Os fundadores-do-metodismo

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Os fundadores-do-metodismo

  1. 1. Osfundadores do Metodismo Por PaulE. Buyers Imprensa Metodista 1929
  2. 2. SUMÁRIO A) OS INGLESES I. A VIDA DE JOÃO WESLEY, o organizador do Metodismo (1703-1791) II. A VIDA DE CARLOS WESLEY, o poeta do Metodismo (1707-1788) III. A VIDA DE GEORGE WHITEFIELD, o orador e evangelista do movimento Metodista (1714-1770) IV. A VIDA DE JOÃO FLETCHER, o santo do movimento (1729-1785) V. A VIDA DE THOMAS COKE, o missionário do movimento metodista (17471814) VI. A VIDA DE FRANCIS ASBURY, o pioneiro e pai da Igreja Metodista na América (1745-1816) B) OS AMERICANOS VII. A VIDA DE GUILHERME McKENDREE, o primeiro bispo americano da Igreja Metodista (1757-1835) VIII. A VIDA DE JOSUÉ SOULE, o legislador da Igreja Metodista (1781-1867) IX. A VIDA DE PEDRO CARTWRIGHT, o itinerante metodista nas fronteiras (1785-1872) X. A VIDA DE ENOCH MARVIN, o pregador e Bispo evangelista (1823-1877) XI. A VIDA DE CARLOS BETTS GALLOWAY, o cavalheiro cristão (18491909) XII. A VIDA DE WALTER RUSSEL LAMBURTH, o primeiro moderno do cristianismo (1854-1921).
  3. 3.  A vida de João Wesley, o fundador do Metodismo (1703-1791) Escrevendo a biografia de João Wesley alguém podia fazê-lo sob diversos aspectos. Por exemplo, podia caracterizá-lo como reformador, evangelista itinerante, apóstolo da liberdade de pensamento religioso, fundador de uma Igreja, etc., mas o nosso estudo visa encará-lo como um organizador. Sem dúvida elementos de outros pontos de vista hão de aparecer, porém, em narrando os fatos principais de sua vida, daremos ênfase ao organizador. I - O PARENTESCO E A MOCIDADE 1. Seus pais. Quando Deus, na sua providência divina, destina alguém a realizar os seus desígnios para com a humanidade, começa pelos p ais e avós dessa pessoa. Assim se deu na vida de João Wesley. Sua parentela contava muitas pessoas nobres e distintas na vida nacional e da Igreja. Entre essas pessoas havia diversos literatos cultos e profundamente religiosos. Seus próprios pais foram desse número, sendo o pai um literato e vigário da Igreja Anglicana e sua mãe uma senhora bem educada, prática e piedosa. Dela foi que o filho aprendeu a ser metódico e ter sistema na vida prática. Ela determinava horas e dias marcados para seus filhos fazerem certas coisas e eles tinham que fazê-las. 2. Sua Educação. Como já dissemos, sua mãe tomou grande interesse em seu filho “Jack” (o apelido de carinho) desde os seus primeiros dias de infância, ensinando -o não somente o que se encontra nos livros, mas, também o que se encontra no coração de uma mãe piedosa e estremecida. Tinha dia e hora marcados em cada semana, em que levava “Jack” para seu quarto e ali, sozinhos, ela conversava aconselhando-o e orando por ele. Revelava tão boas qualidades, que não somente conseguiu impressionar e influir poderosamente no espírito do seu filho enquanto criança, mas também pelos seus conselhos acertados prestou relevantes serviços à sua idoneidade. Portanto, cedo na vida, prestou a essa mulher admirável homenagem e respeito. Ele foi, sem dúvida, o reflexo da influência da sua querida mãe. Quando tinha dez anos de idade, os pais mandaram-no para Londres, onde passou uns seis anos na Escola Charterhouse. Os dias passados já foram dias de proveito, mas, a princípio, dias de lutas e grandes tentações. Não sendo um menino muito robusto, o pai aconselhou-o que fizesse uma corrida, todas as manhãs, ao redor do quarteirão, onde estava a escola. Ele cumpriu fielmente esta ordem; e de manhã cedo podia-se ver correndo ao redor da escola, um menino de cabelos louros agitados pelo vento.
  4. 4. Terminando o seu curso nesta escola, quis estudar na Universidade de Oxford, onde seu pai havia estudado. Durante este período passou da meninice à mocidade. Não era mais uma criança, porém um adulto, com a sua personalidade mais ou menos desenvolvida. Seu irmão mais velho, Samuel, que a esse tempo morava em Londres, escrevia cartas ao pai, elogiando o Joãozinho pela sua inteligência e coragem. Ele não deixou de seguir o conselho de seu pai e, fielmente, fazia as corridas diariamente ao redor da escola, assistia cultos aos domingos, comungava, lia a Bíblia e fazia oração. O Sr. Southy diz que por sua tranqüilidade, regularidade e aplicação tornou-se o favorito de seu mestre, Dr. Wolher. 3. Um incidente impressionante na sua meninice. João, o décimo quinto filho de Samuel e Susanna Wesley, nas ceu na pequena cidade de Epworth, Linconshire, Inglaterra, no dia 28 de junho de 1703. Como já dissemos, ele não tinha motivo para se envergonhar de seu parentesco. O lar na casa pastoral de Epworth era semelhante a uma colméia de abelhas em atividade e interesse. Quando tinha passado seis anos da vida aqui nesta casa tão cheia de encantos, aconteceu certo dia um incidente tão impressionante do qual ele nunca se esqueceu. A altas horas da noite a casa incendiou-se e, sendo uma casa de madeira e já velha, não levou muito tempo para ser consumida. Todos os membros desta numerosa família com os criados tinham abandonado a casa. Muitos dos seus vizinhos tinham afluído ao redor da casa para socorrê-los. Notaram que João não estava com os demais membros da família. A casa já estava envolvida em chamas e Joãozinho ainda estava dormindo no segundo andar. A escada já estava tomada pelo fogo e as labaredas estavam passando pelo forro do teto, iluminando o quarto onde a criança se achava. A claridade acordou o menino. Assustado, ele correu para a janela e olhou para baixo, lá enxergando os rostos dos seus pais e vizinhos iluminados pela claridade do incêndio. Descer pela escada era impossível, pular pela janela era perigosíssimo. O desespero apoderou-se dos pais. Que fazer? Havia no meio dos vizinhos um homem mais calmo e refletido do que os outros, o qual se chegou à parede da casa, convidou mais dois homens para treparem em seus ombros, fazendo deste modo uma escada até a janela onde se encontrava o menino. João pulou nos braços do homem e desceu de um para outro até chegar salvo ao chão. O pai, abraçando o seu filho, convidou seus vizinhos para fazerem oração, dizendo – “ Venham, meus amigos, vamos dar graças a Deus pelo livramento do meu filho; deixai a casa queimar; tendo meus filhos, sou rico!” Assim ajoelharam-se e renderam graças a Deus. Este incidente de tal forma impressionou a criança que nunca mais dele se esqueceu e, mais tarde na vida, recordando-se deste incidente, considerava-se a si mesmo como um tição arrebatado ao fogo e comparava este mundo a uma casa incendiada cujos habitantes corriam o perigo de perder-se no fogo eterno. II - ESTUDANTE EM OXFORD 1. A cidade de Oxford. A cidade de Oxford, nesta época, embora famosa como centro educativo, não era, em sua atmosfera moral, muito favorável ao desenvolvimento de piedade ou intelectualidade. O Dr. Fitchett diz: “Oxford, no princípio do século dezoito, talvez fosse o lugar mais prosaico que qualquer outro em toda a obscura Inglaterra. Não havia entusiasmo nem pelos esportes! Era o lar da insinceridade e da ociosidade e cheia de vícios gerados por tais qualidades. A sua insinceridade era de um tipo pernicioso; porque era organizada, patrimoniada, venerada e revestida de autoridade, e, além de tudo, era conceituada como virtuosa”.
  5. 5. Portanto, os seus ideais eram naturalmente baixos, a disciplina frouxa e a religião consistia em formalismo cuja qualidade era ridicularizar os estudantes mais religiosos e sinceros. 2. A vida como estudante. Pouco se sabe da vida de Wesley durante os quatro anos que passou como aluno em Oxford. É muito provável que fosse a época em que descuidara mais da sua vida religiosa. Isto não quer dizer que se tornasse um rapaz dissoluto, mas que negligenciou observar os seus costumes religiosos de outros tempos. Julgamos, pela correspondência com seu pai, que passou apuros financeiros durante este período de sua vida. Que ele foi um bom estudante não se pode duvidar. Completou seu curso em quatro anos, tirando o seu diploma em Bacharel em Ar tes em 1724. Alguns dos seus contemporâneos dão testemunho dele quanto ao seu comportamento e estudos. O Sr. Badcoch, um dos seus colegas, assim o descreve quando tinha vinte e um anos de idade; um rapaz de superior gosto clássico, e de sentimentos liberais e cavalheiros. O Sr. South diz que ele era um estudante diligente e por sua habilidade em lógica, pela qual conseguiu freqüentemente derrotar os que mais tarde seriam os seus adversários na vida. Falando de sua própria vida nesta época, Wesley diz: “Eu continuava a fazer as minhas orações, tanto em particular como em público e ler a Bíblia junto com outros livros religiosos, especialmente comentários sobre o Novo Testamento. Mas não tinha a mínima idéia do que era a santidade íntima no coração; sim, habitualmente continuava, mais ou menos, satisfeito, cometendo alguns pecados reconhecidos”. Realmente Wesley estava passando aquele período de transição do menino para o homem. Como as demais pessoas, tinha de ajustar-se a esta nova fase da vida. Sem dúvida alguma os ensinos que recebera dos pais e os hábitos formados no lar paterno vieram agora em seu auxílio para o confirmar numa vida reta. 3. Preceptor em Lincoln College, Oxford. Quando completou o seu curso em Oxford tinha vinte e um anos de idade e logo se levantou em seu espírito a questão da sua profissão ou vocação. Resolveu-se a entrar para o serviço da Igreja e seus pais concordaram nisso. Uma vez tomada essa decisão começou logo a preparar-se para a sua ordenação. Dedicou-se ao estudo de teologia e à leitura devocional. Sua principal preocupação era obter uma idéia clara acerca da natureza do homem e da sua relação para com o homem e do homem para com Deus. Sobre a sua experiência religiosa muito podia se dizer; porém não podemos aqui estender-nos sobre o assunto além de dizer que a maior dificuldade com o Sr. Wesley à procura de Deus, era que ele queria desenvolver uma teologia e então experimentá-la na vida prática, em vez de ter uma experiência pessoal da graça de Deus no coração e dali desenv olver numa teologia. Em outras palavras ele inverteu o processo e isto causou-lhe muitos desapontamentos e perplexidades. Quando se considerou preparado para aceitar a ordenação, foi ordenado pelo bispo Potter, a 19 de setembro de 1725. A 17 de março de 1726 foi eleito preceptor de Lincoln College em Oxford. Em outubro do mesmo ano foi eleito lente (professor de escola superior ou secundária) da cadeira de grego e moderador das classes. A 14 de fevereiro foi-lhe conferido o grau de Mestre em Artes. Sendo um estudante e professor diligente, estabeleceu o seguinte horário de estudos que seguia assiduamente: segundas e terças-feiras, Grego e Latim; quarta-feira, Lógica e Ética; quinta-
