Criat10.

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Criat10.

  1. 1. Trabalho e lazer: uma união criativa Prazer é o melhor combustível de trabalho na era pós-industrial FABÍOLA AMARAL, IZABEL ROIZEN E JOANA VIEIRA Nos produtores, ócio é produtivo; e nenhum que precisa entregar no fim do dia. Faz algumas anotações e, finalmente, se senta em frente ao com- criador, de qualquer magnitude que seja, putador para concretizar a obra. Você já está em jamais foi capaz de pular esse estágio mais ritmo de trabalho. do que uma mãe pode pular a gestação. Este deve ser o sonho de muita gente e é também Jacques Barzun a descrição do ideal de um trabalhador moderno. Ou seria melhor dizer pós-moderno? Vivemos na era pós-industrial. Ao mesmo tempo em que a À s dez horas da manhã você acor- sociedade da informação se instaura, ainda esta- da. Toma o café ainda de pijama. mos sob a pressão da produção industrial. Apesar Lê alguns jornais. Confortavel- de tantas transformações, o tempo ainda é escasso. mente acomodado numa poltro- Cada vez mais, a criatividade se apresenta como na, você começa a organizar suas o valor máximo desse novo mundo. Dizem que tarefas. Ouvindo uma boa música, se lembra das daqui a algum tempo ela será a única capaz de idéias que teve na noite anterior para aquele texto manter os nossos empregos. Até porque as má- “Se a necessidade é a mãe das invenções, o ócio é o pai das idéias” DOMENICO DE MASI Condensar estudo, máquinas. Com mais agilidade e labor e lazer. “Você pode sair trabalho e prazer. É velocidade na produção, o tempo daqui, ir ao cinema, fazer amor, o que propõe o livre se estende e abre espaço passear, dormir, mas ainda assim, sociólogo italiano para o ócio criativo. E isso está vai estar pensando no artigo que Domenico de Masi distante de significar preguiça, tem que escrever”, exemplifica. com a teoria do ócio criativo. Ele sedentarismo ou alienação. Uma Ser feliz com o desempenho pro- não prega a diminuição das horas analogia possível, segundo o fissional é o caminho para elevar trabalhadas, mas que a respon- sociólogo, seria a do poeta deita- a qualidade de vida. sabilidade não seja tão estafante. do numa rede, compondo seus A teoria do italiano aponta um Só poderemos atingir um nível versos mentalmente. ideal de sociedade para uma melhor de bem estar e felicidade De Masi afirma que o único meio nova ordem econômica, política quando nos dermos o luxo de ter de gerar idéias geniais é através do e social. No entanto, algumas nas atividades criativas o nosso ócio criativo. O ritmo acelerado de e m p resas já funcionam com no- maior tempo gasto, em que tra- trabalho imposto pela sociedade vos modelos de trabalho, per- balho formal e tempo livre se industrial, que ainda resiste, não mitindo que funcionários desen- confundam. oferece ao homem tempo para volvam suas atividades em casa, O avanço tecnológico promove que possa se desenvolver como um no conceito home off i c e, ou que uma constante substituição do todo. Não é mais possível haver tenham horários flexíveis de trabalho braçal pelo uso das uma separação estanque entre expediente. Janeiro/Junho 2004 56
  2. 2. quinas já fazem quase todo o trabalho braçal. Mas, lizar o seu tempo livre para acumular conhecimen- não há como nos tornarmos criativos sem termos a to e fertilizar novas idéias. Saber escolher um bom oportunidade de vivenciar experiências prazerosas filme, um bom livro e estar aberto a boas relações e construtivas. de amizade são grandes elementos para a troca e  O sociólogo italiano Domenico fruição de experiências, alimen- de Masi desenvolveu a teoria do tando a criatividade e o espaço de Ócio criativo – um sincretismo reflexão e crítica. entre trabalho, aprendizado e pra- A professora da PUC-Rio Karina O ócio criativo zer, para que o homem se desen- Kuschnir, doutora em antropologia volva em todas as suas condições e associa trabalho, social, aponta a importância de tenha um aproveitamento inteli- aprendizado e prazer reservar um tempo para sentir-se gente e construtivo do tempo. Ele ao aproveitamento bem fazendo o que se gosta, para aposta numa sociedade em que as aprender e refletir. Segundo ela, a pessoas aprendam a ocupar o inteligente do tempo repetição automática das ativida- tempo com atividades que tragam des diárias leva à