UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁSFACULDADE DE COMUNICAÇÃO E BIBLIOTECONOMIA    CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA          RENA...
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2                           RENATA DE SOUZA PRADO                                MEDO NA MÍDIA:                  UMA VISÃO...
3A todos que fizeram do medo o maior entrave de uma vida feliz.
4AGRADECIMENTOSAo meu orientador, amigo desde os tempos de Rádio e TV, paciente einteressado em meu trabalho. Aos amigos, ...
5“Não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele”.                                           Alfred Hitchcock
6                                          RESUMOEste trabalho trata da convergência de três pontos principais, mostrando ...
7                                           ABSTRACTThis work is about the covergence of three principal matters, showing ...
8                                                           SUMÁRIOINTRODUÇÃO ...............................................
9                                              INTRODUÇÃO          A idéia inicial desta monografia surgiu há mais ou meno...
10brothers que nos espionam a cada passo. Já não se pode mais sair para a noite com os amigos,ou jantar com a namorada com...
11ser percebido como o medo é infligido aos cidadãos, e quem está nos bastidores de talprodução de informação. Comparativa...
12                                   1 O DESVENDAR DO MEDO.                                                               ...
13       Mas o medo é fato, e por várias razões, desde o perigo que um animal peçonhentorepresenta a uma criança, quanto a...
14reside o perigo de reagir incorretamente ao medo, já que nesta entrega, a pessoa não se sentemotivada a lutar por sua vi...
15violência, e são estas definições a que este tópico se aterá. É importante considerar tambémuma escala crescente da mani...
16social” e o associa à violência urbana principalmente, e no qual podemos claramentevislumbrar essas definições de medo, ...
17estas em maior ou menor intensidade, ampliam ou diminuem a capacidade de existir do corpoe da alma:                     ...
18       Essa fabricação do medo no plano social é inevitável e vital para a construção dassociedades, segundo Delumeau:  ...
19                          (simbolização da natureza selvagem ou animalesca) rumo a uma domesticação que,                ...
20                        mundo da contravenção e ao tráfico de drogas em troca de segurança e proteção.”                 ...
21uso para atingir objetivos de natureza política, religiosa ou ideológica através da intimidação,coerção ou pela implanta...
22        Essas pessoas, exceto no caso de psicopatas, tem exata noção do que estão fazendo,não distinguem inocentes de in...
23                             2 A HISTÓRIA COMEÇA NA CULTURA.                                                            ...
242.1 AMERICAN WAY OF LIFE PARA O MUNDO       Tudo começou em 1776, no dia 04 de Julho, quando os norte-americanos sedecla...
25           Esse americano médio, chamado em território próprio de John Doe, ou “Zé Mane”, é“religioso, glutão de fast-fo...
26relação com outros blocos de países acabam não sendo muito diferenciadas. A partir daí umacerta característica do americ...
27292), “meteram medo ao povo americano com visões de pequenos Hitlers e Stalins surgindopor toda a parte, a não ser que a...
28minoria, imposta pela força sobre a maioria. Depende do exercício do terror e da opressão,controle de imprensa e de rádi...
29parte de estrangeiros e dos próprios brasileiros é principalmente relacionada a questõesculturais, quando se diz que o B...
30       Grave também é o preconceito de classes e raças. No Brasil, é fato que a renda éabsurdamente mal distribuída, e a...
31       De acordo com Darcy Ribeiro (Ibid., p. 205), ocorreu uma deculturação do povobrasileiro, talvez por ser tão abert...
32                       3 MÍDIA TELEVISIVA: QUEM MANDA, AFINAL?                                                          ...
33freudiano trata. E para cumprir essa função o espetáculo é inevitável, estabelecendo “tensãoentre momentos de fantasia l...
34nem um pouco pares com a realidade, em programas simplórios como “America’s FunniestHome Vídeos”3. Programas policiais q...
35p. 83) diz que “há o reforço na crença de que a ordem dos acontecimentos programados emaquiados é o único mundo possível...
36informação, quando, por exemplo, “as pessoas que moram fora da cidade sentem comopróprios os problemas da cidade maior, ...
37propaganda quem determina vencedores de eleições, e a própria espetacularização dapropaganda política, em que não são ap...
38pertence à família do presidente George W. Bush, cujo irmão e sócio majoritário da rede eragovernador do Texas.       Nã...
Medo na Mídia - uma visão distorcida da violência
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Monografia da minha conclusão do curso de Publicidade em 2006, em que relacionei a cultura do medo com o discurso apropriado pela mídia e tendo como pano de fundo os atentados terroristas de 11 de Setembro.

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁSFACULDADE DE COMUNICAÇÃO E BIBLIOTECONOMIA CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA RENATA DE SOUZA PRADO MEDO NA MÍDIA: UMA VISÃO DISTORCIDA DA VIOLÊNCIA. Goiânia 2006
  2. 2. 1 RENATA DE SOUZA PRADO MEDO NA MÍDIA:UMA VISÃO DISTORCIDA DA VIOLÊNCIA. Monografia apresentada à Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia, como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Federal de Goiás. Orientador: Prof. Dr. Magno Medeiros. Goiânia 2006
  3. 3. 2 RENATA DE SOUZA PRADO MEDO NA MÍDIA: UMA VISÃO DISTORCIDA DA VIOLÊNCIA. Folha de AprovaçãoMonografia apresentada à Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia, como requisitoparcial para a obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Federal de Goiás. Aprovado em ___ de ____________de _____ Banca Examinadora __________________________ Orientador Professor Dr. Magno Medeiros __________________________ Professor convidado __________________________ Professor convidado Goiânia 2006
  4. 4. 3A todos que fizeram do medo o maior entrave de uma vida feliz.
  5. 5. 4AGRADECIMENTOSAo meu orientador, amigo desde os tempos de Rádio e TV, paciente einteressado em meu trabalho. Aos amigos, preocupados em me passarnomes de livros e que me suportaram esse ano. Ao Eros, interessadoaté demais, sempre cobrando capítulos e resultados. Ao Nivaldo, queme comprou alguns livros e me distraiu quando foi preciso.
  6. 6. 5“Não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele”. Alfred Hitchcock
  7. 7. 6 RESUMOEste trabalho trata da convergência de três pontos principais, mostrando como o medo daviolência é retratado pela mídia. Com o objetivo de mostrar que a violência vista na mídiacorresponde mais a uma tendência ao exagero nas estatísticas do que a verdade em si,causando medo exacerbado dos crimes – manipulação dos fatos essa fruto de interesses dequem comanda as redes de televisão e também do governo – surgiu a proposta de umareflexão sobre alguns casos. Foram utilizadas amostras da programação televisiva de doispaíses, Estados Unidos e Brasil, pela expressiva presença tanto de uma cultura do medo e daviolência, quanto a ocorrência desta em si, representada em cada país de uma forma diferente.Nos Estados Unidos, o enfoque é nos noticiários e propagandas em geral, depois do períodode 11 de Setembro, em que um ataque terrorista mudou o enfoque da mídia para esse tipo deviolência. No Brasil, o enfoque é para a violência urbana, mais particularmente à forma comoé vista a questão das armas de fogo num referendo realizado no ano de 2005, além de um casorecente envolvendo o crime organizado. Nos dois casos, verifica-se que é predominante avisão de uma ideologia do medo, com a simples transmissão de informações, em ritmoacelerado e exagerado, fazendo crer que a ocorrência da criminalidade é maior do que arealidade mostra, causando grande insegurança na população. Por trás dessa visão, figuramelementos de poder, já que a situação em geral é geradora de alienação. Esta por sua vez, fazcom que não haja um debate efetivo, e não exista principalmente envolvimento da sociedadecom um problema do qual ela própria é vítima e responsável. O medo acaba por não darespaço para um caminho de saída, que é a discussão e a proposição de reformas quediminuiriam os índices de violência e intolerância.Palavras-chave: medo, cultura, política, sociedade, Brasil, Estados Unidos, mídia, televisão,noticiários, propaganda, ideologia, armas de fogo, terrorismo.
  8. 8. 7 ABSTRACTThis work is about the covergence of three principal matters, showing how the fear ofviolence is pictured by the media. With the purpose to show that the violence seen in mediacorresponds more to a tendency to exaggeration than the reality itself, causing exacerbatedfear of crimes – manipulation of facts itself consequence of interests of who is in charge oftelevision networks and also the government – built the purpose of a reflection over somecases. It’s been utilized samples of television schedule of two countries, United States andBrazil, by the massive presence of a culture of fear and violence, as much as the ocorrency ofthis one, represented in each country by different ways. In the United States the focus is in thenews and advertisement in general, after the period of September 11th, when a terrorist attackchanged the way that the media sees this kind of violence. In Brazil, the focus goes to urbanviolence, more specifically in how the firearms issue was seen in a referend occured in theyear of 2005, and a recent case evolving organized crime. In both cases, is verified apredominant vision of a fear ideology, with simple transmission of information, in anaccelerated and exagerated rythm, making believe that the occurency of criminality is biggerthan the reality shows, causing great unsafeness in population. Beyond this vision, figureelements of power, since the situation in general causes alienation. This, by its turn, makesthat doesn’t exist an effective discussion, and there isn’t an envolvment of society with aproblem that itself is a victim and responsible at the same time. The fear ends by not givingspace for a way out, which is the discussion and the proposal of reforms that would decreasethe numbers of violence and intolerance.Key-words: fear, culture, polithics, society, Brazil, United States, media, television, news,propaganda, ideology, firearms, terrorism.
