Pdf 5 dons e ministérios - monografia - paulo dias nogueira

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  1. 1. FACULDADE DE TEOLOGIA DA IGREJA METODISTA DONS E MINISTÉRIOS uma estrutura organizacional que visa a realizar a missão de Deus por Paulo Dias NogueiraTrabalho apresentado à Congregação da Faculdade de Teologia como requisito para conclusão do Curso de Bacharel em Teologia São Bernardo do Campo, outubro de 1994
  2. 2. A comissão tendo examinado o presenteTrabalho Final de Curso, o considera________________________________________Prof. Clovis Pinto de CastroOrientador_______________________Prof. José Carlos de Souza_______________________Prof. Hélerson Bastos Rodrigues 2
  3. 3. DEDICATÓRIAÀ minha querida esposa Valéria Aparecida dosSantos Nogueira, que com muito carinho ecompreensão compartilhou comigo os momentosdifíceis de minha formação teológico-pastoral. Avocê todo o meu amor e gratidão pela amizade,paciência, tolerância, companheirismo ecolaboração em momentos de necessidade.“As muitas águas não poderão apagar o nossoamor, nem os rio afogá-lo”. Ct 7.8Aos meus pais, Gildo Nogueira e Maria DiasNogueira, pelo carinho com que me educaram.Sou grato por todo o vosso amor e apoio. Avocês todo o meu amor e admiração.Às minhas irmãs, Patrícia, Perla e Priscila, peloapoio e incentivo dispensados nestes anos. 3
  4. 4. AGRADECIMENTOSA Deus...... pelo privilégio concedido ao me vocacionarpara o ministério pastoral;... pelo sustento que me propiciou nestes anos deformação.À Igreja Metodista na Quinta RegiãoEclesiástica, que possibilitou minha vinda àFaculdade de Teologia.Ao meu orientador, professor Clovis Pinto deCastro, pela disponibilidade e amizade.Aos leitores, professor José Carlos de Souza eprofessor Hélerson Bastos Rodrigues pelassugestões e orientações dispensadas.À Rosilei Mantovani amiga e digitadora destaspáginas. 4
  5. 5. ÍNDICEIntrodução ................................................................................................................... 07Capítulo 1Dons e Ministérios - Uma Igreja que busca realizar a Missão de Deus ..................... 101. “De olho no retrovisor” .......................................................................................... 11 1.1. Uma missão norte-americana.......................................................................... 11 1.2. Em busca de autonomia .................................................................................. 13 1.3. Em busca de uma estrutura organizacional comprometida com a Missão ..... 15 1.4. Planos Quadrienais 1974 e 1978; Plano para a Vida e a Missão da Igreja .... 18 1.4.1. Missão e Ministério (Plano Quadrienal 1974-1978) ............................ 19 1.4.2. Unidos pelo Espírito, Metodistas evangelizam (Plano Quadrienal 1979-1982) .................................................................................................... 21 1.4.3. Plano para a Vida e a Missão da Igreja - 1982 ..................................... 24 1.4.4. As práticas de algumas Igrejas ............................................................. 29Capítulo 2Dons e Ministérios - A Bíblia e a História como fontes inspiradoras ....................... 321. Dons e Ministérios na Bíblia ................................................................................. 33 1.1. Paulo e a organização em Dons e Ministérios ................................................ 35 1.1.1. Definição das fontes paulinas ............................................................... 35 1.1.2. O uso da palavra dom (charisma) ......................................................... 36 1.1.3. O uso das palavras Ministério e Ministro ............................................ 39 1.1.4. A estrutura carismática da eclesiologia paulina ................................... 43 1.1.4.a. As listas dos carismas em Paulo .............................................. 45 5
  6. 6. 1.1.4.b. O carisma como “estrutura estruturante da comunidade” ........ 47 1.1.4.c. Instruções paulinas à igreja de Corinto .................................... 502. Dons e Ministérios na História da Igreja Cristã .................................................... 52 2.1. Dons e Ministérios na Reforma Protestante ................................................... 53 2.1.1. O povo participa ativamente do culto ................................................... 55 2.1.2. Tradução da Bíblia para o alemão ........................................................ 56 2.1.3. O lar como espaço para a instrução religiosa ....................................... 56 2.1.4. A igualdade dos cristãos diante de Deus. Todos são sacerdotes .......... 57 2.2. Dons e Ministérios no Movimento Wesleyano do século XVIII .................... 60Capítulo 3Dons e Ministérios - Uma estrutura organizacional participativa e missionária ....... 65Conclusão ................................................................................................................... 75Bibliografia ................................................................................................................ 77 6
  7. 7. INTRODUÇÃO A Igreja Metodista tem por princípio administrativo reunir-se periodicamenteem concílios, para tratar de assuntos referentes à sua vida e missão. Os concílios são"órgãos jurisdicionais",1 e constituem-se em três, a saber: Concílio Geral, ConcílioRegional e Concílio Local. O Concílio Geral é considerado "órgão superior deunidade da Igreja e suas funções são legislativas, deliberativas e administrativas".2 No mês de julho de 1987, a Igreja Metodista se reuniu na cidade de SãoBernardo do Campo (SP), para realizar o seu XIV Concílio Geral. Concílio este quetomou algumas decisões visando a organizar a igreja em Dons e Ministérios, umasistemática que optou, explicitamente, por um novo modelo de igreja. No texto "Dons e Ministérios: Espiritualidade e Serviço", vemos os Bisposrelembrarem algumas das decisões deste XIV Concílio Geral. O Concílio Geral da Igreja Metodista em 1987 tomou algumas decisões visando organizar a Igreja em Dons e Ministérios. a) Reafirmou o princípio conciliar para todos os níveis, inclusive igreja local e a descentralização do poder; b) a igreja local deixou de ser vista como uma unidade institucional, e sim como "Comunidade de fé"; c) enfatizou o sacerdócio universal de todos os crentes e a necessidade de todos se envolverem na Missão; d) reafirmou o conceito de Igreja e Missão percebida nos1IGREJA METODISTA, Cânones 1992, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1992, p. 16.2Idem, p. 163 (artigo 54). 7
  8. 8. últimos anos e presente no "Plano para a vida e a missão da Igreja"; e) reafirmou a unidade da Igreja e o princípio Metodista de conexionalidade. A igreja local é, assim, desafiada a dar oportunidades iguais a seus membros, de modo que expressem seus dons através de serviços prestados à comunidade e circunvizinhanças. Esse é o objetivo da Igreja de Dons e Ministérios. Dons que habilitam para o serviço, práticas que correspondam ao evangelho que é pregado. Com isso, surge uma exigência de maior liberdade de organização, a fim de utilizar os dons presentes nas comunidades, e a fim de atender às necessidades de serviço ao povo.3 Este Concílio Geral (1987), no que compete à sua capacidade de legislar,4procurou ser mais enfático no que diz respeito à participação do laicato nos diferentesministérios, colocando entre os deveres dos membros: 7. Reconhecer seu chamamento como ministro de Deus para as diversas áreas da missão. 8. exercer seu ministério participando dos serviços da Igreja Metodista e da Comunidade.5 Continuando a analisar os Cânones da Igreja Metodista, aprovados pelo XIVConcílio Geral, vemos que um grupo é reconhecido como Igreja, entre outras coisas,"no exercício de Dons e Ministérios do Espírito Santo" (art. 121 b); compete aoConcílio Local “reconhecer os dons das pessoas que se apresentam para exercê-losnos ministérios da Igreja Local" (art. 128, nº 21); sendo que “o trabalho desenvolvidonas Igrejas Locais toma a forma de ministérios por ela reconhecidos" (art. 135). EsteConcílio Geral estabeleceu a organização da Igreja Local, tendo como ponto departida os dons concedidos pelo Espírito Santo, os ministérios de seus membros e asnecessidades do serviço na comunidade. Ao afirmarmos que, em 1987 (no Concílio Geral), a Igreja Metodista optou porum novo modo de ser igreja, ou seja, uma igreja organizada em "Dons e Ministérios",3COLÉGIO EPISCOPAL, "Dons e Ministérios: Espiritualidade e Serviço", in: Igreja: ComunidadeMissionária a serviço do Povo, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1991, p. 13-14.4IGREJA METODISTA, op. cit., p. 163.5Idem, p. 130. 8
  9. 9. não estamos querendo dizer que esta opção tenha sido algo instantâneo ou mágico.Por isso, este trabalho procura mostrar que esta decisão (opção) não aconteceu poracaso. O primeiro capítulo indica que esta decisão é conseqüência da luta da IgrejaMetodista brasileira por tornar-se “verdadeiramente” autônoma da Igreja MetodistaEpiscopal do Sul. E também que ela tem suas raízes mais fortes nos planosquadrienais de 1974 e 1978 e, principalmente, no Plano para a Vida e a Missão daIgreja de 1982. O segundo capítulo apresenta a Bíblia e a História da Igreja Cristã como fontesinspiradoras deste novo modelo organizacional. A releitura da Bíblia e da História éapresentada como sendo uma das motivações que levou a Igreja Metodista a optar porDons e Ministérios em 1987. O terceiro capítulo apresenta Dons e Ministérios como uma estruturaorganizacional participativa e missionária. A Igreja, que se organizara por muitotempo dentro de uma estrutura excessivamente burocrática de manutenção, optou em1987 por uma estrutura organizacional mais flexível e condizente com sua propostaministerial. 9
