Artigo bioterra v16_n1_05

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Artigo bioterra v16_n1_05

  1. 1. REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228 Volume 16 - Número 1 - 1º Semestre 2016 HIPERTENSÃO E DIABETES NA POPULAÇÃO INDÍGENA E FATORES DE RISCO ASSOCIADOS Anapaula Martins Mendes1 ; Nádia Cristine Coelho Eugênio2 ; Fabio Rodrigues Trindade3 ; Heli da Silva Araújo Salles4 ; Rubens Alex de Oliveira Menezes5 ; Flávio Henrique Ferreira Barbosa6 RESUMO Os povos indígenas, no Brasil tem apresentado um momento de transição de perfil epidemiológico nos últimos anos. A hipertensão arterial sistêmica (HAS) e o diabetes mellitus (DM) são graves problemas de saúde pública no mundo, necessitando expandir os estudos relacionados ao tema e direcionar ações a saúde do adulto indígena no âmbito da atenção básica. O objetivo da pesquisa foi tentar conhecer os fatores de risco para HAS e DM e descrever a prevalência destes agravos observados em estudos anteriores. Foi realizada uma revisão sistemática nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde, sendo localizados documentos como artigos, teses e dissertações que subsidiaram a pesquisa. Nestes estudos a idade avaliada variou entre 18 a 69 anos, incluindo ambos os sexos, com objetivo de estabelecer parâmetros de identificação de situações de risco a estes agravos e a prevalência destes nos grupos analisados. A obesidade se fez presente em todos os estudos e sua prevalência variou entre 14,2 e 30,8%, sendo mais prevalente em mulheres, assim como a circunferência abdominal. Os demais fatores de risco relacionados à hipertensão e diabetes foram o envelhecimento populacional, processo de contato interétnico, restrição territorial, atividades de subsistência, organização da atenção em saúde, hábitos alimentares, conflitos sociais nas demarcações e níveis sócio- econômico. Apenas um dos estudos fez referência à relação dos agravos com o tabagismo e colesterol. A prevalência de hipertensão encontrada nos estudos varia entre 1,5 e 29,7% e o diabetes entre 1,5 e 4,5%. Estes resultados nos despertam para uma realidade nada heterogênea e que pode nos servir de instrumento regulador e direcionador das ações voltadas a prevenção das doenças crônicas não transmissíveis dentre estes povos. Palavras-chave: Hipertensão, Diabetes, Saúde Indígena, Fatores de Risco. HYPERTENSION AND DIABETES IN INDIGENOUS POPULATION AND ASSOCIATED RISK FACTORS ABSTRACT Indigenous peoples in Brazil has experienced a moment of transition epidemiological profile in recent years. Systemic hypertension (HBP) and diabetes mellitus (DM) are serious public health problems in the world, need to expand the studies related to the subject and direct actions the health of indigenous adults as part of primary care. The objective was to get to know the risk factors for hypertension and diabetes and describe the prevalence of these diseases observed in previous studies. A systematic review on the Virtual Library databases in Health was held, being located documents such as articles, theses and dissertations that supported the research. In these studies evaluated the age ranged from 18 to 69 years, including both sexes, in order to establish risk situations identification parameters to these diseases and the prevalence of these in the analyzed groups. Obesity was present in all studies and its prevalence varied between 14.2 and 30.8%, being more prevalent in women as well as waist circumference. The other risk factors related to hypertension and diabetes were the aging population, interethnic contact process, territorial restrictions, subsistence activities, the health care organization, eating habits, social conflicts in the demarcation and socio-economic levels. Only one of the studies referred to the list of diseases with smoking and cholesterol. The prevalence of hypertension found in studies varies between 1.5 and 29.7% and diabetes 1.5 to 4.5%. These results in awake for nothing heterogeneous reality and can serve as the regulatory instrument and driver of actions aimed at prevention of chronic diseases among these people. Keywords: Hypertension, Diabetes, Indigenous Health, Risk Factors. 43
