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Ficha Informativa – 11º Ano FILOSOFIA

                     TEMA: O ESTATUTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
   Vamos caracterizar melhor este ponto de vista especial sobre o mundo a que chamamos ciência, analisando as
suas especificidades e procurando compreender o processo do seu desenvolvimento.

    Já sabemos que a ciência não é a única forma de conhecimento, nem a primeira e mais imediata forma de nos
relacionarmos com o real.
    Na verdade, existe uma forma comum de conhecimento, formado no decorrer da vida de cada um pela simples
acumulação de experiências pessoais e que nos serve de orientação para o nosso viver quotidiano com uma certa
eficácia. De modo natural e directo, vamos conhecendo os objectos que nos cercam, as pessoas com quem lidamos,
a rua ou cidade onde moramos, etc. Fazemos tudo isto, sem ser de uma forma propriamente científica, mas antes
pela experiência de vida. No nosso dia a dia passamos bem sem a ciência. Porquê? Porque no nosso dia a dia basta-
nos o senso comum.
    É um tipo de conhecimento que assenta exclusivamente na experiência de vida que todos os homens têm; é um
saber popular, básico e elementar transmitido oralmente de geração em geração; é adquirido através do ouvir dizer,
do ver fazer e da imitação de comportamentos com os quais nos identificamos. Ele é fruto da aprendizagem e
educação que espontânea e/ou institucioalmente recebemos enquanto membros de uma comunidade. O
conhecimento do senso comum, sendo imprescindível à vida do dia a dia apresenta, no entanto muitas limitações: é
superficial; está sujeito a erros; é subjectivo; não é um conhecimento crítico.

TEXTO 1: « A apreensão imediata e directa dos sentidos pode dar representações inexactas da realidade captada;
(...) Recordemos um dos mais notórios – os sentidos dizem enganadoramente ao homem que o Sol gira em torno
da terra e que esta é imóvel. Isto, no entanto, é uma mera aparência que só o aprofundamento do processo
cognitivo pode resolver, vencendo-se essa aparência imediata e enganadora.»
                                                          Armando de Castro, A Evolução Económica de Portugal


   Esta forma de conhecimento, embora importante para nos inserirmos na realidade que nos rodeia, não nos dá a
explicação e a compreensão mais profunda que ansiamos.


« Hoje, descobrimos um meio poderoso e elegante para compreender o universo, um método chamado ciência.»
Carl Sagan, Cosmos

« Se vivêssemos num planeta onde nada mudasse, pouco teríamos que fazer. Não haveria nada a compreender.
Não haveria necessidade de ciência. E, se vivêssemos num mundo imprevisível, onde as coisas mudassem ao
acaso ou de forma muito complexa, não teríamos possibilidade de esclarecê-las. E, mais uma vez, não haveria
ciência. Mas vivemos num universo intermédio, onde as coisas mudam, de facto, mas segundo padrões, regras, ou,
como nós lhe chamamos, leis da natureza. Se eu atirar um pau para o ar, ele cai, sempre. Se o Sol se põe a
ocidente, nasce sempre, na manhã seguinte, a oriente. E por isso, é possível compreender as coisas. Podemos
desenvolver a ciência e, com ela, melhorar as nossas vidas.»
                                                                                         Carl Sagan, Cosmos

   O conhecimento científico, marcado pela sua natureza racional, não é comum a todos os homens, mas é um
conhecimento comum a grupos de especialistas visando a objectividade.
O conhecimento científico constitui-se como outro modo de o homem apreender o real. Não se funda nas
evidências do senso comum. A ciência não é uma atitude espontânea e natural do ser humano: levou muito tempo e
foi percorrido um longo caminho para que a ciência configurasse o real de modo novo (científico).