  10. 10. CAPÍTULO I "DONS E MINISTÉRIOS" uma igreja que busca realizar a missão de Deus Ao afirmarmos que, em 1987 (no Concílio Geral), a Igreja Metodista optou porum novo modo de ser igreja, ou seja, uma igreja organizada em "Dons e Ministérios",não estamos querendo dizer que esta opção tenha sido algo instantâneo ou "mágico".6Podemos afirmar, sim, que as decisões tomadas neste concílio (1987), principalmenteno que se refere ao movimento "Dons e Ministérios", são resultantes "de um longoprocesso de avanços e retrocessos, que tem suas raízes mais fortes nos PlanosQuadrienais de 1974 e 1978 e, principalmente, no Plano para a Vida e a Missão daIgreja de 1982".7 Se queremos entender o movimento "Dons e Ministérios” da Igreja Metodistabrasileira, não devemos nos limitar apenas na análise das decisões do XIV ConcílioGeral. Devemos, sim, dar crédito à história da Igreja Metodista no Brasil,principalmente no que diz respeito à sua luta por tornar-se "verdadeiramente"autônoma da Igreja Metodista Episcopal do Sul, procurando, assim, criar uma6Termo utilizado pelo professor Clovis Pinto de Castro em sua dissertação de mestrado. Vejamos o queele nos diz: "Na verdade, essa opção não pode ser vista como algo mágico". Ele refere-se à opção porDons e Ministérios feita pelo XIV Concílio Geral da Igreja Metodista.7CASTRO, Clovis Pinto de, Igreja Metodista: Ação pedagógica do Colégio Episcopal na implantaçãode um novo modelo de Igreja organizada em Dons e Ministérios (1987-1991), Piracicaba, Unimep,1992, p. 23. (Dissertação de Mestrado). 10
  11. 11. estrutura organizacional que respondesse à sua realidade de Igreja brasileira. Outroponto fundamental (que não trataremos neste trabalho) é que Dons e Ministériossurgiu na década de oitenta, em meio a um contexto político bem diferente doanterior. O crescimento do partido dos trabalhadores, o projeto Nova República, amobilização popular em torno do movimento das “diretas já” e a instalação doCongresso Nacional Constituinte foram fatores que certamente influenciaram osurgimento de um projeto de igreja mais democrática, participativa e descentralizada.Para se falar de "Dons e Ministérios", devemos estar com os "olhos no retrovisor ", ouseja, estarmos olhando para o que já se passou.1. "DE OLHO NO RETROVISOR"Um breve histórico do metodismo no Brasil1.1. Uma missão norte-americana O Metodismo chegou ao Brasil como fruto das missões da Igreja Metodistanorte-americana. Vejamos um breve resumo feito pelo professor Reily: A primeira tentativa de vinda e fixação do Metodismo ao Brasil, naufragou diante da grande recessão econômica nos Estados Unidos, a qual inviabilizava a manutenção da pequena missão. Só depois da guerra civil americana é que os metodistas vieram para ficar. O primeiro núcleo metodista foi montado em Santa Bárbara DOeste, interior de São Paulo, onde , através de trabalho do Rev. Junias Gastham Newman, foi organizada uma paróquia Metodista entre norte-americanos que para ali tinham imigrado após a guerra. Por solicitação destes imigrantes vieram missionários metodistas para trabalhar junto aos brasileiros, utilizando o nosso idioma. O primeiro a chegar foi o Rev. J. 11
  12. 12. J. Ransom. A Igreja Metodista no Brasil tem se destacado pelo seu trabalho educativo. A primeira de suas escolas foi fundada em 1881 em Piracicaba por miss Martha Hit Watts, gerando, com o crescimento, a atual “UNIMEP.8 Durante os anos de 1867 à 1930 (sessenta e três anos) o território brasileiro foiconsiderado campo missionário da Igreja Metodista dos Estados Unidos. “A obramissionária era desenvolvida sob o domínio quase absoluto da presença e ação dosmissionários nos pontos chave e de poder da Igreja”.9 A estrutura organizacional e administrativa montada pelos missionários era umacópia fiel do modelo utilizado na igreja norte-americana. O metodismo era na realidade uma micro-sociedade, onde havia todos oscomponentes necessários para a construção de uma nova vida cultural, era umaextensão da sociedade norte-americana. Toda a ideologia apresentada aos brasileirosserviu para conduzí-los a “uma profunda admiração e dependência do sistemapolítico-social norte-americano, e a um total alheamento da cultura e realidadebrasileiras”.10 Esta mentalidade norte-americana fez com que o metodista brasileirofosse indiferente à sua própria cultura; “sacralizando”, assim, o modo de viver destesmissionários. Os missionários não hesitaram em pressionar e mandar de volta colegas que não concebiam a missão como o prolongamento dos usos e costumes americanos no Brasil. Dentre eles eu cito dois: - o pioneiro do metodismo no Brasil, que foi o rev. Ranson, foi pressionado a ir embora, precisamente por este motivo; e mais tarde o rev. Lee.118 REILY, Duncan Alexander, Igreja Metodista em 3 Tempos, Folheto distribuído pela PastoralUniversitária do Instituto Metodista de Ensino Superior, São Bernardo do Campo, sd. Para um melhoraprofundamento deste assunto, ler: SALVADOR, José Gonçalves, História do Metodismo no Brasil,São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1982.9OLIVEIRA, Clory Trindade, Cem anos de Igreja Metodista do Brasil, in: Situações Missionárias naHistória do Metodismo, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista/Editeo, 1991, p.26.10 Idem, p. 27.11 Transcrição da palestra apresentada na 43ª Semana Wesleyana, na Faculdade de Teologia da IgrejaMetodista, pelo professor Peri Mesquida, com o tema: “Estruturas Práticas do Poder na IgrejaMetodista: da Inglaterra até o Brasil”, realizada em 25 de maio de 1994, às 14.00 horas, no Salão de 12
  13. 13. Durante este período o metodismo brasileiro era totalmente submisso à IgrejaMetodista norte-americana.1.2. Em busca de autonomia12 Num esforço para tornar a Igreja Metodista no Brasil, ou melhor, IgrejaMetodista Episcopal do Sul no Brasil, em Igreja independente da Igreja Metodistanorte-americana (ou seja, Igreja Metodista Episcopal do Sul), acontecerão trêsconferências em 1929 (divididas por região), de onde sairá uma proposta deautonomia da Igreja brasileira. Queria-se que: as conferências anuais do Brasil fossem organizadas em Igreja autônoma, para que, tendo plena liberdade de se desenvolver como instituição nacional continuasse, contudo, em união com a Igreja Metodista Episcopal do Sul.13 A Igreja Metodista Episcopal do Sul (em sua conferência Geral, reunida emmaio de 1930 na cidade de Dallas, Texas, Estados Unidos da América), após terestudado a proposta enviada pela Igreja no Brasil, aprovou-a decretando assim aautonomia da mesma.Leitura da Faculdade de Teologia. Para um maior aprofundamento desta questão, pesquisar:MESQUIDA, Peri, Hegemonia Norte-Americana e Educação Protestante no Brasil, Juiz de Fora/SBC,UFJF/Editeo, 1994.12 Este é um tema um tanto quanto vasto e complexo, que não queremos problematizar neste trabalho.Nos restringiremos a apresentar este acontecimento histórico a partir da análise dos seguintes textos: 1-IGREJA METODISTA, Cânones 1992, op. Cit., p. 9; 2- OLIVEIRA, Clory Trindade, Estruturaorganizacional e administrativa do Metodismo (1965-1982), in: Caminhando, Revista da IgrejaMetodista, São Bernardo do Campo, 1982, p. 35-46; e 3- SILVA, Geoval Jacinto da, Buscando situar-se na Missão Hoje, in: Situações Missionárias na História do Metodismo, São Bernardo do Campo,Imprensa Metodista/ Editeo, 1991, p. 49-55. Para um estudo mais aprofundado e crítico sobre esteassunto, ler: 1- JOSGRILBERG, Rui de souza, O movimento da autonomia. Perspectiva dos nacionais,in: História, Metodismo, Liberações, São Bernardo do Campo, Editeo, 1990, p. 92-133; 2- REILY, D.A., Metodismo Brasileiro e Wesleyano, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1981, p. 21-46;3- ROCHA, Isnard, Histórias da história do Metodismo no Brasil, São Bernardo do Campo, ImprensaMetodista, sd, p. 129-142.13 IGREJA METODISTA, Cânones 1992, op. cit, p. 9. 13
  14. 14. Ainda que a Igreja Metodista do Brasil tenha se tornado autônoma com respeitoà Igreja Metodista Episcopal do Sul, ela continuará a organizar-se como um reflexo daestrutura norte-americana. A estrutura com a qual se organiza o metodismo autônomo no Brasil é a mesma, com pequenas modificações, usada pelo metodismo norte-americano conforme estabelecida na sua disciplina (cânones) de 1922.14 A Igreja que recebeu sua autonomia em 1930 continuou ainda sendo dirigida porum bispo americano aposentado, que seguia a legislação da Igreja norte-americana.“Só em 1934 é que surge uma legislação da Igreja brasileira e a eleição do primeirobispo nacional”.15 No decorrer dos trinta e cinco anos após a autonomia (1930-1965), a IgrejaMetodista do Brasil vai amadurecendo sua autonomia, embora recebendo umainfluência muito grande da Igreja norte-americana. A forma organizacional da Igreja brasileira durante estes anos é descrita peloprofessor Clory Trindade, da seguinte maneira: A estrutura organizacional e administrativa implantada no metodismo autônomo era uma estrutura de manutenção e não missionária, isto é, a estrutura representava uma maquinária pesada exigindo cuidados permanentes e recursos crescentes, desviando a dinâmica do trabalho da evangelização e ação social. A necessidade da jovem Igreja Metodista no Brasil era de ordem missionária e não de manutenção.1614OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),in: Caminhando, Revista Teológica da Igreja Metodista, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista,1982, p.36.15SILVA, Geoval Jacinto da, Buscando situar-se na Missão Hoje, in: Situações missionárias na históriado metodismo, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista/Editeo, 1991, p. 49.16OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),op. cit., p.36. 14
