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O enfermeiro como instrumento de ação...Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES.                                               ...
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  1. 1. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26www.eerp.usp.br/rlae Artigo Original 1019 O ENFERMEIRO COMO INSTRUMENTO DE AÇÃO NO CUIDAR DO IDOSO Ana Karine Ramos Brum1 2 Florence Romijn Tocantins Teresinha de Jesus do Espírito Santo da Silva3Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. O enfermeiro como instrumento de ação no cuidar do idoso. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26. Trata-se de um estudo que contextualiza a enfermagem gerontológica na concepção do cuidar. Asituação estudada envolve as necessidades de cuidados da pessoa hospitalizada, tendo como objetivo refletirsobre o significado da ação de cuidar do idoso hospitalizado na realidade de enfermagem. A investigação foidesenvolvida mediante a abordagem teórico-metodológica da Sociologia Compreensiva, tendo como cenárioum Serviço de Terapia Intensiva de um Hospital Municipal - RJ. Os sujeitos foram enfermeiros que cuidam deidosos sem expectativa de recuperação, abordados mediante uma entrevista fenomenológica. A análisecompreensiva dos significados da ação permitiu identificar como típico desta ação, o cuidar instrumentalizadopor estar junto, proporcionando ao mesmo tempo conforto físico e bem-estar, visando o enfrentamento dasituação vivida. O estudo permitiu apontar algumas contribuições para as áreas do cuidado, da assistência, doensino e da pesquisa, contemplando a atitude do enfermeiro como instrumento de ação no cuidar do idoso.DESCRITORES: cuidados de enfermagem; idoso; geriatria; enfermagem THE NURSE AS AN ACTION TOOL IN CARE FOR THE AGED This study approaches nursing care as related to the aged. The studied situation involved health careneeds of hospitalized persons, using the following central question: which is the meaning of nurses’ actionswhen attending hospitalized aged patients without expectation of recovery and when technology is no longerthat important? We aimed to reflect about hospitalized elders’ needs in nursing reality. Comprehensive Sociologywas used as a theoretical-methodological framework. The study was carried out at an Intensive Care Serviceof a Municipal Hospital in the city of Rio de Janeiro – Brazil. The subjects were nurses who attend hospitalizedaged persons without any expectation of recovery, who were approached through a phenomenological interview.Through a comprehensive analysis, we identified care by being together, providing at the same time physicalcomfort and well-being to cope with the situation as typical of nursing actions. This study indicates somecontributions for nursing care, assistance, teaching and research, aimed at strengthening nurses’ attitude as anaction tool in care for aged patients.DESCRIPTORS: nursing care; aged; geriatrics, nursing EL ENFERMERO COMO INSTRUMENTO DE ACCION EN EL CUIDADO DEL ANCIANO Se trata de un estudio que contextualiza la enfermería gerontológica en la concepción del cuidado.Fueron estudiadas las necesidades de cuidado de personas hospitalizadas, teniéndose como objetivo reflectarsobre el significado para enfermería de cuidar del anciano que se encuentra hospitalizado. La investigación fuedesarrollada utilizando el referencial teórico-metodológico de la Sociología Comprensiva, teniéndose comoescenario el Sector de Terapia Intensiva de un Hospital Municipal de Rio de Janeiro - Brasil. Los sujetos fueronenfermeros que cuidan de ancianos que no tienen perspectivas de recuperación, los cuales fueron abordadosmediante una entrevista fenomenológica. El análisis comprehensivo del significado de esa acción permitióidentificar como típico de esa acción el cuidado instrumentalizado, que permite estar junto dando confortofísico y bienestar en el enfrentamiento de la situación vivida. El estudio permitió señalar algunas contribucionespara las áreas del cuidado, la atención, la docencia y la investigación, contemplando la actitud del enfermerocomo instrumento de acción en el cuidado del anciano.DESCRIPTORES: atención de enfermería; anciano; geriatría; enfermería1 Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professor Assistente da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro -UNIRIO; 2 Enfermeira, Doutor em Enfermagem, Professor Titular da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro- UNIRIO; 3 Enfermeira, Doutor em Enfermagem, Professor Adjunto da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio deJaneiro - UNIRIO
