Três teses em torno do PT das Origens

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Três teses em torno do PT das Origens

  1. 1. PT - 30 anos DOSSIÊ Três teses em torno do PT das origensGilson Dantas 26); na verdade este tipo de abordagem encobre o balanço necessário sobre a luta que já era necessário travar desde Introdução os primeiros momentos do PT das origens. Para não ficar A importância atual da discussão deste artigo – com a impressão que a degeneração do PT das origens emfoco no PT das origens - tem fundamentalmente a ver partido do agronegócio e da grande banca (PT atual) caiucom lições do passado para o presente e o futuro. Não do céu.tem a ver com denunciar que o PT tinha problemas “desde E também porque esse tipo de abordagem deixao início” (condição inevitável em um partido surgido de fora as determinações sociais e a dinâmica deem condições reais); um dos objetivos destas teses é classe encarnada nas direções políticas do movimentoo de chamar a atenção para o debate sobre o tema da e que ia abortando o potencial original do partido paraestratégia das correntes revolucionárias do proletariado conformar-se de forma classista. E escorrega-se paraem situações semelhantes (pré-revolucionárias), ou mais uma posição normativa, abstrata, como faz o próprioque isso, nas contingências que tendem a se recolocar em Petras ao concluir, depois daquelas observações acima,nosso país, da construção de um partido de massas, da que o que falta na América Latina é canalizar os protestosclasse operária, na perspectiva da revolução socialista. sociais setoriais para uma “estratégia de construção de Que lições tirar? Que estratégia seria a mais um partido político como o objetivo de tomar o poder deadequada para a esquerda revolucionária naquela Estado” (2004, 24).oportunidade, em certa medida perdida, como parte da Estas teses não pretendem abarcar os temasluta contra a ditadura e por mudanças sociais de fundo? fundamentais de importância estratégica quando se trataComo não perder a próxima oportunidade? Sem um de avaliar o partido de trabalhadores mais importante queapurado exame do passado não se constrói o futuro da já surgiu na América Latina. Apenas levantam o debate.revolução proletária. Esta é a questão-chave que inspirou Seu papel, reiteramos, é promover ou chamar à discussão,este artigo de balanço PT-30 anos, ele mesmo por sua vez, infelizmente pouco realizada pela esquerda, acadêmica ouinspirado amplamente nas teses defendidas no livro A não, em torno de que lições tirar dessa experiência paraclasse operária na luta contra a ditadura assim como na o próximo ascenso da classe operária, para a necessáriaentrevista com o militante operário Val Lisboa (detalhes construção de um partido autenticamente operário nona Bibliografia ao final). país. É absolutamente superficial limitar-se - a exemplo É um dado histórico que as lutas dos trabalhadores quede vários autores e como faz concretamente Petras -, à se generalizavam no campo e na cidade e foram abortadasafirmação de que “desde a sua fundação, até o final dos pelo golpe de 64 (e, em seguida, com o aprofundamentoanos oitenta, o PT tinha vida interna vibrante, aberta da ditadura em 968), não vinham marcadas por umae descontraída” e que a “liderança era coletiva”, que tradição de independência de classe. O PCB, stalinista,“o Partido avançava” (ia no caminho correto etc) ou que detinha mais peso em setores decisivos da classeargumentos afins, para concluir que em algum ponto da trabalhadora não primava por organizar a independênciacurva ele degenerou; no caso do argumento de Petras, política da classe diante da burguesia; fazia exatamentereferindo-se à evolução do PT ele argumenta que antes o oposto: subordinava as lutas operárias à burguesiado final dos oitenta, aconteceu que a “ala eleitoral social- democrática.democrata do Partido tornou-se mais influente” (2004, Em outras palavras, a direção operária então dominante, adaptou-se a Jango até o fim e, desfechada Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, a ditadura, desgastou-se, chegando ao final dos anos 70escreveu Estados Unidos: militarismo e economia da destruição, com enorme desprestígio. Até o momento do surgimentoAchiamé, Rio de Janeiro, 2007 e organizou O capital de Karl Marx:resumo (Engels, Lenin, Trotski), Ícone, Brasília, 2008. do PT a tradição era de que as direções operárias de
  2. 2. Contra a Corrente mais peso praticavam amálgamas de colaboração dos trabalhadores. A imensa combatividade da época foide classe. Deixavam-se levar pela política burguesa, sendo paulatinamente canalizada para o beco sem saídatravavam acordos anti-operários pelo alto, traíam greves da transição democrática burguesa pela cúpula. E elecombativas, em vez de se ocuparem de desenvolver próprio conformou-se como um partido cada vez maisa hegemonia do movimento operário, com programa de colaboração de classes, cada vez mais aburguesadopróprio e em liderança frente aos demais movimentos e finalmente como baluarte do grande capital em suapopulares, do campo e cidade. ofensiva neoliberal. O PT era a grande oportunidade que surgia,no pós-ditadura, para quebrar com aquela tradição. Tese - O PT das origens: os trabalhadores