  15. 15. 1.3. Em busca de uma estrutura organizacional comprometida com a missão. Em 1965, a Igreja Metodista do Brasil revelava os primeiros sinais de umaIgreja a caminho de sua plena autonomia. No Concílio Geral deste ano se farãoalgumas alterações na carta constitucional, em relação a 1960, principalmente nassessões: das ordens, do ministério, do episcopado, das responsabilidades morais eadministrativas. Podemos dizer que este concílio refletiu um pouco da crise que o paísenfrentava, com as conseqüências da Revolução de 1964. O Bispo Paulo Ayres nosapresenta, ainda que sucintamente, uma análise de conjuntura da Igreja Metodista dofinal dos anos cinqüenta e anos sessenta, destacando os seguintes aspectos ocorridos: ... incidente (não devidamente explicado) da renúncia do bispo César em 1955, a pressão para o estabelecimento de novas regiões (em parte devida ao regionalismo xenófobo crescente na Igreja), a crise na Faculdade de Teologia em 1962 (exoneração do reitor Natanael I. do Nascimento; eleição e renúncia do professor Almir dos Santos), a esquerdização do movimento da juventude Metodista (“ser cristão é ser da esquerda” Richard Shaull), o movimento da direita denominado “Esquema” em 1965, os impasses do Concílio Geral de 1965.17 O Concílio Geral de 1970 vai receber o impacto de todas estas crises. O Rev.Clory Trindade diz o seguinte: “O Concílio Geral de 1970/71 é o mais tumultuado dahistória do metodismo no Brasil. Pela primeira vez um Concílio é suspenso, voltandosua continuidade seis meses após, em janeiro de 1971”.18 Já o professor GeovalJacinto da Silva (atual bispo da 3ª Região Eclesiástica) nos diz o seguinte comrespeito à década de setenta: “A década de setenta surge como esperança epossibilidade de articular e elaborar as bases para uma igreja que esteja comprometidacom a missão”.1917 MATTOS, Paulo Ayres, A Questão da unidade Metodista (ou da Unidade que temos à Unidade queprecisamos), in: Luta pela Vida e Evangelização, São Paulo, Paulinas, 1985, p. 299.18OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),op. cit., p.37.19SILVA, Geoval Jacinto da, Buscando situar-se na Missão Hoje, op. cit., p. 50. 15
  16. 16. Como vimos até agora, a Igreja Metodista no Brasil viveu por muito tempoorganizada dentro de uma estrutura proposta pelo metodismo norte-americano. Adécada de setenta é considerada a década de mudanças (podemos dizer, mudanças“radicais”). A Igreja enfatiza mais a missão, e por isso quer deixar a estrutura demanutenção e organiza-se numa estrutura missionária. Uma estrutura que permitaresponder ao chamado de Deus, para a implantação de Seu Reino no mundo, e emparticular na América Latina. Esse Concílio Geral (1970/71) promoveu grandes modificações no que dizrespeito à estrutura organizacional e administrativa da Igreja Metodista. Secompararmos esta nova estrutura aprovada com a antiga (1930-1965), veremos quãoprofundas foram estas modificações.20 O objetivo maior destas modificações era o deconstruir uma estrutura organizacional e administrativa que fosse mais brasileira.Pensava-se que, com o abrasileiramento da estrutura, seria possível exercer-se overdadeiro papel da Igreja, que é promover a Missão de Deus. Uma das coisas que se pretendia alcançar com estas modificações era a de“enxugar-se a máquina”. Como já dissemos acima, a estrutura norte americana, com aqual o metodismo brasileiro se organizava, era de manutenção, uma estrutura pesada,burocrática e sem fins missionários. Tendo em vista “enxugar” um pouco a máquina,esse Concílio Geral (1970/71) aprovou a eliminação de “um” dos “cinco” níveis deestrutura da Igreja. O nível eliminado foi o Paroquial, permanecendo então apenas osníveis Local, Distrital, Regional e Geral. Outro ponto que se pretendia era o de dar um espaço maior ao leigo.Examinando todas as modificações estruturais, nos vários níveis da Igreja, vemos que“há um processo de laicização do poder”.21 Alguns órgãos passam a ser dirigidos por20Isto pode ser comprovado se compararmos os Cânones de 1970/71 com o anterior.21OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),op. cit., p.39. 16
  17. 17. leigos, em outros, ainda que não estejam presidindo, eles terão espaço como osclérigos. Foi neste Concílio também que a denominação deixou de ser “IGREJAMETODISTA DO BRASIL” passando a ser chamada apenas por “IGREJAMETODISTA”. Analisando os Cânones da Igreja Metodista de 1971, vemos que uma outraalteração básica foi a modificação da seção sobre Fins da Igreja, em Missão daIgreja.22 O rev. Clory afirma que esta alteração significa que a Igreja passa “de umafilosofia empresarial, secular, para uma filosofia missionária, de um enfoqueindividual para um enfoque mais amplo, de caráter social”.23 Houve outras modificações tanto na Carta Constitucional quanto nas LeisAdjetivas, mas não nos referiremos a elas.24 Podemos afirmar que o Concílio Geral de 1970/71 marcou profundamente ometodismo brasileiro. Ele apresentou alguns novos rumos para a atuação da Igreja. ORev. Clory Trindade nos diz: “A mudança da estrutura organizacional eadministrativa, foi o meio usado para dar forma concreta às aspirações”.25 A IgrejaMetodista do Brasil por muito tempo aspirava uma Igreja mais brasileira e maismissionária. Julgava que certas estruturas estavam envelhecidas, e os resultados já nãosatisfaziam mais. Este Concílio (1970/71) tornou-se assim o momento de se realizaressas mudanças aspiradas por muitos.22IGREJA METODISTA, Cânones 1971, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1971, p. 11.23OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),idem, p.41.24 Para um maior aprofundamento com respeito a estas modificações da estrutura organizacional eadministrativa da Igreja, na Carta Constitucional e também nas Leis Adjetivas (todas citadas acima),ler: OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982), op. cit. & IGREJA METODISTA, Cânones 1971, São Bernardo do Campo, ImprensaMetodista, 1971, op. cit., comparando com o Cânones de 1978.25OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),idem, p.44. 17
  18. 18. Ainda que tenham sido feitas modificações na estrutura organizacional eadministrativa da Igreja Metodista, neste Concílio Geral, “faltava, ainda, um planoque pudesse aprofundar esse processo”.26 Nasce então em 1974 o primeiro PlanoQuadrienal, realmente brasileiro, com propostas renovadoras e missionárias. Desencadeado o processo, com as modificações estruturais, logo mais a nova filosofia subjacente busca sua expressão, o que vai acontecer em 1974, com a elaboração do primeiro plano quadrienal, realmente brasileiro, e que representava uma nova teologia, numa nova visão missionária, chamando por mais renovadas formas institucionais. A missão é a fonte, o reino de Deus é o ponto de chegada, a libertação e o ministério de todos são a dinâmica, o Brasil e a sua cultura são o lugar e a forma da missão libertadora do evangelho de Cristo.271.4. Planos Quadrienais 1974 e 1978; Plano para a Vida e a Missão da Igreja e a prática de algumas igrejas Como já vimos, no Concílio Geral de 1974 nasce o primeiro Plano Quadrienalplenamente brasileiro. Seu título é: “Missão e Ministério”. Seguindo a mesma linha doplano anterior, o Plano Quadrienal de 1978, com o título: “Unidos pelo Espírito,Metodistas Evangelizam”, foi aprovado pelo Concílio Geral deste ano (1978). O planoposterior ao de 1978 foi o de 1982. Um plano que “apesar de dar seqüência aosPlanos Quadrienais, é um documento com características diferentes”.28 Se afirmamos que “Dons e Ministérios” tem suas raízes mais fortes nestesdocumentos,29 devemos então, neste momento, analisar um pouco a história e oconteúdo dos mesmos.26CASTRO, Clovis Pinto de, op. cit., p. 48.27 OLIVEIRA, Clory Trindade, Estrutura Organizacional e Administrativa do Metodismo (1965-1982),idem, p.44.28CASTRO, Clovis Pinto de, op. cit., p. 50.29 Verificar a página 10 deste trabalho. 18
  19. 19. 1.4.1. Missão e Ministério (Plano Quadrienal - 1975-1978) A Igreja Metodista reuniu-se em Concílio Geral nos dias 4 a 14 de julho de1974, no Instituto Bennett de Ensino, na cidade do Rio de Janeiro. Tal Concílioaprovou um documento chamado Plano Quadrienal (1975-1978), que trazia o seguintetítulo: Missão e Ministério”. O rev. Geoval Jacinto da Silva afirma que “desde oinício dos anos setenta havia uma preocupação por parte do Conselho Geral emformar um grupo para elaborar um Plano de Trabalho para a Igreja”.30 Com respeito àelaboração e aprovação deste Plano Quadrienal, o prof. Clovis faz a seguinteponderação: A elaboração do Plano foi bastante participativa. Houve um envolvimento de vários setores e segmentos da Igreja. A sua aprovação no Concílio Geral só aconteceu após quatro dias de muitas reuniões em grupos, para um estudo mais aprofundado.31 Podemos dizer que este Plano Quadrienal é o fruto da vontade da própria Igreja.Se no Concílio Geral de 1970/71 ela havia aprovado mudanças estruturais naorganização e administração, em 1974 ela irá aprovar um Plano que venha aaprofundar este processo. A Igreja está em busca de realizar a missão de Deus. Querconscientizar seus membros da necessidade de se envolverem na obra missionária. Porisso, entre outros elementos existentes no Plano, encontramos os seguintes: Reconhecemos ainda: 1) Que ministério é a Igreja Total, todos os seus membros; 2) que pastor e membro da igreja completam-se e completam a Igreja para o desempenho da sua Missão; 3) Que o ministério pastoral carece de uma reavaliação...; 4) que o ministério do crente não tem sido devidamente compreendido pela Igreja como essencial à Missão, e por isso carece de presença e ação no corpo de Cristo; 5) que a missão implica em testemunho, nas30 SILVA, Geoval Jacinto da, op. cit., p. 50.31CASTRO, Clovis Pinto de, op. cit., p. 47. 19
