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É preciso reverter o rompimento entre negócios e educação com urgência

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Uma excelente reportagem da HSM que trata da educação, da economia, da tecnologia no mundo; da construção de talentos e dos “empecilhos” da proposta educacional padronizada (ENEM) colocada na visão de uma das mais respeitadas autoridades mundiais em inovação e educação - Ken Robinson.

A entrevista é simplesmente fantástica e de um rico conteúdo.

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É preciso reverter o rompimento entre negócios e educação com urgência

  1. 1. AltA gerênciA É preciso reverter o rompimento entre negócios e educação com urgência, diz ken robinson, em entrevista exclusiva A entrevista é de Adriana Salles gomes, editora-executiva de HSM MAnAgeMent. “DESTRUÍMOS TALENTOS” Foto: Divulgação22 HSMManagement hsmmanagement.com.br
  2. 2. c omo diagnosticou recentemente Carlos Arruda, espe- Sabe o que mudou essencialmente? Ficou muito maiscialista em competitividade da Fundação Dom Cabral, o forte a ideia de que temos a tendência de fazer pouco usoBrasil não tem capacidade humana para se sustentar como institucional do talento das pessoas e que assistimos a umum país desenvolvido. A raiz disso pode ser distinta do que enorme desperdício de potencial humano e possibilidades.pensa a maioria, contudo, pois talentos não faltam; eles sãosistematicamente destruídos. É o que diz sir Ken Robinson, Mas as empresas entendem de fato que há esse desperdíciouma das maiores autoridades mundiais em inovação e de potencial humano e que ele afeta os negócios?educação, não apenas sobre o Brasil, mas sobre boa par- Esse desperdício afeta a economia inteira! A educação daste do planeta. Esse britânico que migrou para a Califórnia pessoas e a economia são coisas intimamente ligadas eafirma que, pior do que isso, a relação entre a educação e essa área vai muito mal. Vejo que algumas empresas estãoos negócios foi rompida e o resultado pode ser desastroso. começando a entender a gravidade do problema. Um pon- Em entrevista exclusiva à editora-executiva Adriana to favorável ao mundo dos negócios é que, nele, as pessoasSalles Gomes, Robinson alerta para uma revolução silen- estão sinceramente interessadas na inovação, apenas nãociosa (indesejável para as empresas) já em curso, diz que sabem como promovê-la.a solução está na personalização da educação, compara a Por anos e anos as empresas partiram do pressuposto deinovação com o rock e recomenda aos líderes que se con- que, ao serem formalmente instruídas, as pessoas terão ascentrem em criatividade, entre outros conselhos práticos. habilidades, aptidões e competências de que os negócios precisam. Os pais, por sua vez, também presumiam que,Você escreveu o livro Out of Our Minds 11 anos atrás e agora uma vez educados, seus filhos teriam emprego e renda. Sóo está relançando com grande impacto —no Brasil, será in- que essa relação entre negócios e educação está rompida;titulado libertando o Poder criativo. Quero saber se quem nós destruímos talentos.leu a primeira edição precisa ler essa também...Eu digo às pessoas que leram a primeira edição que a jo- São fortes essas afirmações, sir Ken.guem fora e comprem esta [risos]. É um livro completa- Sim, e são absolutamente realistas. As escolas estão sendomente novo. Muito do que falei em 2001 ainda é verdade, sufocadas com essas exigências de testes padronizados e,só que aconteceram milhares de coisas nesses anos que por isso, passam uma visão estreita de habilidades. O re-não podiam ser previstas, da recessão mundial aos smart- sultado é que os futuros adultos perdem o contato com suaphones, iPads e redes sociais. Se um livro é sobre a neces- criatividade, ironicamente a habilidade mais necessária àssidade e a forma de mudar, tudo isso pesa. empresas na atualidade. O sistema de educação é baseado em uma série de mal-A economia e a tecnologia influenciam tanto assim? -entendidos entre as comunidades educacionais e as deNem é a tecnologia em si que influencia, mas a maneira negócios —e os propósitos comuns de ambas.como as pessoas a usam, que é imprevisível. Quando oTwitter foi lançado alguns anos atrás, sinceramente, ele como desfazer o nó? Por exemplo, no caso do