UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO              ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS, PUBLICIDADE E TUR...
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BANCA EXAMINADORAEspaço reservado às observações da Banca Examinadora responsável pela avaliaçãodeste trabalho, apresentad...
AGRADECIMENTOSEm primeiro lugar, agradeço àqueles que estiveram comigo ao longo de toda a minhavida: minha família. Meu pa...
RESUMOO presente trabalho visa apresentar a relação da mulher com o universo masculino dofutebol do ponto de vista históri...
ABSTRACTThe present study aims to present the connection between women and the maleuniverse of soccer, from historical, so...
SUMÁRIOIntrodução............................................................................................................
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11                                       INTRODUÇÃO                      "[...] É preciso ter o Futebol no sangue, e a gen...
12estádio ou comprar um produto? Com certeza não são as mesmas coisas queestimulam os homens a fazê-lo, e nesse ponto entr...
131. A construção do território masculino do futebol1.1 De onde ele vem       Para analisar a construção do território do ...
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15      No calcio fiorentino, duas equipes de 27 jogadores cada se enfrentavam em umcampo de areia e tinham como objetivo ...
16        Embora haja nítidos pontos comuns entre as práticas com bola relatadas acima,não é possível traçar uma linha de ...
17      Quando os alunos da escola Rugby começaram a ganhar reputação praticandoo que era um protótipo do rugby moderno, o...
18       Não só o futebol moderno, mas o jogo com bola, no geral, nasce como umamanifestação masculina. Seja como diversão...
19Germânia, com alemães e descendentes. Em 1900, foi fundado o Club AthléticoPaulistano, formado por representantes de fam...
20       Nada disso impediu que surgisse uma segunda tendência: o interesse dascamadas médias e subalternas pelo futebol. ...
21um campo no qual o País lutava de igual para igual, se não de maneira superior, comos países mais modernos do mundo:    ...
22de mercado, o que permite a compreensão de sua rede de significados de maneiramais aprofundada.1.3. O futebol e suas sig...
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28ela se mostra através dos elevados índices de delinquência. Das sociedades maisautoritárias às sociedades mais democráti...
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30últimos 20 anos, sendo que só em 2011 foram 20 registros de assassinatoscomprovados dentro do universo das torcidas. As ...
31extremistas) ajuda a recuperar esse sentimento, também pode levar o indivíduo apraticar exageros em nome dela.      O ps...
32repercutiu em todo o mundo e a Federação de Futebol Turca explicou que o objetivo dadecisão era „‟recordar aos torcedore...
33trazer a figura feminina para o espetáculo, que ajuda a transformar o futebol em umprograma democrático e familiar, uma ...
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36          Imagem 6: jogadoras iranianas choram após terem jogo cancelado na Jordânia, por se                            ...
37para mulheres (..) e convida os clubes membros da Football Association a não cederseus campos para partidas femininas‟‟....
38time mexicano, com a presença de 100 mil espectadores15. A FIFA ainda demoroumais de uma década e, em 1988, finalmente a...
392.2. As praticantes brasileiras        O surgimento do futebol feminino no Brasil apresenta controvérsias em suahistória...
40                         “Certamente ninguém exigirá da mulher que jogue o football ou o rugby, que                     ...
41            A notícia correu e 45 moças se apresentaram para jogar. Os times ganharamversão feminina, e em 1958, entrara...
42        Os times sobreviveram menos de um ano à pressão, quando o diretor NeyMontes recebeu uma notificação dizendo que ...
43      De lá pra cá, centenas de outras mulheres se interessaram pela profissão, ehoje não só realizam entrevistas em cam...
44        Imagem 8: gandulas mulheres são escaladas para participarem da final dos Estaduais de 2012        Se as atividad...
45      O documentário parte do polêmico caso envolvendo dois jornalistas esportivos, oex-jogador Andy Gray e o narrador R...
462.4. Elas como torcedoras      A aparição mais bem aceita e constante da figura feminina no futebol é comoespectadora. L...
47brilhantismo da festa e davam nota alegre ao certamên, torcendo ativamente e fazendodos sporstmen seus ídolos maiores‟‟ ...
48futebol, sendo uma grande incentivadora do esporte no país. Chegou jogar futebol, atreinar os operários da fábrica de se...
49formadas, na sua maioria, por jovens que realizam, por meio dela, a sua sociabilidadecom gestos, ações e atitudes muitas...
Do salto alto ao bandeirão. A relação entre as torcedoras mulheres e os clubes de futebol
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Este trabalho visa apresentar a relação da mulher com o universo masculino do futebol do ponto de vista histórico, sociológico e mercadológico, com foco na espectadora da modalidade. O papel da figura feminina vem se moldando através das diversas transformações sociais ocorridas ao longo dos séculos, conferindo cada vez mais liberdade de escolha para a mulher em universos como trabalho, política e lazer, antes dominados por um rígido núcleo masculino. Percebendo os benefícios sociais e econômicos que essa democratização pode trazer, somados ao crescente poder de influência que a figura feminina tem em núcleos familiares, algumas organizações esportivas já se preocupam em entender como fazer com que a mulher também seja uma consumidora fiel do esporte. O marketing esportivo, utilizando-se de uma série de ferramentas de comunicação, pode entender quais são as suas necessidades e traçar a melhor estratégia para conquistar e fidelizar essas torcedoras, contribuindo também para que o mercado do futebol se profissionalize no País como um todo.

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  • Jogando.net/mu - 02

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  1. 1. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS, PUBLICIDADE E TURISMO Renata Scarellis DO SALTO ALTO AO BANDEIRÃOA relação entre as torcedoras mulheres e os clubes de futebol São Paulo 2012
  2. 2. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS, PUBLICIDADE E TURISMO DO SALTO ALTO AO BANDEIRÃOA relação entre as torcedoras mulheres e os clubes de futebol Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Comunicações e Artes como requisito parcial para a obtenção do titulo de bacharel em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas sob a orientação do Prof. Dr. Leandro Leonardo Batista São Paulo 2012
  3. 3. BANCA EXAMINADORAEspaço reservado às observações da Banca Examinadora responsável pela avaliaçãodeste trabalho, apresentado em _______ de _____________ de 2012, na Escola deComunicações e Artes da Universidade de São Paulo.Examinador 1_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Examinador 2_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Examinador 3_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  4. 4. AGRADECIMENTOSEm primeiro lugar, agradeço àqueles que estiveram comigo ao longo de toda a minhavida: minha família. Meu pai, por ter me ensinado, entre tantas coisas, o quão bom é seapaixonar pelo futebol e por ser minha companhia em dias de jogo. Minha mãe, peloapoio incondicional em tudo o que eu faço (menos as idas ao estádio), e por sempreacreditar que „‟tudo vai dar certo‟‟. Meu irmão, por me ajudar a levar o mundo menos asério, e por ser meu outro companheiro. Aos três, por me ajudarem com as inúmerasrevisões, impressões, e o que mais precisou para que eu concluísse o trabalho.Depois, agradeço aos meus amigos ecanos, que entre ECA Jr, times, conversas devivência - especialmente as de quinta-feira - intercâmbio, festas, viagens, trabalhos defaculdade e aulas me ensinaram, inspiraram, e fizeram com que eu conseguisseentender facilmente o porquê dizem que esses são alguns dos melhores anos dasnossas vidas.Àqueles que me ajudaram para a realização deste trabalho, me orientando,emprestando livros, dando dicas, saindo para conversar comigo ou me dando apoiomoral na reta final.
  5. 5. RESUMOO presente trabalho visa apresentar a relação da mulher com o universo masculino dofutebol do ponto de vista histórico, sociológico e mercadológico, com foco naespectadora da modalidade. O papel da figura feminina vem se moldando através dasdiversas transformações sociais ocorridas ao longo dos séculos, conferindo cada vezmais liberdade de escolha para a mulher em universos como trabalho, política e lazer,antes dominados por um rígido núcleo masculino. Percebendo os benefícios sociais eeconômicos que essa democratização pode trazer, somados ao crescente poder deinfluência que a figura feminina tem em núcleos familiares, algumas organizaçõesesportivas já se preocupam em entender como fazer com que a mulher também sejauma consumidora fiel do esporte. O marketing esportivo, utilizando-se de uma série deferramentas, pode entender quais são as suas necessidades e traçar a melhorestratégia para conquistar e fidelizar essas torcedoras, contribuindo também para que omercado do futebol se profissionalize no Brasil como um todo.Palavras-chave: mulher, torcedora, futebol, marketing esportivo
  6. 6. ABSTRACTThe present study aims to present the connection between women and the maleuniverse of soccer, from historical, sociological and commercial point of view, focusingon female fans. Women‟s role in society has been constantly changing, giving themmore and more freedom to make choices in work, politics and leisure, environmentsdominated exclusively by men for a long time. Understanding social and economicbenefits of having both genders actively participating on this field, coupled with thegrowing influence that the female figure takes into family units, some sportsorganizations are already acting to find out how to get women‟s attention. Sportsmarketing can help identifying female fan‟s needs, and building up specific strategies tomake them become faithful consumers of soccer.Keywords: women, fan, soccer, sports marketing
  7. 7. SUMÁRIOIntrodução............................................................................................................... 111. A construção do território masculino do futebol................................................. 13 1.1 De onde ele vem............................................................................................ 13 1.2. Como ele é recebido no Brasil...................................................................... 18 1.3. O futebol e as suas significações ................................................................. 22 1.4. Quando ele vira sinônimo de violência.......................................................... 262. As mulheres entram em campo.......................................................................... 34 2.1. Elas como praticantes................................................................................... 34 2.2. As praticantes brasileiras.............................................................................. 39 2.3. Elas como profissionais................................................................................. 42 2.4. Elas como torcedoras.................................................................................... 46 2.5. Legitimação x estereótipos............................................................................ 513. O mercado da bola............................................................................................. 58 3.1. O que é marketing esportivo......................................................................... 58 3.2. O marketing para promover o esporte........................................................... 63 3.3. O marketing do esporte a serviço de uma organização................................ 71 3.4. O que elas querem (ou precisam)................................................................. 754. Quando o público feminino ganha os holofotes................................................. 81 4.1. No marketing pelo esporte............................................................................ 81
  8. 8. 4.2. Nos produtos................................................................................................. 86 4.3. Nas datas comemorativas............................................................................. 90 4.4. Na web ......................................................................................................... 93Considerações Finais............................................................................................. 96Referências Bibliográficas...................................................................................... 98
