Nosso Tempo 
A rosa e o tempo 
Poetray
POETRAY 
NOSSO TEMPO 
A rosa e o tempo 
São Paulo 
Raimundo Jorge Ferreira 
2014
SUMÁRIO 
DEDICATÓRIA ....................................................................................... 11 
O AMOR QU...
GOSTO DESSE GOSTO INSANO ........................................................ 46 
HOMENS DE POUCA FÉ ....................
O AMOR RÓI ......................................................................................... 83 
TAL QUAL CHOCOLAT...
Nosso Tempo 
A rosa e o tempo 
Encaminho meus agradecimentos 
Aos três guardiões da vida e do tempo 
_ Meus filhos _ 
Que ...
11 
À 
EVELYN ELLEN 
Seja o teu nome aqui _ pois que 
a tua existência é bem mais que a singela flor que inspira cuidados ...
12 
Foto de Evelyn Ellen - A rosa e o tempo
13 
O AMOR QUE TE OFEREÇO 
Quero oferecer-te o amor que realmente sinto: 
Cuidadoso, inocente e risonho, 
O amor que junto...
14 
O ROTEIRO 
No centro velho, outrora pleno de glamour, acariciei meus olhos com arquitetura eclética e belos mosaicos. ...
15 
TECENDO A VIDA 
Como agulha que escapa e fura o dedo 
E a linha tece um erro n’outra estampa, 
Minhas certezas às veze...
16 
Vivemos o tempo do exagero, da compulsão, do desespero, da obstinação. 
Está em voga a ostentação. 
A palavra de ordem...
17 
UM MINUTO, POR FAVOR! 
Um minuto, por favor! 
Pra que tanta pressa 
Pra se ir não se sabe aonde 
E quando chegar ao de...
18 
A MALDIÇÃO DO INVERNO 
Primeiro de inverno de 2013; 
A maldição se repete: 
A tristeza se apresenta a mim através de u...
19 
Estipulei um tempo pra que ela pensasse. 
Mas, pelo jeito, já era caso pensado. 
Acho que o maior erro do homem é se p...
20 
COMPREENDENDO A AMOR 
Espalhei pétalas de rosa sobre a cama 
Deixei champagne no gelo 
Usei o melhor perfume 
E até de...
21 
E enquanto te espero... um pouco de Camões: 
“Amor é fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói e não se sente; 
É um...
22 
EFEITO DOMINÓ 
Sinto-me meio zonzo esta manhã. 
Acho que são os efeitos das notícias. 
Todas as manchetes dos jornais ...
23 
Um terço da produção comercializada vai para o lixo. 
Três absurdos no desperdício de alimentos: 
Absurdo humanitário ...
24 
ARES DE MINAS 
Correm nas minhas veias os ventos de Minas, 
Oxigênio suave, perfumado de flores do campo; 
Aquele ar d...
25 
GRATO Em homenagem à Luciana 
Grato! 
Por enxugar-me o pranto com o calor deste sorriso 
E amenizar minha dor com este...
26 
OS ODORES DO DESTINO 
Os odores que recendem_ não sei _, 
Da falsa democracia ou catolicismo 
_ Acho que são dos negro...
27 
PAISAGEM POLÍTICA 
Com licença! Só um minuto, por favor! 
Se me permite, vou imprimir a paisagem. 
Vejo um horizonte a...
28 
MEXA-SE 
Mexa-se, homem! 
Aprendeste os primeiros passos; superaste piores medos. 
Quantas vezes tu caíste e heroicame...
29 
E a vida um tanto imprevisível no seu tempo aperiódico. 
O círculo do ser não ser, eu passo. 
Depois dos túneis, um no...
30 
O tempo que me dou é o tempo que me ouço. E digo a mim: 
São teus os meus pensamentos, por isso tão pesada é a cruz. 
...
31 
NA INFÂNCIA 
As mulheres lavavam roupa na fonte. 
Os passarinhos tomavam banho na água corrente da bica. 
Os pombos, e...
32 
Quando ela abaixa a blusa abre, os seios dançam. 
Geraldo é aleijado. É o homem de uma perna só. Que tamanho teria cob...
33 
pequena tira. Deixa a palha entre os dedos enquanto pica e espatifa o fumo. 
_ O café 'tá pronto_ avisa D. Deca_ o do ...
34 
MAIS QUE TUDO, MENOS QUE ONTEM 
Manhãzinha; 
Acordo desperto, 
Mais desperto que antes, menos esperto que ontem. 
A co...
35 
Ir-se? Aonde? 
Sou o erro que suspira: um animal qualquer. 
Sou a ferramenta que sustenta esse mundo do mal me quer. 
...
36 
Celibato _ padre não pode se casar. 
Casais do mesmo sexo conquistam direito a casamento 
Sobe o valor da passagem de ...
37 
COLEIRA E ADORNOS 
Tenho uma coleira de espinhos cravada no pescoço 
Suas pontas disformes já não me doem; 
Incomodam-...
38 
VARIÁVEIS DO HUMOR 
O mundo mudou: 
A visão do abismo 
A visão do pecado 
O otimismo. 
Um algo novo (hipotético ou não...
39 
Todo o mundo mudou. 
Mudei. 
Muda-se o humor a razão. 
Muda-se o sentido, o jejum, o luto, o absoluto. 
O humor muda. ...
40 
OS OLHOS ARDENDO DE AMOR Tinha os olhos ardendo de amor, o coração palpitante, e no riso meigo percebia-se nítida ansi...
41 
NATUREZA SOTURNA Abraçara-me, primeiro com os olhos _ luz divina _; depois com abraços e, sabe-se lá, quais pensamento...
42 
Mais que amigo! _ bem mais, tu sabes, bem mais. Mais que amantes... Dois bobos em humílima disposição para o espanto e...
43 
DIA OFICIAL DA DEMOCRACIA 
Domingo, 7 de outubro 2012 
Céu claro. 
Desponta com o sol a expectativa, 
É dia de exercer...
44 
Hoje a cidade, enfim, acordou silenciosa. 
Sem jingles, sem fogos, sem gritos, só contenda; 
Mas as ruas estão coberta...
45 
ÉRAMOS PATRIOTAS 
Éramos; 
Patriotas sim, éramos. 
Apesar de... 
Éramos capazes de perdoar e pedir perdão. 
Éramos cap...
46 
GOSTO DESSE GOSTO INSANO 
Gosto desse gosto insano 
De desejos sórdidos que tiram o sono 
Desse sabor insosso, agridoc...
47 
HOMENS DE POUCA FÉ 
Assim como estamos 
_ com tamanha fobia social _, 
Como será o amanhã? 
Assim, 
Nós, homens de pou...
48 
ACONSELHA-SE AO CIDADÃO 
Ao sair de casa fique atento 
Olhe para um lado e outro, 
Para fora, se fora, olhe para dentr...
49 
MARISA MONTE E PAZ CELESTIAL 
E de repente Marisa Monte. 
Larguei a filosofia e abri as janelas. 
Os livros não guarda...
50 
ALMAS E FLORES 
Nós 
Andamos no mesmo jardim 
Tocamos nas mesmas flores, 
Nós nos acariciamos 
Nós nos abraçamos 
De m...
51 
O BOM JARDIM 
Era um imenso jardim 
_ imponente berço de flores _, 
Onde nasceram violetas, rosas, muitas marias 
E Ma...
52 
O TEU PÃO E VINHO 
De tudo a que trituras dia a dia 
Mastigas, engole e te abasteces, 
Satisfeito _ decerto _, dormes,...
53 
ROMANCE 
Talvez não vivamos juntos o romance da década, o mais perfeito. 
Talvez não nos encaixemos nos dramas e coméd...
54 
Sofremos a dor alegre de viver contentes ou tristes. Como? 
Vivemos simplesmente. 
A dor é algo que existe; a vida é u...
55 
ROSAS E ROSEIRA 
O pão amanhecido, no prato sobre a mesa, espera a mordida. 
O olhar faminto, entretanto, espia o bord...
56 
A FLOR DO DIA 
... E num vaso há muito tempo esquecido... 
No ramalhete escolhido 
E por teus olhos reverdecidos, 
Uma...
57 
O amor é feito de pétalas de emoções que em nossa vida brota como flor e esvai-se como um vento; e ao nosso coração fe...
58 
A MIM ME BASTA 
O que me importa se lá fora motores roncam nas ruas congestionadas? 
O que me importa, agora, postes e...
59 
A TRISTEZA DE ONTEM 
Ela bate em minha porta 
Ela bate com insistência 
Ela sempre vem; 
Vai e volta. 
Bata bate, e se...
60 
Meu eu só no fino espelho. 
Eu a olho disfarçado, pela fresta, 
Eu a olho de soslaio _ liberdade que me resta. 
Eu a o...
61 
Mas me perturba as batidas e os silêncios dos seus gritos, 
Por isso paro; fecho o livro, 
Volto ao índice. 
Escolho o...
62 
Então, que ela entre. 
Entre com tudo que tem. 
Despeçamo-nos juntos, dos anos, 
E abracemos-nos para o ano que vem. 
...
63 
ALGUÉM 
Alguém pode ser “o cara” 
Alguém pode ser ninguém; 
Segundo Aurélio é nada, 
Segundo o mestre é quem algo tem....
64 
Uma a uma as portas se movimentam 
As lojas silenciam e se fecham. 
Alaridos distantes, 
Transito lento, 
É sexta. 
Há...
65 
ALGUMA COISA 
Já repeti o antigo ritual diversas vezes 
E a minha deusa sequer me olhou. 
Já orei, gritei, atirei pala...
66 
APÁTRIDA 
Sou católico apostólico, não sei por que, romano. 
Carrego o peso do pecado imaginário 
Por vezes feito, pra...
67 
O OFÍCIO DE AMAR 
Que bom amar em campo, em missão, a qualquer hora e em qualquer canto, 
Em todo lugar! 
A missão do ...
68 
CERTA HORA DA TARDE 
Certa hora da tarde cada instante é o instante 
É decisivo. 
O suspiro de meia compensação é irre...
69 
Marias, Helenas, Lucianas... 
O café amargo já não parece tão ruim, 
Engolem-se pílulas sem água, 
Papo de velho torna...
70 
AMEI SIM 
Amei sim. 
Amei por você, amei por mim. 
Amei por ela, 
Amei 
Amei por amor. 
Mas amor solitário é amor inim...
71 
UMA MULHER 
E outra vez me vem o jovem petulante, 
Arranca-me a máscara e me atira, na cara, a realidade. 
Não posso r...
72 
É o sabor amargo do fruto. 
Ah, essa mania de ver um traço de tristeza em toda beleza! 
O belo só é belo pelo enigma d...
73 
E tu de sapo tornar-te-á príncipe. Bom, nem tanto; mas um duende aventureiro sobrevivente na terra dos esquecidos. 
De...
74 
O OFÍCIO DE AMAR 
Que bom amar em campo 
Em missão, a qualquer hora, em todo lugar 
Em qualquer canto 
Amar. 
Amar e a...
75 
QUE MULHER É ESSA 
À Lú, por amor e gratidão. 
Que mulher é essa 
Que me aparece do nada 
E qual estrela na madrugada ...
76 
Que noite longa! Há muito minh’alma dorme. 
Na escuridão, fantasmas ainda flutuam... 
Minh’alma, deveras, há muito dor...
77 
PASSO HORAS CONTEMPLANDO 
De vez em quando um sorriso 
Que eleva ao máximo meu deslumbre 
Ela é surpreendentemente per...
78 
OBSESSÃO MINHA 
Obsessão minha 
Dor. 
Obsessiva luta 
Amor, Vento,Vênus 
Folhas. 
Palavras outras 
Ostras, pérolas 
Po...
79 
NOSTALGIA 
Entra pela vidraça uma lembrança que assovia 
Uma música desconhecida 
Feita de dor e alegria 
Cujas notas ...
80 
PONTO INICIAL 
Depois dos teus beijos adormecem, enfim, 
Exaustos, todos os fantasmas que abrigam em mim. 
Os fantasma...
81 
Mas que desperta com o sossego delirante do calor dos teus beijos 
Que queima as veias como aguardente. 
_ Que feio! C...
82 
MINEIRO 
Mineiro 
Desconfiado! 
E daí? 
Sou de carne e osso 
_ mais carne do que osso _ 
Carne de pescoço. 
É fato, so...
83 
O AMOR RÓI 
O amor rói 
Sem nenhum pudor 
Todo pudor que o homem constrói; 
Depois 
Destrói e reconstrói, 
Com todo pu...
84 
O amor rói 
Sem nenhum pudor 
Todo pudor que a gente constrói 
Depois o amor, com amor nos reconstrói. 
TAL QUAL CHOCO...
85 
O destino proposto, teu corpo, oásis distante, 
A nudez _ percurso intransponível. 
Homem reduzido, a quê? 
Orgulho de...
86 
Sacrilégio seria assassinar-te de mim! Extrair-te da essência da essência... 
E ficar vazio? 
O desejo 
Você 
Vida. 
E...
87 
SEGUINDO A PALAVRA 
De braços dados com o silêncio 
Outras vezes nos teus braços 
Sempre 
No teu abraço passeio. 
Ando...
88 
E OS DEUSES SE DIVERTEM 
‘Tá difícil respirar 
Pesada é a cruz 
O ar concreto; 
E os deuses se divertem. 
Os pulmões i...
89 
Devíamos andar de mãos dadas até quando estreito o caminho. 
Daí, ela na frente, o braço esticado pra trás, e a minha ...
