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  1. 1. Horizonte Perdido
  2. 2. James Hilton Horizonte Perdido Tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro Digitalização: Argo, o glorioso
  3. 3. PRÓLOGO
  4. 4. Tinham-se apagado os charutos e começava a apontar em nós aquela espécie de desilusão que de ordinário per- turba antigos condiscípulos ao se encontrarem de novo, ho- mens feitos, e descobrirem que já não existe entre eles a mesma afinidade. Rutherford escrevia novelas. Wyland era secretário de embaixada e convidara-nos a jantar em Tempelhaf. Não mostrara lá muita alegria, mas mantinha aquela equanimidade que o diplomata deve ter sempre à mão para semelhantes ocasiões. Dir-se-ia que o único ponto de união que nos ligava uns aos outros era o fato de sermos ingleses celibatários, reunidos numa capital estrangeira; quanto a mim, chegara já â conclusão de que nem o tempo nem a Ordem de Vitória tinham apagado em Wyland quot;Tertius quot; o leve toque de presunção que lhe conhecera. Simpatizava mais com Rutherford: era uma bela evo- lução do menino frágil e precoce que noutro tempo eu mal- tratava ou protegia alternativamente. E a única emoção que Wyland e eu sentíamos em comum — uma pontinha de inveja — nascia da idéia de que ele ganhava provavel- mente muito mais e devia ter um gênero de vida muito mais interessante do que nós. Ainda assim, a tarde nada teve de aborrecida. Víamos dali quando aterravam os aparelhos da Lufthansa, vindos de todos os cantos da Europa Central; e no escurecer, à luz 7
  5. 5. dos arcos voltaicos, a cena tinha um magnífico esplendor de teatro. Um dos aviões era inglês e o piloto, passando pela nossa mesa com o seu traje completo de aviador, cumprimentou Wyland, que a principio não o reconheceu. Depois vieram as apresentações, porém, e o estranho foi convidado para a nossa roda. Era um moço jovial, de agradável presença, chamado Sanders. Wyland desculpou-se: era difícil identificar as pessoas sob o traje e o capacete de aviador. Ao que San- ders, respondeu, rindo: — Sei muito bem disso. Não esqueça que eu estava em Baskul. Riu também Wyland, mas não tão espontaneamente; e a conversa mudou de rumo. Sanders revelou-se um bom contingente para o nosso pequeno grupo e ajudou-nos a tomar muita cerveja. Pelas dez horas, Wyland deixou-nos durante alguns minutos, para falar com alguém que se achava numa mesa próxima, e Rutherford, aproveitando o repentino hiato que se abrira na palestra, observou, dirigindo-se a Sanders: — Falou em Baskul. Conheço um pouco o lugar. Que aconteceu lá? Sanders sorriu, meio contrafeito: — Oh! referia-me apenas a um fato que provocou al- guma excitação, quando eu me achava no serviço. Era, porém, aquele moço dos que não podem guardar segredos, e continuou: — Foi o caso que um afegane, afridi ou o que quer que seja, fugiu com um de nossos aviões. Meteu-nos em maus lençóis, como pode imaginar. Também, nunca vi tamanha desfaçatez! O diabo emboscou-se no caminho do piloto, derrubou-o, tirou-lhe o uniforme e subiu para a dire- ção, sem que ninguém notasse. Deu ao mecânico as ordens 8
  6. 6. certas, decolou e lá se foi voando em grande estilo. Mas o pior é que nunca voltou. Rutherford parecia interessado. — Quando foi isso? — Oh! haverá, talvez, um ano. . . em maio de trinta e um. Estávamos fazendo evacuar a população civil de Baskul para Peshawar, por causa da revolução. . . Lem- bra-se, não? Estava tudo em polvorosa; do contrário, penso que isso não poderia ter acontecido. E contudo, aconteceu! Isto prova, até certo ponto, que o hábito faz o monge, não acha? Ainda com o mesmo interesse, Rutherford observou: — Supunha que nessas ocasiões haveria mais de um homem encarregado de um avião. — E assim é, com todos os transportes comuns de tropas; mas aquele era um aparelho todo especial, cons- truído primitivamente para certo marajá, e tinha um equi- pamento muito aperfeiçoado. O pessoal do Serviço Topo- gráfico Indiano se servira dele para vôos de grande altura em Caxemira. — E diz o senhor que nunca chegou a Peshawar? — Nunca! E também não desceu em parte alguma, que se saiba. E é isto o mais estranho do caso. Está claro que se o sujeito pertencia a uma tribo nativa, poderia ter voado para as montanhas, com a mira no resgate dos passageiros. Suponho, entretanto, que morreram todos. Há por essa fronteira muitos sítios em que um avião pode despedaçar-se sem que ninguém ouça. . . — Sim, é isso mesmo. Quantos passageiros eram? — Quatro, se não me engano. Três homens e uma espécie de missionária. — Um deles não se chamava, por acaso, Conway? Sanders respondeu, surpreso: 9
  7. 7. — Mas sim, era um deles. quot;Glóriaquot; Conway. . . Conhecia-o? — Andamos na mesma escola — tornou Rutherford, meio embaraçado. Porque, embora dissesse a verdade, sen- tia que não lhe ficava bem fazer esta observação. — Era, a julgar pelo que fez em Baskul, um grande tipo. — Era, sim — concordou Rutherford. — Indubita- velmente. Mas que coisa extraordinária. . . Sim, extraordi- nária. . . Pareceu sair de um devaneio e disse: — Os jornais não deram a notícia, senão eu a teria lido. . . Como foi isso? Sanders não se sentia agora muito a gosto. Pareceu- me até que corava. — Para dizer a verdade — replicou enfim —, creio que fui mais longe do que devia. . . Bem, isso talvez já não tenha tanta importância. . . Será novidade velha, sabida em todos os cassinos de oficiais, para não falar nos bazares. A história foi abafada, já se vê. . . quero dizer, a maneira como se deu o fato. Não era notícia para ser bem recebida, não! O governo apenas anunciou a perda de um aparelho, mencionando os nomes. Uma dessas notícias que não chamam muita atenção fora do círculo interessado. Naquele momento voltava Wyland e Sanders foi-lhe dizendo, a modo de desculpa: — Estes amigos estavam falando de quot;Glória quot; Con- way, Wyland. E, não sei como, contei-lhes a história de Baskul. . . Mas acho que não há mal nisso, não é mesmo? Por um momento guardou Wyland um silêncio austero. Era evidente que procurava conciliar os deveres da cor- tesia com a retidão oficial. Por fim disse: — Lamento que se faça desse caso uma mera 10
  8. 8. anedota. Sempre pensei que vocês, homens do ar, faziam ponto de honra de não espalhar histórias fora da escola. Depois desta censura ao moço, voltou-se mais amável para Rutherford e continuou: — Certamente, não houve mal nenhum no seu caso. Mas não há negar que às vezes é necessário cercar de certo mistério os fatos ocorridos na fronteira. — E por outro lado — replicou Rutherford secamente — é natural que se sinta curiosidade de saber a verdade. — A verdade não foi escondida a ninguém que tivesse motivo sério para averiguá-la. Achava-me em Peshawar nessa época, e posso afirmar-lhe isso. Conheceu bem Con- way . . . quero dizer, desde os tempos de escola ? — Estivemos pouco tempo juntos em Oxford, e raras vezes o encontrei depois. E você, esteve com ele muitas vezes? — Uma ou duas apenas, quando estava de serviço em Angorá. — Gostava dele? — Achei-o inteligente, mas um tanto desleixado. Sorriu Rutherford à observação e replicou: — Era inteligente, sim. Fez um curso triunfal na universidade, até rebentar a guerra. Fez parte de uma guarnição de remo e foi figura importante na União — e prêmio disto e daquilo, e não sei que mais. Também o con- sidero o melhor pianista amador que conheço. Assombrosamente versátil, é daqueles tipos que Jowett teria apontado para futuro primeiro-ministro. E contudo, o fato é que não se ouviu mais falar nele depois que saiu de Oxford. Certamente a guerra lhe veio cercear a carreira. Era muito novo, e ouvi dizer que tomou parte ativa nela. — Foi ferido, creio que numa explosão — respondeu 11
  9. 9. Wyland; — mas nada de grave. Fez boa figura. Obteve uma condecoração na França. Creio que voltou depois a Oxford, por pouco tempo. . . como uma espécie de explicador. Sei que foi para o Oriente em vinte e um. Seus estudos de línguas orientais lhe valeram o lugar com isenção das formalidades preliminares habituais. Desempenhou diversos cargos. O sorriso de Rutherford acentuou-se. — Isto explica tudo, então. E a história jamais reve- lará quanto esplendor foi desperdiçado em decifrar notas do Foreign Office e em servir chá nas recepções da Legação. — Ele pertencia ao corpo consular, não ao diplomá- tico — disse Wyland com ar altivo. Era evidente que não lhe agradavam os motejos. E quando, após outras pilhérias semelhantes, Rutherford ergueu-se para sair, ele não protestou. Na verdade ia ficando tarde, e eu declarei que também me retirava. A atitude de Wyland, ao nos despedirmos, era ainda a do decoro oficial ofendido, mas sofrendo em silên- cio. Sanders, porém, mostrou-se muito cordial e declarou que esperava tornar a encontrar-se conosco. Eu ia tomar um trem transcontinental na manhã seguinte, muito cedo, e, enquanto esperávamos um táxi, Rutherford perguntou-me se queria passar a noite no seu hotel. Tinha lá um gabinete e poderíamos conversar. Aquiesci à excelente idéia e ele acrescentou: — Assim poderemos falar de Conway, se você qui- ser... a não ser que este assunto o aborreça. Afirmei-lhe que não, ainda que pouco o conhecesse. — Ele terminou o curso no fim do meu primeiro tri- mestre e não tornei a vê-lo. Mas foi extraordinariamente bondoso comigo certa ocasião. .. eu era um calouro, e não 12
  10. 10. havia razão alguma para fazer o que fez. Foi uma coisa trivial, mas que nunca esqueci. — Sim, também o apreciava muito, e no entanto conheci-o durante muito pouco tempo. Ficamos alguns minutos calados. Não deixava de ser um tanto estranho aquele silêncio. Pensávamos ambos em alguém que nos interessava muito mais do que seria de esperar, dado o pouco contato que tivéramos com ele. Tenho aliás observado que outros, que mal conheceram Conway, encontrando-o somente por acaso e falando-lhe por um momento, guardavam dele viva recordação. Era um moço notável, certamente; e para mim, vista a idade em que o conheci — a idade do culto do herói —, sua lembrança conservou uma nitidez romântica. Era alto e extremamente bem-parecido, e não só se distinguiu nos jogos como arrebatava toda sorte de prêmios escolares. Um reitor sentimental, falando um dia dos seus feitos, classificou-os de quot;gloriososquot; e daí se originou a alcunha. Nenhum outro, talvez, poderia sobreviver a ela. Lembro-me de que certa ocasião fez um discurso em grego. Era extraordinariamente dotado para as representa- ções teatrais. Havia nele algo da época de Isabel — a natu- ral versatilidade e bela figura, aquela efervescente combi- nação de atividade mental e física. Qualquer coisa, enfim, de um Philip Sidney. Nossa civilização atual não gera mui- tos tipos assim. E, por ter feito esta observação, ouvi de Rutherford: — Sim, é verdade, e temos para essas criaturas um nome especial e desdenhoso: diletantes. É possível que algumas pessoas tenham dado esse nome a Conway. . . gente como Wyland, por exemplo. Não dou muita atenção a Wyland. Não posso suportar tal tipo de homem, toda aquela vaidade, aquela colossal presunção. E essa 13