  9. 9. LISTA DE QUADROS E FIGURASImagem 1 - Homens praticando kemari em festividade no Japão........................... 14Imagem 2 - Homens jogando calcio fiorentino da piazza di Santa Croce, em Florença,Itália............................................................................................................................15Imagem 3 - Torcedores do Liverpool se espremem nas grades para conseguir ver apartida do seu time contra o Nottingham Forest, em 15 de abril de 1989............. 29Imagem 4 - Briga entre torcedores do Palmeiras e do São Paulo no estádio, queterminou com um torcedor são-paulino morto em campo, ocorrida em1995.......................................................................................................................... 30Imagem 5 - Mais de 40.000 mulheres e crianças lotam o estádio turco de SukruSaracoglu, em setembro de 2011............................................................................ 32Imagem 6 - Jogadoras iranianas choram após terem jogo cancelado na Jordânia, porse recusarem a jogar sem o hijab, em fevereiro de 2012...................................... 36Imagem 7 - Goleira do Araguari Atlético Clube entra em campo para jogar contra oFluminense, em 1958.............................................................................................. 41Imagem 8 - Gandulas mulheres são escaladas para participarem da final dos Estaduaisde 2012.................................................................................................................... 44Imagem 9 - Senhoritas da alta sociedade acompanham partida no ABC Paulista, nadécada de 20........................................................................................................... 46Imagem 10 - Torcida organizada do Corinthians, com a clara predominância dehomens, sobe para as arquibancadas..................................................................... 50Imagem 11 e 12 - Torcida Flu Mulher se prepara para ver partida do Fluminense, eNúcleo de Mulheres Gremistas visita a obra da nova arena do Grêmio............... 54
  10. 10. Imagem 13 - Produtos para o público feminino fã de MMA usar no dia a dia, lançadosem 2012................................................................................................................... 56Imagem 14 - Jovem torcedor do Manchester City assiste o time no Family Stand,espaço reservado para as famílias.......................................................................... 65Imagem 15 - Goleira da seleção americana de futebol, Hope Solo, posa paracampanha realizada pela Nike com foco em mulheres......................................... 72Imagem 16 e 17 - Desodorizador Febreze, patrocinador da NFL, faz campanha focadano público ferminino................................................................................................. 73Imagem 18 - Espaço da Mulher Colorada leva mães para visitarem o Beira-Rio ecomemorar o dia das mães..................................................................................... 84Imagem 19 – Banheiros reformados no Beira-Rio, estádio do Internacional(RS)........................................................................................................................ 84Imagem 20 e 21 - Camisa baby look do Avaí e bijuteria feminina de pele para astorcedoras................................................................................................................ 87Imagem 22 e 23 - Agasalhos como o do São Paulo e pijamas como o do Santos sãoalguns dos produtos que hoje são oferecidos às mulheres pelos clubes......... 88Imagem 24 - Vencedoras da promoção „‟Que sentimento é esse?‟‟, lançada pelo Avaípara o dia internacional das mulheres de 2012, recebem os prêmios............... 91Imagem 25 e 26 - Ações do Corinthians (SP) nas redes sociais para o dia das mães epara o dia internacional das mulheres................................................................... 92Imagem 27 e 28 - Reportagem feita para torcedoras atleticanas (PR) na seção„‟mulher‟‟ do site oficial............................................................................................. 94Quadro 1 – 4 P‟s do marketing esportivo................................................................ 60Quadro 2 - mix de marketing promocional.............................................................. 66
  11. 11. 11 INTRODUÇÃO "[...] É preciso ter o Futebol no sangue, e a gente, neste momento, não dúvida de que qualquer laboratório detectaria a presença do Futebol no sangue de cada brasileiro, numa mistura balanceada com glóbulos brancos e vermelhos [...]". (Mino Carta editorial da Revista Isto É, n° 212 - jan/81) A dentista Caroline da Rosa Corrêa tem em seu armário sete camisas doInternacional (RS) e é sócia do clube desde 2003. Já a advogada Viviane Espíndula, deUberlândia, viaja a São Paulo sempre que pode para assistir aos jogos do Corinthians(SP). A cruzeirense Mariana Bremgartner acompanha não só as partidas do seu time,mas também de todos os outros no Campeonato Brasileiro e ainda algumas partidas declubes no exterior. Os exemplos descritos acima estão cada vez mais presentes nos times de nortea sul do país. Atleticanas, gremistas, são paulinas, palmeirenses, santistas ouvascaínas, elas estão por toda a parte. E não só na torcida, mas também trabalhandopara desenvolver o futebol como negócio, apitando as partidas, ou até mesmodriblando e fazendo gol. Foi-se o tempo em que o futebol era „‟coisa de homem‟‟. Aliás, se o futebol éuma representação tão fiel da sociedade, cabe dizer que se foi o tempo no qual aesfera pública era um espaço dos homens. As mulheres têm ocupado cada vez maisos espaço que antes eram exclusivamente masculinos, e o futebol é mais um deles. Não se pode deixar de dizer que tantos anos de restrições deixaram marcas,que se apoiam em preconceitos ou ideias que insistem em colocar a mulher e o futebolem campos distantes, mas é também inegável o crescente interesse por parte delasnesse território. Ainda que existam muitos pontos em comum quando se fala em torcer epertencer, as diferenças também se fazem presentes. Elas aparecem, por exemplo,nas necessidades de homens e mulheres que escolhem acompanhar um clube, sejaela referente a produto, a conteúdo informativo, à arena. O que faz uma mulher ir ao
  12. 12. 12estádio ou comprar um produto? Com certeza não são as mesmas coisas queestimulam os homens a fazê-lo, e nesse ponto entra o profissional de marketingesportivo, que irá estudar como falar e o que oferecer para que conquistar essa mulher,que dessa maneira irá não só consumir mais do produto esportivo, mas tambéminfluenciar os seus círculos sociais, a começar pela família. No Brasil, que se autodenomina „‟o país do futebol‟‟, esse assunto é cada vezmais recorrente. Reportagens veiculadas na mídia mostram as torcedoras apoiando oseu time no estádios, comprando produtos licenciados, e se manifestando na web, masserá que as marcas e os clubes levam isso em consideração na hora de comunicar? Éesse processo que o presente estudo procura entender. Para isso, a discussão será dividida em quatro etapas. A primeira tarefa seráconstruir o território masculino do futebol, da sua origem à sua chegada no Brasil,mostrando como o futebol nasce para suprir necessidades masculinas e quaisrepresentações sociais ele pode assumir, o que ajudaria a explicar a sua popularidade. Em seguida, fala-se do contexto social feminino, demonstrando comomovimentos sociais e tecnológicos fizeram com que a mulher se aproximasse doesporte, ainda que essa tenha sido sempre uma relação conturbada, cheia deproibições e desconfianças. Dá-se uma especial atenção à mulher torcedora dos diasde hoje, uma principais figuras deste estudo, mostrando quem é ela, a sua trajetória nofutebol, e as barreiras enfrentadas dia após dia no processo de legitimação nesseterritório. No capítulo três, apresenta-se a teoria do marketing esportivo, mostrando comoo profissional pode atuar para potencializar ganhos de organizações esportivas oumarcas que se associem a ele, quem são as consumidoras esportivas e o que já foifeito nesse campo no exterior quando se fala de modalidades consideradasmasculinas. Por fim, no capítulo quatro, encontra-se uma breve análise de iniciativas declubes ou marcas brasileiras que invistam para trazer ou fidelizar a torcedora mulherdentro do universo do futebol, além de opiniões de alguns profissionais do mercado.
  13. 13. 131. A construção do território masculino do futebol1.1 De onde ele vem Para analisar a construção do território do futebol na sociedade e a relação damulher com ele, é importante entender primeiramente a sua origem e contexto, poisesses fatores contribuem para a compreensão de como ele se reflete hoje nasociedade. São diversas as teorias acerca do tema, pois há muitos séculos o homempratica esportes coletivos com a bola que poderiam ter influenciado em maior ou menorgrau o desenvolvimento do futebol moderno. Pesquisas apontam que atividades muito semelhantes ao futebol tenham sidopraticadas na Ásia, especificamente na China e no Japão. Na China, ela aconteceu nadinastia Han, no século III a. C. O jogo era chamado tsu-chu (cuju), e consistiabasicamente em lançar uma bola com os pés para uma pequena rede. A atividadederiva de uma macabra diversão praticada pelos militares, que chutavam as cabeçasde seus inimigos após as batalhas para relaxar, mas posteriormente se transforma emtreinamento militar e é introduzida a bola de couro revestida com cabelo para a suaprática. O esporte se populariza e se propaga para as cortes reais e camadas sociaismais altas como divertimento. O cuju teria influenciado no surgimento do kemari, que começa a ser praticadono Japão durante o período Heian, no século II a. C. A diferença é que o esporte cheganesse país com caráter cerimonial, sendo o objetivo do jogo manter a bola no ar,passando-a entre os jogadores. Era visto como uma espécie de oferenda às divindadese por isso a elegância e a graciosidade nos movimentos eram consideradasimportantes. Até hoje o kemari é praticado no Japão, com o intuito de preservar o seucaráter histórico.
  14. 14. 14 Imagem 1: homens praticando kemari em festividade do Japão. Na Europa, os primeiros registros vêm da Grécia, de um jogo chamadoepiskyros. As partidas eram jogadas por times de 12 a 14 jogadores cada, e erapermitido o uso das mãos e pés. Conta-se que o esporte não se tornou tão popularentre os gregos quanto as outras modalidades praticadas na mesma época, porémconquistou os romanos que a invadiram e criaram, a partir dela, o harpastum, um jogocom caráter violento. Graças à série de invasões romanas na época, o esporte acabou sendo levadopara outros continentes e regiões da própria Europa. Existem controvérsias comrelação à influência do harpastum nos esportes que surgiriam nesses países, porémsão várias as semelhanças entre as diversas práticas, ainda que cada região tenhaadotado regras distintas. No norte francês, durante o século XII surge o soule. O termo deriva do latimsolea, que significa „‟calçado‟‟, o que indica um jogo realizado com os pés. A bola erade couro e em algumas regiões era praticado com as mãos ou mesmo com um bastão.A disputa acontecia uma vez por ano e tinha caráter ritual, sem delimitação de espaço,tempo, ou número de jogadores. Na Itália surge o calcio fiorentino, um dos ancestrais mais conhecidos do futebol,e que deu o nome à modalidade como é conhecida hoje pelos italianos, o calcio.Conta-se que a história teve início na cidade de Florença, durante a Idade Média, emuma batalha entre facções políticas que resolveram medir forças em um jogo de bola,prosperando depois como esporte.
  15. 15. 15 No calcio fiorentino, duas equipes de 27 jogadores cada se enfrentavam em umcampo de areia e tinham como objetivo arremessar a bola, seja com as mãos ou comos pés, na rede do adversário, que ficava do lado oposto do campo. Tornou-se umamodalidade praticada somente pela aristocracia italiana e permitia golpes como socose chutes dentro de campo, inclusive com registros de morte de jogadores emconsequência de golpes sofridos durante a partida. Segundo Franco (2007), umestudioso estimou em quarenta mil o número de espectadores de cada partida. Atualmente a modalidade é jogada em Florença três vezes ao ano, quandoacontece uma série de comemorações na cidade, com as quatro esquipes da cidade seenfrentando na Piazza di Santa Croce. Imagem 2: homens jogando calcio fiorentino na Piazza de Santa Croce, em Florença, Itália Na Inglaterra, a prática de jogos com bola começa desde 1174, por ocasião dafesta popular de Schrovetide, que comemorava a expulsão dos invasoresdinamarqueses. Assim como na prática chinesa (cuju), a bola era considerada arepresentação da cabeça do chefe invasor, mas não se sabe se ela era conduzida comos mãos ou com os pés. Mais adiante, em 1314, um documento faz referência explícitaa um jogo de bola com os pés que se tornou tão popular a ponto de, em 1365, serproibido pelo rei Eduardo III, alegando que ele afastava as pessoas de práticas nobrese úteis. Mesmo assim, multiplicaram-se as menções ao jogo com os pés, muitas vezesdesignado pela palavra football.