  2. 2. INTRODUÇÃO Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje, no Brasil, vivem quase 900 mil índios, cerca de 0,4% da população brasileira, segundo dados do censo realizado em 2010. Esta população compreende 305 etnias que falam 274 idiomas e está distribuída em 505 Terras Indígenas e, também, em áreas urbanas, com registro de 77 referências de grupos indígenas não contatados ou isolados, das quais 30 foram confirmadas. De acordo com Brasil (2013) existem ainda grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal indigenista. A língua indígena, hoje, é uma das características culturais mais fortes, na maioria das populações indígenas brasileiras, estima-se que cerca de 1.300 línguas indígenas diferentes eram faladas no Brasil há 500 anos. Os indígenas vivem em diversos pontos do território brasileiro e representam, em termos demográficos, um pequeno percentual da população de mais de 200 milhões de habitantes do Brasil. Todavia é um exemplo concreto e significativo da grande diversidade cultural existente no País. Segundo Gimeno (2010), houve uma ampla discussão sobre a presença das doenças crônicas degenerativas nas populações indígenas durante a Primeira Conferência sobre o Diabetes Mellitus (DM) entre os Povos Indígenas, que ocorreu em 2006, na Austrália, e a preocupação em relação à frequência com que o DM acomete estas populações em diversas partes do mundo. De forma semelhante ao observado nos demais grupos populacionais, os fatores de risco estão relacionados às mudanças de hábito, particularmente a dieta e o grau de atividade física. Para Cardoso (2001) os estudos realizados nas populações indígenas têm demonstrado a ocorrência de aumento de doenças cardiovasculares, de diabetes e de transtornos mentais em razão do processo de crise de identidade cultural e das mudanças de hábitos. Podemos observar a presença do contato interétnico em diversas comunidades indígenas no Brasil, algumas populações até consideradas “urbanizadas”, o que interfere de diferentes maneiras nos aspectos de vida desta população. Entre as mudanças observadas que podemos destacar estão o consumo de produtos industrializados, aumento na ingestão de sódio, açúcar e alimentos ricos em gorduras saturadas e hidrogenada e o consumo de bebidas alcoólicas. A maioria das ações vinculadas à saúde indígena, hoje, estão, de forma pragmática, voltadas ao programa de imunizações e à saúde da criança, devido ao histórico processo de contato e inserção das doenças no meio indígena, no qual o perfil epidemiológico das comunidades era bastante distinto do que vemos hoje devido ao período mais avançado de contato interétnico. Anteriormente as doenças prevalentes eram as respiratórias, gastroenterites, infecto- parasitárias, diarreias e desnutrição. Ainda temos a presença destas doenças, mas vemos o perfil mudando ano após ano, e dentro das novas doenças estão inseridas as doenças crônicas não transmissíveis como diabetes e hipertensão arterial, cânceres entre outras (BASTA; ORELLANA; ARANTES, 2012). Temos alguns estudos vinculados à saúde indígena buscando a situação destas doenças dentro das comunidades e é importante que saibamos que dados foram encontrados nestes estudos a fim de poder subsidiar novas ações e propostas voltadas à saúde indígena. Bloch (1993) discute como imperativo, ainda àquela época, avaliar e monitorar as variáveis ou fatores de risco que se identificam a partir do processo interétnico, entre estes povos, a fim de prevenir o aparecimento das doenças crônicas não transmissíveis, como a diabetes e a hipertensão arterial. O objetivo principal do trabalho é reconhecer estes fatores de risco para hipertensão e diabetes entre os povos indígenas realizando uma revisão sistemática dos estudos vinculados a estes agravos no âmbito da saúde indígena nos últimos anos e descrever as prevalências encontradas entres estes povos nestes estudos, assim como os fatores de risco que mais se destacam.