Brasil, testesme pareceu a mais ridícula das ideias. Mas, nos últimos padronizados são a regra absoluta, no acesso ao ensino su-cinco anos, virou esse fenômeno global, tomando parte perior, na métrica de desempenho enem.em revoluções e tendências de mercado, e ajudou a mu- É necessário fazer uma revolução na educação. Uma dasdar a forma como as pessoas se comunicam e os assun- razões é que o mundo já se encontra em estado de revolu-tos de que tratam. Até eu me converti ao Twitter. ção, pois vem mudando rápida e profundamente. Os desa- As ferramentas da internet e os games podem ajudar fios que nossos filhos enfrentarão não têm precedentes, sejamuito a excitar a imaginação e a energizar crianças e jo- na área de energia, nas questões culturais, nos alimentosvens, o que é urgente. Agora, não substituem as pessoas —temos epidemias de inanição e obesidade ao mesmo tem-na educação. Hans Zimmer, que é um dos compositores po! Há uma gigantesca e dificílima agenda para a humani-de músicas para filmes mais bem-sucedidos do mundo dade enfrentar no futuro próximo. O que permitirá que li-todo —e curiosamente foi expulso de cinco escolas—, me dem com isso? Nos anos 1920, H.G. Wells, escritor de ficçãocontou recentemente que compõe todas suas músicas no científica, dizia: “A civilização está em uma corrida entrecomputador, mas faz questão de gravá-las no estúdio com a educação e a catástrofe”. A educação o permitirá, só quemúsicos tocando, porque nenhum software substitui a revolucionada. E a revolução já está em curso; como todasvitalidade e a sensibilidade humanas. Eu tinha tudo isso as revoluções, começou embaixo e não em cima.a dizer e muito mais. Aprendi muito nesses dez anos deintenso contato com as empresas, por exemplo; isso enri- O sonho revolucionário da maioria das empresas no Brasil équeceu demais minha experiência, que era principalmente o modelo educacional sul-coreano. O que você pensa dele?com escolas, universidades e governos. E também vir para O modelo é de diversos países da Ásia, como Taiwan, Chi-a Califórnia foi um grande aprendizado. na, e aconteceu no Japão também. Seu princípio é o de pro- HSMManagement hsmmanagement.com.br 23
  3. 3. AltA gerênciA mover uma hipercompetição entre as crianças, fazendo-as nam e o que fazem na sala de aula, estarão revolucionando esforçar-se para absorver mais informações, passar em pro- o sistema educacional. É exatamente assim que funciona a vas, fazer tarefas. Acho que é um engano terrível, pois se ba- mudança social. Quando eu era jovem, na Inglaterra, todos seia numa regra válida no século 20 que agora expirou: “Se fumavam e ninguém usava cinto de segurança em carro. fizer tudo certo na escola e na universidade, você arrumará Hoje, quase ninguém fuma e todos usam cinto. Uma vez que emprego”. Por que expirou? Porque isso só funciona quan- os hábitos mudam e uma nova ideia se torna vital, ela se do poucas pessoas têm diploma universitário. E, além de espalha e revoluciona a cultura rapidamente. não haver mais essa garantia, os profissionais que chegam às empresas não têm a competência de que elas precisam, As empresas podem ter um papel a cumprir aí? Você costuma porque pagaram um preço enorme por essa obsessão com- falar em parcerias criativas entre empresas e escolas... petitiva. Cada criança que passou por esse tipo de sistema Gosto de citar a iniciativa “capitalismo consciente”, que par- e não conseguiu ir para a universidade certa tornou-se um tiu do empresário John Mackay, da varejista Whole Foods ser humano frustrado, ansioso, deprimido. Então, desperdi- Market, e vem atraindo cada vez mais empresas. Seu racio- çamos, ou destruímos, uma quantidade incomensurável de cínio é de que, apesar de as companhias serem criadas para talentos em nome de um propósito que não é mais verdade. gerar lucros, elas já podem escolher entre formas éticas e não éticas de fazê-lo. No futuro, tal- vez precisem ser éticas, desenvol- vendo novos papéis ligados a res- ponsabilidade e sustentabilidade em “a insatisfação com a educação conjunto com as comunidades. Isso vale tanto para a educação criativa tradicional leva as pessoas dentro da própria empresa, como faz o Google, por exemplo, quanto para as tecnologias virtuais” para sua conexão com a comunida- de externa, que pode ser feita com as escolas. Nos