  11. 11. mentalidade de prefeito de colégio. . . não notou? Certas expressões como quot;apelar para o sentimento de honra quot;e quot;espalhar histórias fora da escolaquot;— como se todo o império fosse a quinta classe de um liceu! Por isso mesmo é que vivo a questionar com esses senhores diplomatas. Atravessamos algumas ruas em silêncio, mas ao cabo ele recomeçou: — Seja como for, não desejaria perder esta reunião. Foi para mim uma coisa singular ouvir Sanders contar aquele caso de Baskul. Veja você; eu tinha ouvido falar nisso e não dera muito crédito. Era parte de uma história muito mais fantástica, em que eu não via razão alguma para acreditar — ou antes, havia apenas uma razão muito insignificante. Agora há duas razões muito insignificantes. Você deve ter adivinhado que eu não sou muito crédulo. Passei grande parte da vida viajando e sei que há coisas muito esquisitas por esse mundo afora. . . quando a gente as vê pessoalmente, é claro; mas não tanto assim, se ouvir- mos o conto em segunda mão. E no entanto. . . Dir-se-ia ter-lhe ocorrido de repente que aquilo não me interessava muito. Interrompeu-se e depois continuou, rindo: — Bem, uma coisa é certa: não vou revelar o segredo a Wyland. Seria o mesmo que procurar vender um poema épico ao Tit-Bits. Não; prefiro tentar a sorte com você. — Talvez eu não mereça. . . — A leitura do seu livro não me deu essa impressão. Eu não tinha mencionado minha autoria daquele tra- balho técnico (afinal, a neurologia não interessa a todo o mundo) e fiquei agradavelmente surpreendido por saber que Rutherford ouvira falar do livro. Disse-lho, e ele respondeu: 14
  12. 12. — Pois bem, eu me interessei porque foi justamente a amnésia o mal de Conway. . . em certa ocasião. Chegáramos ao hotel e ele foi buscar sua chave no escritório. Enquanto subíamos para o quinto andar, disse: — Tudo isto não passa de rodeios. O fato é que Con- way não morreu. Pelo menos, estava vivo há alguns meses. Não era possível comentar isto no exíguo espaço e tempo de uma ascensão em elevador. Alguns segundos mais tarde, já no corredor, perguntei-lhe: — Tem certeza disso? E como o sabe? Abrindo a porta, respondeu-me: — Porque em novembro passado viajei com ele de Xangai a Honolulu, num navio de carreira japonês. Não tornou a falar senão depois de estarmos instala- dos nas nossas poltronas, servidos de bebidas e charutos. — Estive na China no outono, em férias. Ando sempre correndo mundo. Havia muitos anos que não via Conway; nunca nos correspondemos e não posso dizer que pensasse muito nele, posto que sua fisionomia fosse uma das poucas que eu tinha bem presentes na memória. Fora a Hankow visitar um amigo e voltava pelo expresso de Pequim. Travei conhecimento no trem com uma madre superiora de irmãs de caridade francesas, por sinal que uma pessoa encantadora. Viajava para Chung-Kiang, onde estava situado o seu convento, e, como eu falava um pouco o francês, parece que gostou de conversar comigo a respeito de seu trabalho e outros assuntos gerais. Não sinto lá muita simpatia pelas obras missionárias comuns, mas não me custa admitir, como aliás fazem muitos outros, que os católicos formam categoria à parte, pois que ao menos tra- balham rijo e não se colocam na posição de oficiais de patente num mundo governado por hierarquia. Isto, porém, 15
  13. 13. não vem ao caso. O fato é que essa senhora, falando sobre o hospital da missão em Chung-Kiang, mencionou um caso de febre que aparecera lá algumas semanas antes — um homem que supunham europeu, posto que não soubesse explicar de onde vinha nem trouxesse papéis consigo. Vestia um traje nativo, das classes mais pobres, e quando as irmãs o recolheram estava muito mal. Falava o chinês correntemente, o francês com a maior correção, e minha companheira de trem afirmou que, antes de saber qual a nacionalidade das freiras, também se dirigira a elas em inglês, com pronúncia puríssima. Disse-lhe que não me entrava na cabeça semelhante fenômeno e caçoei amavelmente com ela, pelo fato de ter descoberto uma pronúncia puríssima em língua que não conhecia. Pilheriamos sobre isto e outras coisas, e a conversa acabou por um convite que ela me fez para visitar a missão, se algum dia aparecesse por ali. Ora, naquele momento isso me parecia tão improvável como subir ao Everest, e quando o trem chegou a Chung-Kiang despedi-me com sincero pesar por ver terminar aquele encontro casual. E no entanto, voltei a Chung-Kiang poucas horas depois. É que o trem teve um desarranjo alguns quilômetros adiante, e foi com muita dificuldade que pôde voltar à estação, onde nos informaram de que não poderia chegar outra máquina antes de doze horas. É comum isso nos caminhos de ferro chineses. De modo que me vi constrangido a passar meio dia em Chung-Kiang e resolvi pegar na palavra a boa freira, fazendo uma visita à missão. quot;Fui recebido cordialmente, ainda que não sem certa estranheza. A meu ver, uma das coisas mais difíceis para quem não é católico é compreender a facilidade com que um adepto dessa religião combina a rigidez oficial com 16
  14. 14. uma largueza pessoal de vistas. Não é complicado isto? Seja como for, aquela gente da missão era muito amável. Ainda não fazia uma hora que estava lá e já me ofereciam uma refeição preparada para mim. Um jovem médico chinês — era cristão — sentou-se à mesa comigo para conversar, numa divertida mescla de francês e inglês. Mais tarde a madre superiora levou-me a ver o hospital, orgulho de todos ali. Mencionara-lhes a minha profissão de escritor, e eram tão ingênuos que ficaram alvoroçados à idéia de que eu podia incluí-los a todos num livro. Ao passo que eu percorria as camas, ia-me o doutor explicando os casos. Era tudo imaculado no hospital, que parecia muito bem dirigido. Já nem me lembrava do misterioso doente e sua refinada pronúncia inglesa, quando a madre mo apontou. Eu só via a parte posterior da cabeça do homem, que parecia adormecido. Alguém sugeriu a idéia de falar-lhe eu em inglês, e assim fiz, dizendo-lhe 'boa tarde'; foi a primeira palavra, não muito original, na verdade, que me veio à lembrança. O homem ergueu repentinamente a cabeça e respondeu: 'boa tarde'. De fato, falava com inflexão educada. Mas não tive tempo de me surpreender com isso, porque já o reconhecera — apesar da barba, da aparência completamente mudada e do longo tempo que passara sem o ver. Era Conway. Tinha certeza de que era ele, e contudo, se tivesse refletido um momento, chegaria talvez à conclusão de que não podia ser. Felizmente, obedeci ao primeiro impulso. Chamei-o pelo nome, dizendo o meu, e, posto que me olhasse sem sinal algum de reconhecimento, convenci-me de que não me enganara. Vi-lhe aquela estranha e quase imperceptível contração dos músculos faciais, tão minha conhecida, e os mesmos olhos que, como costumávamos dizer em Balliol, eram mais do azul de Cambridge que do 17
  15. 15. de Oxford. Além disso, ninguém podia enganar-se com aquele homem: quem o via uma vez ficava com as suas feições gravadas para sempre na memória. É claro que o médico e a madre superiora se mostraram muito interessados. Disse-lhes que o conhecia, que era inglês e meu amigo e que só atribuía o fato de não me ter reconhecido à perda absoluta da memória. Concordaram com a minha hipótese, não sem assombro, e tivemos então uma longa conferência a respeito do caso. Nenhum deles tinha idéia alguma da maneira como Conway pudera chegar a Chung-Kiang naquele estado. quot;Para encurtar a história, fiquei ali mais de quinze dias na esperança de poder fazê-lo, de um modo ou de outro, lembrar-se de alguma coisa. Não obtive resultado, mas foi recuperando a saúde e conversávamos muito. Quando lhe disse francamente quem eu era e quem era ele, mostrou-se bastante dócil e não discutiu. Estava mesmo alegre, sem motivo especial, e parecia gostar de minha companhia. Quando lembrei que poderia reconduzi-lo à pátria, disse apenas que isso não lhe interessava. Não dei- xava de ser desanimadora aquela aparente falta de vontade própria. Assim que me foi possível, fixei a data da partida. Confiei o caso a um conhecido que era funcionário do con- sulado de Hankow, e deste modo consegui que o passaporte e outros papéis necessários fossem preparados sem os embaraços que, a não ser assim, teriam surgido. Parecia- me, no interesse de Conway, ser melhor que toda aquela história escapasse à publicidade e espalhafato dos jornais. E folgo em dizer que consegui o que desejava. Seria, realmente, um bom bocado para a imprensa! quot;Pois bem, saímos da China de maneira normal. Des- cemos o Yang-tsé até Nanquim, e ali tomamos o trem para Xangai. Nessa noite partia um vapor japonês para São 18
  16. 16. Francisco e corremos a tomar passagem nele.quot; — Prestou-lhe você um serviço imenso — observei. Não o negou Rutherford: — Creio que não teria feito tanto se fosse por outra pessoa. Mas havia não sei o que naquele rapaz. . . é difícil explicar, mas sempre fora assim. . . a gente sentia-se feliz em fazer por ele tudo que pudesse. — Sim — concordei. — Ele possui um encanto particular, um como dom de conquistar as pessoas, que até agora é agradável recordar — posto que eu o veja ainda colegial, em traje de etiquete. — É pena que você não o tivesse conhecido em Oxford. Era brilhante — não há outra palavra. Dizem que depois da guerra ficou diferente, e creio mesmo que assim foi. Mas não posso deixar de lamentar que, sendo tão bem dotado, não tivesse ocupação mais importante — porque não considero grande carreira para um homem isso de ser esteio da majestade britânica. E Conway era, ou devia ter sido, grande. Nós ambos o conhecemos e não estou exage- rando, certamente, quando digo que nunca nos esquece- remos disso. E, até lá na China, ele, cujo espírito estava perturbado, cujo passado era um mistério, conservava ainda aquele poder de atração. Calou-se um momento, cismando, depois continuou: — Como bem pode imaginar, reatamos a velha ami- zade durante a viagem. Disse-lhe tudo que sabia a seu res- peito e ele ouviu-me com uma atenção concentrada que quase tocava as raias do absurdo. Lembrava-se de tudo perfeitamente, desde a sua chegada a Chung-Kiang; e outro ponto que lhe pode interessar é que não esquecera as línguas. Disse-me, por exemplo, que sabia ter tido algo que ver com a índia, pois que conhecia a língua hindustani. Em Yokohama encheu-se o vapor e entre os novos passageiros 19
  17. 17. estava Sieveking, o pianista, a caminho dos Estados Uni- dos, onde ia dar concertos. Era da nossa mesa e falava às vezes com Conway, em alemão. Isto prova que, no exterior, ele parecia perfeitamente normal. A não ser a perda de memória, que não se notava no trato comum, sua aparência geral era a de um homem são. Alguns dias depois de partirmos do Japão, Sieveking aquiesceu em dar um con- certo a bordo e eu e Conway fomos ouvi-lo. Tocou bem, é claro — alguns trechos de Brahms e Scarlatti e muita coisa de Chopin. Uma ou duas vezes olhei para Conway e pare- ceu-me que ele estava apreciando aquilo, o que seria muito natural, visto ter sido músico. quot;Terminado o programa prolongou-se o recital numa série de repetições, que Sieveking concedeu — muito amavelmente, pareceu-me — a alguns entusiastas agrupa- dos em redor do piano. Também desta vez, tocou principal- mente Chopin. Você sabe que é a sua especialidade. Afinal deixou o piano e dirigiu-se para a porta, ainda acompa- nhado de admiradores; mas, evidentemente, achava que de- viam dar-se por satisfeitos. Nesse ínterim, tinha início um fato estranho. Conway sentara-se ao piano e estava tocan- do uma música rápida e viva, que eu não reconheci, mas que fez com que Sieveking voltasse, muito excitado, a inda- gar o que era. Após um longo silêncio, estranho na verda- de, Conway pôde apenas dizer que não sabia. Sieveking, ainda mais alvoroçado, exclamou que era incrível. Fazen- do, na aparência, um tremendo esforço fÍsico e mental para se lembrar, Conway disse afinal que era um estudo de Cho- pin. Não me pareceu que fosse, e não me surpreendi ao ouvir Sieveking negá-lo peremptoriamente. Conway, entre- tanto, mostrou-se de repente indignado, o que me espantou, porque até aquele dia revelara tão pouca emoção em todas as coisas! Sieveking, do seu lado, objetava: 20