  16. 16. 16 Embora haja nítidos pontos comuns entre as práticas com bola relatadas acima,não é possível traçar uma linha de continuidade entre elas. Isso porque ao mesmotempo que todas apresentavam semelhanças, também existiam diferençassignificativas, principalmente no que diz respeito ao espírito do jogo (objetivos coletivosou individuais, prática com mãos e/ou pés). Para Franco (2007), nenhuma delasdesembocou em algo semelhante ao futebol pois: „‟[...] jogos com bola são manifestações antropológicas, não específicas de determinado povo e determinada época, enquanto o futebol tal qual como o conhecemos hoje resultou de um conjunto de fatores presentes apenas na Inglaterra do século XIX. (FRANCO, 2007, p.18)‟‟ De maneira geral, reconhece-se que as primeiras formas nitidamente modernasde futebol são encontradas na Inglaterra entre 1830 e 1850, quando surgem nasescolas públicas manifestações que mais tarde viriam a se diferenciar entre o rugby e ofootball (DUNNING e MAGUIRE, 1997, p.330). Para entender melhor tal processo, é importante destacar o cenário social eeconômico da época. Nesses anos, as escolas inglesas serviam como agentes deunificação entre as classes proprietárias de terra já instaladas e a classe burguesaindustrial em ascensão. Os pais consideravam a escola, e principalmente o esporte,uma maneira de os filhos aprenderem conceitos de virilidade e independência, e oImpério britânico o considerava um poderoso instrumento para, além da atividadefísica, transmitir valores como disciplina, trabalho em equipe, elementos que eramimportantes para sua política de manutenção e expansão. O momento era de mudança de poderes, e os processos de industrialização,urbanização e aumento do poder do Estado favoreciam a classe burguesa emdetrimento da aristocrática. Isso se refletia no aumento da rivalidade por status entreantigas escolas aristocráticas como Eton e Harrow, e as novas escolas aristocráticascomo a Rugby, sendo o esporte um reflexo claro disso.
  17. 17. 17 Quando os alunos da escola Rugby começaram a ganhar reputação praticandoo que era um protótipo do rugby moderno, os meninos da Eton começaram a adotarvariações que seriam mais semelhantes ao soccer moderno. Nesse processo, além darivalidade, via-se a diferença entre ideais de comportamento e violência aceitos nasociedade da época. Apesar das tentativas de unificar as duas práticas e fazê-las se disseminaremcomo um único esporte nacional, o rugby e o futebol seguiram separados, ambos compopularidade crescente na sociedade inglesa, e refletindo distintos sentimentos dosbritânicos daquela época. Enquanto o rugby realçava a virilidade, a força física e a coragem, o football erauma demonstração de uma virilidade mais contida e civilizada. Como relata o escritorGideon Guthrie, entre os anos de 1889/1890: “Além do valor real de altruísmo, do domínio de si mesmo e do bom humor, o futebol mostra, por exemplo, a necessidade da amabilidade e da lealdade, a superioridade do espírito sobre o corpo, a moderação e a humildade (..) Durante cada partida, esses preceitos morais são apresentados como exemplo para os espectadores que têm também a ocasião de condenar as maneiras e as condutas faltosas, e ousamos crer que esses breves sermões do domingo à tarde não deixam de ter efeitos sobre a reforma da população” (GUTHRIE, apud DUNNING e MAGUIRE, 1997, p.331). A situação internacional de conflitos do século XIX, porém, ajudou o futebol a semoldar, pois a necessidade constante de meninos que estivessem prontos para lutarem guerras influenciava no uso do esporte nos colégios como espaço para ensinaressas diversas formas de agressividade e masculinidade, enfraquecendo o conceito de“lazer racional” que ele possuía. Esse movimento, que englobava também uma política de expansão do ImpérioBritânico, fez com que o futebol, o rugby, entre outras modalidades praticadas naInglaterra se difundissem e chegassem a diversos países como Argentina, Austrália,África do Sul, Índia, Estados Unidos, e o próprio Brasil, que se apropriaria do futebol eo tornaria o esporte mais popular do País.
  18. 18. 18 Não só o futebol moderno, mas o jogo com bola, no geral, nasce como umamanifestação masculina. Seja como diversão pós-batalha, treinamento militar,cerimônia religiosa, decisão de forças ou instrumento de educação, o futebol éintroduzido a esferas que não tem a participação da mulher. Nem mesmo o kemari,com seu caráter cerimonial, permitia a participação da figura feminina. Nos outros –cuju, episkyros, harpastum, calcio fiorentino ou mesmo no futebol moderno - ela ficavaainda mais distante, já que todos os jogos se caracterizavam pela virilidade eagressividade, ainda que fosse de forma contida, valores distantes da figura feminina.1.2. Como ele é recebido no Brasil No Brasil, a chegada do esporte que se tornaria paixão nacional é atribuída àfigura do jovem Charles Miller, graças ao seu empenho para trazer o esporte bretão edifundi-lo no País. Charles era filho de pai escocês e mãe de origem inglesa. O casalmorava no Brás, onde ele nasceu, e aos nove anos o mandaram para a Inglaterra paraestudar. Lá, Charles aprendeu a jogar futebol pela Bannister Court School, escolapública de New Hampshire, onde também aprendeu críquete e rugby. No futebol,atuou como jogador, árbitro e até mesmo dirigente. No regresso ao Brasil, em 1894, com pouco mais de vinte anos, e apaixonadopelo esporte, trouxe consigo o material que o ajudaria a desenvolvê-lo no País: doisuniformes, um par de chuteiras, duas bolas, uma bomba de ar, e um livro de regras. Os primeiros treinos foram realizados nas várzeas do Carmo. Charles Miller erasócio do São Paulo Athletic Club, fundado em 1888, e funcionário da São PauloRailway Company, o que possibilitou que ele organizasse uma partida no dia 14 deabril de 1895 entre as duas instituições, a primeira partida oficial de futebol do Brasil. A partir daí, surgem iniciativas como a fundação, em 1898, da AssociaçãoAtlética Mackenzie College, primeiro time formado exclusivamente por brasileiros, oSport Club Internacional, em 1899, que reunia ingleses e brasileiros, e o Sport Club
  19. 19. 19Germânia, com alemães e descendentes. Em 1900, foi fundado o Club AthléticoPaulistano, formado por representantes de famílias tradicionais de São Paulo e, em1902, a Associação Athlética das Palmeiras, criada por jogadores do segundo time doPaulistano. Nota-se, portanto, que todos esses clubes possuíam algumas características emcomum: eram formados por brancos pertencentes às classes nobres de São Paulo. Umesporte que era associado a ideais de progresso e industrialização, inserido em umasociedade com marcas do escravismo e ainda essencialmente agrária. A visão de que só as elites protagonizaram o processo de desenvolvimento dofutebol, porém, mudou. Conta-se que „‟entre 1880 e 1890, anos antes de Charles Millerretornar da Inglaterra, jesuítas já haviam introduzido jogos com o ballon anglais’’(FRANCO, 2007, p.61). Em Itu, no Colégio São Luís, jovens da elite praticavam umjogo chamado „‟bate bolão‟‟, que a partir de 1894 já possuía alguns elementos dofutebol moderno, como as equipes formadas por onze jogadores, as traves de madeirae os times uniformizados. Existem também relatos de marinheiros ingleses quejogaram futebol na praia em seus dias de folga, e até mesmo o registro de uma partidarealizada em 1878. Segundo Franco (2007), apesar do reconhecimento dos esforços e da paixão deCharles Miller pelo esporte, e do evidente acesso que a elite teve ao futebol, „‟enxergarsó esse lado da história não permite esclarecer as relações entre a atividade e asociedade brasileira, até porque muitas de suas significações estão no processo deapropriação pelos diversos setores sociais que o difundiram e o transformaram em umfenômeno‟‟. A criação de times e clubes de futebol pelo país – sobretudo São Paulo eRio de Janeiro – obedeceu duas tendências. A primeira é a formação de equipes pela elite, como já foi falado anteriormente.O futebol, ali, representava um item da modernidade europeia importante para a elitebrasileira. Os colégios e clubes eram espaços exclusivos dessa camada social, quedetinha os instrumentos necessários para a prática do futebol, como chuteiras euniformes, além das técnicas e dos saberes ingleses.
