AS VELHAS    Lourdes Ramalho
AS VELHASSUMÁRIOPeça original nordestina, enfocando as frentes de trabalho deemergência, formadas pelo governo, por ocasiã...
Música que abre e encerra o espetáculo AS VELHASLetra de Lourdes RamalhoMúsica de José Cláudio Batista                    ...
CENA 01CHICÓ, MARIANA E BRANCA, COM PEQUENA BAGAGEM ÀSCOSTAS, PROCURANDO ABRIGOCHICÓ – Mãe, vamo parar com essas andança e...
CHICÓ – E você pensa que é o que? – A princesa Cesarina ou algumabaronesa? Ai que essa mocinha agora ta que nem o sol – tu...
MARIANA – (SEMPRE IRRITADA) – Vocês num                 já   resolveram?(SUSPIRANDO) – Fica-se até quando Jesus quiser...B...
MARIANA – Ali foi aquele desgraçado que começou com zonzeira comseu irmão. Duro com duro num dá bom muro... Vivia se juran...
BRANCA – (ASSUSTADA) – Taí, Chicó afobou-se. Vamo logo botar ascoisas no canto, mãe. (CONCILIATÓRIA) – Eu faço a cozinha d...
TOMÁS – (APARECENDO) – Bom dia, Dona.MARIANA – Que é que o senhor quer?TOMÁS – (TENTANDO EXPLICAR) – Dona, eu ia passando....
MARIANA – (CORTANDO) – Num tem precisão. Nessa terra numconheço ninguém, nem tenho vontade de conhecer – eles pro cantodel...
CHICÓ – Pois é se arrumar com o que tem e pronto que eu num vou,mal chego, enterrar a unha no barracão, pra nunca mais me ...
TOMÁS – O cabra aqui meteu-se a besta já ta armado o esternegue.CHICÓ – E as briga é de homem pra homem ou eles pega na tr...
MARIANA (ENTRA) – A panela já abriu fervura. Num é que depois debem escaldado o comer ta tomando gosto? Só falta tempero, ...
JOSÉ – Eu tou com medo de botar gente desconhecida na minha turmapor causa do fusuê das lista e da fuxicada do barracão, m...
VINA – Tudo o que tiver no matulão... E como quem num tem com quepague já pagou...TOMÁS – Paga com boas conversa...Como va...
atreve a bulir com Ludovina? Respeitam tudo o que é meu – até oMelado. Sim, senhor, o Melado.TOMÁS – Falar em Melado, eu m...
TOMÁS – Ah, já entregou a alma a Deus há muito tempo...VINA – Pois ta na lista da emergênça. E o defunto Minervino?TOMÁS –...
TOMÁS – Vocês tão sabendo de tudo, mas é bom ficar na moita. Cabrafalador aqui, entra logo nas leis de Chico-de-Brito – me...
VINA – Ô José, você diz que eu falo demais – parece é que macaco numolha pro rabo. – Eu escolho com quem falar e você pega...
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  1. 1. AS VELHAS Lourdes Ramalho
  2. 2. AS VELHASSUMÁRIOPeça original nordestina, enfocando as frentes de trabalho deemergência, formadas pelo governo, por ocasião das secas. Denúnciade roubos efetuados pelos políticos, quando vendem, nos barracões, asmagras rações de mantimentos destinadas gratuitamente aosflagelados.CENÁRIO – Toda a ação se passa em três planos: a oiticica, onde searrancha a família dos retirantes; a casa de Vina e uma nesga de mato,ponto de encontro ou espécie de esconderijo.PERSONAGENSMARIANA – sertaneja de 40 anosCHICÓ – seu filho, 20 anosBRANCA – filha de 16 anosTOMÁS – mascate de 30 anosVINA – mulher de 45 anosJOSÉ – seu filho, 22 anos
  3. 3. Música que abre e encerra o espetáculo AS VELHASLetra de Lourdes RamalhoMúsica de José Cláudio Batista Bate o sol e assola a estrada Caminheiro a palmilhar Como é longa a caminhada Como é tristonha a jornada -Segue a leva, sem parar... Bate o sol e assola a estrada Bate o sol e assola a estrada... Da quentura a labareda Vem do do chão – desce do ar Cadê o atalho ou vereda Que nos leve a um bom lugar -Bate o pé comendo estrada Na esperança de chegar... Bate sola – pé cansado Que teu destino é correr Come terraq – boca triste Antes dela te comer Do céu limpo – faca afiada Bate o sol e assola a estrada Bate o sol e assola a estrada