  18. 18. quot; 'Meu caro amigo, conheço tudo quanto existe de Chopin e afirmo-lhe que ele jamais escreveu isso que o senhor acaba de tocar. Podia perfeitamente ter escrito o trecho, pois é o seu estilo, mas sucede apenas que não o escreveu. Desafio-o a mostrar-me em qualquer edição'. quot;Ao que Conway replicou afinal: quot; 'Oh! sim. . . lembro-me agora. . . isso nunca foi impresso. Conheço o trecho porque o ouvi de um antigo aluno de Chopin. . . Aprendi também com ele outra peça inédita'.quot; Olhando-me firmemente, Rutherford continuou: — Não sei se você conhece música; mas, ainda que não conheça, creio que poderá imaginar a excitação de Sie- veking, e também a minha, quando Conway continuou a tocar. Para mim, certamente, aquilo foi um repentino e assombroso vislumbre do seu passado — a primeira reve- lação que lhe escapava. Sieveking achava-se, naturalmente, todo absorto no problema musical — um quebra-cabeça, se atendermos à época da morte de Chopin: 1849. quot;Todo esse incidente foi tão inexplicável, em certo sentido, que talvez não seja demais acrescentar que havia ali pelo menos uma dúzia de testemunhas, inclusive um professor da Universidade da Califórnia, homem de certa nomeada. Seria muito fácil, está visto, declarar que a expli- cação de Conway era cronologicamente impossível, ou pouco menos que impossível; mas havia, ainda assim, os trechos musicais a pedir explicação. Se não era como ele dizia, o que era então? Sieveking afirmou-me que, se aque- las duas peças fossem publicadas, estariam no repertório de todos os concertistas dentro de seis meses. Pode ser exa- gero, mas serve para mostrar a opinião que Sieveking fazia delas. Depois de muito argumentar não conseguimos assentar uma explicação satisfatória, pois que Conway 21
  19. 19. insistia na sua história e, como já me parecia que ia fican- do fatigado, estava ansioso por afastá-lo dali e levá-lo para a cama. O último episódio foi uma combinação para gravar o trecho em disco. Sieveking declarou que se encarregaria de todos os arranjos assim que chegasse à América, e Conway prometeu tocar diante do microfone. Muitas vezes tenho lamentado, por várias razões, que ele não chegasse a cumprir a promessa.quot; Consultando o relógio, disse-me Rutherford que eu tinha tempo suficiente para apanhar o trem, pois sua histó- ria estava quase terminada. — Porque naquela noite — continuou ele —, a noite do recital, voltou-lhe a memória. Tínhamos ambos ido dei- tar-nos e eu me conservava acordado quando ele entrou no meu camarote e disse-mo. Tinha o rosto rígido e a única definição que encontro para a sua expressão é a de uma tristeza esmagadora, uma espécie de tristeza universal — alguma coisa remota e impessoal, isso a que os alemães chamam Wehmut, Weltschmerz, ou coisa que o valha. Dis- se-me que podia recordar tudo agora, que a memória começara a voltar-lhe aos poucos enquanto Sieveking toca- va. Sentou-se à beira da minha cama e ali ficou calado; deixei-o à vontade, para que falasse quando e como quisesse. Disse-lhe que me alegrava por lhe ter voltado a memória, mas que me entristecia, ao mesmo tempo, por ver que ele preferia que não houvesse voltado. Ergueu então a cabeça e ouvi de sua boca o que hei de sempre considerar um grande cumprimento: quot; 'Graças a Deus, Rutherford, você tem imagina- ção...' quot;Persuadi-o depois a vestir-se enquanto eu fazia o mesmo, e começamos a andar no convés de um lado para 22
  20. 20. outro. Era uma noite serena, estrelada e quente, e o mar tinha um aspecto viscoso e pálido: parecia leite condensado. Se não fosse a vibração das máquinas, diríamos que estávamos passeando numa esplanada. Abandonei-o apropria iniciativa, sem lhe fazer a princípio pergunta alguma. Quase ao romper da madrugada começou a falar; fê-lo sem interrupções, e, quando acabou, a manhã ia em meio e o sol escaldava. Quando digo 'acabou', não quero dizer que nada mais ficasse por acrescentar àquela primeira confissão. Ele ainda preencheu muitas lacunas importantes durante as vinte e quatro horas que se seguiram. Sentia uma tristeza profunda e não podia dormir, de sorte que conversamos quase constantemente. Pelo meio da noite seguinte o vapor devia chegar a Honolulu. Estivemos bebendo no meu camarote ao escurecer; deixou-me às dez horas, mais ou menos, e nunca mais o vi.quot; — Você quererá dizer?... Já me surgia no espírito a lembrança de um suicídio calmo e deliberado que presenciara uma vez, no paquete de Holyhead para Kingstown. — Oh! não — respondeu Rutherford, rindo. — Conway não era desse tipo. Fugiu-me apenas. E era muito fácil desembarcar, mas ele deve ter tido dificuldade em subtrair-se às buscas a que, naturalmente, não deixei de proceder. Soube depois que conseguira reunir-se à tripulação de um bote carregado de bananas, que se dirigia para Fidji. — E como veio a saber disso? — Da maneira mais simples: escreveu-me de Bancoc, três meses mais tarde, remetendo um cheque para pagar as despesas que eu tivera com ele. Agradecia-me, ajuntando 23
  21. 21. que se achava muito bem. E que ia empreender uma longa viagem — para o noroeste. Mais nada. — Que queria dizer com isso? — Sim, é muito vago, não é? Há muitos lugares que ficam a noroeste de Bancoc. Até Berlim, afinal, fica nessa direção. Calou-se e encheu os copos. Era uma história estranha aquela; ou seria ele que lhe dava essa feição? Eu não saberia dizer qual fosse o mais exato. O episódio da música, por mais assombroso que fosse, não me interessava tanto como o mistério da chegada de Conway àquele hospital da missão chinesa. Fiz este comentário, e Rutherford respondeu que eram ambos par- tes do mesmo problema. — Pois sim; mas como foi que ele foi ter a Chung- Kiang? Certamente há de lhe ter contado tudo isso aquela noite, no vapor. — Falou-me nisso, sim, e seria absurdo, depois de lhe contar tanta coisa, guardar segredo sobre o resto. Mas é uma história comprida e não haveria tempo sequer para delineá-la antes de você tomar o trem. Além disso, há uma maneira mais conveniente de satisfazê-lo. Não gosto muito de revelar as manhas da minha desacreditada profissão, mas a verdade é que, quanto mais pensava na história de Conway, mais atração sentia por ela. Principiara por tomar simples notas, depois de nossas diversas conversa- ções no navio, a fim de não esquecer os detalhes. Mais tarde, como certos aspectos dela começaram a me empol- gar, vi-me constrangido a aumentar aquelas notas — a dar forma aos fragmentos, a encadeá-los numa narrativa única. Não quero dizer com isto que tenha inventado ou alterado alguma coisa. Há no que ele me contou material de sobra. 24
  22. 22. Conway conversava com muita fluência e tinha o dom natural de comunicar um ambiente. Creio também que eu, por minha parte, começava a compreender o homem. Foi buscar uma maleta e tirou de dentro um maço de originais datilografados. — Aqui tem você a história. Faça dela o que quiser. — Pelo que vejo, você acha que não vou acreditar nela. — Oh! Minha opinião não é tão definitiva.. . Mas olhe, se você acreditar, será pela famosa razão de Tertuliano, lembra-se? Quia impossibile est. Talvez não seja mau o argumento. Seja como for, diga-me depois o que pensa disto. Levei comigo os papéis. Li a maior parte da história no expresso do Oriente. Pretendia devolvê-la com uma longa carta, assim que chegasse à Inglaterra; mas não o fiz logo, e antes de fazer a remessa recebi um bilhetinho de Rutherford, dizendo-me que ia recomeçar a andejar e que por alguns meses não teria endereço fixo. Ia para Caxemi- ra, e dali quot;para leste quot;. E isto não me surpreendeu. 25
  23. 23. CAPÍTULO 1 Piorara consideravelmente a situação em Baskul naquela terceira semana de maio, e no dia 20 chegaram de Peshawar aparelhos da Air Force, mediante arranjo feito para evacuar os residentes brancos. Eram estes mais ou menos oitenta e a maior parte foi conduzida sem novidade, atravessando as montanhas em aviões de transporte de tropa. Empregaram-se também nesse mister alguns aparelhos de várias espécies, entre eles um avião de cabina, cedido pelo marajá de Chandapor. E foi nesse avião que embarcaram, pelas dez horas da manhã, quatro passageiros: Miss Roberta Brinklow. da Missão do Oriente; Henry D. Barnard, cidadão americano; Hugh Conway, cônsul de S. M. Britânica; e o capitão Charles Mallinson, vice-cônsul. Estão aí os nomes, conforme apareceram mais tarde nos jornais indianos e ingleses. Contava Conway trinta e um anos. Havia dois que es- tava em Baskul, desempenhando uma tarefa que, vista agora à luz dos acontecimentos, poderia ser considerada como a defesa teimosa de uma causa perdida. Encerrava-se ali uma fase de sua vida. Dentro de algumas semanas, talvez uns poucos meses de licença, seria enviado para outra parte. Tóquio ou Teerã, Manilha ou Mascate: na sua profissão nunca se sabe o que vai acontecer. 27
  24. 24. Estava já há dez anos no serviço consular — tempo suficiente para avaliar as suas possibilidades com a mesma agudeza com que observava as aldeias. Sabia que nunca teria muito com que comprar melões; mas já era consola- ção bastante pensar que não gostava mesmo de melão. E, para usarmos outra imagem botânica, não se tratava de quot;uvas verdesquot;. Preferia as ocupações menos cerimoniosas e mais pitorescas que se lhe ofereciam, e, como nem sem- pre eram as melhores, muita gente achava que ele quot;fazia mau jogoquot;. Entretanto, e segundo o seu gosto, parecia-lhe que jogara muito bem; tivera um decênio moderadamente agradável. Era alto, muito bronzeado, cabelos castanhos apara- dos curtos e olhos de um azul quase negro. Parecia severo e preocupado, enquanto sério; quando ria — o que era raro — tinha aparência de menino. Observava-se-lhe, junto ao olho esquerdo, uma leve contração nervosa que aparecia nitidamente quando trabalhava em excesso ou bebia demais; e, como passara todo o dia e toda a noite que pre- cederam a evacuação a reunir e destruir documentos, era essa contração muito acentuada quando entrou no avião. Achava-se fatigadíssimo e infinitamente satisfeito por ter arranjado as coisas de sorte a viajar no luxuoso aparelho do marajá, em vez de ir num dos apinhados aeroplanos da tropa. Refestelou-se gostosamente no confortável assento de vime quando o avião se elevou nos ares. Era daquela espécie de homens que, estando habituados aos trabalhos mais duros, esperam ter em recompensa os pequenos con- fortos da vida. Podia suportar alegremente os rigores da estrada de Samarcande, mas, para viajar de Londres a Paris, gastaria a última nota de dez libras tomando uma passagem no quot;Seta de Ouroquot;. 28
  25. 25. Já fazia mais de uma hora que estavam voando quan- do Mallinson, que ia sentado logo à frente de Conway, observou que, a seu ver, o piloto não seguia o caminho direito. Era Mallinson um moço de vinte e poucos anos, corado, inteligente sem ser intelectual, encerrado nas limitações do ensino público, cujas vantagens também soubera aproveitar. A reprovação num exame era a causa principal de ter sido mandado para Baskul, onde estivera seis meses em companhia de Conway, que já começava a gostar dele. Mas Conway não queria fazer o esforço que exige uma conversação em aeroplano. Abriu os olhos sonolentos e replicou que, fosse qual fosse o caminho tomado, era de supor que o piloto o conhecesse melhor do que eles. Dali a meia hora, rendido pelo cansaço e embalado pelo zumbido do motor, ia já a adormecer quando Mallin- son tornou a perturbá-lo: — Escute, Conway, pensei que era Fenner quem nos levava! — E então, não é ele? — O sujeito voltou a cabeça agora mesmo, e sou capaz de jurar que não é ele. — É difícil de dizer, através daquele vidro. — Eu conheceria o rosto de Fenner em qualquer parte. — Pois bem, se não é ele é algum outro. Não tem importância. — Mas é que Fenner me disse positivamente que iria conduzir este aparelho. — Sem dúvida mudaram de idéia e deram-lhe um dos outros. 29