  9. 9. 8 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ................................................................................................................. 91 O DESVENDAR DO MEDO........................................................................................ 121.1 COMO O CORPO REAGE AO MEDO....................................................................... 131.2 DIFERENTES TIPOS DE MEDO............................................................................... 141.3 SUBJETIVANDO O MEDO........................................................................................ 161.4 MEDO E VIOLÊNCIA................................................................................................ 181.4.1 Um capítulo especial na violência: o terrorismo...................................................... 202 A HISTÓRIA COMEÇA NA CULTURA ..................................................................... 232.1 AMERICAN WAY OF LIFE PARA O MUNDO........................................................... 242.2 CULTURA DA POBREZA E DA DIFERENÇA........................................................... 283 MÍDIA TELEVISIVA: QUEM MANDA AFINAL ...................................................... 323.1 NOTICIÁRIOS E PROPAGANDA NA TV................................................................... 353.2 MÍDIA E VIOLÊNCIA ................................................................................................ 383.3 COMO FUNCIONA LÁ E COMO FUNCIONA AQUI................................................ 394 VIOLÊNCIA URBANA E GLOBAL: ARMAS DE FOGO E TERRORISMO ............ 434.1 TRAGÉDIA AMERICANA EM 11 DE SETEMBRO .................................................... 454.2 BRASIL: GUERRILHA URBANA ............................................................................... 504.2.1 A grande questão das armas de fogo: sim ou não? .................................................. 524.2.2 PCC: terrorismo ou guerrilha? ............................................................................... 57CONCLUSÃO ................................................................................................................. 60REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 63ANEXOS ......................................................................................................................... 66
  10. 10. 9 INTRODUÇÃO A idéia inicial desta monografia surgiu há mais ou menos dois anos, em decorrênciado cenário político mundial. Muito se fala em cultura do medo, e como os Estados Unidosrepresentavam bem esse papel. Depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro, em NovaIorque e Washington, a nação se sentiu frágil perante tal forma de violência. Maisimpressionante foi o papel da mídia perante o fato, quando o assunto em todos os noticiários,não apenas locais, mas mundiais, era um só: o medo. Interessante foi verificar também amanifestação dessa cultura disseminada pela mídia também no Brasil, e que, depois do ano de2001, ano em que ocorreram os ataques, ficou mais explícito. A tendência geral era responsabilizar a mídia pelos medos auferidos, e usá-la paradisseminar informações e alavancar a opinião pública a respeito disso ou daquilo. Mas, apartir de algumas leituras iniciais e algumas análises, percebia-se que agir de tal forma eraagir de acordo com o senso comum. Isso porque se começa a perceber que, por trás de mídia,sempre há política e interesse, principalmente se o assunto em foco é a violência, fenômenosocial que mais atrai público aos meios de comunicação. Um produtor de uma rede de TV dosEstados Unidos, perguntado se preferia fazer uma reportagem sobre um afogamento ou umhomem armado aterrorizando a vizinhança, não pensou um segundo em preferir a segundaopção.1 A partir daí surgiu o interesse em atestar essa presença da cultura do medo na mídianum caso óbvio, que seria o dos Estados Unidos, e de um caso menos aclamado, porémrecorrente, que seria o do Brasil. Cada um sofre em seu momento histórico atual um tipodiferente de violência, mas pode-se perceber uma certa semelhança no enfoque que atelevisão dá a cada caso, e a reação da população a isso tudo, principalmente quando secomeça a levar em conta a veracidade destes fatos, que é quando surge a dúvida principal, queé o desejo de determinar se tais informações que a TV passa obedecem a qual nível deverossimilhança, e aos interesses de quem essa mídia está submetida. O medo e as estatísticasda criminalidade estão de acordo com a realidade? No que isto afeta os cidadãos? A reflexão proposta para o desenvolvimento desta monografia é um tema urgente, quedeve ser avaliado sob um ângulo científico, e à luz não apenas de senso comum ou do que osgovernantes acham que é melhor para sua nação. Valores como liberdade do indivíduo, deexpressão, direito à privacidade, estão cedendo lugar a um estado de vigília doentio, big1 Trecho do documentário Tiros em Columbine, do diretor Michael Moore, 2001, Dog Eat Dog Productions.
  11. 11. 10brothers que nos espionam a cada passo. Já não se pode mais sair para a noite com os amigos,ou jantar com a namorada com a mesma paz de outrora, não porque a violência está em todosos lugares e horários, mas o medo dela dificilmente nos abandona. Sobre a questão americana, já existe uma grande quantidade de material escrito, masnem tudo se abriga na claridade de uma visão científica coerente e nítida, muitas vezes sebaseando em senso comum, ou se tratando de meras críticas ao governo daquele país. NoBrasil, os dados da violência são poucos e não há quase incentivo principalmente às pesquisasde vitimização, responsáveis pelo fornecimento de números confiáveis sobre a violênciaurbana. Abrindo caminho para esse tipo de discussão, acredita-se estar estimulando não só aprodução de dados atuais, mas também convidando sociedade, e num plano mais distante, amídia a reflexões mais profundas, que busquem efetivamente uma solução viável e eficientepara a violência, que é um problema tão grave no país. A busca pela verdade no discurso da televisão torna-se muito importante à medida emque esta é extremamente importante como instrumento formador de opinião. Aqui, deve-selevar em conta que cada telespectador é diferente, tem vivências próprias, e reterá cadainformação de maneira diversificada. Mas ao mesmo tempo, deve-se levar em consideraçãotambém o fato de que a maioria da população que assiste à televisão possui renda mais baixa enão possui muito estudo, fatores que vulnerabilizam o espectador e o deixam mais suscetível àmanipulação. Muitas vezes, esse público pode estar sentindo medo de uma violência que nemsequer chega perto da realidade, e para manter a liberdade de cada cidadão, é extremamentenecessário desmascarar estatísticas. Parte-se então para a delineação dos objetos de estudo para que se cheguem aconclusões plausíveis, e para isso é bastante importante trabalhar com a abrangência exata,para que haja coerência nos resultados. Não é possível trabalhar exatamente com a mesmaamostra de violência no Brasil e nos Estados Unidos, pois estes são países que se encontramem momentos históricos bastante diferentes, cada um com suas particularidades sociais eeconômicas, inclusive com manifestações de violência diferentes, e modelos de mídiatelevisiva diferentes. O ponto em comum será a abordagem comunicacional, que, nos doiscasos, estará voltada para a televisão, mais especificamente os noticiários e a propaganda. Nos Estados Unidos, principalmente por causa dos últimos acontecimentosenvolvendo a data do 11 de Setembro, o terrorismo será a manifestação de violênciaabordada. Os medos dos cidadãos norte-americanos geralmente envolvem vários aspectos daviolência, mas para uma análise eficaz e concisa, esse será o prisma escolhido. A partir daobservação de alguns noticiários e propagandas americanas referentes ao terrorismo, poderá
  12. 12. 11ser percebido como o medo é infligido aos cidadãos, e quem está nos bastidores de talprodução de informação. Comparativamente, o Brasil não sofreu ameaças recentes deterrorismo, portanto aqui será traçado um paralelo somente com relação às medidas tomadaslogo após os atentados de 11/9, das quais algumas acabaram sendo implantadas aqui. Com relação ao Brasil, que sofre mais com a violência urbana traduzida em assaltos,homicídios e outras formas ainda, o enfoque estará voltado para a questão das armas de fogo.O ponto de partida principal será a campanha de propaganda pela frente parlamentar queapóia a posse e o porte de armas de fogo no referendo realizado em 2005 sobre a decisão decomercializar ou não armas de fogo, ou como era mais conhecida popularmente, a “campanhado não”. Ver-se-á como as técnicas de persuasão de tal campanha buscaram atrair votos porrecursos que incitaram o medo na população. Eventualmente poderão surgir casos decobertura jornalística do referendo, mas todos serão meramente complementares. À parte, seráanalisada também a recente cobertura da mídia televisiva referente à organização criminosada cidade de São Paulo, conhecida como PCC, Primeiro Comando da Capital, e como não sóa mídia, mas a própria organização foi capaz de transformar a rotina de uma cidade no que serefere ao medo. O objetivo principal deste trabalho, então, é tecer uma análise a respeito da violênciaem cada um dos casos, de acordo com a sua respectiva abordagem na televisão. Cadaelemento observado à parte, poderá dar uma direção sobre qual caminho tomar na caminhadarumo à proposição de estratégias eficazes no combate à violência. Não se sabe ao certo definirquem são os verdadeiros culpados, e quem deve agir em prol da proteção da sociedade comrelação ao medo, mas quanto mais esta se encontrar próxima da verdade, mais segura elapoderá estar de suas próprias convicções a respeito da violência.
  13. 13. 12 1 O DESVENDAR DO MEDO. “Don’t want to be an American idiot. Don’t want a nation under the new media. Can you hear the sound of hysteria? The subliminal mind fuck America”. (American Idiot – Green Day)1 O medo é um dos sentimentos latentes no homem, assim como prazer, amor e váriosoutros com os quais ele já nasce. Motivado principalmente por situações de risco, dá aos seresvivos, não apenas humanos, condições de se protegerem contra qualquer ameaça que abalesua integridade física e/ou psicológica. Necessário à sobrevivência enquanto instinto, éridicularizado pela sociedade, que reserva a covardia para punir aqueles que não são capazesde lidar com o sentimento. O historiador francês Jean Delumeau, que trata da história do medo, e maisespecificamente de sua manifestação no período da Idade Média, mostra a dificuldade que asociedade sempre teve em apresentar o medo por meio de sua história, sempre o subjugandoaos pobres e fracos, e disfarçando-o sob o escudo do heroísmo para não ridicularizar nobres,fidalgos e toda a gente pertencente a uma estirpe mais bem sucedida: “Por que esse silêncio prolongado sobre o papel do medo na história? Sem dúvida, por causa de uma confusão mental amplamente difundida entre medo e covardia, coragem e temeridade. Por uma verdadeira hipocrisia, o discurso escrito e a língua falada – o primeiro influenciando a segunda – tiveram por muito tempo a tendência de camuflar as reações naturais que acompanham a tomada de consciência de um perigo por trás das falsas aparências de atitudes ruidosamente heróicas.” (DELUMEAU, 1996, p. 13)1 “Não quero ser um americano idiota./ Não quero uma nação sob o controle da nova mídia./ Você pode ouvir osom da histeria?/ A mente subliminar acaba com a América.” (Tradução da autora) – American Idiot, música dogrupo americano Green Day que faz crítica à cultura histérica e alienada dos Estados Unidos.