  6. 6. feira, Hebraico e Árabe; sexta-feira, Metafísica e Filosofia Natural; sábado, Oratória e Poesia; domingo, Divindade. Nas horas vagas estudava Francês e lia uma grande variedade de livros modernos. No outono de 1727 ele foi ajudar seu pai na sua paróquia de Ep worth e Wroote, onde passou quase dois anos com pouco sucesso e satisfa ção. Sendo convidado de novo a voltar para Oxford como preceptor, aceitou o convite e entrou em serviço pelos fins do ano de 1729. 4. O Clube Santo. Voltando de novo para Oxford, o Sr. Wesley não somente ocupava o seu tempo como preceptor e moderador das Classes, mas também no trabalho religioso do “Clube Santo”. Nesta ocasião o seu irmão Carlos, mais moço do que ele, estava freqüentando aulas em Oxford e tinha reunido um grupo de rapazes sérios para estudar a Bíblia, orar juntos e diligenciar -se em visitar os pobres e presos. Logo que João Wesley chegou a Oxford, identificou-se com este clube e pouco tempo depois foi constituído seu presidente. O fim deste clube era desenvolver a espiritualidade e atividades cristãs de seus membros. Os membros tinham horas certas para ler e estudar a Bíblia e orar; assistiam os cultos e comungavam regularmente e visitavam os pobres e presos, administrando-lhes dos seus bens de acordo com as suas posses. Tal assiduidade e zelo não podiam passar sem atrair a atenção dos outros alunos da Universidade. Sendo alunos remissos e indiferentes quanto aos seus deveres cristãos, começaram a criticá-los, dando-lhes apelidos e ridicularizando-os. Entre os apelidos usados, o de “Metodistas” era o mais aceito, porque os membros do Clube Santo faziam todas as coisas com método e sistema. Assim, por seis anos, o Sr. Wesley continuou seu trabalho em Oxford. Mas, durante todo este tempo, ignorava a paz e o gozo do Espírito Santo em seu coração. Sua religião consistia em observar a forma de piedade, mas buscando o poder dela por meio de ritos formalistas. Enfim, ele era muito egoísta, pensando mais em si e em sua própria salvação do que na salvação daqueles aos quais queria servir como ministro de Cristo. III - MISSIONÁRIO NA AMÉRICA Diversas coisas concorreram para fazer o Sr. Wesley tornar-se missionário. Seu pai tinha morrido e seu irmão completava seu curso na Universidade e ele mesmo andava perdendo o interesse na vida escolar em Oxford. Não tinha encontrado aquela satisfação espiritual q ue almejava. Quando seu pai faleceu deixou um manuscrito do seu comentário sobre o Livro de Jó, obra que tinha empregado muito tempo par fazê-la. João Wesley resolveu apresentar uma cópia desse livro à rainha, em Londres. Coincidiu que nesta mesma época o general Oglethorpe, o fundador da colônia de Geórgia, no novo mundo, estava em Londres, procurando um capelão para os seus colonos na América. O Sr. João Wesley, sendo recomendado para este cargo, foi aceito. Mas antes de fechar o contrato, ele quis conversar com a sua mãe sobre o empreendimento. A resposta dela foi bem característica de sua natureza nobre e cristã. Ela lhe disse: “Se tivesse vinte filhos, eu me regozijaria em vê-los assim ocupados, mesmo que nunca mais tornasse a vê-los”. 1. A viagem para a América. A 18 de Setembro de 1735, formalmente aceitou o convite do general Oglethorpe. Foi nessa ocasião que começou a escrever um Diário que se tem tornado um dos melhores documentos sobre as condições sociais do século dezoito na Inglaterra. Muit os dos seus amigos julgavam que era um passo errado o que ele estava dando. Numa carta que escreveu a um amigo menciona o motivo principal que o levou a tomar essa decisão. Disse: “O meu motivo principal é
  7. 7. salvar a minha própria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do evangelho de Cristo pregando-o aos pagãos”. Seu pensamento estava concentrado em si, não tendo ainda aprendido o segredo verdadeiro de Cristo. Junto com ele foram seu irmão Carlos, na qualidade de secretário do general Oglethorpe , e mais dois colegas do “Clube Santo” os Srs. Ingham e Delamotte. O característico principal de seu espírito metódico manifestou-se na organização de um programa com horário que ocupava todo o seu tempo e os dos seus três colegas de viagem. Entre os passageiros havia uns vinte e seis moravianos exilados de sua pátria, a Alemanha, indo para a colônia de Geórgia em busca de liberdade, onde já se encontravam colocados alguns de seus irmãos da Morávia. O Sr. Wesley ficou bem impressionado com a simplicidade desses exilados e com seu bom comportamento. Para conversar com eles e conhecêlos melhor, principiou a estudar a língua alemã. Durante a viagem levantou-se forte tempestade e por algum tempo julgaram que iriam a pique. Depois de passar o temporal o Sr. Wesley quis saber porque eles, os moravianos, ficaram tão calmos e cantaram hinos durante a tempestade. Quis saber se não tinham medo. Um deles respondeu que não tinham medo de morrer. Mas o Sr. Wesley não podia compreender tal coisa, porque ele tinha medo de morrer. Começou, pois, a refletir sobre isto. 2. Seu trabalho na Geórgia. Chegados à Geórgia, na cidade de Sevanah, logo principiaram seu trabalho. Carlos Wesley foi mandado para Frederica e João ficou em Savanah, trabalhando como capelão entre os setecento s colonos. Antes de iniciar seu trabalho procurou o Sr. Augusto Spangenberg, o chefe dos moravianos em Savanah, para consultá-lo sobre o modo de fazer seu serviço. Este, antes de responder ou dar o seu conselho, fez algumas perguntas ao Sr. Wesley. Perguntou: - “Tem o irmão o testemunho do Espírito Santo?” “Dá o Espírito de Deus testemunho ao teu espírito de que és filho de Deus?” O Sr. Wesley teve que confessar que ignorava tal testemunho. - “Conheces tua Jesus Cristo?” - “Eu sei”, disse o Sr. Wesley, “que ele é o Salvador do mundo”. - “Não há duvida, mas tens a certeza de que ele te salvou?” O Sr. Wesley quis evitar a resposta, mas disse: -”Tenho esperança de que ele tenha morrido para me salvar”. -“Mas tu o conheces por ti mesmo?” insistiu o Sr. Spangenberg. O Sr. Wesley, achando-se em apuros, respondeu afirmativamente, porém anos depois, falando sobre isto, disse: - “Tenho receio de que fossem palavras vãs”. Em pouco tempo estava sistemática e metodicamente fazendo o seu trabalho, não somente entre os colonos ingleses, mas também dirigindo cultos com os alemães, franceses, espanhóis e italianos nas suas próprias línguas. Mas o Sr. Wesley não foi bem sucedido no seu trabalho entre este povo. Ele era ritualista até os ossos e muito exigente na observação de todas as rubricas da Igreja Anglicana. Recusava
  8. 8. aceitar o chefe dos moravianos à mesa da Comunhão, batizava de novo as crianças dos crentes não conformistas e fazia questão em batizá-las por imersão. Tudo isto concorria para desprestigiá-lo perante o povo. 3. Complicações. Seu irmão Carlos não se deu bem com o novo ambiente e criou uma situação tão difícil que o obrigou a voltar logo para a Inglaterra. E o Sr. João Wesley, tomando o encargo de harmonizar o caso de seu irmão, atraiu sobre si ainda maiores embaraços. Porém o que concorreu mais do que tudo para dificultar o seu serviço na Geórgia foi a questão entre ele e a jovem Sophia Hopckey. Esta era uma moça atrativa, simpática e dotada de regular educação. Não obstante o aspecto austero de Wesley, ele lhe despertara afeição. Ele nunca chegou a pedi-la em casamento, mas entre ambos existia mútuo afeto. O Sr. Wesley tomou tal interesse no caso, que foi levado a consultar os presbíteros da Igreja dos Moravianos se devia ou não casar-se com ela. Quando a moça soube que ele havia feito tal coisa, indignou-se e, pouco tempo depois, casou-se com o Sr. Williamson. Foi um golpe muito cruel para o Sr. Wesley e ele, referindo-se a isso, escreveu no seu Diário o seguinte: “A Providência tirou de um só golpe o desejo dos meus olhos. Fui atravessado como por uma espada”. Contudo podia ter continuado na América se não tivesse criado para si mesmo maiores dificuldades. Alguns meses depois ele teve a imprudência de repreendê -la por julgar que havia em sua conduta algumas coisas que mereciam repreensão. Além de repreendê-la, recusou-se a darlhe a comunhão. O marido dela indignou-se e denunciou o Sr. Wesley ao Juiz articulando doze acusações. O júri constituído de quarenta e quatro homens julgou que dez daquelas acusações eram razoáveis. Porém o Sr. Wesley alegou que, dessas acusações, só havia uma cujo julgamento eram questões eclesiásticas. Quanto a acusação de ter ele “falado e escrito à senhora Sophia Williamson sem o consentimento de seu marido”, ele estava pronto a comparecer perante o júri e defender-se quanto antes. Mas os oficiais não se deram pressa em ouvi-lo, esperando que ele fugisse da Colônia como criminoso. Seis vezes ele compareceu perante o tribunal para ser ouvido, mas não quiseram ouvi-lo. Entrementes fora substituído por outro e, não podendo conseguir a terminação do processo contra si, resolveu retirar-se da América. Antes de se ir embora, colocou um aviso na praça publica anunciando a sua intenção de voltar logo para a Inglaterra. Em seu diário lê-se o seguinte: “Sexta-feira, 2 de Dezembro de 1737. Logo que terminou o culto de oração, às oito horas da noite, favorecido pela maré, sacudi o pó dos meus pés e deixei a Geórgia, depois de ter pregado o evangelho não como devia, mas como s ó eu podia, por um ano e nove meses”. 4. Regresso para a Inglaterra O desapontamento e a humilhação que ele sentia não eram insignificantes, porém profundos. Ele escreveu em seu Diário: “Agora faz dois anos e quatro meses desde que sai da minha terra nat al para ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas o que tenho aprendido durante este tempo? Deveras, o que eu menos esperava e é que eu que fui a América para converter os outros, não era eu mesmo convertido, mas um alienado da vida de Deus, um filho da ira e um herdeiro do inferno”. Mais tarde, refletindo sobre essa época da vida, viera a modificar estas acusações contra si mesmo. O benefício que ele recebeu desta experiência logo se manifestou em sua vida. Ele aprendeu a humildade, chegou a conhecer a si mesmo revelando o que estava em seu coração.
  9. 9. Acima de tudo, aprendeu que não era necessário retirar-se à solidão para ser cristão e que o ascetismo e o interesse por si próprio não é o que constitui a religião de Cristo. Imediatamente, depois de chegar à Inglaterra foi para Londres, onde se encontrou com o Sr. Pedro Bohler, um moraviano, em viagem da Alemanha para a Geórgia. Lembrando -se dos moravianos da Geórgia, o Sr. Wesley associou-se a ele em Londres, assistindo aos cultos dirigidos por ele e conversando com ele em particular. O Sr. Wesley podia compreender a explicação do Sr. Pedro Bohler, porém a sua experiência não estava de acordo com sua teoria. A questão da salvação pela fé o confundia, mas, ouvindo as explicações do Sr. Bohler, chegou a confessar que se sentia culpado de incredulidade. Tinha também uma outra dificuldade que era a conversão instantânea. Estudando estes pontos no Novo Testamento e ouvindo o testemunho dos moravianos, concluiu que estava errado em seu modo de pensar sobre estas coisas. A única coisa que lhe faltava agora era fazer a sua experiência pessoal corresponder a sua concepção intelectual sobre estes pontos. Não tardou a ter tal experiência. Foi no dia 24 de Maio de 1738 que ele teve uma experiência que transformou completamente sua vida. Essa experiência foi semelhante à de São Paulo no caminho de Damasco. Assim conta-a em seu Diário: “ De tarde, fui, com pouca vontade, assistir ao culto na Sociedade de Aldersgate Street (Londres), onde ouvi alguém ler o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Cerca de um quarto de hora antes das nove, quando estava sendo descrita a mudança que Deus opera no coração pela fé em Cristo, senti o meu coração maravilhosamente aquecer-se. Senti que eu realmente confiava em Cristo, somente para a salvação; e uma segurança me foi dada de que ele me havia livrado dos meus pecados – sim, os meus e que me salvou da lei do pecado e da morte. O Sr. Lecky, comentando este fato, disse que esta reunião em Aldersgate “marca uma época na história da Inglaterra.” Ele tinha aprendido dois segredos profundos dos moravianos: primeiro – que fundamentalmente a fé não é simplesmente uma crença, mas uma relação pessoal, a confiança absoluta da alma do indivíduo num Salvador pessoal e a entrega da vida completa a ele; segundo, que Deus não é um Ser afastado, porém uma presença viva no coração do crente, purificando-o do pecado, repartindo-lhe uma nova vida e dando-lhe paz e vitória sobre o pecado. Dali em diante o Sr. Wesley deixou de pensar tanto em si mesmo e mais em Cristo: o egoísmo não era mais o centro do seu pensamento, mas Cristo. Tinha descoberto o segredo do “mistério que esteve escondido dos séculos e das gerações; que é em vós Cristo, esperança da glória.” Tendo essa nova experiê ncia, queria confirmar-se mais e mais nela. Julgando que lhe seria de grande proveito, resolveu visitar os moravianos na sua comunidade em Herrnhut, na Alemanha. Esta visita auxiliou -o a confirmar-se na sua nova experiência, apesar da crítica por parte de alguns dos seus parentes e amigos mais íntimos. Tinha ele, então trinta e cinco anos de idade e estava preparado para principiar seu trabalho para o qual fora destinado. IV – ENCETANDO O TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO Alguns meses depois de voltar da Alemanha, o Sr. Wesley passou por Londres, onde, assistindo cultos na Sociedade de Fetter Lane, se relacionou intimamente com a irmandade dos moravianos. Sentiu-se em dívida com os moravianos, não podendo embora aceitar todas as suas idéias e doutrinas. Por alguns dois anos manteve com eles relações cordiais, mas veio a se afastar deles por causa de sua doutrina de antinomismo e quietismo.