  4. 4. CENA 01CHICÓ, MARIANA E BRANCA, COM PEQUENA BAGAGEM ÀSCOSTAS, PROCURANDO ABRIGOCHICÓ – Mãe, vamo parar com essas andança e ficar aqui até chegar poinverno. A senhora já viu que todo lugar, nesse tempo, é como cantiga deperua – de pior a pior.MARIANA – Num é os lugar que me desinquieta, meu filho, é os serviçopesado que botam pra riba de você, como se fosse qualquer flageladoacostumado a pegar no eito.CHICÓ – Tá certo que eu nunca fui flagelado, mas chega tempo em quea situação dá para isso – e quem é homem tem que enfrentar todaversidade de trabalho.MARIANA – Mas lhe castigarem desse jeito na picareta, botando serroteabaixo pras estrada passar – Pensa que num vejo o seu sofrer, sevirando a noite inteira na tipóia, sem poder pegar no sono – as mãosinchada de fazer dó?CHICÓ – Ora, mãe, aos mãos é minha... E a senhora, por que numdorme?MARIANA – Acha que posso pregar os olho vendo você num serviço quesó satanás aguenta? – Aquilo tira a sustança de qualquer cristão.CHICÓ – Besteira, Mãe – com esse cabra aqui ninguém pode não.(RETIRANDO DUM SACO UM GANZÁ QUE SEGURA CARINHOSAMENTE,COMEÇA A SACUDI-LO CANTANDO) Pode chover canivete/ quem tafalando é Chicó/ fio de dona Mariana; macho nascido nas brenha/ dosertão do Piancó.BRANCA – (QUE OBSERVAVA O LOCAL, ABSORTA) – Deixa de tualeseira, Chicó, e resolve se a gente fica aqui ou não... Eu tou é cansada– e quando a gente ta enfadada só quer mesmo é canto pra sossegar...CHICÓ – Enfadada? Quem fala. – Vinha passando de grande na boléiado caminhão. – Avalie quem vinha sacolejando no lastro, bolando maisque xexo em ladeira...BRANCA – Tou cansada de viver pra riba e pra baixo, os cacareco nacabeça, como se a gente tivesse sido a vida toda retirante...
  5. 5. CHICÓ – E você pensa que é o que? – A princesa Cesarina ou algumabaronesa? Ai que essa mocinha agora ta que nem o sol – tudo lhe fede asangue real.BRANCA – Ora, a gente sempre teve onde morar, com que passar,sempre foi considerado – e agora deu pra correr mundo... Podia terficado em casa, como gente decente...MARIANA – (QUE ESCUTAVA) E que diabo você queria ficar fazendonaquele desterro? – Comento lagartixa assada ou fazendo vida desanta?BRANCA – Se a gente num tivesse saído aparecia um jeito – Das outrasvez ninguém saiu e escapou tudo – até as criação.MARIANA – Mas isso foi das outras vez. – Mas dessa feita – num temjeito que dê jeito. (VEEMENTE) – Será que você num via a urubuzadanas carniça dos bicho morto, as ossada coarando no sol, nem aderradeira rês, que, pra num morrer de fome – tive que vender porpouco mais que nada?CHICÓ – (Limpando o ganzá, a quem dedica um carinho todo especial) –Isso já passou, minha gente. È meter os peito de novo. Pra que tamovivo? – Só tenho um prazer – tamo de retirada com os piquáio nolombo, mas nunca baixemo o cangote. Sempre seguimo o conselhodavelha que toda vida diz: - “Quem se abaixa de mais... o cu aparece”.BRANCA – Chicó fala se opando todo, como se fosse o dono do mundo...Ô xente. Já vi torres mais alta cair...MARIANA – (IRRITADA) – Larguem de bate-boca sem futuro e venhamcoidar da vida que o tempo ta passando.CHICÓ – E num já tamo coidando?MARIANA – (SURPRESA) – Então a gente fica aqui mesmo?CHICÓ – Pra que melhor? – Uma oiticica com um sombrão de fazergosto, toda cercada em redor de marmeleiro – quem fez esse rancho fezcaprichado – e tem a vantagem de ficar em riba da cacimba e até pertodo barracão, uma meia leguinha só... Parece até coisa prometida porDeus...BRANCA – (AINDA INCRÉDULA) – Como é, a gente fica aqui mesmo?
