A crise do capital e seus efeitos desiguais e combinados na Europa: um breve ensaio

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A crise do capital e seus efeitos desiguais e combinados na Europa: um breve ensaio

  1. 1. A crise do capital e seus ARTIGO efeitos desiguais e combinados na Europa: um breve ensaioLucas Gama Lima de extração do lucro.Alexandrina Luz Conceição Portanto através da dialética da diferenciação/ igualização operada pelo capital avistamos uma das O desvelar da mais que iminente possibilidade dimensões que conduzem, inexoravelmente, a umde bancarrota da economia grega endossou duas teses desenvolvimento desigual e combinado entre regiões,presentes na literatura marxista: a primeira é que o capital países e lugares. O mais recente capítulo da crise estruturalé sem sombra de dúvidas um sistema sócio-metabólico do capital (a evidência da fragilidade econômica dosdestinado a acumulação, sendo assim, insere-se em todas “PIGS”, associada ao clamor por ajuda do governoas esferas da vida, mercantilizando-as, subordinando-as grego) ilustra o corolário do que se deseja evidenciar nodireta ou indiretamente. Por isso, como explica Mészáros presente artigo.(2002) o sociometabolismo do capital exige que ele aja A União Européia foi criada, segundo o Tratado deem sua totalidade, que hegemonize as relações entre Maastricht (992) com o objetivo de “promover a coesãoos indivíduos em uma dimensão jamais concebida em econômica, social e territorial e a solidariedade entre osoutros tempos. A segunda é que por ser eminentemente Estados-membros”. Até o presente momento 27 paísesexpansivo o capital, sob o modo de produção capitalista, desse multifacetado continente aderiram formalmentealcançou os mais diversos rincões do planeta. O fez ao Bloco, enquanto que apenas 2 adotaram o Euronão somente subordinando e/ou destruindo relações de como moeda corrente de suas respectivas economias. Aoconvivência anteriores entre os indivíduos mas, sobretudo, largo dessa aspiração abstrata de obtenção equânime do(re)configurando a produção espacial e concorrendo para desenvolvimento econômico, os países integrantes doa formação de um divisão territorial do trabalho a uma Bloco sempre revelaram suas disparidades econômicasescala global. e inserção estupidamente diferenciadas na divisão Há que se registrar, porém, que na Europa – como em internacional e regional do trabalho. Basta observarqualquer lugar do planeta – a referida expansão do capital a diferença entre o PIB Alemão (com pouco mais de sobre o espaço é permeada pela dialética da diferenciação/ trilhões dólares) com o PIB Português (aproximadamente,igualização, ou seja, ao tempo em que apropria-se das 228 bilhões de dólares).minúsculas diferenças espaciais e, inclusive, as promove, Como um dos pré-requisitos para a participação noé também responsável por engendrar as bases universais Bloco é a abertura completa e irrestrita ao livre câmbio de mercadorias, serviços e circulação de capitais, os países europeus do capitalismo central e potencialmente bélicos Lucas Gama Lima é Mestre em Geografia pela Universidade protagonizaram um duplo movimento: deslocaram suasFederal de Sergipe, professor da rede pública municipal de ensinode Aracaju, técnico-administrativo da UFS e membro do Grupo de unidades produtivas para o usufruto privilegiado daspesquisa Estado, capital, trabalho e as políticas de (re)ordenamento vantagens localizacionais (a exemplo das diferençasterritorial. E-mail: lucasaelima@yahoo.com.br salariais entre os trabalhadores dos diversos países2 Alexandrina Luz Conceição é professora do Núcleo de europeus, pois enquanto na França o salário mínimoPós-graduação de Geografia da Universidade Federal de Sergipe e é 2 euros, o mesmo se encontra na faixa de 50 ecoordenadora do Grupo de pesquisa Estado, capital, trabalho e as 2 euros em Portugal e Bulgária, respectivamente)políticas de (re)ordenamento territorial. E-mail: aluz@oi.com.br e; realizaram empréstimos internacionais aos Estados “Não se pode imaginar um sistema de controle mais débeis na economia desse continente (são as empresasinexoravelmente absorvente – e neste importante sentido, ‘totalitário’– do que o sistema do capital globalmente dominante, que sujeitacegamente aos mesmos imperativos a questão da saúde e a do Essa expressão cuja tradução significa “porcos” é a formacomércio, a educação e a agricultura, a arte e a indústria manufatureira” sui generis com a qual a direita xenófoba européia acostumou-se a(MÉSZÁROS, 2002: p. 96). denominar Portugal, Itália, Espanha e Grécia.