  20. 20. 20 Nada disso impediu que surgisse uma segunda tendência: o interesse dascamadas médias e subalternas pelo futebol. Estes jogavam em times improvisados, enesse meio o futebol se tornava um modo de representação que era negado em outroscampos sociais. Deste movimento surgem importantes equipes como, por exemplo, oS. C. Corinthians Paulista, formado em 1910 por um grupo de operários. Por outro lado, a criação de clubes vinculados a empresas que convocavamseus operários para jogarem também ajudava a quebrar essas barreiras sociais. Nessecaso, jogadores começaram a receber gratificações, e os melhores atletas tinham aoportunidade de se dedicar mais ao futebol e menos à função para a qual tinham sidocontratados no primeiro momento. Os clubes elitistas e populares organizavam seus campeonatos separadamente,sendo que o primeiro cobrava um elevado valor pelos ingressos e mensalidades deseus sócios na tentativa de manter essa segregação. Nesses campeonatos de elite, apartir de 1920, era possível encontrar inúmeras senhoritas acompanhando as partidasde futebol, que representavam uma oportunidade para elas também participarem davida pública da alta sociedade. A formação da concepção do futebol no Brasil, então, era dupla. De um lado,estava a perspectiva europeia, que celebrava os valores de cooperação, solidariedade,disciplina e coordenação dos movimentos; de outro, a realidade das classes médias esubalternas, que apreciava a arte de improvisação e malandragem, valoresrelacionados à própria condição de vida dessas pessoas. De lá pra cá, seriam formados órgãos reguladores como a FIFA, realizadoscampeonatos regionais, nacionais e internacionais, o futebol malandro e improvisadose uniria ao futebol estratégico e ao fair play, acabando com a segregação entrepopulares e elitistas, e a Seleção Brasileira cresceria no cenário internacional. Se internamente o futebol já mostrava a sua força como elemento de construçãoda identidade brasileira, externamente esse cenário não poderia mudar. A seleçãobrasileira tornou-se um meio de os brasileiros mostrarem a sua força para o exterior,
  21. 21. 21um campo no qual o País lutava de igual para igual, se não de maneira superior, comos países mais modernos do mundo: „‟[...] é principalmente na segunda metade do século XX, que o futebol irá se consolidar como esporte de preferência nacional na sociedade brasileira. O inédito vice-campeonato mundial de 1950, conquistado em território nacional, as vitórias nas Copas de 1958, 1962 e 1970, conferem ao futebol brasileiro o status de melhor do mundo. Essas conquistas desencadearam uma série de transformações nunca experimentadas no meio futebolístico nacional. Surge uma crescente busca pelo esporte e a necessidade em acompanhar os seus principais acontecimentos. Neste contexto, a mídia irá desempenhar um importante papel na divulgação, popularização e massificação do futebol (BOSCHILIA e MEURER, 2003, p.2).‟‟ O futebol também se tornaria mais do que uma ferramenta de expressão, umaatividade de lazer, um meio de educar ou uma arma política, ele se tornaria umverdadeiro mercado, movimentando bilhões de dólares por ano, transformando-se emuma valiosa ferramenta de comunicação, seja para os clubes, seja para as marcas quese relacionam com ele. Outros esportes como Fórmula 1, vôlei, MMA1, estão ganhando cada vez maisespaço na mídia e conquistando novos fãs, mas o futebol se consagrou como o esportede preferência nacional, já que 90% dos brasileiros declaram atualmente torcer poralgum time de futebol, e 44% deles são considerados „‟apaixonados‟‟2. O fato de ofutebol ser popular e ter alto índice de aceitação no País não significa, porém, que elesempre foi democrático. Desse grupo de torcedores, 68% são homens, e 32%mulheres3, o que mostra que ele se consagrou como um esporte masculino também noBrasil, ainda que essa situação esteja em processo de mudança (capítulo 2). Justamente por refletir pontos tão importantes da sociedade e de identidades, epelo seu alto poder de atração e consumo, é que o futebol se torna um campo tãoexplorado por sociólogos, antropólogos, psicólogos, linguistas e diversos profissionais1 Sigla usada para se referir a artes marciais mistas2 Classificação Nielsen. NIELSEN SPORTS, 2011. Disponível em: http://br.nielsen.com/news/nielsen_sports.shtml .Acesso em: abril 20123 Idem
  22. 22. 22de mercado, o que permite a compreensão de sua rede de significados de maneiramais aprofundada.1.3. O futebol e suas significações A industrialização e o surgimento de novas classes já permitiu a compreensãode como nasce o conceito moderno do futebol (item 1.1). Para entender como ele setransforma na representação de um rígido núcleo masculino, mais uma vez recorre-sea fatores históricos e sociais, agora com foco nas sociedades democráticas. Para Franco (2007), o sucesso da democracia, ao mesmo tempo que trouxeinegáveis benefícios a setores antes excluídos da tomada de decisões, provocoutambém „‟a perda de identidades grupais que tinham sido essenciais nos séculosanteriores‟‟. A consciência de pertencer a uma determinada comunidade se dilui, pois oconceito de cidadania, por si só, prevê um certo tipo de homogeneização. Os novos recortes que surgiram eram muito maleáveis, facilmente mutáveis -partidos políticos, grupos religiosos – e não satisfaziam essa necessidade depertencimento. É nessa brecha que o futebol encontra espaço para crescer,transformando-se em metáforas desses núcleos do mundo contemporâneo, sejam elessociológicos, linguísticos, religiosos, psicológicos e antropológicos. A característica sociológica foi a mais citada até o presente momento, visto queé antigo o uso do futebol como ferramenta política de legitimação. Na segunda metadedo século XIX, tornou-se comum usá-lo para manifestar o nacionalismo,independentemente do tipo de regime que o fazia. Quem não se lembra da famosacampanha feita pelo governo militar brasileiro em 1970? A vitoriosa seleção brasileiracontava com craques como Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino, criando o momentoperfeito para mostrar o poder do País e exaltar o sentimento nacionalista, que ficoumarcado através da „‟hipnótica‟‟ canção „‟Pra Frente Brasil‟‟ („‟de repente é aquela
  23. 23. 23corrente pra frente/ parece que todo o Brasil deu a mão / todos ligados na mesmaemoção‟‟). O segundo ponto é o aspecto religioso do futebol. O fato de o clube ser algodifícil de definir, maior que seus dirigentes, jogadores e torcedores, faz com que essecaráter religioso se intensifique. Também não é rara a divinização dos elementos que ocompõe, que seriam imagens palpáveis dessa abstração. É o caso dos atletas, que sãotratados como verdadeiros deuses pela imprensa e pelos torcedores, status que émuito utilizado pelas marcas que atrelam o seu produto aos jogadores. Sobre o tema,Da Matta (1982) destaca: „‟No Brasil, o esporte é vivido como um jogo. É uma atividade que requer táticas, força, determinação psicológica e física, habilidade técnica, mas também depende das forças incontroláveis da sorte e do destino. Não deve, portanto, ser por acaso, que em certos países, o futebol está associado a um sistema nacional de loteria. No caso brasileiro, chamada a “loteria esportiva”, inteiramente relacionada ao futebol, permite atualizar todo um conjunto de valores associados ao sistema brasileiro da sorte e do azar, inclusive com o apelo mágico às entidades sobrenaturais das chamadas religiões Afro- Brasileiras (como a Umbanda) e do Catolicismo popular. (DAMATTA, 1982, p.30)‟‟ Tal caráter fica ainda mais evidente quando se analisa junto a metáforalinguística no futebol. Os jogadores viram „‟ídolos‟‟, a camisa do time „‟manto sagrado‟‟,os gols ilógicos são „‟espíritas‟‟, as defesas difíceis „‟milagrosas‟‟, e assim por diante. Enão é só a religiosidade que se manifesta através da linguagem. A terminologia bélicatambém está presente, quando as partidas são chamadas de „‟batalhas‟‟ ou osjogadores de „‟guerreiros‟‟. Para expandir a análise linguística, não se pode deixar de citar que esse é maisum campo onde fica clara a apropriação do futebol como território exclusivo do gêneromasculino. Termos como „‟entrar de salto‟‟, „‟jogar como mulherzinha‟‟, „‟jogar igual auma moça‟‟, entre outros que ficaram no imaginário coletivo e contribuem para que amulher e o futebol sejam vistos como elementos opostos.
  24. 24. 24 As construções das metáforas psicológicas e antropológicas ajudam a reforçaresse imaginário masculino. Vale observar que muitos desses aspectos podem serincorporados também do cotidiano feminino – como no caso de termos religiosos -mas aqui se pretende analisar como estes foram incorporados pela classe dominantemasculina da época, e as metáforas sexistas tornam a análise ainda mais clara. O futebol recupera tanto o sentimento referente ao grupo, quanto a identidadedo homem, ajudando-o a reconstruir valores identitários presentes na época de clãs etribos. Sobre isso, Arthur Brittan (1989), em Masculinity and Power, faz a seguinteobservação: „‟A imagem mais popular da masculinidade na consciência de todos os dias é aquela do homem-herói, do caçador, do competidor, do conquistador. (..) Em certo sentido, a crença no homem-caçador ou no herói não parece ter nenhum fundamento no mundo quotidiano onde vivem a maioria dos homens. Os homens têm pouquíssimas ocasiões de serem heróis, a não ser como passatempo ou nos esportes. O homem-caçador foi transformado em o „homem-sustentáculo‟ da família. As chances de heroísmo surgem apenas no campo do esporte, e não na floresta durante uma perseguição sem tréguas para alimentar a tribo. (BRITTAIN apud DUNNING e MAGUIRE, 1997, p.332)‟‟ Para o antropólogo Desmond Morris (apud FRANCO 2007, p.212), de fato, ofutebol se assemelharia ao mundo tribal, pois ambos suscitam sentimentos fortes eduradouros, e possuem códigos que se mostram através de pinturas corporais, cantose gritos. Já Franco (2007), prefere usar a definição de clã, pelo fato de seus torcedoresnão estarem necessariamente convivendo no mesmo território como aconteceria emuma tribo, mas espalhados. A base é territorial, mas mesmo quando ele muda deespaço, se reconhece através de brasão, nome e totem. O sentimento de torcertranscende esse indivíduo. Para ele: „‟O clã é um grupo que acredita descender de um ancestral comum, mais mítico que histórico, contudo vivo na memória coletiva. Ainda que todo clube de futebol tenha origem concreta e mais ou menos bem documentada, com o tempo ela tende a ganhar ares de lenda, que prevalece no conhecimento do
  25. 25. 25 torcedor comum sobre dados históricos. É nessa lenda, enriquecida por feitos esportivos igualmente transformados em lenda, que os membros do clã orgulhosamente se reconhecem‟‟ Qualquer que seja o aspecto observado, o fato é que se os valores masculinosgrupais ou individuais encontraram um refúgio tão valioso no futebol, era natural quefosse igualmente grande o temor de que esse núcleo também fosse atingido pelastransformações sociais. A partir desse ponto, começa-se a entender melhor um dosprincipais motivos da resistência masculina à entrada das mulheres no futebol. Durante as primeiras duas décadas do século XX, com a ocorrência deprocessos como o fechamento das fronteiras, a transformação dos locais de trabalho, ea mudança das relações familiares, os homens começaram a recear que estivesseocorrendo uma „‟feminização‟‟ da sociedade, buscando núcleos que preservassem essamasculinidade. Outra iniciativa nítida, além do futebol, foi o escotismo4, movimentocriado por Robert Baden Powell, que ensinava jovens rapazes a desenvolveremcidadania e a serem úteis e responsáveis. Certo que os valores sociais e a divisão sexual do trabalho não deixariam de sebasear em uma sociedade que Dunning e Maguire (1997) classificam como andriarcal 5mas, pouco a pouco, os papéis sociais sofriam mudanças que, de certa maneira,perturbavam a rígida ordem social masculina. Essa „‟feminização‟‟ se dá, na realidade, por diversos aspectos que dizemrespeito às outras ressignificações provenientes das mudanças sociais ocorridas naépoca. Um fator muito importante é o „‟cerceamento das normas de regulação daviolência e da agressão, do declínio, na maioria dos indivíduos, de sua tendência asentir prazer em participar de atos violentos ou de testemunhar esses atos‟‟ (DUNNINGe MAGUIRE, 1997, p.320). Trata-se literalmente, do enfraquecimento da „‟pulsão por4 Na época, as meninas também se interessaram pela atividade, e Baden Powell confiou a Agnes, sua irmã, acriação do Bandeirantismo, escrevendo um livro que ensinava como as moças poderiam contribuir para aconstrução do Império. O movimento não era bem visto por todos, razão pela qual ele ganha um nome diferentedo escotismo.5 Palavra de raízes gregas que significa ‘’dominação do macho’’, em vez de sociedade patriarcal, que significa,literalmente, a dominação do pai (ELIAS apud DUNNING E MAGUIRE, 1997, p.323)
  26. 26. 26atacar‟‟, e do surgimento de sentimentos como vergonha e a marginalização daquelesque fogem às novas regras. Com a presença de leis e normas mais severas quecondenavam manifestações de violência, mudam os comportamentos em sociedade, eo futebol se torna, então, um dos espaços onde demonstrações de violência continuamsendo aceitas, mas sob regras pré-definidas.1.4. Quando ele vira sinônimo de violência Ainda que a violência seja vista como uma característica fundamentalmentemasculina, já que ela é muitas vezes associada à virilidade, segundo Morgan eSummers (2008), essa exacerbação emocional promovida pelo esporte satisfaz umanecessidade de ambos os gêneros: „‟O consumo esportivo pode oferecer uma válvula de escape para o exercício dos instintos combativos e agressivos, permitindo a canalização e liberação de comportamentos que, de outra forma, seriam socialmente inaceitáveis (urrar, gritar com autoridades – no caso, o árbitro). O interessante é que essa válvula de escape para a agressão é apreciada tanto por homens quanto por mulheres, e o esporte apresenta um mecanismo socialmente aceitável para esse comportamento‟‟. (MORGAN e SUMMERS, 2008, p.19) Se o futebol é justamente um meio de canalizar a „‟pulsão por atacar‟‟anteriormente citada por Dunning e Maguire (1997), e se ele atende às necessidadesde ambos os sexos, onde está o problema? Está no fato que essa „‟guerra simbólica‟‟muitas vezes é construída como um campo masculino, e que ela extrapola os limites dojogo, levando a uma violência real entre torcedores ou mesmo ente jogadores dentrode campo. Esse tipo de violência, em vez de válvula de escape, é um dos maioresvilões das torcedoras mulheres no futebol, como será visto mais adiante. Os motivos que levam a esse resultado são vários, estão na linguagem, naestrutura das arenas, no campo psicológico, no tratamento dado pela mídia e nopróprio comportamento de jogadores, técnicos ou dirigentes.