jamaisLamentavelmente não chegou a ir tão longe. controlaram o partido que eles estavam criando Este partido, que surgiu assentado nas lutas fabris O PT das origens não eclodiu e nem se estruturoue dos trabalhadores do urbanos e também do campo, sob controle dos trabalhadores combativos. A relaçãonão seguiu a tendência mais lógica e necessária (este é o do PT com a classe operária não era o que parecia ser.núcleo das teses abaixo) de construir-se, organicamente Os setores que inicialmente propuseram o PT (em Lins),e ativamente apoiado nestas mesmas massas organizadas amplos setores das oposições anti-pelegas, das comissõese buscando a política independente de qualquer variante internas, de sindicatos combativos de vários pontos doburguesa; o PT muito prontamente, em que pese a país, não tiveram peso determinante em sua direção, emcombatividade de suas bases, tendia a alinhar-se e aliar- seu interior. Os chamados núcleos do PT não surgiramse com a ala esquerda democrática da burguesia. Crítico com esse projeto de um partido onde os trabalhadoresdo stalinismo, terminou não indo muito além, frente ao em luta, os setores mais combativos, tivessem pesoproletariado, de uma versão moderna da política daquela orgânico em sua direção ou que controlassem o partido.do velho PCB stalinista. Este projeto sequer foi discutido, seja como proposta da As massas em luta, naquele momento – fim dos anos esquerda seja, obviamente, a partir da direção “autêntica”,970 – por meio de suas greves e ações democráticas de que trabalhava em sentido contrário.rua, por meio de enfrentamentos com a polícia, tendiam A ironia é que o PT só surgia por influxo das lutasa romper com os limites políticos que a burguesia traçava operárias, sobretudo do ABC, por isso mesmo saltavapelo alto, no seu projeto de pacto de negociação de classe. aos olhos o peso inicial das direções do sindicalismoA política de Lula e seus aliados “autênticos” era, no “autêntico” (e não, o peso intelectual-parlamentarentanto, a de canalizar o ascenso para os marcos daquela como no caso da origem do PSOL), mas por outronegociação. A operação historiográfica de mostrar o lado, nasce com uma direção reformista que não apenaslulismo das origens como anticapitalista ou classista não o concebia como um partido estratégico da classe– como querem alguns - exige ter que reescrever ou trabalhadora, mas estava inclinada a tornar o PT umadeixar de mencionar fatos históricos de época e também peça da transição negociada da ditadura, um partido parao potencial de luta da classe operária e dos movimentos eleições, embora tensionado por outras forças.e compopulares ali presentes e que foi canalizado para becos potencial para converter-se em ponte para um partidosem saída. revolucionário da classe operária e dos pobres do campo O PT surge no mesmo processo em que Lula e seus e da cidade.amigos sindicalistas se opõem como podem às comissões Corporativo e de forte viés sindicalista desde suade fábrica e às oposições sindicais anti-pelegas e, portanto, conformação, sob a liderança dos sindicalistas chamadosna prática – apesar de sua incensada combatividade “autênticos”, o PT se opunha a reforçar os organismos de– termina preservando uma estrutura sindical vertical, base da classe operária em luta, resistia à representação porenvelhecida, de perfil corporativo. A posse de Lula ao seu local de trabalho, resistia ao surgimento das comissões desegundo mandato, em pleno ano das greves de 978, se dá fábrica. Paradoxalmente, ele surge simultaneamente a umcom a presença destacada de generais e do presidente do processo amplo de formação de comissões de fábrica (epartido da ditadura (Arena), em total respeito, portanto, à de oposições sindicais metalúrgicas, caso São Paulo) quevelha estrutura sindical que o Lula “combativo” parecia começara antes do PT e ao qual Lula e seus pares resistiuenfrentar, mas que, nos fatos, não queria afrontar. Apesar quanto pôde; seu grupo não pretendia perder o controle dode toda a esperança nele encarnada, o PT carrega essa movimento, a partir da direção do prestigiado sindicadodigital e nasce no momento de começo do declínio das metalúrgico de S.Bernardo. Esta mesma direção tratavagreves. também de desviar a luta contra a ditadura (o Abaixo a Em síntese, e já desenvolvendo as teses deste ditadura de então) para uma negociação com setores daartigo: o O PT surgiu como um movimento amplo, de ditadura em busca de uma transição na qual o movimentobase operária, de diferentes alas, onde era necessário operário não interviesse como sujeito independente.atuar, mas não surge e nem se desenvolve – nas origens As lutas contra a ditadura se generalizavam –e muito menos depois – como um partido estratégico esse foi o caldo de cultura que deu origem ao PT - no
