Somos todos piratas

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Somos todos piratas

  1. 1. COMPORTAMENTO SOMOS TODOS PIRATAS Pelas regras de direitos autorais em vigor, quase todo internauta é um fora-da-lei. Afinal, o que está errado? N RAFAEL PEREIRA UNCA TANTOS COPIARAM tanto em tão pouco tempo. O filme que acabou de ser lançado. A úl- tima versão do simulador de vôo. A música no topo das paradas. Toques para o celular. Tudo isso po- de ser obtido imediatamente e de graça na internet. Na rede, copiar é tão natural quanto respirar. Nenhuma geração na His- tória teve, como a nossa, a possibilidade de conhecer e de usufruir tan- tas obras culturais. Hoje, pelo menos 2,5 milhões de brasileiros trocam pe- la internet arquivos de música, vídeo, programas de computador e jo- gos. Essa turma conectada inclui, para todos os efeitos, qualquer um que use computador ativamente. Copiar é tão fácil que nem sabemos quan- do estamos infringindo alguma lei. A verdade, caso alguém ainda tenha alguma dúvida a respeito, é bastante singela. Somos todos criminosos. So- mos todos piratas. Todos? Bem, talvez nem todos. Mas você conhece al- guém que – de verdade – nunca tenha feito uma cópia ilegal de músi- cas, filmes ou programas de computador? ä 64 Nomomomo/ÉPOCA Dulla/ÉPOCA
  2. 2. 2,5 MILHÕES DE BRASILEIROS TROCAM MÚSICA E VÍDEO PELA INTERNET 65
  3. 3. COMPORTAMENTO RETORNO FINANCEIRO Vendas de DVDs em todo o mundo ajudam a indústria de cinema americana a faturar US$ 25 bilhões e produzir filmes revolucionários, como a trilogia Matrix Pela lei, cada internauta que faz uma cópia necessárias 350 penitenciárias com a capacidade não-autorizada pode ser punido. Nos Estados do Carandiru. Se, como ocorreu na Inglaterra, Unidos, mais de 10 mil já foram processados cada um recebesse multas equivalentes a R$ 15 desde 2003. As multas chegaram a US$ 30 mil mil, o governo arrecadaria R$ 37,5 bilhões, valor para cada um. Na Inglaterra, pela primeira vez equivalente ao lucro líquido somado dos cinco O eMule, site a indústria fonográfica, usando rastreadores de maiores bancos brasileiros nos últimos 11 anos, mais popular fluxo de dados, acionou judicialmente 90 cida- ou 2,2% do PIB. dãos britânicos. Eles foram condenados em abril A forma mais comum e convencional de enca- para troca de do ano passado a pagar multas equivalentes a rar a pirataria digital é acreditar na lei como está. música e R$ 15 mil. Em novembro do ano passado, a Nesse caso, devemos mesmo pagar altas multas Federação Internacional da Indústria Fonográfica e ir todos para os novos presídios, construídos espe- vídeo, tem (IFPI, em inglês) processou 2.100 cidadãos, de 16 cialmente para abrigar piratas. Evidentemente, a 1,2 milhão países, como Alemanha, China e Argentina. As realidade tem se encarregado de mostrar que essa ações são movidas por advogados em cada um lei é inaplicável. Pergunte a, entre tantos outros, de usuários dos países envolvidos. Nenhum processo inter- João Eduardo Ávila, de 13 anos. Ele nasceu em no Brasil nacional atingiu usuários brasileiros. Ainda. Mas 1992, ano em que a internet saiu das universi- é difícil imaginar que a repressão dê cabo de uma dades no Brasil. Eduardo é filho de uma era em prática tão difundida. Para que todos os 2,5 que músicas, filmes e livros perderam a forma física milhões de brasileiros que usam tecnologias que e se transformaram em bits, viajando livremente permitem cópias ilegais fossem detidos, seriam à velocidade da luz. Com computador no quarto Ficou mais fácil copiar A evolução dos tocadores portáteis de música, do walkman ao iPod, transformou os discos e fitas cassete em meros bytes de informação Julho de 1979 Novembro de 1984 Agosto de 1997 Setembro de 1999 TPS-L2 walkman D-50 Discman MPMan F10 SM-200C A Sony lança o primeiro Cinco anos depois de lançar o A empresa Eiger Labs lança no A empresa Pine lança o primeiro tocador portátil de fitas walkman, a Sony mantém a mercado americano o primeiro tocador de CD portátil que cassete da História vanguarda e lança o primeiro tocador de MP3 portátil. toca MP3 gravados em CD, mas tocador portátil de CDs É o pai do iPod não faz sucesso Infográficos: Nilson Cardoso 66 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006 Fotos: The New York Times; Maurilo Clareto/ÉPOCA; Paul Sakuma/AP
