Pdf 7 os desafios do ministério pastoral numa sociedade em processo de globalização

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Pdf 7 os desafios do ministério pastoral numa sociedade em processo de globalização

  1. 1. 74 Revista Caminhando, vol. 8, n. 1 [11], 2003. 75Os desafios do ministério pastoral Introduçãonuma sociedade em processo de O tema desse estudo será abordado a partir de três pers-globalização pectivas. A primeira delas responde à seguinte questão: qual é a identidade do protestantismo brasileiro? Já a segunda tem comoUm estudo a partir da implantação objetivo estudar qual é o perfil do ser humano numa sociedadee desenvolvimento do protestantismo no Brasil em processo de globalização. Na terceira e última parte, apre-e suas mediações pastorais sento pistas pastorais para uma sociedade em processo de glo- balização. A presença do protestantismo brasileiro é fruto da abertu- ra política e religiosa oferecida pelo imperador D. Pedro II. As Igrejas de missão ou históricas, metodistas, presbiterianas e ba- Geoval Jacinto da Silva1 tistas, aproveitaram essa abertura e iniciaram um processo de evangelização com a finalidade de implantarem suas igrejas. Desta forma, o protestantismo brasileiro “continua sendo uma projeção do protestantismo norte-americano”. Essa projeção,Resumo em muitas igrejas históricas, tem estado presente durante toda a sua trajetória de um século e meio. Tal projeção indica que o descompasso inicial, entre as O presente artigo procurar resgatar um pouco a herança da sociedades norte-americana e brasileira, facilitou a criação de implantação do protestantismo no contexto brasileiro apontan- do as dificuldades que o mesmo enfrentou a partir da cultura um estilo de Igreja com forte dependência de suas origens, tanto religiosa existente marcada pela tradição Católica Romana. em nível de recursos financeiros como de pessoal e de estilo e- Também discute a inserção do protestantismo na cultura urba- clesiológico. A falta de sintonia, dos líderes das Igrejas históri- na uma vez que suas origens estavam marcadas pela cultura cas com o ideário civil religioso norte-americano, possibilitou rural e faz um questionamento do modelo do ministério pasto- choques e atritos que se “propagam como que em ondas até as ral desenvolvido na zona rural e sua presença na cultural urba- na. A partir da presença na cultura urbana de um ministério Igrejas brasileiras” produzindo um desgaste na identificação do pastoral rural surge a pergunta: Quais são os desafios que o modelo de Igreja no Brasil. ministério pastoral enfrenta hoje, diante de uma sociedade em Sobre este processo marcado pela falta de aproximação processo de globalização? do ideário norte americano, Mendonça afirma que: Palavras-chave: Dependência, crescimento, mudanças, para- Esse fator é um dos pontos importantes para se compreender o digmas, ministério, pastoral, trânsito religioso, pastoral urba- comportamento das Igrejas brasileiras em relação à sociedade na, cidadania e urbanização. civil, já que elas tendem, talvez por serem minoritárias e, por- tanto, sujeitas ao reforço constante de sua auto-identidade, a1 É Doutor em Teologia e professor da área de Teologia Prática na Pós-Graduação e na acompanhar as ondas de conservadorismo das Igrejas ameri- Faculdade de Teologia – UMESP.