  2. 2. O enfermeiro como instrumento de ação...Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26 www.eerp.usp.br/rlae 1020INTRODUÇÃO insere, e isto se reflete em sua prática profissional, no modo de seu cuidar. As modificações que o homem E studos demográficos demonstram que a sofre no decorrer da sua existência com destaquepopulação está envelhecendo em todo o mundo, para vida e morte remete a atitude e a significaçãoprevendo-se que no ano de 2025, Brasil ocupará o do idoso como corpo físico. Desta forma o idoso ésexto lugar entre os países com o maior quantitativo aquele “... de quem se afastam os velhos, porquede idosos, qual seja, pessoas com mais de sessenta estes seres enrugados, curvados, decrépitos, sãoanos de idade (1) . Neste contexto foram aprovados a capazes de transmitir a idéia de decadência eLei nº 8842, de 04 de janeiro de 1994 e o Decreto nº morte”(7).1948 de 03 de julho de 1996, que dispõe e A experiência profissional, como enfermeiraregulamenta, respectivamente, a Política Nacional do assistencial e docente, em Serviços de TerapiaIdoso (2) . Intensiva (STI), vem trazendo diversas situações Relacionar as ações de enfermagem com o envolvendo a questão de cuidar da pessoa idosa caracterizada, na perspectiva médica, como fora decliente e a sociedade é significativo, ao considerarmos possibilidade terapêutica. Em alguns destes cenáriosas influências dos valores negativos ou positivos que assistenciais o distanciamento em relação ao idososão atribuídos a diferentes grupos que compõe a também era percebido, e a enfermagem cumpriasociedade. Ao considerarmos o grupo idoso, pudemos somente a prescrição médica, quando esta existia, eidentificar que os mesmos são colocados às margens cuidados físicos básicos, como higiene corporal.do convívio social(3). Estas situações contribuíram para reflexões Merece destaque que o cuidar envolve um e questionamentos, dentre eles quanto à ação deagir, uma atitude do enfermeiro integrado por duas cuidar no momento em que não se tem expectativaformações: a pessoal e a profissional. As possíveis de recuperação ou reversão da situação clínica.repercussões destes valores, com reflexos na prática Entende-se neste estudo que o termodos enfermeiros, podem ser percebidas no cotidiano, “recuperação” é apropriado por considerar que osno relacionamento entre clientes-profissionais de enfermeiros ao cuidarem, possuem expectativas deenfermagem. Este relacionamento perpassa pela apoiar e ajudar o cliente na situação vivenciada esubjetividade do profissional que assiste, intervindo não de curar, compreendido como domínio dano cuidar - no agir humano. medicina(8). (4-5) Estudos recentes demonstram que as No momento em que a tecnologia é voltadaatitudes dos profissionais de enfermagem e para o diagnóstico e tratamento curativo e esta passaestudantes em relação ao idoso são em sua maioria a não contribuir para reversão da patologia e ouatitudes negativas: “... reina profunda atitude negativa situação clínica (sinais e sintomas), mas sim, para aem nossa sociedade frente aos envelhecidos. As manutenção e a preservação da vida e do bem estar,enfermeiras não estão imunes desta atitude. contribuindo para um cuidar que atenda asBombardeia-se nossa juventude com a beleza das necessidades da pessoa idosa, a dimensão dessapessoas jovens, mas algumas vezes as enfermeiras contribuição deve ser valorizada e necessária para atem que defender seus interesses pelos idosos”(6). prática de enfermagem. Esta literatura tem relevância por ser umas Contudo, podemos identificar na realidadedas poucas bibliografias que relacionam a assistencial a relação das ações de enfermagem comEnfermagem e os idosos, sendo de leitura condizente a tecnologia, numa perspectiva de cura, pautada nae atual, apesar de sua publicação ser do final da visão biomédica: “A enfermagem no Brasil, não muitodécada de setenta. Os valores negativos que são diferente de outros países, passou a desvalorizar ovigentes em nossa sociedade constituem o estereótipo cuidado, atendendo a uma ideologia da cura. As açõesdo idoso, como um ser improdutivo, doente, inválido curativas ocupavam a maior parte das atividades, (9)e ultrapassado, em fase final de sua vida, sem utilizando-se tecnologias cada vez mais sofisticadas” .objetivos e esperanças. Assim, acreditamos no cuidado “... de forma O enfermeiro integra uma sociedade, mais humanística, priorizando a ação de cuidarrelacionando-se com outras pessoas, dentre os quais voltada para a pessoa, o meio ambiente e nãoa clientela. Este profissional encontra-se somente centrada em procedimentos, patologias ou (9)“impregnado” dos valores da sociedade onde se problemas” .