  10. 10. O Sr. Wesley continuou sempre a pregar, não somente nas sociedades em Londres, mas também nas igrejas, até que os párocos anglicanos se recusaram a ceder-lhe o púlpito de suas igrejas. Antes de seu regresso da América, seu colega, o Sr. George Whitefield, terminando seus estudos, começou a atrair a atenção do povo por suas pregações na Inglaterra. Notícias disto chegaram ao Sr. Wesley, na América, e ele escreveu-lhe sugerindo que visitasse as colônias americanas. No dia em que o Sr. Wesley chegou à Inglaterra o Sr. George Whitefield embarcava para a América. Enquanto o Sr. Wesley passava por um crítico período religioso na Inglaterra, o Sr. Whitefield estava por sua eloqüência despertando as Colônias inglesas na América com a mensagem de boas novas. Na mesma cidade onde o Sr. Wesley sofreu tão grande fracasso o Sr. Whitefield foi maravilhosamente bem sucedido. Resolveu fundar um orfanato na cidade de Savanah, e voltou logo para a Inglaterra com o fim de arrecadar dinheiro para o seu orfanato. 1. Pregando ao ar livre. É interessante descobrir-se como as coisas acontecem, às vezes. Eis ali o Sr. Wesley com o seu coração a arder de amor e da graça de Deus e todas as portas fechadas a ele. Não podia aliar-se francamente aos moravianos; não lhe era permitindo pregar nas igrejas anglicanas, e nem mesmo na igreja onde seu pai fora pastor por muitos anos e onde ele mesmo tinha pregado ajudando seu pai. Que havia de fazer? Onde podia pregar? Tinha uma mensagem para o povo, mas não tinha ocasião de pregá-la. Era este o estado de coisas quando o Sr. Whitefield voltou da América. Como o Sr. Whitefield já tinha iniciado o trabalho de cultos ao ar livre, convidou o Sr. Wesley a ajudá-lo neste serviço. O Sr. Whitefield estava pregando em Bristol, e como as portas das igrejas lhe estavam fechadas também, ele começou a pregar ao ar livre, aos mineiros, pois se compadecia muito deles, porque os via abandonados pelas igrejas e vivendo na miséria, na pobreza e negligência. Em pouco tempo havia mais de vinte mil pessoas assistindo aos cultos ao ar livre. Como ele tinha que voltar à América, convidou o Sr. Wesley a continuar o trabalho. Mas o Sr. Wesley hesitava, porque isso era uma novidade para ele que fora disciplinado na Igreja Anglicana e ainda se conservava amarrado a tantos preconceitos eclesiásticos. A influência dos moravianos sobre o Sr. Wesley tinha incutido nele uma idéia supersticiosa. Quando se sentia em dúvida acerca do rumo que devia seguir ou da decisão que devia tomar, abria a Bíblia e a primeira passagem sobre a qual seus olhos caiam determinava a solução. O Sr. Wesley experimentou esse método diversas vezes e todas as vezes as passagens não eram favoráveis, ao passo que estava pensando em tomar, isto é, pregar ao ar livre. Conseqüentemente hesitou bastante tempo antes de aceitar o convite do Sr. Whitefield. Finalmente resolveu ir até Bristol e ver o que o Sr. Whitefield estava fazendo. Ali ficou tão impressionado com a obra, que deixou todos os seus preconceitos de lado, e encarando a questão à luz dos fatos e da razão, chegou a aceitar o convite. As seguintes citações do seu diário mostram seu modo de sentir a respeito dessa inovação em sua vida. Diz ele: “No princípio quase não podia me reconciliar com este modo de esquisito de pregar nos campos, conforme o Sr. Whitefield me deu um exemplo no domingo, tendo sido toda a minha vida, até há pouco, tão unida a todos os pontos que eram considerados de acordo com a decência e a ordem, e tais eram os meus preconceitos que considerava pecado um pecador salvar-se fora da igreja.” Em 2 de abril de 1739, ele escreveu no seu Diário: “Às quatro horas da tarde eu me submeti à grande humilhação e preguei nos campos, falando duma colina próxima à cidade a quase três mil pessoas.”
  11. 11. Este ato marca uma nova época na vida de Wesley; dali em diante ele foi o guia neste trabalho por cinqüenta anos. Achara o campo das suas atividades; a Providência Divina tinha aberto “uma porta grande e eficaz, e havia muitos adversários”. Mais tarde, visitando a sua cidade natal, Epworth e não lhe sendo permitido pregar na igreja, foi ao cemitério sobre o túmulo de seu pai, disse à multidão que o acompanhara: “Eu tomo o mundo por minha paróquia”. Uma vez iniciado este trabalho ao ar livre, não demorou a cair sobre ele uma avalanche de críticas. Até os seus amigos o aconselhavam a desistir deste fanatismo, etc. Em resposta à carta de um amigo o Sr. Wesley assim se exprime: “Permita-me declarar-lhe os meus princípios sobre este negócio. Eu considero todo o mundo como minha paróquia, até este ponto – que em qualquer parte onde eu estiver, eu julgo que é o meu direito e privilégio, para não dizer a minha obrigação, proclamar as boas novas de salvação a todos que me queiram ouvir. Este é o meu trabalho para que Deus tem me chamado e eu sei que ele tem me chamado e que as suas bênçãos tem me acompanhado”. Para narrar tudo o que o Sr. Wesley fez e sofreu pelo seu trabalho ao ar livre, seriam necessários muitos volumes. Somente lembraremos ao leitor que a época em que o Sr. Wesley iniciou este trabalho na Inglaterra, havia uma decadência moral que mal podemos imaginar o que era. O rei, a rainha, a nobreza, o clero e as massas es tavam todos contaminados pelos vícios da época. Glutonarias, embriaguez, infidelidade aos votos matrimoniais, crueldade nos esportes, corrupção na política, indiferentismo e formalismo na religião, ignorância e superstição e muitas outras coisas semelhantes eram característicos desta época. Era no meio destas coisas que o Sr. Wesley ia trabalhar. Visitando as diversas cidades e vendo a miséria e ignorância em que jazia o povo, o seu coração se enchia de compaixão pelas multidões sem pastor e sem esperanças. Por isso não temia enfrentar os motins e a oposição promovidos pelos vigários da Igreja Anglicana. Onde podia pregar, pregava. Poderíamos citar muitos incidentes do povo, mas somente citaremos um ou dois: “Cheguei a Wednesbury. Preguei na praça pública. Entrei em casa do Sr. Ward e estava escrevendo quando o motim chegou à porta gritando: “ O pregador, o pregador, o ministro, traga-o para fora, nós queremos o ministro.” Convidei alguém a tomar o chefe do motim pela mão e trazêlo para dentro da casa. Em pouco tempo o leão converteu -se em cordeiro. Ele e seus companheiros queriam levar-me ao juiz. Fui, mas o juiz estava deitado, pois era noite, e os mandou embora. Já tínhamos andado quase d ois quilômetros debaixo de chuva e não era possível falarlhe. Eles me arrastaram pelas ruas e um valentão quis bater-me com um pau que mais de uma vez quase me atingiu. Havendo uma porta aberta, quis entrar mas o dono da casa não deixou, receoso que a sua casa fosse destruída. Quis falar-lhes outra vez, mas não me quiseram escutar. Alguns gritaram: “Rachai a cabeça dele, matai -o”. Eu me esforçava para falar-lhes, chegando até quase a perder a voz para dizer-lhes: “Que mal tenho feito aos senhores, etc”. Não podendo falar mais, começaram a me empurrar pelas ruas. Deus porém, me protegia levantando defensores entre eles próprios, pois alguns dos chefes do motim se colocaram a meu lado e me levaram através de uma ponte onde encontramos uma porta e finalmente cheguei à cidade antes de meia-noite.” O que vai acima é um resumo do que se deu com o Sr. Wesley, pois o original é muito extenso. Em Falmonth ele foi atacado por outro motim. Quando arrombaram a porta da casa onde se achava, ele colocou-se no meio deles e disse: “Aqui estou eu. Qual dentre vós quer falar comigo? A quem tenho eu feito algum mal? Tenho feito algum mal ao senhor? Ao senhor? Ao senhor?” Continuei a falar até que pude sair de casa descoberto, pois de propósito deixei o meu chapéu para que todos me pudessem ver facilmente. Quando cheguei no meio da rua, levantei a voz e disse: “Meus vizinhos e patrícios! Quereis que eu vos fale?” Eles responderam com
  12. 12. veemência: “Sim, sim. Ele falará, ele falará, ninguém o proibirá”. Não podendo, porém, ficar em lugar elevado, só podia falar aos que me cercavam e os que podiam me ouvir ficaram quietos. Logo dois dos principais gritaram: “Nenhum homem tocará nele”. O Sr. Thomas, um clérigo, aproximando-se, disse: “Os senhores não tem vergonha de haver tratado uma pessoa estranha desta maneira?” Alguns outros apoiaram o ministro e em seguida me levaram para a casa da senhora Madern, donde mais tarde tomei um navio para Pensyn”. O conselho que o Sr. Wesley dá para quando temos de enfrentar um motim é: “Olhar sempre para a frente.” 2. Tornando-se um itinerante. Por alguns três anos o Sr. Wesley concentrou as suas atividades em Londres e arredores. Parece-nos que não tinha qualquer plano definido quanto ao seu trabalho; agia de acordo com as circunstâncias e com a providência. Houve um incidente que o levou a ser um itinerante. Foi um convite que recebeu em 1742 para ir a Domington Park, sede do condado da Condessa Huntingdon, para visitar uma pessoa que estava à morte. Ele foi para atender o convite e achando-se no norte da Inglaterra resolveu visitar a região dos mineiros de Yorkshire. O estado lastimável em que se achavam os mineiros apelou sensivelmente ao coração de Wesley. Ele resolveu fazer um itinerário por esta zona da Inglaterra. De Domington Park foi à cidade de Bristol, a cidade nativa dos Sr. John Newton, um marinheiro que se converteu ouvindo o Sr. Wesley pregar pela primeira vez ao ar livre em Londres. O Sr. Newton, tendo voltado para sua cidade, começou a contar aos seus vizinhos o que tinha experimentado. Foi tão bem acatado pelo povo que muitos dos seus vizinhos estavam preparados para ouvir, com o maior proveito, as pregações do Sr. Wesley. Os cultos realizados ao ar livre atraiam grandes multidões e muitas pessoas se convertera m e precisavam de instrução. O Sr. Wesley realizava reuniões especiais para essas pessoas, às quais dava explicações e conselhos que julgavam mais convenientes. Em Newcastle foi muito bem recebido. Pregou diversas vezes no domingo que passou naquela cidade. Quando acabou o sermão, o povo ficou estupefato; então ele disse: “Se vós quereis saber quem sou, meu nome é João Wesley. Hoje, às 5 horas da tarde, com o auxilio de Deus, pregarei aqui outra vez”. À hora marcada todo o lugar estava tomado pelo povo. O texto foi Isaías 43:25: “Eu, eu mesmo sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim; não me lembrarei dos teus pecados”. O resultado da sua pregação sobre o povo foi admirável; ele diz: “Depois da pregação o povo queria ma atropelar devido à bondade e ao amor que manifestava para comigo”. Nem sempre foi tão bem recebido, porém havia sempre muitas pessoas nas multidões que lhe queriam bem e gostavam de ouvir as suas pregações. Uma vez iniciado este trabalho de itinerância, não quis largá-lo jamais. Dedicou 50 anos da sua vida a este serviço que começou sob a direção divina. Estabeleceu o seu itinerário de ano em ano. Visitava os centros mais populosos e industriais da Inglaterra, Escócia e Galles. Muitas vezes visitou a Escócia e quarenta e dois vezes a Irlanda para não mencionar as viagens constantes em toda a parte da Inglaterra. Pr egava até sete vezes num dia, andando até 12 e 15 léguas no mesmo dia. As estradas eram ruins e no tempo frio, ele sofria muito. É calculado que, durante a sua vida de itinerante, andou duzentos e cinqüenta mil milhas que equivalem a dez voltas ao redor do mundo e pregou quarenta mil vezes. Viajou a cavalo até a idade de sessenta e nove anos, e devido a um desastre que o proibia de andar a cavalo, viajava de carro. Não houve talvez na Inglaterra outro homem que gastasse tanto tempo em público, lidando com o povo, como o Sr. Wesley, e também não houve outro