  4. 4. VERSÃO Mondini traduziu o eMule para o português desde os 5 anos, descobriu o rock baixando gra- tuitamente as músicas de suas bandas favoritas. “Nem me lembro da última vez que fui à loja com- prar um CD. Com certeza, foi há mais de um ano”, diz. No início, ele baixava apenas uma ou duas canções por vez. Agora, baixa discografias intei- ras, filmes recém-estreados, softwares e tudo quanto é joguinho de última geração. Ele deve ser preso? Ou será que há algum problema com uma lei incapaz de lidar com a velocidade da evolução tecnológica e com a naturalidade com que a nova geração encara esse fenômeno? Não haveria outra forma de lidar com a pirataria? Ninguém em sã consciência pode pregar o des- respeito à lei. O direito à propriedade intelectual garante a remuneração dos criadores de bens cul- turais e a geração de riqueza e empregos. A pri- meira lei de proteção ao direito do autor foi criada em 1791, na França, justamente para evitar o final trágico de gênios como Wolfgang Amadeus ä CATALISADOR O iPod banalizou troca de arquivos de música e vídeo Outubro de 2001 Outubro de 2005 iPod iPod com vídeo Steve Jobs, presidente da O aparelho agora Apple, lança o iPod também reproduz usando o slogan “1000 vídeos numa tela músicas no seu bolso” colorida FONTE: A Diary Study of Task Switching and Interruptions/Microsoft 67 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006
  5. 5. COMPORTAMENTO ARTISTAS Junior afirma que só baixa músicas compradas para seu iPod. Já Pitty diz que faz download gratuito, mas que compra depois se gostar do som Mozart, que morria como indigente naquele ano, dante paulista Rafael Mondini, de 21 anos, res- depois de compor 600 obras. Hoje, graças às leis que ponsável pela versão brasileira. De sua casa, em protegem a propriedade intelectual, Hollywood São Paulo, ele entrou em contato com os respon- fatura US$ 25 bilhões, e a vigorosa indústria cul- sáveis pelo projeto nos Estados Unidos e ajudou tural brasileira emprega 63 mil pessoas. São essas o eMule a falar português. “Existia uma tradução as maiores vítimas da pirataria digital. Estima-se em português de Portugal, mas era muito que as cópias ilegais custem US$ 50 bilhões no capenga. Quando descobri que o programa era mundo todo e quase US$ 1 bilhão no Brasil. Em comunitário, resolvi ajudar”, diz Mondini. 1999, o disco As Quatro Estações, de Sandy & Para o desembargador André Fontes, que Junior, vendeu 2,5 milhões de cópias. Quatro anos comanda uma turma no Tribunal Regional Federal depois, a venda de CDs piratas nos camelôs e o responsável por julgar questões de direito auto- Mais de MP3 derrubaram a tiragem do CD Identidade ral, a lei não pode punir o usuário doméstico por 10 mil para apenas 400 mil. “Para manter a mesma estru- trocar arquivos na internet. “Se fosse eu julgando internautas tura de empregados e equipamentos, tivemos de um caso desses, nunca condenaria quem baixa fazer muito mais shows que antes e de investir arquivos para uso próprio, sem intenção de obter já foram em outros mercados, como o licenciamento de lucro com a obra alheia”, afirma. André Fontes processados produtos com o nosso nome”, afirma Junior. “Mas vive a questão de perto. Tem um filho de 15 anos, vai chegar um ponto em que ninguém mais vai Augusto, fanático por música e dono de um MP3- nos EUA ter como viver de música. Os ídolos vão viver do player. Fontes prefere não investigar o compu- desde 2003 passado.” Aos 21 anos, Junior é um dos 43 milhões tador do filho para saber se ele está fazendo down- de aficionados do iPod, o tocador de faixas musi- load ilegal. “O que faço é conversar com ele. Ele cais da Apple, mas afirma que nunca fez down- sabe que fazer isso é antiético”, diz. Mas a fron- load ilegal de música pela internet. teira ética é tão tênue que desconcerta os próprios Junior é uma exceção. Incontáveis sistemas de artistas. A roqueira Pitty afirma que baixa músi- troca e compartilhamento de arquivos têm feito a cas, mas de uma maneira que considera saudá- festa