  26. 26. — Bem, neste caso, quem é aquele homem? — Meu caro rapaz, como vou saber disso? Não julga certamente que aprendi de cor a fisionomia de todos os tenentes-aviadores da Air Force, não é? — Pois eu conheço muitos, e não me lembro daquele sujeito. — Deve pertencer então à minoria que você não conhece — replicou Conway, sorrindo. E acrescentou: — Quando chegarmos a Peshawar, daqui a pouco, você poderá travar conhecimento com ele e indagar tudo quanto quiser. — Neste andar não chegaremos nunca a Peshawar. O homem está completamente fora de rumo. E não me admira. . . Voando a tamanha altura ele não pode ver onde está. Conway não se inquietou. Estava habituado às via- gens aéreas e confiava nos pilotos. Além disto, não tinha motivo algum para desejar chegar depressa a Peshawar. Nada tinha de particular a fazer ali e não se sentia ansioso por ver ninguém. Era-lhe, pois, de todo indiferente que a viagem durasse quatro ou seis horas. Não era casado; não o aguardava uma terna recepção ao desembarcar. Tinha amigos na cidade e provavelmente alguns deles o levariam ao clube, onde beberiam juntos; era uma perspectiva agra- dável, mas não de molde a causar-lhe grande alvoroço. Também não encarava com saudades a década trans- corrida. Fora um período igualmente agradável, ainda que não o tivesse satisfeito inteiramente. Instável, bom por intervalos, tendendo a perturbar-se; tal era o sumário meteorológico daquela época de sua vida, bem como da história mundial. 30
  27. 27. Passaram-lhe pela memória Baskul, Pequim, Macau e outros lugares. A cena mais remota na sua lembrança era Oxford, onde, depois da guerra, passara dois anos fazendo preleções sobre história oriental, respirando o pó em bibliotecas cheias de sol, descendo a High Street de bicicleta. A visão era atraente, mas não o comovia; parecia-lhe, em certo sentido, que ele era apenas uma parte de todas as coisas que pudera ter sido. Uma sensação gástrica muito sua conhecida advertiu- o de que o avião começava a descer. Teve a tentação de admoestar Mallinson pelo seu nervosismo, e tê-lo-ia feito sem dúvida se o moço não se houvesse levantado subita- mente, batendo com a cabeça no teto e acordando Barnard, o americano, que estava a cochilar no seu canto, do outro lado do estreito corredor. — Meu Deus! — exclamou Mallinson, espiando pela janela. — Olhem para baixo! Conway olhou. Não era aquela, certamente, a vista que esperava — se é que esperava alguma coisa. Em vez dos acantonamentos em elegante disposição geométrica e dos retângulos mais compridos dos hangares, só se avis- tava um nevoeiro opaco que velava uma imensa desolação. O avião, que ia descendo rapidamente, achava-se ainda a uma altura extraordinária para um vôo comum. Avistava- se, cerca de uma milha aquém da névoa mais sombria dos vales, o espinhaço rugoso de uma longa fila de montanhas. Era o cenário típico da fronteira, se bem que Conway jamais o tivesse visto de tamanha altura. Não era — e isto lhe causou estranheza — sítio algum próximo de Pesha- war. — Não reconheço esta parte do mundo! — observou. Depois, e mais discretamente, por não querer assustar 31
  28. 28. os outros, acrescentou ao ouvido de Mallinson: — Parece que você tinha razão... O homem errou mesmo o caminho! O avião descia com espantosa rapidez e o ar ia fican- do cada vez mais quente. Dir-se-ia que a terra adusta que se avistava lá embaixo era um forno, cuja porta se abrira de repente. Acima do horizonte erguiam-se picos de montanhas, um após outro, recortando no ar a silhueta escarpada. Já o vôo seguia a curva de um vale, cuja base estava toda semeada de rochedos e vestígios de cursos de água ressequidos; pareciam cascas de nozes espalhadas pelo chão. O avião se debatia e agitava entre golfadas de ar, tão violentamente como um bote de remo nas ondas encrespadas. Os quatro passageiros mal se podiam manter sentados. — Parece que ele vai aterrar! — gritou o americano com voz rouca. — Mas não pode! — retorquiu Mallinson. — Só se for louco tentará semelhante coisa! Vai despedaçar-se, e então.. . Mas o piloto aterrou. Abria-se um pequeno espaço livre à beira de um barranco e o aparelho, com muita perí- cia, depois de alguns baques e solavancos, pousou sereno. O que veio depois, contudo, foi mais espantoso e menos tranqüilizador. Apareceram nativos barbudos, de turbante à cabeça, que acorriam de todos os lados cercando o avião e impe- dindo que alguém saísse dele, a não ser o piloto. Este sal- tou em terra, mantendo com eles animada palestra, durante a qual se verificou que não somente não era Fenner como até não era inglês, e quiçá nem europeu. Enquanto falavam iam carregando latas de petróleo de um depósito próximo e 32
  29. 29. despejando-as nos tanques, de capacidade excepcional. Os gritos dos quatro passageiros aprisionados eram recebidos com arreganhos de dentes e desdenhoso silêncio. E à mais leve tentativa de desembarque correspondia logo um movi- mento ameaçador de vinte rifles. Conway, que conhecia um pouco o idioma afegane, arengou com os homens conforme pôde, naquela língua, mas sem resultado. Quanto ao piloto, a única resposta a qualquer pergunta, em qualquer língua, era um significa- tivo aceno com o revólver. O sol do meio-dia, chamejando sobre o teto da cabina, aquecia o ar inteiro a tal ponto que os ocupantes dela estavam quase a desmaiar, com o calor e o esforço dispendido em protestos. Viam-se absolutamente impotentes; era condição da evacuação que viajariam sem armas. Quando afinal os tanques foram fechados, passou-se uma lata de petróleo cheia de água morna por uma das janelas da cabina. Ninguém respondeu a pergunta alguma, ainda que os homens não parecessem pessoalmente hostis. Depois de outra conferência voltou o piloto para o seu posto; desajeitadamente, um dos afeganes pôs a hélice em movimento, e recomeçou o vôo. A partida, naquele espaço confinado e com a carga suplementar de combustível, foi ainda mais magistral do que a aterragem. O avião ergueu- se por entre o nevoeiro, depois voltou-se para o oriente, como a assentar um rumo. Ia em meio a tarde. Que caso extraordinário! Era para desorientar! Já retemperados pelo ar mais fresco, mal podiam crer os 33
  30. 30. passageiros que tudo aquilo de fato acontecera. Era um ultraje sem precedente e sem igual, mesmo nos anais turbulentos da fronteira. E, se não fossem eles mesmos as vítimas, certo o reputariam incrível. Era a coisa mais natural do mundo que a esse primeiro momento de incredulidade se seguisse uma explosão de indignação e, dissipada esta, uma ansiosa curiosidade. Apresentou Mallinson uma teoria que foi aceita, à falta de outra melhor: tinham-nos raptado para serem pos- tos a resgate. Se o processo não era novo, a técnica não carecia de originalidade. Já era consoladora a idéia de que não tomavam parte num fato inteiramente virgem na histó- ria mundial; afinal, já tinha havido muito rapto no mundo e boa parte deles acabara bem. Os homens os reteriam em algum covil das montanhas até que o governo pagasse, e então lhes dariam a liberdade. Seriam tratados com toda a consideração, e, como o dinheiro do resgate não lhes sairia do próprio bolso, aquilo só seria desagradável enquanto estivessem prisioneiros. Mais tarde, certamente, a Air Force enviaria um avião de bombardeio, e ficava-se com uma boa história para contar durante o resto da vida. Foi Mallinson que, um tantinho nervoso, enunciou esta conclusão. O americano, porém, entendeu de fazer espírito barato: — Pois, meus senhores, parece-me que é uma bela idéia, seja lá de quem for, mas não posso dizer que a sua Air Force se cobriu hoje de glória. Vocês, ingleses, fazem chacota dos assaltos de Chicago e outras coisas, mas não me lembra nenhum caso de um bandido ter fugido assim sem saber o que fez este sujeito do verdadeiro piloto. Aposto que o derrubou com uma paulada na cabeça. 34
  31. 31. E acabou num bocejo. Era Barnard um homem alto e corpulento: no rosto duro, os vincos pessimistas não apagavam por completo a expressão de bom humor. Pouco se sabia dele em Baskul; viera da Pérsia, onde, ao parecer, se entregava ao comércio de petróleo. Conway, por seu lado, ocupava-se numa tarefa práti- ca: reunia todos os pedacinhos de papel que seus compa- nheiros traziam e neles escrevia mensagens em várias lín- guas nativas para, de espaço a espaço, deixar cair uma delas. Em região de tão escassa população era magra a esperança, mas valia a pena tentá-la. O quarto passageiro era uma mulher, Miss Brinklow. Toda tesa no assento, com os lábios apertados, poucos comentários emitia — e nenhuma queixa. Era de baixa estatura e aparência coriácea. Dir-se-ia, ao observá-la, que assistia constrangida a uma reunião onde sucediam coisas contrárias aos seus princípios. Conway falava menos que os outros dois, pois trans- mitir mensagens em vários dialetos é um exercício mental que exige concentração. Respondia, ainda assim, às per- guntas que lhe dirigiam e concordara, a título de ensaio, com a teoria de rapto apresentada por Mallinson. Aquiescera também, até certo ponto, nas observações de Barnard sobre a Air Force. — . . . ainda que se compreenda facilmente como se deu o fato. Na inquietação e tumulto do momento era muito fácil tomar um homem, com o uniforme de aviador, por outro aviador. Ninguém vai lembrar-se de pôr em dúvida a boa fé de uma pessoa que se apresenta com o traje apropriado e parece conhecer a sua obrigação. E o sujeito devia conhecê-la — sinais e tudo 35
  32. 32. mais. É evidente, além disso, que ele sabe voar. . . Todavia, não nego que seja uma dessas coisas que sempre metem alguém em complicações — posto que, a meu ver, ninguém teve culpa neste caso. — Muito bem, cavalheiro — replicou Barnard; — admiro a maneira como procura ver ambos os lados da questão. É essa a atitude correta, não há dúvida, mesmo quando a gente está sendo seqüestrado. Lá consigo pensava Conway que os americanos ti- nham o dom de dizer as coisas com ar protetor, sem ofen- der. Sorriu, tolerante, mas deixou cair a conversação. Sen- tia-se tão fatigado que perigo algum poderia abalá-lo. Já no fim da tarde, quando Barnard e Mallinson, que discutiam, apelaram para a sua opinião sobre um ponto, verificou-se que adormecera. E Mallinson comentou: — Prostrado. E não me admira, depois de tudo o que fez nestas últimas semanas. — É seu amigo? — indagou Barnard. — Trabalhava com ele no consulado. E por isso sei que há duas noites que não se deita. O certo é que tivemos muita sorte em tê-lo conosco neste aperto! Além de conhecer línguas, tem uma espécie de jeito especial para lidar com as pessoas. Se há algo que possa tirar-nos desta entaladela, ele o fará. E é muito calmo, além de tudo. — Pois bem, deixemo-lo dormir, então. E Miss Brinklow fez nesse momento uma de suas raras observações: — Ele parece ser um homem muito valente. Quanto a Conway, não tinha tanta certeza de ser de fato um homem muito valente. Fechara os olhos de pura 36