90 
ENCRUZILHADA 
O que lavará minh’alma? 
O que cobrirá meu corpo 
Amanhã, após um infinito suspiro, o último, 
Subitamen...
91 
Mantenha-me aquecido ao deleite da vida impudica 
Para o imenso prazer da morte na salvação. 
O que lavará minh’alma s...
92 
EU E MIM NO ESPAÇO SER 
Não sou de mim mais que servo 
Cumprindo ordens 
E tudo que toco torna-se igual a mim, 
Pois l...
93 
Elementar diante do óbvio, 
E o óbvio é sempre contemporâneo. 
O que resta de mim é isso: 
O mecanismo crânio. 
Por is...
94 
OLHOS-ESPELHOS 
Olhos-espelhos 
Cegam-se; 
Arrancam verdades 
Cerram-se. 
Não vale a pena suicidar-se, 
Morrer por amo...
95 
QUANDO OS ANJOS DIZEM AMÉM 
Você pensa, deseja, e os anjos dizem amém. 
Paciência, meu caro, paciência. 
Tudo a seu te...
96 
Mas veja, a natureza tem seu padrão, seu tempo, segue suas normas. 
Por isso, quando tropeçar ou cair, concentre-se no...
97 
POR QUE O HOMEM CANTA 
Estava feliz. 
Acordara com a leveza da primavera. 
Um sopro suave da aurora entrando pela brec...
98 
RECONCILIAÇÃO 
Ainda tínhamos o olhar triste e o sentimento de culpa vagando no vão entre nós dois. 
A dor, suponho, e...
99 
CAMINHADA 
Não sei a que propósito me nasceu este amor, 
Mas ele a si mesmo decidirá sua sorte; 
Seja o destino a si m...
100 
O que é melhor? Não sei! 
Pensar no futuro sempre me causa horror, 
Pois onde há vida, por último, encerra a morte; 
...
101 
DE DETRÁS DA MÁSCARA EU VEJO O MUNDO 
De detrás da máscara eu reparo as pessoas que me notam e rio. 
Pobres! Todos ac...
102 
Tento cumprir meu papel pra que não desvalorize Sua obra e a peça seja, senão bonita, que seja ao menos perfeita. 
PÁ...
103 
ESTRABISMO 
Não sou eu o estranho. 
O espelho se arrepia. 
No reverso do avesso, 
A nudez a que se reverencia. 
Não h...
104 
Marcas de dentes na maçã. 
Vai-se a ave ligeira 
_ visita de toda manhã _ 
E fica tremulando sob a mesa, camponeses, ...
105 
AS VEZES QUE CHOREI 
As vezes que chorei... 
Já chorei tanto! 
Já chorei sem motivo. 
Já chorei de dor, chorei de alí...
106 
Chorei sem graça; Chorei de pirraça. 
Eu também já fui criança neném, e chorei pedindo peito; 
Chorando, no afã do ca...
107 
Chorei, chorei, por que, já não sei. 
Chorei no novo emprego, mas chorei por apego. 
Chorei no “parabéns pra você”. 
...
108 
Chorei debruçado num ombro. 
Chorei escondido nos escombros. 
Chorei nas entrelinhas de poemas, no equilíbrio, 
Na fa...
109 
NOSSO TEMPO 
Toda a minha vida não lutei por ninguém; 
Lutei apenas, 
Pois ninguém valia minha luta nem meus sacrifíc...
110 
Saibamos e jamais nos esqueçamos de que Deus nos fizera à Sua imagem e semelhança para que Ele saiba o que é viver. 
...
111 
É o tempo da crueldade, da cobardia, da mais vergonhosa hipocrisia. 
Vivemos o tempo das injustiças. O tempo da autod...
112 
E ao abrir os olhos recomecemos, agora e sempre, com amor, a ditar as ordens do viver. A consciência do pecado é o pi...
113 
arquipélagos. Não me importa. O relógio não espera. O tempo caminha agora. O voo é dos pássaros. As flores tem pressa...
114
115
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Nosso tempo: a rosa e o tempo

  1. 1. Nosso Tempo A rosa e o tempo Poetray
  2. 2. POETRAY NOSSO TEMPO A rosa e o tempo São Paulo Raimundo Jorge Ferreira 2014
  3. 3. SUMÁRIO DEDICATÓRIA ....................................................................................... 11 O AMOR QUE TE OFEREÇO .............................................................. 13 O ROTEIRO ........................................................................................... 14 TECENDO A VIDA ............................................................................... 15 UM MINUTO, POR FAVOR! ............................................................... 17 A MALDIÇÃO DO INVERNO .............................................................. 18 COMPREENDENDO A AMOR ............................................................ 20 EFEITO DOMINÓ ................................................................................ 22 ARES DE MINAS ................................................................................... 24 GRATO.................................................................................................... 25 OS ODORES DO DESTINO ................................................................. 26 PAISAGEM POLÍTICA .......................................................................... 27 MEXA-SE ................................................................................................ 28 UMAS POUCAS LEMBRANÇAS ........................................................... 30 NA INFÂNCIA ....................................................................................... 31 MAIS QUE TUDO, MENOS QUE ONTEM ........................................ 34 COLEIRA E ADORNOS ........................................................................ 37 VARIÁVEIS DO HUMOR ...................................................................... 38 CREPÚSCULO ....................................................................................... 39 OS OLHOS ARDENDO DE AMOR...................................................... 40 NATUREZA SOTURNA ........................................................................ 41 DIA OFICIAL DA DEMOCRACIA ........................................................ 43 ÉRAMOS PATRIOTAS .......................................................................... 45
  4. 4. GOSTO DESSE GOSTO INSANO ........................................................ 46 HOMENS DE POUCA FÉ ..................................................................... 47 ACONSELHA-SE AO CIDADÃO .......................................................... 48 MARISA MONTE E PAZ CELESTIAL ................................................ 49 ALMAS E FLORES ................................................................................. 50 O BOM JARDIM ..................................................................................... 51 O TEU PÃO E VINHO .......................................................................... 52 ROMANCE ............................................................................................. 53 ROSAS E ROSEIRA ................................................................................ 55 A FLOR DO DIA .................................................................................... 56 A MIM ME BASTA ................................................................................. 58 A TRISTEZA DE ONTEM .................................................................... 59 ALGUÉM ................................................................................................ 63 ALGUMA COISA .................................................................................... 65 APÁTRIDA.............................................................................................. 66 O OFÍCIO DE AMAR ............................................................................. 67 CERTA HORA DA TARDE ................................................................... 68 AMEI SIM ............................................................................................... 70 UMA MULHER ...................................................................................... 71 DIAGNÓSTICO DO MUNDO .............................................................. 73 O OFÍCIO DE AMAR ............................................................................. 74 QUE MULHER É ESSA......................................................................... 75 PASSO HORAS CONTEMPLANDO .................................................... 77 OBSESSÃO MINHA ............................................................................... 78 NOSTALGIA ........................................................................................... 79 PONTO INICIAL ................................................................................... 80 MINEIRO ............................................................................................... 82
  5. 5. O AMOR RÓI ......................................................................................... 83 TAL QUAL CHOCOLATE .................................................................... 84 SEGUINDO A PALAVRA ...................................................................... 87 E OS DEUSES SE DIVERTEM ............................................................. 88 ENCRUZILHADA ................................................................................. 90 EU E MIM NO ESPAÇO SER ............................................................... 92 OLHOS-ESPELHOS .............................................................................. 94 QUANDO OS ANJOS DIZEM AMÉM ................................................. 95 POR QUE O HOMEM CANTA ............................................................ 97 RECONCILIAÇÃO ................................................................................ 98 CAMINHADA ......................................................................................... 99 DE DETRÁS DA MÁSCARA EU VEJO O MUNDO ........................... 101 PÁSSAROS ............................................................................................. 102 ESTRABISMO ....................................................................................... 103 AS VEZES QUE CHOREI .................................................................... 105 NOSSO TEMPO .................................................................................... 109
  6. 6. Nosso Tempo A rosa e o tempo Encaminho meus agradecimentos Aos três guardiões da vida e do tempo _ Meus filhos _ Que atenderam ao chamado da divina natureza humana _ Marisa-mãe _ Para resgatar uma alma em trevas. Com suas lanças de luz mostraram-me o caminho da alegria e deram sentido à minha vida. Agradeço-lhes: Diógenes Elton S. Ferreira; Rudson Erlon S. Ferreira; Evelyn Ellen S. Ferreira; Com todo amor que a eternidade comporta. Especial agradecimento à Luciana Ferreira Santos, eterna musa. Poetray
  7. 7. 11 À EVELYN ELLEN Seja o teu nome aqui _ pois que a tua existência é bem mais que a singela flor que inspira cuidados ao nosso jardim. Tu és um Anjo de Luz que nos guia do primeiro crepúsculo de sonhos à hora d’ângelus, o que seria vazio sem o brilho da tua alegria. Poetray
  8. 8. 12 Foto de Evelyn Ellen - A rosa e o tempo
  9. 9. 13 O AMOR QUE TE OFEREÇO Quero oferecer-te o amor que realmente sinto: Cuidadoso, inocente e risonho, O amor que juntos sonhamos. Não te darei o amor banal e egoísta, que se inventa: De ciúmes e opressão, que mal se aguenta; Quero oferecer-te o amor que mereces: aureolado de sonhos. Não quero oferece-te o amor que supomos: bonito e vaidoso _ cheio de detalhes que o torne perfeito _; Quero oferecer-te o amor que criamos: Risonho e cheio de agrados, Que livre se doa e se é aceito. Quero oferecer-te um amor que por si só se sustente, sabe; Aquele amor que por ser frágil, delicado, faz-se tão fortemente intransponível aos males que ameace a gente. Quero oferecer-te o amor que sinto: esse desejo quente; O amor que só quem ama verdadeiramente sabe o quanto o sente.
  10. 10. 14 O ROTEIRO No centro velho, outrora pleno de glamour, acariciei meus olhos com arquitetura eclética e belos mosaicos. Abracei minha querida São Paulo do Ipiranga à Luz. Viajei pela República... Ouvi vozes estranhas e gritos por independência: os pombos, os cães, a polícia, o homem, o bicho... Pouca ciência. Aí meus olhos se fixaram despropositadamente detidos, no bico dos sapatos. Não sei o porquê dessa desilusão, a cada passo chutava um fato, a cada fato um político e meus votos e uma opinião. A cada chute um risco. A cracolândia era o retrato do que eu ajudara a construir ou destruir. Senti calafrios, náusea, tremedeira! Faltou-me uma bebida; café, uma graça, uma cachaça e uma bandeira.
  11. 11. 15 TECENDO A VIDA Como agulha que escapa e fura o dedo E a linha tece um erro n’outra estampa, Minhas certezas às vezes falham E o que se me afigura fere e espanta. O mundo se transforma violentamente, Como um raio o tempo passa; E se esvaem feito fumaça os sentimentos: A fé, a ternura, o amor... E o novo que o apossa impõe à vida outro valor. O mundo se transforma impetuosamente!... Já não nos permitimos tempo para nos refrear. Amontoamos ideias em atos incertos, _ sem pensar nas consequências, no futuro, nas gerações... E já não nos permitimos filosofear. Não se deve colher o fruto antes do tempo. _ já dizia meu velho _ Não é inteligente forjar a estação da vida à sombra do pensar; Como obter o bom vinho se precocemente se vindimar? Não teria o bom aroma, o víneo aspecto peculiar; Perder-se-ia o sabor especial que é a recompensa de quem tem bom gosto e sabe esperar.
  12. 12. 16 Vivemos o tempo do exagero, da compulsão, do desespero, da obstinação. Está em voga a ostentação. A palavra de ordem é curtição. Tudo é para ontem; e o agora fica sem solução. Fica pra depois... _ Dá-se um jeito, deixa estar _, Então, ignoramos os problemas; Vive-se de ostentação. Mas a vida é madrasta; um erro sequer não tem perdão. Vivemos deveras o tempo do exagero. Talvez, e tão somente pra mim, talvez, estejamos vivendo o retrocesso da progressão. Como se buscássemos uma vitória antes mesmo de uma revolução, muito embora soubéssemos que tal processo nos fosse assegurado pelo método de procrastinação. Confuso? Um tanto absurdo. Analise a sociedade Analise o seu mundo.
  13. 13. 17 UM MINUTO, POR FAVOR! Um minuto, por favor! Pra que tanta pressa Pra se ir não se sabe aonde E quando chegar ao destino mistério Sabendo que a validade do teu passaporte Quem determina é uma sorte E a outra o mérito do teu império? Para que tanta pressa? Somos todos peregrinos. E o mundo é um laboratório; E para nós, exploradores provisórios, O viver é o tesouro maior onde se imprime o último relatório. Só um minuto, por favor! Pra que tanta pressa? Descanse os olhos e o coração. Somos andarilhos universais E a vida é um estágio, uma estação, No exercício da autoperfeição. Esqueça os ais, abrace a natureza; Esqueça as incertezas e permita-te viver a paz. Vida é luz que desperta as retinas Dilata-nos por completo, entorpece e reanima; E depois nos ilumina e faz sonhar. E quando vem a outra soprando como brisa nos leva Numa estranha canção de ninar.