  3. 3. METODOLOGIA Para o desenvolvimento do trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica, utilizada a fonte de dados disponibilizada na Biblioteca Virtual em Saúde, motivada pelo entendimento de que esta biblioteca eletrônica representa uma fonte acessível de consulta para profissionais de saúde e compreende parte importante da produção científica nacional qualificada. Os descritores utilizados foram, em inglês, “hipertension and diabetes and indigenous”, “indigenous health”, “aboriginal people and diabetes” e “indigenous people”- foram encontrados 578 artigos, teses e dissertações ao todo, sendo avaliados 23 destes documentos, considerando que os demais tratavam de especificidades de outros países e não tinham relação com o tema. Não houve distinção de idioma. Deste total avaliado foram revisados nove documentos, que tratavam especificamente da temática da hipertensão e diabetes vinculada ao cálculo da prevalência e a relação com fatores de risco, na saúde indígena, no Brasil. Na delimitação do período, foram utilizados os artigos escritos a partir de 1999, período de implantação do subsistema de saúde indígena e que é marcado pelo início de ações de saúde que fugia do modelo biomédico campanhista e assistencialista no período em que a FUNAI desenvolvia ações em saúde e da abertura para uma proposta de um novo modelo de atenção, que buscava se estruturar com base na promoção da saúde e na prevenção das doenças e inicia um processo de aprimoramento dos registros de dados e informações em saúde até o ano de 2012. A partir da criação do subsistema de saúde indígena, foi criada a Política Nacional de Saúde Indígena. O propósito desta política foi o de garantir aos povos indígenas o acesso à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política de modo a favorecer a superação dos fatores que tornam essa população mais vulnerável aos agravos à saúde de maior magnitude e transcendência entre os brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina e o direito desses povos à sua cultura (BRASIL, 2000). Quanto aos aspectos éticos o presente trabalho trata de uma revisão sistemática de pesquisas anteriormente executadas, sendo estes, considerados dados primários, utilizados para mera análise documental onde é possível identificar o que já foi estudado e os resultados obtidos nestes estudos. Portanto não fere nenhum dos princípios éticos referenciados na Resolução 466/2012, que trata da normatização, regulamentação e das diretrizes na pesquisa envolvendo seres humanos. Ou ainda, a Resolução 304/2000 que trata das pesquisas envolvendo populações indígenas. O estudo trata de uma revisão de literatura, realizada de forma sistemática, com o objetivo de analisar crítica e descritivamente os dados encontrados nas publicações encontradas relacionadas com o tema. DISCUSSÃO E RESULTADOS A hipertensão arterial sistêmica (HAS), também, popularmente conhecida, como pressão alta, se traduz numa alteração nos níveis pressóricos arteriais, ao verificarmos este com um esfignomanômetro, de acordo com técnica estabelecida, por profissional capacitado. Para se definir hipertensão arterial, segundo a JNC, a pressão arterial sistólica (PAS) deve ser maior ou igual a 140 mmHg e a pressão arterial diastólica(PAD) deve ser maior ou igual a 90mmHg; em indivíduos adultos que não façam uso de medicamentos anti-hipertensivos (BRASIL, 2006a). A hipertensão arterial, além de ser considerado um agravo à saúde também é considerado como fator de risco para outros agravos relacionados às alterações vasculares decorrentes dos níveis tensionais cronicamente elevados. Cerca de 62% das doenças cerebrovasculares, 49% das doenças isquêmicas do coração e 7,1 milhões de mortes anuais no mundo são atribuíveis à hipertensão arterial (WHO, 2002). Diabetes Mellitus (DM) é uma doença metabólica caracterizada pelo aumento anormal da glicose (hiperglicemia) no sangue. É uma doença associada a complicações graves e que pode resultar de defeitos de secreção e/ou ação da insulina – responsável pela metabolização da glicose no sangue – por processos patogênicos