  33. 33. fadiga física, mas não dormia. Ouvia e sentia todos os movimentos do avião, e ouvira também, com uma sensação indefinida, o elogio de Mallinson. E foi então que teve suas dúvidas, reconhecendo em certa contração do estômago a reação física a um exame mental não muito tranqüilizador. Não era — e sabia-o por experiência própria — daquelas pessoas que amam o perigo pela sensação do perigo. Havia neste certo aspecto que apreciava, na verdade, uma excitação, uma espécie de efeito catártico sobre as emoções ociosas, mas estava muito longe de sentir prazer em arriscar a vida. Doze anos antes começara a detestar os perigos da guerra de trincheira na França, e algumas vezes evitara a morte eximindo-se de tentar valentias impossíveis. Até sua condecoração devia-a menos à coragem física do que a uma técnica de resistência não muito fácil de conseguir. E desde a guerra, onde quer que surgisse outra vez o perigo, encarava-o com crescente aversão, a não ser que prometesse uma quota extraordinária de emoção. Continuava de olhos cerrados. Sentia-se tocado, e um tanto consternado também, pelo que ouvira de Mallinson. Era destino dele ver sempre sua equanimidade confundida com bravura — quando era, de fato, uma coisa muito menos apaixonada e menos viril. Achavam-se todos numa situação terrivelmente ad- versa, segundo lhe parecia, e longe de se sentir cheio de ardor, ao encará-la, desgostava-o profundamente a idéia das dificuldades que poderiam surgir. Veja-se Miss Brink- low, por exemplo. Previa que, em determinadas circunstâncias, suas ações teriam de ser subordinadas ao critério de que ela sozinha tinha mais direito a consideração do que eles todos juntos, por ser mulher. E 37
  34. 34. tremia já, à perspectiva de uma situação em que seria inevitável semelhante falta de eqüidade. Entretanto, quando deu sinal de despertar, foi com ela que primeiro falou. Via que não era jovem nem bonita — virtudes negativas, mas utilíssimas em transes como os que teriam talvez de enfrentar dentro em pouco. Sentia pena dela, porque desconfiava que nem o americano nem Mallinson gostavam de missionários, especialmente do sexo feminino. Quanto a ele próprio, não tinha preconceitos nesse sentido, mas receava que para ela representasse o seu espírito aberto um fenômeno pouco familiar e quiçá ainda um pouco desconcertante. Aproximando o rosto dela para lhe falar, disse: — Parece que estamos numa situação esquisita, mas folgo de ver que a senhora encara o caso com serenidade. Realmente, creio que não nos acontecerá nada de terrível. — Estou certa de que não, se o senhor puder evitá-lo. Não lhe pareceu muito consoladora a resposta. — A senhora me avisará se eu puder fazer alguma coisa para seu conforto. Barnard apanhou a palavra e repetiu em voz rouca, como um eco: — Conforto? Mas não há dúvida de que temos conforto. . . Estamos gozando a viagem. Lástima é que não tenhamos um baralho. .. poderíamos até jogar bridge. Ainda que não gostasse do jogo, Conway apreciou o espírito da observação. — Não creio que Miss Brinklow jogue — disse, sorrindo. A missionária, porém, voltou-se vivamente e replicou: — Pois jogo, e não vejo mal nenhum nisso. Nada há 38
  35. 35. contra as cartas na Bíblia. Riram todos, parecendo gratos à dama por lhes proporcionar uma escusa para tal. E lá consigo pensava Conway: quot;Seja como for, ela não é muito nervosaquot;. Toda a tarde voara o avião a grande altura, por entre o esgarçado nevoeiro da atmosfera superior — muito alto para que se pudesse ter uma visão clara do que ficava embaixo. De vez em quando, com longos intervalos, rasga- va-se por um momento o véu, deixando ver a silhueta denteada de um pico ou a claridade de um rio desconhecido. Pelo sol era possível determinar mais ou menos a direção; seguiam ainda para leste, com algumas guinadas para o norte, de tempos a tempos; mas, quanto à região em que se achavam, era coisa que dependia da velocidade do vôo, e esta não a podia Conway avaliar com segurança. Parecia provável, entretanto, que já tivessem gasto boa porção de petróleo — o que, aliás, também dependia de certos fatores. Conway não possuía conhecimentos técnicos de aviação, mas estava certo de que o piloto, quem quer que fosse, era de uma perícia incontestável. Provara-o aquela descida no vale eriçado de penhascos, além de outros incidentes posteriores. E Conway não podia sopitar um sentimento natural nele, sempre que se via em presença de uma competência soberba e indiscutível. Estava tão habituado a receber pedidos de auxílio que só o fato de saber que ia ali alguém que não o pedia, nem necessitava dele, era levemente tranqüilizador, mesmo em meio às incertezas do futuro. Não esperava, contudo, que seus companheiros 39
  36. 36. compartilhassem tão sutis emoções. Reconhecia que po- diam ter muito mais razões pessoais do que ele para estarem ansiosos. Mallinson, por exemplo, tinha noiva na Inglaterra; Barnard talvez fosse casado; Miss Brinklow tinha seu trabalho, vocação, ou como quer que ela o consi- derasse. Era Mallinson, aliás, o mais desassossegado de todos; à proporção que iam passando as horas mostrava-se cada vez mais agitado — pronto, também, a lançar em rosto a Conway aquela mesma frieza que louvara às escon- didas dele. E chegou um momento em que se levantou uma tempestade de questões, dominando o ronco do motor. — Escutem! — gritava Mallinson, furioso. — Iremos nós ficar aqui a olhar as moscas, enquanto esse maluco faz o que bem entende? Que é que nos impede de despedaçar aquele vidro e tirá-lo dali? — Nada — replicou Conway — a não ser que ele es- teja armado e nós não, e que em todo caso nenhum de nós saberia levar o aparelho para terra. — Isso não há de ser muito difícil, com certeza. Não duvido que você possa fazê-lo. — Oh! Mas meu caro Mallinson, por que é que você há de esperar sempre de mim semelhantes milagres? — Bem, o certo é que este negócio me está atacando infernalmente os nervos! Não poderemos obrigá-lo a descer? — E de que maneira acha você que poderemos fazê- lo? Cresceu de ponto a agitação de Mallinson, que retrucou: — Escute, ele está ali, não é? Mais ou menos a dois metros de nós, e somos três contra um! Vamos ficar eter- namente a olhar para aquelas costas malditas? Ao menos 40
  37. 37. poderemos obrigá-lo a dar explicações! — Muito bem, vamos ver isso. E Conway deu alguns passos para a frente, rumo à divisão entre a cabina e o assento do piloto, situado na frente e um pouco acima. Havia uma lâmina quadrada de vidro, de cerca de quinze centímetros, que se podia correr para um lado, e pela qual o piloto, voltando a cabeça e curvando-se levemente, podia comunicar-se com os passageiros. Conway bateu nela com os nós dos dedos. A resposta veio, como ele esperava, de modo quase cômico. O quadrado de vidro deslizou para um lado e o cano de um revólver surgiu na abertura. Nem uma palavra: só isso. Conway retirou-se sem discutir e a janelinha tornou a fechar-se. Mallinson, que observara o incidente, ficou apenas parcialmente satisfeito e comentou: — Não creio que ele ouse atirar. É só fanfarronada. — Isso mesmo — concordou Conway; — mas deixo a você o cuidado de averiguá-lo. — Pois me parece que devíamos lutar antes de nos deixarmos derrotar assim. Conway olhou-o com simpatia. Não ignorava a con- venção que, com todo o seu cortejo de soldados de túnica vermelha e livros de leitura escolar, declara que o inglês não tem medo de nada, nunca se entrega, jamais é vencido. E disse: — Provocar um combate sem probabilidade de ven- cer é mau jogo, e eu não quero ser essa espécie de herói. — Muito bem, cavalheiro! — acudiu Barnard calorosamente. — Quando alguém nos segura pelo cango- te, é melhor a gente entregar-se de boa vontade e aceitar o fato. Pela minha parte, vou gozar a vida enquanto ela dura e fumar um charuto. Creio que um pouquinho mais de 41
  38. 38. perigo não faz diferença, hem? — Não, pelo que me toca; mas pode aborrecer Miss Brinklow. Barnard desfez-se em desculpas: — Perdão, madama. A senhora não se incomodará muito se eu acender um charuto? — Não, não — respondeu ela amavelmente; — eu não fumo, mas gosto do cheiro de charuto. E Conway refletiu que, entre todas as mulheres de quem se poderia esperar semelhante declaração, era aquela a mais típica. Acalmara-se, entretanto, um pouco a excitação de Mallinson, e, querendo demonstrar-lhe simpatia, Conway ofereceu-lhe um cigarro, posto que ele próprio não acen- desse nenhum. E disse amavelmente: — Compreendo o seu estado de ânimo, Mallinson. A situação não é rósea, e o pior, em certo sentido, é que não podemos fazer grande coisa para sair dela. E lá consigo acrescentava: quot;E o melhor, também, em outros sentidosquot;. Porque ainda sentia uma fadiga extrema. Havia tam- bém na sua natureza um traço a que talvez algumas pes- soas chamassem preguiça, dado que não fosse o termo pró- prio. Ninguém era capaz de trabalhar mais rijo, quando necessário, e poucos sabiam arcar com responsabilidades melhor do que ele. Isto não tira, contudo, que não morresse de amores pela atividade, e também que não sentisse muito prazer na responsabilidade. Achavam-se ambas as coisas incluídas na sua obrigação, que ele executava o melhor que podia; mas estava sempre pronto a ceder o passo a quem a pudesse executar tão bem quanto ele, ou melhor. E isto contribuirá, sem dúvida nenhuma, para atenuar consideravelmente o brilho do seu sucesso no 42
  39. 39. serviço consular. Não era bastante ambicioso para abrir caminho à custa de outrem, nem para fazer parada de abstenção quando não havia realmente nada que fazer. Seus despachos eram amiúde tão lacônicos que chega- vam a ser deficientes; e a serenidade que mostrava em emergências difíceis, conquanto admirada por todos, foi mais de uma vez atribuída à frieza natural; as autoridades gostam dos homens que se dominam, ainda que com algum esforço, e cuja indiferença aparente não passa de disfarce, encobrindo um mundo de emoções disciplinadas. Quanto a Conway, muita gente suspeitava que sua tranqüilidade não era só aparente, e que não dava importância a coisa alguma. E contudo, era isto também, como a acusação de pre- guiça, interpretação errônea. É que a muitos observadores passava despercebida uma coisa tão simples que frustrava a percepção: o amor ao sossego, à contemplação e ao isolamento. Neste momento, visto que se sentia tão inclinado a isso e não havia outra coisa a fazer senão isso mesmo, reclinou-se no assento e resolveu adormecer definitiva- mente. Ao acordar notou que os outros, a despeito de suas preocupações, tinham igualmente sucumbido. Miss Brinklow, direita como uma seta, de olhos fechados, parecia um ídolo desbotado e fora de moda. Mallinson, inclinado para diante, apoiava o queixo na palma da mão. O americano até ressonava. Todos muito razoáveis, pensou Conway; não valia a pena estarem a gastar energia em gritos. No mesmo instante, porém, tomou consciência de cer- tas sensações físicas — uma leve vertigem, o coração aos pulos e a respiração difícil. Lembrou-se de ter sentido uma vez sintomas semelhantes, na Suíça. 43
  40. 40. Voltou-se para a janela e olhou para fora. O céu esta- va muito claro, e à luz da tarde agonizante a visão que se descortinou aos seus olhos arrebatou, por um instante, o resto de alento que ainda tinha nos pulmões. Porque lá longe, no limite do firmamento, enfileiravam-se picos enevoados, festoados de geleiras e flutuando, ao que parecia, sobre vastas planícies de nuvens. Abrangiam todo o arco de círculo e para o ocidente fundiam-se num horizonte de colorido intenso, quase espalhafatoso, como um pano de fundo impressionista pintado por um gênio meio louco. E enquanto isso o avião, naquele palco estupendo, ia zunindo por sobre um abismo, em frente de um paredão branco que parecia fazer parte do próprio céu — até o ins- tante em que o sol o atingiu. Então, como uma dúzia de Jungfraus empilhados, vistos de Mürren, ele chamejou numa incandescência soberba e deslumbrante. Não era Conway facilmente impressionável e por via de regra não se preocupava com quot;vistasquot; — principalmente com as mais afamadas, para as quais as municipalidades solícitas proporcionam cadeiras de jardim. Tendo ido um dia à colina do Tigre, perto de Darjeeling, para ver o sol nascer sobre o Everest, achara a montanha mais alta do mundo uma verdadeira decepção. Mas aquele espetáculo belíssimo que contemplava pela janela era de caráter diferente; não parecia exibir-se à admiração. Havia algo de cru e monstruoso naqueles rochedos de gelo, longínquos e impassíveis, e não faltava certa impertinência sublime a quem assim se aproximava deles. Ia Conway fazendo considerações, recordando mapas, calculando distâncias, estimando tempos e velocidades. E só então notou que Mallinson também despertara. Tocou 44