  13. 13. homem que gozasse tantas horas em particular. Ele passava dez ou doze horas por dia fechado no seu carro (carruagem), onde podia estar só com os seus livros e os seus pensamentos em meditação. A política dele era não principiar trabalho em qualquer lugar que não pudesse ser visitado e mantido. Pois, o que conquistou, ele conservou. Tinha muito a fazer, mas não encetava mais do que podia bem fazer. Como diz um dos seus biógrafos: “Assim foi o modo de viver do Sr. Wesley por cinqüenta longos anos. “Ele vivia”, diz o Sr. Fitchett, “como o soldado numa campanha – levemente equipado e pronto a qualquer momento para marchar”. Deixando de lado tudo mais que não fosse a sua carreira de evangelista itinerante, a história dos cinqüenta anos tão cheios de trabalhos incessantes e de paciência heróica nos enchem de admiração. E contudo este trabalho admirável de evangelização é somente uma pequena parte daquilo que o Sr. Wesley fez. Além de tudo isso, mantinha uma correspondência volumosa, instruía os seus pregadores e ecônomos, assistia as classes e as catequizavam, visitava e servia os doentes, arrecadava dinheiro para os pobres, zelava pela construção das capelas e escolas, e dirigia todos os detalhes do sistema complexo da itinerância que se desenvolveu sob a sua liderança. V – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA INGLATERRA O Sr. Wesley não tinha o dom de orador que o Sr. George Whitefield tinha, mas ele tinha um dom que Whitefield não possuía, o dom de um organiza dor. É exatamente neste ponto que se nota a superioridade (originalidade) de Wesley. Tinha habilidade tanto de um organizador como de líder de homens. E é devido a essas suas qualidades que o Metodismo se encontra presentemente em todo mundo. É um fato provado que o Sr. Wesley não tinha qualquer plano esboçado quando principiou a sua carreira, porém tinha uma mente alerta e aberta para aceitar os fatos que se apresentavam e agir de acordo com as circunstâncias; portanto, tudo o que se encontra na organização que fez, tem sua razão de ser do lado prático. O fim que tinha em vista em todas as medidas tomadas era: Reavivar a santidade escriturística através do mundo, e especialmente trazer à comunhão da Igreja as classes negligenciadas e desprezadas na socied ade de modo que gozassem os seus privilégios em Cristo Jesus. A promoção de um avivamento cont ínuo na igreja e não a fundação de um novo corpo eclesiástico era o desejo que queria realizar. 1. Organização de sociedades. Já foi mencionada a existência de sociedades religiosas na cidade de Londres. Havia muitas dessas sociedades na Inglaterra antes de Wesley principiar o seu trabalho de organizador. Ele sempre se identificava com essas sociedades e tomava parte nas suas reuniões. Mas o princípio do seu trabalho de organização de sociedades verificou-se em 1739 na cidade de Londres. As pessoas que foram despertadas pelas suas pregações sentiam a necessidade de instrução e conselho. Para satisfazer essa necessidade o Sr. Wesley resolveu dedicar um pouco do seu tempo, dando essas explicações e conselhos. Principiou com oito ou dez pessoas, havendo uma reunião por semana, a saber, nas quintas-feiras. Para melhor orientá-las preparou certas regras que nós conhecemos hoje como “As Regras Gerais”. “Isto”, diz ele, “foi a origem das sociedades metodistas, primeiro na Inglaterra e depois em outros lugares”. Na sua visita a Bristol fundou uma sociedade e adquiriu uma propriedade – uma casa de oração. Isto foi em Fevereiro de 1742. Havia uma dívida pesando sobre a capela e numa reunião se discutia o modo de arrecadar o dinheiro para pagá-la. Enquanto estavam discutindo a questão, um tal Capitão Foy sugeriu que cada membro desse um penny por semana para este fim. Porém alguém fez objeção dizendo que havia alguns membros que eram pobres demais para pagar mesmo esta tão pequena quantia. Então disse o Capitão Foy: “Ponham onze nomes das pessoas mais pobres da sociedade na minha lista; se elas puderem dar alguma coisa, muito bem. Eu as
  14. 14. visitarei de semana em semana e se elas não puderem dar coisa alguma eu darei por elas. E cada um de vós também visite onze pessoas de semana em semana, recebendo o que elas dão, e se faltar alguma coisa, cada um de vós suprirá”. Este plano foi aceito. As pessoas indicadas fizeram as visitas. Aconteceu que, fazendo essas pessoas seus relatórios ao Sr. Wesley, notou-se que havia pessoas doentes, algumas sem emprego, e outras não bem comp ortadas. Diante desses fatos o Sr. Wesley descobriu a necessidade de ter ajudantes para zelar pelos interesses das sociedades. Ele, portanto nomeou certas pessoas como Guias de Classes para zelarem não somente pelos interesses temporais das Sociedades, mas também pelos interesses espirituais. Assim por meio dessas pessoas ele podia manter melhor direção sobre as sociedades. Visitando uma sociedade em qualquer parte podiam os Guias de Classes orientá-lo acerca do estado espiritual e financeiro daquela Sociedade. Por algum tempo o Sr. Wesley recebia e distribuía os fundos entregues a ele trimestralmente pelos Guias de Classes. Mas, como o trabalho aumentou, o Sr. Wesley não podia atendê-lo. Foi em Londres que ele chamou alguns homens piedosos e hábeis para este serviço e os constituiu ecônomos. Os ecônomos foram incumbidos de zelar por todos os interesses financeiros das sociedades e também de socorrer os doentes e desamparados. Desde o princ ípio da existência deste ofício na Igreja Metodista, foi dever dos ecônomos zelar pelos doentes e necessitados, cuidando tanto de suas necessidades físicas como espirituais. Não levou muito tempo para o Sr. Wesley convencer-se de que ele e seu irmão Carlos não podiam atender a todas as exigências das multidões que os procuravam. Logo se levantou a questão de ajudante no ministério. Como os clérigos da Igreja Anglicana (salvo raras exceções) não se mostrassem hostis, mas indiferentes a este movimento, foi logo sugerida a idéia de empregar no serviço da Igreja alguns leigos habilitados. Mas, a princípio, o Sr. Wesley manifestou preconceitos contra essa idéia. Foi em 1740 que um de seus convertidos, o Sr. Thomas Maxfield, começou a pregar no Foundry, em Londres, na ausência do Sr. Wesley. Quando ele teve notícias disso, regressou apressadamente a Londres com o fim de por termo a tal desordem. Chegando a casa, sua mãe, ciente de seus intuitos, chamou-o à ordem dizendo: “João, tenha cuidado em lidar com este moço, porque ele é chamado por Deus para pregar o evangelho tanto quanto você”. Examina os frutos das suas pregações, e vai escutá-lo também”. Ele aceitou o conselho de sua mãe e apesar, de todos os seus preconceitos, convenceu-se de que era realmente obra de Deus. E, ainda que as autoridades da Igreja grandemente o criticassem, as provas da história estão, neste particular, do lado do Sr. Wesley. Estes auxiliadores multiplicaram-se por toda parte e o Sr. Wesley finalmente se interessou pela instrução e disciplina destes homens simples e sinceros do povo. Logo preparou um curso de estudo para eles, marcando-lhes as horas em que deviam ler e estudar e as horas em que deviam pregar e visitar o povo. Quando era possível, reunia-os em grupos e passava alguns dias com eles fazendo preleções sabre teologia, retórica e filantropia. Aconselhava-os a ler e às vezes os repreendia por não terem aproveitado o tempo em leitura. A um deles repreendeu nestes termos: “O seu dom de pregar não tem melhorado. É hoje o mesmo que era há sete anos. Tem vivacidade, mas não tem profundidade. Falta-lhe variedade; os seus pensamentos são curtos. Só a leitura com meditação e oração pode suprir isso. Negligenciando esta parte está-se prejudicando a si mesmo. Sem isso nunca poderá ser um pregador profundo como não poderá ser um verdadeiro cristão. Oh! Comece! Marque uma certa parte do dia para esse exercício particular. Pode adquirir gosto pela leitura se o não tiver. O que é custoso a principio torna-se agradável mais tarde. É para salvar a sua vida. Não há outro caminho; de outra maneira, será toda a vida um preguiçoso, e um pregador ineficiente.” O Sr. Wesley sempre concedia liberdade de pensamento a seus pastores. Quando o trabalho atingiu suficiente desenvolvimento, o Sr. Wesley passou a realizar Conferências com seus pregadores. O sistema de itinerância foi adotado, e de três em três, ou de seis em seis meses, os pregadores eram mudados. Deste modo as Sociedades e Igrejas podiam
  15. 15. aproveitar os dons dos diversos pregadores, e os pastores leigos também podiam ter bastante material novo para o povo que os escutava. Já vimos como os Guias de Classes, os ecônomos, os pregadores leigos e o sistema de itinerância com as conferências foram aparecendo. Mais tarde vamos descobrir os motivos que levaram o Sr. Wesley a ordenar os seus pregadores leigos. 2. Organização de escolas. Realmente, antes de ser organizada qualquer Sociedade, foi fundada uma escola em Bristol em benefício dos filhos dos mineiros que tinham abraçado o Evangelho. O Sr. Wesley estudou os diversos sistemas de educação existentes na Europa, especialmente na Alemanha e Holanda. O curriculum era bastante exigente, e consistia das seguintes matérias: Leitura, Caligrafia, Aritmética, Inglês, Francês, Latim, Grego, Hebraico, História, Geografia, Cronologia, Retórica, Lógica, Ética, Geometria, Álgebra, Física e Música. A Escola de Kingswook, em Bristol, foi a primeira e logo a seguir houve escolas fundadas em Newcastle, no Foundry, e em Londres. O trabalho educativo tem sempre acompanhado o trabalho de evangelização na Igreja Metodista. O Sr. Wesley foi um dos primeiros a utilizar a Escola Dominical nas suas sociedades. Em 1790 escreveu a um dos seus ajudantes: “Estou satisfeito por saber que foi aberta uma Escola Dominical em Newcastle. É uma das mais nobres instituições que tem sido fundadas na Europa no decurso de muitos séculos, e seu valor argumentará mais e mais, se seus professores e diretores cumprirem seus deveres. Nada pode retardar o progresso deste trabalho bendito senão a negligência de seu instrumento”. 3. Trabalho de publicações. Ninguém reconhecia melhor o valor da imprensa do que o Sr. Wesley. Desde o princípio do seu trabalho de evangelização, começou a interessar-se pela publicação de obras úteis aos crentes. Ele e seu irmão Carlos publicaram quatrocentos e cinqüenta e três obras para uso de seu povo nas sociedades. Estabeleceu o que chamava “A Biblioteca do Cristão”, composta de cinqüenta volumes. Reconhecia também o valor dos tratados e não lhe era coisa estranha dar um tratado às pessoas que encontrava nas suas viagens. Em 1778 deu começo à publicação do jornal – “A Revista Armeniana” (Armenian Magazine), ainda hoje publicada sob o nome de “Wesle yan Methodist Magazine”, e tem a honra de ser a mais antiga revista religiosa na Inglaterra. O Dr. Dean Farra diz: “A vasta difusão de instrução religiosa pelas publicações semanais e publicações baratas com todos os seus bons resultados, foi iniciada por ele. A Sociedade Britânica e Estrangeira, a Sociedade de Tratados Religiosos, a Sociedade Missionária de Londres e até a Sociedade Missionária da igreja, devem grande parte à sua iniciativa. Ele deu grande impulso à educação nacional e técnica” . Certa vez exortou seus pregadores nestes termos: “Não se pode dar que o povo cresça na graça sem se dedicar à leitura. O povo que lê será um povo sábio; o povo que fala muito, pouco sabe. Insista que os crentes leiam, e em pouco tempo verá o fruto do seu trabalho”. 4. Obra filantrópica. As condições sociais no tempo de Wesley não podiam deixar de atrair sua atenção. Foi o estado miserável em que viu o povo de Bristol, Newcastle, que o levou a ser evangelista. Era o seu desejo melhorar as condições dos seus patrícios abandonados pelas classes mais favorecidas. Porém tinha certeza de que o povo não podia ser materialmente beneficiado sem primeiro o ser espiritualmente. O povo precisava de Cristo. Os mineiros de Bristol ou Kingswook eram o desespero dos filantrópicos, antes de serem evangelizados por Whitefield e Wesley.