  14. 14. 18 A MALDIÇÃO DO INVERNO Primeiro de inverno de 2013; A maldição se repete: A tristeza se apresenta a mim através de uma mensagem de texto _ SMS. Sinto um arrepio percorrer meu corpo. É o primeiro presságio da solidão. O primeiro sintoma de abandono: o fim do otimismo, início do desânimo, o stress. O anjo, amante-amigo, se transforma em fera indomável, arisca e enfurecida. Ela foi se afastando aos poucos, de mansinho, como mãe desmamando seu filho, e se rebelou. Ela sabe da minha dependência dos seus carinhos. Sabe que na altitude a que fui levado pelo amor não saberei como prosseguir e não terei como me estabilizar. E em queda livre nada restara nada do homem valente, muito menos forças pra recomeçar no amor. Agora cobra decisão e atitudes que não posso tomar. As reivindicações são justas, porém não depende somente da minha vontade concedê-la. É o fim. Eu tinha esperança de que ela repensasse. Eu a propus que reconsiderasse.
  15. 15. 19 Estipulei um tempo pra que ela pensasse. Mas, pelo jeito, já era caso pensado. Acho que o maior erro do homem é se precipitar ao dizer que ama; igualmente, ou erro maior talvez, seja tardar tanto em dizer "Eu te amo!". Muito ficou, mas o muito ainda é pouco para o amor. Ficou o beijo; A lembrança do calor latente do sexo; A palavra amiga; Os sonhos... Até o último instante do dia eu esperei que ela voltasse; E ainda a espero. Então, quem sabe, eu ainda poderei dizer: Eu te amo! E num momento de êxtase ela também diga: “Você é o meu homem.”. Mas, por enquanto, tenho a maldição do inverno: a solidão. É o fim.
  16. 16. 20 COMPREENDENDO A AMOR Espalhei pétalas de rosa sobre a cama Deixei champagne no gelo Usei o melhor perfume E até decorei um verso do seu poema favorito E agora o leio: “O amor é fogo que arde...” (Camões). E à meia luz, ouvindo uma música suave esperei, esperei... E você não veio. A mesa ainda está posta, a cama feita; E, admito: “a poesia é algo belo, ao mesmo tempo íntimo e alheio”. E pesando sua ausência e refletindo seu valor percebo: Da vida se vive instante, um lance, um flerte. "amor é fogo que arde sem se ver", e não queima. É fome e é banquete. E que essa saudade é falta do que se tem, não do que se perdeu. Saudade é falta da presença que, Embora distante do seu riso, do seu brilho, O amor, você, se faz presente não quando mais quero, e sim, sempre e quando mais preciso. É isso.
  17. 17. 21 E enquanto te espero... um pouco de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”. (Luís de Camões)
  18. 18. 22 EFEITO DOMINÓ Sinto-me meio zonzo esta manhã. Acho que são os efeitos das notícias. Todas as manchetes dos jornais televisivos hoje são desanimadoras e intragáveis. Não as citarei, pois que, tragédias são corriqueiras, exceto a vitória do Brasil sobre a França _ um placar expressivo. Meu café da manhã tem sabor de chocolate, embora seja muito amargo o valor. O leite, o pão, o achocolatado dão à vida um belo sabor. Mas falta cereais _ a marca que a criançada adora _, porque custam os olhos da cara. Queijo e frutas na mesa, nem se fala, já se tornou coisa rara. Eu brinco com a colherzinha na borda do copo enquanto misturo o pó ao leite e penso na economia. O barulho irrita a mulher. Eu? Não, eu não sou economista nem tenho economias; o contrário é o que é. _ Acabou o tomate. _ ela diz. A televisão mostra o homem jogando fora toda sua produção agrícola. Eu penso nos absurdos. Mais de 800 milhões de pessoas no mundo passam fome.
  19. 19. 23 Um terço da produção comercializada vai para o lixo. Três absurdos no desperdício de alimentos: Absurdo humanitário Absurdo Ambiental Absurdo Financeiro... Quantos absurdos nascem pela consequência de um absurdo? Fico mudo. A cabeça dói. Falta-me estômago para as injustiças. Ainda não inventaram “Engov” para alterar certa natureza psíquica. Eu pago impostos sobre tudo que consumo. Pago pela escravidão, produtos e insumos. Eu pago para ser brasileiro. Pago pelo que fui e o que somos... Chego à janela porque ouço cantar o bem-te-vi. “Cerração baixa, sol que racha”, o dia mostra a face de luz. Eu calço o tênis, me benzo, tranco a porta e caminho para a cruz.
  20. 20. 24 ARES DE MINAS Correm nas minhas veias os ventos de Minas, Oxigênio suave, perfumado de flores do campo; Aquele ar de ouro, pura suavidade mineira, Cheiro de puro mel, luzente como abelha, Que só o coração ingênuo aspira e flui. A nada mais se assemelha. Não que mineiro seja santo. Não, não é; Não é para tanto _ Eu mesmo nunca fui _; Mas o ar daquele campo cura qualquer quebranto E os horizontes enchem os olhos, enxuga qualquer pranto, Desde que mineiro também o seja de coração e todo o seu manto. Mineiro é isso: O intervalo entre o silêncio e o canto.
  21. 21. 25 GRATO Em homenagem à Luciana Grato! Por enxugar-me o pranto com o calor deste sorriso E amenizar minha dor com este olhar de ternura e brilho Cujos raios minh’alma aquece; pois viver é isso, E muitas vezes, disso, a gente esquece. Vaguei pela escuridão sem nenhuma esperança _ e sem vontade de tê-las _, Confesso: vagueei até encontrar você; E ao vê-la fui resgatado e liberto E novamente posto, deste lado oposto, _ Sob tua face _ oculto céu de estrelas. Sou grato, Pela vida que se ilumina. Inda dói, perturba certa angustia no peito, _ mas nenhum receio que oprima _, É que o passado nunca é desfeito; E cicatrizes são lembranças _ essas não tem jeito _, Só o tempo cura certos males e seus efeitos. Doce, doce, doce!... Água e fonte, perfume do campo, brisa... Carambola verde, trufas ao rum... Grato, por enxugar meu pranto. Grato por devolver-me à vida o encanto.
  22. 22. 26 OS ODORES DO DESTINO Os odores que recendem_ não sei _, Da falsa democracia ou catolicismo _ Acho que são dos negros _, cismo: Negros soldados da profecia, De todas as religiões, filosofias, A rede que porfias, Inconscientemente fias em preces E sabiamente teces dia após dia. Ribombam espantosos gemidos E nenhuma voz, nem vós, nem Deus, nem musica... _ Música para os ouvidos _ Nem mesmo boa rima. Será que existem almas, Ainda Alma divina? _ Acho que somos servos, negros _ cismo _, Nesse odor sem raro perfume, essa sina; Esse horizonte sem cor, sem destino, Somos todos irmãos, servos, anciões-meninos... Anjos d’algum céu Caídos.
  23. 23. 27 PAISAGEM POLÍTICA Com licença! Só um minuto, por favor! Se me permite, vou imprimir a paisagem. Vejo um horizonte amplo. Mas de onde vejo? Não tem janelas. Como observador, não posso avistar todo o círculo dum espaço vazio. Por detrás do meu campo de visão deve existir uma cortina escura, de escuridão ou de luz transposta, de um espaço percorrido. Preocupa-me essa nova geração que tudo tem e tem as mãos vazias. Preocupa-me o repúdio político e a falta de consciência. Tantas fobias. Quando essa nova geração perceber que são ferramentas do capitalismo e escravos do consumismo, como reagirão? Quando tiverem consciência de que trabalhando, trabalham em vão; se o salário de um mês não paga um par de tênis e não sabem ter os pés no chão; sentindo ter vivido e estar vivendo em vão; E o preço da faculdade é acorrentar-se à servidão; Como reagirá a juventude ao se darem conta de que é manipulada por sua própria omissão? Quão grande será o vazio quando procurarem Deus no templo e perceberem que todos os altares foram tomados para abrigo do ladrão?
  24. 24. 28 MEXA-SE Mexa-se, homem! Aprendeste os primeiros passos; superaste piores medos. Quantas vezes tu caíste e heroicamente reergueste? Os pequenos pássaros também se arriscam e voam, e a missão do homem é tão somente caminhar; Ao longo da vida temos que quebrar correntes e andar. Ao longo do caminho temos que semear E muitas vezes, em terras áridas somos obrigados a cultivar. Portanto mexa-se, homem, mexa-se! Dê o primeiro passo. E com o tempo, tornar-te-á pássaro. Poderá voar se livre das amarras tiveres o pensamento. É o que eu digo a mim mesmo a todo instante de cada vã momento. Os heróis do meu tempo são muitos: centenas... _ talvez milhares; milhões talvez _, Mas nenhum herói vale mais uma vida, salvo, outra vida que se desfez. Eu, entretanto, mal consigo respirar sozinho. Mas o fato de me esforçar e sempre seguir já faz com que eu me sinta um vencedor. Vanglorio-me de dar nó no cadarço, de evitar um tropeço, sair ileso... Mas o homem a caminhar é criança
  25. 25. 29 E a vida um tanto imprevisível no seu tempo aperiódico. O círculo do ser não ser, eu passo. Depois dos túneis, um novo horizonte. Não olhe para trás. Não perca tempo revolvendo escombros e túmulos A vida prossegue; é futuro; E a cada esquina do presente o tempo se faz passado E somente o presente tem brilho, todo o resto é escuro. É gasto. Gosto de pensar. Gosto de pensar assim, sem maldade, Mas tudo que o penso o faço por necessidade. Quanto tempo ainda tenho? Só preciso de tempo para amar. Mas o amor me desama, porque o homem vem aprendendo a se desamar. O homem tem três tempos, todos incertos. Único. Do tempo que me resta, desde que nasci, para os outros são gastos. E todo o tempo ao qual o homem tem posse é o instante já gasto. O imediato. O futuro é incerto, o passado se fora, O que vale do presente é o respirar o vento do agora. Quanto tenho de mim? Quanto tempo?... Agora tenho que pensar para o outro o que querem que eu pense, e o que pensem de mim.
  26. 26. 30 O tempo que me dou é o tempo que me ouço. E digo a mim: São teus os meus pensamentos, por isso tão pesada é a cruz. Tão precioso e suave o vento, o que vem da tua luz; brando, gostoso... E a consciência pesa-me mais que um céu tempestuoso. UMAS POUCAS LEMBRANÇAS Um dia, Fizemos um minuto de silêncio, E durante tal momento ouviu-se o grito de trinta anos de forçado mutismo. Velou-se no homem a situação, mas o túmulo da ditadura ficara vazio. O tempo a esqueceu. Fora apenas uma voz que no calendário se silencia _ talvez alguém a tenha como profecia _, a voz que a vida emudeceu. Seria apenas um gemido num grito sufocado? Um desejo interrompido, sonho mal sonhado. Passado aquele instante distinguiam-se pouco a pouco os sons da democracia _ nova criança meiga e mirrada, perene e teimosa, atrevida. Criada entre a dúvida, a esperança e o ceticismo; Mas que anda, anda sempre, mesmo que na corda bamba, se equilibrando, à beira do abismo.
  27. 27. 31 NA INFÂNCIA As mulheres lavavam roupa na fonte. Os passarinhos tomavam banho na água corrente da bica. Os pombos, entre uma revoada e outra, banhavam-se nas poças junto com as galinhas e as borboletas. O menino de pé no banquinho espia pela janela: Maria Preta lava roupa. Ela esfrega, bate, torce, enxagua, torce e põe pra quarar. Aí Maria canta. Ajunta a barra da saia no meio das coxas e canta. Ela se senta no barranco, sempre no mesmo lugar. Solta os cabelos e viaja para algum lugar. Por que é que Maria sempre canta tão triste?! Maria Preta tem pernas cor amora. Tem coxas grossas, morenas e longas. Tem dia que Maria Preta tem cheiro quente, de flor ao sol. Depois ela enxagua, torce, abre, sacode e chacoalha ao vento; então, põe pra secar. As brancas ficam no varal, as de cor na cerca, nas moitas e na grama mesmo. O menino fica horas pensando na flor de Maria. Se não tem vento o papagaio não sobe. Mamãe não deixa brincar ao sol de meio dia; pega insolação. _ heliose _, papai usa chapel. O padre que fala no rádio diz que Deus está em todo lugar, tudo vê, e sabe até o que cada um pensa; ficar olhando entre as pernas de Maria é pecado?
  28. 28. 32 Quando ela abaixa a blusa abre, os seios dançam. Geraldo é aleijado. É o homem de uma perna só. Que tamanho teria cobra? Ele anda rápido na muleta velha. Ele vem de longe, sempre chega com sede e com fome. O menino tem medo da cicatriz no lugar do joelho. Ele vem pra missa, se confessa e comunga. Ele vem de muito longe só pra falar com Deus; por quê? É tão tão longe assim? O sol começa a se esconder detrás do morro onde dormem as maracanãs. A sombra vai subindo, subindo, e as andorinhas brilham em revoada bem alto. Elas têm ninho nos buracos do barranco da estrada. O beija-flor entra pela sala e paira olhando as caras das fotografias; beija o santo da folhinha e voa reto para o céu. "Vamos ter visita", alguém diz. O menino sabe que pai está chegando; não sabe como sabe, mas sabe. Ele sai no terreiro e olha o alto do morro. Vê o velho em zigue-zague, no caminho entre as árvores, descendo a ladeira. Ele ri; todo ele é alegria. O velho tem um cepo. Só ele se senta ali. Chega cansado, suado, mas nunca ofegante. A camisa tem manchas de sal e forte cheiro de suor. Ele se senta, ajeita as pernas da calça e escolhe uma palha macia para fazer o pito. O menino chega e passa o braço pelo pescoço de gogó grande e se senta na coxa magra do velho cansado. E juntos eles descascam e debulham milho para tratar da criação: as galinhas no terreiro e os porcos no chiqueiro. Aí o velho prepara o cigarro. Passa a lâmina do canivete de um lado e outro diversas vezes que é só para amaciar antes de cortar a palha. Depois faz um pequeno talho nas pontas e dobra a ponta de uma
  29. 29. 33 pequena tira. Deixa a palha entre os dedos enquanto pica e espatifa o fumo. _ O café 'tá pronto_ avisa D. Deca_ o do seu pai 'tá muito amargoso, ôce num vai aguentá tomá isso não bobo; toma do nosso, 'tá bem docinho. _ Eu guento sim, uai, eu sou home. O velho ri de lábios presos, fazendo um leve movimento positivo com a cabeça, ajeita o casquete, pega uma brasa meio apagada, assopra, encosta o cigarro e da uma baforada. O olhar segue a fumaça em caracóis. “Em aparecida 18h00min horas. É hora da Ave-Maria.” _ o rádio anuncia. Ele, meu velho, sai, pega o terço, reza.
