Artigo bioterra v16_n1_08

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  1. 1. REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228 Volume 16 - Número 1 - 1º Semestre 2016 ANÁLISE ELETROMIOGRÁFICA DOS MÚSCULOS POSTURAIS EM DIFERENTES ANGULAÇÕES DE ESTRIBOS NA EQUOTERAPIA Alexandre Luongo Nobre¹; Daniel Oliveira da Silva¹; Diego de Mattos Fonseca¹; Daniela Gomez Martin²; Daniela Marinho Sousa³; Victor Edgar Pitzer Neto⁴ RESUMO A terapia assistida por cavalos é um meio terapêutico que usa cavalos dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, equitação e educação, buscando a evolução biopsicossocial de pessoas com necessidades especiais. O objetivo do estudo é comparar o nível de contração muscular dos músculos reto abdominais e paravertebrais lombares do praticante no cavalo ao passo com diferentes posições de estribo. Numa comparação eletromiográfica entre os diferentes ângulos 100°, 120° e 140° de joelhos, o único músculo que se mostrou relevante estatisticamente foi o reto abdominal a 140° por apresentar um nível de contração menor comparado ao ângulo de 120° (p=0,04). Conclui-se que a angulação que mostrou menor nível de contração foi a do músculo reto abdominal a 140° comparado a 120°. Palavras-chave: Terapia Assistida por Cavalos, Eletromiografia, Equilíbrio Postural. ELECTROMYOGRAPHIC ANALYSIS OF THE POSTURAL MUSCLES IN DIFFERENT ANGLES STIRRUPS IN HIPPOTHERAPY ABSTRACT Equine-assisted therapy is a therapeutical means that uses horses within an interdisiplinary approach of health, horsemanship, and education, and whose aim is the biopsychosocial development of people with disabilities. The goal of this study is to compare the level of muscular construction of the practitioner's rectus abdominis and paravertebral lumbar muscles while riding on horse, with different stirrup positions. In a electromyographic comparision among different knee angles of 100°, 120°, and 140°, the only muscle statistically relevant was the rectus abdominis at 140°, which showed a lower level of contraction when compared to 120° angle (p=0.04). The conclusion is that the angulation that showed the lower level of contraction was the rectus abdominis at 140° when compared to 120°. Keywords: Equine-Assisted Therapy, Electromyography, Postural Balance. 65
  2. 2. 1 INTRODUÇÃO A Equoterapia é um meio terapêutico que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, equitação e educação (ANDE-Brasil, 2002). Essa prática se constitui através do movimento tridimensional produzido no dorso do cavalo ao passo nos aspectos motores, psicológicos e cognitivos (Silva & Grubits, 2004). As andaduras naturais do cavalo são aquelas que ele executa instintivamente, definindo elas como o passo, trote e galope, sendo o passo a andadura mais utilizada durante a equoterapia (Pierobon & Galetti, 2008). O passo é a andadura do cavalo rolada ou marchada, ritmada, a quatro tempos e simétrica em relação ao eixo longitudinal do cavalo, que transmite ao praticante uma série de movimentos sequenciados, dando como produto um movimento tridimensional em ciclos, semelhante à deambulação do homem (Dias et al., 2005). O movimento em três dimensões do cavalo (eixo-vertical, eixo-látero-lateral e eixo- ântero-posterior) provoca um deslocamento da pelve do praticante, semelhante ao que uma pessoa realiza ao caminhar proporcionando experiências proprioceptivas, cinemáticas, sensoriais e vestibulares que facilitam o equilíbrio e a coordenação, propiciando uma melhor percepção corporal e incitando a aprendizagem ou reaprendizagem da deambulação (Clemente et al., 2010). Em um estudo realizado com crianças mostra que a equoterapia é capaz de gerar benefícios ao praticante como: modulação de tônus muscular, melhora no equilíbrio e no controle da postura (Beinotti et al., 2010). A eletromiografia é um método não- invasivo, seguro e de fácil aplicação e monitorização de atividade elétrica de um ou grupo de músculos durante a sua ação, sendo largamente utilizada em estudos da musculatura reto abdominal e paravertebrais lombares, importantes estabilizadores de tronco durante os desvios no plano sagital (Moraes et al., 2012; Kapanji, 2007). A partir do exposto, o objetivo deste estudo foi comparar o nível de recrutamento muscular dos músculos reto abdominal e paravertebrais lombares, do praticante no cavalo ao passo, com diferentes posições de estribo. 