robotização do satisfação e agreguem valor. ser humano. Conversar sobre diferentes assuntos e Na era da informação, o poder não está mais vin- contemplar a arte ajudam a desacelerar e a desen- culado aos donos dos meios de produção de bens volver o pensamento. materiais, como na sociedade industrial, mas à pro- dução de valores, símbolos, serviços, design, estética O problema do lazer e conhecimento. A sociedade das idéias passa, Muitas áreas de estudos dedicam-se à pesquisa da então, a exigir ainda mais da inovação e da cria- função social do lazer. O que fazer com o tempo tividade. Diante desta perspectiva, a educação para que sobra? O simples fato dessa preocupação exis- criação e empreendedorismo assume um papel fun- tir revela que o homem está consciente de sua damental na formação de pessoas que saibam uti- autonomia para aproveitar o tempo livre sem o Nem sempre o trabalho dignificou o homem A visão positiva do trabalho é trabalhador era o mesmo que per- Com o ressurgimento das ci- muito recente na história da tencer a uma hierarquia inferior. dades na Europa, o trabalho humanidade. No século XVII, o Os nobres, que se consideravam assalariado passa a ser uma matemático e filósofo René Des- superiore não praticavam nen- s, opção para os trabalhadores que cartes declarava não dedicar hum ato que fosse próprio dos fogem das propriedades feudais. muito tempo do seu dia ao tra- estamentos mais baixos. Para eles Este é pelo menos um efeito balho. Dizia ocupar mais horas isso seria o mesmo que atentar colateral desta modalidade de do dia com os afazeres cotidi- contra a própria natureza, que trabalho. anos. Para um homem que colocou os senhores da terr a Os golpes finais na concepção gostava de acordar depois do acima dos outros homens. pejorativa do trabalho são, po- meio-dia, talvez isso fosse ver- Os primeiros a terem uma visão liticamente, a Revolução France- dade. No entanto, com sua positiva do trabalho são os mer- sa e a independência dos Estados enorme produção intelectual, o cadores burgueses da alta Idade Unidos, que varrem a nobreza e mais provável é que se dedicasse Média e início da Idade Moderna. a sua vida ociosa. E, finalmente, muito ao trabalho. Esses homens enriquecem pelo do ponto de vista econômico, a Durante toda a Antigüidade e a próprio esforço, através do comér- Revolução Industrial determ i- Idade Média, trabalhar era uma cio de produtos importados do na a nossa nova concepção de coisa negativa. O trabalho era para Oriente. De acordo com a visão trabalho e de tempo. Tu d o escravos, servos, seres embrutecidos rígida dos medievais, eles estavam passa a girar em torno da pro- e considerados inferiores. Ser um pecando ao buscar o lucro. dução. Com muito prazer 57
  3. 3.  sentimento de culpa por não estar facetada. O lazer é um mercado produzindo formalmente, ou seja, em ampliação, é uma área aca- trabalhando. dêmica, é motivo de políticas pú- Isso reflete o início de transfor- “Repetir a blicas, uma necessidade individual mação do sistema de produção rotina diária e um direito social. “Creio que o na sociedade industrial, em que o âmbito do lazer hoje se apresenta automaticamente nos homem era essencialmente pro- como estratégia na elaboração de dutor e só poderia atingir a ple- transforma em robôs. p ropostas que visem à construção nitude nas horas de trabalho. Tal Conversar sobre de uma nova ordem social”. pragmatismo gerava um conceito diversos assuntos e Segundo Vi c t o r, as saídas estão no negativo de ócio e de lazer. Na próprio cotidiano. “A função dos era do ditado “tempo é dinheiro”, apreciar a arte ajuda acadêmicos é de mediadores e insti- o lazer é aceito apenas como um a desacelerar e a gadores, contribuindo para desesta- recurso que revigora o traba- pensar em algo bilizar os valores construídos anteri- lhador para o aumento da pro d u- ormente, buscando novas con- diferente” tividade. dições e formas de conceber a vida Para Victor Mello, doutor em Karina Kuschnir em sociedade”, diz. lazer e professor da Universidade Autor do livro Lazer: princípios, Federal do Rio de Janeiro, esse fenômeno social tipos e formas na vida e no trabalho, José Vicente de moderno pode ser compreendido de forma multi- Andrade afirma que o fato de alguém ter prazer ou Felipe Santoro Felipe Santoro Alternativas de vida Depois