  27. 27. 27 A linguagem bélica já foi citada (item 1.3.), e ao termos anteriores somam-seexpressões como „‟matar a bola‟‟, „‟matar o jogo‟‟, a referência ao jogador como„‟guerreiro‟‟, „‟matador‟‟, a designação de „‟capitão‟‟ àquele que é escolhido pararepresentar o time junto ao árbitro; todos termos usados tanto pelos torcedores quantopela imprensa formadora de opinião. Fica claro que, „‟de tempos em tempos, o jogoapresenta ambientação de claro sentido militar‟‟ (FRANCO. 2007, p.236). As torcidas organizadas também fazem uso dessas expressões militares para seautodenominar, como é o caso das Brigatte Rossonere (Milan), Dragões da Real (SãoPaulo), Máfia Azul (Cruzeiro), e Red Army (Manchester United), entre outras. Nos„‟gritos de guerra‟‟ encontram-se ainda mais formas de violência, quando se fala demaneira explícita sobre ataques, mortes, brigas e batalhas, muitas vezes direcionadosdiretamente às torcidas rivais. Já figura do técnico ganha o aspecto da figura de um comandante quando, apartir de 1922, difundiu-se o uso do banco na lateral do campo, de onde o profissionalpodia orientar os jogadores e fazer mudanças na estratégia de jogo. Alguns técnicosfizeram, inclusive, uso dessa característica, como o técnico Rubens Minelli, que disse„‟sou fascinado pelas batalhas da Segunda Guerra Mundial. (..) Faz parte da estratégiaexplorar os pontos vulneráveis do adversário e fortalecer as fragilidades que vocêtem‟‟6. Mesmo a estratégia empregada no futebol, com os conceitos de atacar edefender, a ocupação de espaços, lembra aquela que é também usada para umabatalha. Além desse caráter bélico que o futebol carrega, seja pela linguagem, sejapela sua própria essência, por vezes clânica, por vezes nacionalista, existem outrosmotivos que fazem com que o futebol seja um meio através do qual muitos gruposmanifestam a sua violência. É inegável, por exemplo, que os problemas sociais, tanto de Primeiro Mundo,quanto de Terceiro Mundo estimulem essa violência, que é extravasada também poroutros canais. Franco (2007) observa que, nos países de Terceiro Mundo, por exemplo,6 Entrevista publicada pela Revista Placar em 15/04/1988. Citado por FRANCO, 2007, p.192
  28. 28. 28ela se mostra através dos elevados índices de delinquência. Das sociedades maisautoritárias às sociedades mais democráticas, todas experimentam o mesmo fenômenoda violência. Um bom exemplo é o drama de Heysel 7, que chocou toda a Europa, eteve apontado como principal vilão o desemprego decorrente na Inglaterra no governode Margaret Tatcher. Tais acontecimentos se resumiriam, então, a expectativas efrustrações vindas à tona por meio do futebol. Dunning e Maguire (1997) concluem que: „‟É evidente que o problema deve ser tratado fora dos estádios. É um problema social simples e terrivelmente complexo: é preciso dar aos hooligans perspectivas tão excitantes quanto uma boa briga, porém socialmente aceitas. Caso se limite a expulsá-los do futebol, sua violência procurará sem dúvida se exprimir em outro lugar. Talvez de forma pior..‟‟ Para alguns estudiosos, a violência do torcedor é uma resposta às condiçõesconcretas com que o tratam. Não por acaso, de acordo com essa linha de pensamento,o hooliganismo surgiu na Inglaterra, que tinha os estádios mais antiquados da Europa.Segundo Franco (2007), uma evidência foi a diminuição dos episódios de violênciaquando as grades que separavam as arquibancadas do campo de jogo foram retiradasdos estádios ingleses. Isso fez com que diminuísse a sensação de isolamento, de quea grade era necessária pelo perigo que os hooligans representavam, o que servia comoum estímulo para a violência que era esperada deles.7 Ocorrida em 1985, no estádio de Heysel, na Bélgica, quando hooligans do Liverpool atacaram torcedores italianosda Juventus, deixando 38 mortos e inúmeros feridos (FRANCO, 2007, p.192)
  29. 29. 29 Imagem 3: torcedores do Liverpool se espremem nas grades para conseguir ver a partida do seu time contra o Nottingham Forest, em 15 de abril de 1989 Alguns clubes ingleses como o Liverpool Football Club foram ainda mais longe ese engajaram com as comunidades com a intenção de diminuir direta ou indiretamentea criminalidade como um todo, afastando a imagem do futebol do vandalismo e daviolência. O Liverpool estabeleceu um desenvolvimento comunitário e um programa derelações públicas, como parte de um projeto adotado por seis clubes da modalidade nofinal dos anos 80 (MORGAN e SUMMERS, 2008, p.81). Ídolos dos gramadosparticipavam de encontros para promover campanhas antidrogas e antifumo;estudantes que tivessem melhorado sua frequência nas aulas ganhavam adesivo ecertificado do clube, a alguns eram convidados a ir ao clube para uma apresentação. No Brasil, os episódios de violência parecem estar, no geral, intimamenteligados às torcidas organizadas. E não só por indivíduos que tenham antecedentescriminais, mas também com a participação de uma parcela significativa de cidadãoscomuns. Dentro desses grupos existe uma ordem, com hierarquia, e sentimento desolidariedade aos companheiros. De acordo com um estudo recente, publicado pelaUniversidade de São Paulo8, foram registradas 133 mortes de torcedores no Brasil nos8 Reportagem Site Portal de Notícias R7, maio 2012 Disponível em: http://videos.r7.com/violencia-entre-torcidas-causa-seis-mortes-por-ano-no-brasil/idmedia/4fba988ee4b076d29bdfc28f.html Acesso em:maio 2012
  30. 30. 30últimos 20 anos, sendo que só em 2011 foram 20 registros de assassinatoscomprovados dentro do universo das torcidas. As vítimas geralmente são homensjovens, com uma média de 23 anos, e muitas dessas brigas são anunciadas nas redessociais, para que os participantes cheguem ao local preparados para a luta. Uma das maneiras de combater essa violência de dentro dos estádios foi o vetoàs bandeiras com mastros e à venda de bebidas alcoólicas, vidros e latas 9, elementosque podem contribuir para manifestações violentas e que podem ser usados comoarmas no caso de brigas, como aconteceu na década de 90 em jogos entre paulistas. Imagem 4: briga entre torcedores do Palmeiras e do São Paulo no estádio, que terminou com um torcedor são-paulino morto em campo, ocorrida em 1995 Outro aspecto analisado para elucidar o fenômeno é a perda do efeitotranquilizante do grupo, dos ritos sociais e do mito nas sociedades ocidentaiscontemporâneas. A falta de pertencimento leva à angústia, e ao mesmo tempo que abusca por coisas mais restritas e concretas (que muitas vezes resultam em grupos9 GARCIA, Natalia. Alckmin explica veto à volta das bandeiras com mastros aos estádios de SP. In: SiteEstadão, outubro de 2011. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,alckmin-explica-veto-a-volta-das-bandeiras-com-mastro-aos-estadios-de-sp,784888,0.htm Acesso em: maio 2012
  31. 31. 31extremistas) ajuda a recuperar esse sentimento, também pode levar o indivíduo apraticar exageros em nome dela. O psicólogo francês Gustave Le Bon (apud FRANCO 2007, p.330) ainda falasobre a energia psíquica despendida na tarefa de torcer para um time. Esse fenômenoé chamado de contágio, e pode ocorrer tanto de forma horizontal (entre torcedores),quanto de forma vertical (entre torcedores e jogadores). Ambas iniciam a reação emcadeia que desperta uma agressividade inerente ao ser humano, manifestada atravésdo futebol. Manifestações como cantos, vaias, ofensas e aplausos surgem em várioslocais do estádio, e passam a ser seguidas ou contestadas pelos outros torcedores. O efeito da multidão se torna perigoso, pois, nessa alma coletiva, o conceito deindividualidade se dilui e ações por impulso prevalecem. Ao se sentirem protegidospela imensa multidão, cresce também o conceito de impunidade, o que permite queessa violência inerente seja externalizada pelos torcedores. Ainda que, como foi dito no início deste item, o instinto combativo e agressivo doesporte seja apreciado por homens e mulheres, todas essas formas de manifestaçõesviolentas que extrapolam a atividade esportiva em si são atribuídas quase queexclusivamente ao gênero masculino. A figura feminina no esporte – sobretudo como espectadora – é colocada nocampo oposto da violência, sendo vista como um elemento que contribui para a paznas arenas. Uma prova disso foi a ação inédita adotada pelo clube de futebol turco,Fenerbahçe, em setembro de 2011. Depois de uma invasão de campo ocorrida duranteum amistoso com o rival Shaktar Donetsk, o clube recebeu como punição daFederação do país excluir homens da torcida na partida contra a equipe doManisaspor, pelo campeonato turco, com o objetivo de acabar com a violência. Asolução encontrada pelo clube foi distribuir mais de 40 mil ingressos para mulheres ecrianças menores de 12 anos, que lotaram o estádio Sukru Saracoglu. O resultado
  32. 32. 32repercutiu em todo o mundo e a Federação de Futebol Turca explicou que o objetivo dadecisão era „‟recordar aos torcedores a beleza e os valores do futebol‟‟10. Imagem 5: mais de 40.000 mulheres e crianças lotam o estádio turco de Sukru Saracoglu, em setembro de 2011. A ação fez tanto sucesso que o clube holandês Ajax, solicitou à FederaçãoHolandesa de Futebol (KNVB), que considerasse a possibilidade de tal medida seradotada na Amsterdam Arena, após receber punição por um torcedor ter invadido ogramado e agredido o goleiro do time visitante. Por último, é curioso perceber que essa externalização da violência independeda vitória ou da derrota. Franco (2007) afirma que „‟a embriaguez da vitória provoca asensação de poderio e erosão das normas morais e sociais‟‟; como pode serobservado, por exemplo, pelas depredações promovidas pelos torcedores são-paulinosna avenida Paulista depois da conquista do tricampeonato da Copa Libertadores daAmérica, em julho de 2005. Justamente pelo fato de a violência se manifestar por motivos distintos nofutebol que ela exige uma atenção especial das organizações esportivas. Uma dassaídas discutidas frequentemente por profissionais que trabalham com a modalidade é10 REUTERS. Entrada para homens é proibida em partida do Fenerbahçe. In: Site Esporte Terra, setembro de 2011.Disponível em: http://esportes.terra.com.br/futebol/europeu/2012/noticias/0,,OI5361771-EI18001,00-Entrada+de+homens+e+proibida+em+partida+do+Fenerbahce.html Acesso em: maio 2012
  33. 33. 33trazer a figura feminina para o espetáculo, que ajuda a transformar o futebol em umprograma democrático e familiar, uma vez que com a mulher aumenta também aparticipação de crianças e jovens, coibindo manifestações violentas.