  6. 6. MARIANA – (SEMPRE IRRITADA) – Vocês num já resolveram?(SUSPIRANDO) – Fica-se até quando Jesus quiser...BRANCA – (DESCONFIADA) – Ih, tas escutando essa, Chicó?MARIANA – Arre, menina, o futuro a Deus pertence. – Você acha queagora a gente vai tirar galé numa beira-de-estrada? – Fica-se enquantoder certo – quando num der...BRANCO – (COMPLETANDO O PENSAMENTO DA MÃE) - ... pernas praque te quero, num é mãe? – É como das outras vez – a senhora nafrente, feito zelação, e nós no rastro.MARIANA – (AMARGURADA) E quem me fez virar zelação? – Vocês. –Será por gosto? Ta esquecida do que aconteceu no Rio Grande?BRANCA – Ô mãe, e o que aconteceu também no Ceará, noPernambuco... – Em todo canto a senhora arranja uma conversa molepra dar o pira...CHICÓ – Que gosto vocês duas tem de desenterrar defunto, heim? –Vamo tratar da vida, botar os terém nos canto antes que chegue outrose tome conta do rancho. – Branca, vigie aí uns garrancho e faça umavassourinha pra ir limpando o terreiro... E a senhora, mãe, que é velha,se assente ali e vá tomar o seu deforete...MARIANA – (CEDE À FORÇA AO CARINHO DO FILHO E SENTA SOBRE OÚNICO CAIXOTE EXISTENTE E QUE FAZ AS VEZES DE MÓVEL) – Essasua irmã tem o costume ruim de passar as coisas na cara da gente...Diz cada uma que me fica atravessada aqui. (GESTO NA GARGANTA).BRANCA – Ora, a senhora quer me culpar de ter saído do Seridó...Enquanto a gente foi pequeno até que se ficou quieto num canto, masquando se cresceu, a senhora jurou tanto que afinal deu pra corrermundo – atrás de que num sei...MARIANA – (MISTERIOSA) – Mas sei eu... É um causo comigo mesma,que num tem nada a ver com vocês...BRANCA – Mas a gente é que paga o pato. Por que foi que se saiu doJuazeiro?
  7. 7. MARIANA – Ali foi aquele desgraçado que começou com zonzeira comseu irmão. Duro com duro num dá bom muro... Vivia se jurando um aooutro. Se a gente ficasse lá eles acabavam se esfaqueando.CHICÓ – (QUE FAZIA A ARRUMAÇÃO) – Mas pia mesmo. Aquilo era umfrouxo. Na primeira vez que eu cantei o bicho ele correu com a sela.MARIANA – Num é o que eu digo? Você mesmo gosta de comprar briga,meu filho. É você na valentia e sua irmã na...BRANCA – Lá vem mãe com a inticança de novo. A senhora mesmoinventa.MARIANA – Inventa? Minha filha, eu num tou caduca, num sou doida enem bebo cachaça pra num saber do que se passa. – Você quer dizeragora que nunca deu cabimento aquele pilantra?BRANCA – Agora sim. Eu num digo que tou mole mesmo?MARIANA – (ZANGADA) – E num fique aí dando muchocho e se fazendode inocnete não. Eu ia lá aguentar ver aquele papangu de novenapassar de vez por dia no meu terreiro, passando e quebrando,quebrando em ponto de torcer o percoço, até se encobrir na curva?BRANCA – (DESDENHOSA) – Pra mim é que ele num quebrava...MARIANA – Se num era pra você, era pra mim ou pra Chicó, pois sótinha nós três em casa.CHICÓ – Pra mim, vôtes. Tenho lá cara de veado!BRANCA – Tá bom, tá bom, num já viemo embora, num tá tamo aqui?Agora é cuidar de ficar e pronto. Mas ficar mesmo, viu?MARIANA – É sua irmã que pega com as animação dela com qualquercatraia – e ainda vem com pilerinha, como se eu fosse qualquer troçoque num merecesse respeito...CHICÓ – Mãe, já que ninguém quer ajeitar nada – vou na cacimba verágua... pode ser que assim esse comer saia... (pega o pote) – E façamlogo o fogo, já quero sair pro serviço armoçado! (Sai dizendo coisas)