  14. 14. 13 Mas o medo é fato, e por várias razões, desde o perigo que um animal peçonhentorepresenta a uma criança, quanto ao terror causado por homens-bomba, as pessoas seprevinem de alguma forma. Ainda citando Delumeau (1996, p. 12), quando descreve asproteções utilizadas nas cidades antigas em que “quatro grossas portas sucessivas, uma pontesobre um fosso, uma ponte levadiça não parecem excessivas para proteger contra qualquersurpresa uma cidade de 60 mil habitantes”, vemos muita semelhança com os dias atuais, emque pessoas urbanas se trancam em condomínios fechados, com guaritas, seguranças armados,cães e qualquer espécie possível de proteção; e constatamos que tudo isso é fruto do medo. A mitologia também tem tratado do medo, e uma das histórias vem do povo hindu: “No princípio este universo não era nada senão o Si-próprio na forma de um homem. Ele olhou em volta e viu que não havia nada além de si mesmo, de maneira que seu primeiro grito foi: ‘Sou Eu!’, e daí surgiu o conceito ‘eu’. Então ele teve medo. Mas considerou: ‘Como não há ninguém aqui além de mim mesmo, o que há para temer? Em conseqüência disso o medo desapareceu” (UPANISHADS, 1987, p. 33-34) Este é um mito da origem do mundo segundo os upanishads, livro sagrado dos hindus.O Si-próprio se refere ao conceito de self de que o pensamento junguiano tratava, ocorrendoentão a separação do ego ao todo, e por isso o medo, pois quando há esta separação o homemse sente desprotegido, e logo tem medo.1.1 COMO O CORPO REAGE AO MEDO O susto e todas as manifestações ligadas ao medo desencadeiam no corpo humanoreações físicas e psicológicas que variam a cada indivíduo. Reafirmando, o medo énecessidade, é um dentre vários fatores essenciais para a sobrevivência humana. SegundoMichel Echenique Isasa (2006), “o medo é uma interrupção súbita do processo deracionalização”, portanto não há formas de que alguém haja normalmente quando está commedo. As pupilas se dilatam, ocorre uma grande descarga de adrenalina, que deixa o corpopreparado para a fuga ou para o combate. Mas, ainda assim, o medo não é a reação em si, esim o alerta de que algo não vai bem. Justamente por isso, o medo se transforma em algodúbio, que ao invés de livrar do perigo, age como armadilha, que conduz no sentido contrário,de colocar a vida em risco. Para melhor entender essa dicotomia, o autor afirma que “o medo como sensação éuma parada súbita de todos os processos de motivação, ou seja, além de interromper osprocessos de racionalização, o medo cria uma parada súbita da motivação” (Ibid., 2006). Aí
  15. 15. 14reside o perigo de reagir incorretamente ao medo, já que nesta entrega, a pessoa não se sentemotivada a lutar por sua vida, e com tantos bloqueios hormonais e psicológicos, ela é vencidapelo medo. Exemplo disso, foi quando, no ataque terrorista de 11 de Setembro nos EstadosUnidos, pessoas se jogavam pelas janelas do World Trade Center, numa entrega à morte,inconscientes de que o ato que praticavam não lhes traria sobrevivência. Reafirmando o medo como sensação, e não como reação, Delumeau (1996, p.23) diz: “No sentido estrito e estreito do termo, o medo (individual) é uma emoção-choque, freqüentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e urgente que ameaça, cremos nós, nossa conservação. Colocado em estado de alerta o hipotálamo reage por uma mobilização global do organismo, que desencadeia diversos tipos de comportamentos somáticos e provoca sobretudo modificações endócrinas. [...] Essa descarga é em si uma reação utilitária de legítima defesa, mas que o indivíduo, sobretudo sob o efeito das agressões repetidas de nossa época, nem sempre emprega com discernimento.” Pode ser um bocado difícil, mas as pessoas que assumem o medo acabam sempreagindo da forma mais correta, e para ilustrar, um assalto de carro à mão armada torna-se umbom exemplo. Tem muito mais chances de sair ilesa a vítima que se mantém calma, não reagee obedece às ordens do assaltante. Freqüentemente visitam as manchetes de jornais, notíciasde indivíduos que, desesperados, gritaram, choraram ou reagiram de qualquer forma, e porisso, pagaram com a própria vida, fugindo de maneira irracional do medo que os assolounaquele momento. “Essas atitudes destoam completamente do chamado ‘instinto de sobrevivência’, e isso não é pelo medo, e sim porque as pessoas querem fugir dele. O desejo que temos quando acontece um fenômeno desse tipo é que alguém nos pegue no colo e que não sintamos mais nada. Nessas situações, as pessoas querem fugir e, por isso, acabam fazendo tolices. Em contrapartida, as pessoas que assumem o medo, mas o assumem conscientemente, acabam fazendo as coisas certas. As maiores causas de acidentes e de mortes é o comportamento que temos perante o medo, e não ele em si.” (ISASA, 2006)1.2 DIFERENTES TIPOS DE MEDO Fobias, pânicos, angústias, síndromes, são formas de classificar determinados medos.Se existem muitos fatores que ameaçam a integridade de um indivíduo, então é normal quevários “medos” também se manifestem. Alguns são mais importantes para o estudo da
  16. 16. 15violência, e são estas definições a que este tópico se aterá. É importante considerar tambémuma escala crescente da manifestação do medo, do indivíduo para a sociedade. Nem todos os medos são justificáveis, como por exemplo, as fobias, que são medos“exacerbados, desproporcionais e não justificados em relação a um objeto, como por exemplo,o medo de centopéia, de água, de lugares altos, fechados, abertos (agorafobia), de automóveis,de trânsito, de dirigir, etc.” (SILVA, 2006). As fobias geralmente nascem de grandessituações de stress, traumas, ou ainda quando uma pessoa se depara pela primeira vez com odesconhecido, e são perfeitamente tratáveis. O pânico é semelhante em escala às fobias, com adiferença de que o objeto do qual se sente medo simplesmente não pode ser identificado, epode ser tratado com terapia ou medicamentos. Ainda segundo Silva (Ibid.): “Este estado emocional desencadeia uma série de sintomas corporais indicando que um grande perigo invisível se aproxima: o medo paralisante, a transpiração excessiva, taquicardia, ‘acessos de angústia tão intensos que dão freqüentemente ao sujeito a viva impressão de estar morrendo ou enlouquecendo, ainda que lhe pareçam estranhos e inexplicáveis em relação às circunstâncias de sua vida psíquica consciente’.” Distingue-se ainda o medo da angústia, outrora tidos pela psicologia clássica como amesma coisa. Reações mais imediatas e de curta duração dizem respeito mais freqüentementeao medo, como temor, pavor, espanto, terror; e sensações mais persistentes como melancolia,ansiedade e inquietação, correspondem à angústia. Novamente aqui, como no caso das fobiase dos pânicos, o primeiro corresponde ao que se confronta e nomeia, e o último, aodesconhecido, tornando-a mais difícil de suportar. Também distinguem-se pela persistência deum levar a outro, quando o excesso de medo leva à angústia, e esta leva a males maiores,como à neurose e à psicose. Diz Delumeau: “Medos repetidos podem criar uma inadaptação profunda em um sujeito e conduzi- lo a um estado de inquietação profunda gerador de crises de angústia. Reciprocamente,um temperamento ansioso corre o risco de estar mais sujeito aos medos do que um outro.” (1996, p.25) Todas essas definições de medos diferentes se aplicam inicialmente a uma escalaindividual, considerando cada organismo separadamente. Mas também não se pode excluir osmedos coletivos, em que esse agrupamento de indivíduos gera medos maiores, grupais, e quepodem tender a tomar de conta de grande parte de sociedades, até mesmo de várias delasinteiras. A autora Luzia Fátima Baierl (2004, p. 20) intitula esse comportamento de “medo
  17. 17. 16social” e o associa à violência urbana principalmente, e no qual podemos claramentevislumbrar essas definições de medo, do que é tangível, e do que é desconhecido: “A violência urbana tem ampliado o que denominamos medo social. Medo esse construído socialmente e que afeta a coletividade. Trata-se do medo utilizado como instrumento de coerção por determinados grupos que submetem pessoas aos interesses deles.[...] Ameaças reais, vindas de sujeitos reais, são contrapostas a ameaças potenciais típicas do imaginário singular coletivo, produzido pelos índices perversos do crescimento da violência nas cidades.[...] Os sentimentos generalizados são de insegurança, ameaça, raiva, ódio, medo e desesperança”.1.3 SUBJETIVANDO O MEDO O medo tem várias formas de entendimento, não apenas como instinto desobrevivência e reações químicas e físicas corporais. Num plano filosófico, o medo deve serconsiderado paixão, pelo fato de dar sentido à existência da alma, assim como outras paixões.Objeto de estudo de autores como Kierkegaard, que o abordou como desespero humano, etambém Espinosa, num de seus cadernos Ethica, esteve presente em obras famosas comoMacbeth e Otelo, de Sheakspeare, e vários outros ainda que o consideraram como paixão, eque com isso mostraram um pouco dos efeitos do medo na alma e na psique humanas. Nas contradições filosóficas, o medo se opõe à coragem, conflitando aí, segundoMarilena Chauí (1995), as paixões alegres e as tristes, que se contrabalançam. Mas conformedito anteriormente, mesmo no plano filosófico, o medo não é uma finalidade, e sim umacausa, e está associada ao mal, que causa o medo. Este gera sentimentos, entre eles a culpa,tão perigosa para o indivíduo, quando há deslocamento. O mal externo, quando há reflexão,desloca-se para o interior, para que o indivíduo tenha medo de si mesmo e personifique o mal,gerando culpa e loucura. Na externalização do medo, ocorre também deslocamento para os outros, de quem sepassa a ter medo. A paixão oposta nesse caso é a segurança, que se identifica com a “ordem esuscita o pavor quanto a tudo que pareça capaz de destruí-la internamente” (CHAUÍ, 1995,p.41), e continua sendo ambígua pelo fato de gerar reações tão distintas, quando o indivíduogeralmente age ao contrário do que deveria, e numa nova releitura, segundo a autora opondo omedo não à coragem, mas à prudência. Corroborando o fato de que são as paixões que movem a alma humana, MarilenaChauí faz uso de algumas teorias de Espinosa, que classificam o medo como paixão, e que
  18. 18. 17estas em maior ou menor intensidade, ampliam ou diminuem a capacidade de existir do corpoe da alma: “Ódio, medo, inveja, ambição e remorso são, talvez, as emoções mais violentas e agitadas que experimentamos, mas porque são paixões nascidas da tristeza, são também os afetos mais enfraquecedores do conatus (direito natural). Ontologicamente, portanto, as paixões mais fortes virão da alegria enquanto as mais fracas se originarão da tristeza”. (Idem, p. 55) Paixão triste, o medo então nunca poderá ser extinto, podendo ser apenas diminuídopela presença de outras paixões, maiores a ele. Da condição de mortal do homem, e dessainterdependência de outras paixões, o medo nasce de forma articulada, nascendo o que aautora chama de “sistema do medo”. O funcionamento deste sistema baseia-se na existênciado medo, de seus opostos e das conseqüências geradas para a alma humana. A esperançacontrapõe-se ao medo, mas os dois são sentimentos provenientes de situações incertas. Odesenrolar de tais sensações gera desespero, no caso do medo, e segurança, no caso daesperança, mas neste caso, não restam mais dúvidas. Estas duas paixões vêm comoconseqüência quando há a certeza da ocorrência de algo. E por fim, advêm o remorso e ocontentamento, que também se relacionam com medo e esperança, mas com relação a algoque aconteceu no passado, inesperadamente. No caso particular do remorso, remontamos aodeslocamento que causa a culpa, e que personaliza definitivamente o mal no indivíduo. O sistema do medo não se refere então ao presente, mas a algo que ficou no passado,ou a expectativas do que ocorra no futuro, sendo constituído o presente de paixões passadas efuturas, e que gera crenças e vícios mortais na mobilização das paixões, como por exemplo, asuperstição associada à alienação, e conseqüentemente, segundo o conceito de MarilenaChauí, em outra de suas obras, ideologia (CHAUÍ, 1991). Diz ainda Espinosa (1822 apudCHAUÍ, 1995, p.61) que “tão grande é o medo que ensandece os homens. A origem dasuperstição, que a alimenta e conserva é, pois, o medo”. Depois de um entendimento sobre as manifestações físicas e psíquicas do medo, torna-se necessário entendê-lo como instrumento, que altera personalidades, produz reações emmassa, e principalmente, é objeto de controle, se considerarmos o medo social. Este, namaioria das vezes quando provoca inibições e paralisações no indivíduo, impede-o de pensar,e principalmente de tomar providências. Isso deixa o agressor numa posição muito vantajosa,em que a vítima estará plenamente suscetível a seus comandos. Ou em caso contrário, quandoo medo provoca reações racionais, pode ser um instrumento de mudança e revolução,servindo de incentivo e motivação para conseguir algo em favor da sobrevivência.
