à urbanização do vale. Entretanto, anos mais do município de São Paulo, totalizando 35,4 km tarde, em razão do desenvolvimento urbano e da de córregos canalizados, 36,6 km de vias margi- conseqüente impermeabilização da área de sua mi- nais paralelas ao longo desses córregos, a constru- crobacia do ribeirão do Pacaembu, houve necessi- ção de oito reservatórios de detenção, a remoção dade de um projeto complementar de drenagem de 4.500 famílias, a desapropriação de cerca de para a solução das cheias. Esse projeto, executado novecentos imóveis das áreas de intervenção das em 1992, incluiu um reservatório de amorteci- obras, a urbanização de três favelas e a implanta- mento de cheias sob a Praça Charles Miller, o pri- ção de 29 praças públicas.4 meiro “piscinão” construído na cidade. O projeto Segundo Brocaneli (2007), esses programas também previu a readequação do sistema de dre- contribuíram tanto para a canalização de cór- nagem, com recuperação das galerias existentes, regos quanto para a construção de avenidas de direcionando-as para o reservatório.152 Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.
  7. 7. Artigos Os piscinões, quando em áreas urbanas deocupação consolidada, apresentam uma vazão demontante estável, enquanto na periferia da cida-de, devido ainda às possibilidades de expansão, háconstantes acréscimos de vazão que ultrapassam acapacidade projetada para o sistema. Além disso,existe falta de manutenção e limpeza, o que, porvezes, transforma alguns locais em áreas sanita-riamente impróprias, inviabilizando o tratamentopaisagístico e/ou ecossistêmico. Essa política de sistema de macrodrenagemaplicada ao município de São Paulo se baseia Figura 2: diferenças no amortecimento do hidrograma de enchente em razão deno conceito de escoar, o mais rápido possível, a modificações no percurso do curso de águaágua precipitada. Esse princípio foi abandonado Fonte: Rio de Janeiro (Estado), 2001, p. 57.pelos países desenvolvidos no início da décadade 1970 (TUCCI, 2003). A conseqüência ime- O tema vem ganhando importância, mas ain-diata dos projetos baseados neste conceito é o da é muito discutido e alvo de muitas divergências.aumento das inundações a jusante decorrentes A renaturalização dos rios e córregos permite nãoda canalização. À medida que a precipitação só o espraiamento das águas pluviais remetidas aoocorre, e a água não é infiltrada no solo, o vo- sistema, mas também o amortecimento do picolume escoa pelos condutos do sistema de dre- do hidrograma de vazão, evitando ou reduzindonagem. A retificação de um córrego aumenta a as inundações de forma natural, como ressaltouvelocidade das águas e o pico do hidrograma de o presidente da Agência da Bacia do Alto Tietê,jusante, podendo causar verdadeiras catástrofes Julio Cerqueira Cesar Neto (FOLGATO, 2006).em relação à inundação. Segundo Tucci (2003), Os estudos que estão sendo desenvolvi-países desenvolvidos verificaram que os custos dos pela Secretaria Municipal do Verde e Meiode canalização eram muito altos e abandonaram Ambiente para a abertura de vários córregos pelaesse tipo de solução no início dos anos 1970, cidade também são relatados, ainda que de for-enquanto os países em desenvolvimento adotam ma breve, por Folgato (2006). Entre eles está osistematicamente essas medidas, perdendo duas córrego Itororó, localizado sob o canteiro centralvezes, pois têm custos muito maiores e aumento da Avenida 23 de Maio, entre os Viadutos Paraísodos prejuízos. Diante da complexidade das questões de e Brigadeiro Luís Antonio, como alternativa àdrenagem do município, e considerando as ques- construção dos dois piscinões subterrâneos nastões levantadas, surge a descanalização ou a re- Praças da Bandeira e 14 Bis, rejeitados pelo ór-naturalização de alguns rios e córregos da cidade gão ambiental em janeiro de 2006. Ainda segundode São Paulo, como um sistema alternativo de Folgato (2006), as primeiras renaturalizações demacrodrenagem. Entende-se por renaturalização córregos não prevêem desapropriações e custa-de rios o processo de trazer ao rio sua condi- riam bem menos do que a construção de piscinõesção mais natural ou original possível (SOUZA; (não há menção aos valores da obra). Áreas den-KOBIYAMA, 2003). samente ocupadas não estariam englobadas nessesExacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008. 153