  3. 3. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26www.eerp.usp.br/rlae O enfermeiro como instrumento de ação... Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. 1021 Inter-relacionar a enfermagem com a ação ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICAdo cuidar, o cuidado e a tecnologia, é entendê-la, nãocomo uma prática reducionista na ação curativa e O estudo constitui-se em uma pesquisa comlimitada, mas sim, fundamentada na percepção do abordagem qualitativa, delineada pela linha filosóficaser humano, o idoso, como pessoa com seus valores, da fenomenologia.crenças e experiências. O fenômeno ação de cuidar do idoso Entendemos que o propósito da ação de hospitalizado sem expectativa de recuperação temcuidar deve estar desvinculado da idade cronológica significado próprio, pois o cuidado dispensado pelo enfermeiro é influenciado por seus valores, crençase da expectativa de “recuperação” do cliente. Neste e experiências vividas em sua trajetória de vidasentido, este cuidar deve atender às necessidades (10) pessoal e profissional.físicas e não físicas do cliente , englobando Para compreender o significado do cuidar doambiente-cliente-família-profissional, visando idoso sem expectativa de recuperação, optamos pelocontemplar a vida. (12) referencial teórico-metodológico de Alfred Schutz Com este entendimento o cuidar é: “A para dar voz ao sujeito, àquele que cuida,verdadeira atenção à saúde da pessoa humana, compreendendo a partir de suas vivências,enquanto conceituada como estado de bem-estar experiências e subjetividades o fenômeno estudado,físico, psíquico e social, compreende não apenas a a ação de cuidar do idoso.busca da cura das doenças, mas apoio e a paliação A enfermagem exercita a relaçãoquando a cura já não é possível, e, finalmente, o interpessoal, a relação do agir voltado para o outro,apoio para um fim de vida sem dores e sem e o enfermeiro é o sujeito desta ação para o outro,sofrimentos desnecessários, preservada a dignidade ele planeja e implementa sua assistência – o cuidar.da pessoa humana, derivada de sua condição de ser O sujeito enfermeiro em sua ação tem umabiológico e biográfico”(11). intencionalidade – intenção – que é evidenciado nos A citação acima subsidia a apreciação da ação motivos(12) .do cuidar pelo enfermeiro, valorizando o ser humano Para desenvolver este estudo teve-se comoem sua existência independente da expectativa de referência teórica o conceito de motivo e o seurecuperação ou possibilidade de viver e sim pelas significado: “... a ação é determinada pelo projetonecessidades de cuidados. incluindo o motivo-para. O projeto é o ato Ao considerarmos o idoso hospitalizado em intencionado, imaginado como realizado; o motivo-um determinado momento de sua existência, sem para é a condição futura de situações a seremexpectativas de reverter a sua situação clínica, onde realizadas pela ação projetada... (...)... o motivo-paraa tecnologia já não é tão importante, torna-se refere-se à atitude do ator vivenciando o processo de sua ação em desenvolvimento. É assim, umarelevante refletir sobre o significado da ação do cuidar categoria essencialmente subjetiva e revelada aodo idoso pelo enfermeiro. Desta forma, este estudo observador somente quando este pergunta qual otem como questão norteadora: Qual o significado da significado que o ator confere a sua ação”(13).ação do enfermeiro que cuida de idosos hospitalizados Com este entendimento a fenomenologiasem expectativa de recuperação e quando a sociológica (12) , ao dar voz ao sujeito da ação, quetecnologia já não é tão importante? está inserido num mundo de relação com o outro - O estudo tem como objetivo geral refletir um mundo social, possibilita compreender osobre o significado do cuidar do idoso hospitalizado significado de cuidar do idoso sem expectativa dena realidade de enfermagem e identificar as recuperação, e quando a tecnologia já não é maisnecessidades de cuidados do idoso hospitalizado tão importante.quando não se tem expectativa de recuperação. Deste O estudo teve como cenário assistencial, omodo, o estudo perpassa pela questão da ação do Serviço de Terapia Intensiva, de um Hospitalenfermeiro - o cuidar do idoso quando a tecnologia Municipal, situado no Município do Rio de Janeiro.de ponta passa a não ser tão importante, no momento Ao entender o cuidar como ação doem que não se tem a expectativa de reverter a enfermeiro assistencial em um Serviço de Terapiasituação clínica e a sua recuperação torna-se inviável. Intensiva, é oportuno dar ênfase aos objetivos deste