  19. 19. 18 Essa fabricação do medo no plano social é inevitável e vital para a construção dassociedades, segundo Delumeau: “Porque é impossível conservar o equilíbrio interno afrontando por muito tempo uma angústia incerta, infinita e indefinível, é necessário ao homem transforma-la e fragmentá-la em medos precisos de alguma coisa ou de alguém. ‘O espírito humano fabrica permanentemente o medo’ para evitar uma angústia mórbida que resultaria na abolição do eu. É esse processo que reencontraremos no estágio de uma civilização. Em uma seqüência longa de traumatismo coletivo, o Ocidente venceu a angústia ‘nomeando’, isto é, identificando, ou até ‘fabricando’ medos particulares”. (1996, p. 26)1.4 MEDO E VIOLÊNCIA Além disso, e logicamente, o medo está intrinsecamente ligado à violência. Esta podedizer respeito a vários tipos de atitude, dependendo de fatores jurídicos, sociais, variandotambém de comunidade a comunidade. A mais abrangente definição de violência vem doautor Yves Michaud (1989, p. 10-11): “Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais”. Passando agora ao contexto urbano, a sociedade está cada dia mais amedrontada comassaltos, assassinatos, seqüestros, estupros e várias outras formas de agressão ao indivíduo e àcoletividade. Estando estes dois elementos desta maneira atados, relaciona-se facilmente omedo também à agressividade, um dos “componentes” emocionais dos seres humanos. Freud, na década de 20, já tratava do assunto ao introduzir o conceito de instinto demorte na obra “Além do princípio do prazer”, e vários outros autores a citam como umacaracterística “inata em todo o reino animal” (LORENZ 19[?] apud DELUMEAU, 1996,p.27). Freud trata, mais especificamente, das pulsões de vida opostas às pulsões de morte,ligadas ao superego e ego, convivendo num eterno contrabalanceamento necessário para asobrevivência e a afirmação do indivíduo na sociedade. Mais ainda, alguns autores defendema idéia de que a linha divisória entre humanidade e bestialidade é extremamente tênue, como éo caso de Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002): “É partindo da analogia platônica entre homens e animais com e sem chifres que Sloterdijk descreve o processo civilizatório como uma lenta extirpação dos chifres
  20. 20. 19 (simbolização da natureza selvagem ou animalesca) rumo a uma domesticação que, levemente arranhada, exporia uma subcutânea animalidade. Daí, sua insistência a respeito do fenômeno da monstruosidade como característico da humanidade atual, citando o apocalipse atômico e as experiências genéticas”. Isso também fica claro na seguinte seqüência: “Nesta figuração (as regras sociais abandonadas pelo homem) – no limite, uma fantasia de reversibilidade entre homem e bicho – torna-se tensa a zona de fronteira entre humanidade e animalidade. O corpo investe-se de uma lógica própria, que não coincide em termos absolutos com os ditames do espírito, elaborados pelas regras culturais. [...] capaz de redundar em crueldade – característica ao mesmo tempo humana e animal. Derrida é taxativo a respeito: ‘A crueldade não é exclusiva do homem, como se costuma afirmar. Um animal pode ser cruel. Onde há vida, há crueldade. A crueldade é constitutiva da vida, do amor.’.”2 (Ibid., p. 61-62) A violência e a agressividade seriam então inerentes ao homem, sendo parte de suasvidas, e até sendo algo em que eles sentem certa quantidade de prazer, e aí relacionando issoao medo surge o conceito que alguns psiquiatras nomeiam de objetivação, em que o homemnão sendo vítima da violência, contenta-se com a posição de observador, ou como observaDelpierre (19[?] apud DELUMEAU, 1996, p. 30), “o homem [...] encontra prazer emescrever, ler, ouvir, contar histórias de batalhas. Assiste com certa paixão às corridasperigosas, às lutas de boxe, às touradas. O instinto combativo deslocou-se para o objeto”. Num contexto social, fica clara essa associação entre medo e violência, a partir dosmomentos que novas formas de sociabilidade são criadas, levando a conseqüências como oisolamento, e várias outras modificações no comportamento de indivíduos, comunidades eoutros grupos. A agressividade neste caso está diretamente ligada ao grau de segregação,marginalização e privação dos indivíduos, situações traduzidas em pobrezas, carências,convívio familiar arruinado e outros fatores desagregadores. Essa ligação de violência a medocria também ações discriminatórias ineficientes no combate à violência nas grandes cidades,como a segregação em favelas, e a grande disparidade econômica e social criando medo dealguns grupos por outros. “A estrutura arquitetônica da cidade é alterada. As pessoas constroem prisões para proteção e defesa da vida e de seu patrimônio. Criam-se desde os mais simples até os mais sofisticados sistemas de segurança e de proteção de patrimônios e da própria vida: desde altas tecnologias, blindados, sensores eletrônicos, câmeras escondidas que vigiam espaços, até o conjunto de seguros de casa, carro e de vida. A população mais empobrecida, moradora dos bairros periféricos e das favelas, para proteger-se e defender-se, dá carta branca aos grupos organizados e quadrilhas vinculadas ao2 DERRIDA, 2001 apud SODRÉ; PAIVA, 2002, p. 62.
  21. 21. 20 mundo da contravenção e ao tráfico de drogas em troca de segurança e proteção.” (BAIERL, 2004, p.62) Na esfera social, é impossível a extirpação da violência, pois é uma característicaexistente no homem, independentemente de quaisquer fatores, e segundo alguns autores,inclusive necessária para o desenvolvimento social do homem. Estudos mostram que “arealidade cotidiana da violência difere sensivelmente das representações que fazemos dela edos discursos ideológicos ou míticos que sustentamos sobre ela” (MICHAUD, 1989, p.98) Todo esse comportamento reflete como se reage perante o medo da violência, sem queefetivamente se faça algo útil a respeito. Relembrando o que foi dito anteriormente sobre aimprudência perante o medo, a sociedade corre para o lado contrário do que deveria, comorealça Isasa (2006): “Nossa cultura não só não nos preparou para enfrentar o medo, mas também nos ensinou a ter medo dele, e, por isso, reagimos mal. Por um processo cultural diferente, nós encararíamos o medo de uma forma diferente e teríamos reações naturais. Essas reações naturais trabalham a favor do instinto de sobrevivência, tanto do corpo quanto da mente, como também da psique humana.”1.4.1 Um capítulo especial na violência: o terrorismo De cinco anos para cá, virou o assunto do momento. Vários livros foram lançados,entrevistas foram concedidas, e só a menção da palavra causa furor na população civil. Toda aeuforia é justificável, já que um dos maiores atos terroristas – a destruição das torres do WorldTrade Center, na cidade de Nova Iorque – ocorreu. Ao contrário do que muitos pensam, aintimidação pelo terror não é novidade, e acontece no mundo pelo menos desde a RevoluçãoFrancesa, num período em que a monarquia decidiu amedrontar os revolucionários sans-cullottes. Particular forma de violência, enquadrada por Yves Michaud (1989) entre outrasformas de agressão, juntamente com o “poder de cima”, responsável principalmente pelamanutenção da ordem, o terrorismo encontra várias definições, que variam segundo muitosaspectos, um deles a ideologia e os interesses de quem se manifesta. Para simplificar, o quepode parecer um ato terrorista no Brasil, pode ser um ato de defesa de soberania para os norte-americanos. Uma definição interessante e neutra do termo parte do autor Noam Chomsky(2003, p.72-73), como sendo o terrorismo “o uso deliberado da violência ou a ameaça do seu
  22. 22. 21uso para atingir objetivos de natureza política, religiosa ou ideológica através da intimidação,coerção ou pela implantação do medo”. O terrorismo é, sem dúvida, a maneira mais radical de reivindicação e de atração daopinião pública, e seja em atos isolados ou numa grande catástrofe, é sempre inegável o seuefeito político, ideológico, econômico e ainda em outras tantas áreas. A maior novidadeacerca desta forma de violência é a proporção que tem tomado ultimamente, com tantos novosrecursos à disposição, como armas químicas e biológicas de destruição em massa letais, earmas de fogo e explosivos de todas as maneiras que se possa imaginar, gerando umverdadeiro “marketing da guerra”, com efeitos devastadores, como a “atomização do camposocial, o desaparecimento da vida pública, a desconfiança e o medo entre os cidadãos, o recuoangustiado sobre si mesmo.” (MICHAUD, 1989, p.58). Antes, com ataques tímidos, agora, com número tão grandes de vítimas, o quepreocupa é justamente o caráter de fanatismo que o movimento terrorista, principalmente nospaíses árabes adquiriu. O que assusta é principalmente o fato de esta ser uma guerra travadasem fronteiras definidas, e o fator-surpresa como principal causador de medo na população.Não se sabe o que e onde será o próximo alvo, e mais, os civis agora participam da guerracomo as principais vítimas. Numa entrevista, a especialista americana Martha Crenshaw(2006, p.101) descreveu bem esse sentimento: “O que preocupa é a existência de um sentimento jihadista mais amplo, mais emocional do que político, baseado em um desejo de provocar muitas mortes sem se interessar pelas consequências. A origem desse sentimento está na busca por vingança como uma forma de superar a humilhação que alguns muçulmanos sentem em países ocidentais”. Prova de que a postura tanto do terrorismo quanto do terrorista mudou é a afirmaçãoque Yves Michaud (1989, p. 33) faz, e que hoje é perfeitamente contestada, de que “osterroristas tem tão pouca vontade de morrer quanto suas vítimas”. Hoje o que se vê sãohomens-bomba fanáticos, por quem a causa e os fins justificam a morte plenamente. Alavagem cerebral que acomete esses indivíduos é chamada por Roque Theophilo (2006) decontágio mental, que consiste num “fenômeno psicológico cujo resultado é a aceitaçãoinvoluntária de certas atitudes, opiniões e crenças”. Indivíduos com nada a perder, comorigem humilde, sem muito estudo, e outras características deficientes são o principal alvo docontágio mental, de cuja mídia pode ser um instrumento bastante proveitoso em suapropagação.