  30. 30. 34 MAIS QUE TUDO, MENOS QUE ONTEM Manhãzinha; Acordo desperto, Mais desperto que antes, menos esperto que ontem. A consciência se expande a cada mira, a cada amanhecer mirra. Quisera minha inteligência evoluísse ou estagnasse, mas oscila. A autoestima, de pouco estima já, amesquinha-se. Que cor tem a vida? _ pergunta-me a inocência. Inteligente seria indagar: o que é a vida? Sou um erro que respira. A vida seria, então, respirar erros... Não estudei em Oxford ou Harvard. Não tenho voz nem tenho direto a ter pranto. Mas grito, entanto, Grito não incomoda tanto. Mais valia antigos gemidos Em busca do tempo perdido, Sem mencionar Proust, sem metáforas e filosofias, sem âncoras. Nunca frequentei USP, mal conheço nossa geografia; Estudo o fantasma da psicologia: dia-a-dia, o drama intimista. Recorro a analogias baratas do universo da terceira classe: Água, guetos, tomate, pão, samba, forró, axé, fé _ coisas de peão; Tão raro é o tomate, tão caro o riso, tão pobre a refeição. Mas é preciso gritar. Eu grito. Perdi o bonde, onde? A autoestima já pouco se estima; mesquinha-se.
  31. 31. 35 Ir-se? Aonde? Sou o erro que suspira: um animal qualquer. Sou a ferramenta que sustenta esse mundo do mal me quer. Sou brasileiro, faço o que o outro quiser. Nossos ancestrais brigaram por terras Romperam serras Venceram feras de espécies Fincaram estacas. Somos herdeiros da bravura. Mas falta ternura. Abreviamos os passos Rompemos contratos Desatamos e refazemos laços Rompemos o espaço Vencemos a gravidade... Qual legado, deste tempo, deixaremos para a prosperidade? Não estudei em Oxford ou Harvard, nem conheço USP, Não tenho voz, só pranto; Mas eu grito. A velha natureza não se recupera jamais. Índio perdeu apito Falácias constituem a paz genérica do arranjo artístico do novo grifo. Veja as manchetes dos jornais: Atearam fogo em taxista Incendiaram consultório de dentistas Playboys espancaram mendigo Pedofilia e estupro na igreja Adolescente mata estudante para roubar celular
  32. 32. 36 Celibato _ padre não pode se casar. Casais do mesmo sexo conquistam direito a casamento Sobe o valor da passagem de transporte público e medicamento Gente e bicho morrem de fome e sede no sertão Turismo espacial começa no próximo ano Salário de um jogador de futebol pagaria cem médicos. Bunda e peito de silicone é o novo perfil estético. Verba para construir um estádio de futebol daria para construir mil e duzentas escolas ou dez mil creches Mais corrupção: Políticos votam e aprovam aumento no próprio salário. Caralho, mano! _ Desculpe! Não frequentei a USP. Deixarei como herança a ignorância: a que herdamos A que aperfeiçoamos e a que construímos; tudo. Tudo do nada que evoluímos. Quisera eu a inteligência fluísse ou estancasse A consciência falasse A inocência ouvisse O tempo silenciasse e a sabedoria urgisse Como os macacos: Dividem o pão, se acariciam, respeitam a hierarquia, são fiéis, aprendem com os senis, mantêm a harmonia, respeitam a natureza e se humilham aos homens; sorriem... Homem? Paga mico. Se mandarem obedeço, fico.
  33. 33. 37 COLEIRA E ADORNOS Tenho uma coleira de espinhos cravada no pescoço Suas pontas disformes já não me doem; Incomodam-me, entretanto, tantas carícias, tantos agrado, tanto osso, Que os amos me doam e quase me destrói. Chibatadas e pontapés verdadeiros machucariam menos Que atrativos e carinhos que confundem os sentidos, Se quando rezo, uivo ou choro, solto meu gemido E a eles soam como riso e canção. Por isso a amo, coleira minha, e suas farpas, Porque quando titubeio, desequilibro e me perco Ao perder-me logo pego o jeito E reconheço imediato a minha posição. Não me importa, sinceramente, ser homem ou cão _ Seja o que for _ Aos olhos daqueles que despreza o que sou; Sou apenas mais um da matilha ou multidão Mas que vive em prol da virtude e do amor Tendo a paz, só minha, natural do coração.
  34. 34. 38 VARIÁVEIS DO HUMOR O mundo mudou: A visão do abismo A visão do pecado O otimismo. Um algo novo (hipotético ou não); o novo certo, antes, levava-o à inquisição. Hoje o riso substitui o pranto. Isso é mudança Evolução. O mundo é mais tolerante. O certo, outrora, extraordinariamente novo e verídico, o levaria ao exílio, ao desencanto. Galileo Galilei... Os inquisidores mudaram; os pesquisadores também. Também os pesquisados. Hoje, certos erros nos torna santo. Lendas tornam-se enigma científico. Crenças reais tornam-se abjetas, coisas do mitismo. Verdades antigas tornaram-se mito. Criou-se a anistia. Tudo muda. Tudo muda um dia. Mas, risos vindouros não apagam fissuras de um pranto retido.
  35. 35. 39 Todo o mundo mudou. Mudei. Muda-se o humor a razão. Muda-se o sentido, o jejum, o luto, o absoluto. O humor muda. Muda o humor... O amor, o amor fraterno. O humor moderno, nada mais; Mais nada é absolutamente eterno. CREPÚSCULO Toquei nas ondas e o mar ficou agitado Inalei a brisa e ela se transformou em ventania Contemplei o sol até que o céu escurecesse. Nada mais que um dia, um longo dia, é a vida. Vem a escuridão e com sorte estrelas Vem o friúme e com sorte aurora Madrugada, início ou fim? Outro dia...
  36. 36. 40 OS OLHOS ARDENDO DE AMOR Tinha os olhos ardendo de amor, o coração palpitante, e no riso meigo percebia-se nítida ansiedade. As mãos úmidas, inquietas, ora ajeitava os cabelos, ora acariciava a si mesma, enquanto mordia de leve os lábios, tendo o olhar parado em algum ponto em mim. Impossível imaginar o que pensava. Contudo, bem sei que lançava uma onda poderosa, energizante, que fazia meu corpo inteiro arrepiar-se estremecido pela impetuosidade do mistério que, me atraindo, me arrastava para juntinho do seu corpo agonizando de desejo. Tentei resistir. Sabia, porém, da minha fraqueza e da incapacidade de ir contra as ordens do coração; pois quando meu olhar confronta-se com os seus olhos, sempre, minha alma mergulha para dentro de ti, deixando apenas um pouco da consciência do que sou em mim, para que eu não esqueça que pertenço a você, e que toda essência da minha alma só não me abandona para unificar-se definitivamente e eternamente na sua alma, para que não ocorra de o mundo envelhecer e se acabar sem que todos saibam o que é amor. Como os poetas filosofar-se-iam? Senão o amor, igual ao nosso _ chamas flamejantes _ o que mais inspiraria lirismo à voz da paixão? Entende o que eu digo? Separados somos autênticos; e as chamas do nosso desejo jamais se apagarão. Que saudade!... Tínhamos os olhos ardendo de amor e os caminhos inversos.
  37. 37. 41 NATUREZA SOTURNA Abraçara-me, primeiro com os olhos _ luz divina _; depois com abraços e, sabe-se lá, quais pensamentos. E oferecendo-me os lábios à espera do melhor beijo acomodara-me no seu colo aconchegante. Oferecera-me os belos seios como fosse eu a tua criança. Dera-me tudo, sem restrições, e com carinho alimentava-nos de esperanças. Esperança que jorrava daquela alma purificadora _ fonte cristalina. Eu, ambicioso e cruel, lhe abria o coração a verbos defectivos causativos e anômalos _ navalha afiada, essa língua impiedosa, sem compaixão. Palavras silentes que rasgam, rasgam, rasgam... Sem compaixão. Alimentei teus sonhos, despretensiosamente te cobrindo de ilusões. Devia ter-me deixado à míngua, morrer de ansiedade, me negando o néctar da felicidade. Não, não devias imortalizar-me como fizera. Pobreza e desamparo aos ingratos; E o manjar místico de quimeras às almas soturnas. Amou, então, até minha excêntrica soturnidade. Por isso mais e mais te admiro: tens uma maliciosa ingenuidade. Por isso, e muito mais.
  38. 38. 42 Mais que amigo! _ bem mais, tu sabes, bem mais. Mais que amantes... Dois bobos em humílima disposição para o espanto e encantamento. Vampiro. Eu vampiro, tu borboleta. Tendo a nosso dispor a boceta de pandora e o brinquedo, onde encerra todos os males, contudo, igualmente a única cura, amor. O lado negro da magia sobrepõe-se à beleza singela da inocência _ essa borboleta dos lamaçais pós-chuva de verão. Devia ter-me deixado ao vento, ao léu, vagando nos céus, nu de estrelas; devia. Ambos admirando a lua, inexistentes. Mas o homem pertence à vida, assim como a vida ao homem e ás serpentes. Tínhamos que nos conhecermos. Todos dizem "eu te amo" ultimamente. Eu não, não mais. Mas teu olhar clínico o percebe: amor oculto _ nunca secreto _ de vampiro faminto, indolente, indiscreto; De alma obscura. Uma poça para o teu breve voejo. É pena que tu sejas sol, e a vida fizera-me de natureza soturna. Um eclipse, talvez, o tempo que a felicidade perdure.
  39. 39. 43 DIA OFICIAL DA DEMOCRACIA Domingo, 7 de outubro 2012 Céu claro. Desponta com o sol a expectativa, É dia de exercer a cidadania E escolher por votos as diretivas. O povo vai às urnas eleger candidatos ou partido Quem serão funcionários, representantes e amigos, Que trabalharão em prol das comunidades e municípios. A todos é assegurado o direito democrático desse ofício: Candidatar-se, escolher e fiscalizar, E em caso de crime contra os bons princípios Cabe ao povo, na justiça, o ato de impugnar. Dos erros democráticos aos quais estamos propensos: Abuso da liberdade, má fé, falta de bom senso; Por vezes ficamos frágeis, confusos, revoltosos e tensos. E entre o certo, e o errado, e o que eu penso; Vem o ilícito, o desumano, o imoral... Por isso é importante ficar em alerta, em exercício, atento ao sistema; Pois a própria história nos ensina, julga e condena, Réus, cúmplice, e algozes de duras penas.
  40. 40. 44 Hoje a cidade, enfim, acordou silenciosa. Sem jingles, sem fogos, sem gritos, só contenda; Mas as ruas estão cobertas de panfletos _ um tapete. Que ironia! Entre tanta imundice de campanha de vereadores e prefeitos Vejo caras inúmeras e o slogan do partido verde. O povo escorrega no tapete da cidadania Subindo e descendo as ladeiras da liberdade Mal sabe o eleitor que, hoje na sua cidade, Ampliam-se os degraus da nossa democracia. Brasil, dia de eleição, um grande dia!
  41. 41. 45 ÉRAMOS PATRIOTAS Éramos; Patriotas sim, éramos. Apesar de... Éramos capazes de perdoar e pedir perdão. Éramos capazes de amar. Éramos mais que um povo, Éramos um modelo novo, Éramos nação Apesar da cegueira. Até que pintamos a cara, e naquele momento renascíamos. _ E renascíamos fortes _ E demos a cara pro’s “caras” _ apesar da cegueira_ Enfrentamos os cães Derrubamos a grade Abrimos as celas Escancaramos portas Reabrimos janelas e içamos bandeira. E mostramos a cara para o mundo. Então, perdemos nossa identidade E nos tornamos estrangeiro. Mas não quebramos totalmente a cara, Entretanto, nos tornamos apenas povo Embora cantemos: “Ah! eu sou brasileiro...”.
  42. 42. 46 GOSTO DESSE GOSTO INSANO Gosto desse gosto insano De desejos sórdidos que tiram o sono Desse sabor insosso, agridoce, De desengano. Gosto de amar o amargo engano De ser unicamente teu amor, belo, profano, Que fere e cura qual deus tirano. Das lágrimas das flores que assassino Me banho, me lavo, me divinizo pra ser divino; E me largo de alma pra não morrer E sujo meu corpo e morro menino Morro de corpo e alma pra renascer Amor eterno, onipotente, sublime, Lindo.