  2. 2. Contra a Corrente alemãs e francesas as maiores credoras da divida pública Parlamento Europeu8. A primeira ministra da Alemanhada Espanha, Grécia e Portugal). Ângela Merkel inflamada por uma campanha midiática Em consequência, ao longo de aproximadamente das emissoras alemãs na qual se dirigiam aos Gregosdez anos, os países do Sul da Europa obtiveram um com chavões preconceituosos9, inicialmente relutoucrescimento econômico – tão saudado e creditado ao bastante em conceder qualquer ajuda financeira. Todavia,sucesso do Bloco – às custas de um elevado endividamento a possibilidade de um desmoronamento em cadeia dode seus Estados; déficit orçamentário e; inchaço no setor sistema financeiro mega-especulativo do Euro, quede terciário, especialmente nos serviços de turismo, inevitavelmente chegaria aos bancos alemães, a fez voltarque provocaram um descompasso entre os setores da atrás. Em resumo, no dia 09 de maio a União Européiaeconomia e freqüentes déficits nas Balanças Comerciais5. e o FMI anunciaram um dos maiores planos de resgateComo explica José Arbex Júnior: da história, um pacote volumoso de trilhão de dólares, dos quais foram destinados 0 bilhões de dólares para Após uma década de euforia, com bilhões de dólares a Grécia; além disso, o Banco Central Europeu (BCE) jorrando graças à especulação imobiliária, ao turismo cedendo aos apelos de mais de 0 estabelecimentos e aos jogos olímpicos (em particular, nos casos da bancários – que o haviam solicitado a compra de títulos Grécia e da Espanha), a bomba estourou (Revista Caros das dívidas soberanas – já havia comprado cerca de 6,5 Amigos, junho de 200). bilhões de euros de dívidas soberanas e até privadas, cujas quais o mercado interbancário desejava descartar. Como O estouro da bolha imobiliária no Sul da Europa é habitual, o capital exigiu dos governos endividados umadesnudou como seus países estão profundamente imersos contrapartida: um plano de austeridade fiscal e eliminaçãonuma incontrolável especulação financeira, sobretudo na de gastos, leia-se, precarização do trabalho. Segundoconstrução civil6, que os amarra a uma subordinação sem Alejandro Iturbe da Liga Internacional dos Trabalhadoresigual aos investidores internacionais. A tão aclamada nos últimos trimestres a massa salarial total da Grécia (istoprosperidade econômica sustentou-se num “castelo de é, o total de salários pagos no país) diminuiu 5% enquantoareia”, que ao primeiro sinal de insolvência dos papéis o PIB cresceu ,2%. Além disso, no setor público, parada dívida pública grega redundou em vultosas fugas de além dos cortes de 0% dos salários, serão reduzidos o capitais e um rápido aumento no preço dos contratos e o salário para os que ganham menos de 000 eurosde seguro contra inadimplências (crédit default swaps brutos e abolidos para os que ganham acima deste valor.ou CDS)7. Para agravar a “tragédia grega” as regras da Quanto à Espanha e Portugal já foram anunciados pelosunificação econômica da Europa exigiram a renúncia governos dos respectivos países o congelamento salarialde parte da autonomia monetária e fiscal dos países dos trabalhadores do serviço público em 20, bem comomembros, no ato de suas adesões, impedindo o gozo da a extinção de vários cargos e proibição taxativa de novasprerrogativa de criação de novas reservas, da imposição admissões0.de tarifas alfandegárias sobre produtos estrangeiros e daproibição ou limitação da evasão de capitais. O capital ignora o sentimento regionalista Diante dos riscos de implosão da Zona do Euro, Esse quadro econômico da Europa sintetiza oos credores dos títulos das dívidas iniciaram uma modus-operandi do capital, pois ainda imersos sobsistemática pressão sobre a Alemanha e França, bem os efeitos do estouro da super-bolha imobiliária noscomo intensificaram seu tradicional lobby sobre o EUA – que exigiu uma intervenção do governo norte- americano ainda não concluída, uma vez que a Reserva5 Dos países do sul europeu a Grécia destaca-se pela expressão Federal Americana (Fed) vem assumindo desde 2008 aque detém o setor de serviços (quase 75%) em sua economia, uma compra de ativos “podres” no montante aproximado derelação entre a dívida pública e produto interno bruto de 25,6% e umdéficit comercial constante: em 2009, por exemplo, as importações 80 bilhões de dólares – os capitalistas de todo o mundototalizaram 6 bilhões contra exportações de 2 bilhões. 