  16. 16. O Sr. Wesley que, mesmo no tempo de estudante, em Oxford, já se interessava pelos pobres e pelos presos, quanto mais agora, depois da sua conversão. Quando estudante e preceptor em Oxford, ele só gastava certa quantia para a própria manutenção e dava o que sobrava em benefício dos pobres. É calculado em 4.800:000$000 o que ele contribuiu pessoalmente em benefícios aos pobres e das obras que fez em conexão com as Sociedades. E quando morreu deixou ”uma boa biblioteca, uma batina clerical bem gasta, uma reputação muito criticada pelo público e a Igreja Metodista”. 5. Completando a organização ou o Documento de Declaração. Durante cerca de quarenta anos o Sr. Wesley organizava sociedades em diversas cidades na Inglaterra e tanto as capelas, como as escolas e casas pastorais eram adquiridas e conservadas legalmente em seu próprio nome. Ele queria desembaraçar-se deste arranjo, mas não podia achar para o mesmo uma solução satisfatória. Em Fevereiro de 1774, porém, com o auxílio do Dr. Thomas Coke, conseguiu organizar um plano por meio do qual todas as propriedades havidas e seguradas em seu próprio nome pudessem ser transferidas a uma corporação constituída em pessoa jurídica, chamada Legal Hundred, isto é, cem membros da Conferência, número considerado legal, foram constituídas todas as propriedades do povo chamado Metodista (ou seja, as propriedade foram passadas para a Conferência Metodista). Os estatutos desta organização ficaram sendo conhecidos na história da Igreja Metodista como o Documentação de Declaração (Deed of Declaration). Este documento foi registrado na chancelaria do governo inglês. Os primeiros cem nomes foram indicados por Wesley mesmo e as vagas tinham de ser preenchidas de ano em ano na ocasião da Conferência Anual. Estas cem pessoas constituíam a pessoa jurídica da Igreja Metodista da Inglaterra. Era composta de um presidente e secretário e tinha autoridade para admitir pessoas idôneas para o ministério, nomear os pregadores para os diversos cargos e circuitos e exercer a supervisão sobre todas as sociedades. VI – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA AMÉRICA DO NORTE A organização da Igreja Metodista na América do Norte foi o resultado de diversos acontecimentos. 1. Como o trabalho Metodista principiou na América. Em 1753 o Sr. Wesley visitou a Irlanda e pregou o evangelho aos irlandeses ou antes às colônias alemãs fundadas já há uns cinqüenta anos. Este povo se interessou na pregação de Wesley e diversas pessoas de converteram. Em 1765 um grupo destes imigrou para Nova York, na América. Entre eles havia um pregador leigo, o Sr. Philippi Embry, que era, por profissão, um carpinteiro. Dali há um ano veio mais um grupo, no qual se contava uma mulher muito consagrada e ativa, chamada Bárbara Heck. Logo depois da chegada de Bárbara os Metodistas principiaram a trabalhar em prol da causa do Mestre. Em pouco tempo, com o auxílio do Sr. Embry, foi organizada uma Sociedade. Havia um pregador local, um soldado inglês, o capitão Webb, que se converteu em Bristol pela pregação do Sr. Wesley, que morava em Albaney. Sabendo ele que havia uma sociedade em Nova York, veio para ajudar no trabalho. A causa prosperou, e em pouco tempo construíram uma capela. Precisavam, porém, de pregadores para tomar conta do trabalho e levá-lo
  17. 17. adiante. Diversas cartas foram dirigidas ao Sr. Wesley, nas quais pediam que mandasse alguns obreiros para a América. Estes apelos não foram desprezados. 2. Alguns obreiros enviados. Tendo recebido estes apelos, o Sr. Wesley quis atendê-los. Portanto, na ocasião da Conferência que se realizou em Leeds, em 1769, as seguintes perguntas foram feitas: -“Temos recebido pedidos urgentes dos nossos irmãos em Nova York, onde construíram uma casa de oração; ”passa à nós e ajuda-nos”. “Quem está pronto para ir?” Resposta: Richard Boardman e Joseph Pilmoor”. Pergunta: “Que mais podemos fazer para mostrar o nosso amor fraterno?” Resposta: “Vamos levantar uma coleta entre nós”. Isto foi feito imediatamente e desta coleta cinqüenta libras foram destinadas para pagar as suas dívidas e vinte libras para ajudar nas despesas de viagem. Assim estavam ligados aos laços de união entre o povo chamado Metodista nos dois continentes. Mais tarde outros obreiros foram enviados e entre eles o apóstolo do Metodismo na América do Norte, o Sr. Francis Asbury. O trabalho na América prosperou. O número de adeptos aumentava dia após dia. As Sociedades tinham com a Igreja Anglicana da América as mesmas relações (esses crentes eram anglicanos, mas abandonados pela Igreja Anglicana) que mantinham com as da Inglaterra. Mas como o território americano era muito mais vasto do que o da Inglaterra e como o povo estava espalhado em povoações pequenas, houve sérios embaraços na devida administração do trabalho. O clero inglês era indiferente e alguns deles não quiserem ajudar os Metodistas em administrar o batismo e a Santa Ceia. Em 1775 arrebatou a guerra da independência que embaraçou ainda mais o trabalho Metodista, porque todos os pregadores que tinham sido enviados da Inglaterra voltaram, com exceção do Sr. Francis Asbury, que teve de passar alguns anos escondido. O que agravou ainda mais a situação dos Metodistas na América foi um tratado que o Sr. Wesley escreveu contra os americanos na sua luta pela independência. Por causa disso os Metodistas eram suspeitos aos americanos e o Sr. Asbury corria maior perigo. O Sr. Asbury assim se exprimiu sobre o caso: “Entristeceu-me deveras que este venerável (Wesley) se metesse na política americana. O meu desejo é viver em amor e paz com todos os homens, para não lhes fazer mal, porém, para lhes fazer bem. Contudo posso apreci ar a lealdade conscienciosa do Sr. Wesley ao seu governo, sob o qual ele vive. Se ele tivesse sido súdito da América, sem dúvida teria sido zeloso em advogar a causa americana. Mas algumas pessoas inconsideradas têm aproveitado a ocasião para censurar os Metodistas na América, por caus a dos sentimentos políticos do Sr. Wesley”. 3. A missão de Thomas Coke. Terminada a guerra da independência os Metodistas continuaram o seu trabalho com boa aceitação. Mas devido à independência das colônias americanas da pátria mãe, separou-se por completo a Igreja do estado. Os anglicanos que ficaram na América tiveram de modificar a sua política de acordo com as modificações do novo regime. Portanto esta Igreja ficou Anglicana na Inglaterra e separada do Governo Americano. Isto veio refletir sobre o movimento Metodista, agravando cada vez mais o problema de administração dos sacramentos do batismo e da Santa Ceia. Como não havia pregadores ordenados entre os Metodistas, o povo estava sem este meio de graça. Por muito tempo cartas escritas pelo Sr. Asbury e outras pessoas tinham sido enviadas ao Sr. Wesley narrando o triste estado de coisas que existia nas Sociedades Americanas. Mas o
  18. 18. Sr. Wesley não quis, a princípio, atender diretamente estes apelos, esperando que a Igreja Anglicana atendesse às necessidades das Sociedades na América. Mas já havia chegado ao ponto em que não podia se esperar mais, pois os próprios pregadores estavam agindo por si, elegendo e ordenando os seus para administrar os sacramentos. O Sr. Asbury, pela influência que tinha sobre os pregadores americanos, os persuadiu a não exercerem estes ofícios de diácono e presbítero, até que pudessem entender-se com o Sr. Wesley. Depois de quatro anos de espera o Sr. Wesley chegou a resolver a questão, o que foi feito do modo seguinte: “Em 1º de setembro de 1784, o Rev. João Wesley, Thomas Coke e James Creghton, presbíteros da Igreja Anglicana, constituíram um presbítero e ordenaram Richard Whatcoat e Thomas Vasey diáconos; e em 2 de setembro, pela imposição das mesmas mãos, etc., Richard Whatcoat e Thomas Vasey foram ordenados presbíteros e Thomas Coke, L.L.D., foi ordenado superintendente para a Igreja de Deus sob o nosso cuidado na América do Norte”. O Sr. Thomas Coke foi comissionado pelo Sr. Wesley para ordenar o Sr. Francis Asbury como superintendente, adjunto com ele e escreveu uma carta circular às Sociedades Americanas explicando e justificando os passos que acabava de dar. Esta carta mostra claramente que o Sr. Wesley agiu com sabedoria em tudo isto. Eis o último parágrafo da carta: “Como nossos irmãos americanos agora estão completamente separados tanto do Estado como da hierarquia inglesa, não queremos outra vez embaraço nem por um nem por outro. Eles agora em plena liberdade para seguir as Escrituras e a Igreja Primitiva e nós julgamos por bem que eles se conservem na liberdade com que Deus os libertou”. Mas como era de se esperar, este ato trouxe sobre o Sr. Wesley bastantes críticas. O seu próprio irmão, o Sr. Carlos Wesley, foi um dos mais severos. Numa carta que escreveu para um amigo assim se exprime sobre o caso: “O meu irmão tem renunciado aos princípios e hábitos de sua vida inteira; pois agiu contrariando todas as suas declarações, suas pretensões e suas obras escritas, tem roubado seus amigos de sua vanglória e deixado sobre o seu nome uma nódoa que será lembrada enquanto se lembrarem dele. Portanto, a nossa cooperação está disso lvida, porém ficamos amigos ainda. Pois o tenho recebido para a felicidade ou a desventura até que a morte nos separe, ou antes, nos reúna com amor inseparável”. O Sr. Wesley, porém, se justificou, alegando que a força das circunstâncias e a indicação da providência divina tinham-no levado a fazer tudo o que tinha feito; que ele tinha tanta autoridade para ordenar diáconos e presbíteros como qualquer outro homem na Europa. Ele teve muitos preconceitos sobre essas coisas no princípio da sua carreira, mas pouco a pouco os foi deixando e abraçando novas idéias e princípios. Alegou que desde o ano de 1740, lendo o livro “Igreja Primitiva” pelo Sr. Lord King, se convenceu que as ordens de presbítero e bispo sob o ponto de vista do Novo Testamento eram a mesma coisa; são termos sinônimos. Dez anos depois, em uma carta que escreveu ao Rev. Sr. Clark, declarou que acreditava ter o bispo Stillingfleet, no seu livro “Isenicon”, provado que nem Cristo nem os apóstolos prescreveram qualquer forma especial de governo para a Igreja, e que a questão do divino direito do episcopado diocesano não foi conhecida na Igreja Primitiva. A seguinte carta escrita pelo Rev. Adam Tonerden, dirigida ao Rev. Stephen Donelson, Leesbury, Va., com data de 30 de dezembro de 1784, Baltimore, Md., interpreta fielmente o espírito e as idéias em que o Sr. Wesley organizou a Igreja Metodista na América. Eis a carta: ” Nós temos, na ocasião desta Conferência (a notável Conferência do Natal), de acordo com o conselho e direção do Sr. Wesley, entregues a nós pelo digno Sr. Coke, nos constituído unanimemente numa Igreja independente sob o título de Igreja Metodista Episcopal, para ser governada pelos superintendentes, presbíteros e diáconos, com uma liturgia algo diferente da Igreja Anglicana. O sistema da itinerância será continuado e de acordo com a política da Igreja que adotamos, será reforçado. O Sr. Asbury foi ordenado superintendente, no domingo p.p., pelo Sr. Coke e os dois presbíteros que vieram com ele, trazendo poderes de ordenar conferidos a eles
  19. 19. pelos três presbíteros da Igreja Anglicana, sendo o Sr. Wesley um deles, e nós julgamos tão válida como qualquer ordenação, sendo bem conhecido que nos tempos primitivos o ofício de presbítero e bispo (sendo termos sinônimos) eram a mesma coisa, com esta pequena diferença que o chefe, ou primeiro presbítero era às vezes chamado de bispo. Para nós o “Superintendente” corresponde ao “Bispo”, que terá supervisão geral sobre todos e nós julgamos este termo melhor porque os bispos modernos sendo “lords” são geralmente devoradores do rebanho e uma maldição para o povo, e o nome implica mau gosto”. O Dr. Fitchett, referindo-se a esta fase da vida de Wesley, descreveu-a nas seguintes palavras: ”Aquele que estuda este aspecto, o mais crítico e agudo do trabalho do Sr. Wesley, encontrará nele o retrato de um homem com uma tendência obstinada para a High Church, sendo compelido a essa direção pela tendência acentuada pelo nascimento, educação e temperamento; enquanto passo a passo, guiado pela providência e obrigado pelos fatos, ele caminha num trilho que o leva para um alvo completamente invisível ou ignorado”. VII – CAMPEÃO DA LIBERDADE DE PENSAMENTO RELIGIOSO Os primeiros golpes dados pela independência religiosa foram vibrados (iniciados) pelos reformadores do século dezesseis. Mas os próprios reformadores, Luthero e Calvino, não compreenderam o que significa estes termos nestes tempos modernos. Eles não labutaram pela tolerância religiosa, nem perante os tribunais; queriam apenas conceder liberdade aqueles que não concordassem com eles, com suas idéias e opiniões particulares, pois, sabemos que muitas pessoas foram perseguidas. Os próprios protestantes não eram tolerados por eles, assim como os Pais Peregrinos na América do Norte, nos tempos coloniais, não cederam aos quakers e anabatistas os mesmo privilégios que reservaram para si. 1. A idéia de Wesley sobre a liberdade de pensamento . O Sr. Wesley foi um dos primeiros a pugnar pela liberdade de pensamento religioso, baseando-se no princípio fundamental do Protestantismo – o direito individual e a responsabilidade de pensar e julgar por si. Na ocasião da Conferência realizada em Londres em 1774 foi discutido esse assunto respondendo-se a tese seguinte: - “Até que ponto um cristão pode submeter-se à autoridade eclesiástica?” A resposta foi: “Um cristão somente pode submeter-se à autoridade eclesiástica até ponto em que sua consciência não se ofenda”. - “Pode alguém ir além disto em submissão a qualquer homem ou grupo de homens?” Resposta: “É inegavelmente certo que não pode, seja aos bispos, convenções ou concílios gerais. E é esse o princípio liberal em torno do qual agiram todos os reformadores. Cada homem tem de julgar por si, porque cada homem tem de dar contas de si mesmo a Deus”. Assim o Sr. Wesley define a liberdade religiosa: “A liberdade religiosa é a liberdade que o homem tem de escolher a sua própria religião, adorar a Deus de acordo com a sua própria consciência. Todo homem vivo tem este direito como criatura racional. O criador tem dotado o homem de juízo; e cada qual tem de julgar por si; porque todos têm de prestar contas a Deus. Conseguintemente é um direito inalienável; não se pode ser separado da humanidade, e Deus nunca deu a qualquer homem ou grupo de homens autoridade de privar qualquer filho do homem deste direito sob qualquer pretexto, seja qual for”. A religião para o Sr. Wesley pode ser definida em termos de relação pessoal e da vida intima e da conduta prática, e não em termos de crença. A fé ele a define como um senso espir itual