  43. 43. 47 HOMENS DE POUCA FÉ Assim como estamos _ com tamanha fobia social _, Como será o amanhã? Assim, Nós, homens de pouca fé, que, A tudo aceitamos e em nada cremos Matamos a Maomé e os sábios pensamentos Crucificamos Jesus Cristo a cada renascimento, Não devemos mais rogar a Deus por perdão Sem antes avaliarmos nosso comportamento. O pecado nunca morre E sem o arrependimento As almas vão em vão por muito menos.
  44. 44. 48 ACONSELHA-SE AO CIDADÃO Ao sair de casa fique atento Olhe para um lado e outro, Para fora, se fora, olhe para dentro. Repare se tem algo suspeito. Olhe se tem estranhos nas proximidades E não fique sozinho no portão. A violência anda solta, Mas a culpa não é sua, É da situação; É da sociedade. E sociedade não quer solução. Se sua rua for escura, mal iluminada, Não ande na sombra, vá desviando-se dos entulhos e dos lixos na calçada. Mas não desvie o olhar da rua, não; Não olhe pra cima, para lua Lembre-se: Os carros são donos da rua. É isso. Cuidar-se é seu compromisso. E se acidente acontece, você, Só você É culpado por isso.
  45. 45. 49 MARISA MONTE E PAZ CELESTIAL E de repente Marisa Monte. Larguei a filosofia e abri as janelas. Os livros não guardam sons cósmicos; E poucas palavras ferem e acariciam suave e doce tal “Sintomas de Saudade”. Ave, Marisa!... O céu se abria. E de repente Deus me disse: _ Pare! Vá ser feliz. Fechei os olhos e adormeci. Depois, sai. Foi quando te conheci.
  46. 46. 50 ALMAS E FLORES Nós Andamos no mesmo jardim Tocamos nas mesmas flores, Nós nos acariciamos Nós nos abraçamos De mãos dadas, entrelaçados, Percorremos juntos por esse canteiro. Nosso olhar, borboletas aos pares, revoando... Nossas almas enamorando-se. Um perfume doce, suave, sopra os meus sentidos... Teu hálito, entorpecendo minhas asas. Eu balanço, paro, cedo; E a vida, então, se reproduz no movimento do beijo.
  47. 47. 51 O BOM JARDIM Era um imenso jardim _ imponente berço de flores _, Onde nasceram violetas, rosas, muitas marias E Maria das Dores. O sol se erguia para vê-las vaidosas nos seus trajes caipiras: Véus, panos de seda ou chita; E beijando as faces morenas refletia ao longe O seu gozo, nos montes serenos de cristais e bauxitas. Era um imenso jardim, o Bom Jardim, de canteiros exóticos, cheio de mistérios. E os Perobas e Pereiras fizeram dos Ferreiras santuário e monastério. Oh! Juízo divino, lembrança que me rasga o peito, aonde anda o perfume, as flores e tanto brilho, que outrora fizeste alumiar os sonhos de tantos homens, e deste, desde menino a homem feito? A lua inquieta andava só, do entardecer à madrugada, Colhendo dos vales todos os fatos para novos contos de fadas. Feito raio de luz cortante em meu coração transpassa a lembrança, dos tempos idos, sóis e luas e tranças... E lança-me, à lua e aos montes, velhos sonhos em novos sentimentos. Perdoai-me, ó flores, perdoai-me, ter fugido à minha sina; Mas um dia me hei de voltar aos nobres canteiros de Minas.
  48. 48. 52 O TEU PÃO E VINHO De tudo a que trituras dia a dia Mastigas, engole e te abasteces, Satisfeito _ decerto _, dormes, Entregue ao sossego que te deste. _ o sono dos justos ignotos. De tudo a triturares sem estima Achais sangue, suores e rimas, De inocentes pecadores poetas Que lavram e cultivam verdades incertas Para lho dar como pão da vida mentira. Nenhum anjo desce e rega canteiros, Todavia podam galhos que sombreiam destinos E fincam estacas nas divisas inda vivas, Entre o velho homem e o ancião menino. Do madeiro sobrante façamos versos E da cruz perene puramente leveza E elevemos ao alto o pão da incerteza Para a benção de vós, sábios gigantes disléxicos.
  49. 49. 53 ROMANCE Talvez não vivamos juntos o romance da década, o mais perfeito. Talvez não nos encaixemos nos dramas e comédias de Shakespeare; esses, Que todos encenam com tanto afinco e perfeição; Mas nunca duvide de que esse momento é único, exclusivamente nosso, eterno, palco e leito. Sonho e ilusão. Só nós o temos E pelo o amor fomos eleitos. E a nós nos pertence o mais belo poema de todos os tempos: E somos nós que compomos e dividimos o palco, Marcamos os intervalos; E temos a proeza de encenar o que compomos. O que somos _ e aquilo que tivermos feito. E saber que tudo isso nasce dos teus olhos e só os meus olhos é capaz de ativá-los! Não há tempo que impeça o amor de ser amor Nem plateia que lhe imponha intervalos; Só o amor censura o amor Porque o amor só a si se respeita. Vivemos nossas tragédias inadiáveis Arrancamos risos com nossas tolices, _ seriedades bizarras; não somos palhaços.
  50. 50. 54 Sofremos a dor alegre de viver contentes ou tristes. Como? Vivemos simplesmente. A dor é algo que existe; a vida é um pouco que a tudo comporta, Um pouco de tudo consiste. Tudo é igual e diferente. Tudo em nós, a vida, é de improviso! Tudo nos deixa alegre ou contentes. E por fim é outro que assina meus poemas Canta nossa música Vive o nosso romance, tudo que idealizo; Impõe o não ou sim Blasfema meu divino e determina para tudo o fim. Mas é nosso, teu e meu, o segredo da rima oculta no fim da estrofe. Às vezes, nem o coração e a mente sabem o que a alma sofre. Hoje, talvez, compomos algo novo de novo; E deixe que o mundo pense que são deles todas as maravilhas que os torna tão felizes.
  51. 51. 55 ROSAS E ROSEIRA O pão amanhecido, no prato sobre a mesa, espera a mordida. O olhar faminto, entretanto, espia o bordado da toalha colorida. Os fios d’ouro contornando frutas e camponeses nada inspiram. Deveras, O homem acorda pra a vida e compromissos o cega. O vapor da fervura e o cheiro do café se espalham Incomoda a quem passa Acorda as crianças Embaça a vidraça, O espelho, Menos o homem que luta, luta, Luta e passa; Mal suporta ao peso, a conduta O próprio reflexo no espelho; Suporta-se de pé para não dobrar os joelhos. A roseira casta, semínula, seminua, desbrochada Já não tem céu, lua, estrelas... nada. Nenhum brilho, nada por sonhar. Teu sol é néscio, meteoro da madrugada Vai-se o esplendor, dia a dia, o perfume... Da flor verdadeira ficam sombras _ Mesa posta _ Rosas e roseira. Um céu sem lume.
  52. 52. 56 A FLOR DO DIA ... E num vaso há muito tempo esquecido... No ramalhete escolhido E por teus olhos reverdecidos, Uma flor desabrolha. O dia passa... Pétala por pétala perecerá. Se quiseres admirá-la, Se quiseres acariciá-la, faça-o. Faça-o já. Mas faça-o por ti mesma. Se não se sabe qual afago enleva as virgens flores, Se desconhecido é tão íntimo e deleitoso orgasmo, Simplesmente faça-o. Faça-o por prazer; Sem esperar para ambos o acréscimo de valores _ Inocente e bela é a nudez do amor. Porém se as julgares ignóbeis e desejares esquecê-las, Ignorai-os a todos, é mister que o faças, são teus: jarro, ramalhetes, arranjo e flores. E então pétala por pétala perecerá até desfazer-se ao pó. É o destino do ser sensível. Se quiseres, entretanto, colhê-la e torná-la eterna, Eis que agora, já, é o tempo.
  53. 53. 57 O amor é feito de pétalas de emoções que em nossa vida brota como flor e esvai-se como um vento; e ao nosso coração fere ou acaricia antes de perder-se no infinito horizonte do tempo. Saiba que a vida é uma estação em decadência, Seja ela de sol, cores vivas, gris ou fria, Nós nada somos além de flores de um dia. De tudo, o que fica é lembrança; Pois, certa e impiedosa é a noite cega que nos cega. E certamente nos hipnotizará o Senhor da vida num sono profundo. Onde acordaremos e quando, é o maior mistério para a humanidade; E o maior temor deste mundo. O que se sabe é que o amor verdadeiro é a ponte que liga o agora à eternidade. Todo o resto é ilusório, é banal; e eu reconheço no amor que sinto a essência que nos transcende na imortalidade, e que isso é bom. Bom e natural. Sejamos, pois, sensatos, colhamos flores, Suavizemos nossas dores, Perfumemos-nos; cônscios do que é inevitável. Ao menos teremos esta lembrança como música a embalar nosso sono.
  54. 54. 58 A MIM ME BASTA O que me importa se lá fora motores roncam nas ruas congestionadas? O que me importa, agora, postes e bugigangas interrompendo as calçadas? Eu tenho que ter paciência para encontrar você. Eu devo ser humilde para te reconhecer: Minha felicidade. A vida é um tempo de sorte Descanso da morte Período em que ambas as consorte se esquece da lida. De tudo se tira poesia; _ poesia e dor _ E da dor poesia. O pregão dos camelos me soa como música Num tom desafinado qual orquestra da vida Numa dissonância nostálgica de chegada e partida. A imperfeição nos leva ao perfeito, Passo a passo se chega ao pretendido ou ao que seria, E ao fim se descobre incauto, Tão distante, contrário ao eu viria. O avesso do verso da poesia.
  55. 55. 59 A TRISTEZA DE ONTEM Ela bate em minha porta Ela bate com insistência Ela sempre vem; Vai e volta. Bata bate, e se posta. Ela testa minha paciência Eu finjo não ter ninguém. Ela já esteve mais feia Com uma cara esquelética e carrancuda Tentou se afogar em prantos Quase me leva a loucura. Já me fez sérias ameaças Já tentou invadir-me por outras portas Já me apedrejou o telhado Quis levar-me à sepultura. Já tirou minha calma Já feriu minh’alma Já me fez falsas juras. Ela sentou-se à minha porta. Ela prostrou-se de joelho Vi reflexos faiscarem
  56. 56. 60 Meu eu só no fino espelho. Eu a olho disfarçado, pela fresta, Eu a olho de soslaio _ liberdade que me resta. Eu a olho por entre abril e junho Quando planejei a festa. Mas quero olhá-la de frente E não mais de soslaio Eu a quero nova, de presente No meu 15 de maio. Hoje ela está tão bonita! _ vestida de festa _ Camuflada de alegria. Fantasiou-se de “Margarita”. Tem amarrado ao cabelo Uma flor e um laço de fita... Ela se veste de longo, _ vermelho verde e rosa _ Mas hoje ‘tá de branco e parece aflita. Ela quer que eu a ame ou que reflita? Ela ‘tá de chocalho no tornozelo Tão tímido quanto as castanholas; Deve ter nas mãos algum novelo Cujo destino enrola e desenrola. Eu a ignoro
  57. 57. 61 Mas me perturba as batidas e os silêncios dos seus gritos, Por isso paro; fecho o livro, Volto ao índice. Escolho outro título e reflito. Leio o poema _ nem feio nem bonito. Bem calha ao meu conflito. Ouço as vozes: Outro silêncio, Outro grito. Mas hoje eu reflito de cabeça erguida Fixo meu olhar no infinito É no céu que brilham as estrelas Estrelas é que se tornam mito. Eu vou abrir a porta, Vou deixar que ela entre. Vou imprimi-la numa página E ver como ela se sente. Afinal ela é minha _ só minha _ É feia e triste, Mas é fiel à minha mente. É dor, é mágoa, é saudade É esperança, é tudo! Além de tudo é amor. Tem candura e sinceridade!
  58. 58. 62 Então, que ela entre. Entre com tudo que tem. Despeçamo-nos juntos, dos anos, E abracemos-nos para o ano que vem. Ela é a tristeza de ontem É a tristeza de hoje também Mas é a única tristeza amiga Uma tristeza que só me faz bem. Entre luzes de natal E expectativas de reveillon Vivamos euforia de carnaval Sob luto de paixão; Saudemo-nos com lembranças, E como brinde de ano-bom, ascenda-se o coração! Bebamos sol; Bebamos, Sol! Ceemos manhãs; Aguardemos ressurreição. Afinal, Eu sou o templo do tempo Sem mim tempo algum não é ninguém!
  59. 59. 63 ALGUÉM Alguém pode ser “o cara” Alguém pode ser ninguém; Segundo Aurélio é nada, Segundo o mestre é quem algo tem. Devagar subimos, degrau a degrau, a escala dos ensinos; Como ancião do tempo, velho feito menino. Alguém Pela rua, intrépido e calmo, ou não, Não importa, Quem passa, passa, apenas; Ou volta. Há um vulto na esquina Ereto, atento. Mas quem tem fé é cristão, é bento. A música, violão e viola, o chapéu. No céu estrelas, óvni, um véu. A lua indiscreta Chora Aurora no bar, Um alento. Há um vulto na esquina Ereto, atento. Cheiro de frutas, fim de feira.