  8. 8. BRANCA – (ASSUSTADA) – Taí, Chicó afobou-se. Vamo logo botar ascoisas no canto, mãe. (CONCILIATÓRIA) – Eu faço a cozinha desse ladoporque ali tem galha boa de armar rede, num é?MARIANA – (AINDA AMUADA) – Faço do jeito que quiser... (NOUTROTOM) – Eu, que já estou assentada, vou fuxicando os calção de trabalhodele. (BRANCA COMEÇA A VARRER. MARIANA COSTURA, PENSATIVA) –Ai que dor nas cruz. (FALA SÓ) – Tou mais banida que couro-de-pisar-fumo. – Também, viver que nem judeu errante... Mas, já comecei vouaté o fim... Esperei a vida inteira por isso – andar, andar até acharaquele ingrato. (SUSPIRA) – Talvez fosse melhor ter morrido tudo emcasa, numa ruma feito tapuru... Mas as leis de Deus tem quer ser justa,tem que fazer ela pagar tim-tim por tim-tim todo o mal que me fez.BRANCA – (QUE VARRIA E ESCUTAVA) – Mãe parece que tá aluada,falando sozinha... (CONTINUA VARRENDO E ESCUTANDO).MARIANA – Eu toda vida fui injicada com cigano. Parece até queadvinhava a desgraça que uma tinha pra me trazer. Quando erapequena, que avistava uma bicha daquelas, as saiona arrastando, chegame dava um baticum no coração. Quando moça, nunca dei a mão pralêr – mesmo assim uma me disse: “Ganjona, deixe eu cortar o mal queuma do meu sangue tem pra lhe fazer”. Se eu tivesse acreditado... Mas,nesse tempo era muito pegada com o meu padim Ciço e eleexcomungava quem andasse com essa qualidade de gente...BRANCA – (PARA SI) – Isso é sina que a gente traz e tem de cumprir...(TOMÁS APARECE E FICA MEIO OCULTO, ESCUTANDO TAMBÉM)MARIANA – (AINDA EM SOLILÓQUI) – Que vida tenho levado! Isso ébaião pra doido. Queria ver se com Tonho a gente tinha desandado aesse ponto... Tinha nada! Tonho era aquela moleza, aquela queda pelasfeme – mas era homem – e homem de todo jeito é respeitado. Se numfosse aquela cadela prenha ter se atravessado na vida da gente... Tirouo pai de meus filhos, o sossego da família... Foi que nem a outra disse,ah, praga dos seiscenteos diabo, fiquei sem meu Tonho e quem quiserque pense o que é uma mulher nova, forte, viçosa, caçar nos quatrocanto da casa o seu homem e só achar a saudade dele... Dá vontade dagente desabar no meio do mundo e fazer tudo o que num presta... Issoeu num fiz, sei mesmo que num fiz pela obrigação dos filho, mas elemerecia. Tem nada não, tudo, vem a seu – e agora... (SENTE APRESENÇA DE ESTRANHOS) – Ô xen, quem é o senhor?
  9. 9. TOMÁS – (APARECENDO) – Bom dia, Dona.MARIANA – Que é que o senhor quer?TOMÁS – (TENTANDO EXPLICAR) – Dona, eu ia passando...MARIANA - (AGRESSIVA) – O senhor sabe que é muito mal prometidochegar assim, na casa alheia, de chapéu de sol armado, como se jáfosse conhecido antigo?TOMÁS – (DESCULPANDO-SE) - ...ia passando e vi gente arranchadaaqui...MARIANA – E isso era motivo pro senhor embocar sem mais nem menosnos canto, confiado como se já fosse amigo do peito?TOMÁS – (QUERENDO AGRADAR) – Sabe, Dona, eu ando mascateandoe vim saber se tão precisando de alguma coisa.MARIANA – (FERINA) – E por isso vem se chegando todo de bandinha,todo mansinho... Isso é lá procedimento de gente de vergonha! Setivesse negoço, aparecesse logo, batesse palma, chamasse pelo povo –assim é que faz quem tom boa tenção, meu senhor.TOMÁS – (ENLEADO) – Dona, adisculpe, eu num sou malfazejo não,sempre soube entrar e sair em toda parte sem deixar fama dedesordeiro ou atrevido.MARIANA – 0 senhor num obrou bem, usando de moitim como acaboude usar...TOMÁS – Num ignore, dona, é que por volta de dez légua todo mundome conhece e eu penseil...MARIANA – Pois todo penso é tordo e num lhe conheço e nem o senhora mim, do contrário já tava sabendo que num sou mulher de prosa nemde braço no pescoço – e mais – pra ter minha confiança a pessoa temque, primeiro, comer uma sada de sal mais eu...TOMÁS – (REAGINDO) – Até aqui nunca tive malquerença com ninguém– o que ouço num canto lá mesmo deixo, nunca fuxiquei e sempre fuibenquisto – se a senhora quiser saber quem é Tomás Mascate é sóespecular.