  3. 3. Três teses sobre o PT das origens entanto a liderança do PT em formação não focava nem Um partido autenticamente operário tenderia aa aglutinação de uma frente única de massas para levar se construir rompendo com essa cultura que o PT, emessa luta adiante, muito menos a tarefa da preparação da vez disso, consolidou, na esfera partido/sindicatos.greve geral. Não se cogitava chamar a um organismo Os trabalhadores jamais controlaram o partido quedemocrático de massas, baseado em delegados eleitos na eles estavam criando. O PT nasceu de uma propostabase, em ofensiva nacional contra a ditadura, organizando do movimento sindical (sindicato dos metalúrgicos dea auto-defesa de classe, com representantes de fábrica, S.André), mas este influxo não tomou forma democráticade escola, de bairro, dos comitês contra a carestia, dos na direção do PT, desde o início centralizado nas mãoscamponeses pobres em luta. da direção dos sindicalistas “autênticos” e de Lula. O Sem esse instrumento, os sindicalistas “autênticos” papel cupulista dos “autênticos” foi esse: separar as duasdo ABC, mais a Igreja, setores pequeno-burgueses frentes de luta. Ao mesmo tempo subordinar as lutasdemocráticos terminavam por fazer prevalecer uma operárias à política de “transição pactuada”, negociadapolítica corporativa, colaboracionista travestida de com setores militares e da Arena e do MDB. Anistia livre,combativa, que desviava e travava o potencial do geral e irrestrita – que poupa os torturadores – não é umamovimento operário e de massas, e que não permitia proposta da classe trabalhadora, cujos líderes vinhamdesenvolver a plena espontaneidade das lutas das sendo assassinados e torturados sistematicamente pelamassas. ditadura militar. Mas esta era a proposta da burguesia, O fato histórico foi que, ao separar a vanguarda da aceita pelos generais: anistiar ao torturadores e seusprópria classe nos marcos do partido, a direção fundadora cúmplices, civis e militares.do PT ficou de mãos livres para levar adiante uma políticafuncional para a burguesia democrática e militares, a 2 - O PT das origens: a oportunidade estratégicatransição pactuada. e programática perdida pela esquerda marxista da Desde o início, o petismo reinventou uma cultura de época (o embate de duas estratégias).esquerda que entende partido separado de sindicato no pior O PT surgiu de forma confusa, caótica, esentido dessa equação: o partido faz política, sobretudo usualmente é o que acontece. A questão central, aqui, é aparlamentar, e os sindicatos travam uma relação com de como utilizar situações assim a favor da organizaçãoa patronal e desenvolvem suas lutas preferencialmente revolucionária dos trabalhadores? O PT não estavaafastadas da luta política. O partido não se faz ativamente consolidado como partido reformista e nas origens, aopresente nas lutas da classe defendendo um programa contrário, abria campo para a intervenção da esquerda,que eleve politicamente a classe, que a unifique e aos do trotskismo por exemplo. Como intervir naqueleexplorados como um conjunto, assumindo, a partir da processo? Esta questão foi mal resolvida pela esquerda.classe organizada nos sindicatos combativos e em todo A estratégia de desenvolver, sobretudo na classe operária,tipo de órgão democrático da classe trabalhadora, a organismos de massas em luta, expressamente baseadosdefesa do conjunto das massas pobres do campo e da na democracia de base, generalizar tais organismos,cidade. Não levanta, na luta cotidiana, bandeiras como coordená-los, generalizá-los na luta contra a ditadura, pora do fim do desemprego através da redistribuição das melhores condições de vida para as massas, por medidashoras de trabalho entre todos e sem redução do salário, da econômicas de transição como estratégia e tática deexpropriação de toda empresa que demita trabalhadores formação do partido revolucionário não foi a marca dae seu controle pelos próprios trabalhadores e assim por esquerda que incluiu-se no PT de então. Pelo contrário,diante. seguiu o caminho mais fácil de adaptação (mais crítica ou Esta separação partido/sindicatos rompe com uma menos crítica) à direção lulista, à estratégia conciliadoraimportante tradição marxista que vem desde Marx, levada adiante por esta.Lenine e, por outro lado, facilita o trabalho da burocracia Sem romper ainda com a direção lulistapartidária que, ao “cuidar da política” troca a esfera de luta colaboracionista, se fazia necessário, entretanto,da classe operária, do chão de fábrica, das lutas sindicais desenvolver uma fração de massas no PT em formaçãopela esfera parlamentar, de conciliação de classes; nem com base em outra estratégia que não era a de Lula epolitiza a luta dos trabalhadores contra sua patronal, nem seu grupo. Travava-se (inconscientemente e em grandeconforma um efetivo partido dos trabalhadores, onde medida para a esquerda) de uma batalha de estratégias.estes possam ter controle sobre estratégia e programa. A da direção burocrático-corporativa prevaleceu e, Essa foi a via seguida pelo PT2. dessa forma, perdeu-se a chance de construção de uma2 Não é preciso acrescentar que esta vem sendo a trilha cultura petista que separa luta política da sindical, fabril; além disso,do PSOL que sequer possui a relação orgânica com um importante o PSOL já nasce com um programa adaptado ao eleitoralismo e àsetor da classe como o PT das origens. Não é um problema burguesia democrática (adotando, por exemplo, medidas como oinsanável que um partido surja a partir de um grupo de intelectuais Supersimples, de precarizacao do trabalho, de adaptação à burguesiae/ou parlamentares, mas é um problema insanável o de reiterar a não-oligopolista).