  4. 4. específicos, como falha na produção da insulina pelo pâncreas (BRASIL, 2006b). Ainda, de acordo com os Cadernos de Atenção Básica do Ministério da Saúde, o DM pode ser classificada em diabetes do tipo 1 e diabetes do tipo 2. A de tipo 1 se caracteriza pela deficiência do pâncreas em produzir insulina, este tipo compreende cerca de 10% da população e, geralmente, acomete crianças e adolescentes e o uso da insulina é necessário. Já a do tipo 2, também conhecida como diabetes do adulto, por acometer, principalmente esta população é caracterizada por uma deficiência relativa na produção de insulina. O critério laboratorial para diagnóstico do DM, segundo a OMS, se caracteriza pelas alterações nos níveis de glicose, seguindo os seguintes valores: Glicemia casual: maior ou igual a 200mg/dL; Glicemia de jejum: maior ou igual a 126mg/dL; Glicemia de 2horas: maior ou igual a 200mg/dL. Em todos os casos de alteração nos níveis de glicose os exames devem ser repetidos para que, então, seja dado o diagnóstico confirmatório. A hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus são graves problemas de saúde pública, hoje, no Brasil e no mundo. A HAS é caracterizada como a doença cardiovascular mais frequente e um dos maiores fatores de risco para estas doenças, já o DM vem se configurando como “epidemia mundial”, associada às mudanças de hábito e de estilo de vida da população, assim como a HAS. A HAS caracteriza-se como uma das causas de maior redução de qualidade e expectativa de vida dos indivíduos (BRASIL, 2011). A DM tem-se mostrado, em diversos estudos, cada vez mais incidente e preocupante devido às suas graves complicações. Sua prevenção, assim como a da HAS, tem sido prioridade na saúde pública, segundo o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis no Brasil, elaborado pelo MS, 2011 – 2022. O plano descreve as ações que deverão ser executadas, nos próximos dez anos, voltadas ao enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis como: acidente vascular cerebral, infarto, hipertensão arterial, câncer, diabetes e doenças respiratórias crônicas. Estas doenças são consideradas o problema de saúde pública de maior magnitude no país, correspondendo a altos índices de mortalidade (cerca de 70%) em grupos considerados vulneráveis como população de baixa renda e escolaridade, este índice apresentou, na última década, uma redução de quase 20% nestas taxas de mortalidade, sendo este resultado atrelado às ações da atenção básica e aumento de ações que visem à redução do hábito de fumar. (BRASIL, 2011). Segundo MS, para HAS, alguns fatores de risco devem ser considerados quando da análise da doença: a questão étnica, o consumo exagerado de sódio; obesidade, o uso de álcool, sedentarismo, fatores genéticos e a idade, além do uso de anticoncepcionais e o diagnóstico de diabetes mellitus. Quanto aos fatores de risco para DM, outros fatores estão envolvidos, dentre eles: idade maior que 45 anos; IMC maior ou igual a 25; Obesidade central – circunferência abdominal maior que 102 para homens e maior que 88 para mulheres; Antecedentes familiares da doença; Hipertensão arterial sistêmica; Colesterol HDL d”35mg/dL e/ou triglicerídeos e”150mg/dL; História de macrossomia ou diabetes gestacional; Diagnóstico prévio de síndrome de ovários policísticos; Doenças cardiovasculares, cerebrovasculares ou vascular periférica definida. Quanto aos fatores de risco destacados no Brasil para estes agravos foram descritos os baixos níveis de atividade física no lazer na população adulta (15%) e o consumo de frutas e hortaliças, apenas 18,2% consomem cinco porções em cinco ou mais dias por semana. O alto consumo de alimentos com alto teor de gordura e de refrigerantes em cinco ou mais dias da semana 34% e 28%, respectivamente. Estes hábitos contribuiriam para o aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade, que atingem 48% e 14% dos adultos, respectivamente (BRASIL, 2011). - Transição Epidemiológica no Brasil e na Saúde Indígena Em 1930, as doenças infecciosas e parasitárias respondiam por 45% das mortes no Brasil. Em 2009 este perfil é apresentado de outra forma e as doenças do aparelho circulatório e as neoplasias são os agravos mais relacionados à mortalidade no país - 48% dos
  5. 5. óbitos. Contudo em 1998 outros estudos epidemiológicos já apresentavam as doenças crônicas como responsáveis por 66% de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade, contrastando com 24% de doenças infecciosas, maternas, perinatais e deficiências nutricionais e 10% de causas externas. Entre as doenças crônicas, tiveram destaque os transtornos neuropsiquiátricos (19%), as doenças do aparelho circulatório (13%), as doenças respiratórias crônicas (8%), os cânceres (6%), as doenças musculoesqueléticas (6%) e diabetes (5%) (SCHRAMM et al., 2004). Esta mudança no perfil epidemiológico no país pode ser observada nos últimos dez anos, também, na saúde indígena, porém ainda há, entre os povos indígenas, predominância das doenças infectoparasitárias como tuberculose e malária, sendo a principal causa de morte as causas mal definidas, caracterizando, talvez, um