entre jovens e adolescentes. Hoje, o mais vel. “Só faço download gratuito do que não popular é o eMule, usado por 1,2 milhão de bra- conheço, para não comprar gato por lebre. Mas, sileiros. Trata-se de um software de código aberto se gosto, vou lá e compro”, afirma. “Acho que – sem nenhum dono, portanto, para ser proces- quem tem condições tem de comprar o disco, sado –, com atualizações constantes realizadas senão a gente deixa de existir. Mas não posso ä por colaboradores anônimos. Um deles é o estu- cobrar isso de quem não tem grana.” Dá cadeia? Por que a lei antipirataria não pega no Brasil 1. Existem três maneiras de enqua- 2. Por que, mesmo sendo crime no 3. Quando o Brasil vai começar a pren- drar legalmente você ou seu filho Brasil, você não será punido por isso? der usuários em suas casas, como se menor de idade se baixarem músi- faz nos EUA e na Europa? Não há provas – Ainda não existe no ca na internet país tecnologia suficiente para ras- Em breve – A Associação Protetora dos Direito – A Constituição Federal e a trear o fluxo de dados e provar que Direitos Intelectuais Fonográficos (Apdif), Lei dos Direitos Autorais definem o um usuário doméstico armazena ligada às grandes gravadoras do país, que é ilegal e proíbem a distribuição música ilegal está se preparando tecnicamente para de obras ou fonogramas por fraude rastrear usuários que fazem download Não há prioridade – As empresas que ilegal de músicas Pena – O Código Penal prevê de três têm prejuízo com a pirataria e a Polí- meses a um ano de cadeia e multa cia Federal preferem concentrar seus para quem violar os direitos do autor esforços em quem copia e vende CDs falsos em larga escala 68 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006 Fotos: Frederic Jean/ÉPOCA; Daniel Novaes/Diário de SP
  6. 6. Fotos: Marco Antonio Teixeira/Ag. O Globo; Vidal Cavalcante/AE; Monalisa lins/AE; Debbie Vanstery/Abaca/Brainpix; Divulgação; Scott Cohen/AP COMBATE AO CRIME Tratores destroem milhares de CDs piratas apreendidos (à esq.). A PF faz ações repressivas em pontos-de-venda, como o Stand Center, em São Paulo (acima). Mas os esforços não conseguem impedir o comércio dos camelôs (no alto) A INDÚSTRIA Estúdios das gravadoras (acima) e o filme King Kong, PROMOÇÃO Empresas de software vítimas dos piratas lidam com a pirataria há décadas 69
  7. 7. COMPORTAMENTO VOZ DA LEI O desembargador Fontes diz que prefere não investigar o computador do filho, fanático ENTREVISTA por MP3 As leis têm de se adaptar É pouco provável que jovens como João Eduardo, Rafael, Augusto ou a própria Pitty com- Para professor de Stanford, roubar não é um prassem todas as músicas e os arquivos que obtêm termo aplicável aos bens digitais de graça na internet. Só isso é o bastante para ver com um grão de ceticismo as estimativas de per- O professor de Direito Lawrence Lessig, da Uni- das da indústria para a pirataria, pois, normal- versidade de Stanford (EUA), co-fundador do mente, ela considera que cada um que copia um Creative Commons, acredita que as leis de direi- CD ou software pagaria pelo produto. Quando to autoral precisam ser atualizadas. tanta gente, em princípio ordeira, desobedece às leis estabelecidas de propriedade intelectual e de ÉPOCA – Leis de copyright existem em to- direito autoral, algo está errado em um sentido da parte, mas a grande maioria das pessoas não mais amplo. A troca livre de bens digitais repre- as cumpre. Somos todos piratas? senta, em sua dimensão global, uma ruptura no Lawrence Lessig – Pela lei, sim. O intrigante modo de produção cultural convencional. O sis- é saber por que as pessoas, em países demo- tema de direitos, que financiou a indústria, artis- cráticos, não se mobilizam para mudar as leis Estima-se tas e inventores durante séculos, está em xeque. de modo que elas deixem de ser piratas. As pes- “Os donos das grandes empresas de entreteni- que as soas já reconhecem o valor da distribuição mais mento estão agindo deliberadamente, principal- livre do trabalho criativo e do conhecimento. E cópias ilegais mente no Congresso americano, para inibir a cria- isso não significa que devemos abrir mão do tividade dessas