  20. 20. pelo qual vemos “a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo”, e como conseqüência temos confiança perfeita no amor de Deus”. Continuando, ele diz: “o resumo da nossa doutrina a respeito da religião interna é composto de dois pont os: amar a Deus de todo o nosso coração e ao nosso próximo como a nós mesmos. E a respeito da religião externa em dois pontos: fazer tudo para a glória de Deus e fazer aos outros o que nós queremos que eles nos façam em circunstancias semelhantes”. Ele não concordava com aqueles que insistiam em que antes de alguém se poder salvar tinha de ter uma idéia clara a respeito das doutrinas básicas do cristianismo, tais como a queda do homem, a justificação pela fé e a expiação feita por Cristo na cruz. Ele diz: “Eu creio que ele tem mais respeito à bondade do coração do que aos pensamentos claros da cabeça, e se o coração de um homem estiver cheio da graça de Deus e do poder do Espírito Santo, e aquele humilde e doce amor para com Deus e os homens, não posso acreditar que Deus resolva lançar tal homem no fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos somente porque as suas idéias não são claras ou porque as suas concepções são confusas”. Ele podia apreciar os sentimentos de outros, mesmo não concordando com eles quanto as suas idéias e opiniões religiosas. Tinha amigos entre os quakers, anabatistas e católicos romanos. O Sr. Wesley almejava uma cooperação mais franca entre todos os cristãos protestantes. Assim aconselhou “ao povo chamado Metodista”: “Sede fi éis aos vossos princípios acerca das opiniões e das coisas externas da religião. Empregai todas as ordenanças que julgais que são de Deus, porém acautelai-vos de um espírito intolerante para com aqueles que não usam as mesmas ordenanças. Conformai-vos aqueles modos de culto que provais, mas amai aqueles que não podeis aceitar como irmãos. Dai tanta ênfase quanto possível às opiniões que todos adotais, e considerai conformes com a verdade e a razão; porém não tenhais raiva ou desgosto ou desprezo por aquele que tem opiniões diferentes das vossas.” 2. A controvérsia de Wesley sobre o assunto. Não houve em toda a Inglaterra, naquela época, outro homem tão fortemente atacado pelos ideais que advogava como o Sr. Wesley. O Rev. Richard Green (pesquisador e historiador metodista norte -americano) aponta trezentos e trinta e dois títulos de obras anti-metodistas escritas por clérigos. A linguagem dessas obras tinha o cunho característico da linguagem polemística daquela época. Diversos bispos atacaram sem misericórdia o Sr. Wesley e não acharam termos assaz fortes para exprimir todo o desgosto e desprezo que lhe votavam. Wesley não gostava de controvérsias e deixou muita coisa passar em sil êncio. Mas, às vezes, pelo amor que tinha à verdade, foi obrigado a defender-se e defender as verdades que pregava. Depois de preparar uma carta em resposta a acusações feitas pelo bispo Livington, ele disse: “Trabalho pesado, e trabalho tal que não escolhi, porém, que às vezes tem que ser feito. Bem disse o homem da antiguidade: “Deus fez necessária a teologia prática, porém o diabo a controverteu. Mas isso é necessário; temos de resistir ao diabo; senão, ele não fugirá de nós”. O seguinte incidente revela o espírito com que o Sr. Wesley suportava a perseguição. Tinha ele prometido levar, certo dia, a sua pequena sobrinha Sarah, filha de seu irmão Carlos, a um passeio em Canterbey. Mas, um dia antes, seu irmão Carlos o chamou com muita solicitude, avisando-o de que sua esposa tinha em seu poder algumas cartas que ele havia escrito a terceiros e que ela havia modificado algumas expressões, assim alterando completamente o sentido, e que ia publicá-las no Morning Post; portanto devia ele desistir do passeio, etc., e defender sua reputação. Mas o Sr. Wesley disse a Carlos: “Irmão, quando me consagrei a Deus e comigo meu comodismo, meu tempo, minha vida, fiz acaso exceção da minha reputação? Não. Pode dizer a Sarah que eu irei com ela amanhã em Canterbey”. A controvérsia mais prolongada e mais difícil foi a controvérsia relativa à doutrina calvinista e arminiana. Desde o tempo da Reforma Protestante o Calvinismo tinha sido a doutrina predominante do Protestantismo, mas o Sr. Wesley não podia aceitá-lo, preferindo enfrentar a
  21. 21. oposição até dos seus amigos como George Whitefield, por exemplo. Em 1770, depois da morte de Whitefield, esta questão se levantou de novo. O Sr. Wesley foi atacado por todos os lados. Dentre os principais escritores que o atacaram salientou-se pela violência o Sr. Toplady, um calvinista extremado. Em seu tratado sobre a “Predestinação Absoluta” defendeu as suas opiniões sobre esta doutrina. O Sr. Wesley respondeu, fazendo uma curta análise deste tratado do seguinte modo: “Eis a conclusão de tudo: Um em vinte (suponhamos) da raça humana é eleito; dezenove em vinte são reprovados. O eleito será salvo, faça o quiser. Os reprovados serão condenados, façam o que puderem. Que o leitor creia isto, ou será condenado. Por ser isto a verdade, firmo -o com o próprio punho. A T.” Vendo a sua doutrina assim condensada, assim concret izada e endossada com as suas próprias iniciais, o Sr. Toplady ficou furioso com o Sr. Wesley. Mas ele se defendeu e as doutrinas que pregava, tendo para esse fim um grande auxiliar na pessoa do Dr. João Fletcher, que escreveu os “Checks to Antinomianisms”. Esta obra concorreu grandemente para criar um lugar debaixo do sol para o Arminianismo. O novo espírito de democracia vinha se manifestando e o espírito liberal e tolerante estava em ascendência. VIII – O FIM DA JORNADA. O Sr. Wesley tinha seus def eitos , suas peculiaridades e fraquezas, porém, apesar dessas coisas, foi o vulto que, mais do que qualquer outro, maior influência tem exercido sobre o mundo nestes dois últimos séculos (lembrar que esse livro foi escrito em 1929). Ele trabalhou até o fim. Pregou pela última vez na Capela “City Road Chapel”, em 22 de fevereiro de 1791, e no dia seguinte fez uma viagem de cinco léguas para visitar um magistrado e, em casa do mesmo, pregou pela última vez na sua vida. No dia seguinte escreveu a sua última carta exortando o Sr. Wilberforce a continuar a sua propaganda contra o tráfico de escravos. Voltando para casa em Londres, na hora em que entrou em casa, pediu que o deixassem sozinho por meia hora. Durante esta hora ele encarou a morte em comunhão com o seu Senhor. Chamaram o médico e tudo foi feito para prolongar sua vida, porém a hora de sua partida tinha chegado. Rodeado por seus amigos, ele veio a falecer no dia 2 de março de 1791 (quarta-feira), às 10 horas da manhã, e as suas últimas palavras foram: “O melhor de tudo, Deus está conosco”. Dali a oito dias foi enterrado atrás da Capela de “City Road Chapel”.
  22. 22. II A vida de Carlos Wesley, o poeta do Metodismo (1707-1788) Se João Wesley foi organizador do Metodismo, Carlos Wesley, seu irmão mais moço, foi o poeta e cantor do mesmo movimento. João elaborou os vinte e cinco Artigos de Religião, As Regras Gerais, e o seu Comentário do Novo Testamento e escreveu os cinqüenta e dois sermões, dando assim o padrão das doutrinas do Metodismo; porém, foi o Carlos Wesley que deu alma a essas doutrinas, nos hinos que escreveu. Enquanto centenas de pessoas lêem o padrão de doutrinas, milhares cantam os hinos. É difícil dizer qual dos dois tem influído mais sobre a vida religiosa do povo. Estes dois irmãos eram toa essenciais a este movimento como os dois lados são essenciais à mesma medalha. I – NASCIMENTO DE CARLOS WESLEY Quando nasce uma criança, o mundo tem uma nova oportunidade, como disse alguém. Não podemos calcular o valor encerrado na vida de uma criancinha. A milícia celestial cantou louvores na ocasião do nascimento do bebê de Belém. Quando o menino Carlos nasceu na casa pastoral, em Epworth, Inglaterra, quem poderia imaginar que milhões de pessoas, através dos séculos, viriam a cantar hinos de louvor escritos por ele? 1. Os pais O menino Carlos Wesley não tinha motivos para se envergonhar de seus pais, pois eram pessoas que representavam o que havia de melhor na vida social e religiosa da Inglaterra. Seu pai, Rev. Samuel Wesley, era vigário na Igreja Anglicana e bem educado, tendo feito seus estudos na Universidade de Oxford. Era literato e poeta. Seu comentário do Livro de Jó foi a sua melhor obra. Mas foi preso uma vez por causa de dívidas, pois não sabia administrar suas finanças. Sua mãe, Suzana Wesley, descendia de família distinta. Era uma senhora excepcional. Em pequena revelara vigor mental. Não preferia gastar mais tempo em diversões do que em devoções religiosas. Seu pai, Sr. Samuel Annesley, era não-conformista; porém ela, depois de estudar a questão de si mesma, resolveu, aos treze anos de idade, identificar-se com a Igreja Anglicana. Era bonita, mas o que mais a distinguia eram a força de seu caráter, o seu bom senso, sua inteligência e sua dedicação a seu marido, à família e aos vizinhos. O Dr. Adam Clarke, referindo-se a ela, disse: “Conheço muitas senhoras piedosas, tenho lido a respeito de outras; mas nunca vi ou li qualquer coisa acerca de outras que reunissem todas as qualidades que ela possuía”. O Dr. John Telford disse também: “A sua paciência em tempo de aflição, o domínio sobre si mesma, a educação de sua numerosa família, o seu juízo amadurecido e o seu trabalho
  23. 23. evangelizante, concorreram para torná-la merecedora do título de honra que em muito poucas mulheres possuem”. 2. Seu nascimento e a influência que seus pais exerceram sobre ele. Há alguma dúvida acerca da data do nascimento de Carlos Wesley, porque o arquivo em que se achava registrada a data de seu nascimento foi consumido pelo fogo por ocasião do incêndio na casa pastoral. Porém dá-se como sendo a data mais provável o dia 18 de Dezembro de 1707. Nesse dia o lar do pastor de Epwoth foi surpreendido pelo nascimento do décimo oitavo filho do casal, nascido fora de tempo. A criança que parecia mais morta do que viva, não chorava nem abria os olhos. Foi necessário enfaixá-la em lã até vencer o prazo que faltava para completar o tempo em que devia ter nascido. Então começou a chorar e abrir os olhos. Foi assim que ele teve o seu advento ao mundo. Tinha em casa muitas irmãs e irmãos para o receberem, porém, melhor do que tudo, contava com os braços de uma carinhosa mãe para o amparar. Nasceu na época mais trabalhosa em toda a história do seu lar, pois logo depois de seu nascimento a casa pastoral incendiou-se e não foi possível reconstruí-la e mobiliá-la como era anteriormente. Ele, pois, aprendeu a passar com pouco; mas o que lhe faltara em confortos materiais foi compensado pela instrução de uma mãe piedosa e carinhosa. Sua mãe, desde o princípio da vida, começou a ensiná-lo, bem como a seus demais irmãos e irmãs, a terem horas certas para comer e dormir. Impunha-lhes o dever de serem bondosos para com as criadas e uns para com outros, e, acima de tudo o de obedecer. Muito cedo foram instruídos nas coisas religiosas e cada um por sua vez tinha de pedir a bênção nas refeições. Mesmo antes de poderem andar aprenderam a distinguir o domingo dos demais dias da semana. Sua vida escolar, quando tinha cinco anos de idade, começou sob a direção de sua mãe. Teve que aprender o alfabeto durante o primeiro dia de aulas. Estas começavam e fechavam-se com o cântico de um salmo. Os alunos eram estimulados a confessar suas faltas sob a promessa de que não seriam castigados. Desta maneira a mãe conseguiu remover muitas tentaçõ es de mentir, reconhecendo ela sempre qualquer sinal da parte dos filhos para lhe agradar. Foi sob essas condições que Carlos passou os primeiros três ou quatro anos de sua vida escolar. Nesse período, não somente aprendeu alguma coisa dos livros, mas, o que era ainda de maior importância, aprendeu a dominar-se, a refrear-se a si mesmo, a respeitar os outros e a obedecer a seus superiores. II – SUA EDUCAÇÃO Seu irmão mais velho, Samuel Wesley, que havia casado e morava em Londres, onde ocupava um cargo na Escola de Westminster, queria ajudar a seus pais na educação de seu irmão mais moço, Carlos Wesley. Com este fim levou Carlos para sua casa e o colocou na Escola de Westminster, uma das melhores escolas deste tipo na Inglaterra. Ali Samuel havia também estudado quando pequeno. Seu pai tinha razão quando dizia haver dado aos seus três filhos a melhor educação que se podia obter na Inglaterra, pois os mandara para as melhores escolas existentes naquela época. O menino Carlos, com nove anos, matriculou-se, em 1776, na Escola de Westminster e morava com seu irmão Samuel. Cinco anos passou estudando em Londres. Foi bom aluno e ganhou um prêmio oferecido pelo rei, isto é, o direito de continuar os seus estudos com todas as suas despesas pagas na Universidade d e Oxford. Além disso, foi eleito capitão dos graduandos no quarto ano de seus estudos. Mas, visto só ter treze anos de idade quando eleito, e ter direito a cinco anos de estudos na Universidade em vez de quatro, ele aproveitou os cinco anos e no quinto ano chegou ao lugar de chefe de sua turma, uma honra muito cobiçada pelos alunos naquela época.