  4. 4. Contra a Corrente ala esquerda com peso de massa e que romperia com o Estava na ordem do dia uma estratégia contrária à daPT mais adiante, servindo como referência da estratégia emergente direção do PT que subordinava cada comissãocorreta, da lição viva e do formato necessário para tornar- de fábrica ao aparato do sindicato e que não tendia àse, quando viesse a ocasião, um partido operário de formação de um comando de greve anti-pelego (quemassas e revolucionário em superação dos descaminhos unificasse sindicatos combativos, comissões de fábrica,do PT. as oposições sindicais e delegados de base). Estava aberta O desarme e o despreparo da esquerda daquele a perspectiva da greve geral contra a ditadura, bandeiramomento, dos setores trotskistas, tinha tudo a ver com que jamais foi levada adiante pelos “autênticos”, cujasua evolução anterior, desde o pós-Guerra, habituadas tendência era a de despolitizar a luta nessa direção,que estavam à adaptação ao nacionalismo, às direções como o fizeram. O problema é que a esquerda e seusguerrilheiristas, quase que sempre a reboque de tudo que lideres sindicais e figuras públicas não defendiam estativesse peso de massa e que parecesse revolucionário perspectiva; tampouco a politização e a democratização(peronismo, brizolismo, stalinismo reciclado, pela base que era necessária e que teria permitidoalfonsinismo, castrismo, Miterrand, montoneros e assim formar uma fração, dentro do PT inicialmente, que seriapor diante): o fato é que de inúmeras formas o próprio a chave para toda a etapa e estratégia revolucionáriatrotskismo – para não falarmos de outra esquerda – vinha posterior e para educar um novo movimento frente aoadotando o mau hábito de adaptação a direções de massa desenvolvimento burocrático/eleitoralista do PT.de qualquer perfil ´socialista´, nacionalista, pequeno- A esquerda da época dava toda importância àburguês de esquerda, vinha adaptando-se a atalhos direção dos “autênticos”, aos sindicatos oficiais ecentristas. praticamente nenhuma à organização anti-pelega pela De forma que a adaptação aos sindicalistas base, a partir das lutas mais radicalizadas. O resultado“autênticos” e à sua estratégia conciliadora foi um passo desta “opção” estratégica não tardou a desenvolver-se: asquase natural, estava de acordo com a trajetória daquela lutas operárias e populares foram se colocando a reboqueesquerda. Faltou a dialética presente no Programa de da pauta da burguesia democrática enquanto Lula eTransição, de Trotski, de intervir no PT sem embelezar seus companheiros eram vistos por praticamente toda ae sem adaptar-se à sua direção corporativa, procurando esquerda, apenas como líderes sindicais “combativos”.construir uma frente de massas com nítido caráter classista Líderes, no entanto cada vez mais adaptados à auto-– e não o “partido amplo”, policlassista como tendia a reforma do regime, que procuravam manter a greve naconformar-se o PT - , como parte da luta revolucionária esfera reivindicativa, corporativa.contra a ditadura, do exercício político e democrático A esquerda petista continuava falando em vitórias,apoiado nas alas mais radicais de massas, e da estratégia “acúmulo de forças” e não se denunciava, por exemplo, ade um poder dos trabalhadores. Não cabia assumir o traição de Lula à greve de 980 e sua crescente adaptaçãopapel estratégico de ser parte de esquerda da transição à transição pactuada com a ditadura. Havia ambiente parapactuada com a ditadura militar, seguindo rotineiramente isso, havia críticas na base4 à condução do movimentoa inércia das lutas e acordos eleitorais/sindicais. pela liderança de S.Bernardo, mas o que não havia era uma O PT das origens evidentemente já adotava um rumo alternativa pela esquerda para desenvolver uma correntebasicamente reformista (ou caoticamente reformista) e com a estratégia correta e para além do mito Lula que foicolaboracionista mas o fato mais importante é que, ao sendo construído pela história oficial petista.mesmo tempo, expressava uma ofensiva de massas e Era imperioso intervir no PT, organizá-lo, legalizá-lo,proletária que aspirava e buscava afirmar independência afirmá-lo. Mas era igualmente necessário não confundirpolítica frente à burguesia, frente ao regime. Esta era aquela agrupação partidária com independência políticauma força real que integrava o PT, era uma tendênciaem estado nascente, em desenvolvimento e, diante dela, núcleos na área de funcionários da saúde e também em bairrodiante da direção mais conciliadora do Lula, cabia ir operário; e em nenhum dos dois casos houve qualquer orientação nem da direção petista e tampouco da corrente política à qual pertencia noconstruindo uma corrente que afirmasse a estratégia sentido de organizar o núcleo com base em programa de luta da classenecessária. Que afirmasse um partido operário classista, trabalhadora, em princípios, muito menos com base na organizaçãoprocesso que, naturalmente, tenderia a chocar-se com a democrática por local de trabalho. Eram núcleos quaisquer, amorfos,política corporativa e sindicalista dos “autênticos”. para um partido amorfo ou qualquer, e uma corrente política em total seguidismo com o que vinha da direção dos “autênticos”, Maciel argumenta corretamente que em 982 os estes embelezados como direção operária de um partido operário...núcleos de base do PT se convertem em comitês eleitorais. Não estava em questão qualquer estratégia revolucionária exceto aMas é pior que isso: tampouco antes de 982 os núcleos miragem ou mantra incansavelmente repetido da “acumulação deeram organizados sob qualquer critério classista, nem forças”.orgânica e nem programaticamente3. 4 O Caderno A classe operária na luta contra a ditadura chama a atençao para vários fatos de época que apontam nessa direção, mencionados no livro de Maurício Tragtenberg, Uma vida3 O autor destas linhas participou, no início dos 80, de para as ciências humanas, da Editora Unesp, 999.