8 O lobby sobre o parlamento europeu é tão significativo6 Segundo a revista Exame (junho de 200, pag. 25) “países que segundo o jornal Le Monde Diplomatique Brasil (junho decomo Espanha e Irlanda dependiam das receitas tributárias do setor 200) há na entrada do mesmo, sediado em Bruxelas, uma placaimobiliário, que passava por uma celebre bolha. Com seu estouro, de sua inauguração (6 de dezembro de 200) com a marca da Seapos governos ficaram pendurados, com dívidas altíssimas e pouco (Sociedade Européia de Assuntos Profissionais) da qual fazem partedinheiro para pagar”. os dirigentes da Unilever, Carrefour, Gaz de France,Volvo, L’Oreal e7 O preço dos Contratos de Seguro contra Inadimplência Suez.(CDS) flutua na proporção direta do denominado “risco país”, 9 Foi veiculado em jornais alemães e franceses que não erasendo comercializável em qualquer praça financeira, onde é possível justo que seus países pagassem por uma crise criada pelos “gregosencontrar entidades financeiras especulando dívidas soberanas dos vagabundos e preguiçosos”. Um ministro alemão cinicamente chegouEstados. Segundo o jornal Le Monde Diplomatique Brasil (junho de a propor que a Grécia venda as suas ilhas para quitar a dívida.200) o preço dos contratos de seguro também subiu rapidamentepara Espanha, Portugal seus bancos, em decorrência da demasiada 0 Cabe registrar que a Espanha detém a segunda maior taxadepreciação de seus títulos. de desemprego da União Européia (mais de 20%).
  3. 3. A crise do capital e seus efeitos na Europa continuaram com a farra da especulação financeira (vide que a mobilidade do capital não se realiza alheia aoso estouro de mais uma bolha). desdobramentos sobre a divisão regional do trabalho e É preciso registrar que essa escalada rumo a da produção, bem como a correlação de forças no planodepressão da economia mundial era sumamente previsível. geopolítico mundial (vide o comprometimento contratualA concorrência capitalista levou ao longo da história a subalterno do governo grego em manter os gastos comuma elevação das forças produtivas numa proporção sem equipamentos militares da França e Alemanha comoprecedentes. Porém a mudança na composição orgânica condição para o recebimento de novo empréstimo). Oudo capital não se fez acompanhar de um aumento na seja, a flexibilização de fronteiras ao tempo em quemassa salarial dos trabalhadores. Pelo contrário, diante permitiu maior circulação de mercadorias e capitaisdas ininterruptas dificuldades de valorização do capital sobre a Europa, engendrou também uma espacializaçãona esfera produtiva – uma vez que a aquisição de capital desigual e combinada de seus lucros e prejuízos.constante não gera valor novo – ele realizou um duplo Obviamente os capitalistas têm ideologicamentemovimento: impôs severos ataques ao conjunto da força de utilizado esses efeitos desiguais e combinados da crisetrabalho, retirando uma massa de mais-valia significativa estrutural do capital para insuflar as rivalidades étnicas ee deslocando parcela considerável desta para a sedutora as atitudes fascistas e xenófobas entre os próprios povosespeculação. Nesse sentido a desproporção alcançada da Europa e também contra os imigrantes2. “São alemãesentre os lucros advindos da esfera financeira e os lucros contra gregos (espanhóis e portugueses...) e tambémoriginados do processo produtivo não pode ser