problema de registros; seguida de causas externas, doenças respiratórias e doenças endócrinas e metabólicas. (BASTA; ORELLANA; ARANTES, 2012). Podemos visualizar então uma mudança no perfil de morbimortalidade indígena no Brasil, que historicamente tem sido dominado pelas doenças infecciosas e parasitárias. No passado, epidemias de viroses, como gripe e sarampo, chegavam a dizimar milhares de indivíduos num curto intervalo de tempo, exterminando aldeias inteiras ou reduzindo drasticamente o número de habitantes, o que comprometia a continuidade cultural e social dos grupos atingidos (RIBEIRO, 1977). Cardoso (2001) atribuiu esta distribuição desigual das doenças crônicas e degenerativas aos diferentes graus de transformação social em diversas populações, incluindo indígenas (CARDOSO, 2001). O que nos faz pensar como os indicadores de doenças têm sido modificados, dentro da saúde indígena, frente às alterações e inserções de determinantes antes não vistos dentre estas populações. No período da colonização os Europeus tinham uma percepção do indígena como ser de corpo saudável, com uma longa estimativa de vida e que na verdade estava fortemente relacionado a um “anseio romântico” frente à realidade europeia na época que era caracterizada por grandes epidemias e uma estimativa de vida extremamente baixa. Contudo, neste mesmo período os povos indígenas que viviam no Brasil foram quase que praticamente dizimados por epidemias trazidas pelos colonizadores, assim como as matanças caracterizadas pela tomada de terras. As doenças infectoparasitárias e virais foram as principais doenças trazidas pelos primeiros contatos a esta população. A diversidade sociocultural destes povos impossibilita caracteriza-los de forma generalizada, assim como padronizar os riscos e as ações de prevenção, como descreve a Política Nacional de Atenção aos Povos Indígenas. Contudo as doenças crônicas não transmissíveis tem surgido, também, dentre esta população e faz com que alguns pesquisadores direcionem seus estudos a este problema, em especial a hipertensão arterial e a diabetes. As desigualdades sociais, as diferenças no acesso aos bens e aos serviços, a baixa escolaridade, as desigualdades no acesso à informação, além dos fatores de risco modificáveis, como tabagismo, consumo de bebida alcoólica, inatividade física e alimentação inadequada, são considerados determinantes sociais das doenças crônicas não transmissíveis; reconhece-los como predisponentes dos fatores de risco associados a estas doenças torna possível penar estratégias vinculadas a sua prevenção (BRASIL, 2011). Estes determinantes podem ser vistos entre diversos grupos indígenas, o processo de contato interétnico tem gerado um padrão de desigualdades não somente na área da saúde, mas no amplo contexto de vida destes povos. Da contaminação ambiental, condições de saneamento precárias, diminuição da sustentabilidade alimentar, do amplo processo de marginalização, miséria, falta de perspectivas, urbanização, entre outros fatores, temos como consequência distúrbios nutricionais, anemia e obesidade, por exemplo, dentre outros distúrbios metabólicos, como diabetes; violência, droga dicção, doenças sexualmente transmissíveis e fome. Enquanto anteriormente os determinantes vinham estreitados pela relação cultural e de percepção e conceito de saúde doença, associados a visão de mundo de cada povo indígena, isto vem sendo substituído por ações externas, de contato, de ambiente, etc. Existe forte evidência de correlação entre os
  6. 6. determinantes sociais, como educação, ocupação, renda, gênero e etnia, com a prevalência das doenças crônicas não transmissíveis e seus fatores de risco (WHO, 2008). No Brasil, os processos de transição demográfica, epidemiológica e nutricional, a urbanização e o crescimento econômico e social foram relacionados com a maior predisposição ao desenvolvimento de doenças crônicas, sendo assim, grupos étnicos e raciais menos privilegiados, como a população indígena, têm tido participação desproporcional nesse aumento verificado na carga de doenças crônicas (SCHIMDT et al, 2011). - Prevalência da Diabetes mellitus e da hipertensão arterial sistêmica Dentre os estudos avaliados podemos observar que tratam da análise da prevalência da diabetes mellitus e da hipertensão arterial sistêmica e outros fatores de risco para doenças cardiovasculares, se utilizando da aferição padronizada dos níveis tensionais e através de aparelhos portáteis dos níveis glicêmicos, de colesterol, em sua maioria utilizando como base o que vem sendo preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Joint