  2. 2. 76 77 canas. É por isso que há um visível descompasso com a socie- mesmo pelo desajuste social provocado pela passagem de uma dade, descompasso que é historicamente explicável: no mo- sociedade rural a uma sociedade urbana. Assim, tem faltado re- mento em que o protestantismo foi inserido na sociedade bra- flexão e maturação para que o protestantismo brasileiro encon- sileira, esta se achava num estágio de desenvolvimento signi- ficativamente anterior à sociedade norte-americana; por isso o tre um perfil pastoral, uma teologia e uma eclesiologia com for- protestantismo foi recebido como vanguarda do progresso e da tes marcas da cultura brasileira. Junta-se aos elementos citados modernidade. Hoje, quando movimentos neoconservadores e as grandes mudanças que a sociedade tem experimentado nos reformistas atingem a sociedade e as Igrejas norte-americanas, últimos anos. tentando recuperar antigos valores, as Igrejas brasileiras, na esteira desses movimentos, agitam-se na busca de valores que nunca fizeram parte da sociedade brasileira. Assim, se no pas- Qual é o perfil do Ser Humano numa Sociedade em sado o protestantismo brasileiro apontou para o futuro, hoje Processo de Globalização? ele aponta para o passado, aliás, um passado inexistente. Nes- se caminhar, o descompasso entre protestantismo histórico brasileiro e sociedade tende a se agravar (Mendonça, A sociedade deveria ser composta por diversos elementos 1990:13). que, o seu conjunto, possibilitasse ao ser humano encontrar es- Nesta perspectiva, o protestantismo brasileiro pouco a paço para se expressar com liberdade e com segurança, entre-pouco marcou sua presença no contexto de uma sociedade hos- tanto, o que se tem visto é o surgimento de fatores que não têmtil, onde foram necessárias diversas estratégias para dinamizar oferecido o devido espaço de segurança ao indivíduo. Esta inse-sua proposta de evangelização. Podemos destacar como estraté- gurança tem possibilitado o surgimento do individualismo, ondegias o estabelecimento de escolas, a distribuição de Bíblias e a o viver em comunidade não tem sentido na criação de valorespresença dos missionários na zona rural. O protestantismo rural, de mútua ajuda.também determinou um estilo de ministério pastoral com carac- Rojas, um estudioso das características do “Homem mo-terísticas próprias e um protótipo de fiel disponível para o con- derno e a luta contra o vazio”, afirma que:vívio e para receber a visita do pastor. Neste sentido, o protes- o ser humano viu tantas mudanças tão rápidas e em tempo tãotantismo brasileiro tem raízes profundas da herança cultural ru- curto, que começa a não saber a que se agarrar ou, o que dá noral. mesmo, a fazer afirmações do tipo “vale tudo”, “não me inte- Foi a partir de 1910 e 1911, período em que o protestan- ressa” ou “as coisas mudaram”. E assim encontramos um bom profissional em seu campo específico de trabalho, que conhecetismo estava em sua fase de expansão, bem como posteriormen- bem a tarefa que tem nas mãos, porém fora desse contexto ficate por volta de 1950 quando se deu o início do êxodo rural, que à deriva, sem idéias claras, preso – como está – num mundoo protestantismo foi levado a conviver com a chegada e a im- cheio de informação, que o distrai, mas que pouco a pouco oplantação do pentecostalismo, Igrejas Assembléia de Deus e converte num homem superficial, indiferente, permissivo, queCongregação Cristã no Brasil, e mais recentemente com o neo- vive um enorme vazio moral, religioso e social (Rojas, l996: 14).pentecostalismo e com as igrejas independentes. O crescimentodestes movimentos se deu com fiéis insatisfeitos das igrejas his- As constantes mudanças da sociedade têm permitido aotóricas que assimilaram as influências dos novos estilos de culto ser humano construir seus relacionamentos a partir de sua indi-e outras práticas religiosas que chegavam ao Continente e até vidualidade, deixando para trás os valores transcendentes. O in-