  4. 4. O enfermeiro como instrumento de ação...Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26 www.eerp.usp.br/rlae 1022setor, considerando os mesmos na abordagem do utilização do seu depoimento gravado para ocuidar do idoso, onde em determinado momento de desenvolvimento do estudo. (16)sua internação, a expectativa de recuperação já não As entrevistas, do tipo fenomenológico ,mais existe e o investimento tecnológico já não é tão foram realizadas no período de 06 a 28 de junho designificativo. 2000, com tempo médio de duração de 25 minutos, É possível identificar que o Serviço de Terapia tendo por diretriz um roteiro de entrevista,Intensiva é um espaço físico delimitado que detém contemplando a identificação e a situação biográficacuidados intensivos dispensados a clientes graves e do entrevistado e as seguintes questões orientadoras:potencialmente recuperáveis por uma equipe de Você tem experiência em cuidar de idosos no Serviçoprofissionais de saúde devidamente qualificados. de Terapia Intensiva (S.T.I.)?; Com que finalidade osQuanto aos recursos materiais, deve dispor de idoso são internados no S.T.I.?; O que você tem emequipamentos e máquinas de alta tecnologia, visando vista quando cuida da pessoa idosa sem expectativaa recuperação da fisiologia vital do cliente(14). de recuperação? Desta forma, é oportuno desenvolver o Após a obtenção dos depoimentos as falasestudo junto aos enfermeiros que atuam neste setor, foram transcritas, sendo destacadas as informaçõesno qual a tecnologia é direcionada para o diagnóstico relacionadas à situação biográfica, além dos “motivos-e tratamento, além de ter como característica básica para”; através de leituras e releituras, identificamosassistir clientes potencialmente recuperáveis. o significado da ação do cuidar, o agir humano.Contudo, não podemos negar a ocorrência deinternação de um grande quantitativo de idosos muitodestes com complicações que inviabilizam a RESULTADOSexpectativa de recuperação, apesar dos aparatoseletrônicos de alta tecnologia diagnóstica. Dos profissionais entrevistados, 80% são do Merece destaque ainda quanto a este setor o sexo feminino; as idades variam de 26 a 48 anos,grande quantitativo de enfermeiros assistenciais, em com idade média de 36,9 anos. O tempo de formadorelação às outras unidades de internação hospitalar, variou de 3 a 23 anos, com tempo médio de 11,9os quais cuidam diretamente dos clientes, inclusive anos sendo que o tempo de atuação no Serviço dedos idosos internados. Terapia Intensiva variou de 1 mês a 23 anos, com Os sujeitos da pesquisa foram os enfermeiros tempo médio de 7,2 anos e o tempo de experiênciaque cuidam de idosos hospitalizados sem expectativa no cuidar de idosos de 1 mês a 23 anos, com o tempode recuperação, sujeitos estes envolvidos na ação médio de 9,6 anos,do cuidar, entendido como relação direta, uma ação A situação biográfica profissional relacionadaface a face(12). ao idoso, apesar de variar em extensão de tempo Para a obtenção dos depoimentos foi cronológico, ocorre para todos os enfermeiros. Naencaminhada uma carta de solicitação ao Comitê de dimensão pessoal ocorreu um vínculo afetivo atualÉtica tendo por diretriz os critérios éticos de pesquisa com idosos para 60% dos enfermeiros, sendo que ojunto a seres humanos, de acordo com a Resolução envolvimento afetivo ocorre em sua maioria com (15)196/96 . familiares próximos, como pais, tios e avós. Neste Após a devida autorização para a realização perfil fica clara a inserção do idoso na situaçãodas entrevistas, foram agendados encontros junto aos biográfica, tanto pessoal quanto profissional dosenfermeiros para explicitar os objetivos da pesquisa enfermeiros entrevistados.a ser realizada, da importância da gravação dasentrevistas, e ainda nos comprometendo com o Construção do típico da açãoanonimato. Os depoimentos foram obtidos na salade estudos localizada no Serviço de Terapia Intensiva, Esta fase ocorreu após a transcrição dosescolhidos por ser um local de acesso restrito, depoimentos e a partir de leituras e releituras,garantindo um ambiente tranqüilo, propício para a procurando identificar os “motivos-para” através degravação em fita cassete. A cada depoente foi palavras e/ou expressões semelhantes, com umapresentado o termo de consentimento livre e sentido comum, nas falas dos enfermeiros que cuidamesclarecido, que todos assinaram, autorizando a de idosos hospitalizados sem expectativa de