de passar a Gonçalo, onde precisa ir apenas manhã na duas vezes na semana. O res- praia, tante do tempo ela dedica à fac- o médico uldade de Pedagogia, que con- João Baptista cluirá no final deste ano. Ele é sai para médico dermatologista e tam- trabalhar bém vai ao Rio duas vezes por na Clínica semana para trabalhar. Na Búzios Região dos Lagos, ele tem expe- diente toda sexta-feira numa clínica de estética. Regina divide seu tempo entre a Segundo João e Regina, a de- monografia e a praia cisão de viver parte da semana em Búzios melhorou muito a Começar o dia indo à praia, qualidade de vida dos dois. “Ago- almoçar e depois trabalhar. Essa ra nossas preocupações são ou- dica-se apenas ao trabalho for- é a rotina do casal João Baptista, tras. Não vivemos mais aquela mal. 56 anos, e Regina Coeli, 54, que correria que é a vida na cidade Regina e João acreditam que o decidiu trocar o ritmo intenso do grande. E, mesmo assim, conti- estágio de vida que alcançaram Rio de Janeiro pela tranqüili- nuamos produzindo, exercitan- é um privilégio de poucos. “A dade de Búzios. Desta forma, eles do nossas mentes”, afirma Regi- sociedade brasileira possui uma conseguiram conciliar trabalho na Coeli. condição econômica muito mi- e lazer, produzindo inclusive nos Ela passa algumas horas, na serável. Nem todo mundo pode tempos livres. frente do computador, fazendo se dar ao luxo de trabalhar Ela é coordenadora geral de sua monografia e ele, estudando quando quiser. Tem que traba- uma escola da rede privada de os novos conceitos da medicina. lhar para sobreviver”, ressalta o ensino no Município de São Quando está no Rio, o casal de- médico. Janeiro/Junho 2004 58
  4. 4. sentir-se em lazer na profissão Sempé que exerce não descaracteriza nem o prazer nem o trabalho. Apenas mostra que é muito bom ter-se por profissão o que se faz por lazer. Para o escritor, no futuro, o ócio será encarado como estado de uso racional, afetivo e cons- t rutivo da liberdade de ser e de a g i r. “A realidade pare c e - m e estar tão pesada, assim como o d e s c o n f o rto das relações huma- nas. O que, em breve, deve p rovocar algum tipo de reação conjunta das pessoas contra a sistematização merc a d o l ó g i c a do que se denominava ócio”. As relações tendem a ser re d i m e n- sionadas e desconectadas dos i n t e resses do consumismo, aten- tando para a existência do tempo livre, do ócio e do prazer. Educação para a criatividade passar por um processo de mu- nos é o desafio de todas as áreas O lazer não pode ser encarado danças comportamentais, cultu- de intervenção da pedagogia, como um exercício compensa- rais e políticas. como a educação artística, estéti-  tório pelas ho- Por ser conside- ca e esportiva, por exemplo. A ras de traba- rado espontâneo, c o n s t rução de um ser reflexivo lho. A diversão hospitaleiro, ale- passa pela experiência lúdica, e o descanso gre e sensual, po- que possui um alto teor de re a- não podem ser- Experiências lúdicas de-se dizer que o lização. O prazer de vivenciar vir apenas co- promovem a povo brasileiro experiências genuínas e poéticas mo ameniza- está bem pre- é diferente do simples divert i- realização. Não são dores da pres- parado para as mento. Ou seja, do simples ato são do cotidi- apenas para mudanças na re- de evasão, de entre t e r-se para ano, que ainda matar o tempo. lação trabalho- “matar o tempo”. mantém o mo- lazer. Essas ca- Para conquistar e garantir delo de socie- racterísticas po- espaço na nova sociedade que se dade industrial e exige um ritmo tencializam a capacidade de f o rma, o modo passivo de con- exagerado dos trabalhadores. transformar a vida em inspiração sumir os prazeres empacotados Precisamos conquistar uma nova artística. Um exemplo disso é a pela indústria cultural deve ser forma de desenvolver ações pra- valorização de produtos culturais reavaliado. O interesse agora é zerosas, enriquecedoras do desen- brasileiros no cenário mundial, nutrir uma cultura do ócio ativo volvimento subjetivo e que estim- como a música, o carnaval e, e participativo, trabalhando pa- ulem a construção de conceitos. mais recentemente, o cinema. ra fabricar idéias e acrescentar Para atingir esse grau, devemos A formação de indivíduos ple- informações. Com muito prazer 59

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