  3. 3. 78 79divíduo fica cada vez mais indefeso e deixa aflorar sua vulnera- Este contexto, sócio-cultural e religioso, está fortalecendo a i-bilidade em todos os sentidos da vida. Bhighenti salienta que: magem do novo ser humano moderno, produto de seu tempo. vivemos sob a égide da cultura do triunfo do individualismo Rojas assevera que a este indivíduo, fruto desta sociedade em solitário. Ao comunitário sobrepõem-se os interesses pessoais; processo de mudança, tudo lhe interessa, mas de forma superfi- diante do público, afirma-se cada vez mais o ideal do privado; cial; não é capaz de fazer uma síntese daquilo que percebe e, e, ante o universal, advoga-se a legitimidade do fragmentário como conseqüência, converte-se numa pessoa trivial, superfici- (2000: 26). al, frívola, que aceita tudo, todavia carece de critérios sólidosRojas aponta cinco elementos que tem características do tipo de em sua conduta (1996:13).sociedade que afeta o indivíduo hoje: Portanto, o modelo ministerial marcado pela cultura rural a) materialismo: faz com que um indivíduo obtenha cer- ou suburbana, perde o seu sentido. O sentido de ministério, co- to reconhecimento social pelo simples fato de ganhar mo serviço de Deus à comunidade, surge como alternativa onde muito dinheiro; toda a igreja é desafiada e preparada para cumprir sua parte na Missão. Cabe ao pastor edificar, equipar e aperfeiçoar a comu- b) hedonismo: viver bem a qualquer custo é o novo có- nidade de fé, capacitando-a para o cumprimento da missão (Câ- digo de comportamento, o que significa a morte dos ideais, a ausência de sentido e a busca de uma série nones, 2002:157). O mais importante é observarmos que hoje de sensações cada vez mais novas e excitantes; atravessamos um período marcado por profundas transforma- ções, em que um mundo novo e uma nova civilização vão-se c) permissividade: arrasa os melhores propósitos e ide- conformando pouco a pouco, com o risco de nem o perceber- ais; mos. Assim, surgem novos desafios e novas perguntas. e diante d) revolução sem finalidade nem projeto: a ética permis- disso, a Igreja precisa deixar-se desafiar por elas, abdicando de siva substitui a moral, o que engendra um desconcer- suas falsas seguranças, muitas vezes gestadas num mundo ve- to generalizado; lho, e buscar responder, com o evangelho de sempre, às exigên- cias dos novos tempos. Por isso, não podemos aferrar-nos a e) relativismo: tudo é relativo, o que leva a cair na abso- qualquer modelo de ação, nem do passado nem do presente, a- lutização do relativo, brotam, assim, algumas regras presididas pela subjetividade; inda que isso desestabilize a Igreja e nos cause um sentimento de orfandade e de insegurança (Brighenti, 2000; 45-46). O sig- f) consumismo: representa a fórmula pós-moderna da nificativo neste contexto é a participação da comunidade em liberdade (1996:14). seus diversos ministérios, que desenvolvam ações pastorais Se de um lado a sociedade vem experimentando mudan- numa sociedade em constante mudança e em processo de globa-ças, cabe também à Igreja, constantemente, a partir de sua práti- lização.ca ministerial, buscar formas de responder às demandas da soci-edade marcada pelas novas epidemias, que se manifestam nascrises de rupturas conjugais, no drama das drogas, na terceiraidade, na falta de perspectivas de futuro para a juventude, etc.