    A ciência não é uma interpretação espontânea da realidade, mas uma interpretação metódica e racionalmente
construída.
A ciência através da introdução da medida, do método experimental e da matemática, criou um saber abstracto e
muito afastado do nosso dia a dia. O método experimental comporta: observação organizada de um fenómemo ou
grupo de fenómenos; a formulação de hipóteses (momento em que se procura arranjar uma explicação plausível para
os fenómenos observados) e a verificação experimental (momento em que se procura comprovar a validade da
hipótese). O método, dirigindo a investigação de uma forma organizada, rigorosa e geralmente aceite pela
comunidade científica, permite chegar à descoberta de constâncias, de regularidades, de relações necessárias, que
conduzirão posteriormente à enunciação de leis. É pelas leis e teorias que o cientista explica os factos, relacionando-
os uns com os outros, de modo a transmitir-nos uma visão estruturada do mundo.

    A ciência torna-se próxima da filosofia pela sua postura de investigação, pelo seu desejo de saber, pela procura
racional que empreende no sentido de descodificar os enigmas e mistérios do mundo. Mas demarca-se dela, pelo
registo solucionador que adopta face aos problemas. A ciência não se contenta com respostas, ela pretende chegar
a soluções e, através destas, fazer desaparecer os problemas com que se defronta.

 « O homem, na sua necessidade de lutar contra a natureza e no seu desejo de a dominar, foi levado, naturalmente
 à observação e ao estudo dos fenómenos, procurando descobrir as suas causas e o seu desencadeamento.
 Os resultados deste estudo, lentamente adquiridos e acumulados, vão constituindo o que, no decurso dos séculos
 da vida consciente da humanidade, se pode designar pelo nome de ciência. O conhecimento científico distingue-se,
 portanto do conhecimento vulgar ou primário, no facto essencial seguinte: este satisfaz-se com o resultado imediato
 do fenómeno – uma pedra abandonada ao ar cai; uma leve pena de ave, abandonada ao ar, paira, ou sobe; aquele
 faz a pergunta porquê e procura uma resposta que dê uma explicação aceitável pelo nosso entendimento.
 O objectivo final da ciência é, portanto a formação de um quadro ordenado e explicativo dos fenómenos naturais,
 fenómenos do mundo físico e do mundo humano, individual e social. (...)
 Os homens pedem à ciência que lhes forneça um meio, não só de conhecer mas de prever fenómenos – quanto
 maior for a possibilidade de previsão maior será o domínio deles sobre a natureza. (...)
 Entendamo-nos bem. A ciência não tem, nem pode ter, como objectivo descrever a realidade tal como ela é. Aquilo
 a que ela aspira é construir quadros racionais de interpretação e previsão; a legitimidade de tais quadros dura
 enquanto durar o seu acordo com os resultados da observação e da experimentação.»
                                                     Bento de Jesus Caraça, Conceitos Fundamentais da Matemática


  A ciência pode ser e é vulgarmente entendida como uma organização de conhecimentos e de resultados que são
aceites universalmente. Esta aceitação universal é devido ao facto de os resultados poderem ser verificados.

     « O primeiro carácter do conhecimento científico (...), é a objectividade, no sentido de que a ciência intenta
 afastar do seu domínio todo o elemento afectivo e subjectivo, deseja ser plenamente independente dos gostos e
 das tendências pessoais do sujeito que elabora. Numa palavra, o conhecimento verdadeiramente científico deve ser
 um conhecimento válido para todos. A objectividade da ciência, por isso, pode ser também, e talvez melhor,
 chamada intersubjectividade, até porque a evolução recente da ciência, e especialmente da Física, mostrou a
 impossibilidade de separar adequadamente o objecto, do sujeito e de eliminar completamente o observador. (...)
 Todavia, não elimina de modo algum da ciência o propósito radicalmente objectivo.
     Outro carácter universalmente conhecido é a positividade, no sentido de uma plena adesão aos factos e de
 uma absoluta submissão à fiscalização da experiência. (...)
O terceiro carácter do conhecimento científico reside na sua racionalidade. (...) A ciência moderna é
 essencialmente racional, isto é, não consta de meros elementos empíricos, mas é essencialmente uma construção
 do intelecto. (...) A ciência pode ser definida como um esforço de racionalização do real. (...)
       Além disso, os cientistas modernos verificam unanimemente no conhecimento um carácter muito alheio à
 mentalidade científica do século passado, o da revisibilidade. Não há posições definitivas e irreformáveis. Toda a
 verdade científica aparece, em cerrto sentido, como provisória, susceptível de revisão, de aperfeiçoamento, às
 vezes mesmo de uma completa reposição em causa. Todos os conhecimentos científicos são aproximados. (...) Os
 conceitos de adequação total e perfeita devem ser substituídos pelos de aproximação e validez limitada.»
                                                                                   Selvaggi, F.: Enciclopédia Filosófica