  41. 41. no braço do moço. 45
  42. 42. CAPÍTULO II Uma atitude que caracterizava Conway era a de dei- xar que os outros fossem acordando por si mesmos. Quan- do o fizeram, deu respostas breves às suas breves exclama- ções de assombro. Entretanto, quando mais tarde Barnard lhe pediu opinião, ele a expôs com certa fluência desinte- ressada, como um professor de universidade que elucida um problema. Achava provável — disse — que ainda esti- vessem na índia; tinham voado para o Oriente durante algumas horas, a tão grande altura que não se podia ver muita coisa, mas parecia que seguiam o vale de algum rio — um rio que devia correr mais ou menos de leste para oeste. E concluiu: — Oxalá tivesse outros meios para determiná-lo, além da simples memória; mas parece-me que isto coincide mais ou menos com o vale do Indo Superior. A ser verdadeira a hipótese, devíamos estar a esta hora numa região espetacular do mundo — e bem vê que assim é. — Reconhece, então, o lugar onde estamos? — inda- gou Barnard. — Oh, não. . . nunca estive sequer perto daqui, mas não me surpreenderia se aquela montanha fosse o Nanga Parbat, onde Mummery perdeu a vida. A estrutura e a apa- rência geral parecem concordar com todas as descrições que tenho lido. — É também alpinista? 46
  43. 43. — Fui, e entusiasta, na mocidade. Mas apenas fiz as escaladas comuns na Suíça, é claro. Mallinson interveio, impaciente: — Seria mais acertado procurarmos descobrir para onde vamos. Quem dera que alguém no-lo pudesse dizer! — Pois bem, parece-me que vamos direto àquela cordilheira — disse Barnard. — Não acha, Conway? Desculpe-me se o chamo assim; mas, se vamos tomar parte numa aventura comum, não vale a pena perder tempo com cerimônias, não é mesmo? Conway achava muito natural que o chamassem pelo nome simplesmente, e pareceu-lhe que aquelas desculpas de Barnard eram um tanto fora de propósito. — Certamente — concordou. E acrescentou: — Creio que aquela cadeia deve ser a de Caracorum. Há lá muitos desfiladeiros, para o caso de o nosso homem querer atravessá-la. — Nosso homem! — exclamou Mallinson. — Você quer dizer nosso maluco! Acho que já é tempo de abando- nar a teoria do rapto. Já passamos a região da fronteira, e por aqui não vivem tribos. A única explicação que me ocorre é que o sujeito é um louco furioso. A não ser um louco, quem poderia voar em semelhante país? — O que sei é que ninguém poderia fazê-lo, exceto um aviador exímio — retorquiu Barnard. — Não entendo muito de geografia, mas ouvi dizer que estas montanhas são consideradas as mais altas do mundo, e, se assim é, atravessá-las será um recorde estupendo. — Também será a vontade de Deus — encaixou inesperadamente Miss Brinklow. Conway não deu opinião. Vontade de Deus ou loucu- ra do homem — parecia-lhe que cada um podia escolher o 47
  44. 44. que quisesse, caso achasse necessário encontrar uma razão para todas as coisas. Ou, inversamente (continuou a refle- tir, enquanto contemplava a boa ordem da pequena cabina, contra o fundo recortado pela janela naquele cenário descomunal), a vontade do homem e a loucura de Deus. Devia ser coisa muito consoladora ter opinião assente. E foi então, enquanto assim olhava e refletia, que ocorreu uma estranha transformação. A luz tomara uma cor azulada sobre toda a montanha, cujos socalcos mais baixos escureciam e se faziam violáceos. Sentiu brotar na sua alma alguma coisa mais profunda do que a habitual indiferença. Não era propriamente excitação, menos ainda temor, mas uma expectação aguda e intensa. E disse: — Tem razão, Barnard. Este caso está ficando cada vez mais notável. — Notável ou não — insistiu Mallinson —, não me sinto inclinado a propor um voto de agradecimento. Não pedimos que nos trouxessem aqui, e Deus sabe o que have- mos de fazer quando estivermos lá — onde quer que seja esse lá. E não acho menor a afronta por ser o sujeito um grande aviador. Isso não impede que seja maluco. Já ouvi contar o caso de um piloto que enlouqueceu no ar. Este sujeito já devia estar louco quando começou. Aí está a minha teoria, Conway. Conway ficou silencioso. Enfastiava-se de estar conti- nuamente a gritar entre o ruído do motor, e, além disto, não adiantava nada discutir sobre conjeturas. Entretanto, como Mallinson insistisse por uma opinião, disse: — Loucura muito bem organizada, como vê. Não esqueça aquela aterragem para tomar gasolina, e lembre-se também de que este aparelho era o único que podia subir a tamanha altura. 48
  45. 45. — Não prova que ele não seja louco. Podia ser bas- tante louco para arranjar tudo isso. — Sim, é possível, certamente. — Pois bem, vamos então assentar um plano de ação. Que faremos quando o homem aterrar? Se não se chocar nos rochedos matando a nós todos, bem entendido... Que faremos? Correr para ele e felicitá-lo pelo seu vôo maravilhoso, não? — Comigo não! exclamou Barnard. — Corra para ele quem quiser, menos eu. Não sentia Conway nenhum desejo de prolongar a discussão, tanto mais que o americano, com os seus grace- jos ponderados, parecia perfeitamente capaz de sustentá- lo. Conway estava já a pensar que o grupo poderia ser muito menos bem constituído. Somente Mallinson tinha tendência para aborrecer os outros; e isto podia dever-se, em parte, à altitude. O ar rarefeito produz efeitos diversos sobre as pessoas; nele, por exemplo, o resultado era uma clareza de idéias combinada com uma apatia física, estado não de todo desagradável. O certo é que aspirava o ar frio e límpido com verdadeira delícia. A situação, sem dúvida, era aterradora. Mas, por enquanto, não podia indignar-se contra uma coisa que se desenrolava de maneira tão metó- dica e despertava tão cativante interesse. E ao contemplar aquelas montanhas soberbas sentiu também uma ardente satisfação, por ver que ainda havia na terra lugares assim — distantes, inacessíveis, ainda virgens do contato humano. A muralha de gelo dos montes Caracorum aparecia, agora, mais nítida ainda contra o céu do norte, que tomara um matiz ruço e sinistro. Os picos tinham um brilho géli- do, tão profundamente majestosos e remotos que até o seu 49
  46. 46. anonimato se revestia de dignidade. Aquelas centenas de metros que lhes faltavam para alcançar os gigantes conhe- cidos podia livrá-los eternamente das escaladas: eram menos tentadores aos recordistas. Era Conway a antítese deste tipo; inclinava-se a ver certa vulgaridade no ideal ocidental dos superlativos. Não o tentava o esforço excessivo, e as proezas sem finalidade aborreciam-no. Enquanto ele continuava a contemplar o cenário caiu o crepúsculo, mergulhando as profundidades num negror aveludado que se estendia para cima, como uma tinta que se esbate. Então toda a cordilheira, muito mais próxima agora, empalideceu e revestiu-se de novo esplendor. Surgi- ra a lua cheia, ferindo os picos um a um, como um celestial acendedor de lampiões. Por fim, toda a extensão do horizonte cintilava contra o céu azul-ferrete. O ar esfriou e saltou um vento, sacudindo incomodamente o aparelho. A estes novos aborrecimentos começaram os passa- geiros a desanimar; não contavam com a prolongação do vôo pela noite adentro, e agora só lhes restava a esperança de esgotar-se o combustível, o que, aliás, não devia tardar muito a suceder. Começou Mallinson a discutir este assun- to e Conway, meio relutante, pois de fato não sabia, deu o seu parecer. A distância máxima que podiam percorrer devia orçar por umas mil milhas, a maior parte das quais já teria ficado para trás. — Pois sim. E aonde nos pode isso levar? — indagou o moço, desalentado. — Não é fácil de julgar, mas provavelmente a algum ponto do Tibete. Se estes são os montes Caracorum, o Ti- bete fica além deles. Um desses cumes, por sinal, deve ser o K2, que é geralmente considerado a segunda montanha 50
  47. 47. do mundo em altura. — O primeiro na lista, depois do Everest — comen- tou Barnard. — Apre! Isto é que é panorama! — E, para um alpinista, muito pior do que o Everest. O Duque de Abruzos renunciou a ele, considerando-o absolutamente inacessível. — Oh! meu Deus! — murmurou Mallinson. de muito mau humor. Barnard, porém, riu: — Vejo que você será o nosso guia oficial durante a viagem, Conway. Declaro que, se eu tivesse à mão um frasco de café-conhaque pouco se me daria que isto fosse o Tibete ou Tennessee! — Mas que havemos de fazer? — insistia Mallinson. — Por que estamos aqui? Qual será o propósito de tudo isto? Não compreendo como podem caçoar de uma coisa assim! — Ora essa! Vale tanto como fazer cenas, jovem. Além disso, se o homem é mesmo louco, como você quer, provavelmente não terá propósito algum. — Ele tem de ser louco. Não posso achar outra expli- cação. E você, Conway? Este sacudiu a cabeça. Miss Brinklow voltou-se para trás, como poderia ter feito durante um intervalo no teatro, e disse com esganiçada modéstia: — Como não pediram minha opinião, talvez não deva dá-la. Mas desejo dizer que sou do parecer de Mr. Mallinson. Tenho certeza de que o pobre homem não pode estar regulando bem do juízo. Refiro-me ao piloto, é claro. Não haveria desculpa alguma para o seu procedimento, 51
  48. 48. senão a loucura. E acrescentou, erguendo a voz acima do barulho ensurdecedor: — E sabem? Esta é a minha primeira viagem de avião! Absolutamente a primeira! Nunca me tinha resol- vido a voar, embora uma amiga tivesse feito o possível para me persuadir a tomar o avião de Londres a Paris. — E agora, vai a senhora voando da índia para o Ti- bete — disse Barnard. — Assim é o mundo. — Conheci um missionário que esteve no Tibete — continuou ela. — Dizia que os tibetanos eram muito esqui- sitos. Acreditam que descendemos dos macacos. — Dão prova de notável penetração! — Oh! não, não quero dizer no sentido moderno. Essa crença lhes vem de séculos atrás. Nada mais que uma de suas superstições. Claro que sou contrária a tudo isso, e para mim Darwin era muito pior que qualquer tibetano. Eu me baseio na Bíblia. — quot;Fundamentalistaquot;, então? Mas parece que Miss Brinklow não compreendeu o termo, porque gritou: — Eu pertencia à L. M. S., mas discordei deles na questão do batismo das crianças. Muito depois de atinar com a significação das iniciais — London Missionary Society —, Conway ainda conti- nuava a achar cômica a observação de Miss Brinklow. Ponderando sempre os inconvenientes de uma discussão teológica no recinto da sociedade missionária, começou a parecer-lhe que Miss Brinklow não era destituída de certa fascinação. Pensou até em lhe oferecer alguma peça do seu vestuário para agasalhá-la durante a noite, mas afinal disse 52
  49. 49. consigo que ela tinha uma constituição provavelmente mais rija do que a sua. Portanto, aconchegou-se no assento de vime, cerrou os olhos e adormeceu docemente. E o vôo prosseguia. De repente despertaram todos, sacudidos por uma guinada do aparelho. Conway bateu com a cabeça na jane- la, e por um momento sentiu-se atordoado. Nova guinada em sentido contrário atirou-o aos encontrões entre as duas filas de assentos. O frio aumentara bastante. A primeira coisa que fez Conway foi olhar maquinalmente para o seu relógio. Era uma e meia. Devia ter dormido algum tempo. Enchia-lhe os ouvidos um som de bater de asas, que a princípio julgou imaginário; logo percebeu, porém, que o motor não funcionava e que o avião estava lutando com uma ventania contrária. Olhou então pela janela e viu a terra, muito pró- xima, vaga e acinzentada, que fugia ali embaixo. — Ele vai aterrar! — bradou Mallinson. E Barnard, que também fora arrojado do assento, res- pondeu com um soturno: quot;Se tiver sorte!quot; Miss Brinklow, que parecia a menos perturbada do grupo, ajustava o chapéu com tanta calma como se esti- vesse à vista o porto de Dover. Pouco depois o avião tocou em terra. Desta vez, porém, foi má a aterragem. — Oh ! meu Deus! Que horror! Que horror! — gri- tava Mallinson, durante os dez segundos de baques e solavancos. Ouviu-se o som de alguma coisa que se retesava e rebentava, e um dos pneumáticos explodiu. 53