  8. 8. estudos, pois não se deseja, a princípio, promover equilíbrio ambiental no espaço da cidade é um desapropriações. dos fatores para o desenvolvimento das cidades No entanto, o presidente da Agência da sustentáveis. Bacia do Alto Tietê, Julio Cerqueira Cesar Neto, não acredita nessa proposta, e ressalta que, no caso da Avenida 23 de maio, a Prefeitura não 4 Considerações finais deverá alcançar o mesmo sucesso obtido com os piscinões anteriormente previstos, que são de A cidade de São Paulo se expandiu além dos grande porte. limites naturais do território, extrapolando as ta- Ainda em relação ao córrego Itororó e seus xas de impermeabilização sobre as áreas permeá- canais, levantam-se aqui algumas questões: veis da cidade, dessecando e aterrando as várzeas dos rios e córregos, áreas frágeis que deveriam ser • Onde se localizam as nascentes desses rios e mantidas úmidas para equilibrar a recarga do len- como serão preservadas as áreas de manan- çol freático. ciais desses cursos d’água e córregos? A ausência de diretrizes ambientais nos pro- • Com a drenagem das áreas úmidas e o conse- cessos de planejamento urbano desenvolvidos na qüente rebaixamento do lençol freático, esses cidade colaborou para que não se resguardassem rios ainda apresentariam volume d’água? os recursos naturais necessários ao bom, belo e • De que forma se espera recuperar a qualida- saudável desenvolvimento da cidade. de da água destes córregos? Mesmo com todas as modificações no uso • Como se daria o espraiamento da água do e ocupação do solo e os novos planos diretores, córrego na época das cheias, uma vez que o uso do fundo de vale com sistema viário conti- sua planície de inundação extrapola a área nua sendo implantado no Município de São Paulo, do canteiro central da Avenida 23 de Maio? apesar de apresentar pouca eficácia na solução dos problemas de acessibilidade e mobilidade da Ações urbanas na macroescala, tais como o população, trazendo, sim, complicações quanto às gerenciamento de recursos hídricos e o conseqüen- questões de drenagem do território. te tratamento dessa paisagem, devem ser projeta- Os estudos hidrológicos, necessários e dese- das, considerando as questões ecossistêmicas por jáveis quando se analisa a questão de drenagem, meio do instrumento de planejamento ambiental representam modelos indicativos do funciona- (FRANCO, 2000), para tornar possível a valori- mento do ciclo hidrológico, e os parâmetros ob- zação e o reconhecimento da identidade ambien- tidos deveriam ser analisados com ressalvas, es- tal de um território (BROCANELI, 2007). 5 pecialmente em áreas urbanas onde a paisagem se Ainda segundo Brocaneli (2007), parece ser altera com velocidade, impondo modificações sig- de grande importância o ressurgimento da água nificativas nas características da bacia hidrográ- na paisagem paulistana, não somente como ate- fica. Observa-se que, quando ocorrem falhas de nuante das cheias, mas também como elemento projeto ou estes são superados pelas modificações de integração na relação homem x natureza. A das características da bacia hidrográfica, as solu- exposição das águas na paisagem da cidade e ções adotadas consistem na revisão dos cálculos e seu reconhecimento é uma necessidade tanto ur- readequação do sistema, sem a análise ou conside- bana e paisagística quanto ecossistêmica, pois o ração de outras soluções.154 Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.
  9. 9. Artigos Observa-se que a apresentação de projetos maintenance of flood detention reservoir. Thisde renaturalização que não prevêem espaços para can be the beginning of a process of valorizationa recuperação da vegetação e do traçado meân- of the humid areas of São Paulo, even though of indirect way.drico do rio ao longo de suas margens é tão ina-dequada quanto os projetos de canalização de Key words: Draining. Environmental identity. Renaturalization. Rivers. São Paulo city.um curso d’água. A renaturalização dos córregos pode ser vis-ta não somente como uma solução de drenagem Notasurbana, mas também como uma grande oportu- 1 Sergio Buarque de Holanda definiu os rios como “disciplinadores do movimento” no livro A água no olhar danidade para o ressurgimento das águas na cida- história. SÃO PAULO [Estado], 1999, p. 12.de, no que se refere à formação de um sistema de 2 Aluisio Pardo Canholi, professor doutor, coordenadorumidificação, refrigeração e áreas verdes urbanas técnico do PDMAT pelo Consórcio Enger-CKC e diretor da Hidrostudio Engenharia Ltda. O Planoaliadas ao lazer e ao turismo, a fim de proporcio- Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê. Disponível em: <http://www.brasilengenharia.com.br/nar viabilidade econômica para a implantação e PlanoDiretorMacrodrenagem548.htm>. Acesso em: 28 nov.manutenção dessas áreas. 