  60. 60. 64 Uma a uma as portas se movimentam As lojas silenciam e se fecham. Alaridos distantes, Transito lento, É sexta. Há um vulto na esquina Ereto, atento. O poste inerte, ao pensamento, indiferente. O que será que ascende a luz? Há brisa e vento. Passam-se horas, um minuto, dir-se-ia, O filósofo invejaria. Tudo seduz, O verão tórrido daquele universo O poeta a devorar o verso. Há um vulto na esquina, alheio, Ereto, atento. Feio! Homem? Ladrão, assassino, turista, pedófilo, ET, alma penada? Nada. Digo “bom dia!” disfarço e passo. Ele move a cabeça e ri, discretamente. Veja só, coitado, é gente.
  61. 61. 65 ALGUMA COISA Já repeti o antigo ritual diversas vezes E a minha deusa sequer me olhou. Já orei, gritei, atirei palavras ao vento; Os poemas que fiz foram infecundos, Nada vingou. Nada além do que já éramos: amigos. Só resta atirar no escuro abismo meus pensamentos E tudo que fiz por amor nesse confuso mundo. Mas alguma coisa deve haver que possa ser feito, Que não seja extraordinário, mas que seja perfeito; Que substitua palavras e gestos E seja manifesto o que se oculta no peito.
  62. 62. 66 APÁTRIDA Sou católico apostólico, não sei por que, romano. Carrego o peso do pecado imaginário Por vezes feito, praticado, Outras, pensado, desumano. Na verdade sou mineiro transitabirano _ exímio imitante de Drummond _, Despatriado, expatriado, em trânsito Entre os montes, cabisbaixo, calado Falando com o mundo Olhando pra todo o lado Gritando, chorando, um silêncio alado. Sem pai e sem mãe, ninguém! Gato-do-mato, Alguém que se orgulhe dos versos que faço. Que sufoquem! Sufocados sois, o mundo não pode respirar. O pensamento oxigena o cérebro _ definitivamente o homem não deve pensar. Viver, apenas, basta. Aquém de tudo, Sem prestígio, Gato-do-mato... Sorte incasto.
  63. 63. 67 O OFÍCIO DE AMAR Que bom amar em campo, em missão, a qualquer hora e em qualquer canto, Em todo lugar! A missão do homem é ensinar a amar, amando, Através da arte, a arte de amar. A arte de sentir, por meio da realidade ou ficção, da alegria ou dor; através das incertezas. Seria isso viver? Na desordem da voluptuosidade, sensações, transmitir com autoridade o que não se domina. Mas fazê-lo com perfeição E sempre ir além. O poeta o faz, desajeitadamente correto, quando ama. Nenhuma alma, em sã consciência, o faria tão bem.
  64. 64. 68 CERTA HORA DA TARDE Certa hora da tarde cada instante é o instante É decisivo. O suspiro de meia compensação é irrelevante, nada acrescenta, não obstante, reduz. A verdade é absoluta E a ciranda continua a girar... O semeador escolhera suas sementes. Há sonhos, flores, há frutos, brisas... Mas à sombra se descansa na dor. Também há lamentos por tantas perdas e doces reminiscências. Mas como viver é vestir-se de otimismo e entregar-se às esperanças, sigamos; Sigamos assim, ignorados e esquecendo; recordando e aprendendo. Os erros quando avaliados são como vacina; os acertos quando monitorados e estudados se aperfeiçoam e tornam-se hábitos. Conquistas são curas. Certa hora da tarde crescem os filhos. No jardim se lê as estações. O mundo continua vulgar e imperfeito, contudo É perfeito porque se pensa mais, se reclama menos; se faz pouco, E muito de tudo, pouco a pouco de ajusta:
  65. 65. 69 Marias, Helenas, Lucianas... O café amargo já não parece tão ruim, Engolem-se pílulas sem água, Papo de velho torna-se valiosos. E o espelho!... O espelho nos revela traços de ancião. Livros grossos, versos ou prosa, sem figuras _ tanto faz!_, devoramos; Em tudo se lê a vida. Ah, o coração! O coração acorda ou adormece _ o crepúsculo o envolve _ O senhor da luz ajeita o manto. Certa hora da tarde... Luz.
  66. 66. 70 AMEI SIM Amei sim. Amei por você, amei por mim. Amei por ela, Amei Amei por amor. Mas amor solitário é amor inimigo, predador, Amor que destrói a si mesmo O próprio amor. Amor sem abrigo, sem casa. Pássaro sem asas, sem moradia, sem ninho. Amei assim: sozinho. Por muito tempo _ tempo em que amei _, amei a tua companhia. Tinha-a tão perto! Perto em mim. E acabei amando assim: fantasia. E eu a amei, a possuía, devorando-a sem pudor; Isso também é amor, sem hipocrisia. Amor que dói, e no auge da dor gera estranheza pela estranha alegria. Mas havia uma forma real de amor no gozo da dor que doía. E talvez seja a única pureza do amor a dor da agonia. E eu a amei assim: devorando-a sem pudor Na calada da noite e em plena luz do dia. E te amei! Como te amei assim! Ilusória orgia. Vem Helena! Vem Maria! Por favor, ocupar novamente esta mente vazia.
  67. 67. 71 UMA MULHER E outra vez me vem o jovem petulante, Arranca-me a máscara e me atira, na cara, a realidade. Não posso repreendê-lo. Não assim, Diante da vida que se renova e me sorri. _ Não é isso que sonhas nas horas mortas? Seja esse o trem que o atropele ou o mar no qual em pensamento tantas vezes te afogas. Vai! Se atire desse penhasco e descubras o que existe além do escuro desse tenebroso abismo. Afinal, ela é apenas uma mulher! Humanos sentem as mesmas dores, o que muda são caras e bocas _ máscaras. Todos se maquilam para disfarçar uma tristeza. Vá! Deite as cartas na mesa. Ela tem olhos de rubi _ lindos! _ penetram minh’alma. Mas há certa tristeza perturbadora; um vazio iluminado por uma ternura sem cores. Porém, não são frios, são incompreensíveis. Como um jardim sem flores no outono _ folhas se desprendem, e o vento se vai sem o melhor perfume... Ficam espinhos e flores ocultas. O amor vê além, conhece o futuro. É um dom que fere,
  68. 68. 72 É o sabor amargo do fruto. Ah, essa mania de ver um traço de tristeza em toda beleza! O belo só é belo pelo enigma do seu abstrato. Mas posso ver uma alma inquieta pedindo socorro em meio àquele esplendor enigmático. Tem um sol por detrás da geleira temporal. É um enigma de estrela. Será que ama? Será que é amada? A hora perigosa tornar-se-á mais suportável tendo um sonho a sonhar. Há um abismo desconhecido entre o nada e o improvável. Talvez não seja intransponível. Talvez, quem sabe, um labirinto de flores e exótico perfume inspire o instinto guia do amor. Seja como for, faça-o sua utopia e se entregue novamente ao gozo de viver. Mova-se, vamos, ela não te vê! O minério é imperceptível encoberto pela poeira ressequida. Uma estrela não reluz se não vencer o espaço escuro; e o sol só se põe pela vaidade de se ressurgir. Portanto vá, agora, e exiba-se como raio e trovão. E se essa tal eletricidade que pressentes seja a energia do amor... Feche os olhos para os conceitos, pois, só o amor é real, o resto é mito, bem sabe, o que não é verdadeiro é imperfeito. Nem penses nisso! Ela nem te conhece; e tu mal conheces a ti mesmo. Talvez ela o queira; talvez seja ela... Ela.
  69. 69. 73 E tu de sapo tornar-te-á príncipe. Bom, nem tanto; mas um duende aventureiro sobrevivente na terra dos esquecidos. Deus meu, como ela é linda!... DIAGNÓSTICO DO MUNDO O mundo nunca esteve tão conturbado, tão carente e confuso. As pessoas precisam de autoafirmação. Como se não bastassem velhas dúvidas: O que somos? De onde viemos? Pra onde vamos? Não agimos. E se agimos não nos conformamos. Nada nos alivia. Apesar da tecnologia, nada supre o conforto real de outra companhia. E da própria companhia, o que já não temos. Pois o homem perdera-se de si memo. O mundo anda carente. Muito deprimido e, por isso, deprimente. Doente. Andamos na contramão. Todos carentes de atenção. Carentes. Doentes de autoafirmação. Mal de amor, Falta de amor; Dodói, Sofrendo do coração.
  70. 70. 74 O OFÍCIO DE AMAR Que bom amar em campo Em missão, a qualquer hora, em todo lugar Em qualquer canto Amar. Amar e amar; tão simplesmente amar. A missão do homem é ensinar a amar, amando Através da arte. A arte plena e onipresente, amar. A arte de sentir, por meio da realidade ou ficção, da alegria ou dor; Através das incertezas. Essa nobre ubiquidade única e eterna, universal, amar. Seria isso viver? Seria isso a felicidade? A arte de amar? Se é que existe algum segredo, eis, então, por onde começar. Na desordem da voluptuosidade e sensações humanamente divinas, transmitir com autoridade o que não se domina. Mas fazê-lo com perfeição. O poeta o faz, desajeitadamente correto, quando ama. Nenhuma alma, em sã consciência, o faria tão bem Amando.
  71. 71. 75 QUE MULHER É ESSA À Lú, por amor e gratidão. Que mulher é essa Que me aparece do nada E qual estrela na madrugada Ilumina meu caminho? Que mulher é essa?! É de uma expressão forte; E ao mesmo tempo doce e serena... E sua tez morena, Com ares de Pandora, Marias e Helenas Figura certa dor... _ secreta dor _ Cuja nuança de flor exala Nubífugo vento amor Transforma em carinho? Que mulher é essa!? Minha face pálida, Moldada sob a máscara de denotada simpatia Cujo tom áspero se adapta aos tempos De falsos amores e falsas alegrias Já adquire um novo matiz. E conforme o soprar dos ventos Liberto pouco a pouco os sentimentos E às vezes acho que posso ainda ser feliz.
  72. 72. 76 Que noite longa! Há muito minh’alma dorme. Na escuridão, fantasmas ainda flutuam... Minh’alma, deveras, há muito dorme!... Mas há um brilho detrás da densa névoa da lua. Ainda se abrem rosas... Casais de mãos dadas pela rua... Ainda se abrem rosas! Enquanto há flores, há vida! Enquanto se suspira se inala Poeira desses tais ventos A vida continua! Oh! Eu quero viver, inalar perfumes, De flores e estrelas, que depuram os ares; Ir de serena brisa pelo infinito A pisar de novo singelos pilares E pousar meus olhos cegos de vaga-lume Nos olhos tristes dessa deusa, poderosa musa _ auréola de nume _, E iluminar de vez nossos altares. Quem é essa mulher De alegria entristecida, Carente de abraço Mas que esparge luz no espaço, Iluminando minha vida?
  73. 73. 77 PASSO HORAS CONTEMPLANDO De vez em quando um sorriso Que eleva ao máximo meu deslumbre Ela é surpreendentemente perfeita Embora me cegue tal vislumbre. Um olhar para apaziguar meu coração Na hora certa em que já não consigo controlar o latejo Mas, estúpido, tímido e livre; não sei disfarçar o desejo. Ela percebe e não demonstra saber. É recatada, tem domínio, sabe como se conter. Eu procuro no corpo sensual, de postura rara e exemplar, sinais de desejo. Nada, nem um gesto revelador, nada insinuante, nada; Exceto um perfume de mulher que meu cérebro insiste em interpretar como aroma sexual de fraquejo. Um grito exuberante. Como apelo que vem durante o beijo. A vida já não é uma única sonoridade. Os tambores soam. É como uma orquestra instrumental a executar todos os tons dentro de mim. Passo horas contemplando... Ela regente; eu sem mim.
  74. 74. 78 OBSESSÃO MINHA Obsessão minha Dor. Obsessiva luta Amor, Vento,Vênus Folhas. Palavras outras Ostras, pérolas Poesia. Cor Manhãs Noite-dia. Obsessiva dor minha Poesia. De olhares que ignoro Ignoro por ela. Risos que choro em riso Banguela. Diz o poeta: imploro por ela Na passagem da lua _ em eclipse_ sempre há elipse Invólucro de aquarela. A face de Vênus alumia em avesso Os dois satélites da alegria; E o olhar, vida minha... Obsessão, dor, poesia. Sem mais Manhãs, noites-dias.
  75. 75. 79 NOSTALGIA Entra pela vidraça uma lembrança que assovia Uma música desconhecida Feita de dor e alegria Cujas notas é um misto de candura, Uma ode de aventura, Quase poesia. A cortina dança, dança lenta. O vento, não sabe, mas venta Uma lembrança triste que acalenta. Cada pingo que respinga é um pingo Esquecido fora do esboço que fiz E agora me vem o vento lento A pô-los nos meus is. Meu arabesco incompleto se completa _ Não como a janela que falta um pedaço de vidro _ Mas como a cortina que baila Com a música que mexe comigo. O que fica lá fora rola Em gotas pela vidraça E dentro de cada esfera, o que era é O complemento de toda graça.
  76. 76. 80 PONTO INICIAL Depois dos teus beijos adormecem, enfim, Exaustos, todos os fantasmas que abrigam em mim. Os fantasmas perturbam, Perturbam, Mas fantasmas moram e adormecem em qualquer lugar. Leve como um pensamento definitivamente pensado, Correto, em linha reta, tal qual o poema de Pessoa, Sem pontos que interrogue e sem exclamações. Poemas que interpretam deuses e ações. Verdade absoluta é o repouso descansado; Depois dos teus beijos, adormecer, assim, calado. Beijos adormecidos... O que virá após a morte talvez seja um aprimoramento da vida. Mas quero levá-los comigo: Teus beijos e abraços, abraços e beijos, Amigos. Como essa dislexia Os fantasmas perturbam. Perturbam! Como pontos de exclamação Perturbam; Esse descanso repousado n’alma.