  50. 50. — Pronto! — acrescentou ele, aflito. — Quebrou-se um dos patins da cauda. Vamos ter de ficar aqui, não há dúvida! Conway, que falava pouco nos momentos críticos, esticou as pernas emperradas e apalpou a cabeça no lugar da pancada. Uma pequena escoriação, nada mais. Cum- pria-lhe fazer alguma coisa por aquela gente. Contudo, quando o avião estacou definitivamente, foi o último pas- sageiro que se levantou. — Prudência! — recomendou, vendo que Mallinson puxava com violência a porta da cabina, dispondo-se a sal- tar para terra. E, naquele silêncio relativo, a voz do moço repercutiu de maneira esquisita: — Não é preciso. . . Isto parece o fim do mundo. . . Não se vê vivalma. Um momento depois, tiritando no intenso frio, verifi- caram os outros que assim era. Não ouviam som algum, a não ser os uivos da ventania e o eco dos próprios passos. Sentiam-se à mercê de qualquer coisa implacável e sinistramente melancólica — e esse espírito parecia saturar igualmente terra e ar. A lua parecia ter desaparecido atrás de umas nuvens, e só as estrelas iluminavam a vastidão espantosamente vazia, agitada apenas pelo vento. Mesmo sem conhecer o lugar, ter-se-ia adivinhado que aquele mundo gelado era o topo de uma montanha, e que as montanhas que ali se erguiam eram montanhas acumuladas sobre montanhas. No horizonte longínquo alvejava uma cadeia delas, qual fila de dentes de cão. Mallinson, entregue a uma atividade febril, dirigia-se já para a cabina de comando. — Em terra não tenho medo desse sujeito, seja ele quem for! — gritava. — Vai entender-se comigo, e é para 54
  51. 51. já!... Os outros observavam-no, hipnotizados pelo espetáculo daquela energia, embora também um pouco apreensivos. Conway correu empós dele, mas demasiado tarde para impedir a tentativa. Volvidos alguns segundos, todavia, o moço tornava a descer, segurando-lhe o braço e murmurando em frases destacadas, com voz grave e rouca: — Escute, Conway, é esquisito. . . Creio que o sujei- to está doente, morto, ou coisa parecida. . . Não pude arrancar-lhe uma palavra. Venha ver. . . Em todo caso, tirei-lhe o revólver. — É melhor que mo dê, então. E Conway, embora estivesse ainda um pouco tonto com a recente pancada na cabeça, aprestou-se para agir. De todas as situações imagináveis, esta lhe parecia combi- nar as circunstâncias mais horrivelmente adversas. Encarapitou-se com dificuldade numa posição de onde podia ver — não muito bem — o interior do recinto fechado. Como sentisse um forte cheiro de petróleo, não se arriscou a acender um fósforo. Apenas pôde notar que o piloto, com o corpo caído para a frente, tinha a cabeça em cima do quadro de instrumentos. Sacudiu-o, afrouxou-lhe o elmo, desabotoou-lhe a gola e o colarinho. Um momento depois voltou-se para dizer aos outros: — É exato; aconteceu-lhe alguma coisa. Precisamos tirá-lo daí. Mas um observador poderia acrescentar que alguma coisa sucedera a Conway, também. Sua voz era mais forte, mais incisiva. Já não parecia pairar à beira de um abismo de dúvida. A ocasião, o lugar, o frio, a fadiga — nada disso tinha já tanta importância. Havia alguma coisa que fazer, e a parte convencional do seu ser, agora desperta, preparava-se para executá-la. 55
  52. 52. Com o auxílio de Mallinson e Barnard, o piloto foi tirado do assento e deitado no chão. Não estava morto, mas desfalecido. Conway não possuía conhecimentos especiais de medicina, mas, como à maioria dos homens que viveram em terras estrangeiras, eram-lhe familiares os fenômenos da doença. — Talvez um ataque cardíaco, provocado pela alti- tude — diagnosticou, curvando-se sobre o desconhecido. — Não podemos fazer grande coisa por ele aqui. . . Não há meio de abrigá-lo contra este vento infernal. É melhor irmos com ele para dentro da cabina. Não sabemos onde estamos, e não há esperança de nos podermos orientar ames da alvorada. Tanto a sugestão como o veredicto foram aceitos sem discussão. Até Mallinson ajudou. Transportaram o homem para a cabina e o estenderam no corredor entre os assentos. Não era o interior mais quente que lá fora, mas oferecia proteção contra as rajadas de vento. E dentro em pouco era ele, o vento, a principal preocupação de todos — como que o leitmotiv do drama daquela noite. Não era um vento comum, um simples vento muito forte ou muito frio. Era uma espécie de fúria desencadeada em torno deles, um amo que vociferava e batia o pé no seu domínio. Inclinava o aparelho com a sua carga, sacudindo-o raivosamente, e, quando Conway olhava pelas janelas, parecia-lhe que o mesmo vento arrancava centelhas das estrelas e as fazia redemoinhar. Jazia inerte o desconhecido, enquanto Conway, não sem dificuldade naquele espaço exíguo, procurava exami- ná-lo. O exame, porém, não revelou muita coisa. — O coração está fraco — declarou afinal. Foi então que Miss Brinklow, remexendo na sua bolsa, disse em tom condescendente, provocando alguma 56
  53. 53. sensação nos outros: — Quem sabe se isto faria bem ao homem? Nunca pus uma gota na boca, mas sempre trago uma garrafa comigo, para casos de acidente. E isto é uma espécie de acidente, não acham? — Creio que sim — respondeu Conway com gravi- dade. Retirou a tampa do frasco, cheirou-o e derramou um pouco de conhaque na boca do homem. — É justamente do que ele precisava. Obrigado. Daí a pouco percebeu-se, à luz de um fósforo, levís- simo estremecimento das pálpebras. De súbito, Mallinson teve um acesso de nervos. — Não posso mais! — dizia, rindo como um doido. — Parecemos uma turma de idiotas, riscando fósforos sobre um cadáver... E ele não é nada bonito, hem? Creio que é chinês, se é que tem alguma nacionalidade! — É possível — tornou Conway, cuja voz era seca e severa. — Mas o homem ainda não é cadáver. Com um pouco de sorte, talvez possamos chamá-lo à vida. — Sorte? Será sorte para ele, não para nós. — Não se fie muito nisso. E, por enquanto, fique calado! Embora mal se dominasse, Mallinson ainda tinha muito de menino de escola e obedeceu à ordem lacônica de seu superior. E Conway, por muita pena que tivesse dele, estava mais preocupado com o problema imediato que representava o piloto, pois só este poderia dar alguma explicação naquele apuro. Não se sentia inclinado a levar adiante a discussão no terreno puramente especulativo. Já se haviam fartado disso durante a viagem. Sua inquietação ia além da simples curiosidade intelectual, pois percebia que a situação deixara de ser excitantemente perigosa para se transformar numa prova de resistência, que acabaria em 57
  54. 54. catástrofe. Mantendo-se em vigília durante aquela noite tormentosa, não encarou os fatos menos francamente por não os enunciar aos outros. Adivinhava que o vôo se esten- dera muito além da cordilheira ocidental dos Himalaias, para as alturas menos conhecidas do Kuen-Lun. A ser assim, teriam já alcançado a parte mais elevada e mais inóspita da superfície da Terra — o planalto do Tibete, cujos vales mais baixos ficavam a mais de três mil metros de altitude. Uma vasta região montanhosa, desabitada, inexplorada em sua maior parte, varrida pelos ventos. Estavam perdidos ali, num ponto qualquer daquele país, com menos recursos do que no comum das ilhas desertas. E foi então que, como uma resposta que vinha aumentar ainda a sua curiosidade, sobreveio abruptamente uma tre- menda transformação. A lua, que lhe parecera oculta pelas nuvens, vinha topetando com a cumeada de alguma emi- nência sombria e, posto que ainda não se mostrasse direta- mente, descerrava o véu da escuridão. Conway divisou os contornos de um extenso vale, limitado de um lado e outro por outeiros arredondados, melancólicos, de pouca altura, e negros de azeviche contra o céu noturno, de um azul elé- trico. Era, porém, a cabeceira do vale que lhe atraía irresistivelmente os olhares, pois que ali, erguendo-se na abertura, magnificente ao fulgor do luar, surgia uma montanha que lhe pareceu ser a mais bela do mundo. Era um cone de neve quase perfeito, de perfil tão simples como se o tivesse desenhado uma criança, e impossível de classificar quanto à altura, tamanho ou distância. Era tão radiante, tão serenamente equilibrado, que Conway perguntava consigo se seria real. Então, enquanto ele o contemplava, um pequenino tufo branco velou a borda da pirâmide, dando vida à visão antes que viesse confirmá-lo o rumor longínquo da avalancha. 58
  55. 55. Ia acordar os outros para que participassem do espetáculo, mas, pensando melhor, achou que o efeito poderia não ser lá muito tranqüilizador. E de fato não o era, do ponto de vista do senso comum; aqueles esplendores virgens só podiam aumentar a sensação de isolamento e de perigo. Era bem provável que a mais próxima habitação humana ficasse a centenas de milhas dali. E não tinham alimento; como armas, apenas possuíam um revólver. O avião estava danificado e quase sem combustível — além de ninguém saber dirigi-lo. Faltavam-lhes roupas apropriadas àquele frio e àquele vento terrível. Tanto a capa de couro de Mallinson como o seu impermeável eram insuficientes, e a própria Miss Brinklow, toda envolvida em lãs e abafada em mantas como para uma expedição polar — o que lhe parecera ridículo a princípio —, não podia sentir-se muito a gosto. Além disto, achavam-se todos, salvo ele próprio, abalados pela altitude. Até Barnard sucumbira à melancolia. Mallinson resmungava consigo; era evidente o que lhe sucederia se aquelas atribulações se prolongassem por muito tempo. Diante de tão angustiosa perspectiva, não se conteve Conway de lançar um olhar de admiração a Miss Brinklow. Não era — disse ele consigo — uma pessoa normal; nem se podia considerar normal uma mulher que ensinava os afeganes a cantar hinos. Mas o fato é que ela- se mostrava, depois de cada calamidade, normalmente anormal, e Conway lhe era profundamente grato por isso. — Espero que a senhora não se esteja sentindo muito mal — disse-lhe, com simpatia, quando os olhares de ambos se cruzaram. — Os soldados durante a guerra suportaram coisas piores — replicou ela. Não lhe pareceu muito acertada a comparação. Na 59
  56. 56. verdade, ele nunca passara nas trincheiras uma noite tão completamente desagradável como esta, conquanto isso houvesse acontecido, sem dúvida alguma, a outros. Con- centrou a atenção no piloto, que agora respirava espasmodicamente e de vez em quando fazia um leve movimento. Com certeza Mallinson não errara supondo o homem chinês. Tinha o nariz e os malares típicos dos mongóis, apesar de seu feliz disfarce de tenente-aviador britânico. Mallinson chamara-lhe feio, mas Conway, que tinha morado na China, achava-o um espécime passável, se bem que agora, à luz do fósforo que ele acendera, aquela pele descorada e a boca escancarada não parecessem nada belas. Ia a noite arrastando-se, como se cada minuto fosse alguma coisa pesada e tangível, que necessitasse de um empurrão para ceder lugar ao seguinte. Passado algum tempo desapareceu o luar, e com ele o espectro distante da montanha. E a tríplice inclemência da escuridão, do frio e da ventania foi aumentando até o raiar da manhã. Ao aceno desta calou-se o vento, deixando o mundo imerso numa compassiva quietação. Emoldurada no pálido triân- gulo que tinham à frente, tornou a aparecer a montanha, cinzenta a princípio, depois prateada e afinal rósea, quando os primeiros raios do sol lhe feriram o vértice. À pro- porção que ia esmaecendo a obscuridade, o próprio vale tomava forma, revelando um fundo de rochedos e cascalho que subia em encosta inclinada. Não era uma cena hospita- leira aquela, mas assumiu aos olhos de Conway, enquanto a contemplava, um toque esquisito de beleza — alguma coisa que, sem nenhum fascínio romântico, tinha no entan- to uma qualidade rígida, quase intelectual. A pirâmide branca, lá longe, impunha-se ao espírito tão desapaixonadamente como um teorema euclidiano; e 60