National Committee (JNC). Alguns destes estudos fizeram avaliação do IMC, avaliação da circunferência abdominal e também da razão cintura-quadril, como potenciais fatores de risco para estes agravos. Os resultados se apresentam como reflexo da ampla discussão de mudanças de perfil nutricional e epidemiológico que vem sofrendo os povos indígenas em nosso país, como citado anteriormente. Apontam os determinantes relacionados ao processo interétnico em diversas etnias, pertencentes às regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Tavares (2010) e Lima (2007) apontam para os claros indícios de uma transição epidemiológica em curso e caracteriza a HAS e a DM como problemas emergentes, também na saúde indígena. A população avaliada variou entre 18 a 69 anos e 20 anos e mais, apenas o Inquérito Nacional de saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, realizado nos anos de 2008 e 2009, com o objetivo de descrever a situação alimentar e nutricional e seus fatores determinantes avaliou crianças, até 60 meses, e mulheres, com idade entre 14 e 49 anos (FUNASA, 2010). As etnias inseridas nos estudos foram: Suruí de Rondônia; Tupiniquins e Guarani no Espírito Santo; Terena, Guarani e Caiuá no Mato Grosso do Sul; Fulni-ô, Pipipan, Atikun, Xukuru, Kambiwá, Pankararu, Kapinawá, Truká e Pankará de Pernambuco e Guarani do Rio de Janeiro. Os fatores de risco relacionados foram, principalmente a obesidade, sendo que todos os estudos fazem a avaliação do peso, altura e posterior cálculo do índice de massa corporal para poder obter a avaliação nutricional dos indivíduos estudados. É claro que a obesidade se fez presente em todos eles entre altos e baixos percentuais, variando de acordo com a etnia avaliada, encontrando prevalências entre 14,2 e 30,8%, sendo mais prevalente entre as mulheres, nestes estudos. Além da obesidade outro fato importante de risco para diabetes e hipertensão e que foi avaliado e alguns destes estudos foi a circunferência abdominal ou perímetro da cintura, que também se faz mais presente em mulheres e está intrinsecamente relacionada com a hipertensão arterial elevada é importante fator de risco para diabetes. Tavares (2010) traz como resultado o aumento da circunferência abdominal e da razão cintura quadril, fato mais prevalente em mulheres, relacionado com o aumento dos níveis tensionais. Lima (2007) em seu estudo utiliza um instrumento que apoia no apontamento dos possíveis determinantes para as DCNT, através de um estudo quantitativo, descritivo e observacional, onde elaborou um diagnóstico sistemático dos possíveis determinantes para estas doenças e sua relação com características socioculturais e históricas. Neste estudo ela aponta os seguintes determinantes: - Aspectos demográficos; - Contato interétnico; - Restrição territorial; - Atividades de subsistência; - Organização da atenção em saúde; - Hábitos alimentares; - Conflitos sociais nas demarcações. Além de todos estes determinantes o estudo de Tavares (2010) traz outro fator de
  7. 7. METODOLOGIA Para o desenvolvimento do trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica, utilizada a fonte de dados disponibilizada na Biblioteca Virtual em Saúde, motivada pelo entendimento de que esta biblioteca eletrônica representa uma fonte acessível de consulta para profissionais de saúde e compreende parte importante da produção científica nacional qualificada. Os descritores utilizados foram, em inglês, “hipertension and diabetes and indigenous”, “indigenous health”, “aboriginal people and diabetes” e “indigenous people”- foram encontrados 578 artigos, teses e dissertações ao todo, sendo avaliados 23 destes documentos, considerando que os demais tratavam de especificidades de outros países e não tinham relação com o tema. Não houve distinção de idioma. Deste total avaliado foram revisados nove documentos, que tratavam especificamente da temática da hipertensão e diabetes vinculada ao cálculo da prevalência e a relação com fatores de risco, na saúde indígena, no Brasil. Na delimitação do período, foram utilizados os artigos escritos a partir de 1999, período de implantação do subsistema de saúde indígena e que é marcado pelo início de ações de saúde que fugia do modelo biomédico campanhista e assistencialista no período em que a FUNAI desenvolvia ações em saúde e da abertura para uma proposta de um novo modelo de atenção, que buscava se estruturar com base na promoção da saúde e na prevenção das doenças e inicia um processo de aprimoramento dos registros de dados e informações em saúde até o ano de 2012. A partir da criação do subsistema de