  5. 5. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26www.eerp.usp.br/rlae O enfermeiro como instrumento de ação... Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. 1023recuperação e quando a tecnologia já não é tão Proporcionar conforto físico visando bem-estarimportante. Buscou-se assim, a intencionalidade da ação, Uma outra categoria identificada noso projeto de ação dos sujeitos–enfermeiros, a partir “motivos–para” expressa a ação de cuidar, comodo vivido dos mesmos, visando identificar o significado aquela que envolve o dar conforto físico com asubjetivo do agir – do cuidar. intencionalidade de proporcionar bem-estar ao cliente A partir da questão orientadora: O que você internado em serviço de terapia intensiva semtem em vista quando cuida da pessoa idosa sem expectativa de recuperação.expectativa de recuperação? foi possível identificar Os trechos de algumas das falas que deramas convergências de “motivos-para” nas falas dos origem a esta categoria são destacados a seguir:enfermeiros – o seu projeto de ação, emergindo duas (...) dar mais conforto, evitar a dor, evitar a dor, dar umcategorias concretas do vivido: Estar junto como conforto físico (...) fazer ele ficar confortável, não sentir dor, proteger, fazer cuidados, curativos, os cuidados gerais, isso queinstrumento para enfrentar a situação vivida e a gente faz com qualquer paciente, com idoso muito mais, porqueProporcionar conforto físico visando bem-estar. o idoso tudo é mais debilitado, a pele, o metabolismo, já é mais difícil, é mais lento. (...) É fazer tudo pelo paciente, apesar deEstar junto como instrumento para enfrentar a situação saber... de cuidar, dar conforto, (...) – Enfermeiro M2.vivida Assistência global, que acho aí que envolveria tudo, né ? Assistência de enfermagem como um todo, né? Visando bem- Foi possível identificar nos “motivos-para” que estar, bem-estar físico (...). – Enfermeiro 08.expressam o cuidar – como estar junto – Tendo captado que o enfermeiro que cuidaestabelecendo o apoio emocional, o estímulo para de idosos hospitalizados sem expectativa deenfrentar a situação vivida da internação e/ou a não recuperação e quando a tecnologia já não é tãoexpectativa de recuperação, estes sendo importante, tem em vista o Estar junto comoconcretizados através da relação de ajuda a partir instrumento para enfrentar a situação vivida eda verbalização – do diálogo – da conversa. O Proporcionar conforto físico visando bem-estar, ouenfermeiro menciona a possibilidade de sua pessoa seja, o significado a sua ação integra estas duasser um instrumento para enfrentar a situação vivida categorias, contemplando o típico da ação.do cliente – numa relação social significativa Em síntese o típico da ação dos sujeitos-enfermeiro-cliente. enfermeiros deste estudo é o cuidar instrumentalizado por um estar junto, proporcionando ao mesmo tempo O estar junto como instrumento para conforto físico e bem estar, visando o enfrentamentoenfrentar a situação vivida pode ser identificado nas da situação vivida.falas dos enfermeiros a seguir: (...) e o próprio papel do enfermeiro, o auxiliar, dando DISCUSSÃO: ANÁLISE COMPREENSIVA DAapoio, apoio emocional, psicológico, procurando sempre conversar, AÇÃO DO ENFERMEIROestimular, porque senão, o paciente idoso, tem uma tendênciamuito grande a ficar deprimido, tá ? Geralmente na grande maioria Este momento foi desenvolvido, mediantese sente abandonado, sozinho, se sente rejeitado, então a gente uma análise compreensiva do “típico da ação” dotem sempre que trabalhar em cima disto sempre, pra estimular enfermeiro que cuida do idoso hospitalizado semele, mostrar que ele é alguém, é importante pra mim, pra família, expectativa de recuperação e quando a tecnologiapra todo mundo do modo geral – Enfermeiro M3. não é tão importante, subsidiando a reflexão sobre o Eu dou muita força, faço sentar, converso, pergunto o significado do cuidar do idoso na prática assistencialque quer comer, se tiver lúcido, né? (...) é tentar fazer com que ele do enfermeiro e conseqüentemente sobre assinta que a gente não está ali, somente por um ato, não! Na troca necessidades de cuidados.de fralda, uma alimentação, eu tento fazer com que ele sinta que O estudo permitiu identificar que a ação doé uma atitude, que eu sou assim, né? Que tratar do idoso, é tratá- enfermeiro, que cuida de idosos hospitalizados semlo dizendo que ele é importante até o último momento. – Enfermeiro expectativa de recuperação e quando a tecnologia jáT4. não é tão importante, é um cuidar instrumentalizado