  77. 77. 81 Mas que desperta com o sossego delirante do calor dos teus beijos Que queima as veias como aguardente. _ Que feio! Como mel borbulhante a escorrer pelo teu eu vulcâneo. Doce ardor de brasas vulcânicas. Ardente, impetuoso e dislético; Depois dos teus beijos tudo é quente, tudo é real, é vivo, Tudo arde, Adormece. Até um pouco mais Mais tarde... Os fantasmas perturbam Perturbam; nada acontece. E ponto. Ponto inicial. ...? Sabem de nós dois.
  78. 78. 82 MINEIRO Mineiro Desconfiado! E daí? Sou de carne e osso _ mais carne do que osso _ Carne de pescoço. É fato, sou gato-do-mato; _ de fato _ Qualquer abismo eu me empaco. Mas sou matreiro, uai! _ sou mineiro _ Devoto de todos os santos e _ São José_ Meu santo padroeiro. Sou, por natureza, honesto. Falo na cara _ por isso não presto. _ se é bão, é bão, eu digo _ Julgo o homem pelo gesto. Meu pai já dizia: Ser franco não é defeito. O que importa é a consciência limpa, fé em Deus E amor infinito dentro do peito.
  79. 79. 83 O AMOR RÓI O amor rói Sem nenhum pudor Todo pudor que o homem constrói; Depois Destrói e reconstrói, Com todo pudor O amor. Quer ser feliz? Prepare-se para amar. Não há felicidade sem amor É impossível ser feliz sem amar. Amar dói. Dói demais. Mas viver sem amor dói muito mais. Viva com humildade! A diferença crucial é saber que o amor, só o amor, Nos leva à felicidade. Sofreremos angustias e aflições, saudade... Pensamos de tudo ser incapaz. Amar dói; Entanto Viver sem amor dói muito mais. Pode-se escolher ser só, não sofrer aborreço e tais peculiaridades; Mas conquista sem amor dá apenas prazer E além, muito além do prazer, mora a felicidade.
  80. 80. 84 O amor rói Sem nenhum pudor Todo pudor que a gente constrói Depois o amor, com amor nos reconstrói. TAL QUAL CHOCOLATE Tal qual chocolate, o beijo, Suave e agressivo _ Tentação! Acridoce lembrança aos sentidos, Não condiz com nenhuma expressão. E o estranho desejo de perder-se... Ou, talvez, se redescobrir para nunca mais resignar-se. Provocante, você, Mensagem incógnita, Silêncio... Vento nos cabelos. E a mudez no uivo de lobo faminto mirando a lua Oculta. Talvez os sinos o digam no vão dos pensamentos, Entre as pausas da respiração e a aflição de retomar o acre mel da flor.
  81. 81. 85 O destino proposto, teu corpo, oásis distante, A nudez _ percurso intransponível. Homem reduzido, a quê? Orgulho de mulher que se exalta e se eleva. Até onde? Até quando? Por quê? Caprichos! O beijo, tal qual chocolate, excêntrico e provocante, estimula a vida à morte. Trufas ao rum! Enigma. Talvez seja o gesto incomplacente, sátira ao machismo. Meu eu a tudo perdoa, mas sob a máscara a face se queima e o orgulho lança chamas que ferem a alma; Contudo, ressurjo brando, renascido no instante seguinte ao fim do mundo. Teu riso opera milagres, como um sol iluminando teu rosto, meu céu, meu jardim... Meu Deus! Não há catástrofe capaz de suprimir a vontade de viver ao lado de alguém a quem se ama. Mas como viver, agora, expulso do paraíso, se as oferendas ofendem à divindade, qual marca gravará n’alma após inevitável delito? Na terra dos refugiados procurar-te-ia nas aparências até esvair-se de mim. Poeira sem rumo no cosmo desértico do nada. Nada além de ti.
  82. 82. 86 Sacrilégio seria assassinar-te de mim! Extrair-te da essência da essência... E ficar vazio? O desejo Você Vida. E de repente a loucura de Beethoven torna-se compreensível pelo desdobrar dos sinos orquestrando os gemidos e meus pensamentos desarmonizados pelos tremores do coração; e tudo, por fim, se acalma embalado pela mais estranha sinfonia: o silêncio, tua voz, os estalos dos beijos. Coroai-me, senhora, teu servo, bobo, Para louvar-te assim, inocentemente apaixonado; Inconscientemente depravado, louco, Insanamente perfeito; Inebriado, torpe, Teu somente. Somente teu.
  83. 83. 87 SEGUINDO A PALAVRA De braços dados com o silêncio Outras vezes nos teus braços Sempre No teu abraço passeio. Ando como o passo esquecido Seguindo os rastros perdidos Dos pés de quem não veio. Ninguém silêncio tão amigo Acolhe-me assim, Em ti, Turbulento seio. A palavra sempre se assemelha ao que se compara. A palavra fala até quando se cala Mas só o silêncio é eterno No vão Nas entrelinhas Na dúvida... Exceto no que se assemelha Quando se assemelha ao que se compara. De braços dados com o silêncio persigo sempre a palavra.
  84. 84. 88 E OS DEUSES SE DIVERTEM ‘Tá difícil respirar Pesada é a cruz O ar concreto; E os deuses se divertem. Os pulmões inflam O coração se comprime E é tanto sentimento que não cabe impresso nas páginas desse insignificante nada ser. E os ossos esqueléticos se curvam ao peso do mundo. Que desperdício, meu Deus, que desperdício! O mundo não merece tal preciosidade. “Dê-me severa penitência, Senhor”, pensa meu coração. E não abrandes esta dor, pois, amar assim, tão absurdamente inteiro, é blasfêmia, pecado mortal. Devíamos andar de mãos dadas Meus dedos entrelaçados aos dela E não reclamar da unidade dos ciúmes; simplesmente mudasse de mão, de lado, eu à esquerda se a esquerda oferecesse perigo. Mas, à direita há muros. Deveríamos estar de mãos dadas, entrelaçadas, os dedos colados como em nó, mesmo que o suor fosse gélido e o sangue a borbulhar paixão.
  85. 85. 89 Devíamos andar de mãos dadas até quando estreito o caminho. Daí, ela na frente, o braço esticado pra trás, e a minha mão grudada à mão do amor a nos guiar. Era pra ser assim. Mas para amor, onipotente deus dos deuses, o amor é só amor. Senhor absoluto dos sentimentos, não da razão. Amantes são servos. Os deuses os servem apenas para servi-los. E os deuses se divertem. Também somos deuses enquanto bons servos. E criamos nossos próprios anjos e espelhamos deuses. E escolhemos um para idolatrar. É por ele que os campos florescem, os pássaros cantam, sussurra a brisa e geme a ventania. E por ele, deus-amor escolhido, que os olhos se dilatam para sugar o universo. Depois, reluz dos nossos olhares bilhões de infinitos e estrelas. E os deuses se divertem, porque assim os deuses criam.
  86. 86. 90 ENCRUZILHADA O que lavará minh’alma? O que cobrirá meu corpo Amanhã, após um infinito suspiro, o último, Subitamente interrompido? Manchas sempre me foram escudo. Pecados fiéis, invólucros da vida para o eu ser. Ó alma que só conhece os limites da encruzilhada, Corrompa-te de vez para que cresça tuas asas, E voe; Voes tu para a eternidade Ao encontro da morte Para o início imediato do fim. O que levará minh’alma? Purificado fui precocemente. Precocemente julgado pecador. Água e fogo, Manto e eucaristia; Mas somente na penitência me encontro. O que levará est’alma de anjo pecador? O vazio? Ou a impureza do encanto? Ó rosa virginal, ninfas, Absinto curador da perfeição,
  87. 87. 91 Mantenha-me aquecido ao deleite da vida impudica Para o imenso prazer da morte na salvação. O que lavará minh’alma senão lembranças das águas da fonte do desejo? Mais um beijo... Um dia, hei de ter meu nome lembrado nas orações profanas, Entre sussurros, dos casais que se amam. Anjos miseráveis Que felizes sucumbem na felicidade do amargo prazer De tudo ser quando Nada mais a oferecer tanto; Só cansaço do êxtase-encanto. Meu nome é silêncio Silêncio surdo, gêmeo duplo, Que só diz: eu te amo! Feliz.
  88. 88. 92 EU E MIM NO ESPAÇO SER Não sou de mim mais que servo Cumprindo ordens E tudo que toco torna-se igual a mim, Pois leva minhas digitais, E consome eu em mim No limite do tempo breve e imortal. E quanto a mim? Sufoca-se. Foda-se! O homem é a sua mente. E a mente eterna prisioneira No porão escuro Trancada por outra alheia. O certo é o que me dizem, Nunca o que penso. Mim tem cérebro de minhoca Minhoca nem é bicho, Bicho não é gente, E só bicho tem crédito e proteção. Aos olhos certos de vigentes maniqueístas Experientes, Certas almas viventes são parasitas, Outras são iscas;
  89. 89. 93 Elementar diante do óbvio, E o óbvio é sempre contemporâneo. O que resta de mim é isso: O mecanismo crânio. Por isso gosto dos pássaros _ só os pássaros me entendem _, Muitos me procuram e sagram o real em mim. Bendizem o sabor da vida. Há poucos pássaros, pois já nos roubaram os campos e céus. Agora alimentam nosso ego negro E exigem que lhes cantemos louvores Num tom estéreo das redes colossais.
  90. 90. 94 OLHOS-ESPELHOS Olhos-espelhos Cegam-se; Arrancam verdades Cerram-se. Não vale a pena suicidar-se, Morrer por amor; Muito menos matar E calcificar-se na dor. A alma de outrem é outro universo Separados por pensamentos de imensurável dimensão. E o que dizer então dos sentimentos? Não são apenas palavras que formam a razão, Existem as fantasias fundidas do sim e do não. Nada sabemos da alma além dos olhos Nos outros, Olhos-espelhos a nos refletir Cegos.
  91. 91. 95 QUANDO OS ANJOS DIZEM AMÉM Você pensa, deseja, e os anjos dizem amém. Paciência, meu caro, paciência. Tudo a seu tempo. Tudo é construído num processo lento. Os anjos dizem sim e aguardam o sinal de Deus. Deus, por sua vez, permite. Não obstante, o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens. Mas quando os anjos dizem amém, Deus honrará a fé. Deus honra a palavra dos seus obreiros. Aí, toda a natureza conspira a seu favor: Direciona as nuvens; A chuva cai; Germinam-se as sementes; Eclodem-se novos rebentos; Revigoram-se os brotos; Desabrocham-se as flores; Instrui os guardiões-espinhos... Até que chegue a sua mão e escolha a flor ou fruto. A partir de então é contigo. O que você vai fazer? Ainda se lembra de qual foi seu pedido? Talvez isso não se dê de forma assim tão platônica ou poética;
  92. 92. 96 Mas veja, a natureza tem seu padrão, seu tempo, segue suas normas. Por isso, quando tropeçar ou cair, concentre-se no seu levantar. Pois aí estão os anjos te forçando a ver a vida de um novo anglo. Eles agem assim. Às vezes brincam. Eles fazem de tudo pra cumprir um compromisso para honra e glória do Senhor. Amém? Eu ouvi um amém?! Aleluia!
  93. 93. 97 POR QUE O HOMEM CANTA Estava feliz. Acordara com a leveza da primavera. Um sopro suave da aurora entrando pela brecha da janela _ brisa arteira _, gorjeios, latidos; e o barulho dos movimentos das folhas da bananeira que percutem o tempo entre si. Uma réstia fina de luz prateada riscava o espaço através da greta do telhado, do teto à meia altura da parede do quarto, onde milhares de partículas luminosas brincavam, flutuando no vapor daquela tremeluzente lâmina de luz. . Vez em quando lhe penetrava nas narinas um perfume de... Lírios? ... Flores se abrindo, primavera é isso. Estava feliz, muito feliz. Mas, felicidade maior, era a expectativa do fim do dia. "Que banho gostoso!" Cantava desde os primeiros passos do dia. Uma nova melodia apossara-se da mente, desde a sonolência do pré despertar; e vai se firmando, tomando forma. Dizível. A vida sorri. "Por que o homem canta?" Tinha medo de explodir, como a cigarra grudada no poste. A felicidade quando inflama explode e nos deixa oco. Alerta SMS: "... Lamento, mas..." o tempo mudou.
  94. 94. 98 RECONCILIAÇÃO Ainda tínhamos o olhar triste e o sentimento de culpa vagando no vão entre nós dois. A dor, suponho, era equivalente e recíproca. O olhar era ainda condescendente, além de triste e indeciso, cortando o vão de culpas. Então, nos engalfinhamos. Antes, porém, de nos atracarmos, rolou aquele beijo. Beijo violento sabe, cheio de paixão? Ardente de desejo, cheio de amor, incisivo. Como veneno de ponta de lança, fatal e preciso. E nos engalfinhamos, assim, de forma animalesca, selvagineamente. Após o beijo... Aquele beijo quente, vibrante, com gosto de mar, lacrimal, salgante, nos engalfinhamos... Foi agressivo, mas foi bom. Mas aquilo não é “fazer amor”; é arrancar prazer da dor. Ela me prendera com o sexo abrasante E eu, como sempre, querendo resistir. Acabei me entregando, pusilanimemente, Para o descanso da alma e do desejo. No beijo pulsante, nos engalfinhamos de maneira selvagem, brilhante. Após o beijo, aquele beijo, daquele olhar, daquele vão, daquela culpa, daquela dor, aí, nos reconciliamos.