  23. 23. 22 Essas pessoas, exceto no caso de psicopatas, tem exata noção do que estão fazendo,não distinguem inocentes de inimigos, apenas uma causa justa, que merece todo aqueleesforço, e que farão o possível para que suas metas sejam atingidas. Há casos inclusive delíderes extremamente carismáticos e convincentes, que arrastam consigo grandes multidões nocumprimento de seus propósitos, como foi Hitler e como várias pessoas afirmam ser o próprioOsama bin Laden. Os movimentos terroristas não são exclusivos do Oriente Médio. Existem movimentoscomo o ETA, e o IRA3 na Europa, que apesar de inoperantes hoje, já causaram sua parcela dedestruição anteriormente. Ainda que não declaradamente, muitos pesquisadores consideramnações como os Estados Unidos praticantes de terrorismo, com suas ofensivas que matammilhares de civis ainda hoje, e num passado não muito distante, causaram destruição total,como no fim da Segunda Guerra Mundial, com as bombas de Hiroxima e Nagasaki. O fato é que essa forma particular de violência é muito temida pelo seu alto poder dedestruição, pelas motivações e características do povo que tem feito utilidade dela, eprincipalmente, pelos meios de destruição de massa que estão nas mãos de Estados comgovernos e organizações terroristas.3 Exército de Libertação Basca e Exército Republicano Irlandês, grupos terroristas que atuam na Espanha e naIrlanda, respectivamente.
  24. 24. 23 2 A HISTÓRIA COMEÇA NA CULTURA. “Maybe I am the faggot América. I’m not a part of a redneck agenda. Now everybody do the propaganda. And sing along to the age of paranoia.” (American Idiot – Green Day)1 Um povo representa claramente a sua cultura. Religião, alimentação, danças, folclore,maneiras de lidar com estrangeiros, tudo isso varia em cada país e região do mundo. Nestamonografia, a política será tratada como uma parte da cultura, já que várias daquelas sãodeterminadas pelo modo como os países lidam com forças tanto internas, quanto externas. A cultura não vem apenas de hábitos e tradições cultivados, mas também deexperiências adquiridas ao longo da história de cada nação. Pode ser capaz de mostrar a suaforça em outros territórios, como acontecem em vários festivais de cultura ao redor do mundo,em que países, com pequenas amostras de dança e culinária, satisfazem a curiosidade depessoas, bem como demonstram e mantêm viva a chama de suas origens. De uma maneira menos inocente, uma cultura pode estar carregada de ideologia, comono caso do american way of life, estilo de vida norte-americano tão carregado de valorescapitalistas, e difundido por todo o restante do mundo, sendo inclusive considerado fator dedeculturação por vários estudiosos. Neste estudo, serão abordadas duas formas bastante particulares e diferentes decultura, no caso de Estados Unidos e Brasil. Uma imersão nas formas de vida e convivência,bem como alguns dados sobre os dois países se tornarão bastante úteis na compreensão daproblemática do medo e de formas particulares de violência em cada um dos países.1 “Talvez eu seja a América enfadonha./ Eu não sou parte de uma rotina caipira./ Agora todos fazem apropaganda./ E cantam em favor da era da paranóia.” (Tradução da autora).
  25. 25. 242.1 AMERICAN WAY OF LIFE PARA O MUNDO Tudo começou em 1776, no dia 04 de Julho, quando os norte-americanos sedeclararam livres da Inglaterra, depois de uma guerra que havia durado dois anos. A partirdaí, sempre às custas de muita luta, esse povo se desenvolveu até se tornarem a maiorpotência econômica, bélica, cultural e política do mundo. Alguns países podem até exportargrandes marcas e modas, mas apenas os Estados Unidos puderam mandar para fora o pacotecompleto, um verdadeiro estilo de vida, sem dúvida alguma, encantador. A América do Norte foi colonizada por alguns ingleses fugitivos de origem cristãprotestante, e este espírito moralista e conservador sempre fez parte do caráter do povoamericano. Tanto nos acontecimentos históricos, como no caso das “Bruxas de Salém”, emque várias mulheres foram queimadas vivas em fogueiras por defenderem pensamentosliberais, quanto no discurso dos políticos quase sempre, a predestinação divina sempre se fezpresente. “A inspiração divina é um elemento constante na história dos Estados Unidos – ou, pelo menos, nos discursos de seus dirigentes, que, mais de uma vez utilizaram-na para justificar a expansão das fronteiras do país e, mais tarde, a adoção de políticas imperialistas. [...] Ou seja, os americanos estão convencidos de que têm a missão a eles dada por Deus de espalhar pelo mundo a civilização e a liberdade, exatamente da maneira como foram postas em prática nos Estados Unidos.” (FUSER, 2006, p.29) Além do discurso da predestinação divina, o que se observa principalmente desde aPrimeira Grande Guerra, por parte dos políticos, é um discurso autoritário, muitas vezesdesrespeitador e de certa forma terrorista, contra os inimigos. Fosse combatendo os russoscomunistas, ou o Oriente Médio, ou ainda nas batalhas expansionistas, como aconteceu naemancipação de parte do México e territórios a oeste, esses recursos ideológicos sempreforam uma grande arma em favor dos Estados Unidos. Com relação ao povo norte-americano, estes já passaram por grandes experiências. Deperíodos de grande prosperidade, como na época do baby-boom pós Segunda Guerra Mundial,e crises que assolaram o país, como a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929,sempre foi um povo bastante comprometido com a política de seu país. Na maioria das vezesbastante patrióticos e apoiadores de guerras e conflitos na qual seu país esteja envolvido,embora realmente não se preocupem muito com isso, e raramente parecem ter algumconhecimento mais aprofundado da real situação de seu território.
  26. 26. 25 Esse americano médio, chamado em território próprio de John Doe, ou “Zé Mane”, é“religioso, glutão de fast-food e viciado em esportes que quase ninguém pratica além de suasfronteiras, e mora no interior do país, a no máximo 20 minutos de distância de umsupermercado Wal-Mart.” (MAXIMILIANO, 2006, p. 34). Vários dos que hoje são costumesem outros países, tiveram início nos Estados Unidos, como o hábito de ir a shoppings centers,assistir a jogos da NBA2, ou ainda, fazer refeições num McDonald’s próximo. Com uma política sempre expansionista, a América sempre tentou fazer de sua cultura,a cultura do restante do mundo. Na maioria das vezes, certos aspectos como alimentação evestuário podem ser assimilados sem muitos problemas, assim como também é o caso da TVamericana, que exporta para o restante do mundo formatos prontos de séries; o cinemahollywoodiano, que lota salas de exibição no mundo inteiro; sendo o caso da música também. Partindo para torrentes mais políticas, as relações nem sempre são assim tão amigáveisquanto nos intercâmbios culturais. Os Estados Unidos têm uma política claramenteunilateralista e intervencionista. Prova principal e incriminatória disso, é o fato de o país usarsempre seu poder de veto em entidades e resoluções internacionais, para se resignar decompromissos que poderiam trazer benefícios à coletividade dos países, em favor de políticasque beneficiam os próprios Estados Unidos. Exemplo recente disso foi a recusa do presidenteGeorge W. Bush em assinar o Protocolo de Kyoto, que reduziria drasticamente a emissão depoluentes na atmosfera terrestre. “Os Estados Unidos assumiram de vez o papel da‘superpotência’ – com poderio econômico e principalmente bélico – e do Império, já quepassou a decidir sozinho pelo destino do mundo.” (BORGES, 2006, p.11) Um ponto alto de discussões na política norte-americana é também o partidarismooperante no país. Os partidos republicano e democrata vieram da cisão de um partido único deempresários, que se dividiram entre conservadores e liberais, mas que no final das contas nãotinham pontos de vista assim tão divergentes: “A chegada dos democratas em 1961 deu a muitos observadores a impressão de que havia ocorrido uma grande mudança. Mas neste caso houve apenas a chegada, no sentido superficial do termo, de uma nova geração. Eisenhower e Dulles haviam formado suas idéias segundo as de Woodrow Wilson e segundo os debates à volta da Primeira Guerra Mundial, modificando-as apenas um pouco sob a influência dos acontecimentos que culminaram com a Segunda Guerra Mundial.” (CRUNDEN, 1994, p.300) Pelo fato de existirem apenas dois partidos, e estes apresentarem mais semelhanças doque diferenças, muitas das propostas para o país em termos de intervencionismo e melhor2 Liga que organiza os jogos de basquete nos Estados Unidos.