  « O conhecimento científico é fáctico: (...) Parte dos factos, respeita-os até certo ponto e sempre retorna a eles. A
 ciência procura descobrir os factos tais como são, independentemente do seu valor emocional (...). Nem sempre é
 possível, (...) respeitar inteiramente os factos quando se analisam. (...) O físico perturba o átomo que deseja espiar;
 o biólogo modifica e pode inclusive matar o ser vivo que analisa; o antropólogo, empenhado no seu estudo de
 campo de uma comunidade, provoca nele modificações. Nenhum deles apreende o objecto tal como é, mas tal
 como fica modificado pelas suas próprias operações.
 O conhecimento científico é claro e preciso: os seus problemas são distintos, os seus resultados são claros. (...)
 O conhecimento científico é comunicável: (...) não é privado, mas público. A linguagem científica comunica
 informações a quem quer que tenha sido preparado para a entender. (...)
 O conhecimento científico é verificável: deve passar pelo exame da experiência. Para explicar um conjunto de
 fenómenos, o cientista inventa conjecturas fundadas de algum modo no saber adquirido. As suas suposições
 podem ser cautelosas ou ousadas, simples ou complexas; em todo o caso, devem pôr-se à prova. (...)
 A investigação científica é metódica: (...) A investigação procede de acordo com regras e técnicas que se
 revelaram eficazes no passado, mas que são aperfeiçoadas continuamente (...).
 O conhecimento científico é sistemático: uma ciência não é um agregado de informações desconexas, mas um
 sistema de ideias ligadas logicamente entre si. (...)
 O ciência é explicativa: tenta explicar os factos em termos de leis e as leis em termos de princípios. Os cientistas
 não se conformam com descrições pormenorizadas; além de inquirir como são as coisas, procuram responder ao
 porquê: porque é que ocorrem os factos tal como ocorrem e não de outra maneira. (...)»
                                                                           M. Bunge, La ciencia, su método y su filosofía

    Tal como podemos constatar através da análise dos textos, a ciência pode ser e é vulgarmente entendida como
uma organização de conhecimentos e de resultados que são aceites universalmente. Esta aceitação universal é
devido ao facto de os resultados poderem ser verificados e de a construção do conhecimento se submeter a métodos.
   A ciência visa a observação e o estudo aprofundado dos fenómenos naturais e sociais.
   - não se limita a descrever a experiência, mas a explicá-la por meio de leis;
   - é um conhecimento que se submete à verificação experimental;
   - é um conhecimento organizado, metódico, que se baseia numa investigação planeada;
     - é um conhecimento sistemático, ou seja, não é constituído por um amontoado de informações, mas por um
conjunto de ideias metódica e logicamente organizadas;
   - o conhecimento científico procura as causas e uma explicação para os fenómenos observados;
    - à subjectividade do conhecimento do senso comum, o conhecimento científico procura opôr a objectividade: ser
independente dos gostos e tendências do sujeito que conhece. É neste sentido que a ciência se constitui como um
conhecimento que procura ser universalmente válido, isto é, válido para todos. Este objectivo é assegurado quer pela
submissão de todas as hipóteses à fiscalização da experiência, quer pela utilização de uma linguagem rigorosa.