saúde indígena, foi criada a Política Nacional de Saúde Indígena. O propósito desta política foi o de garantir aos povos indígenas o acesso à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política de modo a favorecer a superação dos fatores que tornam essa população mais vulnerável aos agravos à saúde de maior magnitude e transcendência entre os brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina e o direito desses povos à sua cultura (BRASIL, 2000). Quanto aos aspectos éticos o presente trabalho trata de uma revisão sistemática de pesquisas anteriormente executadas, sendo estes, considerados dados primários, utilizados para mera análise documental onde é possível identificar o que já foi estudado e os resultados obtidos nestes estudos. Portanto não fere nenhum dos princípios éticos referenciados na Resolução 466/2012, que trata da normatização, regulamentação e das diretrizes na pesquisa envolvendo seres humanos. Ou ainda, a Resolução 304/2000 que trata das pesquisas envolvendo populações indígenas. O estudo trata de uma revisão de literatura, realizada de forma sistemática, com o objetivo de analisar crítica e descritivamente os dados encontrados nas publicações encontradas relacionadas com o tema. DISCUSSÃO E RESULTADOS A hipertensão arterial sistêmica (HAS), também, popularmente conhecida, como pressão alta, se traduz numa alteração nos níveis pressóricos arteriais, ao verificarmos este com um esfignomanômetro, de acordo com técnica estabelecida, por profissional capacitado. Para se definir hipertensão arterial, segundo a JNC, a pressão arterial sistólica (PAS) deve ser maior ou igual a 140 mmHg e a pressão arterial diastólica(PAD) deve ser maior ou igual a 90mmHg; em indivíduos adultos que não façam uso de medicamentos anti-hipertensivos (BRASIL, 2006a). A hipertensão arterial, além de ser considerado um agravo à saúde também é considerado como fator de risco para outros agravos relacionados às alterações vasculares decorrentes dos níveis tensionais cronicamente elevados. Cerca de 62% das doenças cerebrovasculares, 49% das doenças isquêmicas do coração e 7,1 milhões de mortes anuais no mundo são atribuíveis à hipertensão arterial (WHO, 2002). Diabetes Mellitus (DM) é uma doença metabólica caracterizada pelo aumento anormal da glicose (hiperglicemia) no sangue. É uma doença associada a complicações graves e que pode resultar de defeitos de secreção e/ou ação da insulina – responsável pela metabolização da glicose no sangue – por processos patogênicos
  8. 8. estas peculiaridades, que estão fortemente ligadas e relacionadas ao processo de adoecimento de determinado povo indígena. Apesar de termos um prévio parecer em relação às situações que permeiam a presença de doenças como o diabetes e a hipertensão entre os povos indígenas, no Brasil, precisamos ampliar os estudos relacionados com estes problemas de saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTA PC, ORELLANA JDY, ARANTES R. Perfil epidemiológico dos povos indígenas no Brasil: notas sobre agravos relacionados. In: GARNELO, L; PONTES, A L. Saúde Indígena: uma Introdução ao Tema. Brasília: MEC/ SECADI; 2012. BARUFALDI, L.A. Índice de massa corporal e valores de impedância bioelétrica de crianças e adolescentes indígenas Kaingang, Rio Grande do Sul, Brasil. Dissertação de Mestrado. UFRGS. Porto Alegre, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica n° 15. Hipertensão Arterial Sistêmica. Secretaria de Atenção Básica. Departamentos de Atenção Básica. Brasília: MS, 2006a. ________. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica n° 16. Diabetes Mellitus. Secretaria de Atenção Básica. Departamentos de Atenção Básica. Brasília: MS, 2006b. ________. Fundação Nacional de Saúde. Política Nacional de Atenção a Saúde dos Povos Indígenas. Brasília: Ministério da Saúde, 2000. ________. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil. Departamento de Análise de Situação em Saúde. Brasília. 2011. ________. Ministério da Justiça. Fundação Nacional do Índio: Índios no Brasil. 2013. Disponível em: <http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no- brasil/quem-sao> Acesso em 08/06/2013 as 08:56. 2013. BLOCH, K.V.; COUTINHHO, E.S.F.; LOBO, M.E.C.; OLIVEIRA, J.E.P.; MILECH, A. Pressão Arterial, Glicemia Capilar e Medidas Antropométricas em uma População Yanomami. Cad. de Saúde Pública. 1993; 9: 428-438. CARDOSO, A.M.; MATTOS, I.; KOIFMAN, R. Prevalência de Fatores de Risco para Doenças Cardiovasculares na População Guarani-Mbya do Estado do Rio de Janeiro. Cad. de Saúde Pública. 2001; 17(2):345-354. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Resolução Nº 466/12 Aprova e regulamenta a pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil. 2012. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Resolução Nº 304/00 Aprova e regulamenta a pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil – Área Povos Indígenas. 2000. FUNASA. Fundação Nacional de Saúde. I Inquérito de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas. Brasil, 2010. GIMENO, S.G.A. Transição Epidemiológica e Nutricional em Povos Indígenas: uma epidemia também em nosso meio. 2010. Disponível em: <http://www.diabetes.org.br/colunistas-da- sbd/nutricao-e-ciencia/489-transicao- epidemiologica-e-nutricional-em-povos- indigenas-uma-epidemia-de-diabetes-tamebm- em-nosso-meio> Acesso em 11/06/2010 as 10:23H. 2010. LIMA, T.F.P. Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANTs) e seus Determinantes: um estudo de novos padrões de mortalidade em indígenas de Pernambuco. Trabalho de Conclusão de Curso. Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães. Fio Cruz. Recife, 2007. MEYERFREUND, D. Estudo da Hipertensão Arterial e de outros Fatores de Risco Cardiovascular nas Comunidades Indígenas do
  9. 9. Espírito Santo-BR. Tese de Doutorado. Univ Federal do Espírito Santo. Vitória, 2006. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Conselho Nacional de Saúde. Resolução 304 de 09 de agosto de 2000: Aprova normas para pesquisas envolvendo seres humanos – Área de Povos Indígenas. Brasil, 2000. OLIVEIRA, G.F. Prevalência do Diabetes Mellitus e Tolerância Diminuída à Glicose, na População Indígena, de 18 a 69 anos de idade, na Aldeia Jaguapiru, Dourados-MT, Brasil. Dissertação. Universidade de Brasília. Brasília, 2009. RIBEIRO, D. Os Índios e a Civilização: a integração das populações indígenas no Brasil Moderno. Petrópolis, RJ. Vozes. 1977. ROCHA, A.K.S.; BOS, A. HUTTNER, É.; MACHADO, D.C. Higher Prevalence of Metabolic Syndrome in Adult and Ederly Indigenous People from South of Brazil. Rev Panam de Salud Publica 2011:29(1):41–5. SCHIMDT, M. I.; DUNCAN, N.B.B.; SILVA, A.G.A.; MENEZES, A.M.; MONTEIRO, C.A.; BARRETO, S.M.; CHOR, D.; MENEZES, P.R. Health in Brazil 4. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. The Lancet. 2011, n. 377. SCHIMDT, M.I.; DUNCAN, B.B.; HOFFMAN, J.F.; MOURA, L.; MALTA, D.C.; CARVALHO, R.M.S. Prevalência de Diabetes e Hipertensão no Brasil baseada em inquérito de morbidade auto-referido, Brasil, 2006. Revista de Saúde Pública. 2009:43(sup2):74-82. SCHRAMM. J.M. OLIVEIRA A.F. LEITE I. C. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doenças no Brasil. Rev Ciência Saúde Coletiva. 2004, n. 9, p. 897-908. TAVARES, F.G. Epidemiologia da Hipertensão Arterial e Níveis Tensionais em Adultos Indígenas Suruí, Rondônia, Brasil. Dissertação. ENSP/Fio Cruz. Rio de Janeiro, 2010. WHO. The World health report 2002: Reducing risks, promoting healthy life. Geneva: World Health Organization, 2002. WHO. Closing the gap in generation health equality through action on the social determinants of health. Commission on Social Determinants of Health Final Report. Geneva: World Health Organization, 2008. _____________________________________ 1- Enfermeira. Especialista em Saúde Indígena. Mestre em Saúde Coletiva. Docente do quadro efetivo da Universidade Federal do Amapá. 2- Enfermeira. Especialista em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde. Docente do quadro efetivo da Universidade Federal do Amapá. 3- Enfermeiro. Mestre em Gerontologia e Geriatria. Docente do Ensino Superior na Universidade Federal do Amapá. 4- Odontólogo. Especialista em Saúde Coletiva. Mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia. Doutorando em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários. Docente do quadro efetivo da Universidade Federal do Amapá. 5- Enfermeiro. Especialista em Microbiologia pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR; Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade META e Mestre em Ciência da Saúde - Macapá (AP), Brasil. 6- Professor Adjunto A - Nível 1 (Dedicação Exclusiva) da Universidade Federal de Sergipe - UFS, vinculado ao Departamento de Morfologia na Área de Conhecimento: Microbiologia e Imunologia. Fonte de Financiamento: Financiado pelos Proponentes da Pesquisa. Correspondência: Rubens Alex de Oliveira Menezes – Laboratório Central de Saúde Pública de Macapá – LACEN (AP). Endereço: Avenida Tancredo Neves, 1118. Bairro: São Lázaro, CEP - 68908-530, Setor de Bacteriologia, Tel: 32126175∕81311306∕32235534, Macapá – AP, Brasil. E-mail: ra-menezes@hotmail.com 51

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