  27. 27. 26relação com outros blocos de países acabam não sendo muito diferenciadas. A partir daí umacerta característica do americano médio torna-se mais compreensível, que é a forma como lidacom a violência. A história norte-americana é repleta de conflitos, e na maioria das vezes a violência e aagressão estiveram presentes. Foi assim na guerra das províncias do norte contra as do sul, naconquista do oeste, em que tribos indígenas inteiras foram dizimadas, e também sempre foiassim na forma como o país lida com seus inimigos externos, como exemplos clássicos, aGuerra do Vietnã e a bomba atômica lançada sobre o Japão ao fim da Segunda GuerraMundial. Não só a história, mas o próprio cidadão americano exerce uma espécie de “culto àviolência”. As estatísticas provam isso, sendo que os Estados Unidos são o país com maiorporte de armas de fogo do planeta, existindo até um nome especial para os viciados em armasde fogo, os gun nuts (malucos do gatilho). É também o país com mais execuções por pena demorte, e também com a maior população carcerária. “Os comentaristas de esporte adoram usar linguagem de guerra ao descrever o que acontece nos campos. Para o americano, quanto mais violência em jogo e comida na arquibancada, maior é a diversão. [...] A polícia americana é, proporcionalmente, a que mais dispara armas de fogo e mata em diligências ou perseguições. Para completar, nos Estados Unidos existe uma arma e meia para cada americano vivo e uma em cada 200 pessoas vai passar algum tempo na cadeia.” (MAXIMILIANO, 2006, p. 34-35) Mas em termos de cultura, a América tem vivido uma mudança gigantesca, e isso temafetado todos os aspectos da vida tanto dos cidadãos, quanto da política, quanto nas relaçõesexternas dos Estados Unidos. Nunca se falou tanto em cultura do medo, quanto desde osataques terroristas de 11 de setembro na cidade de Nova Iorque. Mas esse não é um fenômenorelativamente novo, já que o medo sempre foi considerado uma forma de manter a ordem, eprincipalmente nos Estados Unidos, parece ser um recurso usado abundantemente. Provadisso, são os milhões que o setor das relações públicas movimenta nos Estados Unidos. Maisexatamente, algo em torno de um bilhão de dólares ao ano, segundo Noam Chomsky (2003, p.20), e que são usados para manter a opinião pública sob controle. Um exemplo bem claro disso é a época denominada macartismo na história americana.Numa época em que o socialismo e o comunismo ameaçavam a integridade do capitalismoocidental, o senador Joseph McCarthy, membro do comitê de atividades anti-americanaspromoveu uma verdadeira caça às bruxas, quando todos os simpatizantes do comunismoforam perseguidos. Durante os anos da Guerra Fria, o medo tomou conta da população,juntamente com a total falta de liberdade política e de expressão. Segundo Crunden (1994, p.
  28. 28. 27292), “meteram medo ao povo americano com visões de pequenos Hitlers e Stalins surgindopor toda a parte, a não ser que a América interviesse para interromper uma série de‘Muniques’.” Pois parece que o medo tem mesmo permeado o cotidiano dos americanos, porquedesde então várias medidas têm sido tomadas para proteger todos do terror, inclusive umalerta colorido de terrorismo, como se fosse uma escala Richter3 que mede o perigo que oscidadãos estão correndo com relação a atividades terroristas. Destas decisões tomadas a partirde 2001, após os ataques terroristas, talvez a mais significativa e impactante tenha sido a LeiPatriótica. Uma curiosidade é que esta lei foi aprovada sem ter sido sequer lida por nemmetade dos membros do congresso. “Os direitos individuais nos Estados Unidos, país cuja Constituição é um dos pilares da democracia moderna, sofreram um duro golpe com a aprovação do Patriot Act, em 2001. O pacote de leis permite ao governo monitorar conversas telefônicas de suspeitos de terrorismo sem necessidade de autorização judicial. Também permite manter estrangeiros presos por até sete dias sem acusação formal.” (SCHELP; BOSCOV, 2006, p. 95) Ou seja, todo e qualquer cidadão comum, americano ou estrangeiro, pode ter a vidavasculhada a qualquer momento sob qualquer pretexto. No início a maioria dos americanosapoiou estas medidas, mas a porcentagem destes vem diminuindo consideravelmente,principalmente depois de acusações contra o governo de que este esteja se aproveitandodessas leis para outros motivos que não sejam suspeitas de terrorismo. E é assim, nesse clima de histeria e medo que a América sempre esteve envolvida, emgrande parte por causa de fatores históricos e irremediáveis de uma conquista conseguida àscustas de muito sangue e tiros. Yves Michaud (1989, p.38) cita “um viajante francês que partiu para a Califórnia no momento da corrida para o ouro e descreve a cidade de São Francisco como ‘povoada de celerados, de assassinos e bandidos’ e apavora-se com a maneira pela qual os americanos acertam suas contas à bala nos cassinos.” Esse quadro será fundamental para entender as implicações atuais no que diz respeitoà mídia e violência e que serão explicitadas nos dois seguintes capítulos. Robert Crunden(1994, p.291) distingue dois modos de vida na história mundial, e uma delas parece se adaptarbem aos Estados Unidos: “a segunda maneira de vida está baseada na vontade de uma3 Escala científica que mede a intensidade de tremores de terra.
  29. 29. 28minoria, imposta pela força sobre a maioria. Depende do exercício do terror e da opressão,controle de imprensa e de rádio, eleições fixadas e supressão das liberdades pessoais.” Neste caso, esta realidade ainda está sob o disfarce de democracia protetora, mas nadapode garantir ao povo que este quadro se manterá assim.2.2 CULTURA DA POBREZA E DA DIFERENÇA No Brasil, tudo é muito diferente do que é nos Estados Unidos, em matéria de cultura,sociedade e política. Também é um país ocidental e que tem como norte os princípiosdemocráticos, mas as semelhanças param por aí. A própria colonização já começou diferente,de acordo com os livros de história que classificam as colonizações como de exploração ou depovoamento. A história brasileira começou no fim do século XV, quando alguns portugueses àprocura de novas terras que lhe pudessem ser fontes de riqueza, descobriram a terra a quemais tarde dariam o nome de Brasil. O propósito então desde o início era o de explorar asriquezas, e o povoamento de estrangeiros que se formou aqui tinha o único objetivo degerenciar as atividades de exploração. Apenas três séculos mais tarde é que se foi pensar emficar aqui de maneira definitiva, com a Declaração de Independência, que foi muito mais umacordo, um presente de pai para filho, do que realmente um conflito. A colonização brasileira, e todos os problemas administrativos geraram um imensopaís de terceiro mundo, com uma diversidade racial enorme, que se deu pela mistura decolonizadores portugueses, a população remanescente de índios, escravos africanos, e aindamais tarde, imigrantes europeus e orientais, em menor escala; e muitos problemas. Estes,muito mais internos do que externos. Ao contrário dos Estados Unidos, intervencionista, o Brasil raríssimas vezes seenvolveu em conflitos externos com outros países, a não ser das vezes em que foi forçado atomar um partido, como quando, na Segunda Guerra Mundial, enviou combatentes para aItália, os famosos pracinhas. Talvez por sua condição de país subdesenvolvido, que nãopermite entrar em corridas armamentistas e nucleares, ou talvez por uma política peculiar,com tantos problemas internos que não sobra tempo nem dinheiro para se envolver em coisasmaiores, ou talvez ainda porque simplesmente não lhe interessa, por causa do jeito folgado eacomodado de sua gente. As rixas são muito mais culturais e econômicas do que necessariamente políticas,como a eterna briga de brasileiros e argentinos no futebol. Aliás, a lembrança do Brasil por
  30. 30. 29parte de estrangeiros e dos próprios brasileiros é principalmente relacionada a questõesculturais, quando se diz que o Brasil é terra de carnaval e futebol. Com relação aos conflitos internos, alguns cenários políticos se sobressaem, atéporque a cultura é uma reflexão deles. Antônio Brandão e Milton Duarte (1990) fazem essadiscussão entre o momento do país e sua reflexão na cultura, principalmente na música. Nadécada de 50 surge a Bossa Nova, como movimento nacional, e o rock’n’roll, chegado dosEstados Unidos, e refletido na rebeldia. Nas décadas de 60 e 70, produto de uma vidaconturbada, em meio à repressão da ditadura militar, surge uma cultura mais elaborada, commovimentos musicais como a Tropicália, que mesclou política e consumo, numa contradiçãode idéias que opunha à modernidade ao arcaico, principalmente na estética, sem fazer umaconexão direta com o esquerdismo militante. A indústria cultural se fixa no país principalmente a partir da década de 70, com umaascensão do mercado fonográfico, que estivera em crise desde meados de 60, conseqüência deuma política de abertura comercial e um período de grande prosperidade econômica. A partirdaí, com a diminuição do interesse pelo rock, a música e a TV passaram a lançar modas. “Com uma indústria fonográfica mais articulada em termos de marketing, a discothèque tornou-se alvo de maciças produções, demonstrando a total recuperação e o aumento do mercado fonográfico no país. Esse fenômeno, que vendeu grandes quantidades de discos, principalmente em 1978 (na esteira do sucesso do filme Os embalos de sábado à noite e da novela Dancin’ Day’s), não deixou influências mais marcantes no modo de fazer música no Brasil, apesar do surgimento do Black Rio (no Rio de Janeiro) e do Chic Show (em São Paulo) – eventos e bailes de música negra para o público dos subúrbios. A discotèque trará conseqüências importantes para a sedimentação do mercado de disco no país, a partir da imposição de certos padrões de consumo para a chamada música jovem” (Ibid., p. 91). Os anos 80 vieram cercados de conflitos internacionais, da continuação da corridaarmamentista e espacial, o esfacelamento da União Soviética, e no Brasil, a sedimentação daurbanização e da industrialização, aumento da crise econômica, e um delicado processopolítico que culminou no movimento das “Diretas Já”. Culturalmente, o rock nacional surgiucom força total, com bandas de São Paulo, Rio de Janeiro e agora Brasília, a nova capitalnacional. O pop também chegou dos Estados Unidos, ajudando a moldar uma variedademusical que mais tarde seria o norte dos anos 90 até a atualidade. Um marco desse período foia realização do Rock in Rio, festival que apresentou grandes astros nacionais e internacionais.Segundo a obra citada acima (Ibid., p.107), “apesar das crítica, quanto ao ecletismo e àcomercialização feita em torno do festival”, o evento revelou o Brasil internacionalmente,como um mercado a ser explorado.