  20. 20. diferentes áreas da vida, que indivíduos e grupos dão da obra de Deus em Jesus Cristo e em apelo para que os homens participem dessa obra, pela fé, e se comprometam com ela, sendo para isso equipados pelo Espírito Santo.32 Após apresentar suas considerações, reconhecendo as necessidades de mudançada Igreja, teremos algumas propostas apresentadas neste plano. Podemos ver, tantonas considerações acima, quanto nas propostas abaixo, que este plano apresentarealmente o início de um processo, que levaria a Igreja Metodista brasileira a optar,em 1987, por um modelo de igreja organizada segundo os Dons e Ministérios.Vejamos as propostas do Plano: Propomos, portanto: A) Que tudo na Igreja Metodista (ministérios, instituições educacionais e de serviço, igrejas locais, congregações, sociedades e grupos e o próprio patrimônio) passe a existir em função da Missão e do testemunho cristão, em todas as áreas de ação da Igreja; B) Que a primeira tarefa da Igreja Metodista., agora, seja a de despertar o povo de Deus (pastor e laicato) para descobrir o seu lugar na Missão; C) Que esse despertamento se faça através do preparo devocional, teológico e doutrinário do pastor, primeiramente, e a seguir, do laicato (pastor preparado prepara para a Missão); D) Que todos (Bispo, pastor e membro da Igreja) zelem para que a Missão se cumpra fielmente, nas suas respectivas áreas de ação; E) Que o culto a Deus seja o “momento”, no espaço, para onde converge o povo e de onde emerge a Missão.33 Podemos também afirmar que este Plano (1975-1978) tinha uma direção clara,pois prosseguia rumo a uma igreja mais participativa e ministerial. Tinha como alvoenvolver todos os membros da Igreja (leigos e clérigos) na obra missionária. Vejamoso que ele diz com respeito a seus objetivos: O objetivo do presente trabalho é conscientizar-nos do programa de ação da Igreja, como serva de Jesus Cristo, para libertar totalmente o Homem, através do poder do Evangelho, do pecado, do sofrimento, do medo e da morte,32IGREJA METODISTA, Conselho Geral, Plano Quadrienal 1975-1978, São Bernardo do Campo,Imprensa Metodista, 1974, p. 8.33 Idem, p. 8-9. 20
  21. 21. dando-lhes a paz da fé mediante a nova vida em Cristo Jesus. Será um guia para a aplicação docente da Igreja nas igrejas locais, instituições de ensino e outras organizações que a Comunidade Metodista possui. Orientará o ministério no exercício da Missão em sua totalidade de leigos e clérigos. Conscientizará a todos para o alistamento nesta grande obra ministerial durante o quadriênio e, futuramente, até o tempo que for da vontade do Senhor.34 Reconhecemos, tendo em mente principalmente a parte final desta citação, que avontade de Deus foi além deste quadriênio (1975-1978), e que este Plano foi apenas oinício de uma nova caminhada. Podemos afirmar que, em 1974, a Igreja Metodistacomeça a traçar algumas linhas mestras, que trilhará futuramente. Analisando estePlano, encontramos claramente a “semente” de onde brotará a opção por Dons eMinistérios (1987). 1.4.2. Unidos pelo Espírito, Metodistas Evangelizam (Plano Quadrienal1979-1982) No ano de 1977 o Conselho Geral35 constituiu um Grupo de Trabalho paraelaborar o anteprojeto do Plano Quadrienal para o período 1979-1982. O anteprojeto,elaborado pelo Grupo de Trabalho, foi aprovado pelo Conselho Geral, que oencaminhou ao XIII Concílio Geral da Igreja Metodista em 1978. O documento enviado teve “a aprovação do plenário do Concílio Geral da IgrejaMetodista no Brasil, realizado de 23 à 30 de julho na cidade de Piracicaba, estado deSão Paulo”;36 tendo o seguinte título: Unidos pelo Espírito, MetodistasEvangelizam.34 Idem, p. 6.35 Conforme o artigo 73, 1 dos Cânones da Igreja Metodista de 1974, “compete ao Conselho Geralformular as linhas de ação, submetidas à aprovação do Concílio Geral”.36 IGREJA METODISTA, Conselho Geral, Plano Quadrienal 1979-1982, São Bernardo do Campo,Imprensa Metodista, 1978, p. 3. 21
  22. 22. Após uma pesquisa, reconheceu-se que o Plano Quadrienal de 1975-1978 foi emseu todo considerado bom. Seguindo então o mesmo pensamento que o Plano anterior,o Plano Quadrienal de 1979-1982, continuará caminhando rumo a uma Igrejamissionária, onde todos os seus membros (clérigos e leigos) participam desta obraevangelizante. Continua-se a caminho de uma Igreja ministerial, onde todos sãoconsiderados ministros. Antes mesmo de expor seus objetivos, o Plano nos apresentará algumasafirmativas que julga ser importantes. Estaremos citando algumas: 1- O propósito de Deus é salvar o ser humano, concedendo- lhe nova vida à imagem de Jesus Cristo, integrando-o no seu reino, através da ação e poder do Espírito Santo, a fim de que, como Igreja, constitua neste mundo e neste momento histórico, sinais concretos do Reino de Deus. 2- A missão da Igreja é participar da ação de Deus nesse propósito (...) 10- O viver humano, nestes dias, é altamente condicionado pela técnica, pelo consumismo imediato, pelos falsos valores do materialismo, pela massificação, pelo esquema de uma sociedade mercantilista. Sente-se a imperiosa necessidade de permitir ao ser humano a criação de situações nas quais ele tenha um confronto com a pessoa salvadora e libertadora de Jesus Cristo. Urge anunciar uma notícia boa no meio de tantas más notícias. Urge evangelizar. (...) 13- Tudo na Igreja Metodista: ministérios, instituições educacionais e de serviço, igrejas locais, congregações, sociedades e grupos e o próprio patrimônio, existe em função da Missão, isto é, do testemunho, serviço e evangelização. 14- Todos os membros da Igreja pelo fato de pertencerem ao povo de Deus através do batismo, são ministros do evangelho. São chamados por Deus, preparados pela Igreja para, sob a ação do Espírito Santo, cumprirem a missão, em testemunho, serviço e evangelização.37 Somente então, após apresentar estas afirmativas (dentre as quais citamosapenas algumas), é que serão expostos os objetivos deste Plano. Como veremos, este37 Idem, p. 13-14. 22
  23. 23. Plano continuará insistindo na conscientização da Igreja em participar plenamente naobra missionária. Vejamos o objetivo geral do Plano: Objetivo Geral: orientar o povo metodista na sua vivência cristã sob a dinâmica do Espírito Santo que, em unidade, crescimento e serviço, promove a evangelização, em meio à realidade concreta do mundo.38 Quando afirmava isto, estava preocupado em levar o povo metodista a algunsobjetivos operacionais, tais como: 1- A compreensão de que a evangelização é uma atitude natural e necessária de todo o cristão que esteja vivendo a nova vida em Cristo, vitalizada pela ação poderosa do Espírito Santo. Isto é o que aprendemos na Palavra de Deus, especialmente em Atos 2.42-47, 4.32-35, 9.32, entre muitos outros textos (...) 5- À consciência de que o Espírito Santo é a presença, o poder e ação na vida da Igreja (...) 9- À ação evangelizadora e pessoal e comunitária, através dos mais diversos meios de expressão e comunicação. 10- Ao conhecimento da problemática social, econômica e cultural do mundo contemporâneo. 11- À vida de serviço cristão (...) 13- À reconsagração de todo o povo metodista como ministros de Deus.39 Não podemos deixar de reconhecer que neste Plano também encontramos algunsvestígios de um movimento que culminaria na opção por Dons e Ministérios. Temosaqui, então, um pequeno desenvolvimento da “semente” lançada pelo PlanoQuadrienal de 1974. 1.4.3. Plano para a Vida e Missão da Igreja Metodista (1982)38 Idem, p. 16.39 Idem, p. 16-17. 23
  24. 24. O XIII Concílio Geral da Igreja Metodista foi realizado em Belo Horizonte -MG, no período de 18 a 28 de julho de 1982, nas dependências do Instituto IsabelaHendrix. Este Concílio Geral aprovou um documento denominado “Plano para aVida e a Missão da Igreja”, reconhecendo ser este um Plano que dava continuidadeaos dois Planos anteriores. Este Plano (PVMI) surgiu como resultado da Consulta Nacional de 1981. Umaconsulta realizada no Rio de Janeiro, que visava a avaliar a vida e a missão da Igreja, eque também é reconhecida como o principal evento da celebração de 50º aniversárioda autonomia da Igreja Metodista brasileira. O professor Clovis afirma: “os resultadosdesta consulta não agradaram aos setores mais conservadores e carismáticos da Igreja;por outro lado, marcaram um avanço significativo dos setores mais progressistas daIM”.40 Ainda que este Plano (PVMI) seja uma continuidade dos dois Planos anteriores,ele terá algumas características particulares que o diferenciará dos anteriores. Um dos pontos que o diferencia dos dois “Planos Quadrienais” anteriores (1974e 1978) é que este não propõe um programa de ação para um quadriênio, mas simapresenta algumas linhas gerais que visam a orientar a ação da Igreja por um períodoindeterminado. Na própria introdução deste documento (PVMI), vemos descritoporquê seria importante aprovar um plano que não se limitasse a um quadriênio: A experiência do Colégio Episcopal e de vários segmentos da Igreja Metodista nestes últimas anos indica que o metodismo brasileiro está saindo da profunda crise de identidade que abalou nossa Igreja após a primeira metade da década de sessenta. Estas experiências nos têm mostrado que a Igreja necessita de um plano geral, que inspire sua vida e programação, e que não será dentro do curto espaço de um quadriênio, que corrigiremos os antigos vícios que nos impedem caminhar. Esse fato esteve claro na semana da consulta Vida e Missão, e no documento que ela40CASTRO, Clovis Pinto de, op. cit., p. 51. 24
  25. 25. produziu. Ao adotarmos aquele documento como a base do novo plano, estamos propondo ao Concílio não mais um programa de ação para o quadriênio, mas linhas gerais que deverão orientar toda a ação da Igreja nos próximos anos, enquanto necessário, devendo ser avaliado periodicamente. 41 O rev. Ely Éser Barreto César42 faz uma introdução do Plano, na segunda sessãoregular do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, onde apresenta como sendo três asfontes que fundamentam o novo Plano (PVMI). O documento está fundamentado em três fontes: a) Texto básico da consulta Vida e Missão, realizada pelo Conselho Geral como parte das comemorações do Jubileu de Ouro da autonomia da Igreja Metodista. b) documento enviado pelo Colégio Episcopal ao Conselho Geral, contendo objetivos, bases, metas e prioridades para o próximo quadriênio; c) texto do atual Plano Quadrienal, especialmente a parte relativa às áreas da Missão e sua estruturação.43 O “Plano para a Vida e a Missão da Igreja” foi exaustivamente examinado peloconciliares, que se dividiram em onze grupos para discutir este documento antes delevá-lo ao plenário. Ainda que houvesse alguns pontos polêmicos em torno destedocumento, após sofrer algumas alterações em sua redação, foi aprovado pela maioriado plenário. Vejamos a redação da Ata, no que diz respeito à aprovação destedocumento em 1982: APROVAÇÃO GLOBAL DO “PLANO PARA A VIDA E A MISSÃO DA IGREJA”: O presidente declara em ordem, como matéria para ser aprovada globalmente, depois de exaustivamente examinada, o “Plano para a Vida e a Missão da Igreja”. Setenta e oito conciliares votam a favor, dois, contrariamente e um em branco. Aprovado (documento nove).4441IGREJA METODISTA XIII CONCÍLIO GERAL, Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista,in: Cânones 1992, p. 61.42 O rev. Ely Éser Barreto César fazia parte do Conselho Geral, e por isso apresentou ao Concílio oPlano para a Vida e a Missão da Igreja que eles haviam elaborado, através do Grupo de Trabalho.43 IGREJA METODISTA XIII CONCÍLIO GERAL, Atas e Documentos, Belo Horizonte, p. 10.44 Idem, p. 28. 25