  6. 6. O enfermeiro como instrumento de ação...Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26 www.eerp.usp.br/rlae 1024por um Estar Junto, proporcionando ao mesmo tempo ainda aos valores negativos atribuídos pela sociedade (3)Conforto Físico E Bem-Estar, visando o enfrentamento ao idoso . Podemos afirmar assim, que oda situação vivida. distanciamento por parte do enfermeiro ocorre pelo Assim o enfermeiro age como um fato deste não desenvolver um cuidar, cominstrumento de ação em si no cuidar do idoso, característica de relação social, junto a este grupoestabelecendo uma relação social e como tal de clientes idosos. (17)assumindo seu compromisso ético e profissional . Ao apontar a importância da relação social Cabe, contudo ressaltar que o cuidar para o enfermeiro ser um instrumento de ação,instrumentalizado por um estar junto, proporcionando remete a uma das dimensões de cuidado que somenteao mesmo tempo conforto físico e bem-estar, está pode ocorrer mediante a comunicação, entendidavoltado para a pessoa idosa que de alguma forma como aquela que “... inclui o modo verbal, o não-relaciona-se através da comunicação verbal ou verbal e o ouvir de maneira que conote compreensão (8)gestual. Este cuidar é intencional e objetiva assistir empática” .necessidades assistenciais, principalmente as Uma outra dimensão, implícita na ação dodenominadas necessidades não-físicas(10). cuidar da pessoa idosa sem expectativa de Desta forma, o estudo permite inferir que os recuperação pelo enfermeiro, envolve a atitude desteenfermeiros não estabelecem uma relação social com profissional, ou seja, a permissão do emergir deos clientes idosos que não se comunicam, limitando- aspectos existenciais. Assim, somente mediante umase provavelmente ao assistir as necessidades físicas, atitude fenomenológica podemos compreender ocomo exemplos: higiene, curativos, prevenção de mundo da vida dos sujeitos do cuidado: um cuidarúlceras de decúbito, alimentação. Os enfermeiros humanístico, “... o cuidar voltado para a pessoa econcebem a comunicação verbal ou gestual do idoso (...) não somente centrado em procedimentos,como um dos determinantes para ser instrumento de patologias ou problemas”(9).ação no cuidar. Este cuidar independe, na maioria das vezes, O fato de este estudo mostrar que existe um do suporte tecnológico dispensado pelas instituiçõescuidar voltado para a pessoa idosa que se comunica hospitalares; depende sim, da pessoa do enfermeiro,é tão significativo quanto ao fato de não ser que é o próprio instrumento da ação de cuidar. E comoevidenciado o cuidar para a pessoa idosa que não se instrumento de ação – o estar junto com, aponta paracomunica, pois pela experiência em Serviço de uma relação social(12). Uma relação social que implicaTerapia Intensiva, constata-se que a maioria dos em envolvimento com o outro – o idoso, onde asclientes hospitalizados neste serviço não está lúcida, experiências do profissional fazem-se presente comosituação relatada a seguir: atitude em estar com o outro. (...) Assistência de enfermagem como um todo, né? “O cuidar da pessoa e os cuidados em si nãoVisando bem-estar, bem-estar físico, mental, também no caso do são valorizados pelas instituições (...) na visãopaciente lúcido, que é uma situação as vezes difícil de administrativa institucional são delegadas aoencontrarmos aqui, mas a gente pensa como um todo mesmo! enfermeiro atividades que o distanciam da ação (10)Enfermeiro 08 assistencial” , deixando de estabelecer uma relação Tais interpretações remetem ao face a face, passando a dar ênfase a atividadesdistanciamento dos profissionais de saúde, administrativas em detrimento dos cuidados. Contudo,precisamente dos profissionais de enfermagem, e e mais especificamente no Serviço de Terapiaobservado durante os momentos vivenciados em Intensiva, cenário deste estudo, a ação do cuidar dotrajetória profissional na enfermagem. O referido idoso hospitalizado perpassa pela valorização dodistanciamento é pertinente, pois se constata que os cuidado em si – o cuidar direto – a relação face aenfermeiros aproximam-se mais daqueles que de face. Estar junto e proporcionar conforto são açõesalguma forma estabelecem uma comunicação, o que de um cuidar direto significativo quando situa o cuidaroportuniza uma relação social(12). Por outro lado o dispensado a pessoa idosa em Terapia Intensivadistanciamento acontece com aqueles que na situação A situação da pessoa idosa hospitalizada semvivida não se comunicam, somado provavelmente expectativa de recuperação de sua saúde, reporta