  31. 31. 30 Grave também é o preconceito de classes e raças. No Brasil, é fato que a renda éabsurdamente mal distribuída, e a assistência do governo é mínima. Diz o antropólogo DarcyRibeiro (1996, p. 219) que “a distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõeos pobres dos ricos. A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos eíndios, sobretudo os primeiros.”. A pobreza e a discriminação geram segregação – em favelasprincipalmente nos grandes centros urbanos -, e esta gera violência. “As autoridades policiais e os jornalistas costumam afirmar que nos bairros pobres da periferia é onde a violência é mais crua e deflagrada. Isto não quer dizer que os pobres são, naturalmente, mais violentos. Quer isto significar que o grau de impotência que lhes foi imposto acua-os de tal forma que, em certos momentos, só os atos de violência se apresentam para eles como alternativa de liberação e sobrevivência.” (MORAIS, 1981, p. 33) Essa violência da pobreza, causada pela abstenção e pela exclusão, é uma das causasda maior parte dos crimes ocorridos no país. Favelas tomam lugar de guerrilhas urbanas, entrepoliciais e chefes do tráfico de drogas. No Brasil, não é tão escancarada a visão de cultura domedo, como acontece nos Estados Unidos, mas ela está implícita nos comportamentos docidadão. Os que têm mais dinheiro se entregam ao isolacionismo e segurança reforçada decondomínios privados, em algumas cidades há o toque de recolher, cada vez mais armas sãovendidas, legal e ilegalmente para que o cidadão tenha a impressão, mesmo que falsa, queestará mais seguro. E quem não tem recurso nenhum fica entregue à sorte, muitas vezes comoacontece nas grandes favelas, tem que tomar partido dos bandidos, para que estes a protejam,papel que deveria ser exercido pelas forças armadas. Culturalmente, o povo brasileiro é um povo totalmente aberto tanto às suas própriasculturas, regionais, quanto à hábitos culturais que vêm de fora, é isso fica claro, por exemplona incorporação de vários hábitos do american way of life norte-americano. Diz DarcyRibeiro (1996, p.248) que “dada a homogeneidade cultural da sociedade brasileira, cada umdos seus membros tanto é capaz de comunicar-se com os contingentes modernizados, como sepredispõe a aceitar inovações.”, ao contrário de anteriormente, quando “A cultura popular, assentada no saber vulgar, de transmissão oral, embora se dividisse em componentes rurais e urbanos, era unificada por um corpo comum de compreensões, valores e tradições de que todos participavam e que se expressavam no folclore, nas crenças, no artesanato, nos costumes e nas instituições que regulavam a convivência e o trabalho.” (Ibid., 1996, p.263)
  32. 32. 31 De acordo com Darcy Ribeiro (Ibid., p. 205), ocorreu uma deculturação do povobrasileiro, talvez por ser tão aberto a culturas estrangeiras, talvez porque não é cultivado nobrasileiro o hábito de manter suas tradições culturais. “A questão hoje é mais grave. A luta dentro dessa massa urbana é ferocíssima. Se associam, eventualmente, nos festivais, como o Carnaval e cerimônias de Candomblé, como paixões esportivas co-participadas e como os cultos de desesperados. Esses marginais não devem, porém, ser confundidos com a secular população favelada das grandes cidades, que de fato são suas principais vítimas.” Essa pequena exposição da realidade cultural e política brasileira vai servir de pano defundo às posteriores análises midiáticas, e de como a violência se inter-relaciona com esseprocesso cultural, já que de um jeito ou de outro ela está presente. A cultura tradicionalbrasileira toma novos moldes, correspondentes a novas realidades econômicas e sociais.Alguns grupos culturais tentam a duras penas, preservar a cultura original. “Mas elas sópodem manter-se tradicionais como arcaísmos em relação ao que se tornara o perfil culturalpredominante como obsolescência com respeito à nova economia prevalecente.” (RIBEIRO,Ibid., p. 265) Mas mesmo assim, e(2006, p.101)m todo esse período, a cultura brasileira não serestringiu apenas à simples imitação de modelos culturais vindos de fora. Além de possuirvalores próprios, o contato mais direto com a cultura internacional, através dos meios decomunicação, acabou sendo de importância fundamental no processo de modernização etransformação do universo sócio-cultural brasileiro, segundo Brandão e Duarte (1990, p. 109).
  33. 33. 32 3 MÍDIA TELEVISIVA: QUEM MANDA, AFINAL? “Welcome to a new kind of tension. All across the alienation. Where everything isn’t meant to be OK. Television dreams of tomorrow. We’re not the ones meant to follow. For that’s enough to argue.” (American Idiot – Green Day)1 A televisão é uma invenção recente, da década de 30, que veio logo após o rádio comomais uma forma de entreter as pessoas, com uma vantagem sobre seu antecessor: além dosom, passou a existir também a imagem. Diferencia-se do cinema pelo fato de ser umaimagem rápida, mas que não pode ser desacelerada, como pode ocorrer com os fotogramas decinema. As imagens geradas no tubo do aparelho de televisão ocorrem numa varredura delinhas na tela que não permitem grande detalhamento, para que também não se perca emresolução. Fala-se muito na espetacularização da TV, mas o que não foi ela, e não somente ela,mas também o cinema, a fotografia e o rádio, senão formas de espetáculo? O homem sempreprecisou de uma ponte que ligasse o real, sua vivência, com seu imaginário, funcionandocomo uma válvula de escape para os problemas do cotidiano. Seja para unir amigos em tornode uma simples partida esportiva, ou servir de companhia a um trabalhador cansado, ansiosoapenas por ouvir ao invés de falar. A televisão cumpre bem esse papel na transmissão denovelas, noticiários, esportes, filmes e mais uma variada gama de atrações. Os meios, observados desse prisma, funcionariam como domesticadores da fantasia,servindo bem como mediadores de consciente e inconsciente, equilíbrio do qual o pensamento1 “Bem-vindos a um novo tipo de tensão./ Tudo a ver com alienação./ Onde nada foi feito para parecer ok./Sonhos televisivos do amanhã./ Os quais nós não deveríamos seguir./ Tudo isso é o suficiente para discutir.”(Tradução da autora).
  34. 34. 33freudiano trata. E para cumprir essa função o espetáculo é inevitável, estabelecendo “tensãoentre momentos de fantasia liberada e restabelecimento do esquema da ordem”(MARCONDES, 1988, p. 40). Diz também o autor (Ibid., p. 41) que “o espetáculo é alinguagem da televisão. E é segundo a lógica do espetáculo – a única lógica possível à TV –que tudo nela é transmitido”. Por isso também o meio não deve ser entendido como terapia, jáque nesta o indivíduo procura se conhecer e naquela ele apenas se deixa levar. A mídia atual, no formato em que a conhecemos, é força geratriz constante decontrovérsias e polêmica. Adaptada a formas alucinadas de consumo, transmite idéias econceitos efêmeros, com uma estética distorcida e tresloucada, que promove valores doconsumo de massa, e uma revolução de imagens quase que permanente. Ocorre umaretroalimentação entre meio e cultura, em que muitas vezes, valores como a tradição oral, sãodeixados para trás, em virtude do que é pop, urbano e capitalista. A sociedade assiste àconstrução presente da história em tempo real, principalmente com o que se vê na TV,confirmando que: “é aos mass media que se deve o reaparecimento do monopólio da história. De agora em diante esse monopólio lhes pertence. Nas nossas sociedades contemporâneas é por intermédio deles e somente por eles que o acontecimento marca a sua presença e não nos pode evitar. [...] Imprensa, rádio, imagens não agem apenas como meios dos quais os acontecimentos seriam relativamente independentes, mas como a própria condição de sua existência”. (NORA, 1995 apud BARBOSA, 2003, p. 116) É de uma análise da TV, de imagem e discurso, que surge a relação entre os fatos e arealidade, e que se pode realmente iniciar um julgamento de valor. Usualmente, a televisãoleva a responsabilidade por vários desvios sociais. Aqui a citam como incentivadora daviolência, dos maus costumes, libidinagem e outras perversidades. Mas há fatores importantesa serem considerados antes de atribuir à TV a responsabilidade. Não há como negar umenvolvimento sedutor de homem e imagens, e toda a persuasão que cerca a linguagemtelevisiva, mas em termos de sociedade, “todos os meios de comunicação antes confirmam doque alteram as opiniões gerais e refletem as normas sociais. Em ambos os casos atuam comoforça conservadora”. (GOODLAD [19-?] apud MARCONDES, 1988, p.28). Ou seja, a mídia por si só não tem esse efeito tão poderoso, e culpá-la acaba pordesviar o foco real da atenção, que deveria estar centrado na sociedade, e em seuscomandantes. Um estudo recente da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)2mostra, para ilustrar, que na programação da televisão, os programas mais violentos não estão2 Relatório citado em GLASSNER, Barry. Cultura do medo. São Paulo: Francis, 2003. p. 97.
  35. 35. 34nem um pouco pares com a realidade, em programas simplórios como “America’s FunniestHome Vídeos”3. Programas policiais que mostram grande quantidade de homicídios, mostramo crime como algo que realmente não compensa, encorajando o público a não praticá-la, além,ainda, de afirmar que, se por um lado os telespectadores estão cercados de violência, por outroestão cercados de bons exemplos, pois nenhuma programação se mostra tão benevolente ecercada de paz e tolerância quanto a norte-americana, tendo como exemplo principal as sériestelevisivas. A psicanalista Maria Rita Kehl (2002, p. 171) afirma ainda que a relação do indivíduocom o meio “quase que independentemente dos conteúdos desse discurso (da TV) – é umarelação imaginária, que se rege prioritariamente pela lógica da realização de desejos. Portanto,prescinde do pensamento”. Houve épocas no estudo das teorias da comunicação quando seconsiderou a audiência passiva e receptiva de tudo, como quando segundo a TeoriaHipodérmica “Os meios são vistos como onipotentes, causa única e suficiente dos efeitos verificados. Os indivíduos são vistos como seres indiferenciados e totalmente passivos, expostos ao estímulo vindo dos meios. O máximo que os primeiros estudos distinguiram, em termos de diferenciações entre o público, foi dividi-lo de acordo com grandes categorias como idade, sexo e classe sócio-econômica”. (ARAÚJO, 2001, p.127) Isso não durou muito tempo, até que Lazarsfeld desenvolvesse estudos maissociológicos, e até que um de seus discípulos, Klapper, desenvolvesse um modelo teóricodenominado de “enfoque fenomênico”, que “prevê que os meios de comunicação não sãocausa única dos efeitos, mas, antes, acham-se envolvidos no meio de muitos outros fatores.”(Ibid., p. 128). Telespectadores são diferentes não apenas quanto a dados básicos como ossupracitados, mas também quanto a vivência, hábitos e caráter psicológico, cada umabsorvendo as informações do meio de uma maneira única. Com relação ao tempo quepassam em frente à tela de TV, por exemplo, pesquisas realizadas por Nathan Katzman(MARCONDES, 1988, p. 82) mostram que quanto menor a renda e o nível educacional dapopulação, mais estas assistem à televisão. Mostra também que mulheres assistem mais TVque os homens. Mais uma vez também é afirmado que esta funciona mais como uma forçaconservadora que inovadora, quando Jesús Martín Barbero (1978 apud MARCONDES, 1988,3 “Vídeos caseiros mais engraçados da América”, algo como as “Vídeo Cassetadas do Faustão”.