  34. 34. 342. As mulheres entram em campo2.1. Elas como praticantes Nas últimas décadas, tem-se observado o aumento da participação da mulherem diversos territórios que eram antes considerados masculinos, como a política, otrabalho, e o espaço esportivo. Para iniciar a discussão especificamente sobre a inserção da mulher nesteúltimo espaço e a sua relação especificamente com o futebol, parte-se do pressupostode que todas as frentes de atuação no esporte estão interligadas, no sentido de queelas fortalecem a imagem feminina dentro desse universo como um todo. Isso porque amulher entra no território do esporte de diversas maneiras: como praticante diletante ouatleta profissional, torcedora e profissional de gestão, de comunicação, ou comoárbitra, gandula, bandeirinha e técnica. Imagina-se, por exemplo, que ao ver a presença de mulheres repórteres dentrode campo ou mesmo liderando mesas redondas, as torcedoras potenciais se sintammais à vontade para ingressar nesse espaço, ou que o fato de ver tantas torcedorasabrindo espaço no esporte, estimule-as não só a torcer, mas também a trabalhar comfutebol, e assim por diante. Quando se fala da história da mulher dentro do esporte edo futebol, portanto, é necessário cruzar esses diversos momentos e espaços nosquais ela aparece e tenta legitimar a sua presença. A isso, somam-se as constantesmudanças no papel da mulher e do homem na sociedade, que reconfiguraram aparticipação dos dois sexos em diversos territórios. Dunning e Maguire (1997) ressaltam que a maioria das mulheres sempre tendeua aceitar a „‟definição hegemônica do esporte‟‟, vendo-o como uma área reservadamasculina, mas que um conjunto de mudanças sociais na época contribuiu para queessa situação mudasse:
  35. 35. 35 „‟ [...] em contrapartida, o deslocamento da balança de poder entre os sexos, se bem que longe de ser significativo, prosseguiu depois do impulso inicial dados 11 pelas sufragettes , ao mesmo tempo que todo um conjunto de processos, voluntários ou não, e foi nitidamente suficiente para que os homens não conseguissem impedir as mulheres de entrar em grande número na sua fortaleza masculina. (DUNNING e MAGUIRE, 1997, p.341)‟‟ Além de acontecimentos políticos, uma série de fatores ligados à modernizaçãotambém contribuiu para que as mulheres pudessem iniciar a prática esportiva. Umadvento importante foi o movimento pelo vestuário racional, iniciado na Europa em1880 com defensores como Oscar Wilde e com registros em 1918 no Brasil; omovimento propunha uma discussão sobre a apropriação das peças de roupa parahomens e mulheres, que na época usavam ternos ou espartilhos pouco confortáveis. Ouso de roupas mais cômodas para a prática esportiva foi uma das inovações trazidaspelo movimento, sobretudo com o surgimento do vestido bifurcado para as moçasciclistas, chamados bloomers12. Com o uso de roupas menos restritivas, a mulher pôdeter uma liberdade maior e se envolver mais com atividades esportivas. Vale lembrar que em algumas sociedades as restrições no vestuário para amulher ainda existem, até mesmo na prática esportiva, pois as leis prevalecem sobre atecnologia e o conforto. É o caso do Irã, país no qual as mulheres são obrigadas apraticar esportes cobrindo o corpo com uniformes de mangas longas, meias altas, eusando o hijab, véu que cobre o cabelo, o pescoço e as orelhas. No ano de 2011, o véu islâmico chegou a ser proibido pela FIFA, alegando faltade segurança (caso ele fosse puxado, poderia machucar alguma jogadora), e asiranianas não puderam participar da partida contra a Jôrdania para a qualificação dasOlimpíadas de 201213.11 Militantes que reclamavam o direito de votar para as mulheres (DUNNING e MAGUIRE 1997, p.341)12 ALVES, Letícia de Almeida. Os termos da moda. In: Site UOL. Revista Leituras da História. Disponível em:http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/5/artigo72303-5.asp Acesso em: abril 201213 Globo Esporte, junho de 2011. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2011/06/selecao-feminina-do-ira-e-impedida-de-jogar-por-usar-veus-islamicos.html Acessoem: abril 2012
  36. 36. 36 Imagem 6: jogadoras iranianas choram após terem jogo cancelado na Jordânia, por se recusarem a jogar sem o hijab, em 2011 Além do vestuário, segundo Dunning e Maguire (1997), outros fatoresimportantes para ampliar a participação da mulher no esporte foram o surgimento detampões, métodos para controlar a gravidez, mamadeira (para encurtar o período deamamentação), progressos domésticos que derrubaram barreiras como menstruação,gravidez e amamentação, que antes definiam „‟o papel da mulher como procriadora‟‟. Acredita-se que o primeiro envolvimento das mulheres com o futebol tenha sidono século XII, quando as mulheres francesas começaram a participar do „‟Futebol dopovo‟‟14. A primeira equipe feminina oficial de futebol no mundo surge, porém, naInglaterra, em 1894, quando nasce o Net Rolibol. Pouco mais de uma década depois,em 1910, já existiam equipes femininas francesas como o Rouge Esportive e FeminineEsporte, ambas criadas em Paris. De acordo com Franco (2007), o que fez com que o futebol femininodeslanchasse foi a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando milhares de homensforam lutar nas trincheiras. Porém, ainda segundo o autor, „‟o futebol não conseguirialutar contra o progressivo restabelecimento da ordem‟‟ e, pouco tempo depois, em1921, a Federação Inglesa de Futebol proibiu a prática de futebol por parte dasmulheres em seus campos, publicando uma clara resolução a respeito do assunto, naqual diziam que „‟O Conselho se vê na obrigação de afirmar que o futebol não é jogo14 EÇA, João. História do futebol feminino no mundo, julho de 2009. In: Site Baianíssimo. Disponível em:http://www.baianissimo.com.br/sites/mulheresemcampo/noticia.aspx?nid=58 Acesso em: abril 2012
  37. 37. 37para mulheres (..) e convida os clubes membros da Football Association a não cederseus campos para partidas femininas‟‟. A Federação Francesa, anos depois, adotou a mesma postura que os ingleses.As mulheres ainda podiam ser vistas jogando algumas partidas com a intenção deconquistarem fundos para caridade, pois isso atraía o público, mas com tantasrestrições, o futebol feminino entraria em declínio, e a retomada só aconteceria anosdepois. As federações ainda contavam com amplo apoio popular e o preconceito doshomens e até mesmo de outras mulheres impunham uma série de restrições para aprática feminina de esporte. Naquela época, as atividades físicas consideradasadequadas para as mulheres eram somente aquelas que não iam contra a suanatureza frágil e delicada, e que tinham como princípio básico a manutenção da saúdee a prevenção de doenças do aparelho reprodutivo, como também o embelezamentodo corpo feminino (GOELLNER apud CAMPOS, 2010, p.24). Modalidades como futebol, boxe e rugby, então, não poderiam fazer dessegrupo de modalidades permitidas às mulheres, já que, nelas, os chamados „‟desportosde confronto‟‟ (DUNNING apud CAMPOS 2010, p.7), a agressão e a violência eram oelemento central, ainda que não de forma explícita (item 1.2). Para aquelas que ainda assim ousavam enfrentar essa barreira e se aventurarnos esportes destinados exclusivamente aos homens, restavam às duras críticas,vindas de homens e mulheres, muitas vezes divulgadas e apoiadas pela imprensa. Foi após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que o futebol feminino voltoua se fortalecer, ainda que não tivesse encontrando apoio social. Em 1951, a FIFA serecusou a cuidar dele, alegando que essa era „‟uma questão de biologia e de educaçãoque deve ser deixada a médicos e professores‟‟. (FRANCO, 2007, p.203) E foi somenteduas décadas mais tarde, no início de 1970, que as federações da AlemanhaOcidental, Inglaterra e França suspenderam o veto à prática do futebol feminino. Em1971 ainda foi realizada uma Copa de Futebol Feminino (não reconhecida pela FIFA)no México, vencida por 3x0 pela seleção dinamarquesa, que disputou a final contra o
  38. 38. 38time mexicano, com a presença de 100 mil espectadores15. A FIFA ainda demoroumais de uma década e, em 1988, finalmente aceitou organizar um torneio internacionalfeminino na China, o mesmo país que, três anos mais tarde, em 1991, iria sediar aprimeira Copa do Mundo feminina. Atualmente, a FIFA tem como uma de suas missões o desenvolvimento não sódo futebol feminino, mas também de aumentar a participação da mulher no futebolcomo um todo, ocupando cargos técnicos e executivos, como se pode observar dotrecho extraído da sua missão16: „‟[...] compromete a prestar apoio financeiro ao esporte, dando a jogadoras, treinadoras, árbitras e assistentes a oportunidade de participarem mais ativamente do futebol. A FIFA contribui para a popularização do esporte através de campanhas que informam e conscientizam o público e ajudam a derrubar barreiras sociais e culturais a fim de melhorar a posição das mulheres na sociedade.‟‟ Hoje, estima-se que existam 29 milhões17 de mulheres jogando futebol ao redordo mundo, número muito menor se comparado aos homens, mas que também cresceem uma velocidade muito maior do que o futebol masculino, que já se encontraconsolidado. Vale ressaltar que existem diferenças culturais entre alguns países quando sefala do desenvolvimento do esporte. Nos Estados Unidos, por exemplo, asmodalidades que ficaram configuradas como territórios masculinos e se tornarampopulares entre homens foram o futebol americano e o beisebol, portanto, a entrada noterritório do futebol por parte das mulheres e a sua relação com o futebol é bemdiferente do que na maioria dos outros países, e isso, evidentemente, refletiu-se naestrutura que o país tem atualmente para a prática do futebol feminino.15 Idem ao 316 FIFA. Live your goals. Disponível em:http://www.fifa.com/womensworldcup/liveyourgoals/aboutthecampaign/index.html Acesso em: abril 201217 FIFA. O jogo feminino. Disponível em:http://pt.fifa.com/aboutfifa/footballdevelopment/technicalsupport/women/mission.html Acesso em: abril 2012