  5. 5. Três teses sobre o PT das origens da classe operária (que não era) ou com opção estratégica revolucionário de saída. Das duas formas a classe operáriada classe operária (que não era, nem programaticamente saía perdendo a chance de preparar as condições, atravése nem como partido que almejasse o poder operário). da experiência inicial do PT, de construir seu autênticoEstava de pé a necessidade de afirmar e desenvolver partido de classe e revolucionário.uma corrente interna que permitisse superar a miséria A esquerda marxista de então, como regra, seda estratégia da direção petista e que lutasse, ao mesmo manteve6 – política e programaticamente - dentro dostempo, pela legalização de todas as correntes políticas de limites determinados pela direção petista, na condiçãoesquerda (rompendo, também por esta via, com o plano de ala esquerda da democracia burguesa, adaptada ao“aberturista” do regime). reformismo lulista. Perdeu sua grande oportunidade Não se podia ficar nos marcos do PT das origens, naquele momento. Em escala mundial, o imperialismocuja indefinição e linha política adotada pela direção impulsionava transições democráticas - era o mundodos “autênticos” apontava para uma perspectiva e uma pós-Vietnã etc – e aqui não estava sendo diferente: seestratégia de adaptação sindicalista/eleitoral ao regime. conformava uma transição democrática pelo alto comA atividade interna de cunho adaptativo – como ocorreu colaboração de ala da Igreja, do MDB, dos PCs stalinistaspor parte das esquerdas – só poderia reforçar sua e que, ironicamente, também incluiu o trotskismo detransformação, não inevitável, em partido reformista com então.todas as letras. Era essencial disputar a direção do PT. Vivia-se o primeiro momento da nossa história onde O PT captava um impulso que vinha das recentes lutas o trotskismo ganhava certa visibilidade, mas este, paraoperárias e populares, mas sob a influência e controle de além de sua fraseologia, não privilegiava as comissõessua direção reformista; sua direção – sob forte influência de fábrica que existiam em São Paulo para se opor aoda Igreja, da pequeno-burguesia intelectual de esquerda - o verticalismo do Lula, não levou um combate frontal àempurrava no sentido de um partido funcional à transição burocratização executada pela direção sindical lulista.burguesa, à armadilha eleitoral da burguesia e não para Inserir-se nas bases operárias com essa estratégia seriao papel de efetivo representante das lutas operárias, da uma política natural do trotskismo que não foi levadademocracia operária de base, para conformar-se como adiante7; não havia tampouco uma clara estratégia departido revolucionário dos trabalhadores. classe, tanto que aquela mesma esquerda se incluiu em candidaturas burguesas (como a do general Euler Bentes, O PT era amorfo e ainda se configurava como um terreno ou até apoiou o Colégio Eleitoral burguês ou chegou a para disputar a direção contra o setor reformista dos chamar à formação de um partido de esquerda de massa “sindicalistas autênticos”. O projeto de Lula e da Igreja sem qualquer delimitação de classe, como foi o caso era constituir um partido que incluísse parlamentares da proposta do Partido Socialista, na época, em moldes pequeno-burgueses e intelectuais pequeno-burgueses, para integrar-se ao regime democrático-burguês. (...) Não “abertos” portanto, na prática, policlassista). devemos esquecer que a discussão sobre o PT começou A cada passo que dava na sua adaptação à ordem, em 978, foi votado num congresso metalúrgico em o PT tendia a sofrer implosões, com correntes trotskistas 979, mas Lula e a Igreja se encarregaram de manter o combativas se desprendendo em 989, 992, correntes processo separado das greves que estavam acontecendo. políticas e sindicais também se desprendendo mais Queriam impedir que o processo se politizasse ainda tarde, mas sem que se travasse um debate frontal, mais mais e se fizesse mais consciente o caráter político da programático e estratégico, em relação ao próprio PT. luta. Não queriam um PT como instrumento das massas E, sobretudo, sem que se buscasse tirar lições para a em luta contra a ditadura e sim como parte da transição construção do necessário partido operário no nosso e do sistema de partidos que se estava constituindo. Por isso o fundaram ao mesmo tempo em que trabalhavam 6 Quando não rompia sectariamente com o PT das origens, caso pela derrota da greve metalúrgica de 980 (A classe do lambertismo e da Causa Operária em um primeiro momento. Em seguida operária ..., s /d, p. 98). o lambertismo de O Trabalho (Libelu) ganhou peso, mas para praticar seguidismo com o PT. O lulismo invariavelmente se aproveitou dessa falta geral de estratégia revolucionária da esquerda – mesmo trotskista – de então. O O trotskismo existente naquele momento tendeu ou SU (trotskismo mandelista) que vinha do apoio à guerrilha, foi outra correntea se adaptar à direção “autêntica” ou a isolar-se do PT, que colou em Lula, chegou a ter ministros no governo Lula recentemente e osectariamente, alegando que este não tinha um programa lambertismo (de O Trabalho) até hoje está dentro do PT assim como também lá pode ser encontrado o cadáver político do posadismo. 7 A corrente da IV Internacional que vinha com algum peso O autor destas linhas ao distribuir panfletos (da IV no Brasil dos anos 70, o POR (posadismo), vinha de uma trajetóriaInternacional) numa assembléia operária, em Vila Euclides, ABC, de completa adaptação à burguesia nacionalista, ao brizolismo e vivia980, teve sua expulsão comandada pelo próprio Lula, aos gritos de processo de franco liquidacionismo como corrente da IV: ala esquerdaque todo documento que não fosse do próprio sindicato era coisa da de todo tipo de nacionalismo burguês, defensor não de uma estratégia“polícia”. Ou seja, a direção lulista, desde as origens, mal tolerava a operária mas sim de uma frente única antiimperialista que incluía apresença de correntes políticas de militantes de esquerda e somente as burguesia “nacional”, o posadismo adotou o entrismo eterno no PTaceitou à medida em que aceitavam ser domesticadas/enquadradas na onde se deixou liquidar. Ironicamente, teve o mesmo fim do velhopolítica da direção petista. PCB, stalinista, partido no qual também praticou longo “entrismo”.