  24. 24. Além das honras obtidas por seus estudos, não deixou de ganhar também algum louvor pelas lutas pugilísticas em que se empenhou com seus colegas. Era corajoso e não poucos foram os combates que teve durante a mocidade. No segundo ano de sua estadia na Escola de Westminster fez-se defensor de um aluno, Guilherme Murray, um escocês, que se tornou alvo dos motejos dos demais rapazes por causa do seu modo de falar, e por sua causa, muitas brigas Carlos Wesley teve que sustentar. Ganhou, porém, a amizade deste rapaz, amizade que se estendeu até o fim da vida. Muitos anos depois, Guilherme Murray veio a ser Juiz do Supremo Tribunal da Inglaterra e Conde de Mansfield e não se esqueceu do seu amigo Carlos Wesley. Muitas vezes, às tardes, visitava a família de Carlos Wesley, então pregador metodista em Londres. Durante seus estudos na escola de Westminster, um homem rico, chamado Garret Wesley, cavalheiro irlandês, escreveu ao R ev. Samuel Wesley pedindo informações a respeito de seu filho Carlos, pois queria adotá-lo como seu herdeiro se viesse a morar com ele na Irlanda. O Rev. Samuel Wesley deixou seu filho Carlos decidir a questão. Garret Wesley foi a Londres para ver a Carlos e conversar com ele sobre o assunto; Carlos, porém, não quis aceitar a proposta. O homem gostou tanto dele que não deixou de o ajudar em suas despesas na escola. Dois anos antes de Carlos completar seus estudos, Garret morreu deixando grande fortuna, que poderia ser de Carlos, se este houvesse aceitado a proposta. Mas, perguntamos, se o Sr. Carlos Wesley tivesse aceitado esta proposta, teria ele feito o que fez para o bem da humanidade? Só Deus o sabe. João Wesley, escrevendo sobre isso mais tarde, di sse que a fortuna que Carlos perdeu foi um bom prejuízo. Em 1726, Carlos Wesley foi promovido a aluno em “Christ Church”, na Universidade de Oxford. Nesta mesma Universidade seu irmão João, seu pai e seu avô tinham estudado. Também, nesse mesmo ano, seu irmão João foi eleito instrutor, no “Lincoln College”, em Oxford. Assim tinham o privilégio de estar juntos, em Oxford, como Carlos havia desfrutado a convivência de s eu irmão mais velho em Londres. Carlos Wesley tinha então dezenove anos de idade; gozava saúde e era dotado de muita vivacidade. Porém justamente nessa época se tornou mais indiferente para com as coisas religiosas. Seu irmão João notara isso e procurava despertar a atenção de Carlos para os seus deveres religiosos; porém, Carlos não apreciava muito o interesse manifestado por seu irmão neste sentido. Ele apreciava sua liberdade e gostava das diversões que a vida universitária lhe proporcionava. Realmente, perdeu os primeiros doze meses em diversões. Seu irmão João, referindo-se a esse fato diz: “Quando eu falava com ele sobre religião, respondia contrariado: “Qual! Quer que eu fique santo de vez?” E não queria ouvir mais. Logo depois que Carlos chegou a Oxford, seu irmão João teve de se retirar daquela cidade para ajudar ao seu pai em Wroote. Ficando assim, sozinho, separado de seus irmãos, descobriu que tinha que enfrentar os problemas de sua vida e resolvê-los por si mesmo. Por essa forma mudou seu modo de encarar a vida. Ele diz: “A situação levou-me a refletir seriamente. Comecei a assistir (participar) a comunhão, semanalmente, e persuadi a mais dois rapazes, estudantes, a irem estudar comigo o curso prescrito pelos estatutos da Universidade. Isso deu-me o nome de “Metodista”.” Agora almejava o auxilio de seu irmão que havia desprezado. Foi então que escreveu a João, pedindo conselhos. Até aqui, desde a meninice, tinham estado separados um do outro, mas de agora em diante, começaram aquela camaradagem que continuou até o fim da vida. Em uma das cartas que escreveu a João nessa época, ele disse: “Deus houve por bem privar-me de tua companhia para assim aumentar o meu fardo. Deus que pode me fortalecer há de me conservar firme até nós nos encontrarmos outra vez. E espero que nem antes, nem depois daquela hora, cairei de novo em estado de insensibilidade. Será pelo teu auxílio, creio eu, que Deus completará aquilo que já começou em mim; e a nenhuma outra
  25. 25. pessoa preferiria para conseguir esse fim, irmão, senão a ti. Sem dúvida é devido às orações de alguém (às de minha mãe, talvez) que tenho sido levado a pensar assim, pois eu não posso explicar como, nem quando, eu me acordei do estado de letargia em que eu me achava: somente sei que foi logo depois de tua retirada daqui”. A natureza de Carlos exigia a convivência de amigos. Era dotado de disposições para amizade e vida social. Logo depois de seu despertamento, manifestou vontade de ajudar a outros rapazes que tinham desejo de seguir a Cristo. Um colega seu, que morava perto do seu quarto, tinha pendor para a vida religiosa, mas tinha acanhamento dos seus colegas e lhe faltava coragem para comungar todas as semanas, porque seus colegas o ridicularizavam. Mas pela influência e coragem de Carlos Wesley venceu essa tentação, identificando-se com ele. Foi mais ou menos nessa época que João Wesley voltou para Oxford, conforme os desejos de Carlos. Este estava agora bem disposto para aproveitar qualquer auxílio que seu irmão lhe pudesse prestar. João Wesley voltou à Universidade, em novembro de 1729, ali encontrado um grupo de rapazes associados a seu irmão Carlos e que já haviam recebido também o apelido de “Metodistas”. Havia, então, só três jovens nesse grupo, porém o comportamento e o bom testemunho desses rapazes tinham atraído a atenção de todos os alunos de Oxford. Pouco tempo depois João Wesley foi escolhido para chefe do grupo e o número aumentou. Foi por influência de Carlos Wesley que George Whit efield chegou a identificar-se com o grupo. Carlos Wesley completou seus estudos na Universidade, sendo nomeado instrutor da mesma, à semelhança do seu irmão. Sua vida acadêmica terminou ao mesmo tempo que a do seu irmão João. Seu pai faleceu em 1735, e os dois irmãos se achavam juntos de seu pai nessa ocasião. Depois de ter ensinado e estudado na Universidade por alguns anos, resolveram deixar a vida acadêmica e dedicar-se a outras ocupações. III – O TRABALHO NA AMÉRICA. Dentro de seis meses, depois da morte de seu pai, Carlos Wesley achava -se embarcando no navio “Simmonds” para a América. O destino do navio era Savannah, Geórgia, colônia fundada pelo general Oglethorpe, em 1732. O fim dessa colônia era aliviar a aflição dos pobres endividados e encarcerados na Inglaterra. O governo inglês tinha cedido uma zona na América, para fundar tal colônia. O general Oglethorpe estava procurando meios e homens com os quais pudesse estabelecer esse novo lar para essas pessoas infortunadas. Ele precisava de um capelão e de um secretário. Como João, irmão de Carlos, houvesse aceitado o lugar de capelão, este resolveu aceitar o cargo de secretário. Mas, antes de embarcar, a questão da sua ordenação se levantou. Ele hesitava em aceitar a ordenação, mas um professor do “Corpus Christ College”, também um dos depositários da nova colônia, insistia que ele se ordenasse. O Dr. Potter, bispo de Oxford, o ordenou diácono; e o Dr. Gibson, de Londres, o ordenou presbítero, no domingo seguinte. Os irmãos Wesley aceitaram esse trabalho, não porque não tivessem o que fazer na Inglaterra, mas porque era missão difícil e exigia abnegação. Além do seu irmão João, tinha consigo mais dois colegas da Universidade, os Srs. Benjamin Ingham e Carlos Delamote. Embarcaram no dia 14 de outubro de 1735, no porto que se chama Gravesend. Organizaram um horário, que observaram rigidamente durante a viagem pelo mar. Carlos Wesley dedicava-se a escrever sermões, enquanto o seu irmão João estudava a língua alemã. Ele ficou
  26. 26. bem impressionado com o comportamento dos moravianos, imigrantes alemães, que iam para a Geórgia. Logo que chegaram, Carlos foi para Frederica onde entrou no seu trabalho com ardor e entusiasmo. Mas não foi tão bem sucedido como imaginava. Seu zelo e os sermões que pregava não eram o que os colon os precisavam. Estes não se queriam submeter a regulamentos tão severos, e, por isso, começaram por criticá-lo e levantaram calúnias contra ele, dando isso em resultado que o general Oglethorpe chegou a desconfiar dele. Podemos imaginar os apuros pelos quais passou este homem acostumado às comodidades de uma universidade, lançando agora uma floresta de mata virgem, onde tinha que dormir no chão e passar fome! A desconfiança do general Oglethorpe chegou ao ponto de levá-lo a não querer ceder coisa alguma para ele. Enquanto permanecia este estado de coisas, Carlos Wesley caiu doente de febre e fluxo. Se um casal pobre não o tivesse socorrido nessa ocasião, teria morrido. Diz ele: “O Sr. Davison, o meu bom samaritano, me visitava freqüentemente ou mandava a sua esposa para me servir. A seus cuidados, e à proteção de Deus devo a minha vida”. Foi durante essa época que seu irmão João foi visitá-lo e conseguiu novamente reconciliar o general Oglethorpe com ele. Tudo se modificou logo. Todas as suas necessidades físicas foram supridas e o general mostrou mais confiança nele. Mas Carlos Wesley não era o homem para tal trabalho. Não gostava do serviço que tinha que fazer. Diz ele: “Estava completamente exausto de escrever cartas para Oglethorpe. Não passaria mais seis dias desta maneira nem a trôco de toda a colônia de Geórgia”. Além das cartas que tinha que escrever, havia outros document os que tinha de elaborar. Raras vezes conseguia terminar seu trabalho antes de meia-noite. Ele pediu sua demissão do cargo de secretário. Foi concedida, sendo ele incumbido de levar alguns despachos para Londres. A viagem para a Inglaterra foi péssima. Só por milagre escapou com vida dos perigos que correra. Havia chegado à América no dia 6 de fevereiro de 1736, tendo embarcado para a Inglaterra no dia 26 de outubro do mesmo ano. Tinha que ir a Charleston para embarcar. O seu irmão foi com ele até lá, a li passando cinco dias em sua companhia, até seu embarque. Ele ficou horrorizado com a escravidão nas colônias americanas. Embarcou em Charleston no dia 11 de agosto para Boston. O capitão do navio, em ébrio, libertino e blasfemador, cedeu a “cabina” de Carlos Wesley a outrem e Carlos teve que dormir sobre uma cômoda. Por seis semanas Carlos teve de aturar a malvadez desse homem embrutecido pelos múltiplos vícios. Diversas vezes a vida de todos a bordo correu perigo de naufrágio, pela estupidez desse capitão embriagado. Sem dúvida foi repreendido por Carlos Wesley, porém a única recompensa que este tirou do seu cuidado foi ser acusado de ”ébrio, louco, demônio, jesuíta e diabo”, pelo capitão. Porém Carlos deu-lhe como única resposta o silêncio, aparentando ignorar o que ele dizia e conversando em latim com um outro passageiro de bordo. Foi bem recebido e tratado em Boston, porém a moléstia que apanhou em Fredereica voltou com muita força e quase o matou. Porém melhorou ainda a tempo de embarcar para a Inglaterra no dia 26 de outubro. A viagem para a Inglaterra foi também péssima. O navio enchia-se d’água constantemente e os doze marinheiros tinham que fazer funcionar constantemente uma bomba para aliviar o navio da água que entrava. Além disso o tempo era tempestuoso e diversas vezes o navio correu perigo de ir a pique. Foi um dia de alegria e de gratidão o de seu desembarque em Deal, a 2 de dezembro de 1736. Em poucos dias chegou a Londres, onde entregou os despachos às autoridades competentes.