crianças. Antes, só eles ganha- custem US$ copyright. Significa que devemos fazer com que vam. Mas hoje estamos vencendo em muitas fren- as leis se adaptem ao século XXI. O copyright 50 bilhões no tes”, disse a ÉPOCA John Perry Barlow, fundador é necessário à sobrevivência da indústria cul- mundo e da Electronic Frontier Foundation. “Eles estão tural, por exemplo. Mas ele precisa ser atualiza- do para que possa ser mais efetivo nesse papel. quase US$ 1 bilhão no ÉPOCA – Quando você copia um bem digi- Os caminhos da música digital tal, está compartilhando ou roubando? Brasil Lessig – Se você copia com permissão, está AQUI É PAGO compartilhando. Se você não tem permissão, po- de estar violando os direitos do detentor do copy- right. Roubar, porém, não é um termo que se apli- ca a bens digitais. Mas eu acho errado que as Maior site brasileiro de venda de pessoas “compartilhem” trabalhos se essa não músicas e toques de celular. Vende for a vontade do titular do direito autoral. uma média de mil músicas por dia em todo o país ÉPOCA – Qual é a principal diferença entre Vantagem Único site brasileiro que tem acordo o usuário doméstico, que copia algo para uso com várias gravadoras, inclusive pessoal, e o grande comerciante, que vende ma- grandes, como EMI e Warner terial copiado em grande escala? Lessig – Eles são completamente diferentes. O grande comerciante está errado. O usuário Desvantagem Ainda não fechou acordo com as n doméstico pode estar. principais multinacionais: Sony/BMG RICARDO AMORIM e Universal. Só fornece músicas em formato WMA, da Microsoft 70 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006 Fotos: Patti Sapone/AP; Marcos Serra Lima/ÉPOCA
  8. 8. a mesma música, ver o mesmo filme ou usar o mesmíssimo programa de computador. Diante de um inimigo tão insidioso, em vez de buscar o bandido que mora em cada um dos 700 bilhões de internautas no mundo, a indústria cul- tural provavelmente terá de se reinventar. Ela já fez isso antes. “A crescente e perigosa invasão dessa nova tecnologia ameaça a vitalidade econômica de toda uma indústria e a sua nova segurança no futuro”, disse Jack Valenti, ex-diretor da associação da indústria do cinema americano, a MPAA. A frase foi proferida em 1982. Naquela ocasião, o medo era que o advento do videocassete fosse tirar as pessoas do cinema e levar a indústria cinemato- gráfica à falência. Nada disso aconteceu, e as cópias dos filmes em fitas e hoje em DVD se tornaram O site de uma fonte de receitas maior que as bilheterias. Agora, começa a haver reações mais criativas venda legal vendo que vão perder a briga. Estão desespera- da indústria. Três anos depois que a Justiça fechou iTunes tem dos. São um bando de velhos contra crianças, o Napster, o primeiro sistema de troca de arqui- milhões de pequenos gênios criativos.” Barlow sabe do que vos na internet, a resposta da indústria fonográ- está falando. Antes de se tornar um dos maio- fica foi o iTunes, loja virtual de músicas e vídeos usuários res pregadores das liberdades digitais, ele foi da Apple. No final de fevereiro, registrou 1 bilhão cadastrados letrista da banda de rock Grateful Dead – e per- de obras vendidas. A tática é simples: se o pro- mitia aos fãs a gravação de seus shows ao vivo. blema é a cópia gratuita de música virtual, então em 21 países A troca on-line de arquivos é desafiadora jus- é melhor vendê-la. A loja iTunes terminou o ano tamente porque melindra nossas noções mais passado com vendas de 3 milhões de músicas por básicas do que é certo ou errado. Pirataria é dia, por apenas alguns centavos de dólar cada roubo? Sem dúvida. Mas é um tipo singular de faixa. Registrou um crescimento de 241% no roubo. A noção lógica do ato de roubar é tomar número de usuários em relação a 2004, alcan- algo de alguém. Com a cópia de um arquivo, çando 20 milhões de cadastrados em 21 países. quem assiste a um filme ou ouve uma música Outras 335 lojas de música virtual entraram no pirata não precisou tomá-los de ninguém. A pira- mercado. A venda de músicas eletrônicas já res- taria é um roubo cuja vítima – o criador da obra ponde por 6% do faturamento total no ramo fono- – não está