  57. 57. quando, afinal, o sol surgiu num céu profundamente azul, ele quase tornou a sentir um certo bem-estar. Já o ar estava mais tépido quando os outros acordaram, e Conway lembrou que se levasse o piloto para fora, onde a luz do sol e o ar seco e vivo poderiam ajudá-lo a voltar a si. Assim fizeram, e começaram uma segunda vigia, desta vez mais agradável. Por fim o homem abriu os olhos e pôs-se a falar convulsivamente. Seus quatro passa- geiros curvaram-se para ele, prestando atenção àqueles sons ininteligíveis para todos, exceto para Conway, que respondia de vez em quando. Depois de algum tempo o homem foi ficando mais fraco, falando cada vez com mais dificuldade, e afinal expirou. Foi isso, mais ou menos, às nove horas. Voltou-se então Conway para os companheiros: — Sinto comunicar-lhes que ele disse muito pouco — isto é, pouco relativamente ao que desejaríamos saber. Apenas que estamos no Tibete, o que é evidente. Não deu nenhuma explicação coerente do motivo por que nos trou- xe aqui, mas parecia conhecer o lugar. Falou um chinês que eu não compreendo muito bem, mas creio que se refe- riu a um mosteiro de lamas, próximo daqui (na costa do vale, parece), onde encontraríamos alimento e abrigo. Shangri-Lá foi o nome que ele disse. Lá, em tibetano, quer dizer desfiladeiro. Insistiu muito para que fôssemos ao mosteiro. — O que não me parece ser uma razão para irmos — acudiu Mallinson. — Afinal, ele sem dúvida estava fora de si, não estava? — A este respeito, sei tanto quanto você. Mas, se não formos a esse lugar, aonde mais havemos de ir? 61
  58. 58. — Onde você quiser, isso não me importa. O que é certo é que esse Shangri-Lá, se fica naquela direção, deve estar mais algumas milhas afastado da civilização, e eu preferiria que fossemos encurtando, não aumentando a distância. Com mil diabos, homem! Você não nos vai levar de volta? Conway respondeu com paciência: — Creio que você não compreende devidamente a situação, Mallinson. Achamo-nos numa parte do mundo sobre a qual pouco se sabe, a não ser que é difícil e perigo- sa, mesmo para uma expedição perfeitamente aparelhada. Considerando que provavelmente nos cercam por todos os lados centenas de milhas de território nas mesmas condi- ções, a idéia de voltar a Peshawar não me parece muito praticável. — Não acho que eu seja capaz de caminhar tanto assim — disse Miss Brinklow com grande seriedade. Barnard concordou: — O que me parece é que teríamos muita sorte se de fato esse convento ficasse ali na esquina. — Relativa sorte, talvez — tornou Conway. — Afi- nal, não temos o que comer e a região não é daquelas em que a vida é fácil. Dentro de algumas horas estaremos todos esfomeados. E esta noite, se ficarmos aqui, teremos de sofrer de novo o vento e o frio. A perspectiva não é agradável. Parece-me, pois, que a nossa única salvação seria encontrarmos outros seres humanos; e onde mais havemos de procurá-los, a não ser onde nos disseram que existem? — E se for uma ratoeira? — perguntou Mallinson. — Uma ratoeira bem quentinha — respondeu Bar- nard — com um pedaço de queijo dentro me encheria as 62
  59. 59. medidas. Riram todos, menos Mallinson, que parecia agitado e nervoso. Finalmente Conway prosseguiu: — Estamos todos mais ou menos de acordo, então? O caminho lógico é pelo vale. Não me parece muito escarpado, contudo teremos de andar devagar. Seja como for, não podemos ficar aqui. Não nos seria possível sequer enterrar este homem, sem dinamite. Além disto, os monges do convento talvez nos forneçam carregadores para a volta. Vamos precisar de carregadores. Opino, portanto, que devemos ir imediatamente, porque, se não locali- zarmos o ponto até a tardinha, teremos tempo de voltar para passar a noite no avião. — E no caso de localizarmos o ponto? — indagou Mallinson, ainda intransigente. — Quem nos garante que não seremos assassinados? — Ninguém. Mas creio que o risco é menor que o de morrer de frio ou de fome, e talvez seja preferível. E, como sentisse que esta lógica desalentadora não era muito apropriada à ocasião, acrescentou: — Na verdade, um assassinato é a coisa mais impro- vável do mundo num mosteiro budista. Mais improvável, mesmo, do que ser morto numa catedral inglesa. — Como São Tomás Becket — acudiu Miss Brinklow, concordando com um gesto enfático de cabeça e anulando, sem dar por isso, o argumento de Conway. Mallinson encolheu os ombros e replicou, melancó- lico e irritado: — Pois bem, então vamos para Shangri-Lá. Seja o que for, e esteja onde estiver, tentemos a aventura. Mas esperemos que não fique a meia encosta daquela monta- nha. 63
  60. 60. A esta observação fixaram todos o olhar no cone resplandecente que assomava na abertura do vale. Em plena luz do dia, era uma visão magnífica e puríssima. Daí a um momento exprimiam esses olhares o maior pasmo: tinham avistado ao longe, descendo a encosta na direção deles, algumas figuras de homens. — A Providência! — murmurou Miss Brinklow. 64
  61. 61. CAPÍTULO III Com uma parte do seu ser, Conway era sempre um espectador, por mais ativas que estivessem as outras facul- dades. Agora mesmo, enquanto esperava que os desconhe- cidos se aproximassem, não se deixou induzir a tomar uma decisão sobre o que cumpria fazer ou deixar de fazer nesta ou naquela eventualidade. E isto não era bravura, nem frie- za, nem uma alta confiança na própria capacidade de tomar resoluções sob o estímulo do momento. Era, se considerarmos a atitude sob o seu pior aspecto, uma forma de indolência — uma relutância a abrir mão do seu inte- resse de mero espectador no que ia acontecer. Quando as figuras chegaram mais perto, eles puderam distinguir um grupo de doze ou mais homens, acompa- nhando uma liteira de capota. Dentro desta, um pouco mais tarde, divisaram uma pessoa vestida de azul. Conway não podia imaginar aonde iriam, mas parecia certamente providencial, como dissera Miss Brinklow, que essa comi- tiva viesse passar justamente por ali e naquela ocasião. Assim que chegaram ao alcance da voz, adiantou-se a pas- sos vagarosos, pois sabia que os orientais apreciam muito o ritual das saudações e gostam que elas sejam demoradas. Fazendo alto a alguns metros de distância, curvou-se com a devida cortesia. Com grande surpresa, viu o homem ves- tido de azul descer da liteira, adiantar-se com uma resolu- ção cheia de dignidade e estender-lhe a mão. Enquanto a apertava, notou que era um chinês velho, ou pelo menos de 66
  62. 62. idade madura, já grisalho, de rosto escanhoado, e palidamente decorativo na sua túnica de seda bordada. Por sua vez, o outro também parecia estar submetendo-o a um rápido exame. Então, num inglês preciso e quiçá demasiado gramatical, disse: — Pertenço ao convento lamaísta de Shangri-Lá. Curvou-se de novo Conway, e depois de uma pausa conveniente pôs-se a explicar, em breves palavras, as circunstâncias que o tinham trazido, com seus três compa- nheiros, àquela parte pouco freqüentada do mundo. Ao fim da explicação o chinês fez um gesto de compreensão e disse, olhando pensativamente para o aeroplano avariado: — É na verdade notável! E acrescentou: — Chamo-me Tchang. Quer ter a bondade de me apresentar aos seus amigos? Conway tratou de sorrir com polidez. Estava assom- brado com esse fenômeno: um chinês que falava perfeita- mente o inglês e observava as formalidades sociais de Bond Street nas montanhas bravias do Tibete. Voltou-se para os outros, que se haviam aproximado e observavam o encontro com maior ou menor espanto. — Miss Brinklow. . . Mr. Barnard, que é americano... Mr. Mallinson... e eu chamo-me Conway. Todos sentimos prazer em vê-lo, embora este encontro seja quase tão extraordinário quanto o fato de estarmos aqui. Na verdade, íamos justamente partir a caminho do seu mosteiro, de sorte que o encontro é duplamente afortunado. Se o senhor puder fornecer-nos indicações para a viagem. . . — Não é preciso. Dar-me-ei por feliz em lhes servir de guia. — Mas não posso permitir que se dê a tamanho 67
  63. 63. incômodo. É extremamente gentil, mas se não fica muito longe. . . — Não fica longe, mas também o caminho não é fácil. Considero uma honra acompanhá-lo, e aos seus amigos. — Mas realmente nós. — Devo insistir. Achou Conway que a discussão, naquele lugar e em tais circunstâncias, corria algum perigo de se tornar ridícu- la. E respondeu: — Pois seja. Todos nós lhe ficamos agradecidíssimos. Mallinson, que suportara com ar sombrio essas deli- cadezas, interveio então, no tom agudo e acerbo das casernas: — Não ficaremos muito tempo — anunciou laconicamente. — Pagaremos tudo que gastarmos, e desejamos alugar alguns dos seus homens para nos auxiliarem na viagem de volta. Queremos tornar o mais depressa possível à civilização. — E tem tanta certeza de que está longe dela? A pergunta, formulada com a maior suavidade, exa- cerbou ainda mais o moço: — Tenho toda a certeza de que estou muito longe de onde desejo estar, e não só eu, como todos nós. Ficar-lhe- emos gratos por nos albergar temporariamente, mas a nossa gratidão será ainda maior se o senhor nos fornecer meios para voltar. Quanto tempo julga que tomará a via- gem para a Índia? — Na verdade, não sei dizer. — Não importa; espero que não encontremos dificul- dade nisso. Tenho alguma experiência de alugar 68
  64. 64. carregadores nativos, e esperamos que o senhor faça valer a sua influência para que sejamos bem servidos. Parecendo-lhe tudo aquilo truculência desnecessária, ia Conway intervir quando veio a réplica, assentada sobre imensa dignidade: — Só lhe posso assegurar, Mr. Mallinson, que será tratado com toda a consideração, e em última análise não terá de que se arrepender. — Em última análise? — exclamou Mallinson, arremetendo com a expressão. Não foi difícil, entretanto, evitar uma cena, pois que os tibetanos ofereciam já vinho e frutas, que tinham trazido. Eram homens sólidos, vestidos de couro de ovelha, com gorros de pele e botas de couro de iaque. O vinho tinha um agradável aroma, semelhando o de um bom vinho branco do Reno; entre as frutas havia mangas perfeitamente amadurecidas, quase pungentes de tão saborosas, após tantas horas de jejum. Mallinson comeu e bebeu satisfeito, mas sem curiosidade. Conway, porém, livre de inquietações imediatas e não desejando buscar as mais distantes, perguntava consigo como seria possível cultivar mangas naquela altitude. Interessava-o também a montanha que ficava além do vale; era, a todos os respeitos, um pico sensacional, e admirava-se de que nenhum viajante fizesse menção dele num desses livros que toda expedição ao Tibete faz invariavelmente surgir. Enquanto o contemplava ia escalando-o mentalmente, escolhendo caminho por gargantas e ravinas, quando uma exclamação de Mallinson o fez voltar à terra. Olhou em redor e viu que o chinês o encarava atentamente. — Estava contemplando a montanha, Mr. Conway? — Sim. É um belo espetáculo. Tem nome, com certeza. — Chama-se Karakal. 69

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