EUA, há toda uma rede de escolas chamadas Big Picture Schools, em que as crianças podem Você falou em revolução. Que sinais podemos ver? passar dois dias por semana trabalhando em organizações Um dos motivos pelos quais as pessoas estão usando tanto que estão fazendo o que lhes interessa, como estúdios de as tecnologias virtuais é sua insatisfação com a educação design, clínicas veterinárias, delegacias de polícia etc. E isso tradicional. Preferem aprender sozinhas online. E, quanto está provando ser muito eficaz. Além disso, muitas empre- mais baratos ficarem os computadores e aparelhos móveis, sas mantêm programas internos de educação, contabilizan- mais gente fará isso até tomar o controle da própria educa- do isso como parte do trabalho, e é muito bom. A maioria vê ção, sem deixar espaço para as instituições. como investimento, não despesa, e não corta o orçamento A mudança de paradigma genuína acontece assim. No na hora do aperto. século 19, a cidade de Londres dependia de cavalos, que puxavam carruagens e carroças, e havia um pânico geral Que reforma você sugeriria para o governo brasileiro? por causa de toda a urina dos animais acumulada nas ruas, Certamente eu aconselharia o Brasil a olhar menos para a contribuindo para espalhar doenças. As pessoas não acha- Coreia e mais para a Finlândia, embora entenda que é di- ram uma forma de se livrar da urina, mas se livraram dos fícil comparar um país pequeno com um grande. Observe cavalos —quando inventaram o carro. o sistema PISA, da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], que compara a performan- Vão se livrar das escolas... Algum governo já acusa o golpe? ce de alunos de diferentes países em matemática e ciências, Parece que não, tanto que os governos reagem no sentido particularmente: a Finlândia sempre se destaca no topo das contrário, porque estreitam ainda mais a visão nas escolas, avaliações PISA, mas não pratica testes padronizados, nem é aumentam sua dependência de testes padronizados e des- obcecada por matemática e ciências. Reforça humanidades, personalizam cada vez mais a educação, tornando-a um artes, educação física, projetos práticos, jogos e, por incrível processo ainda mais industrial. Eles estão fechando os olhos. que pareça, vai muito bem em ciências e matemática. En- quanto a taxa de desistência da escola nos Estados Unidos Anarquia na educação soa como fazer justiça com as próprias fica em torno de 30%, na Finlândia é zero. mãos... É saudável ficar sem instituições? Há como reagir? Sempre digo a professores e diretores de escolas, pelos quais Por conta da necessidade de inovar, o Brasil também anda tenho grande respeito, que, se mudarem o jeito como ensi- muito preocupado com a falta de interesse das crianças24 HSMManagement hsmmanagement.com.br
  4. 4. “DESTRUÍMOS TALENTOS”em matemática e ciências. Humanidades lhes interessammuito mais. O que explica o caso finlandês?Em primeiro lugar, é preciso entender que criatividade einovação não dependem nem só das ciências, nem só das o ritual importa,artes, mas de como as duas áreas trabalham em conjun-to; hoje o crescimento econômico de um país depende demúltiplos talentos. Agora, há um estudo muito interessan-te do professor Vivek Wadhwa [autoridade em inovação doVale do Silício] sobre o histórico educacional dos líderes de por Ken Robinsoncerca de 650 empresas de alta tecnologia do Vale. Contra osenso comum, 60% ou mais deles têm formação em artesou humanidades, e mesmo os cientistas que lideram essasempresas foram para escolas com método alternativo, comoMontessori, quando eram crianças. Curioso, não?! Como é tornar-se um sir? Você vai ao Palácio de Bu- ckingham, em Londres, curva-se diante da RainhaMuito curioso! Você conhece o educador brasileiro Paulo Elizabeth II e ela coloca uma espada em seu ombro.Freire? talvez por ele ser associado à esquerda, a classe em- É grandioso! Eu fiquei muito orgulhoso, por três mo-presarial não presta muita atenção a suas lições... tivos: primeiramente, porque inspirar tanta confian-Sou um grande admirador do trabalho de Paulo Freire e ele ça nas pessoas é um sentimento maravilhoso —vocême inspirou muito quando eu era estudante. Suas preocu- não pode se candidatar a ser “sir”, isso tem de partirpações com a necessidade de cultivar talentos e habilidades da