  4. 4. 80 81Pistas pastorais para uma sociedade 1. A globalização e os efeitos sobre a vida humanaem processo de globalização O processo de globalização, sustentado pelo neolibera- lismo que a sociedade vem conhecendo e sofrendo suas conse- A pastoral no contexto brasileiro, deixa de ser uma ação qüências, requer da pastoral da igreja uma postura diferenciadado povo de Deus voltada para dentro da comunidade, para ser no tratamento das questões que envolvem o ser humano. Arrudauma ação do povo no espaço maior, onde eventos acontecem na afirma que:realidade cotidiana. Castro destaca que: O atual estágio do processo de globalização não está preocu- a pastoral deve ser entendida como ação do povo de Deus na pado em contemplar o indivíduo e sua forma de atuar e sobre- realidade cotidiana, onde na relação tempo e espaço, o ser viver na sociedade. O indivíduo perde seu lugar para a socie- humano se encontra. A preocupação básica da pastoral é a efi- dade de interesses globais das classes dominantes, com o for- cácia e a relevância da fé cristã. Pastoral é também responsá- talecimento da inovação tecnológica e de controle do processo vel pela inserção do povo de Deus no espaço público. Pastoral produtivo, eliminando-se assim quaisquer possibilidades de é ação intencional, sistemática e organizada coletivamente. É surgir adversários em seu horizonte de ter mais, isto é, o resul- fruto do esforço missionário da Igreja que busca mudanças, tado é o que são dosificados, independentemente, dos meios vislumbrando novos tempos na perspectiva do Reino messiâ- para obter lucros na dinâmica da competitividade (Arruda, ci- nico de Deus. Não é, portanto, qualquer tipo de ação. Não é tado por Silva, 1999:171). uma ação esvaziada de sentidos. É a ação que instaura o novo. Na verdade, o que o processo de globalização espera pas- Não é ação isolada, individual e personalizada do pastor ou da pastora, mas a ação da comunidade de fé, organizada em pas- sar é a mensagem da unificação da vida, quando na essência ela torais específicas, que atua e colabora na produção de eventos se torna mais diferenciada, portanto, “um dos efeitos do proces- de ação pública (Castro, 2000:105). so da globalização, é ter nos tornado conscientes de que o mun- Na dimensão de ação pastoral que se faz presente no co- do é uma localidade, um único lugar” (Featherstone, 1995:131).tidiano e reflete nos acontecimentos gerais que envolvem o ser Penso que o processo de globalização não pode ser vistohumano, a pastoral deve preocupar-se com temas que, num de maneira estática ou a partir de aspectos isolados. Os novosmundo globalizado, tem desafiado a Igreja e que solicita da elementos não podem ser tratados da mesma forma como a pas-mesma como resposta, ações que expressem segurança e espe- toral tratou certos problemas na vida da Igreja. A globalização érança. A seguir, indico quatro elementos que devem fazer parte marcada por um estilo diferenciado de sociedade, em que o in-da discussão sobre pistas pastorais para uma sociedade em pro- divíduo passa a agir a partir de seus próprios conceitos. Nessecesso de globalização: 1º. A globalização e os efeitos sobre a sentido, é preciso estar sempre consciente das possíveis tenta-vida humana; 2º. Trânsito Religioso; 3º. A ética cristã numa so- ções que podem enfraquecer a tarefa pastoral da Igreja. É ne-ciedade em processo de globalização e 4º. Pastoral Urbana. cessário discutir em torno do modelo eclesial que deseja repetirConsidero que temas como: ecologia, violência, saúde, desem- o sistema vivenciado pelo neoliberalismo carregado de promes-prego, cidadania, e outros, também poderiam ser contemplados, sas imediatistas e ocasionais (Silva, 1999:179). Para Libanio,porém, nesse momento, iremos nos deter nos quatro primeiros. a globalização tem duas vertentes que afetam a vivência e a experiência da fé. Primeiro, a globalização produz uma uni- formização comandada pelos centros de poder, anulando as o-