2 MATERIAIS E MÉTODOS O presente estudo é de delineamento transversal. A amostra foi constituída, por conveniência, por mulheres voluntárias, com idade entre 18 e 25 anos, estatura mediana, com Índice de Massa Corporal (IMC) na faixa de normalidade: de 18.5 a 24.9, sem histórico de patologias prévias que alterassem a atividade muscular e o controle motor e sem contra- indicações para a prática da equoterapia. O estudo foi realizado no Centro de Equoterapia da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), localizada no município de Pelotas, RS. Os animais escolhidos para a montaria foram dois cavalos, ambos aptos ao trabalho equoterapêutico, sendo eles de variados pesos, alturas e raças indefinidas, sendo nomeados como Cavalo 1 e Cavalo 2. Foram utilizados para encilha: manta, xerga, cilhão, carona, cabresto e estribo aberto. Para a realização da coleta dos dados foi utilizado um eletromiógrafo modelo MIOTOL fabricado pela MIOTEC com dois canais bipolares e software para a eletromiografia, o MIOGRAPH. O armazenamento dos dados foi feito no microcomputador, ou seja, houve uma transformação do sinal analógico para digital e foram gravados no software de aquisição dos dados Miograph. Para limpeza dos ruídos captados na coleta dos dados, a filtragem digital do sinal foi realizada através do tipo Passa-Banda, com frequência de corte entre 20 e 500 Hz instalado no próprio Miograph. Os músculos selecionados para análise foram os paravertebrais lombares e reto abdominais, responsáveis pela manutenção da postura do praticante durante a montaria. Para aplicação dos eletrodos de superfície foi realizado a tricotomia dos pêlos da região póstero-inferior do tronco e anterior do abdome através de lâmina de barbear e a limpeza da pele realizada através do esfregaço de algodão com álcool em cada indivíduo para uma melhor qualidade do sinal, o posicionamento dos mesmos foi através da palpação dos músculos paravertebrais lombares e reto abdominais, de acordo com os protocolos
  3. 3. da SENIAM (Surface EMG for theNom- InvasiveAssessmentofMuscles) e o eletrodo de referência foi posicionado na clavícula. O sinal eletromiográfico foi coletado no solo de grama, com o cavalo ao passo, onde o mesmo andou 30 metros em linha reta sendo utilizado para análise do 10° ao 20° metros. Foram analisadas três variáveis de angulações de estribos verificados através de goniometria de joelho: 100°, 120° e 140°. Os participantes tiveram orientações de montar no meio da manta sobre o músculo grande dorsal do animal, sentado sobre os ísquios, com o corpo ereto e não tenso, por este motivo os indivíduos não deveriam saber o real motivo do estudo para não haver nenhuma alteração nestes dados. Cada indivíduo sustentou-se sozinho durante montaria, sendo acompanhado bilateralmente por dois pesquisadores responsáveis a fim de evitar quaisquer intercorrências e encarregados na condução do eletromiógrafo e do computador portátil. O cavalo foi guiado por um auxiliar guia apto ao trabalho equoterapêutico. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) através da Plataforma Brasil sob o numero 953.472 de 08 de fevereiro de 2015. Um termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pelos participantes, conforme determina a Resolução n° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES A eletromiografia é definida como registro extracelular da atividade bioelétrica gerada pelas fibras musculares, podendo ser utilizada por agulha, que capta a atividade elétrica de poucas unidades motoras, ou por meio de eletrodo de superfície que mensura a atividade elétrica de várias unidades motoras ao mesmo tempo (Resende et al., 2011). A partir dessa captação elétrica, são fornecidas informações sobre a condução do potencial de ação ao longo das fibras musculares, isto permite quantificar o número de fibras musculares que estão ativas e a velocidade em que o potencial é propagado, tal como registrar o momento em que o músculo inicia e finaliza sua ação (Araujo et al., 1985). A literatura apresenta alguns relatos sobre a dificuldade de se ter uma metodologia específica sobre as