presente ao ato. Os arquivos digitais gráfico. Graças a isso, o ano de 2005 ficará na His- são aquilo que os economistas chamam de bem tória como aquele em que, pela primeira vez “não-rival”. Podem ser usados por muitas pes- depois do advento da internet, se vendeu mais do soas ao mesmo tempo, sem que uma prejudique que se pirateou em dois importantes países con- a outra. Da mesma forma que a teoria da rela- sumidores de músicas: Alemanha e Inglaterra. tividade, de Einstein, é reproduzida nas esco- Para que isso fosse possível, evidentemente a indústria foi obrigada a rever seus preços para ä las pelos professores de Física, todos podem ouvir Principais lugares em que se baixa música na internet, legal ou ilegal AQUI É GRÁTIS Maior sistema de venda de Depois de revolucionar o É o programa de troca gra- Foi o primeiro programa a É o programa mais usa- músicas do mundo. Tem mé- mundo da pirataria na in- tuita de arquivos pela in- igualar o sucesso do Naps- do dos que utilizam a tec- dia de 3 milhões de down- ternet, o Napster foi enqua- ternet mais usado e bem ter, depois que ele passou nologia BitTorrent, que loads diários drado pela indústria avaliado do mundo a cobrar por músicas fragmenta os arquivos Tem o maior acervo do plane- Em vez de vender suas mú- Seu sistema divide os ar- Sua busca é simples e os É rápido. Por isso, funcio- ta, com mais de 2 milhões de sicas uma por uma, cobra quivos em partes para o downloads começam qua- na bem para baixar CDs músicas digitais. É a loja ofi- uma assinatura mensal de download. É bom para ar- se de forma instantânea e filmes inteiros ou dis- cial do iPod US$ 9,95 quivos pesados cografias completas Brasileiros só podem comprar Tem metade do acervo do O sistema de prioridades É um dos programas que Como é um programa de se tiverem um cartão de cré- iTunes. Só vende canções confuso faz com que al- mais escondem vírus den- grande escala, é quase dito americano, com ende- em formato WMA, incom- guns downloads demorem tro de músicas dos artis- impossível conseguir pe- reço nos EUA patível com o iPod a começar tas mais famosos gar músicas no varejo 71 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006
  9. 9. COMPORTAMENTO LIVRE Walt Disney não precisou pagar direitos aos irmãos Grimm para criar sua Branca de Neve baixo. Embora tal medida represente um risco, nativo de remuneração de autores chamado a história do videocassete mostra que não neces- Creative Commons. Substituiu a máxima “Todos sariamente haverá queda no faturamento total. os direitos reservados” por “Alguns direitos reser- A discussão apresenta ainda um paradoxo vados”. No Creative Commons, o autor escolhe mais importante. O conhecimento, a cultura e os limites de reprodução de sua obra. Quem pro- os bens culturais não surgem por geração duz uma música, por exemplo, pode oferecer o espontânea. São resultado da soma de milha- download gratuito da obra para os ouvintes res de experiências, idéias e de muita, muita comuns, mas exigir o pagamento de direitos para cópia e reinvenção de idéias dos outros. No pri- uso comercial em filmes, celulares ou games. meiro capítulo de seu livro Free Culture, o advo- Quem escreve um livro pode autorizar cópias 1,5 milhão gado Lawrence Lessig, professor de Direito da xerográficas para estudantes ou downloads na de músicas, Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e internet, mas exigir o pagamento por exempla- livros, filmes um dos maiores especialistas do mundo em res impressos pela editora. Trata-se de uma adap- Direito Digital, relata como o próprio Walt tação da lei atual, de modo a aproximá-la da rea- e programas Disney reciclou idéias de outros. O primeiro lidade e torná-la aplicável. Hoje, essa flexibili- são regidos filme com o camundongo Mickey, Steamboat dade vem sendo usada com sucesso principal- Willie, de 1928, foi inspirado no musical mente por artistas iniciantes, que aproveitam a pelas regras Steamboat Bill, Jr. O primeiro longa de anima- internet para divulgar seu trabalho e, assim, ser flexíveis do ção, Branca de Neve, é uma livre adaptação do descobertos. A maior inspiração para o Creative clássico dos irmãos Grimm. Em