  5. 5. 82 83 riginalidades locais e regionais. Segundo, a divulgação das ser humano, dotado de esperança e de uma visão crítica da vi- experiências religiosas localizadas sem o devido referencial da da pode resgatar a natureza, tanto no que compete ao meio cultura pode banalizar a fé e até ridicularizar a prática religio- ambiente em si, quanto ao próprio ser humano (Becker, sa fora de seu contexto (2001:133-134). 2001:151-152).2. Trânsito Religioso 3. A ética cristã na sociedade em processo de globalização Trânsito religioso, segundo Duarte: Que contribuição a pastoral pode oferecer para fortalecer é o contínuo deslocamento de indivíduos entre diferentes reli- a ética cristã? A partir da minha percepção, entendo que os te- giões. Pode acontecer pela mudança, repetida ou não, de reli- mas da saúde, reprodução e sexualidade, podem ser tratados gião, pela visitação a religiões diferentes da sua ou pela cons- com base nos princípios éticos cristãos na perspectiva da pasto- tante busca de diversificadas expressões religiosas (Duarte, ral, e têm que ser vistos sob o enfoque de uma visão bíblica, is- 2002:160-162). so porque o ser humano é um ser integral, e a vida plena se refe-Becker afirma que: re à plenitude da vida. No decorrer da história, a vida plena pas- o fenômeno do trânsito religioso é uma realidade no mundo sou a ser descaracterizada, fortalecendo-se somente o aspecto atual. Ele acontece na economia, na política, na cultura, na so- espiritual. A visão bíblica é que o espiritual e o material fazem ciedade e também na religião. Transita-se buscando o novo, o parte da plenitude da vida. O certo é que se refere ao espiritual e diferente, a satisfação pessoal, sem importar-se com as conse- ao material, a totalidade que constitui o corporal ou a corporali- qüências (Becker, 2001:151). dade (Valentin, Cuba: 2000). A moral bíblica é comunitária, Nesta dimensão do trânsito religioso, fenômeno que tem desta forma a ética cristã sempre terá como referencial a comu-marcado a vida de pessoas e gerado dificuldades na vida da co- nidade. Para alguns filósofos gregos, o estudo da moral estavamunidade, a pastoral da igreja tem uma contribuição importante em relação com a conduta de acordo com os costumes; a éticapara o estudo deste caso. Becker, a partir da teologia prática, tinha que ver com a conduta de acordo com a razão e a reflexão.propõe três pistas pastorais para o tratamento da questão: Dentro desta perspectiva, temas como aborto, orientação Primeiro, despertar no ser humano esperança quanto ao futu- sexual, prevenção contra as Doenças Sexualmente Transmissí- ro, a fim de que ele viva melhor o presente, pois a esperança veis, AIDS e outras enfermidades podem fazer parte das preo- futura se traduz em ações presentes. Segundo, despertar uma cupações pastorais. A orientação pode ser estendida tanto para a consciência crítica. O ser humano parece ter se conformado liderança, como também para as Igrejas dentro de uma visão in- com a situação de crise. Até espera algo melhor, porém, tem terdisciplinar, que se ajusta perfeitamente à maneira de fazer dificuldade em julgar e distinguir criticamente suas ações. Uma consciência crítica leva o indivíduo a refletir sobre as su- pastoral. as ações, sobre as práticas do outro e das instituições. Reflete- se sobre as ações passadas, projetando as futuras, esperando 4. Pastoral Urbana um mundo melhor, com mais justiça, dignidade, igualdade e fraternidade. Terceiro, resgate do ambiente. Na falta de espe- A pastoral urbana, como ação do povo de Deus na cida- rança e criticidade, o ser humano vem explorando a natureza, de, tem como objetivo bíblico, teológico e pastoral, a criação de tirando dela tudo o que pode e também o que não pode. Mas o