  7. 7. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26www.eerp.usp.br/rlae O enfermeiro como instrumento de ação... Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. 1025implicitamente à questão de sua terminalidade vital. comunicação, dentre outras, que visam oAo relacionarmos o cenário do STI, que tem como enfrentamento da situação vivida, assistida atravésobjetivo assistir clientes graves recuperáveis mediante da ação de cuidar de Estar Junto Com e oa assistência da equipe de saúde especializada, de Proporcionar Conforto Físico.acordo com as necessidades do cliente, surge um De forma geral, foi possível refletir oconflito: assistir um idoso sem expectativa de significado do cuidar, na perspectiva do enfermeiro,recuperação quando toda a organização tecnológica um cuidar do idoso que o permite ser o própriojá não é mais importante. O estudo mostra que instrumento do cuidar.enfermeiro continua cuidando, pois a sua ação Os elementos que compõe o cuidar sãoindepende da expectativa de recuperação: a ação é subsídios para a sistematização das ações dedirecionada à pessoa idosa e não mais apenas a enfermagem, no entendimento de que o enfermeironecessidade de estabilização de parâmetros assiste as necessidades de cuidados da pessoa. Destahemodinâmicos. Esta situação ressalta a importância forma, o cuidar do enfermeiro deve estar voltado parade recursos humanos de enfermagem qualificados assistir as necessidades físicas, assim como aspara assistir as necessidades do cliente idoso. necessidades não físicas, sendo estas de igual valor Neste contexto, o conteúdo da ação de cuidar para a assistência de enfermagem, pois no momentodo idoso hospitalizado aponta para suas necessidades, em que não se tem expectativa de recuperação dofísicas e não físicas, representadas basicamente pelo idoso no STI, o cuidar pelo enfermeiro é direcionadoconforto físico e o apoio emocional, respectivamente. para a pessoa - cliente.Com este entendimento a ação do enfermeiro não se O estudo oportuniza apontar para algumaslimita aos procedimentos técnicos - assistir contribuições, diante da realidade da enfermagem,necessidades físicas, o que implica em uma relação nos diferentes âmbitos da assistência, do ensino e dasocial entre a pessoa - profissional e pessoa-idosa(10). pesquisa: Estas necessidades ainda permitem refletir - O cuidar deve ser desvinculado da idade cronológicasobre o espaço desse cuidar, já que a situação de e das condições ou possibilidades que o cliente temterminalidade frustra a finalidade do STI, ou seja, para se recuperar; a pessoa possui necessidades deum local com investimentos em recursos tecnológicos cuidados no decorrer de toda a sua vida, inclusivepara assistir clientes potencialmente recuperáveis. na sua terminalidade vital.Assim, pensar espaços para cuidar de clientes sem - Focalizar o cuidar como estar junto, proporcionandoexpectativa de recuperação, é pensar espaços conforto físico e bem estar no Curso de Graduação (18)institucionais específicos, inclusive o domicílio – em Enfermagem, compreendendo que a formaçãoeste pertinente à assistência de enfermagem, onde o profissional contribui para o delineamento das ações,enfoque é o cliente – o cuidar da pessoa. do agir, da atitude do futuro enfermeiro junto ao idoso; e, - Desenvolver estudos que focalizem as necessidadesCONSIDERAÇÕES FINAIS de cuidados de pessoas que não se comunicam e a autonomia profissional do enfermeiro para cuidar do Entende-se neste estudo que a ação de cuidar idosodo enfermeiro perpassa pelo agir, pela atitude dapessoa-enfermeiro, que são delineados pelasvivências e experiências – valores – no decorrer de AGRADECIMENTOsua trajetória de vida. O estudo permitiu compreender a ação do A pessoas especiais, por serem enfermeiras/enfermeiro ao cuidar do idoso, além de identificar na enfermeiros que ao cuidarem da pessoa idosa semperspectiva do enfermeiro as necessidades de expectativa de recuperação, mostraram acuidados do idoso hospitalizado no Serviço de Terapia possibilidade de superar o entendimento deIntensiva. Estas necessidades são aquelas que tecnologia, permitindo compreender que o cuidarenvolvem apoio emocional, alívio da dor, pleno só depende de nós Enfermeiros.