vontade alheia; em segundo lugar, porque enchiindividuais e educar a sensibilidade coincidem exatamente minha mãe de orgulho —ela estava com 84 anos,com o que falo. Também compartilho suas preocupações morreu dois anos depois e creio que morreu feliz,com essa institucionalização da educação que aumenta as porque, para sua geração, a Rainha tem uma impor-diferenças entre os estudantes. Se precisamos de múltiplos tância significativa; em terceiro, porque a Rainha étalentos, precisamos de todos. Todas as crianças nascem uma pessoa extraordinária, muito querida.com talentos maravilhosos; estes só não podem ser destruí- Rituais e mitologias são extremamente importan-dos pelo sistema, e sim alavancados. tes. Eu era estudante nos anos 1960 e 1970 e muitos Agora, devo dizer que o Brasil não está sozinho nesse en- de meus colegas não queriam ir à cerimônia de gra-gano: recentemente o presidente Obama falou sobre pro- duação, achando que era ultrapassada e um tantomover a inovação e criatividade no sistema educacional dos ridícula. Estavam errados. Esses ritos de passagemEUA, ligando isso ao crescimento econômico, e referiu-se celebram conhecimentos e conquistas e nos propor-apenas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática. É cionam um momento de pausa e reflexão, rodeadosum erro gigantesco. No Reino Unido, em 1999, o governo de pessoas que amamos e/ou admiramos, para en-me pediu para desenvolver uma estratégia para a criativi- tender melhor nossos sentimentos, preparando-nosdade no sistema educacional, o que virou o relatório All Our para os próximos conhecimentos e conquistas naFutures, e já naquela época montamos um grupo de 15 pes- longa busca que é nossa vida. É como a jornada dosoas que incluía desde músicos, escritores e dançarinos até herói descrita por Joseph Campbell, e o verdadeiroeconomistas, cientistas e líderes empresariais. benefício desses ritos de passagem é espiritual —no sentido de nos deixar cientes de nossas conquistas eDizem que a gente muda por duas coisas: amor ou medo. Os nos fazer sentir orgulho.gestores poderão começar a agir por uma dessas emoções? Acredito que as empresas também devam utilizarTemos uma grande chance de os gestores, e as pessoas em rituais para manter uma cultura saudável de inovação,geral, agirem, porque também são pais, preocupados com o com o cuidado para que esses rituais não sejam artifi-futuro de seus filhos. Estou, aliás, escrevendo um novo livro, ciais, mas tenham significado. Eu estive em Las Vegasa ser lançado em 2013, sobre como achar “o elemento”, essa há pouco tempo, em uma empresa chamada Zappos,paixão que todos devem procurar em si, seu talento natural. que é muito bem-sucedida, com uma cultura internaA primeira regra é que não adianta nem os pais nem a es- maravilhosa, e a cada trimestre eles fazem um ritualcola forçarem uma criança a aprender matemática. Se ela desses, que é uma reunião chamada “All Hands” [To-não quer, é por achar entediante ou muito difícil. A forma das as Mãos], em que juntam todos os colaboradoresde resolver o problema é investir em professores e recursos em um grande teatro, para celebrar sinceramente asmelhores para a educação da ciência, e não empurrá-la ex- conquistas das pessoas, financeiras e de outros tipos.cluindo outras matérias. Para comprometer as crianças coma educação, você tem de se comprometer pessoalmente com HSMManagement hsmmanagement.com.br 25
  5. 5. AltA gerênciA “DESTRUÍMOS TALENTOS” elas, a fim de energizá-las. Elas querem ser estrelas do rock nos. Mas ela foi muito pragmática e isso era prioridade nos- ou jogadores de futebol porque isso excita sua imaginação. sa. Não digo que sempre acertamos, porque é um processo Um amigo meu, o músico de rock Brian Cox, agora é pro- e requer muito improviso. Mas o fato é que o que funciona fessor de astronomia em Manchester, na Inglaterra, e está para uma criança não funciona necessariamente para ou- apresentando uma série de documentários na BBC sobre tra. Quando viemos para a América, tentamos colocá-los na astronomia. Ele se parece com um astro de rock, mas sua mesma escola e tivemos de mudar quando vimos que não outra paixão é, e sempre foi, astronomia. O fato de ele fa- funcionava para a Kate. Podíamos ver a luz indo embora de lar apaixonadamente sobre astronomia na BBC aumentou