  26. 26. Em sua dissertação de mestrado, o professor Clovis Pinto de Castro nosrelembra que este Concílio Geral de 1982 foi um tanto quanto conturbado, em virtudede estar discutindo questões muito polêmicas. É bom lembrar que o XIII Concílio Geral foi marcado também por outras questões mais polêmicas, entre elas a integração da Igreja Metodista no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), que foi aprovada só com cinco votos de diferença - 45 a favor e 40 contrários, e a transferência da administração do Instituto Metodista de Ensino superior (IMS), da Área Geral para a 3ª RE, com 44 votos favoráveis e 33 votos contra.45 Neste momento queremos passar para uma análise deste plano. Não estaremospreocupados em analisá-lo em seu geral, mas apenas algumas partes que estejamapontando na direção de uma Igreja Ministerial. Como já dissemos, e queremos relembrar neste momento, o “Plano para a Vidae a Missão da Igreja é continuação dos Plano Quadrienais de 1974 e 1978”.46 Comocontinuidade, ele enfatizará a necessidade de se envolver tudo e todos da Igreja naMissão de Deus. Não há um rompimento com os dois planos anteriores (1974-1978),mas sim, uma continuidade do processo iniciado no plano de 1974. A Igreja continuapreocupada em direcionar todos os seus esforços para a missão. Preocupado com a má interpretação que poderia surgir a respeito da palavraMissão, este plano apresentará uma definição da mesma. O que é Missão? Missão é a construção do Reino de Deus, sob o poder do Espírito Santo, através da ação da comunidade cristã e de pessoas, visando o surgimento da nova vida trazida por Jesus Cristo para a renovação do ser45CASTRO, Clovis Pinto de, op. cit., p. 52.46IGREJA METODISTA XIII CONCÍLIO GERAL, Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista,op. cit, p. 61. 26
  27. 27. humano e das estruturas sociais, marcados pelos sinais da morte.47 O Documento (PVMI) convoca a Igreja Metodista a “experimentar de modocada vez mais claro que sua principal tarefa é repartir fora dos limites do templo o queela de graça recebe do seu Senhor”.48 A Missão de Deus no mundo é oestabelecimento do Seu Reino. A tarefa da Igreja é a de participar deste ato, realizandoassim sua principal tarefa, a evangelização. Para a realização desta obra, a Igreja deve reconhecer, entre outras necessidades,a de um auto-conhecimento. A Igreja precisa “descobrir suas possibilidades e seusDons e valorizar seus ministérios para alcançar a participação total do povo na Missãode Deus”.49 Vemos aqui que a semente lançada, em 1974, começa a desenvolver-secom maior intensidade. A Igreja sabe que, para realizar a Missão de Deus, ela precisavalorizar os Dons existentes no seu meio. Seus membros são chamados a trabalhar naMissão de Deus, participando com seus dons, realizando seus ministérios. Vejamos oque o documento nos apresenta sobre o ato de trabalhar na Missão de Deus: -é trabalhar para o Senhor do Reino num mundo espremido pelas forças do pecado e da morte, participando, como comunidade, com dons e serviços para o nascer da vida (Jr 1.4-10; Fp 1.18-26, 3.10-11; II Tm 1.10; Jo 3.14); - É somar esforços com outras pessoas e grupos que também trabalham na promoção da vida (Mc 9.38-41; At 10.28, 15.8-11).50 Para que a Igreja venha a realizar esta missão, este plano reconhece também anecessidade de se utilizar ferramentas e métodos adequados. Entre algumas dasferramentas, ele nos apresenta a seguinte: Na Igreja e na comunidade hoje encontramos novos desafios que exigem ferramentas adequadas. Uma destas,47 Idem, p. 74.48 Idem, p. 74.49 Idem, p. 69.50 Idem, p. 50. 27
  28. 28. por exemplo, é a participação de todos os membros da Igreja, homens e mulheres, nos diferentes níveis de decisão.51 Como vimos, o Plano para a Vida e a Missão da Igreja não interrompeu oprocesso iniciado em 1974. Ele preservou a linha de pensamento, rumo a uma Igrejamissionária., onde todos os membros desta Igreja são convocados a participar daMissão de Deus. Podemos dizer que este plano não é apenas uma fonte, mas sim uma parteintegrante do Movimento Dons e Ministérios. Pois ainda que em 1987 a IgrejaMetodista tenha optado por um novo modelo de ser Igreja, ou seja, uma Igrejaorganizada em Dons e Ministérios, ela não abandonará o Plano para a Vida e a Missãoda Igreja. Os Cânones, em nota explicativa sobre o Concílio Geral de 1987, fazem aseguinte ponderação: Passados cinco anos, o XIV Concílio Geral aprovou que os dons e ministérios, exercidos nos diferentes níveis da vida da Igreja, fossem tomados como elementos básicos para a sua estruturação. A organização da igreja, portanto, deve ser conseqüência da descoberta das necessidades e dos desafios missionários e do exercício dos dons e ministérios suscitados pelo Espírito Santo como resposta a tais desafios. Dentro deste novo contexto estrutural eclesiástico, o Plano para a Vida e a Missão da Igreja continua sendo instrumento básico para a prática missionária da Igreja Metodista.52 O Plano para a Vida e a Missão da Igreja é o ideário que leva esta Igreja,organizada em Dons e Ministérios, a realizar uma prática missionária (estaremosfalando mais sobre isto no 3º capítulo).51 Idem p. 73.52 IGREJA METODISTA, Cânones 1992, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1992. 28
  29. 29. 1.4.4. As Práticas de algumas Igrejas Se afirmamos que “Dons e Ministérios” não nasceu do nada, mas que é frutohistórico de uma Igreja que busca realizar a missão, devemos então reconhecer que,além das influências dos planos anteriores,53 este plano será resultado de uma práticajá existente em algumas igrejas metodistas, vejamos o que os Bispos afirmam norelatório prestado ao XIV Concílio Geral: Em formas mais diversas possíveis motivados por circunstâncias diferentes, regiões, igrejas locais, lideranças leigas e pastorais têm sido inspiradas e mobilizadas, na direção dos Dons e Ministérios. Cremos ser uma ação do Espírito presente, de forma dinâmica, na vida da IM. Devemos estar atentos a esta manifestação e procurar na vivência da igreja local, da região e da área geral, estabelecer nova configuração para a igreja, fundada não em cargos e poderes, mas em Dons e ministérios.54 Podemos afirmar que esta prática, já existente nas igrejas locais, em organizar-seem ministérios, seja resultado da implantação do Plano para a Vida e a Missão daIgreja. Ainda que este plano tivesse apresentado uma nova linha de pensamento para aigreja, ele não mexia nas estruturas organizacionais. Seria necessário uma novamaneira de organizar-se, se é que a igreja queria cumprir as exigências deste Plano. Veremos que é na Quinta Região que encontramos o maior núcleo de Igrejas seorganizando desta maneira, ou seja, em ministérios alternativos. Este fato se deudevido ao projeto regional denominado Agentes da Missão. Este projeto tinha comoseu principal objetivo “permitir que cada metodista se decida por um ministério ereceba a nutrição para exercê-lo no mundo, fora das quatro paredes do templo”.5553 Os Planos referidos são: Plano Quadrienal (1975-1978), Plano Quadrienal (1979-1982), Plano para aVida e Missão da Igreja (1982).54IGREJA METODISTA XIV CONCÍLIO GERAL, Relatório do Colégio Episcopal, São Bernardo doCampo, julho de 1987, p. 10.55CÉSAR, Ely Éser Barreto, Uso da Bíblia na prática de nosso Ministério, Piracicaba, Agentes daMissão, 1988, p. 03. 29
  30. 30. No Relatório da Execução do projeto integrado “Agentes da Missão”,apresentado ao XII Concílio Regional da Quinta Região, vemos que essa experiênciafoi de grande importância no planejamento do Programa Dons e Ministérios da IgrejaNacional. Todos os secretários de área da 5ª Região e os presidentes de federações e a Diretoria das crianças participaram, em março, na Sede Geral da Igreja Metodista, do Encontro Nacional de líderes para se planejar a implantação do Projeto Dons e Ministérios em todo o país. A contribuição da 5ª Região, dada a nossa experiência na primeira etapa recém-finda, foi decisiva.56 No próximo Concílio da Quinta Região Eclesiástica (XVIII), o Bispo MessiasAndrino apresenta a Quinta Região como sendo uma região que já haviaexperimentado o exercício dos Dons e Ministérios, mesmo antes da deliberação doXIV Concílio Geral. A Quinta Região Eclesiástica é, reconhecidamente, uma das regiões metodistas que vem acumulando muita experiência no exercício dos Dons e Ministérios, em seu programa “Agentes da Missão”. Aqui ele não foi criado ou desenvolvido de modo isolado. A prova disso é que agora o XIV Concílio Geral o consagra como programa nacional. O positivo é que ele tem dado vários frutos na nossa Região. As poucas igrejas locais que o adotaram estão demonstrando muita vitalidade. Desta forma devemos reconhecer como positivo, podemos iniciar o quadriênio, e uma nova administração, com um programação para a qual, e de muitas maneiras, já estamos preparados. Esperamos que este fato contribua para o crescimento, em unidade, de todas as forças vivas da Região. Assim como o compromisso missionário uniu os cristãos do passado, temos razões para esperar que este mesmo fato se repita entre nós.5756IGREJA METODISTA, XVIII Concílio Regional da 5ª Região Eclesiástica, Atas, Registros eDocumentos, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, sd, p. 57.57 IGREJA METODISTA, XIX Concílio Regional da 5ª Região Eclesiástica, Atas, Registros eDocumentos, São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, sd, p. 131. 30