  10. 10. MARIANA – (CORTANDO) – Num tem precisão. Nessa terra numconheço ninguém, nem tenho vontade de conhecer – eles pro cantodeles e eu pro meu, tá ouvindo?TOMÁS – De qualquer jeito, se a dona precisar de mim é só dizer...MARIANA – Agradecida, mas num vou precisar e tamos conversado...BRANCA – (QUE ESCUTARA O DIÁLOGO ANSIOSA, INTERCEDE) – Mãe,Chicó já vem chegando, num era bom o homem esperar por ele? – Osenhor espere um tiquinho que meu irmão pode querer alguma coisa...– Se assente ai...TOMÁS – (AINDA RESSENTIDO) – Não, moça, eu vou-me indo...BRANCA – (APRESSADA) – Pronto, meu irmão chegou. Chicó, essehomem veio aqui se oferecer... e mãe... você sabe...CHICÓ – (ENTRA E PÕE O POTE NO CHÃO) – Bom dia, amigo, eu tinhaido ver água... É limpa que nem cristal, mãe, só tem que é meio pesada– de cacimba e nesse tempo, já se viu... Branca, vá botar o comer nofogo, faça aí um caldo-de-caridade pra gente enganar a fome... (ATOMÁS) – E o amigo, que é que manda?TOMÁS – Eu sou vendedor ambulante e vim me oferecer à dona, mas játou de saída – até loguinho...CHICÓ – Já? Só porque eu cheguei? Demore uma coisinha pra esfriar ocorpo – um seção desse... O sol mal sai e a quentura já torrando tudo...Encoste aí... A gente acabou de chegar, ta tudo à toa... – Então, vocêmascateia?TOMÁS – (ANIMANDO-SE) – É... também levo encomenda, tragoencomenda... Tempo ruim...CHICÓ – O tempo ta com cara de hereje. – Bernardo Cintura andaacochando muita gente.TOMÁS – Se anda! A coisa ta tão vasqueira que às vez a gente tem odinheiro e num acha o que comprar.MARIANA – (QUE COSTURAVA) – Por falar em vasqueira, Chico, o feijãoZinho que tem mal dá pra quebrar o jejum...
  11. 11. CHICÓ – Pois é se arrumar com o que tem e pronto que eu num vou,mal chego, enterrar a unha no barracão, pra nunca mais me livrar. É searranjar com o que tem, já disse – o pouco com Deus é muito – e omuito sem Deus é nada... Tou ou num tou certo, amigo?TOMÁS – Por falar nisso, a senhora num tome por desfeita – tenho aquiuma mucutinha de feijão e até um taquinho de jabá – tinha compradopra uma comadre me fazer o almoço, mas tou avexado pra voltar prarua... (ESTENDE O PACOTE A MARIANA, QUE FICA IMÓVEL).CHICÓ – Ora, rapaz, caiu a sopa no mel. É misturar tudo e fazer umapanela só. Pronto, mãe, deixe de apocamento e vá preparar a bóia.Largue de besteira, o rapaz num deu com tanto gosto? Pegue duma vez,eu sei que a senhora ta qurendo...MARIANA (RECEBE) – Dê cá, você ta mandando... (EXAMINA) – VirgeMaria, é mais gorgulho que caroço de feijão.CHICÓ – Deixe de léria – gorgulho é carne de pobre. Leve e faça umcomer gostoso como só a senhora sabe fazer.MARIANA – Pela amostra logo se vê o que tão vendendo nesse barracão.Só deve ter o que num presta – e pela hora da morte. (SAI).CHICÓ (A SÓS COM TOMÁS) – Viu? Pra viver com mãe é preciso jeito.Ela é arisca por vida, e muito desconfiada com desconhecido. Mas,enquanto a gororoba apronta, vamo nós conversando – eu calço esseenxadreco e você me conta as coisas daqui... me dá umas informação...Me diga – tem muita moça bonita nesse lugar?TOMAS – Depende... Moça é como chita...CHICÓ – Lá isso é... E as diversão. Tem sempre um samba ou umforrozinho pra gente balançar o esqueleto?TOMÁS – Foi num foi, eles faz um furdúncio – é Quinta da consertina ouZé do Fole aparecer...CHICÓ – Ô belage... E as moça. Deixa a gente dançar agarrado?TOMÁS – Podia até deixar... A família é que num deixa...CHICÓ – Abe emboança, né?
  12. 12. TOMÁS – O cabra aqui meteu-se a besta já ta armado o esternegue.CHICÓ – E as briga é de homem pra homem ou eles pega na traição?TOMÁS – Nessa terra tem de tudo. Aqui vive toda nação de gente. Masrapaz, você parece que é meio terra-quente, heim?CHICÓ – A gente tem que viver – quem passa a semana toda no eitotem que ter seu refrigério. Mas, venha cá e fique lá mesmo – essenegócio de mulher aqui... mulher pra... você entende, né?TOMÁS – Homem, isso aqui é um causo meio difícil... Na redondezamesmo num tem uma só, nem pra meizinha...CHICÓ – Ô xen, e os home daqui, como sr arremideia?TOMÁS – Os homem? Bom, tem os que se vira por eles mesmo... Outrosprocura nos campo... e os mais luxento vai nas rapariga da rua, se bemque na outra semana já teja nas garrafada de Maria Roxinha – ou noCibazol, que trago aqui comigo...CHICÓ – Votes! E por perto num se arranja nem uma neguinha pra umnamoro achambregado?TOMÁS – Só se for lá na Pitombeira, praqueles lado.CHICÓ – E como se vai lá – tem algum festejo?TOMÁS – Tem novena, mas só no mês de Maria, São João e Santana.Agora mesmo teve a procissão de São José – quando num chove o povorouba os santos e faz penitença.CHICÓ – As reza também dá ingresia? Rapaz, eu tou precisando medesforrar dum tempão que passei sem ver nem cara de mulher, quantomais o resto... Desde que a seca começou que a gente vira mundo. Jáse andou por tudo quanto é canto. Eu mesmo quase fico enterrado emCatolé do Rocha, terra em que se mata gente no meio da rua porbrincadeira. Entrei lá numa fria...TOMÁS – Por isso sua mãe é carrasca – você é metido a cavalo-do-cão...CHICÓ – Ela é carrasca mesmo. Sustenta a gente no cabresto curto... Ocabra estremeceu ela já ta ali, no pé do loro...