  95. 95. 99 CAMINHADA Não sei a que propósito me nasceu este amor, Mas ele a si mesmo decidirá sua sorte; Seja o destino a si mesmo proposto Seja o destino à guisa de sorte. Portanto não farei alarde. Não cantarei alegria. Não o cobrirei de coragem, Tão pouco demonstrarei pavor; Quero deixá-lo livre, Voe para onde for. Mas o sentirei ao longo da ida Até que abrace ao destino da sorte, Sem temer excesso de vida Ou ensejo de prematura morte. Se for atitude sensata animá-lo, Forçá-lo seguir a todo ardor, O armarei de desejos e planos E o proclamarei do meu reino, absoluto senhor. Todavia não me pergunte neste instante Qual seria nosso melhor destino, Sinto que se o tempo guiá-lo ao sul ou norte Será, este amor, sempre um senhor menino.
  96. 96. 100 O que é melhor? Não sei! Pensar no futuro sempre me causa horror, Pois onde há vida, por último, encerra a morte; E na morte encerra-se o próprio amor. Mas para onde o amor me levar, irei, Independe do rumo, independe da sorte; O importante é que seja amor; O importante que tu saibas que amei. Se o amor se fez senhor de mim, que seja! Faça-se em mim segundo a sua vontade E sejamos, um ao outro, fiel _ Na busca por felicidade _ Até ao final da nossa peleja.
  97. 97. 101 DE DETRÁS DA MÁSCARA EU VEJO O MUNDO De detrás da máscara eu reparo as pessoas que me notam e rio. Pobres! Todos acham que somos iguais Por isso todos se ignoram. Como fosse um sentimento mútuo Eu finjo não ver nada nem ninguém. Porém, às vezes me perco na eternidade dum momento A olhar, fascinado, peculiaridades, o "Q" de absoluto... E tão logo de volta a mim me vou, fantasiado de gente; comum. Até me deparar com ela e de novo tornar-me único; eterno. Meu pensamento segue o vento, Quase sempre busca Sol, E minha única ambição é segui-lo; Segui-lo até ver aonde me leva. Observo as obras do artista, a vida, _ Aquarela na qual passeio_ E me perco nos emaranhados do delinear de seus versos. O Poeta maior é também humorista e dramático na composição de sua arte E onipotente e inexorável no seu desfecho. Sou um vilão, e sou grato por isso, Ainda hei de entrar nos eixos.
  98. 98. 102 Tento cumprir meu papel pra que não desvalorize Sua obra e a peça seja, senão bonita, que seja ao menos perfeita. PÁSSAROS Invejo o pássaro que habita em mim: É erudito e espontâneo, De improviso cria versos E os declama. Como poeta voa; Enquanto voa enamora-se, canta e ama. Os pássaros... Eu os imito: A espontaneidade dos versos A cadência sonora; Entretanto, Pássaro-poeta, Em pensamento voa tal flecha, Fere-se n’alma, e chora.
  99. 99. 103 ESTRABISMO Não sou eu o estranho. O espelho se arrepia. No reverso do avesso, A nudez a que se reverencia. Não há flores na janela Por onde a brisa passa lenta, Fria; _ Jeito de ventania _ Nenhuma espera. Hoje é dia... O que fica no ar fica Sem origem, sem precedência... Quisera fosse primavera Esse outono vesgo, Tono de utopia. Paciência. O sono de folhas Sonhando ao vento Tremulam cortinas Ao oscilar de pensamentos. Sobre a mesa, porém, há frutos frescos _ ramos de flores a fios de algodão _;
  100. 100. 104 Marcas de dentes na maçã. Vai-se a ave ligeira _ visita de toda manhã _ E fica tremulando sob a mesa, camponeses, _ traços d’alguma artesã. Brincam espíritos infantis N’alvorada de luzes sob orquestrada aurora. Doirados raios de insinuantes esplendores Espargindo névoas ao revigorar rebentos, Reascendem aromas; E o borbulhar de vida nos abrolhos da fonte Acaricia min’alma, aperta-me o peito, Inunda meus olhos e... Alimenta-me de fome. No fundo no fundo, Bem no fundo, sou eu: Esse nada complexo no universo perfeito. Algo... De fuligem e cristal.
  101. 101. 105 AS VEZES QUE CHOREI As vezes que chorei... Já chorei tanto! Já chorei sem motivo. Já chorei de dor, chorei de alívio. Já chorei por hipocrisia, chorei feito bobo de tanta alegria. Já chorei nos sonhos, nos pesadelos; Chorei por conta do dente, desembaraçando os cabelos... Chorei sim. Chorei porque cai. Chorei porque apanhei e porque bati; Chorei por brincadeira, na escola, jogando bola. Chorei por bolinhas de gude Chorei por ser rude. Chorei o que eu pude e o que eu não pude. Chorei. Chorei muito. Chorei com medo. Certa vez chorei à-toa: chorei com medo de chorar, Chorei por uma pessoa. Às vezes amando chorei com medo de amar. Chorei à toa. Já chorei em vão (não se deve chorar por perdão)
  102. 102. 106 Chorei sem graça; Chorei de pirraça. Eu também já fui criança neném, e chorei pedindo peito; Chorando, no afã do calor do leito. Já chorei em demasia. E quem nunca já chorou de rir? Chorei de encantamento ao ver uma criança dormir. Meu choro é riso sincero. É flagelo. É construção, congregação, dedo e martelo. Mas nenhum choro é tão puro, tão sincero, quanto a solidão do grito do quero-quero. Chorei na despedida (aquele adeus...). Chorei tanto, tanto... Pensei que ia secar o pranto. Chorei no reencontro. Chorei até passar do ponto. Chorei! Um dia chorei vendo o noticiário; N'outro chorei ao abrir o armário. Chorei pela África _ tão negra! Tão singela! Ah! Chorei orando por Nelson Mandela. Chorei tanto e me acostumei. Aquele povo... Não sei; será que ainda os amo ou um dia os amei?... Acho que de tanto chorar me desumanizei-me.
  103. 103. 107 Chorei, chorei, por que, já não sei. Chorei no novo emprego, mas chorei por apego. Chorei no “parabéns pra você”. E chorei no velório do inimigo. Chorei contigo. Chorei lendo Drummond que me fez compreender Pessoa, E uma lágrima rolou ao ritmo do jazz de Villas Boas. Chorei ontem e agora; mas qualquer hora é hora. A vida é um palco e um divã. Quem me dera! Quisera mesmo, nesse palco, poder chorar amanhã. Chorei a cada nascimento de um filho; (aí chorei por abrigo). Chorei por esporte. Pelo povo do norte. Chorei por angustia, inconsolado, pela morte. Chorei até perder o brilho. Chorei por alguém num asilo. Chorei por ela. Chorei no fim da novela Chorei calado. Chorei pelo leite derramado. Chorei sem entusiasmo. Chorei durante um orgasmo. (em silêncio todos choram por isso) Chorar é para os olhos uma espécie de compromisso. Chorei ao ver um bicho abatido. Chorei de bronca com Deus e de mal comigo.
  104. 104. 108 Chorei debruçado num ombro. Chorei escondido nos escombros. Chorei nas entrelinhas de poemas, no equilíbrio, Na falta de equilíbrio Chorei no meu livro. Na ficção chorei. Chorei minha autobiografia. Ia me esquecendo: chorei ao ver o mar; E chorei olhando estrelas ao luar. Um dia chorei por engano, depois "deschorei". "errar é humano!" Não, nunca chorei de ódio, chorei o óbvio; Chorei pela raiva ter me vencido. Chorei perdido. Chorei no natal, na páscoa, no lava-pés, via-crúcis, ressurreição... Ah, Deus! Quanto ainda por chorar! Agora que tenho consciência das minhas fraquezas! Mas, tudo bem; Beleza!
  105. 105. 109 NOSSO TEMPO Toda a minha vida não lutei por ninguém; Lutei apenas, Pois ninguém valia minha luta nem meus sacrifícios; Mesmo assim esqueci todos os sentidos no amor. O que fiz, o fiz por amor a alguém ou a alguma coisa. Não é egoísmo, é sensatez; O próximo é uma extensão de mim. Amei pessoas e me apaixonei; Amei a natureza e a arte, não os compreendi, Embora eu viva interrogando a vida que se esvai. A vida é como ervas que se apodrentam; Como águas escapam pelas mãos e deixa como lembranças sua forte imagem e sabor indizível; mas há algo a mais, sempre há, o universo se altera nas trajetórias. Eu vivi e estou pronto para partir, levado pela brisa que a tudo compõe e consome; mas que se prolongue, por um tempo mais, bem mais, esta estadia... Despeço-me a todo instante da vida porque não se sabe a hora de partir. Mas a ordem da vida é viver _viver e ser feliz _ esse é o primeiro mandamento Divino.
  106. 106. 110 Saibamos e jamais nos esqueçamos de que Deus nos fizera à Sua imagem e semelhança para que Ele saiba o que é viver. Então, vivamos com dignidade e em plenamente. Intensamente. Ardorosamente. Entusiasticamente. Toda a minha vida não lutei por ninguém. Lutei apenas. Vivi apenas. Mas viver, apenas, não basta. A vida exige que se lute por uma razão. A vida exige que se altere o universo no nosso tempo. O nosso tempo é agora. E pensando na minha insignificância reconheço a singularidade comum. Pensando minha insignificância reconheço que viver é uma responsabilidade a nós imposta. E é tão simplesmente viver e, às vezes, fugimos ao compromisso. Ainda é tempo. Somos singulares. Uma espécie em evolução. É constante a formação da vida. Cada um é um universo dentro do universo em constante construção. Um dia finda o estágio e dar-se-á nova iniciação. E eu o que fiz? Cumpri bem o meu papel? Nosso tempo é o tempo da igualdade para quem tem poder de consumo. É o tempo de liberdade para uma geração sem rumo; É tempo de união dos povos para lutarem contra uma nação. É o tempo de combate à fome e é o tempo do desperdício de pão; É o tempo da paz e da alegria, no entanto, sem harmonia, sem perdão;
  107. 107. 111 É o tempo da crueldade, da cobardia, da mais vergonhosa hipocrisia. Vivemos o tempo das injustiças. O tempo da autodestruição. Até quando? Até que não haja mais saída? Até a total perda da razão? Até o total esquecimento do que é vida? A terra é nosso Éden. Nosso céu é o tempo. A felicidade é o respirar agora; e o resto, passado e futuro sequer é tempo. O improvável não conta, não é vida. Vida é presente. É sentimento. Do nosso jardim somos as flores. A função das flores é produzir sementes. Não desperdicemos o sol, a chuva; não deixemos em vão os pensamentos. A rosa e o tempo, à margem da liberdade viver, é o destino e a instância no caminho da consolidação e da consagração. Consolação, talvez. Nossa história nesse plano. Esse respirar, esse perfume... Rosa. Hoje, entanto, agora, só quero amar. Dorme, meu amor, que ainda posso alimentar-me do seu encanto que me ajuda ir em frente. O mundo não pode esperar mais de nós do que cumpramos o mandamento. O mundo já viu morrer muitos dias e eu estou aqui, de servo aos nossos desejos. Descanse.
  108. 108. 112 E ao abrir os olhos recomecemos, agora e sempre, com amor, a ditar as ordens do viver. A consciência do pecado é o pior. Isso já passou. Abrimos nossos olhos a tempo de viver. O vento sussurra bênçãos. Não tenho mais medo. Estou liberto. Há uma mão invisível puxando-me pela mão para guiar-nos os passos sem medo. Dorme, meu amor, enquanto faço um poema — a morte está nos velando entre o neon sob o lençol branco de flores douradas _ Eu ouço sinos, vejo estrelas; borboletas e pássaros revoam em júbilo ao amor que renasce enquanto você adormece. Havia um pássaro negro encobrindo o sol: a solidão. As suas longas asas de sombra não mais hão de atormentar-me. Morri voluntariamente muitas vezes, agora é de não viver que tenho mais medo. Abra também os seus olhos agora, meu amor, e sossega no meu peito seu ouvido e ouça que a vida vibra em mim por você. Não sou mais fantasma. A casa está limpa. E no jardim cultivo flores _ rosas de todas as cores _ para enfeitar nossos dias. A partir de agora, agora, será sempre agora; nosso tempo, nossa história. Vou seguir voando, voando sempre, para dentro do meu céu límpido pós-tormenta. Nada há de deter-me o bater asas para horizontes. E aonde vou deixa marcas de versos grosseiros, nas nuvens, na lama, na poeira, nos campos, nas cascatas dos rios de águas alheias? Leva o vento frio às montanhas azuis, portos,
  109. 109. 113 arquipélagos. Não me importa. O relógio não espera. O tempo caminha agora. O voo é dos pássaros. As flores tem pressa. A rosa adormecida desperta e desabrocha; e sobre a cama aflora flor da alma nua. Só minha. Tem luz... Transcendental? Adornar o espírito. Até o espelho suspira. Encanto; puro encanto. Repara só: É um riso permanente de paz, caminha flutuando, respira com delicadeza, o olhar é carícia. Chegará o tempo da verdade. O tempo em que tudo será dito. Eu pousarei. Desfrutarei desse sabor e perfume todas as manhãs, como orvalho presente da natureza. Gota a gota banhará minha alma. E eu posso profetizar porque agora é o nosso tempo. Eu respiro vida e me encontro neste instante dentro dos teus olhos, livre, sorrindo.
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