   A ciência ganhou durante a modernidade o estatuto de conhecimento verdadeiro e objectivo, subordinado ao rigor
matemático e ao método experimental. Esta concepção despertou um optimismo muito grande no papel da ciência,
chegando-se a pensar que em seu nome poder-se-ia dominar o mundo e que o progresso científico conduziria a
humanidade em direcção à verdade total sobre a natureza, à organização da justiça entre os homens e à felicidade
nesta vida.
      MAS, a ciência perdeu este estatuto. Hoje, a ciência apresenta-se de forma menos ambiciosa, configurando
apenas uma das interpretações possíveis do mundo, susceptível de ser falsificada, sem um método concludente, sem
verificações definitivas e com uma objectividade aproximada. A ciência é um processo em contínua revisão, em
permanente auto-correcção. O rigor do conhecimento científico é limitado e apenas podemos esperar resultados
aproximados, não absolutamente certos.

    Mas, apesar do dito, não podemos negar que vivemos numa época profundamente marcada pela ciência e
não temos receio de afirmar que muito lhe devemos. É hoje um lugar comum, defender que a vida dos homens e
das mulheres se transformou e que muitas dessas transformações são devidas ao progresso científico e técnico. Não
podemos pois ignorar a ciência: foi ela que nos deu os antibióticos, as viagens à lua, os raios laser, todo o conforto
material a que hoje estamos habituados e que já não dispensamos. Talvez por isso, ainda domine actualmente uma
concepção de ciência como algo de qualidade, mas uma qualidade que não pode oferecer dúvidas uma vez que foi
testada e provada e que inclusivé já deu provas suficientes para ser merecedora de uma confiança total. De facto, aos
olhos do grande público, a ciência surge como o protótipo de um conhecimento rigoroso, objectivo, fiável e merecedor
de total confiança.
    MAS, não nos podemos esquecer também do lado negativo da ciência: armamento, guerras, bombas nucleares,
atómicas, químicas, cobaias, manipulação genética, clonagem, desastres ecológicos, etc. A ciência tornou-se
explosiva. Mas não podemos passar sem ela e sem o que ela nos permite obter. É afinal, a dramática contradição do
humano modo de viver: perpetuamente em desiquilíbrio, constantemente em progresso.


                                                                        Professora: Rosa Sousa

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Conhecimento Científico 11o Ano Filosofia