credita flamengos contra valões, italianos do norte contra os doa uma iniciativa meramente opcional dos capitalistas sul e todos contra os imigrantes” (Revista Carta Capital,mundiais – sob pena de fazermos uma análise idealista 2 de junho de 200, pag. 66). Uma tentativa clarividentedo processo histórico – mas a uma condição ineliminável de ocultar a gênese da crise estrutural do capital numa açãodo sociometabolismo do capital que solenemente ignora que se assemelha a difusão do nacionalismo chauvinistariscos, apelos morais ou toda sorte de tentativas “controle entre os trabalhadores às vésperas da Primeira Guerrapúblico” rumo a sua reprodução, mesmo que sob bases Mundial a fim de acomodá-los em suas particularidadesfictícias e estupidamente destrutivas. em detrimento da generacidade da classe. Em resumo, afirmamos ser preciso continuar com O capital, portanto, em seu funcionamento de conjunto, as mobilizações dos trabalhadores em todo o planeta, constrói, necessariamente, dificuldades para sua auto- propagandeando os limites da valorização do capital valorização, independente dos processos na esfera da que já não consegue equacionar as condições espaço- inflação, dos juros, dos salários etc: reafirma-se aqui sua temporais para uma acumulação mais duradoura e, nesse condição de processo histórico, transitório e, nos dias sentido, age alargando ainda mais sua “cova” por meio atuais, destrutivo por excelência, ecocida e reacionário de expedientes cada vez menos eficazes, auto-destrutivos em toda linha (DANTAS, junho de 2009). e até genocidas. Isso explica o absoluto desdém dos governos Referências:e capitalistas do continente europeu, especialmente ARBEX JUNIOR, José. Tempos de catástrofe. In: Carosdos países credores, com os danos à situação da classe Amigos, n. 59, São Paulo, jun.200, p. 7.trabalhadora européia. O dinheiro que a Grécia e outros BELKAÏD, Akram. O ataque contra o Euro. In: Le Monde Diplomatique Brasil, n. 5, São Paulo, jun.200, p.26-27.países solicitaram “de joelhos” não é nem sequer para DANTAS, Gilson. O capitalismo em crise histórica e suasassegurar a retomada da produção industrial, mas para tentativas de escapar da depressão. In: Contra a Corrente, n. ,evitar a suspensão (chamado pelos economistas burgueses Brasília, abril 200, p. 28-5.de “calote”) do pagamento infindável dos juros da dívida, GALBRAITH, James K. Quem paga a conta da crise? In: Leou seja, para continuar alimentando a especulação. Monde Diplomatique Brasil, n. 5, São Paulo, jun.200, p.2-25. ITURBE, Alejandro, 200. Europa: um novo momento da crise Diante do eminente bombardeio executado contra econômica mundial. Disponível em: www.pstu.org.br. Acessado:os trabalhadores dos países centrais e, principalmente, 06/07/200.periféricos da Europa atestou-se a impossibilidade LETHBRIDGE, Tiago. O mundo no vermelho. In: Exame, n. 0, Sãodo congraçamento dos povos e de um desejo abstrato Paulo, 02/06/200, p.20-0. MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria dade “desenvolvimento para todos” sob a batuta de transição. São Paulo: Boitempo, 2002.um Bloco Econômico ou de qualquer regionalização RUFFIN, François. O peso dos lobbies em Bruxelas. In: Le Mondemediada pelo capital. Os “analistas de plantão” ignoram Diplomatique Brasil, n. 5, São Paulo, jun.200, p.0-. Segundo a revista Exame (junho de 200) o ajuste fiscalexigido da Grécia é o mais draconiano de que se tem notícia e ainda 2 Berlusconi reeditando as perseguições aos comunistasque o país realize o corte prometido de cerca de 0% em seu déficit italianos durante o Fascismo de Benito Mussolini na Itália atravésaté 20 e todas as determinações do FMI/BCE terminará o período dos Camisas Negras (grupo voluntário paramilitar) autorizou adevendo ainda mais que hoje. constituição de patrulhas civis de italianos para caçar ilegais.

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