  36. 36. 35p. 83) diz que “há o reforço na crença de que a ordem dos acontecimentos programados emaquiados é o único mundo possível”. O que, então, faz com que a mídia esteja no meio de tanta discussão e polêmica sobremanipulação ideológica? Algo simples de enxergar, é que qualquer informação ou notíciarepassada precisa de credibilidade. A televisão é apenas um instrumento, muitas vezescontrolado por grupos capitalistas poderosos, e que em muitos países estão ligados ao própriogoverno. É daí que acaba vindo a credibilidade de que a população tanto necessita para acataraquela informação transmitida pela TV. Mas este é um processo bem mais complexo do queaqui exposto, e que no último capítulo deverá ser retomado. “Culpar a TV é localizarerroneamente o verdadeiro inimigo”. (MARCONDES, 1988, p. 8)3.1 NOTICIÁRIOS E PROPAGANDA NA TV A informação da TV pode ser interpretada de várias formas. Isso vai dependerbasicamente de dois fatores principais: primeiro, quais valores cada emissora quer passar aseus telespectadores; segundo, o que estes desejam sorver de toda a rede de dados a elespassados. Talvez possa existir, mas possivelmente será muito rara aquela rede de TV que nãoapresenta seus próprios valores e os transmite, ideologicamente. Os dois maiores exemplos de utilização de ideologia e persuasão da mídia são onoticiário e a publicidade. A ideologia há muito definida por Marx como sinônimo demanutenção da ordem política, principalmente, e a persuasão, instrumento da manutenção,muitas vezes servem como álibi de uma deturpada mostra da realidade, programada por quemestá no poder, e que, além da mídia televisiva, utiliza vários outros meios de credibilidade.Alguns recursos retóricos empregados no jornalismo, como imparcialidade e distanciamento,e na publicidade, como uso de silogismos (CITELLI, 2000, p.43), acabam trabalhando namente humana uma intrincada forma de persuasão, aditivada com jogos de elementosemocionais e figuras de heróis e bandidos (Ibid., p. 64-66) capazes de definir formas depensamento e transmitir ideologias ao telespectador. Mas sabe-se bem que o discurso persuasivo não necessariamente induz a uma verdade,como comprova Citelli (Ibid., p.13): “É possível que o persuasor não esteja trabalhando comuma verdade, mas tão-somente com algo que se aproxime de uma certa verossimilhança ousimplesmente a esteja manuseando”. Mais uma vez se comprova que não é a mídia em si quecria comportamentos e, sim, essa aproximação, mesmo que falsa, de uma verdade, apoiadapor vários testemunhos e fatores que causam a alienação, e uma espécie de generalização da
  37. 37. 36informação, quando, por exemplo, “as pessoas que moram fora da cidade sentem comopróprios os problemas da cidade maior, onde estão localizados os transmissores das redes decomunicação.” (SCHWARTZ, 1985, p.77) O discurso persuasivo muitas vezes faz uso de outras interfaces da cultura parapromover identificação com o público, em slogans curtos, musicais, cheios de silogismos eestruturações formais (CITELLI, 2000, p.43-44), e chamadas de telejornais e capas derevistas, recorrendo ao imaginário religioso, literatura, cinema, música entre tantos outros,como nos exemplos “Ave Bush!”; “Saddam, o vingador” e “Sangue, suor e óleo”, manchetesda época da Guerra do Golfo. (FAUSTO, 2002, p. 205). No jornalismo, apesar da crença na imparciabilidade das notícias, não há como atestarverdade alguma nisso, pois, primeiramente, os profissionais estão submetidos aos interessesde seus superiores, e depois, o próprio jornalista, imbuído de carga psicossocial que éenquanto indivíduo, pode ser tendencioso na transmissão da informação. “O jornalista nãopode falar como quiser, pois tem de se submeter a certas regras internas e externas dainstituição midiática.” (BARBOSA, 2003, p. 113) Ultimamente o telejornalismo também tem se utilizado de recursos que ora beiram oautoritarismo, impondo aquela notícia como verdade, e ora beiram a telenovela, pelautilização de recursos dramáticos na voz, nas entrevistas, e em testemunhos de comentaristase algumas vezes também do público mesmo. “De acordo com J. S. R. Goodlad, o jornalismo e o telejornalismo são parentes muito próximos dos dramas. Em questão de preferência popular, os noticiários ocupam, aliás, o segundo lugar, logo após os dramas. Isso talvez explique o porquê de os noticiários serem produzidos como espetáculos.” (MARCONDES, 1988, p. 52) Já com relação à publicidade, que dá um trato diferente à informação, acontece amesma coisa com relação à transmissão de ideologias e uso da linguagem persuasiva, poisaqui estes elementos estão mais explícitos. A publicidade trabalha com o desejo, incita notelespectador a vontade de possuir. O que chama atenção são “os elementos que fazem parteda nossa estrutura mental, mas que estão represados – é o que desejamos, e que por diversosmotivos não podemos possuir” (Ibid., p. 39). Isso mostra que de simples vendedora deprodutos, a publicidade passou a exibir estilos de vida, de uma maneira totalmente indiscreta,com imperativos: seja, coma, beba e vários outros. Além disso, a publicidade é um grande reforço de ideologias do capitalismo, não só noplano comercial. Também podemos ver isso num plano político, que quase sempre é a
  38. 38. 37propaganda quem determina vencedores de eleições, e a própria espetacularização dapropaganda política, em que não são apenas propostas que interessam, mas sim todo o estilode vida dos políticos, suas rotinas com a família, amigos e sua vida amorosa. “A políticamanifesta-se permeada/invadida pelas ações íntimas e pessoais: a política se privatiza, a vidaprivada do governante ocupa toda a cena pública” (PIOVEZANI, 2003, p. 53). Grandeexemplo disso foi o escândalo sexual na Casa Branca, quando o então presidente dos EstadosUnidos, Bill Clinton, manteve relações extra-conjugais com a estagiária Mônica Lewinsky. Mas da mesma maneira que acontece na televisão, conforme citado anteriormente, apublicidade não deve ser considerada a grande máquina persuasiva, levando-se em conta cadatelespectador diferentemente. Segundo Jean Baudrillard (2000, p.291), “o discursopublicitário dissuade ao mesmo tempo em que persuade e daí parece que o consumidor é,senão imunizado, pelo menos um usuário bastante livre da mensagem publicitária”. A grandequestão da publicidade é que ela se aproveita de acontecimentos da própria sociedade paragarantir lucratividade, gerando demanda. Um exemplo disso é citado por Barry Glassner(2003, p.131). Segundo ele, uma empresa norte-americana chamada Safe-T-Child“comercializou um pacote [...] que incluía dois cartões de identificação e uma fita casseteinstrutiva para os pais sobre como prevenir o rapto de crianças”. Isso foi nada mais que umademanda gerada pelo medo que assolou o país após uma onda de raptos de crianças na décadade 90, e foi responsável pelo decreto de mais de 50 leis nos Estados Unidos, entre elas leisfamosas, como a lei Jenna, lei Amber e lei Stephanie.4 O que torna a mídia televisiva tão passível de crítica é o fato de que em ambos oscasos, publicidade e jornalismo, não há resposta do receptor, primeiramente. Este obviamentenão está sob os domínios da TV, mas naquele exato instante da transmissão da informação,está vulnerável, pois não tem o poder de imediatamente contestar o seu interlocutor. Elepoderá, posteriormente, questionar a informação, mas naquele momento poderá se deixarlevar, ainda mais se esta for credenciada por um álibi poderoso. Um segundo fator paradiminuir a culpa da mídia, é descobrir quem paga pela informação. Quase sempre asemissoras e redes de televisão pertencem a homens poderosos, com muita influência política eeconômica, quando estes homens próprios não são os políticos. No Brasil, temos a RedeGlobo, cujo fundador Roberto Marinho, ditou as regras da comunicação por muito tempo, esua emissora ainda hoje é líder em audiência. Nos Estados Unidos, temos a Rede Fox, que4 Os nomes das leis são homenagens a crianças reais, vítimas de seqüestros e outros crimes. Além dos nomescitados, existem várias outras leis com nomes de crianças vítimas da violência.
  39. 39. 38pertence à família do presidente George W. Bush, cujo irmão e sócio majoritário da rede eragovernador do Texas. Não só com relação aos donos das redes, mas também ao próprio público resta umpouco de responsabilidade: “Para a notícia ser veiculada em jornais, ela deve atender ao interesse dos assinantes. Porém, poucos assinantes moram nos bairros decadentes das grandes cidades – região onde vivem as minorias. A insignificante presença de noticiário internacional na maioria dos jornais americanos é resultado das mesmas forças mercadológicas.” (GLASSNER, 2003, p. 199) Grandes anunciantes também lideram o segmento econômico. Como na maioria dasvezes é a publicidade quem sustenta emissoras de tv e outros tantos veículos, estes devemestar sujeitos aos ideais destes anunciantes, para não perderem bons negócios. Um exemplodisso é a indústria farmacêutica na América do Norte, que além de ser a indústria maislucrativa e, conseqüentemente, a maior anunciante, aprisionou a mídia cancelando contratospublicitários, quando o laboratório Hoffman – La Roche, fabricante do sonífero Rohypnol,teve uma grande queda em suas vendas por causa da divulgação de que a droga estava sendousada com a finalidade de cometer estupros.3.2 MÍDIA E VIOLÊNCIA A relação da mídia com a violência torna-se fatídica na medida em que aquela vive datransmissão de informações, e que esta é talvez um dos aspectos sociais mais recorrentes damodernidade capitalista. Especificamente no caso da televisão, somam-se a força dasimagens, naturais ou enganosas, e a própria disseminação de dados sobre a violência, quecausa medo na população. Diz Yves Michaud que: “A mídia precisa de acontecimentos e vive do sensacional. A violência, com a carga de ruptura que ela veicula, é por princípio um alimento privilegiado para a mídia, com vantagem para as violências espetaculares, sangrentas ou atrozes sobre as violências comuns, banais e instaladas.” (1989, p.49) Aqui, como foi citado anteriormente, tem lugar ainda a generalização da informação,quando comprova-se que muitas das pessoas que têm medo da violência nem sequer foramvítima dela, mas ouviram alguém contar um caso, ou viram na TV. Em cidades pacatas epequenas do interior temem com a mesma intensidade os males da cidade grande. Mas aomesmo tempo, essa sensação de que tudo se sabe sobre os acontecimentos com relação à

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