  • 1. Ficha Informativa – 11º Ano FILOSOFIA TEMA: O ESTATUTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Vamos caracterizar melhor este ponto de vista especial sobre o mundo a que chamamos ciência, analisando as suas especificidades e procurando compreender o processo do seu desenvolvimento. Já sabemos que a ciência não é a única forma de conhecimento, nem a primeira e mais imediata forma de nos relacionarmos com o real. Na verdade, existe uma forma comum de conhecimento, formado no decorrer da vida de cada um pela simples acumulação de experiências pessoais e que nos serve de orientação para o nosso viver quotidiano com uma certa eficácia. De modo natural e directo, vamos conhecendo os objectos que nos cercam, as pessoas com quem lidamos, a rua ou cidade onde moramos, etc. Fazemos tudo isto, sem ser de uma forma propriamente científica, mas antes pela experiência de vida. No nosso dia a dia passamos bem sem a ciência. Porquê? Porque no nosso dia a dia basta- nos o senso comum. É um tipo de conhecimento que assenta exclusivamente na experiência de vida que todos os homens têm; é um saber popular, básico e elementar transmitido oralmente de geração em geração; é adquirido através do ouvir dizer, do ver fazer e da imitação de comportamentos com os quais nos identificamos. Ele é fruto da aprendizagem e educação que espontânea e/ou institucioalmente recebemos enquanto membros de uma comunidade. O conhecimento do senso comum, sendo imprescindível à vida do dia a dia apresenta, no entanto muitas limitações: é superficial; está sujeito a erros; é subjectivo; não é um conhecimento crítico. TEXTO 1: « A apreensão imediata e directa dos sentidos pode dar representações inexactas da realidade captada; (...) Recordemos um dos mais notórios – os sentidos dizem enganadoramente ao homem que o Sol gira em torno da terra e que esta é imóvel. Isto, no entanto, é uma mera aparência que só o aprofundamento do processo cognitivo pode resolver, vencendo-se essa aparência imediata e enganadora.» Armando de Castro, A Evolução Económica de Portugal Esta forma de conhecimento, embora importante para nos inserirmos na realidade que nos rodeia, não nos dá a explicação e a compreensão mais profunda que ansiamos. « Hoje, descobrimos um meio poderoso e elegante para compreender o universo, um método chamado ciência.» Carl Sagan, Cosmos « Se vivêssemos num planeta onde nada mudasse, pouco teríamos que fazer. Não haveria nada a compreender. Não haveria necessidade de ciência. E, se vivêssemos num mundo imprevisível, onde as coisas mudassem ao acaso ou de forma muito complexa, não teríamos possibilidade de esclarecê-las. E, mais uma vez, não haveria ciência. Mas vivemos num universo intermédio, onde as coisas mudam, de facto, mas segundo padrões, regras, ou, como nós lhe chamamos, leis da natureza. Se eu atirar um pau para o ar, ele cai, sempre. Se o Sol se põe a ocidente, nasce sempre, na manhã seguinte, a oriente. E por isso, é possível compreender as coisas. Podemos desenvolver a ciência e, com ela, melhorar as nossas vidas.» Carl Sagan, Cosmos O conhecimento científico, marcado pela sua natureza racional, não é comum a todos os homens, mas é um conhecimento comum a grupos de especialistas visando a objectividade.
  • 2. O conhecimento científico constitui-se como outro modo de o homem apreender o real. Não se funda nas evidências do senso comum. A ciência não é uma atitude espontânea e natural do ser humano: levou muito tempo e foi percorrido um longo caminho para que a ciência configurasse o real de modo novo (científico). A ciência não é uma interpretação espontânea da realidade, mas uma interpretação metódica e racionalmente construída. A ciência através da introdução da medida, do método experimental e da matemática, criou um saber abstracto e muito afastado do nosso dia a dia. O método experimental comporta: observação organizada de um fenómemo ou grupo de fenómenos; a formulação de hipóteses (momento em que se procura arranjar uma explicação plausível para os fenómenos observados) e a verificação experimental (momento em que se procura comprovar a validade da hipótese). O método, dirigindo a investigação de uma forma organizada, rigorosa e geralmente aceite pela comunidade científica, permite chegar à descoberta de constâncias, de regularidades, de relações necessárias, que conduzirão posteriormente à enunciação de leis. É pelas leis e teorias que o cientista explica os factos, relacionando- os uns com os outros, de modo a transmitir-nos uma visão estruturada do mundo. A ciência torna-se próxima da filosofia pela sua postura de investigação, pelo seu desejo de saber, pela procura racional que empreende