informações do EMG, apresentando limitações como a falha em reproduzir o posicionamento dos eletrodos, fazendo com que se tenha a falta de um protocolo específico, normas regulamentadoras para a decisão e utilização do EMG, interpretação e os registros de sinais, padrões esses que têm sido uma preocupação para os autores da técnica. Porém, apesar dessas barreiras para o uso do EMG, ele tem sido importante para fisioterapeutas e outros profissionais da saúde, fornecendo conhecimento também para terapias adjuvantes (Moraes et al., 2012). A atividade eletromiográfica está apresentada em valores da raiz quadrada da média (RMS), registrados durante a coleta e divididos pela contração voluntária máxima (CVM) dos músculos avaliados (Espíndula et al., 2012). Os resultados estão apresentados na tabela 1 e 2 ordenados do 1° ao 5° partici-pante, com valores obtidos em RMS dos músculos reto abdominais e paravertebrais lombares em ângulos de estribo a 100°, 120° e 140° no Cavalo 1 e no Cavalo 2. É possível averiguar que a média dos níveis de recrutamento muscular dos músculos paravertebrais e reto abdominais nos praticantes montados no Cavalo 1, a ângulos de: 100° foi de 78,4 e 64,8 RMS, a 120° foi de 65,14 e 48,15 RMS, e a 140° foi de 26,95 e 12,59 RMS, respectivamente. Tabela 1. Resultados obtidos dos músculos paravertebrais e reto abdominal no Cavalo 1. Paravertebrais Retoabdominal 100º 120º 140º 100º 120º 140º 1 55 157,6 82.57 40 37,8 31.32 2 99 23,6 5.12 70 16 9.73 3 64 22,5 13.10 60 43,4 6.91 4 119 7,63 14 100 24,68 7 5 55 114,4 20 54 118,9 8 Já os praticantes montados no Cavalo 2, obtiveram a média dos níveis de recrutamento muscular dos músculos paravertebrais e reto abdominais a ângulo de: 100° foi de 68,8 e 47,4 RMS, a 120° foi de 71,38 e 58,38 RMS, e a 140° foi de 26,4 e 11,2 RMS, respectivamente.
  4. 4. Tabela 2: Resultados obtidos dos músculos paravertebrais e reto abdominal no cavalo 2. Paravertebrais Retoabdominal 100º 120º 140º 100º 120º 140º 1 45 93,9 83 2 53,6 30 2 89 42 7 60 47,5 8 3 65 51,7 11 50 47,8 5 4 100 13,4 13 80 20 6 5 45 155,9 18 45 123 7 As musculaturas abdominais e paravertebrais lombares são importantes para a sustentação do tronco e, há muito, despertam interesse nos estudos relacionados à ativação muscular (Lehman e Mcgill 2001). Nota-se que os músculos paravertebrais lombares mostraram-se mais ativos em comparação ao reto abdominal nos dois cavalos e em todas as angulações. Também, no Cavalo 1, a angulação de 100° foi a que gerou na média maiores níveis de contração muscular dos músculos estudados. Já no Cavalo 2, a angulação de 120° foi a que mais elevou na média os níveis de contração muscular. Verifica-se também, que a angulação que gerou menos intensidade de contração muscular foi a de 140°. Em contra partida, o resultado de Corrêa et al. (2008) em sua pesquisa, que objetivava quantificar o recrutamento muscular dos músculos reto abdominal e paravertebrais lombares com e sem o uso dos estribos através de eletromiografia de superfície, constatou que quando utilizado os pés nos estribos houve um acionamento em média 9% maior de paravertebrais lombares se comparado ao praticante com os pés fora dos estribos, bem como acionamento em média 8% maior de reto abdominal com os pés fora dos estribos se comparado ao praticante com os pés nos estribos. Enquanto em nosso estudo houve uma tendência a maior ativação de ambas as musculaturas com menor angulação de estribo, Corrêa et al. (2008) verificou que os músculos reto abdominais obtiveram maior contração com angulação maior (pés fora dos estribos) e paravertebrais maior contração muscular com menor angulação (pés nos estribos). O músculo reto abdominal auxilia no posicionamento da pelve em retroversão, por sua vez, os paravertebrais lombares auxiliam a posicioná-la em anteversão (Kapanji, 2007; Smith et al., 1997). Sendo assim, quando o praticante apoia seus pés nos estribos, biomecanicamente ocorre o aumento da flexão de quadril, o que leva à retroversão pélvica. Com isso, na tentativa de restaurar o equilíbrio pélvico e retornar o mesmo para posição neutra, o acionamento dos músculos paravertebrais se tornam maiores. Em contrapartida, na ausência dos estribos o cavalheiro tende a ficar com menor flexão de