2007. Acredita-se que o verdadeiro dilema que se 3 Dados disponíveis em: <http://portal.prefeitura.sp.gov. br/secretarias/infraestruturaurbana/piscinoes/0014>. Acessoimpõe à gestão das águas, nos processos de aber- em: 4 nov. 2006.tura de rios e córregos, quando se busca a cidade 4 Dados disponíveis em: <http://portal.prefeitura.sp.gov. br/secretarias/infraestruturaurbana/piscinoes/0014>. Acessosustentável, é a necessidade de reintegrar o rio à em: 4 nov. 2006.bacia hidrográfica à qual pertence, de forma que 5 A identidade ambiental é entendida como um conjuntoesta possa sustentar o córrego quando descanali- de fatores ambientais que oferece ao local uma paisagem diferenciada das demais, por vezes única no mundo.zado, por meio de processos naturais que equili-brem a recarga do lençol freático e a condução daságuas superficiais. Referências AB’SABER, A. N. Geomorfologia do sítio urbano de Renaturalization of rivers and São Paulo. Edição fac-similar – 50 anos. Cotia: Ateliê Editorial, 2007. 349 p. streams in São Paulo city _______. Os domínios de natureza no Brasil: The city of São Paulo has great part of its humid potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, areas drained and filled with earth. The occu- 2003. pation of fertile valleys brings diverse problems ALVIM, A. T. B. A contribuição do Comitê do Alto for the city, compromising the natural landscape Tietê à gestão da Bacia Metropolitana: 1994-2001. of the rivers and streams. The problems enclose 2003. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo)- since the interruption of the environmental Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de processes to questions of superficial draining. São Paulo, São Paulo, 2003. Perhaps the reopening of some stretches of the ______. et al. A modernidade e os conflitos rivers and streams of the city contributes for the socioambientais em São Paulo: um olhar sobre o Plano ambient awareness of the citizens of Sao Paulo, Diretor Estratégico Municipal. In: ENCONTRO DA ANPPAS, 3. 2006. Brasília, DF: 23 a 26 de maio de mainly regarding the localization of the rivers 2006. and bad condition of waters. The opening of the canals as solution for the retardation of the BROCANELI, P. F. A incorporação da água no draining of superficial waters has been evalu- ambiente urbano da cidade de São Paulo. 1998. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)- ated as less expensive than the construction and Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 1998.Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008. 155
  10. 10. ______. O ressurgimento das águas na paisagem NICOLINI, H. Tietê: o rio do esporte. São Paulo: Phorte paulistana: fator fundamental para a cidade sustentável. editora, 2001. 2007. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo)- ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2007. Koogan,1988. CANHOLI, A. P. O Plano Diretor de PRADO JR., C. O fator geográfico na formação e Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê. Disponível desenvolvimento da cidade de São Paulo. In: ______. em: <http://www.brasilengenharia.com.br/ Evolução política do Brasil. São Paulo: Brasiliense, PlanoDiretorMacrodrenagem548.htm>. Acesso em: 1972. 28/11/2007. RIO DE JANEIRO (Estado). Secretaria de Estado DEPARTAMENTO DE ÁGUA E ENERGIA ELÉTRICA de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. (DAEE). Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia Revitalização de rios: orientação técnica. Rio de Janeiro: do Alto Tietê, 1998. Disponível em: <http://www.daee. SEMADS, 2001. (Projeto Planagua Semads GTZ, de sp.gov.br>. Acesso em: 26/10/2007. Cooperação Técnica Brasil/Alemanha). FOLGATO, M. Reabertura de córregos que correm SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. A sob as galerias das avenidas é alternativa à construção água no olhar da história. São Paulo, 1999. p. 12. de piscinões. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 17 abr. SARAIVA, M. G. A. O rio como paisagem: gestão 2006. Caderno Metrópole: 23 de Maio terá córrego de novo. de corredores fluviais no quadro do ordenamento do território. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999. FRANCO, M. A. R. Planejamento ambiental para a cidade sustentável. São Paulo, Annablume: Fapesp, SOUZA, D. P.; KOBIYAMA, M. Ecoengenharia em 2000. zona ripária: renaturalização de rios e recuperação de vegetação ripária. In: WAGNER, A. SEMINÁRIO DE GASPAR, B. Fontes e chafarizes de São Paulo. São HIDROLOGIA FLORESTAL, ZONAS RIPÁRIAS. 1., Paulo: IOESP, 1970. 2003, Florianópolis: PPGEA/UFSC, 2003. v. 1. p. 121- LANGENBUCH, J. R. A estruturação da Grande São 131. Paulo. Rio de Janeiro: IBGE, 1971. TUCCI, C. E. M. Parâmetros do Hidrograma Unitário LYNCH, K. A imagem da cidade. Lisboa: Lousanense, para bacias urbanas brasileiras. RBRH, Porto Alegre, v. 1988. 8, n. 2, p.195-199, 2003. Recebido em 7 fev. 2008 / aprovado em 7 abr. 2008 Para referenciar este texto BRONCANELI, P. F.; STUERMER, M. M. Renaturalização de rios e córregos no município de São Paulo. Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.156 Exacta, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 147-156, jan./jun. 2008.

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