no sentido de descodificar os enigmas e mistérios do mundo. Mas demarca-se dela, pelo registo solucionador que adopta face aos problemas. A ciência não se contenta com respostas, ela pretende chegar a soluções e, através destas, fazer desaparecer os problemas com que se defronta. « O homem, na sua necessidade de lutar contra a natureza e no seu desejo de a dominar, foi levado, naturalmente à observação e ao estudo dos fenómenos, procurando descobrir as suas causas e o seu desencadeamento. Os resultados deste estudo, lentamente adquiridos e acumulados, vão constituindo o que, no decurso dos séculos da vida consciente da humanidade, se pode designar pelo nome de ciência. O conhecimento científico distingue-se, portanto do conhecimento vulgar ou primário, no facto essencial seguinte: este satisfaz-se com o resultado imediato do fenómeno – uma pedra abandonada ao ar cai; uma leve pena de ave, abandonada ao ar, paira, ou sobe; aquele faz a pergunta porquê e procura uma resposta que dê uma explicação aceitável pelo nosso entendimento. O objectivo final da ciência é, portanto a formação de um quadro ordenado e explicativo dos fenómenos naturais, fenómenos do mundo físico e do mundo humano, individual e social. (...) Os homens pedem à ciência que lhes forneça um meio, não só de conhecer mas de prever fenómenos – quanto maior for a possibilidade de previsão maior será o domínio deles sobre a natureza. (...) Entendamo-nos bem. A ciência não tem, nem pode ter, como objectivo descrever a realidade tal como ela é. Aquilo a que ela aspira é construir quadros racionais de interpretação e previsão; a legitimidade de tais quadros dura enquanto durar o seu acordo com os resultados da observação e da experimentação.» Bento de Jesus Caraça, Conceitos Fundamentais da Matemática A ciência pode ser e é vulgarmente entendida como uma organização de conhecimentos e de resultados que são aceites universalmente. Esta aceitação universal é devido ao facto de os resultados poderem ser verificados. « O primeiro carácter do conhecimento científico (...), é a objectividade, no sentido de que a ciência intenta afastar do seu domínio todo o elemento afectivo e subjectivo, deseja ser plenamente independente dos gostos e das tendências pessoais do sujeito que elabora. Numa palavra, o conhecimento verdadeiramente científico deve ser um conhecimento válido para todos. A objectividade da ciência, por isso, pode ser também, e talvez melhor, chamada intersubjectividade, até porque a evolução recente da ciência, e especialmente da Física, mostrou a impossibilidade de separar adequadamente o objecto, do sujeito e de eliminar completamente o observador. (...) Todavia, não elimina de modo algum da ciência o propósito radicalmente objectivo. Outro carácter universalmente conhecido é a positividade, no sentido de uma plena adesão aos factos e de uma absoluta submissão à fiscalização da experiência. (...)
  • 3. O terceiro carácter do conhecimento científico reside na sua racionalidade. (...) A ciência moderna é essencialmente racional, isto é, não consta de meros elementos empíricos, mas é essencialmente uma construção do intelecto. (...) A ciência pode ser definida como um esforço de racionalização do real. (...) Além disso, os cientistas modernos verificam unanimemente no conhecimento um carácter muito alheio à mentalidade científica do século passado, o da revisibilidade. Não há posições definitivas e irreformáveis. Toda a verdade científica aparece, em cerrto sentido, como provisória, susceptível de revisão, de aperfeiçoamento, às vezes mesmo de uma completa reposição em causa. Todos os conhecimentos científicos são aproximados. (...) Os conceitos de adequação total e perfeita devem ser substituídos pelos de aproximação e validez limitada.» Selvaggi, F.: Enciclopédia Filosófica « O conhecimento científico é fáctico: (...) Parte dos factos, respeita-os até certo ponto e sempre retorna a eles. A ciência procura descobrir os factos tais como são, independentemente do seu valor emocional (...). Nem sempre é possível, (...) respeitar inteiramente os factos quando se analisam. (...) O físico perturba o átomo que deseja espiar; o biólogo modifica e pode inclusive matar o ser vivo que analisa; o antropólogo, empenhado no seu estudo de campo de uma comunidade, provoca nele modificações. Nenhum deles apreende o objecto tal como é, mas tal como fica modificado pelas suas próprias operações. O conhecimento científico é claro e preciso: os seus problemas são distintos, os seus resultados são claros. (...) O conhecimento científico é comunicável: (...) não é privado, mas público. A linguagem científica comunica informações a quem quer que tenha