  6. 6. Contra a Corrente país; e que inclusive se avaliasse porque tais correntes o lulismo se colocou na contra-mão. Lula induzia aquelaficaram tanto tempo no PT ou o que estavam fazendo lá oposição a apoiar o pelego Joaquinzão.estrategicamente, nesse tempo. Os sindicalistas “autênticos”, Lula à cabeça, não Por conta disso é possível falar em oportunidades mostraram o menor interesse, como direção inicial doque foram perdidas no sentido do enraizamento de novo partido, em forjar um novo paradigma no qual acorrentes políticas mais conseqüentes, política e força viesse dos órgãos de base da classe operária e nãoprogramaticamente, na classe operária, no seio do de cima, de uma direção que negociava com generais eprocesso inicial do PT, riquíssimo em diversidade de alas democráticas dos partidos burgueses a reciclagemmovimentos, de combatividade, de apelo nacional. da ditadura rumo a uma nova forma de autocracia O ascenso de lutas operárias do final dos anos 970 burguesa.colocava na ordem do dia, mais uma vez, o confronto entre Não se trata de que o “novo sindicalismo”as duas estratégias fundamentais, uma de conciliação de envelheceu: ele já nasceu envelhecido: nunca abriu mãoclasses, de reformas no interior do capitalismo e outra, do imposto sindical, por exemplo. Jamais desconstruiu aa do combate intransigente pela independência política verticalizacao sindical que era mascarada por comíciosda classe operária perante todas as vertentes burguesas – em estádios, jamais fomentou as comissões de fábricademocráticas, progressistas, desenvolvimentistas. Havia não atreladas à direção sindical. O que há de “novo”um espaço, naquela conjuntura, para abrir caminho para nisso?a liderança da classe operária frente às massas mais Historicamente se sabe que como fruto da greveexploradas na perspectiva de derrubada da ditadura dos 300 mil trabalhadores na cidade de São Paulo,por meio da ação direta de massas, abrindo caminho por exemplo, e diante da traição da burocracia pelegapara uma saída revolucionária ainda mais avançada que (Joaquinzão, o PCB, o MR-8) emergiu um comando desolucionasse os problemas fundamentais de todos os greve a partir das bases, aglutinando comissões de fábricasexplorados. Ao não adotar esse caminho é que se pode e que desafiava abertamente a patronal. Havia condiçõesfalar em perda de oportunidade. Desenvolve-se outra coisa para organizar uma unidade combativa de base. Jamaisem seu lugar, outra estratégia, que resulta na defesa clara foi esta a iniciativa dos “autênticos”. Lula não somentee aberta do Estado burguês com suas mazelas inevitáveis. não se uniu a este movimento como já vinha de dividir aFoi o rumo seguido pela história do PT até chegar onde reivindicação salarial dos metalúrgicos do ABC do restochegou, plenamente formatado como partido do capital. da categoria; e quando propôs a Intersindical reconheceu os pelegos da cidade de São Paulo e não sua oposição 3 . Lula e os “autênticos”: até que ponto metalúrgica. Invariavelmente tratava de organizar aconstituem um mito das origens? “unidade” por cima, a partir dos sindicatos oficiais, dos Em uma conjuntura de lutas operárias, de crise aparatos, por fora da democracia de base que constituíaeconômica e social da ditadura, o proletariado das justamente a estratégia necessária, sine qua para organizarmontadoras – situado no coração da política econômica da a independência política dos trabalhadores.ditadura e núcleo duro do milagre econômico – se lançou A burguesia tinha consciência do que ocorria: aa uma onda de greves que criava clima propício para a ditadura negociou a libertação de Lula e os “autênticos”organização da classe em partido político; este projeto em 980, na tentativa de barrar um processo que sefoi posto em marcha, a partir de propostas do próprio desenvolvia por fora, nas ruas, nos locais de trabalhomovimento operário, como se sabe; também se sabe que e bairros, durante 4 dias de resistência operária, coma direção lulista tratou de configurar tais elementos numa formas de auto-organização que não interessavam paradeterminada direção em nome de “garantir a abertura”. A nada à cúpula burguesa e da ditadura. Com a libertaçãoforça das greves (a geral de 978 e a de 979), o potencial de Lula, sua traição à greve de 980, as lutas tornam-sede luta capaz de ser organizado e amplificado naquela defensivas, a burguesia se lançou a demitir e combaterconjuntura, foram sendo represados para uma política a vanguarda da greve, o proletariado mergulhou em umlimitada à transição pacífica para a democracia burguesa. impasse que terminou retirando-o do centro da cena. AOs chamados “autênticos” dirigiam sindicatos desde liderança dos “autênticos”, agora no comando do novo97 e sua estratégia era mais ou menos conhecida. PT, irá revelando sua enorme funcionalidade para a A estratégia – para além da imensa combatividade transição burguesa.da classe operária do ABC e de São Paulo - era de Era indefensável a operação política de Lula e seusconciliação de classe por um lado, pela cúpula, e por outro, “autênticos” no PT das origens ao reproduzir, em nomena base, de ir desviando a organização mais democrática do “novo”, o velho sindicalismo dos anos anteriores,e autônoma da classe operária; a combatividade da corporativista, de colaboração de classes, essencialmentechamada oposição metalúrgica nas fábricas de São Paulo defensor da tradicional do aparelho sindical vertical e,(contra os pelegos sindicais) não se tornou um espaço a politicamente, da falida democracia do voto (dos ricos);ser politizado, garantido e organicamente desenvolvido; por mais que não faça parte da história oficial do PT, o