  39. 39. 392.2. As praticantes brasileiras O surgimento do futebol feminino no Brasil apresenta controvérsias em suahistória que fazem com que datas oficiais tenham diferenças até mesmo de mais de umséculo. De acordo com Lessa (2003), o que ficou registrado como o primeiro jogo entremulheres, em 1913, foi, na verdade, uma partida entre homens do Americanotravestidos de mulher e senhoritas da sociedade, em evento beneficente visando àconstrução de um hospital da Cruz Vermelha para crianças. A partida atraiu grandepúblico divulgando nos jornais uma nota dizendo que „‟as mulheres podem até jogarfutebol‟‟, mas tudo não passou de uma brincadeira para promover o evento. Uma outra partida que ficou conhecida e foi divulgada pelo jornal A Gazeta,dessa vez só com a participação das moças, foi a partida entre os bairros de Cantareirae Tremembé, realizada em 1921, e que foi citada como uma „‟atração curiosa‟‟, quandonão „‟cômica‟‟18. Assim como no exterior, o esporte no Brasil começa a se difundir como um bominstrumento de formação dos jovens, que mostrava saúde, disciplina e modernidade(sobretudo no período higienista) e, para as mulheres, ficavam reservados os esportesque as permitissem manter a sua feminilidade intacta, portanto, esportes que fossemassociados a contato ou violência não poderiam fazer parte dessas opções. Formava-se, a partir dessa ideia, a resistência contra o futebol feminino, comose pode ver pela publicação do escritor Coelho Neto em 192619 :18 SUGIMOTO, Luiz. Site Jornal da Unicamp. Edição 211, maio de 2003. Disponível em:http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2003/ju211pg12.html Acesso em: abril 201219 A História do Futebol Feminino no Brasil. Site Literatura na Arquibancada, fevereiro de 2012. Disponível em:http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/02/historia-do-futebol-feminino-no-brasil.html Acesso em: abril2012
  40. 40. 40 “Certamente ninguém exigirá da mulher que jogue o football ou o rugby, que esmurre antagonistas com o guante de boxe, que arremesse barras de ferro, que se engalfinhe em luta romana. Há exercícios que lhe não são próprios e que lhe seriam prejudiciais, não só à beleza como à saúde e até a sujeitariam ao ridículo”. Tudo isso, porém, não fazia com que o futebol feminino inexistisse, e, na décadade 40, eram organizados torneios de futebol feminino e exibições de gala das mulherescariocas, tema que continuava sendo discutindo por diversas esferas de profissionaisque, na grande maioria das vezes, se posicionava contra essa prática. A dimensão dessa questão assumia proporções que incluíram atitudes comoapelo a governantes, quando um cidadão enviou uma carta a Getúlio Vargas pedindoque ele acabasse com esse „‟movimento entusiasta‟‟20: „‟[Venho] Solicitar a clarividente atenção de V.Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. Refiro- me, Snr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de môças, atraíndo-as para se transformarem em jogadoras de futebol, sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar êsse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispoz a ser mãe... Ao que dizem os jornais, no Rio, já estão formados, nada menos de dez quadros femininos. Em S. Paulo e Belo Horizonte também já estão constituindo-se outros. E, neste crescendo, dentro de um ano, é provável que, em todo o Brasil, estejam organisados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes. (José Fuzeira, em carta datada de 25/04/1940 e repercutida pela imprensa )’’ Na década de 50 nasce o primeiro time brasileiro exclusivamente femininochamado Araguari Atlético Clube, que possuía também um time masculino criado em1944. Tudo por causa de uma iniciativa da diretora da escola Visconde de Ouro Preto,Isolina França Soares, que propôs ao diretor do clube, Ney Montes, de fazer umapartida de futebol beneficente contra os seus maiores rivais, o Fluminense FutebolClube, para arrecadar dinheiro para a instituição de ensino. O diretor alegou que oclube não estava muito bem e que uma ideia melhor seria chamar as estudantes efazer uma partida diferente, com jogadoras mulheres.20 Idem ao 8
  41. 41. 41 A notícia correu e 45 moças se apresentaram para jogar. Os times ganharamversão feminina, e em 1958, entraram em campo o Araguari e o Fluminense. O jogo foium sucesso de público, e logo surgiu um convite para uma partida na cidade deUberlândia. Conta-se que a partida foi um sucesso tão grande que atraiu mais públicodo que um amistoso disputado entre o Uberlândia e o Botafogo dos craques Garrinchae Didi, com superlotação do estádio. O feito ganhou as páginas da revista o Cruzeiro,de 28 de fevereiro de 1959, que falou do „‟pó-de arroz‟‟ e dos „‟cabelos bonitos‟‟ dasjogadoras, mas também das „‟botinadas‟‟, das quais não escapava „‟nem mesmo ojuiz‟‟.21 Imagem 7: Goleira do Araguari Atlético Clube entra em campo para jogar contra o Fluminense, em 1958 Apesar do aparente sucesso, novamente aumentaram as pressões e asdemonstrações de resistência, como a publicada pelo ex-futebolista Antonio CarlosNogueira, o Leivinha, para quem a primeira partida de futebol feminino em São João daBoa Vista, em 1952, mereceu excomunhão da Igreja22.21 Reportagem Bom dia Brasil. Conheça quem foram as mulheres pioneiras no futebol. Site Globo, março de 2011.Disponível em: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/03/conheca-mulheres-brasileiras-que-foram-pioneiras-no-futebol.html Acesso em: março 201122 SUGIMOTO, Luiz. Site Jornal da Unicamp. Edição 211, maio de 2003. Disponível em:http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2003/ju211pg12.html Acesso em: abril 2012
  42. 42. 42 Os times sobreviveram menos de um ano à pressão, quando o diretor NeyMontes recebeu uma notificação dizendo que a prática era proibida, pois a lei 31.199de 14 abril de 1941 „‟proíbe as mulheres brasileiras de praticarem esportesincompatíveis com as condições de sua natureza. Futebol, futebol de salão,halterofilismo e beisebol.‟‟ O decreto lei valeu até 1979, e somente em 1981 foi criada a primeira liga defutebol feminina no Rio de Janeiro, mesma época na qual empresas e mídia começama se interessar pelo futebol feminino brasileiro, ajudando-o a reiniciar esse processo dedivulgação e popularização. Dois nomes importantes que surgiram nesse contextoforam o Radar F.C., equipe carioca, e o Saad. Atualmente o futebol feminino brasileiro se destaca no cenário internacional eocupa a 5ª. posição no ranking da FIFA23, mas nacionalmente sofre com a escassez derecursos e oportunidades, já que são baixos os números de campeonatos femininosnacionais, e muitas jogadoras partem para jogar futebol em clubes do exterior.2.3. Elas como profissionais Outros campos de atuação dentro do universo do esporte são referentes aoscargos técnicos e executivos, como é o trabalho desempenhado pelas árbitras,bandeirinhas, gandulas e técnicas, além de mulheres que trabalham com o produtofutebol, ou seja, jornalistas, ou gestoras em clubes e organizações ligadas ao futebol. No campo do jornalismo esportivo, uma das referências é Regiane Ritter, quetrabalhou por 15 anos como repórter de rádio, quando as entrevistas pós-jogos eramfeitas diretamente nos vestiários, ambiente que poderia não parecer adequado parareceber mulheres. Naquela época, existiam 8 jornalistas credenciadas, enquanto hojeesse número subiu para 90.23 FIFA. Ranking Mundial Feminino da FIFA. Atualizado em junho de 2012. Disponível em:http://pt.fifa.com/worldranking/rankingtable/women/index.html Acesso em: junho 2012
  43. 43. 43 De lá pra cá, centenas de outras mulheres se interessaram pela profissão, ehoje não só realizam entrevistas em campo, como participam e até mesmo comandammesas redondas, ou tem programas exclusivos com mulheres, como é o caso do Belasna Rede, criado pela Rede TV!. Outra iniciativa inovadora, desta vez da Rádio Globo, será a de realizar umreality show que selecionará a primeira narradora oficial de futebol no País, uma mulherque ganhará como primeira missão transmitir os jogos da Copa do Mundo de 2014. Oprograma „‟Reality Locutoras‟‟ mostrará, através hotsite e da própria Rádio, odesenvolvimento das participantes durante aulas e treinamentos dados porcomunicadores. No campo da arbitragem, foi uma brasileira que conquistou um importante títulono comando no futebol, considerada a primeira árbitra profissional de futebol nomundo. Léa Campos foi estudante de jornalismo, se apaixonou pelo futebol e chegou afalar com o presidente Emílio Garrastazu Médici, em 1972, para pedir a intervenção domandatário para que pudesse exercer a profissão. O Brasil tem mais de vinte mulheresque exercem essa profissão hoje, além de bandeirinhas e assistentes. Recentemente, foram as personagens que ficam na beira do gramado queganharam atenção: as gandulas. Isso porque a jogada que gerou o primeiro gol davitória do Botafogo na partida contra o Vasco, pela final da Taça Rio, começou a partirde uma reposição de bola rápida feita pela gandula Fernanda Maia, de 23 anos, sendotrês como gandula. Fernanda ganhou destaque em inúmeros programas de televisão,revistas e jornais, tanto pela eficiência em campo quanto pela beleza, e com isso fezcom que a atenção fosse voltada para o trabalho das gandulas mulheres no estádios.Várias outras gandulas participaram da final dos estaduais, sendo que na final doGauchão, entre Caxias do Sul e Internacional, foram escaladas oito mulheres paraajudar na partida, após confusão na partida anterior com gandulas homens.