sido preparado para a entender. (...) O conhecimento científico é verificável: deve passar pelo exame da experiência. Para explicar um conjunto de fenómenos, o cientista inventa conjecturas fundadas de algum modo no saber adquirido. As suas suposições podem ser cautelosas ou ousadas, simples ou complexas; em todo o caso, devem pôr-se à prova. (...) A investigação científica é metódica: (...) A investigação procede de acordo com regras e técnicas que se revelaram eficazes no passado, mas que são aperfeiçoadas continuamente (...). O conhecimento científico é sistemático: uma ciência não é um agregado de informações desconexas, mas um sistema de ideias ligadas logicamente entre si. (...) O ciência é explicativa: tenta explicar os factos em termos de leis e as leis em termos de princípios. Os cientistas não se conformam com descrições pormenorizadas; além de inquirir como são as coisas, procuram responder ao porquê: porque é que ocorrem os factos tal como ocorrem e não de outra maneira. (...)» M. Bunge, La ciencia, su método y su filosofía Tal como podemos constatar através da análise dos textos, a ciência pode ser e é vulgarmente entendida como uma organização de conhecimentos e de resultados que são aceites universalmente. Esta aceitação universal é devido ao facto de os resultados poderem ser verificados e de a construção do conhecimento se submeter a métodos. A ciência visa a observação e o estudo aprofundado dos fenómenos naturais e sociais. - não se limita a descrever a experiência, mas a explicá-la por meio de leis; - é um conhecimento que se submete à verificação experimental; - é um conhecimento organizado, metódico, que se baseia numa investigação planeada; - é um conhecimento sistemático, ou seja, não é constituído por um amontoado de informações, mas por um conjunto de ideias metódica e logicamente organizadas; - o conhecimento científico procura as causas e uma explicação para os fenómenos observados; - à subjectividade do conhecimento do senso comum, o conhecimento científico procura opôr a objectividade: ser independente dos gostos e tendências do sujeito que conhece. É neste sentido que a ciência se constitui como um conhecimento que procura ser universalmente válido, isto é, válido para todos. Este objectivo é assegurado quer pela submissão de todas as hipóteses à fiscalização da experiência, quer pela utilização de uma linguagem rigorosa. A ciência ganhou durante a modernidade o estatuto de conhecimento verdadeiro e objectivo, subordinado ao rigor matemático e ao método experimental. Esta concepção despertou um optimismo muito grande no papel da ciência, chegando-se a pensar que em seu nome poder-se-ia dominar o mundo e que o progresso científico conduziria a
  • 4. humanidade em direcção à verdade total sobre a natureza, à organização da justiça entre os homens e à felicidade nesta vida. MAS, a ciência perdeu este estatuto. Hoje, a ciência apresenta-se de forma menos ambiciosa, configurando apenas uma das interpretações possíveis do mundo, susceptível de ser falsificada, sem um método concludente, sem verificações definitivas e com uma objectividade aproximada. A ciência é um processo em contínua revisão, em permanente auto-correcção. O rigor do conhecimento científico é limitado e apenas podemos esperar resultados aproximados, não absolutamente certos. Mas, apesar do dito, não podemos negar que vivemos numa época profundamente marcada pela ciência e não temos receio de afirmar que muito lhe devemos. É hoje um lugar comum, defender que a vida dos homens e das mulheres se transformou e que muitas dessas transformações são devidas ao progresso científico e técnico. Não podemos pois ignorar a ciência: foi ela que nos deu os antibióticos, as viagens à lua, os raios laser, todo o conforto material a que hoje estamos habituados e que já não dispensamos. Talvez por isso, ainda domine actualmente uma concepção de ciência como algo de qualidade, mas uma qualidade que não pode oferecer dúvidas uma vez que foi testada e provada e que inclusivé já deu provas suficientes para ser merecedora de uma confiança total. De facto, aos olhos do grande público, a ciência surge como o protótipo de um conhecimento rigoroso, objectivo, fiável e merecedor de total confiança. MAS, não nos podemos esquecer também do lado negativo da ciência: armamento, guerras, bombas nucleares, atómicas, químicas, cobaias, manipulação genética, clonagem, desastres ecológicos, etc. A ciência tornou-se explosiva. Mas não podemos passar sem ela e sem o que ela nos permite obter. É afinal, a dramática contradição do humano modo de viver: perpetuamente em desiquilíbrio, constantemente em progresso. Professora: Rosa Sousa