  13. 13. MARIANA (ENTRA) – A panela já abriu fervura. Num é que depois debem escaldado o comer ta tomando gosto? Só falta tempero, mas, aDeus querer, a gente vai ter aqui uns caquinho de verdura...TOMÁS – Por falar em verdura, tenho aqui até umas sementinha decoentro que me pediram pra plantar – se a dona quiser...CHICÓ – Chegou em boa hora. Dê a mãe e você vai ver do que essamão dela é capaz... A gente inda vai fazer muita bóia junto e var verque mulher como essa aí só nascendo, porque num existe outra...Vamos comer que já dando uma biloura de fome... (CANTA COM OGANZÁ) – Minha mãe me dê comida/ já num agüento a fome/ tripa secafaz mofino/ O mais valente dos home/ faz chorar que nem menino/ todoe qualquer cangaceiro, até galo bate o pino vira capão de terreiro.CENA 2NO CAMINHO – ENCONTRO DE JOSÉ E TOMÁSTOMÁS – Boa, José, em casa tá tudo em paz?JOSÉ – Se você chama aquilo de paz. O velho encaranguejado pra umcanto e mãe pra outro, entrevada com o reumatismo... Assim mesmo agente assenta ela no batente da cozinha, e dali, tanto ela determina aluta de casa, como dá conta da vida de quem vai e quem vem...TOMÁS – Vina é uma graça e eu sempre digo: quando aquele morrer, ocorpo vai numa caixa de fosco... e a língua num caminhão.JOSÉ – Mãe toda vida foi linguaruda – mas disposta. Só agüentar obanzeiro da doença de pai todos esses anos... Vai lá em casa, ela temum montão de encomenda pra lhe fazer.TOMÁS – Eu já tou indo, mas, primeiro, me faça um favor: arranje umavaga pra um rapaz que chegou faz 15 dias... ele tava engajado naturma dos Moitas, mas num se deu bem o feitor... que, cá pra nós, poisnum quero intriga com ninguém, tem uma cara de arroto choco damolesta...
  14. 14. JOSÉ – Eu tou com medo de botar gente desconhecida na minha turmapor causa do fusuê das lista e da fuxicada do barracão, mas, um pedidoseu... Quem é esse sujeito?TOMÁS – É desse pessoal que ta arranchado nas oiticica. É gente boa eque num engole as safadeza do Dr. Procope... de vez em quando taabrindo a boca e a mãe fica nervosa...JOSÉ – Ah, o povo das oiticica...outro dia passei e vi uma mocinhaaguando uns caquinhos de planta. Já sei quem é o rapaz – ele gosta detomar bicada e cantar verso. Mas você num perde tempo – já ta decama-e-mesa lá, heim?TOMÁS – Que é isso, menino? Ali é gente pobre, mas carrega o seurócio. Uma família cheia de precato...JOSÉ – Nem parece... o rapaz é rede rasgada...TOMÁS – Mas as mulher tem preceito. Homem tem passagem livre...Chico já andou articulando com gente do barracão – ladroeira no peso enum ta sendo visto com bons olhos... Você arranja a vaga?JOSÉ – Você num pede – manda... E, agora, vá vê Mãe, que taesperando...(SAI. TOMÁS SEGUE CAMINHO ATÉ A CASA DE VINA)CENA 3VINA E TOMÁSTOMÁS – Ô de casa. Licença pra um pobre ambulante entrar?VINA (SENTADA NO BATENTE DA PORTA) – Lá vem o freguês da mánotiça. Até que enfim apareceu. Aposto que as novidades que trás éfome, carestia e safadeza.TOMÁS – Ô língua de prata. Só falo disso quando encontro pareceira.Que me compra hoje?