  44. 44. 44 Imagem 8: gandulas mulheres são escaladas para participarem da final dos Estaduais de 2012 Se as atividades citadas acima ainda são desempenhadas por um baixo númerode mulheres, na alta gestão ela só poderia ser menor. Ainda de acordo com areportagem do programa Bom dia Brasil, a pioneira no Brasil foi Marlene Matheus,primeira mulher a se tornar presidente de um clube de futebol, o S. C. CorinthiansPaulista quando, em 1991, apoiada pelo marido (Vicente Matheus, ex-presidente damesma equipe), foi eleita e exerceu um mandato de dois anos. Marlene se envolveutambém com outras áreas do clube, e em 2008 exerceu o cargo de vice-presidentesocial durante a gestão de Andres Sanchez. Atualmente, outro grande clube brasileiro possui uma mulher no lugar mais altode sua gestão. A carioca Patrícia Amorim, ex-nadadora e vereadora, foi eleita, em2009, a primeira mulher presidente do Clube de Regatas do Flamengo. Apesar do reconhecimento, ambas apontam a existência de discriminação porparte de colegas de profissão e torcedores. No exterior, a situação não é muitodiferente. Em abril de 2012 foi veiculado um documentário produzido pela BBCbritânica entitulado „’Sexism in Football’24’. Nele, a apresentadora da BBC Sports,Gabby Logan, mostra diversos casos de sexismo no futebol, e debate a questão commulheres que trabalham no futebol britânico.24 BBC Londres. Sexism in Football, abril de 2012. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=rUxYiXuX5hcAcesso em: abril 2012
  45. 45. 45 O documentário parte do polêmico caso envolvendo dois jornalistas esportivos, oex-jogador Andy Gray e o narrador Richard Keys, que perderam seus empregos na SkySports (Andy foi demitido e Richard renunciou ao cargo) após os microfones teremcapturado comentários discriminatórios sobre a bandeirinha Sian Massey,questionando se ela seria capaz de entender a regra do impedimento. Eles aindadebocharam da dirigente Karren Brady por ter falado sobre sexismo no futebol, e umacaptura das câmeras no intervalo do programa esportivo que apresentavam, na qualconstrangeram uma repórter que dividia a cena com eles, ao fazerem comentários emtom sexual. Também é apresentada a associação „‟Women in football‟‟, formada pormulheres que trabalham com futebol e que se reúnem periodicamente para discutirquestões ligadas à profissão e ao sexismo existente. Dela, participam profissionaiscomo Jacqui Oatley, primeira locutora inglesa de futebol, e Karren Brady, que assumiuo posto de diretora do Birmingham City Football Club aos 23 anos (atualmente é vice-presidente do West Ham United). Todas contam, durante o documentário, casos dediscriminação explícita e até mesmo de assédio sexual. Atualmente, existem mulheres também presidindo grandes clubes europeus,como é o caso de Gisele Oeri no suíço Basel, Francesca Menarini na equipe italiana doBologna, e Rosela Sensi na também italiana A. S. Roma. Além dos clubes, a profissionalização do futebol e outras modalidadespossibilitou o surgimento de inúmeras empresas que trabalham especificamente commarketing e comunicação esportivas, onde também se encontram mulheresespecialistas no assunto. A existência de diversos campos de atuação, somadas a escassez de pesquisasna área, faz com que não seja possível estimar o número de mulheres que trabalhamcom futebol ou esporte nas áreas citadas anteriormente, mas aqui também se observao crescimento da sua participação.
  46. 46. 462.4. Elas como torcedoras A aparição mais bem aceita e constante da figura feminina no futebol é comoespectadora. Lançado como um esporte de elite, era comum ver as moças da altasociedade acompanhando as partidas nos estádios em meados de 1920. Em um Brasilque ansiava por modernização e se espelhava no modelo e hábitos europeus (item1.3), poder ver partidas de futebol trazia prestígio e um pouco desse sentimento demodernidade. Além disso, a presença feminina nos estádios trazia elegância, tranquilidade ebeleza, transformando as senhoritas em um elemento ativo na consolidação do esportecomo um evento social moderno e exclusivo das classes mais abastadas, e,consequentemente, distante das classes mais populares (COSTA, 2006, p.4). Imagem 9: senhoritas da alta sociedade acompanham partida no ABC Paulista, na década de 20 Todos esse „‟benefícios‟‟ eram amplamente destacados pela imprensa, comomostra este trecho de um dos jornais da época: „‟(..) presença assídua nasarquibancadas durante os campeonatos, as gentis ‘demoseilles’ aumentavam o
  47. 47. 47brilhantismo da festa e davam nota alegre ao certamên, torcendo ativamente e fazendodos sporstmen seus ídolos maiores‟‟ (PEREIRA apud CAMPOS 2010, p.27). Os sportsmen se tornam, nesse contexto, mais do que ídolos esportivos paraelas, transformando-se em objeto de admiração e de desejo das senhoritas quefrequentavam as partidas. Com a introdução do futebol nas cidades, o ideal de belezamasculino muda, passando de homens magros e intelectuais, para homens fortes eatléticos. A poetisa e tradutora carioca Ana Amélia de Mendonça demonstra issopublicamente em seu poema „‟O Salto‟‟, quando fala apaixonadamente do goleiroMarcos Carneiro de Mendonça, com quem se casou em 1917 (COSTA, 2006, p.8).Uma outra demonstração dessa admiração de Ana pode ser vista também através dapublicação da revista Foot-ball, com uma crônica intitulada „’Foot-ball e o amor‟‟, quecontinha trechos de uma carta dela para o atleta, na qual o compara a um deus grego: „‟[..] Tens o porte viril de um guerreiro de Atenas/ Tens a nobreza e o ardor dos moços de outra idade/ Dos atletas e heróis entrando nas arenas/ Tens a bela estatura e altiva majestade/ Que belo vencedor de algum torneio atlético/ Que Pindaro cantou nos fortes epinícios/ Eu te encontrei de pé, com porte airoso e estético [..] (FERNANDEZ, 2010, p.70)‟‟ Ainda que a admiração estivesse centrada nos esportistas, no estádio assenhoritas ainda tinham a oportunidade de flertar e encontrar um par romântico naprópria arquibancada, cheia de moços jovens da alta sociedade. Assistir as partidas de remo ou de futebol era, portanto, uma ótima oportunidadede socialização, e também de sair do espaço restrito da casa para estar mais próximados ideais modernos de feminilidade, e frequentar o ambiente público que era antesdestinado exclusivamente aos homens. (COSTA, 2006, p.4). Apesar dessa condição bem aceita de torcedora ter um caráter mais passivodentro do universo do esporte, começavam a surgir diferentes iniciativas quefortaleciam ou exacerbavam a presença da mulher nesse território. O papel da própriapoetisa Ana Amélia de Mendonça ia muito além de falar da sua admiração pelo marido.Ao voltar da Europa, aos 13 anos, trouxe consigo livros de poesia e também bolas de
  48. 48. 48futebol, sendo uma grande incentivadora do esporte no país. Chegou jogar futebol, atreinar os operários da fábrica de seu pai e a escrever sobre o assunto. Isso mostraque a mulher buscava, nessa época, legitimação e liberdade sob diversos aspectos.Ana Amélia é uma importante figura nesse contexto pois trabalhou em várias frentespara promover essa mudança, chegando a ser vice-presidente da Federação Brasileirapelo Progresso Feminino, fundada por Bertha Lutz em 1922, e a participar de inúmeroscongressos e eventos que abordavam o tema. A mulher brasileira começa, na década de 20, uma busca pela inserção noespaço público e pelo reconhecimento de direitos nos âmbitos trabalhistas, jurídicos epolíticos, mas segundo Moura (apud CAMPOS 2010, p.27), no I Congresso FemininoBrasileiro em 1922, por exemplo, não foi encontrada nenhuma referência a respeito dolazer das mulheres. Mesmo não sendo tema central das primeiras movimentaçõesfeministas, já existiam nessa época iniciativas para participar do universo do esporteem diversas outras frentes. A mulher torcedora, ainda que sofra atualmente dificuldade na legitimação comotorcedora (item 2.4), foi sempre a presença mais bem aceita e valorizada nos estádios,pois como destaca Brasão (apud CAMPOS, 2010, p.26), „‟contribuir para aexacerbação emocional do jogo é um campo do qual as mulheres nunca foramdispensadas‟‟. Elas trazem não só graça e beleza às arenas, mas também ajudam afazer com que o ambiente seja mais leve, seguro e bem estruturado, visto quesegurança e infraestrutura são dois pontos determinantes para sua participação. A partir da década de 60, porém, acontece o movimento contrário. Os estádioscomeçam a se popularizar e a mulher passa a se enxergar distante dele. De acordocom Toledo (apud CAMPOS, 2010, p.32) no final dos anos 60 e início dos anos 70,nasce uma nova forma de torcer, a das torcidas organizadas 25. Elas são instituiçõesautônomas aos clubes e se manifestam reivindicando resultados e qualidade dosprofissionais que representam a sua equipe, seja em jogos ou em treinos. São25 As primeiras organizadas foram a Torcida Uniformizada do São Paulo e a Charanga Rubro-Negra, do Flamengo, criadas em1939 e 1941, respectivamente. A diferença estava no modo de torcer. O modelo citado no texto, e que se desenvolveu no final dosanos 60, era mais próximo ao modelo que conhecemos atualmente, que tem o papel não só de incentivar, mas também de cobrar oclube
  49. 49. 49formadas, na sua maioria, por jovens que realizam, por meio dela, a sua sociabilidadecom gestos, ações e atitudes muitas vezes reprováveis pelos domínios públicos. Essaforma de torcer ganhou adeptos provenientes, sobretudo, das camadas maispopulares. Ainda que parecesse improvável, uma dessas torcidas teve uma representantemulher, a primeira no comando de uma organizada. Foi a TOV, torcida do Vasco, quede 1956 a 1976 teve como presidente a torcedora Dulce Rosalina, e que depois fundoua Renovascão, a qual participou até o seu falecimento em 2004. As torcidas organizadas, no geral, demoraram a incorporar mulheres e, emalguns casos, até prescrevem normas de conduta para as meninas filiadas. SegundoCosta (2006), alguns membros das organizadas costumam justificar a escassapresença feminina „‟por conta do temperamento das mulheres pouco afeito à união econstantemente inclinado a promover desavenças internas nos grupos dos quais fazemparte‟‟ (COSTA, 2006, p.6). Ao mesmo tempo que a mulher se afastava ou era afastada do futebol, apopularização do esporte faria com que ele ganhasse maior destaque na mídia, que apartir desse fenômeno viu uma grande chance de criar essa necessidade e hábito nostorcedores de acompanharem o mundo da bola no seu cotidiano. A classe proletária,segundo Caldas (1990) „‟representava uma potencial consumidora desse produto quese tornaria o futebol, processo que só aconteceu graças à industrialização eurbanização na época‟‟. Nasce também nessa época o ideal do torcedor de guerreiro, apaixonado, fiel,responsável por garantir a festa nas arquibancadas e por incentivar o seu time sobquaisquer circunstâncias. Ideais que estavam longe de serem identificados no universofeminino, que nascem justamente quando a participação delas era baixa e passavadesapercebida. Era o tempo de exageros, da paixão a qualquer custo, de sentimentosexacerbados que muitas vezes levariam ao descontrole e à violência. As décadas de80 e 90 foram marcadas por episódios violentos em dias de partidas de futebol queforam amplamente divulgados pela imprensa (item 1.4.), a torcida organizada foi

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