ambos os casos, Commons foi o sistema operacional Linux, uma Creative Disney não teve de se preocupar com direitos alternativa aos softwares comerciais desenvolvida Commons autorais. O que ele conseguiria fazer hoje? pela colaboração de milhares de voluntários e dis- “Disney e a sua empresa extraíram criatividade tribuída livremente pela internet. Outro fenômeno da cultura já existente, misturaram com o seu regido pelas licenças do Creative Commons é a talento extraordinário e a devolveram à socie- Wikipédia, hoje a maior enciclopédia do mundo, dade”, diz Lessig. “Nosso foco deve ser como também desenvolvida livremente por legiões de garantir a remuneração dos artistas, mas pro- colaboradores on-line. Já há 1,5 milhão de músi- tegendo o espaço de inovação e de criatividade cas, filmes, livros e programas eletrônicos regidos que a internet fornece.” pelas regras do Creative Commons. Para fortalecer a criatividade e garantir a livre O ministro da Cultura, Gilberto Gil, é um entu- troca de idéias, Lessig criou um sistema alter- siasta desse novo sistema. Foi o primeiro artista A BALADA DO BANDIDO dré e César não querem viajar nem se mu- dar. Apenas dizem que abandonarão no dia Dois hackers armam festa de arromba seguinte o estilo de vida que os fez torrar com dinheiro roubado dos bancos mais de R$ 200 mil em cinco meses. Foram N o dia 24, André e César (nomes fictícios) roupas, tênis, bonés, festas, bebidas e mu- dizem que vão comprar um camarote nu- lheres, tudo comprado com o dinheiro prove- ma badalada festa paulistana. De limusine niente do roubo de bancos pela internet. Aos alugada, afirmam que levarão seus melho- 18 e 17 anos, respectivamente, André e res amigos para o evento, comprarão gar- César se dizem membros de uma das di- rafas e mais garrafas de uísque importa- versas quadrilhas que desviam recursos de do, combustível para uma noite que preten- contas bancárias no Brasil. É preciso fazer dem tornar inesquecível. Eles prometem não uma distinção entre o crime praticado por es- poupar gastos para se divertir na festa que ses garotos, que roubam dinheiro de ver- CÉSAR Ele começou pichando sites marcará a despedida de ambos. Mas An- dade, e a prática de milhões de internau- ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006 Fotos: reprodução; Marcos Serra Lima/ÉPOCA; Maurilo Clareto/ÉPOCA; Sidney Lopes/Folha Imagem
  10. 10. O CONSUMO DE MASSA DE AMANHÃ Por Gilson Schwartz* O ABASTECIDO revolucionário de ontem é o conservador de hoje e, talvez, o reacio- João Eduardo nário de amanhã. Na França, berço das revoluções modernas, o re- descobriu o rock belde 68 virou diretor de empresa. No mundo digital, o “hackerismo” de baixando de ontem é o consumo de massa de amanhã. Em qualquer indústria, exis- graça a tem ciclos de inovação. Pesquisadores na academia ou empreendedores discografia em garagens inventam mil soluções geniais, abrem várias garrafas, sol- completa de suas tam-se gênios no ar. Nos EUA, a garotada voltou a ficar rica antes dos 30. bandas favoritas O “hacker” é um bisbilhoteiro, meio cientista, meio artista experimen- tal. Pode inventar um software revolucionário que, um ou dois anos de- pois, vira negócio e provoca a fúria de Estados: caso dos moleques do brasileiro a oferecer músicas gratuitamente ao Google às voltas com o governo Bush e o Estado chinês (ao público usando as regras do Creative Commons. mesmo tempo!). Fora o impacto do MP3 na indústria fonográ- Gil considera a indústria fonográfica nos mol- fica. Nosso conforto em casa, no trabalho ou nas férias ga- des atuais uma barreira para o acesso do público nha cada vez mais com a disseminação dessas invenções di- à cultura. “Foi a pirataria que, de certa forma, gitais incessantes, nem sempre saídas do seu fornecedor ha- chamou a atenção para a necessidade de uma bitual de informação no governo, no mercado ou na escola. flexibilização da propriedade intelectual”, afi- No “front” da competição digital imperam duas forças com mou em novembro do ano passado. De acordo alto poder de penetração: a mobilidade e a portabilidade. com o advogado Plínio Cabral, autor do livro A nova onda na civilização audiovisual