quadril, próximo a posição neutra. Isso leva a anteversão pélvica, e na tentativa em ficar na posição neutra, ocorre um maior acionamento do músculo reto abdominal (Corrêa et al., 2008). Porém, nosso estudo constatou que os paravertebrais lombares apresentaram maior contração muscular independente da alteração de angulação de quadril. No estudo de Araujo et al. (2009), foi verificado que o uso de estribos mais baixos pode ser uma escolha adotada quando o objetivo do tratamento é a melhora do equilíbrio postural em ortostatismo, justificado pelo fato de que desse modo as articulações da cabeça, da coluna vertebral, ombros, quadris, joelhos e tornozelos ficam alinhadas. Verificamos que quanto mais baixos estiverem os estribos (140°), menor será a ativação muscular das musculaturas estabilizadoras de tronco. Tabela 3: Valores de média e desvio-padrão em relação aos ângulos de estribo. Retoabdominal Média DP Valor de p 100º 56,1 25,0 0,89 (100°-120°) 120º 53,3 39,1 0,04 (120°-140°)* 140º 11,9 10,6 0,08 (100°-140°) Paravertebral Média DP Valor de p 100º 73,6 26,9 0,89 (100°-120°) 120º 68,3 57,7 0,08 (120°-140°) 140º 26,7 31,7 0,14 (100°-140°)
  5. 5. Comparando os ângulos 100°X120°, 100°X140° e 120°X140° de cada um dos músculos utilizados na amostra, o único músculo que mostra significância estatística é o reto abdominal na comparação de ângulos 120°X140°. Onde foi verificado que a 140° o músculo reto abdominal apresentou um nível menor de contração da musculatura, em comparação com a angulação de 120° do estribo (p=0,04). Sugerem-se estudos adicionais a fim de obter mais detalhes sobre as diferentes angulações de estribos com um número maior de amostras, pois foram obtidos dois Valores-P de 0,08 para as comparações entre as angulações de 100°X140° de reto abdominais e 120°X140° em paravertebrais lombares. O Gráfico 1 mostra a comparação da contração muscular dos músculos reto abdominal e paravertebrais lombares do praticante no cavalo ao passo com diferentes posições de estribo. Gráfico 1: Comparação em dados gráficos das diferentes angulações de estribo do praticante. 4 CONCLUSÕES Pode-se concluir com este estudo, por meio de diferentes angulações de estribo, que há uma tendência de que quanto maior a angulação do estribo, menor contração de reto abdominal e paravertebrais. Porém, sugerem-se novos estudos relacionados às diferentes angulações de estribos com um tamanho maior de amostra. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO, T. B; SILVA, N. A; COSTA, J. N.; PEREIRA, M. M.; SAFONS, M. P. BASMAJIAN, J.V.; DE LUCA, C.J. Introduction to Surface Eletromyography. 5.ed. London: Wilkind, 1985. BEINOTTI, F.; CORREIA, N.; CHRISTOFOLETTI, G.; BORGES, G. Use of Hippotherapy in Gait Training for Hemiparetic Post-Stroke. 2010. BRASIL, A. Equoterapia. Disponível em: <http://www.equoterapia.org.br/site/equoterapia. php>. Acesso em: 31 mai. 2014. CLEMENTE, P. M.; SANTOS, L. P.; CHAVES, A. C.X.; FÁVERO, F. M.; FONTES S. V.; CAMPOS, M. F. C.R.; OLIVEIRA, A. S. B. A Equoterapia na Distrofia Muscular de Duchenne: Avaliação da Função, Equilíbrio e Qualidade de Vida- Revista de Neurociencia, p. 479-484, 2010. COPETTI, F.; MOTA, C.B.; GRAUP, S.; MENEZES, K.M.; VENTURINI, E.B. Comportamento Angular do Andar de Crianças com Síndrome de Down Após Intervenção com Equoterapia. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, v. 11, n. 6, p. 503-507, nov./dez. 2007. CORRÊA, P. F. L.; MORAIS, K. L.; MACHADO, G. M. W. Comparação da Atividade Eletromiográfica dos Músculos que Sustentam o Tronco Entre a Montaria Sobre a Sela e Sobre a Manta, e Analise da Utilização dos Estribos. IV Congresso Brasileiro de Equoterapia – I Congresso Latino-Americano de Equoterapia, 2008. DIAS, M. N. A.; FORTES, C. E. A.; DIAS, R. P. Atuação da Equoterapia na Espondilite Anquilosante. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 45, n. 2, p. XVII-XVIII, mar./abr. 2005. ESPINDULA, P. A; SIMÕES.M ; ASSIS, A. S. I; FERNANDES, A; FERREIRA, A.A; FERRAZ, F.P; CUNHA, C.I; FERRAZ, F.L.A; SOUZA, D. P.A.L; TEIXEIRA, A. P. V. Análise Eletromiográfica Durante Sessões de Equoterapia em Praticantes com Paralisia Cerebral. Con Scientia e Saúde, 2012; 11(4):668-676.
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