  7. 7. Três teses sobre o PT das origens processo de época – no qual o PT foi sendo construído reforma do regime.– passava por uma política não de adaptação mas de Assembléias operárias eram convertidas em grandescombate político aos dirigentes do ABC que, como comícios sem a mínima preocupação em conformarargumenta Lisboa (2008) “apoiados por um setor da delegações de base, de fábricas, coordenações inter-burguesia e da Igreja, atuavam efetivamente como freio fabris, para ir quebrando com a estrutura sindical vertical.contra-revolucionário, conscientes de que a força do E nem em politizar o movimento na direção da derrubadaascenso proletário apontava contra a ditadura militar e da ditadura pela ação de massas. Parte fundamental dastendia a ameaçar as bases do capitalismo”. classes médias e dos pobres e lutadores do país afora viam O “modo sindicalista (petista) de militar” conduziria com profunda simpatia aos operários do ABC em luta,à reprodução da estrutura sindical corporativa atrelada havia uma predisposição de alcance nacional a aceitar aao Estado, presente na nossa história; por sua vez, o liderança revolucionária da classe operária que travavamovimento sindical tipo CUT, formatado em velhas combate nas montadoras, mas havia, de parte da direçãobases, no imposto sindical, na não-autonomia política lulista, uma predisposição contrária, a de não encabeçarda classe, terminou amplamente cooptado pelo Estado uma luta nacional por um partido que canalizasse taisburguês. Tombaram, PT e CUT, vítimas “da armadilha lutas para além dos acordos com parte da ditadura. Ou,burguesa-militar da ´redemocratização pela via de um por exemplo, para democratizar o novo partido comprojeto de abertura “lenta, gradual e segura” que garantisse os setores em luta tendo voz e comando nas bases e naa continuidade do Estado e da dominação capitalista, direção.espantando o ´fantasma´ da derrubada revolucionária daditadura militar” (Lisboa, 2008, 7). Considerações finais Não se centralizou a ofensiva operária para a Ao se adaptar à política dos setores oposicionistas/derrubada do regime militar. Setores empresariais e o democráticos da burguesia, o PT perdeu a chancepróprio governador biônico de São Paulo, Paulo Egídio, de constituir-se como efetivo partido da classeviam em Lula uma alternativa ao que vinha ocorrendo trabalhadora.nos anos 70, “quando os operários paravam as fábricas, Sem a burocracia sindical, em um país como orealizavam operações-tartaruga ou de sabotagem da nosso, a burguesia não tem como se manter; ela necessitaprodução sem conhecimento dos dirigentes sindicais, daquilo que o PT foi conformando, ano após ano e quepor desconfiarem desses sindicalistas” (Lisboa, 2008, tomou forma na CUT que junto com as demais centrais2). Aquele governador da ditadura chegou a dizer que burocráticas constituem base fundamental de sustentaçãoLula era um dirigente sindical promissor, “sem filiações da burguesia no nosso país. Ao não levar adiante osideológicas”. combates necessários e nem assumir a defesa da classe Com a ditadura em decomposição, o pior que operária em sua aliança interna – com terceirizados – epoderia ocorrer para a burguesia – especialmente aquela externa, com o conjunto dos pobres urbanos e rurais; edo coração do milagre – era não poder contar com um em especial ao realizar uma política adaptada ao governosindicalismo confiável, “moderno” como diziam eles, da patronal, ao não apoiar diretamente e em chavemesmo que combativo. Não é possível discutir o “PT programática mais profunda cada luta e cada combatedas origens” sem considerar esse elemento dialético de classe, venha de que setor dos trabalhadores vier, ode contenção: Lula liderava as greves, mas tratando de PT e sua central de trabalhadores construíram-se comoconter seus limites. a base funcional fundamental do regime neoliberal que Empresários “modernos e democratas” da fase da desfechou e tende a desfechar ataques contra a classeabertura tinham manchado suas mãos com o sangue trabalhadora.da ditadura, tentando impedir a reorganização operária O “modo petista de militar” é uma praga recriadadentro das fábricas, financiando a polícia política (Dops), na política de esquerda e reproduzido no camporeunindo-se com ela, colaborando com o Exército para sindical. Sem erradicar essa política não fundaremosmapear, assassinar e torturar militantes operários, um verdadeiro partido da classe operária. No “modofinanciando a Operação Bandeirantes. Esta era a mesma petista de militar” o parlamento, as épocas de