  31. 31. Como já vimos nas afirmações citadas, a prática da Igreja também foi um dosmotivos que levaram o Concílio Geral de 1987 a optar por um modelo de Igrejaorganizada em Dons e Ministérios. Podemos concluir este capítulo relembrando a afirmação feita no início domesmo: as decisões tomadas no XIV Concílio Geral (1987), principalmente no que serefere ao novo modelo de igreja, são resultantes deste longo processo (movimento)que descrevemos no decorrer deste capítulo. Dons e Ministérios é o fruto histórico deuma Igreja que visa a realizar a Missão de Deus. 31
  32. 32. CAPÍTULO II “DONS E MINISTÉRIOS” a Bíblia e a História como fontes inspiradoras Afirmamos, no primeiro capítulo deste trabalho, que a Igreja Metodista, reunidaem Concílio Geral em 1987, havia feito a opção por um novo modelo de igreja. Ouseja, uma igreja organizada segundo os Dons e Ministérios. Há duas perguntas quepodemos fazer neste momento: 1. Será que este modelo de igreja organizada segundoos Dons e Ministérios é realmente algo novo, inédito? 2. Será que este modelo nasceuapenas como fruto “ocasional” da História da Igreja Metodista brasileira? Não. Pois o modelo de igreja organizada em Dons e Ministérios é uma estruturaorganizacional muito antiga, já utilizada por algumas comunidades cristãs do primeiroséculo. De fato, a estrutura carismática da igreja faz parte de um movimentoconduzido pelo Espírito Santo que, desde o início do cristianismo até hoje estevepresente em alguns grupos e comunidades cristãs. Por isso, apresentaremos, neste capítulo, a Bíblia e a História da Igreja Cristã,principalmente a Reforma Protestante e o Metodismo Inglês do século XVIII, comosendo duas, entre outras, fontes inspiradoras que levaram a Igreja Metodista brasileiraa optar por um modelo de igreja organizada segundo os Dons e Ministérios. Areleitura da Bíblia e da História foi uma das motivações que levou a IM a optar porDons e Ministérios. 32
  33. 33. 1. DONS E MINISTÉRIOS NA BÍBLIA Em primeiro lugar queremos descartar a afirmação de que Dons e Ministériosseja “O”58 modelo bíblico de organização da igreja. Podemos afirmar, sim, que eleseja “UM”59 dos modelos, dentre outros, apresentados pelo Novo Testamento. Ao estudarmos os escritos neotestamentários, descobrimos que não há umaunidade doutrinária entre os mesmos. Ao contrário, encontramos uma variedade degrupos, com teologias e maneiras de se organizarem bem diferentes. Querer legitimara VERDADE EXCLUSIVA de um destes grupos, é ser muito pretensioso e tambémum mau intérprete do texto bíblico. Durante muito tempo a igreja cristã esqueceu-se, teórica e praticamente, dapossibilidade de organizar-se segundo os Dons e Ministérios. Isto se deu devido aofato de a eclesiologia cristã “se ter apoiado unilateralmente na eclesiologia das cartaspastorais (e os atos dos apóstolos), tendo esquecido a eclesiologia especificamentepaulina das epístolas indiscutidas de São Paulo”.60 No final do primeiro século, o cristianismo iniciou um processo de definição decomportamento social e religioso. Este processo de uniformização teológica, de opção por uma ética e uma praxis política mais harmônica com a sociedade e da exclusão da autoridade carismática e feminina em favor de cargos hierárquicos, recebe o nome pelos exegetas e historiadores de Formação do Catolicismo Primitivo ou da Grande Igreja.6158 Artigo definido - o único - individualiza o substantivo.59 Artigo indefinido - um entre outros - generaliza o substantivo. Estas anotações gramaticais foramretiradas de: SACONI, Luiz Antonio, Nossa Gramática, São Paulo, Atual Editora, sd., p. 61.60 KÜNG, Hans, A Igreja, Lisboa, Moraes Editora, 1969, p. 256, volume 1.61 NOGUEIRA, Paulo A. S., Multiplicidade Teológica e a Formação do Catolicismo Primitvo na ÁsiaMenor, in: Igreja e Seita - Estudos da Religião nº 8, São Bernardo do Campo, Edims, 1992, p. 36. 33
  34. 34. Como vimos, a formação do Catolicismo Primitivo é um processo de exclusão elimitação. E é bem neste momento que a igreja faz uma opção pelas epístolaspastorais, pois este modelo lhe permitia uma melhor harmonia para com a sociedadeda época. Na verdade, o que aconteceu foi que um certo grupo, utilizando-se de poder,estabeleceu-se como norma e ponto de referência. Bultmann diz o seguinte: “A grandeigreja é unicamente a heresia que teve mais êxito”.62 Hans Küng, teólogo católico contemporâneo, discorre a respeito deste abandonoe esquecimento da estrutura carismática, afirmando: Por muito tempo, a Teologia Católica e a Igreja Católica desconheceram, teórica e praticamente, a estrutura carismática da igreja. Isso teve seu fundamento, em primeiro lugar naquele clericalismo e juridicismo que nos últimos tempos, tanto tem sido criticado mesmo dentro da Igreja Católica. A atitude clerical só pode aceitar no clero a atitude e a iniciativa propriamente ditas e decisivas, nunca em todos os membros do Povo de Deus. Pensamento juridicista é aquele que se mostra profundamente desconfiado em face da dinâmica antecipadamente não regulamentável do livre Espírito de Deus, que na Igreja sopra onde e quando quer. O desconhecimento da estrutura carismática da Igreja acha ainda o seu segundo fundamento especial no fato de a eclesiologia dos livros católicos de escola se ter apoiado unilateralmente na eclesiologia das Epístolas pastorais (e dos Atos dos Apóstolos), tendo esquecido a eclesiologia especificamente paulina das Epístolas indiscutidas de São Paulo, isto mesmo quando freqüentemente fazia citações formais de textos de São Paulo. A variedade e a tensão interna no Novo Testamento ou não eram notadas ou eram harmonizadas de maneira ilegítima.63 Percebe-se que a igreja cristã por muito tempo se esqueceu da possibilidade deorganizar-se dentro de uma estrutura carismática, preferindo, assim, a organizaçãohierárquica: Epíscopo - Presbítero - Diácono. E é tendo isto em mente queapresentaremos a organização carismática, ensinada pelo apóstolo Paulo, como uma62 BULTMANN, R., Teologia Del Nuevo Testamento, Salamanca, Sígueme, 1980, p. 563.63KÜNG, Hans, op. Cit., p. 256. 34
  35. 35. das fontes onde o modelo de igreja organizado em Dons e Ministérios inspira-sebiblicamente. Para isso estaremos nos restringindo somente ao estudo das cartas que sãoconsideradas fontes do pensamento paulino e não ao estudo de toda a Bíblia. Nossoobjetivo é bem específico; apresentaremos a estrutura carismática da igreja,apresentada por Paulo, como uma maneira bíblica da igreja atual organizar-se. Em suaobra A Igreja, Hans Küng apresenta esta estrutura carismática como sendo a formamais antiga da igreja se organizar.641.1. Paulo e a organização em Dons e Ministérios 1.1.1. Definição das Fontes Paulinas65 Ao lermos o Novo Testamento, encontramos várias epístolas que citam oApóstolo Paulo como autor. São elas: I Tessalonicenses, II Tessalonicenses, ICoríntios, II Coríntios, Gálatas, Romanos, Filipenses, Colossenses, Filemon, Efésios, ITimóteo, II Timóteo e Tito. Com o aperfeiçoamento das pesquisas neotestamentárias, a autoria destas cartasrecebeu muitos questionamentos. Não iremos aqui apresentar os problemas quemarcam estas epístolas, mesmo porque este não é o nosso objetivo neste trabalho.Estaremos seguindo a opinião da maioria dos estudiosos do Novo Testamento, quepreferem definir os seguintes escritos como fonte segura do pensamento paulino:Romanos, I Coríntios, II Coríntios, I Tessalonicenses, Filipenses, Gálatas e Filemon.64 Idem, p. 257. 35
  36. 36. 1.1.2. O uso da palavra Dom (charisma) Com exceção de I Pd 4,10, somente Paulo e os escritos dependentes deleempregam a palavra dom (charisma). Esta “palavra é rara na literatura profana etambém véterotestamentária, onde ocorre duas vezes, ainda assim em variantes”.66 A palavra carisma está decalcada no grego charisma que significa “dom gratuito” e se relaciona com a mesma raiz que CHÁRIS, “graça”. No NT esse termo nem sempre tem sentido técnico. Pode designar todos os dons de Deus, que são irrevogáveis (Rm 11,29), notadamente o “dom da graça” que nos vem por Cristo (Rm 5,15s) e que desabrocha com vida eterna (Rm 6,28). Com efeito, em Cristo Deus nos “cumulou de graça” (Ef 1,6: charitoo) e “nos concederá toda a espécie de dons” (Rm 8,32: charizo). Mas o primeiro de seus dons é o próprio Espírito Santo, que foi infundido em nossos corações e põe neles a caridade (Rm 5,5; Cf 8,15). O emprego técnico do termo charisma se entende essencialmente na perspectiva dessa presença do Espírito, que se manifesta por toda sorte de “dons gratuitos” (I Cor 12,1-4).67 Introduzir o termo CHARISMA num contexto de organização da comunidade foium mérito unicamente do apóstolo Paulo. Ao discorrer sobre as igrejas paulinas, Ph.H. Menoud: O apóstolo teve o cuidado de organizar as igrejas que fundou. A esperança viva no retorno do Senhor não lhe é pretexto para negligenciar a ordem a reinar na casa de Deus (Cf I Cor 14,93), tanto que esta espera não deve encorajar os fiéis a não suprir suas necessidades pelo trabalho (Cf II Ts 3.6-12). Mas o apóstolo não consagra uma epístola especial à questão dos ministérios. Ele se limita a dar a cada igreja prescrições em harmonia com as circunstâncias locais.68 O termo charisma (geralmente usado no plural: charismata) aparece dezessetevezes no Novo Testamento; dessas, quatorze vezes em I e II Coríntios e Romanos65 Para um maior aprofundamento com respeito a este assunto, pesquisar: KÜMMEL, W. Georg,Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Paulinas, 1982, p. 319-506.66 BOFF, Leonardo, Igreja, Carisma e Poder, Petrópolis, Vozes, 1981, p. 237.67 LEON-DUFOUR, Xavier, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 1972, p. 124.68 VON ALLMEN, J. J., Vocabulário Bíblico, São Paulo, Aste, 1972, p. 254. 36