é sem fios. No Bra- Revolução Tecnológica e Direito Autoral, tanto sil, em menos de cinco anos a telefonia celular bateu o as leis quanto a indústria precisam se adaptar número de computadores e alcança uma penetração pró- às facilidades de distribuição trazidas pela inter- xima à da TV. Portabilidade e mobilidade são fatores críticos net. “Se isso não acontece, elas acabam atrapa- na convergência digital entre os dois principais setores da lhando o desenvolvimento da sociedade em economia das telecomunicações no Brasil: televisão e tele- SCHWARTZ plena era da informação”, afirma Cabral. Muita fonia. Um exemplo do efeito combinado das duas mídias Onde gente chama de ‘comunistas” os defensores das é o Big Brother Brasil, que numa votação por celular mo- estão os trocas de arquivo na internet, dos softwares livres inovadores biliza milhões de cidadãos. ou do Creative Commons. Para as alas mais con- Nos países em desenvolvimento, as soluções criativas e co- servadoras da indústria cultural, é uma forma laborativas para promover a inclusão digital dos mais pobres são uma prio- fácil de rotular o inimigo. Para a esquerda, o ridade. Empresas, voluntários, governos e, claro, hackers participam de rótulo também vem a calhar, pois renova uma um esforço mundial contra o paredão digital. O custo dos equipamentos con- bandeira esfarrapada. Mas Lessig, Barlow ou tinua caindo enquanto aumentam potência e qualidade. Em Katmandu, Gilberto Gil não estão propondo que se acabe Nepal, um professor da Finlândia ajuda uma empresa local a espalhar cone- com a remuneração pela criação intelectual. Ao xão sem fio entre vilarejos. Na África, redes sem fio ampliaram oportuni- contrário. Sua principal intenção é permitir a dades para empreendedores locais. O resultado é mais informação e cul- inovação e construir talvez a única forma de sal- tura, remédio contra males da alma, do corpo e do planeta. É também var a própria indústria de software e de entre- uma nova fronteira para criar e abastecer canais de produção, distribuição n tenimento diante do desafio digital. Ou então, e consumo de bens e serviços, digitais ou não. o risco é punir quem não precisa ser punido e atrasar o incrível desenvolvimento tecnológico * Sociólogo e diretor da Cidade do Conhecimento da USP n e cultural em curso no planeta. tas, que apenas copiam material protegido. siderarmos que a estatística é favorável ao jas ficam com 50% do total desviado. Outra César diz ter começado pichando sites na criminoso. Por exemplo, se ele dispara 5 mi- forma bastante usual de tirar o dinheiro das internet. André afirma que entrou para o cri- lhões de e-mails, basta que 1% dos desti- contas invadidas é o pagamento de boletos me fazendo compras com cartões de crédi- natários responda para que ele tenha em bancários. O invasor paga contas dos laranjas to alheios. Em salas de bate-papo, dizem ter mãos nada menos que 5 mil senhas de con- e estes lhe repassam uma porcentagem do aprendido os truques e conseguiram as fer- tas correntes. “Não sou ladrão. Apenas peço valor pago. É assim que André e César dizem ramentas para praticar o phishing, uma das as senhas e as pessoas me dão”, afirma Cé- ter alugado carrões para ir a festas e conse- mais disseminadas modalidades de crimes sar, sem disfarçar o sarcasmo. guem dinheiro para bebedeiras e farras com cibernéticos. Funciona assim: para conseguir Com os dados bancários nas mãos, os ban- prostitutas. “Já gastei R$ 10 mil em uma via- as senhas das contas, eles enviam milhões kers (como são conhecidos esse tipo de hac- gem de final de semana e R$ 3 mil em uma de e-mails em nome dos bancos e solicitam ker) acionam os laranjas, pessoas que rece- única noite, na comemoração do meu aniver- os dados ou instalam um programa que os bem as transferências em dinheiro em contas sário. Fomos a uma casa noturna e paguei n captura. Por incrível que pareça, muita gen- próprias ou de terceiros, e depois sacam a tudo para meus amigos”, conta André. RICARDO AMORIM te ainda cai no golpe, principalmente se con- quantia em espécie. Normalmente, os laran- 73 ÉPOCA 6 DE MARÇO, 2006

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