eleiçõescúpula empresarial que depois terminaria apoiando, são a pauta mais importante, os movimentos sociaisno governo Lula, os ataques aos direitos trabalhistas e terminam sendo agendados por essa pauta e, ao mesmoprevidenciários. tempo, pelas datas-base estabelecidas pela patronal, Na época, para a direção petista-“autêntica”, em invariavelmente por fora das lutas fundamentais e reaisnome da luta contra a “linha dura” valia tudo, valia da classe trabalhadora.apoiar uma lei de “anistia recíproca” que deu impunidade Com o PT desaparece a estratégia própria da classepara aquele empresariado, seus generais e policiais trabalhadora. Com o PT os métodos de luta específicostorturadores e assassinos. Em nome do possibilismo e da classe operária (luta direta, ocupações, grevesda transição pactuada marchou-se para o apoio da auto- combativas) dão lugar aos métodos burgueses ou de
  8. 8. Contra a Corrente pressão sobre as instituições burguesas. Sendo diferenteda nefasta tradição dos stalinistas (PCB, PC do B), ainda Trotski: stalinismo é negaçãoassim, qualitativamente, o PT não inovou nesse item, do bolchevismobasicamente reafirmou, na prática, a velha cultura que “É verdade que o stalinismo representa otermina tornando os sindicatos pontos de apoio para a produto legítimo do bolchevismo, como crêpolítica geral da burguesia. toda a reação, como afirma o próprio Stalin, como pensam os mencheviques, os anarquistas Bibliografia e alguns doutrinadores de esquerda, que se A classe operária na luta contra a ditadura (964-980),Cadernos Estratégia Internacional-Brasil, n., julho 2008. consideram marxistas? (...) A conclusão a CINATTI, Claudia, 2008. Que partido para qual estratégia? qual chegamos é a seguinte: evidentemente oUma polêmica sobre as frentes “antineoliberais” e os “partidos amplos stalinismo “surgiu” do bolchevismo; mas nãoanticapitalistas”. In revista Estratégia Internacional-Brasil, n.3, maio surgiu de uma maneira lógica, senão dialética;2008, p. 4-74. não como sua afirmação revolucionária, mas GIANNOTTI, Vito, 2007. História das lutas dos trabalhadores como sua negação termidoriana. Que não é ano Brasil. São Paulo: Mauad. mesma coisa. (...) O extermínio de toda uma KECK, M, 99. A lógica da diferença. O Partido dos velha geração bolchevique, de grande parte daTrabalhadores na construção da democracia brasileira. São Paulo: geração intermediária que havia participado daÁtica. LISBOA, Val, 2008. Algumas lições do ascenso proletário dos guerra civil, e também de uma parte da juventudeanos 70 contra a ditadura e o papel da esquerda. In revista Estratégia que havia tomado mais a sério as tradiçõesInternacional-Brasil, n.3, maio 2008, p. 3-40. bolcheviques, demonstra a incompatibilidade não MACIEL, David, 200. As raízes ideológicas do PT. In Revista somente da política como também diretamenteContra a Corrente n.4, Brasília, setembro 200, p. 29-34. física entre o bolchevismo e o stalinismo. Como é PEDROSA, Mario, 980. Sobre o PT. São Paulo: Ched possível que não se veja isto? (...) A burocraciaEditorial. stalinista, além de não ter nada em comum com PETRAS, James, 200. Brasil e Lula: ano zero. Blumenau, SC: o marxismo, é também estranha a toda doutrina,Edifurb. programa ou sistema. Sua “ideologia” está impregnada de um subjetivismo absolutamente Trotski: certo pensamento confunde policial; sua prática, de um empirismo da mais stalinismo com bolchevismo pura violência. No fundo, os interesses da casta dos usurpadores é hostil à teoria: não pode prestar “Os liberais, inclusive o casal Webb, sempre contas a si mesma, nem a ninguém, de seu papel afirmaram que a ditadura bolchevique representa social. Stalin não revisa Marx e Lênin com a pena somente uma nova edição do czarismo. Para dos teóricos, mas com as botas da GPU”. isso fecham os olhos ante detalhes tais como a (Bolchevismo e stalinismo de Trotski, abolição da monarquia e da nobreza, a entrega 29 agosto 937) da terra aos camponeses, a expropriação do capital, a introdução da economia planificada, a educação laica etc. Também o pensamento liberal-anarquista fecha os olhos ante o fato de que a revolução bolchevique, com todas as medidas de repressão, significava a subversão das relações sociais no interesse das massas, enquanto o golpe de Estado termidoriano de Stalin leva em Trotski: Maiakovski si o reagrupamento da sociedade soviética em benefício de uma minoria privilegiada. “Maiakovski é um grande talento, ou, como Está claro que na identificação do stalinismo com definiu Block, um imenso talento. É capaz de o bolchevismo não existe nem apresentar as coisas que sempre vemos de tal vestígio de critério socialista”. modo que parecem novas. Maneja as palavras (Bolchevismo e stalinismo de Trotski, e o dicionário como um audacioso mestre que 29 agosto 937) trabalha de acordo com suas próprias leis e sem considerar se seu trabalho artesão agrada ou desagrada”. Sydney (89-947) e Beatrice (88-943) (Literatura e revolução, Webb: socialistas fabianos ingleses e admiradores da burocracia stalinista. Trotski, p. 2)

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