  37. 37. (fontes incontestáveis do pensamento paulino), duas em I e II Timóteo (pós-paulinas)e uma em I Pedro. Vejamos a ocorrência deste termo nas fontes paulinas:69 Rm 1,11 - Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum DOMespiritual, para que sejais confirmados;... Rm 5,15 - Todavia, não é assim o DOM gratuito como a ofensa; porque se pelaofensa de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom (doorea) pelagraça de um só homem, Jesus Cristo, foi abundante sobre muitos. Rm 5,16 - O DOM, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou;porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graçatranscorre de muitas ofensas, para a justificação. Rm 6,23 - Porque o salário do pecado é a morte, mas o DOM gratuito de Deusé a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor. Rm 11,29 - Porque os DONS e a vocação de Deus são irrevogáveis. Rm 12,6 - Tendo, porém, diferentes DONS segundo a graça que nos foi dada: seprofecia, seja segundo a proporção da fé; I Cor 1,7 - De maneira que não falte nenhum DOM, aguardando vós a revelaçãode nosso Senhor Jesus Cristo; I Cor 7,7 - Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou, noentanto cada um tem de Deus o seu próprio DOM; um, na verdade, de um modo,outro de outro. I Cor 12,4 - Ora, os DONS são diversos, mas o Espírito é o mesmo.69Os versículos citados abaixo, foram retirados de 1. Bíblia Sagrada, edição revista e atualizada noBrasil, Brasília, 1969. 2. Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, São Paulo, Paulinas, 1986. 37
  38. 38. I Cor 12,9 - A outro, no mesmo Espírito, Fé; e a outro no mesmo Espírito,DONS de curar; I Cor 12,28 - A uns estabeleceu Deus na Igreja, primeiramente apóstolos, emsegundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres, depois operadores de milagres,depois DONS de curar, socorros, governos, variedade de línguas. I Cor 12, 30 - Tem todos DONS de curar? Falam todos em outras línguas?Interpretam-nas todos? I Cor 12,31 - Entretanto, procurai, com zelo, os melhores DONS. II Cor 1,11 - Ajudando-nos também vós, com as vossas orações a nosso favor,para que, por muitos sejam dadas graças a nosso respeito, pelo BENEFÍCIO que nosfoi concedido por meio de muitos. Para o apóstolo Paulo os Dons têm sua fonte na CHARIS (graça), no favor e nabondade de Deus. Com toda liberdade (I cor 12,11) Deus distribui esses “dons”, ou“serviços”, ou “realizações” (I Cor 12,4-6), mas tem sempre em vista as diferentesnecessidades da igreja, bem como a situação e a capacidade de cada um.1.1.3. O uso das palavras ministério e ministro As palavras gregas que traduzidas em português podem significar ministério,ministro e ministrar são as seguintes: DIAKONIA (ministério), DIAKONO (ministro),LEITOURGÉOO (ministrar, servir), LEITOURGIA (serviço, ministério) LEITURGÓS(ministros). As palavras “ministro” e “ministério”, decalcadas no latim da Vulgata, correspondem ao grego diakonos e diakonia. 38
  39. 39. Esses dois termos não pertencem à linguagem religiosa dos setenta, que os emprega, raramente, em sentido profano (Est 1,10; 6,1-5). Na vulgata, minister traduz o hebraico mesaret (cf. Ex 24,13: Josué, servidor de Moisés), que pode designar os sacerdotes, ministros do culto (Is 61,6; Ez 44,11; Jl 1,9). Entretanto, desde o AT, o fato dum ministério religioso exercido no povo de Deus pelos titulares de certas funções sagradas é coisa bem atestada: os reis, os profetas, os depositários do sacerdócio, são servos de Deus, que exercem uma mediação entre Ele e seu povo. Assim São Paulo dirá que Moisés era ministro da primeira aliança (I Cor 3,7.7). No NT, Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, o único sacerdote que oferece o sacrifício da salvação, o portador único da revelação porque ele é a Palavra feita carne. Mas na igreja que ele fundou se exerce um ministério de novo gênero, que está a serviço de sua Palavra e de sua graça.70 Em geral, as listas e referências a ministérios, nas fontes paulinas, acompanhamos mesmos critérios dos Dons. Assim como os dons, todos os ministérios, enquanto ministérios do Senhor, são espirituais e assistidos extraordinariamente pelo Espírito Santo. Além dos ministérios serem assistidos pelo Espírito em sua repartição e diversidade, também a igreja de Cristo, como um todo e em sua unidade do corpo, é assistida extraordinariamente pelo Espírito.71 Vejamos o uso das palavras que podem ser traduzidas em português porministro, ministério e ministrar; nas epístolas que são consideradas fontesincontestáveis do pensamento paulino: DIACONIA (ministério - serviço) Rm 11,13-14 - dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Visto, pois, que eu souapóstolo dos gentios, glorifico o meu MINISTÉRIO para ver se de algum modoposso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles.70BORN, A. Van Den,Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Petrópolis, Vozes, 1871, p. 591.71JOSGRILBERG, Rui de Souza, Dons e Ministérios na Bíblia, in: Dons e Ministérios Fontes eDesafios, Piracicaba, Agentes da Missão, 1991, p. 28. 39
  40. 40. Rm 12,7 - se MINISTÉRIO, dediquemo-nos ao MINISTÉRIO; ou o queensina, esmere-se no fazê-lo; Rm 15,31 - para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e queeste meu SERVIÇO em Jerusalém seja bem aceito pelo santos; I Cor 12,5 - E também há diversidade nos SERVIÇOS, mas o senhor é omesmo. I Cor 16,15 - ... (sabeis que a casa de Estefanas é as primícias da Acaia, e que seconsagraram ao SERVIÇO dos santos). II Cor 3,7 - E se o MINISTÉRIO da morte, gravado com letras, se revestiu deglória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa daglória do seu rosto, ainda que desvanecente. II Cor 3,8 - como não será de maior glória o MINISTÉRIO do Espírito. II Cor 3,9 - Porque se o MINISTÉRIO da condenação foi a gloria, em muitomaior proporção será glorioso o MINISTÉRIO, segundo a misericórdia que nos foifeita, não desfalecemos; II Cor 4,1 - Pelo que tendo este MINISTÉRIO, segundo a misericórdia que nosfoi feita, não desfalecemos; II Cor 5,18 - Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo pormeio de Cristo, e nos deu o MINISTÉRIO da reconciliação, II Cor 6,3 - não dando nós nenhum motivo de escândalo em cousa alguma, paraque o MINISTÉRIO não seja censurado. II Cor 8,4 - pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem nesseSERVIÇO em favor dos santos. 40
  41. 41. II Cor 9,1 - Quanto ao SERVIÇO em favor dos santos, é desnecessárioescrever-vos; II Cor 9,12 - Porque o SERVIÇO desta assistência não só cumpre a necessidadedos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus. II Cor 9,13 - Tal SERVIÇO será para eles uma prova; e eles agradecerão a Deuspela obediência que vocês professam ao Evangelho de Cristo e pela generosidade comque vocês repartem os bens com eles e com todos. II Cor 11,8 - Despojei outras igrejas, recebendo salário, para vos poderSERVIR. DIÁKONOS (ministro-servo). Rm 13,4 - visto que a autoridade é MINISTRO de Deus para teu bem.Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada;pois é MINISTRO de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. Rm 15,8 - digo, pois que Cristo foi constituído MINISTRO da circuncisão, emprol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; Rm 16,1 - Recomendo-vos a nossa irmã Febe, DIACONISA da Igreja deCencréia. I Cor 3,5 - Quem é Apolo? E quem é Paulo? SERVOS por meio de quemcrestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um, II Cor 3,6 - o qual nos habilitou para sermos MINISTROS de uma novaaliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica. II Cor 6,4 - Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos comoMINISTROS de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas provações, masangústias, 41
  42. 42. II Cor 11,15 - não é muito, pois, os seus próprios MINISTROS se transformemem MINISTROS de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras. II Cor 11,23 - São MINISTROS de Cristo? (Falo como fora de mim) eu aindamais; em trabalho, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; emperigos de morte, muitas vezes. Gl 2,17 - Mas se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós tambémachados pecadores, dar-se o caso de ser Cristo MINISTRO do pecado? Certo quenão. Fl 1,1 - Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em CristoJesus, inclusive bispos e DIÁCONOS, que vivem em Filipos. I Ts 3,2 - e enviamos nosso irmão Timóteo, MINISTRO de Deus no Evangelhode Cristo, para, em benefício de vossa fé, confirmar-vos e exortar-vos. LEITURGÉOO (servir). Rm 15,27 - Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque se osgentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem tambémSERVÍ-LOS com bens materiais. LEITOURGÍA (serviço). Fl 2,17 - Entretanto, mesmo que seja eu oferecido por libação sobre o sacrifícioe SERVIÇO da vossa fé, alegro-me e com todos vós me congratulo. Fl 2,30 - Visto que, por causa da obra de Cristo, chegou ele às portas da morte, ese dispôs a dar sua própria vida para SERVIR-ME de socorro. LEITOURGÓS (ministro-servo) 42