  15. 15. VINA – Tudo o que tiver no matulão... E como quem num tem com quepague já pagou...TOMÁS – Paga com boas conversa...Como vai essa força?VINA – Num vou bem como você que tem uma vida boa...TOMÁS – Vida boa... Um pobre que vive de malote às costas, levandofora dum, calote de outro, pra juntar meia pataca na ponta do lenço...VINA – Sente, homem, pra descançar as pernas...TOMÁS – É as perna descançando e o trazeiro tendo trabalho...VINA – Castigo é o meu, com o mucumbu atolado nessa esteira, inturidaque num há remeido que desarrollhe...TOMÁS – Ô xen, e a pílula que eu trouxe da rua?VINA – As pílula? Aquilo é água do pote. Também umas porqueirinhapichititinhas assim... E pior é que me apareceu uma dor de cabeça,encasquetada do caroço do olho aqui pra cova-do-ladrão... Ontem , jáao cantar do galo, José te que ir atrás de uma café aspirina que foi comque ainda dormi uma madorna...TOMÁS – Você já ta de pés virado pra cova, criatura. Arrependa-se dospecados e entregue a alma a Deus. Quem ta na luta da casa?VINA – Rita de Oleriana dá uma ajuda, mas ali, você conhece, é “olhoviu – mão andou”... A raça toda é rato puro – ta no sangue...TOMÁS – A culpa é sua. Foi botar Zé Mutuca pra fora...VINA – Aquilo era cabra trabugueiro e preguiçoso. Só aparecia na horado comer e era enchendo o rabo e virando a perna pra tomar fresca eroncar... e tanto roncava pelo norte como pelo sul... Só queria vidagrande, e, como sabe ler, já botaram como apontador nas listas decassaco...TOMÁS – Virge. Agora é que a safadeza vai engrossar...VINA – Se vai... É desses traste que os políticos precisa pra fazerrobalheira. Cadê que chamam José? Por muito favor deram o empregode feitor – e ainda num tomaram com medo da minha língua... Quem se
  16. 16. atreve a bulir com Ludovina? Respeitam tudo o que é meu – até oMelado. Sim, senhor, o Melado.TOMÁS – Falar em Melado, eu me lembrei. Vê se prende ele uns dias...O bicho ta dando o maior trabalho ao pessoal que se arranchou nasoiticica... Foi num foi ele aparece lá e é um destempero...VINA – Ah, é os retirante que você anda parido por eles. Pois lheinformaram mal, Melado num sai de redor de casa. Eu num digo – sóterá de bode nessa terra ele?TOMÁS (INSISTENTE) – Que num sai de casa, Vina? Toda vizinhançavive se queixando. Nem roupa se pode mais deixar nas cerca que elecome tudo.VINA – Pois é num deixar. Quem lavar seus pano que fique pastorando.TOMÁS – Ele arranca até dos couro da pessoa. Num viu Maroca? Saiu decasa vestida e voltou com as vergonha de fora.VINA (DIVERTIDA) – Ali foi bem feito. Numa seca dessa, vestir roupaverde é pra quem quer ficar nu mesmo...TOMÁS – Você pra desculpar o que é seu é na hora, mas pra julgar malos outros...VINA – Eu num intento nada de ninguém, agora se me contam, boto prafrente – aplaudir safadeza alheia nunca foi pecado... Pra que é que ficoo dia todo estatelada nesse batente? – É colhendo as ruindade e abrindoa boca no mundo.TOMÁS – É, você da corda a quem vai e quem vem, e, depois, vaiemprenhar os ouvidos de José. – Ele já ta ficando mal visto, viu?VINA – Mal visto por quem? – Pelo grande que ta enchendo o rabo àscustas dos miseráveis? – A gente tem que rasgar a safadagem, se numquiser morrer de fome. Eu Já descobri cada coisa – (EM TOM DECONFIDÊNCIA) – Se lembra de Pirrita, o jumento de Zé Catota? Ta denome assentado na lista dos cassaco, ganhando dinheiro.TOMÁS – Isso é conversa do povo...VINA – Conversa? Me diga, cadê o finado Pedro Bota?