seus olhos e a tiramos de lá para recuperar seu brilho. enormemente o número de inscrições para o curso univer- sitário de astronomia. Ele exci- como resumir as recomenda- tou a imaginação dos jovens. O ções do robinson report? empresário Peter Diamandis Sua essência vai no sentido está tão interessado em via- de criar um ambiente onde as gens no espaço porque, quan- do criança, sua imaginação foi “sempre defendo pessoas se sintam confiantes para tentar, onde novas ideias ativada pela série de TV Star Trek [Jornada nas Estrelas]. Eu a personalização surgirão e começarão a flo- rescer. Inovação, assim como sempre defendo a personali- zação da educação, tanto pela da educação; educação, é um processo or- gânico, não mecanizado. Con- percepção de quão diferentes nossas crianças e seus talentos deve ser vista siste em dar às pessoas um senso de inspiração, de possi- são como pelo reconhecimen- to da importância de educar como uma arte” bilidades, de encorajamento e, principalmente, de permissão. —a educação precisa ser vista Trabalhei com os ministros como uma forma de arte. da Educação, Indústria e Co- mércio e Cultura da Irlanda Você tem dois filhos. como foi sua “educação-arte” com eles? do Norte para desenvolver um plano de implementação A primeira observação é que eles são completamente di- do relatório chamado Unlocking Creativity [Destrancando ferentes em termos de talentos e interesses, o que é parte a Criatividade]. Sei que muitas recomendações foram exe- biológico, parte cultural. Essa é uma das razões pelas quais cutadas, sim; contaram-me que o relatório gerou cerca de precisamos obrigatoriamente personalizar a educação. 160 milhões de libras de investimento na época e levou a muitos novos negócios. Agora, Oklahoma [EUA] é que quer isso vale para programas de desenvolvimento de empresas? aplicar essas ideias para se tornr “o estado da criatividade”. Sem dúvida, se a empresa está interessada em inovação, e não apenas em eficiência. no contexto corporativo, a questão também é a permissão? Pense em cultura organizacional como hábitos mais habitat Voltemos a seus filhos... —hábitos são as formas de comportamento e os valores que Hoje, meu filho, James, tem 27 anos e minha filha, Kate, 23, as encorajam, a maneira como a organização é gerenciada, e mas, quando eram crianças, minha esposa e eu estávamos o habitat é o local físico em que as pessoas trabalham. Todas sempre prontos a tentar achar a melhor escola para cada essas coisas têm grande impacto no que as pessoas sentem um individualmente. Minha filha, por exemplo, era muito como permitido. Se está na cultura da empresa, a inovação é menos impelida por trabalhos acadêmicos convencionais, permitida. Se não está, não é. A maioria das companhias está porém mostrava ser ótima escritora, dançarina, com exce- interessada em inovação, mas esta não se encontra em seus lente gosto para design e muito hábil no relacionamento hábitos e habitat, não é permitida. E não funciona. com as pessoas. Já meu filho é um ótimo ator, brilhante com os idiomas, mas também muito interessado em teorias e tra- Uma organização hierárquica comporta inovação? estudos balhos acadêmicos convencionais, com uma mente voltada antropológicos detectam muita hierarquia no Brasil. para a abstração. Então, mais por mérito de minha esposa, Hierarquia serve a quem busca eficiência e status quo, mas devo dizer, sempre tentamos colocá-los nos ambientes que não se surpreenda se não houver inovação nesse ambiente. fossem melhores para eles, e que eram distintos. Inovação requer múltiplas lideranças, não uma única, como ocorre na hierarquia. É como o rock; não há apenas um jeito isso me parece quase heroico! Sua mulher trabalhava fora? de fazer rock, mas muitos, e essa variedade é fundamental. Sim, era professora de teatro em uma escola de Liverpool; Vale a pena entender a relação entre a imaginação, a cria- dava aulas para crianças de 10 anos em uma sala de 42 alu- tividade e a inovação numa cultura organizacional. A ima-26 HSMManagement hsmmanagement.com.br