  43. 43. Rm 13,6 - Por esse motivo pagais tributos; porque são MINISTROS de Deus,atendendo constantemente a este serviço. Rm 15,16 - para que eu seja MINISTRO de Cristo Jesus entre os gentios, nosagrado encargo de anunciar o Evangelho de Deus, de modo que a oferta deles sejaaceitável, uma vez santificada pelo Espírito. Fl 2,25 - No momento, achei necessário enviar a vocês Epafrodito, este nossoirmão que é também meu companheiro de TRABALHO e de luta, que vocês mesmosmandaram SERVIR às minhas necessidades1.1.4. A Estrutura Carismática da Eclesiologia Paulina Como já verificamos nos dois itens anteriores (1.1.2 e 1.1.3), o Apóstolo Pauloutilizou-se muito dos termos dons (charisma) e ministérios (diakonia, leitourgia) emseus escritos. Observando-os mais atentamente, percebemos o uso da palavra dom(carisma), algumas vezes em sentido genérico e outras vezes em sentido específico etécnico. Em sentido genérico, carisma significa “um dom generoso”, “uma graça oubênção do amor de Deus”. Em sua carta aos Romanos 5,15-16, por exemplo, o termocarisma designa o “dom divino da redenção, realizada por Cristo”. Em Rm 6,23,carisma é aplicado a uma realidade ainda mais genérica: “Porque o salário do pecado éa morte; enquanto o dom de Deus (Carisma) é a vida eterna, em união com CristoJesus, nosso Senhor”. Em Rm 11,29 lemos: “Pois os Dons (carisma) e o chamamento de Deus sãoirrevogáveis”. Carisma é usado, pois, de forma muito geral para designar todos osDons de Deus. Na segunda carta aos Coríntios 1,10-11, São Paulo escreve: “Ele noslivrará de tamanhos perigos de morte... se nos ajudardes, também vós, com vossas 43
  44. 44. orações. Assim esta graça (carisma) obtida por intervenção de muitos...”. Carismasignifica, aqui, a graça de ser libertado dos perigos de morte. Poderíamos buscar ainda outros textos em que o apóstolo Paulo usa a palavracarisma em sentido genérico. Em outros escritos o apóstolo usa o termo carisma em sentido específico,técnico. Sentido que ele mesmo define como “manifestação do Espírito para proveitocomum” (I Cor 12,7). Encontramos, de modo especial, a palavra carisma usada emsentido específico nos textos clássicos de I Cor 12,1-11; 12,12-31; 13,1-8; 14,1-25;14,26-40 e Rm 12,6-9. Em sentido específico, carisma designa os dons espirituais dados pelo EspíritoSanto a quem lhe apraz, para o serviço (ministério) em favor da comunidade ou dealgum membro da mesma. Para entendermos melhor a dinâmica do pensamento paulino, com respeito aorganização carismática da igreja local, devemos deter-nos um pouco no estudo daslistas de carismas apresentadas pelo apóstolo. 1.1.4a - As listas dos Carismas em Paulo Em duas de suas cartas, São Paulo faz uma listagem de carismas. Ao todoencontramos seis listas, sendo cinco em I Coríntios e uma em Romanos. Percebe-se que a intenção do apóstolo não era a de apresentar uma enumeraçãoprecisa, sistemática, mas a de ensinar, orientar, exortar para a realidade da existência,da diversidade, da origem, da função, da hierarquia e do uso correto dos carismas. 44
  45. 45. Com certeza, ele poderia ter enumerado muitos outros carismas que havia constatadoem suas comunidades cristãs. Carisma... Partindo do caráter orgânico da Igreja, São Paulo insiste em I Cor 12 na grande diversidade dos c.s. As enumerações em I Cor 12,8.-11.28.30; Rm 12,6-8, ao que tudo indica, não pretendem ser completas. Nem tampouco pode-se delas reduzir uma divisão, pois algumas dessas denominações são genéricas (milagres), outras específicas (curas); algumas referem-se ao conteúdo (sabedoria, ciência), outras ao exercício concreto (profecia, governo, instrução, falar línguas). Em I Cor 12,28 (Cf Ef. 4,11) encontramos uma certa hierarquia: apóstolos (em sentido mais largo), profetas, doutores e depois os demais. Aqui trata-se de ofícios com carisma permanente.72 Uma visão de conjunto das listas, auxilia a análise e distinção das diversasfunções e espécies de carismas. Observemos as seis listas de carismas apresentadasnos escritos paulinos. Rm 12,6-9 I Cor 12,1-11 I Cor 12,12-311. profecia 1. sabedoria 1. (ser) apóstolo2. serviço 2. conhecimento 2. (ser) profeta3. ensino 3. fé 3. (ser) doutor4. exortação 4. cura 4. milagres5. distribuição de seus bens 5. operação de milagre 5. curas6. presidência 6. profecias 6. assistência7. misericórdia 7. discernimento de Espírito 7. governo 8. variedade de línguas 8. falar línguas 9. interpretação de línguas I Cor 13,1-8 I Cor 14,1-25 I Cor 14,16-401. falar línguas 1. falar línguas 1. profecia2. profecia 2. profecia 2. revelação3. conhecimento 3. falar línguas4. fé 4. interpretar línguas72 BORN, A. Van Den, op. Cit., p. 245. 45
  46. 46. 5. distribuição de seus bens Paulo não se preocupou em dar-nos uma classificação racional dos carismas, embora os enumere diversas vezes. É, contudo, possível reconhecer os diversos domínios de aplicação em que os dons do Espírito têm lugar. Em primeiro lugar, certos carismas são relativos às funções do ministério (cf. Ef 4,12): os dos apóstolos, dos profetas, dos doutores, dos evangelistas, dos pastores (I Cor 12,28; Ef 4,11). Outros concernem às diversas atividades úteis à comunidade: serviço, ensinamento, exortação, obras de misericórdia (Rm 12,75), palavra de sabedoria ou de ciência. Fé eminente, dom de cura ou de operar milagres, falar em línguas, discernimento dos espíritos, ...73 Analisando as listas citadas no quadro acima, vemos que o apóstolo Pauloapresenta uma hierarquia entre os carismas. Esta classificação hierárquica não éestabelecida de maneira igual para as duas comunidades. Com respeito a esta hierarquização diferenciada dos carismas, entre acomunidade Corintiana e a Romana, Roberto Alves Viana nos diz o seguinte: Aos Coríntios, Paulo estabelece que o maior e mais importante carisma (dom) é a profecia. Os carismas chamados espirituais, como o de falar em línguas, devem ficar em segundo plano. Aos Romanos, o apóstolo demonstra que eles devem procurar os carismas de profetizar, ensinar e presidir, bem como os carismas de servir, distribuir seus bens e exercer misericórdia... Torna- se claro que, para Paulo, a hierarquia de carismas é determinada pela conjuntura vivida na comunidade que fará uso destes carismas.74 Paulo escreveu para comunidades que viviam em contextos diferentes, e por issoapresenta hierarquias diferentes ao relacionar as listas de dons. Apesar das diferenças,há um ponto fundamental que coincide nestes ensinamentos: tanto na carta aos73LÉON-DOFOUR, Xavier, op. Cit., p. 125.74VIANA, Roberto Alves, Os carismas em Paulo, Faculdade de Teologia, São Bernardo do Campo,1993, p. 114 (monografia final do Curso de Bacharel em Teologia). 46
  47. 47. Corintios, quanto na carta aos Romanos, “os carismas devem ser usados para oserviço, edificação, ensino e exortação da comunidade”.75 Ou seja, o carisma não temum fim em si mesmo, é antes o meio pelo qual Deus atua na comunidade, a qual,movida pelo Espírito de Deus, atua na sociedade. Lenardo Boff afirma que em Paulo:“o carisma significa simplesmente a função concreta que cada qual desempenhadentro da comunidade a bem de todos”.76 1.1.4b - O carisma como “Estrutura estruturante da comunidade”.77 Hans Küng, teólogo sistemático, afirma que “a redescoberta dos carismas é umaredescoberta da eclesiologia especificamente paulina”.78 Como fruto de seu trabalhoteológico, consegue descobrir que em sua origem a igreja não possuía estruturahierárquica, mas sim uma estrutura carismática. A I Cor, como todas as Espístolas indiscutidas de São Paulo, não fala nem de “presbíteros” nem de “Episcopos” ( a única exceção tardia é Filip 1:1: “Episcopos” e “diáconos”), nem de ordenações ou de imposição das mãos; é esta Epístola que, repetidamente, nomeia os “carismas” ou os “dons espirituais” que, correspondentemente à medida da graça, são dados a cada cristão, assim como é esta Epístola que traz largos capítulos sobre a estrutura carismática da Igreja que, por toda parte nas Epístolas paulinas, transparece e é pressuposta.79 Para detalhar este modelo de igreja organizada segundo os dons e ministérios,Paulo apresentará a igreja como um corpo que possui muitos membros, todos estesvivificados pelo mesmo espírito e cada qual com sua função.75 Idem, p. 120.76BOFF, Leonardo, op. cit., p. 238.77 Expressão utilizada por Leonardo Boff em seu livro Igreja Carisma e Poder, op. Cit., 238.78 KÜNG, Hans, op. cit., p. 258.79 Idem, p. 257. 47
  48. 48. A pluralidade e a diversidade dos carismas e a sua finalidade eclesial convergente têm desenvolvimento adequado no paralelo com o organismo humano, constituído de muitos e diferentes membros, empenhados no seu crescimento e no seu bem. A comunidade cristã local é como um corpo; por isso, no seu interior vale a regra da pluralidade e da multiplicidade, ou da diferenciação, mas também da interdependência e da solidariedade.80 Na estrutura carismática apresentada pelo pensamento paulino, é impossívelexistir um membro não carismático no seio da comunidade. Não existe nenhum membro não carismático. Vale dizer ocioso, sem ocupar um determinado lugar na comunidade: “cada membro está a serviço do outro membro” (Rm 12,5). Todos gozam de igual dignidade, não cabem privilégios que desestruturam a unidade do todo: “o olho não pode dizer à mão: não preciso de ti; nem tampouco a cabeça aos pés: não necessito de vós” (I Cor 12,21). A regra de ouro que salvaguarda a sanidade do modelo, sua circularidade fraterna foi assim formulada por Paulo: “todos os membros tenham igual solicitude uns com os outros” (I Cor 12,25).81 Grabner-Hainder, ao discorrer sobre o vocábulo carismático, afirma o seguinte: Pablo da este nombre a los hombres dotados de especiales dones en beneficio de la comunidad. El carácter sobrenatural de estos dones del Espiritu y su procedencia del Espíritu Santo se reconoce por el hecho de que se ordenan al servicio de todos (I Cor 12,7). Este criterio alude, por un lado, a los excesos de los exaltados y de los entusiastas (cf. I Cor 14,22) y, por otro, sitúa a los carismáticos dentro de la historia, porque bajo diferentes circunstancias y en diferentes épocas pueden ser muy variadas las necesidades de la comunidad, e por consiguiente también los servicios que necesita. Los carismas mencionados en el Nuevo Testamento (palabra de sabiduria, palabra de ciencia, fé en el Espíritu, don de curaciones, poder de milagros, profecia, dicernimento de espíritus, diversidade de lenguas, don de interpretárlas, cf. I Cor 12,8-10) no son en modo alguno una enumeracion exclusiva. Al contrário, debe considerar-se carismático a80 BARBAGLIO, Giuseppe, 1-2 Coríntios, São Paulo, Paulinas, 1993, p. 51.81BOFF, Leonardo, op. Cit., p. 238. 48

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