  8. 8. O enfermeiro como instrumento de ação...Brum AKR, Tocantins FR, Silva TJES. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):1019-26 www.eerp.usp.br/rlae 1026REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1. Costa LVA. Apresentação. Anais do I SeminárioInternacional de envelhecimento populacional: uma agendapara o final do século; 1996. julho 1-3; Brasília; Brasil; 1996.2. Ministério da Previdência e Assistência Social (BR). PolíticaNacional do Idoso. Brasília (DF): MPAS; 1997.3. Mercadante E. Aspectos antropológicos doenvelhecimento. In: Papaléo M Netto. Gerontologia. São Paulo(SP): Atheneu; 1996.4. Grant LD. Effects of ageism on individual and health careproviders responses to healthy aging. Health and Social Work1996; 21(1):9-15.5. Sheffler SJ. Do clinical experiences affect nursing student’sattitudes toward the elderly? J Nurs Educ 1995; 34(7):312-6.6. Burnside IM. Enfermagem e os idosos. São Paulo (SP):Andreé Edit; 1979.7. Rodrigues JC. Tabu do corpo. 3 ed. Rio de Janeiro (RJ): Ed.Achiame; 1983.8. Talento B. Jean Watson. In: George JB. Teorias deenfermagem. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1993.9. Waldow VR. Cuidado Humano. O resgate necessário. PortoAlegre (RS): Sagra Luzatto; 1998.10. Silva TJES da. O Enfermeiro e a assistência anecessidade não física do cliente: o significado do fazer.[Tese].Rio de Janeiro (RJ): Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ;1998.11. Papaléo M Netto. Finitude: hospital-fronteira. In: Py L,organizador. Finitude: uma proposta para reflexão e práticaem gerontologia. Rio de Janeiro (RJ): Ed. NAU; 1999.12. Schutz A. Fenomenologia del mundo social. Buenos Aires(AR): Paidos; 1972.13. Tocantins FR, Souza EF. O Agir do Enfermeiro em umaUnidade Básica de Saúde – análise compreensiva dasnecessidades e demandas. Esc Anna Nery Rev Enfermagem1997; 1(especial):143-59.14. Mena Barreto S. Rotina em Terapia Intensiva. 2 ed. PortoAlegre (RS): Artes Médicas; 1993.15. FIOCRUZ.(BR) Diretrizes e Normas regulamentadorasde pesquisa envolvendo seres humanos. Resolução 196/96do Conselho Nacional de Saúde. Rio de Janeiro (RJ):FIOCRUZ; 1998.16. Carvalho AS. Metodologia da Entrevista: uma abordagemfenomenológica. Rio de Janeiro (RJ): Agir; 1987.17. Vila VSC, Rossi LA. O significado cultural do cuidadohumanizado em unidade de terapia intensiva: “muito falado epouco vivido”. Rev Latino-am Enfermagem março-abril 2002;10(2):137-44.18. Freitas MC, Maruyama SAT, Ferreira TF, Motta AMA.Perspectivas das pesquisas em gerontologia e geriatria:revisão da literatura. Rev Latino-am Enfermagem março-abril2002; 10(2):221-8.Recebido em: 26.5.2003Aprovado em: 29.11.2005

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