  6. 6. 84 85sinais de esperança em situações de desesperança. Assim, é im- Que a lição maior de nossa caminhada pelas vielas da cidade eportante destacar a pastoral urbana como ponto de encontro e da fé seja um grito pungente contra a solidão desgastante da cidade e em prol de criar redes de comunidades de vida. Se K.ponto de partida, porquanto a cidade constitui hoje, um dos Rahner afirmava que o cristão do futuro ou será um místico oumaiores desafios para a prática dos cristãos. Comblin afirma não será cristão, eu acrescentaria: ou será um cristão engajadoque: numa comunidade de vida ou dificilmente conservará a seiva cristã. Tudo na cidade batalha para dificultá-lo. Só garra, mo- na cidade estão os seres humanos. Ali Deus nos espera. A ci- tivação e desejo de caminhar em frente, realizando sua dimen- dade não constitui uma reunião de seres humanos iguais ou são última de ser comunitário, poderá manter o cristão ligado a irmãos. Na cidade estão também os pobres, os rejeitados, os grupos cristãos de vida. A Igreja poderá exercer enorme papel marginalizados. Ali Jesus espera os seus discipulos. Naquele na humanização da cidade, se investir e se tiver êxito em criar tempo o Samaritano encontrou o seu próximo ferido e aban- redes de comunidades na cidade. Assim ajudará a refazer o te- donado numa estrada. Hoje em dia esse próximo está nas ci- cido social da cidade tão esgarçado pelo individualismo dades. Ali estão eles, aos milhares e milhões (1996:15-16). (2001:220). A pastoral urbana não pode separar-se do símbolo da es-perança. Não é estática, por isso é marcada pela dinâmica quese desprende da prática da Igreja, que é motivada pelo Espírito Considerações finaispara criar sinais do Reino de Deus, bem como mostrar e viver ajustiça divina através de palavras e atos, tais como, curar os en- No transcorrer da história, o protestantismo brasileiro temfermos, expulsar os demônios, limpar os leprosos, restaurar vi- usado várias formas para desenvolver a ação pastoral. Antes co-das e promover o ser humano. Nesta direção, nhecíamos uma pastoral centrada na Igreja, no pastor ou no sa- cerdote. Com as reformas que a Igreja vem experimentando, pa- o que torna as cidades sagradas é a própria atividade humana. Pois o templo de Deus são os seres humanos, renovados pelo ra se ajustar às necessidades, temos que levar em consideração Espírito e agindo movidos por um amor criador e unificador os novos estilos e formas de ação pastoral. (Comblin, 1996:29). Deve-se considerar que a Igreja, para planejar uma políti- Na pastoral urbana se estabelece o contraste e o conflito ca de ação pastoral (partindo do princípio de que a ação pastoralentre: a construção da Babilônia, que representa o esforço do é o conjunto de atividades da Igreja), deve inicialmente partir daser humano, e a edificação da nova Jerusalém, onde Deus mes- cultura do povo na qual está inserida. A Igreja é vocacionadamo habitará com os seres humanos (Silva, 2000:1). Este sonho, para exercer uma função crítica e continuar firme no seu postu-da nova Jerusalém, é marcado por uma utopia cristã que sem lado de comunicadora da fé em Jesus Cristo. Existe apenas umadúvida tem fortalecido os cristãos no decorrer da história, entre- pastoral, que é a “pastoral da fé”, que é realmente evangelizado-tanto, no caminhar pelas cidades também somos construtores de ra em sua totalidade. O que pode variar é a ação, ou a maneirautopias, no sentido de humanizar a cidade. Libanio nos confron- de expressar a “libertação” do ser humano.ta com um ideal de criar redes com matizes pastorais para ex- As ações pastorais devem ser sempre convergentes, outerminar o individualismo tão presente na cidade. Ele afirma: seja, “comunicar a fé que brota do Evangelho”. É nessa dimen- são que a Igreja, partindo das necessidades de onde se encontra, deve anunciar o Evangelho, envolvendo-se em termos de pres-
  7. 7. 86 87tar um serviço concreto à comunidade. Esse serviço deve ir a- __________Idéias fundamentais para o estudo da teologia prática:lém da assistência social. E faz-se necessário promover as pes- Uma abordagem a partir da questão do método, in Estudo de Religião 21.soas por meio de vários recursos que a Igreja pode lançar mão. VALENTIN. R. A. Apuntes para una Etica Cristiana sobre la SaludA ação pastoral direciona ao compromisso, não só no sentido Reproducción – Conferência. Matanzas: S.T.M., 2002. Segun-político, mas, especialmente, com a comunidade alvo de sua a- do Arce a s reprodutiva constituí hoje uma preocupação pasto-ção. Como bem afirmou S. Galilea: “Trata-se de passar