  27. 27. IV – SUA CONVERSÃO. Uma vez em Londres, encontrou muitos dos seus antigos amigos, que lhe ofereceram suas casas e hospedagem. Também foi alvo de muitas atenções devido às relações que mantinha com o general Oglethorpe e a colônia americana. Dois dos depositários desta colônia ofereceram-lhe hospedagem gratuitamente em suas casa. Além dessas atenções teve a honra de fazer um discurso perante o rei e foi convidado a participar de um banquete oferecido pelo mesmo rei. Todos os que tinham interesse na colônia da Geórgia dispensavam-lhe cortesias. Ele tinha desejo e intenção de voltar para a América, porém não mais para exercer o cargo de secretário do general Oglethorpe, mas como missionário aos colonos e aos índios. O primeiro ano depois de sua volta da América foi gast o em visitas a amigos, e parentes em Londres, Oxford e outros lugares em redor. O Conde Zinzendorf, chefe dos Moravianos, vindo a Londres consultar os oficiais a respeito dos colonos moravianos de Geórgia, tendo notícia do regresso de Carlos Wesley, convidou-o a visitá -lo. Aceito o convite, por intermédio de Carlos, o conde conseguiu tudo quanto queria. Assim Carlos renovou o seu contato com esta gente piedosa. Aceitou um convite para assistir a uma reunião deles em Londres. Referindo-se a essa reunião Carlos disse: “Parecia-me estar no meio de um coro de anjos”. O Conde Zinzendorf convidou-o a acompanhá-lo à Alemanha e Carlos desejava atendê-lo, porém as circunstâncias não lho permitiram. Sempre se referia religiosamente aos seus amigos moravianos. Visitando seus parentes, alguns mostraram pouco caso em referência a seu trabalho e ao de seu irmão João na América, especialmente, seu tio Matheus, um médico que, antes da ida de seus sobrinhos à América, havia insultado o general Oglethorpe. Motejando-os, o Sr. Matheus disse: “Os franceses, quando têm qualquer homem notável por sua estupidez, mandam-no converter os índios”. A essa caçoada Carlos Wesley replicou, repetindo as seguintes linhas escritas por seu irmão: “To distant realms the apostles need not roam, Darkness, alas; and heathers are at home”. (“Aos reinos distantes os apóstolos não precisam ir, Pois, trevas e pagãos estão em casa a rir”. ) A isso ele não respondeu e nada mais disse sobre o apostolado do irmão de Carlos. Durante o tempo que passou em visita a seus amigos e parentes não deixou de pregar e dedicar-se a trabalhos religiosos. Em sua visita a Oxford identificou-se com o “Clube Santo”, ocupando-se em visitar e ministrar aos presos. Os membros do “Clube Santo ”, os “Metodistas”, sentiram-se animados ouvindo a leitura do Diário de João Wesley. Mas era evidente que Carlos Wesley não estava satisfeito com a sua própria experiência cristã; faltava-lhe alguma coisa. A leitura dos livros escritos pelo Sr. Law não satisfazia o seu coração. Um dia ele procurou o Sr. Law para conversar sobre o assunto e o resultado da conversa se resumiu no conselho seguinte: “Renuncie-se a si mesmo, e seja paciente”. Na visita seguinte, o Sr. Law confessou que não podia acrescentar qualquer outra coisa; já tinha feito tudo que podia para orientá-lo. Carlos Wesley, mais tarde, em sua velhice, refletindo sobre essa época de sua vida, disse: “O Sr. Law foi o nosso João Batista”. Se o Sr. Law tivesse continuado a ser o mestre dos irmãos Wesley, a grande revivificação evangelística não teria sido provocada por João e Carlos Wesley. Eles precisavam de uma experiência mais clara e positiva.
  28. 28. Carlos Wesley não era, nessa época, verdadeiramente convertido, porém buscava sinceramente mais luz e orientação espiritual. George Whitefield tinha voltado da América e eletrizava o povo com sua eloqüência e ardor. Carlos Wesley ouvia suas pregações e convidava seus amigos para também as ouvirem. Carlos já estava pronto a embarcar de novo para a América, porém diversas coisas concorreram para impedi-lo. Seu irmão João tinha chegado da América trazendo notícias do triste estado em que se achava a colônia de Geórgia. Isso, em de vez de desanimá-lo, provocou ainda mais seu entusiasmo para ir. Consultando a sua mãe sobre isso, ela não concordou em repetir o que tinha dito ao filho da primeira vez: “Se tivesse vinte filhos, gostaria de vê-los assim empregados, ainda que não pudesse eu mais vê-los”. Ela mudou sua atitude, não porque tivesse menos interesse pelo trabalho missionário, mas porque julgava que seu filho não se adaptava a esta qualidade de trabalho e que Deus tinha serviço para ele na Inglaterra. Foi nessa ocasião que ele caiu muito doente, atacado pela doença que adquirira na América. Quando melhorou e entrou em convalescença, o médico disse-lhe que a enfermidade lhe seria fatal se voltasse outra vez para a América. Só assim foi que, finalmente, abandonou a esperança de voltar para a América. Deus tinha outro plano para ele. Poucos dias antes de cair doente em Oxford, foi apresentado a Pedro Bôhler, o moraviano. Durante sua longa doença Pedro Bôhler o visitou um dia. Carlos Wesley pediu que o moraviano orasse por ele. Bôhler fez uma oração muito tocante e em seguida, tomando Carlos pela mão, disse: “O irmão não morrerá desta vez”. (Estas palavras foram notáveis, pois Carlos julgava que não podia suportar mais um dia a dor que sentia). “O irmão tem esperança de ser salvo?” “Sim”, respondeu Carlos. Quando Bôhler quis saber qual era a base de sua esperança, Carlos disse: “Porque tenho me esforçado para servir a Deus”. Bôhler meneou a cabeça, mas não disse nada. Carlos julgou muito cruel ser roubado de sua confiança e perguntou a si mesmo: “Não são os meus esforços suficientes para garantir a minha esperança?” Esta pergunta revelou a grande distância que tinha que caminhar antes de alcançar a salvação mediante a fé. Carlos Wesley melhorou e foi para Londres, onde encontrou de novo Pedro Bôhler. Ali teve outro ataque de seu incômodo. Estava hospedado em casa do Sr. Hutton. Durante sua doença foi visitado outra vez pelo Sr. Bôhler. Sobre essa visita Carlos disse: “De manhã o médico, Dr. Cockburn, me visitou; e também um outro médico, ainda melhor, Pedro Bôhler, aquele que Deus retivera na Inglaterra para meu próprio benefício’. Na ocasião desta visita Bôhler orou para que Carlos viesse a compreender qual era a vontade de Deus para com ele nas suas aflições. Assim Carlos compreendeu que tudo isso estava acontecendo para levá-lo a examinar-se a si mesmo, para que não confiasse em si, mas em Cr isto, pela fé. Por três semanas buscou a salvação com toda a sua alma. A dificuldade para Carlos, como aconteceu a seu irmão João, era crer que alguém se pudesse converter instantaneamente. Na véspera de sua partida de Londres, Bôhler visitou Carlos Wesley e teve satisfação em ouvi-lo confessar que estava convicto de incredulidade e que não tinha o espírito de perdoar, mas que esperava, antes de morrer, alcançar a salvação na morte e paixão de Cristo. Sem dúvida foi isso que levou João Wesley a escrever: “Foi o beneplácito de Deus para abrir os olhos dele (Carlos), de modo que enxergasse mais claramente a natureza daquela fé verdadeira e viva, pela qual, mediante a graça, somos salvos”. Ele comungou e, sentindo-se um pouco confortado, concluiu que os morav ianos não tinham razão em afirmar que um homem não pode ter a paz enquanto não tiver a segurança do perdão; mas descobriu pela experiência que nisso estava errado. Uma vez desenganado de que não podia ter a paz na alma enquanto faltasse a fé, começou a buscá-la de todo coração e falava com outros sobre o assunto.
  29. 29. Foi neste estado de espírito que resolveu ir à casa de Hutton; porém nessa ocasião recebeu a visita de Bray, um mecânico pobre e ignorante, mas crente fervoroso. Este homem não conhecia a ciência, mas conhecia a Cristo. Ele orou com Carlos Wesley, e tão tocante foi o culto que tiveram juntos, que Carlos resolveu ir passar algum tempo em casa deste irmão pobre até que alcançasse a fé salvadora. Estava, porém, tão fraco que teve de ser levado à casa deste irmão numa cadeira. Durante os dez dias que passou em casa deste homem simples que lhe servia de guia espiritual foi visitado por amigos e por seu irmão João. Todos oraram por ele. Rodeado de tantos amigos que se interessavam por seu bem estar ficou impressionado. Seu hospedeiro, o Sr. Bray, trabalhou muito com ele, mas às vezes chegava a ficar desanimado. Um dia, quando já havia feito tudo quanto podia lembrar, Bray disse-lhe que, em tais ocasiões, tinha tirado muito proveito lendo a Bíblia. Abriu então o Novo Testamento, no Capítulo nono do Evangelho de Mateus, e leu. Quando lia, Carlos Wesley, escutando a descrição da cura do paralítico, cobrou ânimo e creu que a fé que seu hospedeiro tinha seria poderosa também para sua própria salvação. No dia seguinte ele se converteu. Era o dia de Pentecostes. Às nove horas da manhã o seu irmão João e alguns amigos o visitaram e juntos oraram e cantaram um hino ao Espírito Santo. Ali se demoraram meia hora. Carlos Wesley entregou-se à oração pedindo o c umprimento da promessa do dom do espírito Santo. Sentindo-se fraco no corpo, desejou dormir e quando estava se acomodando para dormir ouviu uma voz que dizia: “Em nome de Jesus de Nazareth, levanta-te e crê, e serás curado das tuas enfermidades”. Estas palavras fizeram grande impressão sobre ele. “Oh! Se Cristo me falasse assim...”, suspirou ele. Aquelas palavras foram preferidas por uma senhora que havia alcançado a salvação pela fé. Ele confiou em Cristo e somente nele e logo alcançou paz para sua alma. Poucas horas depois as boas notícias chegaram aos ouvidos do seu irmão João que escreveu: “Eu recebi a notícia que meu irmão alcançara paz para sua alma. A força física voltou a seu corpo desde àquela hora. Quem é semelhante a nosso Deus?” Este dia, o dia 21 de Maio de 1738, foi um dia memorável na vida de Carlos Wesley. Foi o começo de uma nova época em sua vida. Em pouco tempo estava com sua saúde restaurada e trabalhando entre os seus amigos, pregando as boas novas de salvação. Visitava muitas famílias e sempre onde quer que fosse era uma benção para o povo. Tinha dom especial de fazer visitas. Logo depois se uniu por algum tempo a George Whitefield e tornou -se pregador ao ar livre. Mais tarde aceitou o cargo pastor de uma igreja em Islington. V – SUA ATIVIDADE COMO ITINERANTE Sua posição como pastor da Igreja de Islington tornava-se cada vez mais difícil. Os oficiais da Igreja não estavam contentes com ele e com suas pregações. Um dia, quando ia subir ao púlpito para pregar, dois homens, mandados pelos oficiais da Igreja, impediram-no de pregar obstando-lhe o caminho. Carlos Wesley, não querendo provocar uma cena na igreja, cedeu o lugar a outro pregador. Alguns dias depois, quando Whitefield ia ocupar o mesmo púlpito, ele foi impedido ao acompanhá-lo, pois quatro homens estacionados nas escadas do púlpito lhe toleram a subida. Whitefield, lembrando -se da escritura que diz: “O servo do Senhor não deve brigar”, retirouse da Igreja e, entrando no cemitério, ali pregou ao povo que o seguira, deixando os quatro homens guardando o púlpito com a casa vazia. Está claro que Carlos Wesley não podia continuar como pastor por muito mais tempo em tais condições. Demitindo-se deste cargo entrou para o trabalho de itinerante, pregando onde podia encontrar povo.

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