  6. 6. AltA gerênciA “DESTRUÍMOS TALENTOS” SAIBA MAIS SOBRE KEN ROBINSON Em 1998, o educador Ken Robinson, professor da Universi- Autor de oito livros —entre os quais, ty of Warwick, liderou uma comissão do governo britânico Libertando o Poder Criativo, que será encarregada de analisar as relações entre educação, criati- lançado pela HSM Editora—, sir Ken, vidade e economia. O resultado, o relatório All Our Futures, como costuma ser chamado, virá pela que ficou mais conhecido como Robinson Report, teve imen- primeira vez ao Brasil em novembro próximo para falar aos sa repercussão mundial e suas recomendações passaram a gestores na HSM ExpoManagement. Ele é admirador decla- ser adotadas por atores tão distintos quanto o governo da rado de Paulo Freire e Miguel Nicolelis e se diz ansioso por Irlanda do Norte (como parte do processo de paz) e o de Sin- conhecer o País, que associa a uma criatividade abundante. gapura. Desde então, tornou-se interlocutor frequente de Nascido na Liverpool dos Beatles, o especialista morou na líderes governamentais e empresariais em busca de inova- Stratford-upon-Avon de Shakespeare e agora vive na Cali- ção. Robinson foi condecorado Cavaleiro do Império Britâ- fórnia de Hollywood, dedicando sua vida a garimpar talentos, nico —“sir”— em 2003 e incluído entre “as principais vozes individual e coletivamente. Sir Ken trata disso tanto em Liber- do mundo” em 2005 pelas revistas Time e Fortune e pela tando o Poder Criativo como em seu próximo livro, Finding emissora de TV CNN, dos EUA. A real popularidade, contu- Your Element (uma continuação de The Element), que deve do, veio em 2006, com uma palestra TED, que se viralizou ser lançado em maio de 2013, com dez lições que pretendem pela internet de maneira impressionante. ajudar cada um a descobrir e explorar seu verdadeiro talento. ginação, fundação de tudo, é a capacidade de trazer a nossa explique melhor o processo disciplinado da criatividade... mente coisas que não são reais a nossos sentidos. Todos os Não tem nada a ver com perder o controle. Você não pode seres humanos têm isso e devem ser encorajados a mostrar. ser um músico criativo se não sabe tocar um instrumento, A criatividade é o processo de ter ideias originais e gerar va- nem um cientista criativo se não souber matemática. lor a partir daí —é um processo, não um evento isolado; re- Um dos grandes líderes atuais é Richard Branson e não quer disciplina e uma visão crítica das ideias e um balancea- por ser carismático. De um lado, ele é muito liberal, porque mento interessante entre liberdade e controle. A inovação se limita a inspirar as pessoas a fazer as coisas, mas seu gru- é colocar as boas ideias em prática. As empresas precisam po empresarial é bem disciplinado. Há o balanceamento. cultivar a imaginação de seu pessoal, dar-lhe habilidades A visão crítica é fundamental e John Lennon ensina isso. para o processo criativo e criar um ambiente em que tudo Entrevistei Paul McCartney para meu livro The Element, isso seja valorizado e encorajado. Com esses fatores aplica- de 2009, e ele descreveu como os dois compunham: come- dos, as ideias virão, geralmente de fontes inesperadas, não çavam com o que viesse à cabeça —frase ou acorde— e não só das pessoas criativas, como reza a lenda. levantavam enquanto não terminassem. Ao final de uma Mas, em uma empresa hierárquica, isso dificilmente vin- dessas sessões, saíram para beber, e Paul disse a John: “E ga, porque muitas boas ideias vêm de baixo e porque acon- se não conseguirmos nos lembrar da música pela manhã?”. tecem de maneira melhor quando fluem entre disciplinas E John respondeu: “Se não pudermos nos lembrar, por que diferentes, em equipes multidisciplinares. mais alguém se lembraria?” [risos]. Você fala em líder criativo. Qualquer líder pode ser criativo? e como desenvolver a imaginação, achando seu elemento? Sim, potencialmente. O líder não precisa entender a ino- É uma busca primeiro interna, em que se aprende mais so- vação, e sim a criatividade. Deve pensar seriamente sobre bre si, e depois externa, para experimentar coisas novas e ela. Como eu disse a Tony Blair [ex-primeiro-ministro bri- se pôr à prova. É a jornada dupla de descobrir a paixão e tânico] quando ele foi eleito, educação diz respeito a pro- construir a atitude. Como? Quebrar a rotina é uma forma. mover a criatividade e entendê-la, mas o governo tinha políticas educacionais que a destruíam. E digo o mesmo aos líderes de empresas. HSM Management28 HSMManagement hsmmanagement.com.br

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