  17. 17. TOMÁS – Ah, já entregou a alma a Deus há muito tempo...VINA – Pois ta na lista da emergênça. E o defunto Minervino?TOMÁS – Peraí, num vai dizer...VINA – E eu brinco? Noutra lista, trabalhando no eito. E assim, todo ocemitério anda agora dando duro nas estrada. É as tal lista-fantasma,donde o Dr. Procópe enraba rios de dinheiro. Tem casa que, além dasalma penada, até os gato e cachorro ta alistado, pra essa canalha degravata embolsara os cobre.TOMÁS (DE CHOFRE) – E na turma de José?VINA – Na do meu filho num tem disso não, ta com a gregena prapensar uma coisa dessa? – José é carne-de-galo, por isso tão danadocom ele. Outro dia colocaram nome de um magote de menino-de-cueiro– mas ele cortou na hora. Tenho até medo de uma traição, do jeito queaqui, por qualquer besteira, mandam um pra cidade-de-pé-junto...TOMÁS – (OLHANDO O CAMINHO) – Ô xen, José já deu com Chico? –(DIRIGINDO-SE AOS QUE CHEGAM) – Vocês dois já vem assim, deparelha?CENA 4JOSÉ E CHICÓ CHEGAM A CASA DE VINAJOSÉ – Você num conhece o dito: “falou do mau, prepare o pau”? – Poisassim que nós se deixemo, eu fui logo dando de cara com o rapaz – aíentremo no assunto da mudança de turma, e o resultado é que amanhãmesmo ele vem pra cá.CHICÓ – Graças a Deus me livrei de matar ou ser morto, porque viverjunto com um bando de ladrão daqueles... Valeu porque peguei toda apatuscada – se de tudo o que robalheira...JOSÉ – Foi bem ter encontrado Chico – o que eu faltava saber, descobriagora...
  18. 18. TOMÁS – Vocês tão sabendo de tudo, mas é bom ficar na moita. Cabrafalador aqui, entra logo nas leis de Chico-de-Brito – metem a macacapra cima.VINA – E você acha que ainda se deve cobrir o sol com uma peneira? Ocauso dos caminhão de mantimento...JOSÉ – Dando com a língua nos dentes, mãe?VINA – Eu num sou saco de segredo de ninguém... Pra que me deramágua-de-chocalho pra beber, em pequena?TOMÁS – Ta desconfiando de mim, José?JOSÉ – Ta doido? – É que a gente precisa de prova pra poder abrir aboca.CHICÓ – VocÊs tão falando dos mantimento que o governo manda prosflagelados e os políticos desvia pro barracão? – Eu já me escondi epeguei... À meia-noite chegou um caminhão, eles descarregaram – eraleite em pó, jabá, feijão, farinha e rapadura. Enquanto, no escuro, elesbotavam pra dentro, eu entrei na boléia e surrupiei as notas. Ta tudo naminha mão, nota fiscal do que veio pra ser dado de graça e osdesgraçado tão vendendo. Só tou esperando a hora pra denunciar...TOMÁS – O que foi que eu lhe disse, José? – Esse era o rapaz que vocêprocurava. Mas tenha cuidado – seguro morreu de velho...CHICÓ – Pode contar comigo pro que der e vier. Quero ver como vaificar a cara desses grandão... Calçada de vergonha, setiverem...(LEMBRANDO-SE) – Ah, é essa a casa do bondinho? – Mas elefez uma amizade tão grande com minha irmã... Mãe é que implica,porque o bichinho caga por todo canto, se atrepa pra comer os caco deverdura, e ela, ave Maria, num sabe fazer comer sem as folhinha decoentro e cebola, pra dar gosto...JOSÉ – Chico, guarde lá suas provas que eu aqui já tenho também asminhas – listra com nome de defunto, gato, cachorro, jumento, bebê evelho aposentado... Dessa feita o Dr. Procope vai responder por tudo,até pelas ossada dos pobre que ele mandava matar e enterrar nafazenda.
  19. 19. VINA – Ô José, você diz que eu falo demais – parece é que macaco numolha pro rabo. – Eu escolho com quem falar e você pega qualquercabuleté do oco do mundo e dá toda confiança.CHICÓ – Se a dona ta dizendo isso comigo ta redondamente enganada.Eu nunca fui do oco do mundo, sou sertanejo de vergonha na cara,tenho minha mãe e minha irmã pra sustentar e ninguém é o que a donata maginando não...VINA – Mãe, irmã – mas pai, que é o chefe da família – por certo o gatocomeu...CHICÓ – O gato, não, foi o destino, dona e qualquer um peça felicidadea Deus, que ninguém ta livre de sofrer o que a gente sofreu...TOMÁS – Vina, você é ferina demais – esse povo tem terra, tem gado, éporque a seca quando vem num pede licença – desembandeira ricos epobres. – Que mulher mais perigosa...CHICÓ – Deixe, Tomás, cada um dá o que tem. Até amanhã vocês...(SAI)VINA – (Para os dois que haviam ficado silenciosos) – Que cara dejumento-sem-mãe é essa? – Parece que viram visagem? Em vez deficarem aí, apatetados, me ajudem a levantar que ta no hora de botar aceia... (OS RAPAZES, SILENCIOSOS, LEVANTAM VINA E A LEVAM PARADENTRO).CENA 5 – EM CASA DE MARIANA

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