de uma ral. La salud reproductiva tiene que ver con el desarrollo de lapastoral de ‘mediação’ a uma pastoral de ‘compromisso’”. población, tiene que ver con la sexualidad y tiene que ver con los derechos sociales e individuales, tanto frente a sexualidad como a la reproducción, por lo tanto, tiene que ver con la justi-Bibliografia cia y la libertad responsables de los seres humanos ante estas cuestiones. Pero todo estos aspectos, como latinoamericanos, hemos de enmarcarlos dentro de nuestro contexto, es decir,BECKER, J. R. Trânsito Religioso: Uma leitura crítica a partir da esencialmente dentro del contexto de la pobreza que nos carac- Teologia Prática – Desafios e perspectivas. Dissertação. teriza. Esta realidad nuestra le da una particularidad muy espe- S.B.Campo: UMESP, 2002. cial al problema de la salud reproductiva. Estamos reflexionan-BRIGHENTI, A. Reconstruindo a Esperança. Como planejar a ação do sobre nuestras acciones desde un contexto de pobreza y de da Igreja em tempos de mudança. São Paulo: Paulus, 2000. muerte de una mayoria de los seres humanos del continente.CASTRO, C. P. Por Uma Fé Cidadã. A Dimensão Pública da Igreja – Asi cualquier reflexión y acción responsable tiene que tener Fundamentos para uma pastoral da Cidadania. São Paulo: como meta no sólo la salud individual y familiar, sino la salud Metodista/Loyola, 2000. social, resultado de estructuras económicas injustas, que impi-COMBLIN, J. Viver na Cidade – Pistas para a pastoral urbana. São den a la larga una salud individual y familiar. En nuestro conti- Paulo: Paulus, 1996. nente se ve con mayor claridad que el tema de la salud repro-FEATHERSTONE, M. O Desmanche da Cultura. São Paulo: Nobel, ductiva tiene una dimensión económica-social. Todo ser 1995. humano tiene derecho a la salud de manera que puede recibirGALILEA, S. Información teológica y pastoral sobre América latina. los beneficios de los logros de las ciencias humanas. Salud no Bogotá: CLAR, 1974. es sólo ausencia de enfermedad sí no también bienestar físico,IGREJA METODISTA. Cânones. São Paulo: Cedro, 2002. espiritual, social e económico. Los principios éticos cristianosLIBANIO, J. B. As lógicas da Cidade. O impacto sobre a fé e sob o que se desprenden de la Revelación bíblica y de la predicación impacto da fé. São Paulo: Loyola, 2001. y acción de Jesús apuntan hacia la justicia, pero no hacia la jus-MENDONÇA. A. G. Evolução Histórica e Configuração Atual do ticia romana, sino hacia la evangélica y bíblica, la justicia que Protestantismo no Brasil in Introdução ao Protestantismo no consiste en tomar partido por los más débiles y desamparados Brasil. São Paulo: IEPG/ Loyola, 1990. en la sociedad, los márginados, los que no tienen acceso al dis-ROJAS, E. O Homem Moderno – A Luta contra o vazio. São Paulo: frute de los sistemas de salud. Por lo tanto, la Iglesia y los cris- Mandarim, 1996. tianos deben defender siempre que la salud reproductiva sea unSILVA, G.J. O processo de globalização e a missão – Implicações bí- derecho de todo ser humano e luchar para que esto se haga rea- blico-teológicas e pastorais, in Culturas e Cristianismo. São lidad en un continente y en un mundo cada vez más polarizado Paulo: Loyola/Umesp, 1999. en ricos, minoría cada vez más pequeña, y, pobres, mayoría__________A Instituição como mediadora do sagrado, in Revista cada vez más escandalosa para Dios. Por otro lado debe desta- Caminhando, Ano VI, nº. 8, 2001. car que el concepto de salud reproductiva es aún más amplio, puesto que incluye el derecho de todo ser humano de disfrutar
  8. 8. 88 una vida sexual plena, satisfactoria y sin riesgos de enferme- dad. El placer sexual que incluye lo corporal y lo espiritual, forma parte de la vida plena. De lo que se trata, entonces, es de tener una sexualidad responsable basada en el amor y en el cre- cimiento mutuo de la pareja e en la libertad responsable de es- ta, para con ellos, con la familia que constituyen y con la so- ciedad a que pertenecen, en cuanto a decidir con que frecuencia procrean (Arce, 2202:12).

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