Questões crônicas
NO ENSINO DE HISTÓRIA
Mestrado Profissional em Ensino de História
Questões crônicas 1
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Sumário
Apresentação.........................................
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Apresentação
O livro é um mudo que fala,
um surdo que resp...
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Questões, crônicas, cronos... Indagações que nos fazemos n...
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encontrar continuamente para além do ambiente físico que a...
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Pra que serve
esse prédio velho?
Prof. Anselmo
UANDO camin...
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- Muitas dessas pessoas não entendem que nesses
prédios an...
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representavam os “grandes feitos” das autoridades política...
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trabalhando nos finais de semana junto aos trabalhadores
...
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- Eles servem para preservar a nossa memória. Para
saberm...
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Por que eu não sei (quase) nada
sobre a África?
Prof. Bru...
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ficava catando o arroz do chão, separando da terra, aquel...
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mora lá perto, na Alemanha. Ah, e pra Disney. Não morro
s...
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Quando a gente aprende a
aprender?
Prof. Cleyton
S AULAS ...
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O grupo se dividiu. Uns poucos riram com certa
segurança,...
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por educação, saúde, era um monte de besteira que diminuí...
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Sempre foi partidário do meio termo. E talvez por
isso, a...
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Finalmente se levantou, pegou o giz e foi ao quadro.
Escr...
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sei, alguns pais podem se reunir para tomar medidas legai...
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Ao sair do colégio, com um ar de superioridade, por
acred...
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E se...
Prof. Dismael
AULA estava boa. O assunto era inte...
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Alemanha tinha invadido a Polônia. E
a classe permanecia ...
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A turma ficou atônita. Não era comum o professor
interrom...
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iria jorrar. Se Hitler não tivesse nascido, Martin Borman...
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E as mulheres
daquela época?
Prof.ª Elaine
MAIS uma manhã...
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minha mãe sempre dizia: “Minha filha, teu pai ajuda tanto...
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apresentação dos trabalhos dos colegas, fazer questões,
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Formação política
Prof. Elton
ELA manhã, o menino saiu de...
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da 8ª série. O menino já tinha visto aquele mesmo papelzi...
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Aquele de bigode, que dizia “brasileiros...
e brasileiras...
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time, que alternava vitórias e derrotas em finais de
camp...
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para ele ficar. E conseguiu! O
barbudo só conseguiria ven...
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A Idade Média, é a
média do quê?
Prof.ª Juliana F.
ÃO con...
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-Prof. Silene, eu tava falando pra Mariana como
Idade Méd...
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No século VIII essa região foi invadida e dominada por
um...
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Ibérica foi dominada com o nome
Califado de Córdoba, e as...
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médico persa chamado Avicena.
-Nooossa professora, que le...
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entre o final de Roma e o tempo que eles viviam, era só u...
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O Tribunal das Causas
Anacrônicas
(ou “Como julgar o pass...
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Mas, apesar da adrenalina, era impossível conter o espant...
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- Sim, Vossa Excelência!
O tribunal explodiu em gargalhad...
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- Sr. Santos, você preparou e comeu aqueles animais?
- … ...
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A juíza entendeu a defesa da advogada e proferiu a
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Por que existe o Dia da
Consciência Negra?
Prof.ª Karla
R...
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Não podia me dispersar, ainda tinha muito a ser feito
até...
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manifestações religiosas de matriz africana. Os visitante...
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questão não tocava a todos. Terminada a palestra, o debat...
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- Agora sou obrigado a ouvir Hip Hop também?
A professora...
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Todas as Histórias são chatas?
Prof.ª Karoline
SEGUNDA 07...
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chatas, que é só encontrar no livro e copiar – mas empres...
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Conforme a aula começou,
eu fui reparando que várias das
...
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O sinal bateu e um minuto depois o professor Carlos
entro...
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muito sobre ela, acho que é mais interessante falar sobre...
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SEXTA 11:45
A aula terminou enquanto o professor Carlos d...
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Onde está a História no mundo
tecnológico?
Prof. Lucas
OJ...
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do meu time e iria comentar ativamente pelo Facebook e
Tw...
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preciso ver meu e-mail acesso a internet, se quero fazer ...
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todos os momentos, que podem responder de onde vêm as
per...
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Professor, eu vi num filme...
É verdade?
Prof. Maicon
SES...
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perderam as passagens do navio numa rodada de pôquer e,
e...
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professores na esperança de encontrar o professor de
Hist...
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passado, pois toda vez que olhamos “para” o passado,
pode...
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escolhesse apenas um dos pontos de vista sobre o fato. Ta...
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- Essa é muito fácil professor, ele se matou num
bunker a...
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filme, ele fez escolhas de quais informações seriam as ma...
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- Muitos livros fazem a mesma coisa, principalmente
quand...
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O trânsito, a chuva e…
A História
(“Pra que serve?” Ou: “...
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carros de corrida. Enquanto olhava pela janela molhada,
p...
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ele, particularmente, não gostava quando chovia porque nã...
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– Graças à História eu tenho hoje um olhar diferente
sobr...
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- Puxa, é verdade professor. Eu pensei que era
coincidênc...
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podemos ter um futuro bem diferente do nosso.
- Um futuro...
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“Meu Brasil brasileiro, terra de
samba e pandeiro” Será?
...
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outros brasileiros, que também estavam fazendo intercâmbi...
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me interessei em aprender a sambar. Aliás, tem muita gent...
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Mas, depois de muito pensar, percebeu que não era
menos b...
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Questões crônicas 78
Quem tem medo de museu?
Prof.ª Nair
UEM tem medo de museu...
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Os objetos expostos em museus ajudam a contar
histórias d...
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podemos aprender diversas coisas interessantes visitando ...
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Minhas cápsulas do tempo
(Minhas lembranças dão História?...
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do meu quarto conseguia sentir aquele cheirinho gostoso q...
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Mas algum critério eu tinha que adotar. Não era
possível ...
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todo mundo uma vez por ano), fotos dos meus amigos, de
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Questões crônicas no ensino de Historia

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E-book desenvolvido como trabalho para a disciplina “Produção de material didático no Universo Virtual”, ministrada pela professora Márcia Ramos de Oliveira para o programa de Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória - UDESC/UFSC).

Trata-se de uma produção coletiva dos seguintes professores-alunos:

Anselmo Teles Sabino
Bruno Ziliotto
Cleyton Machado
Dismael Sagás
Elaine Prochnow Pires
Elton Frias Zanoni
Juliana de Almeida Freitas
Juliana Hachmann
Karla Andrezza Vieira Vargas
Karoline Fin
Lucas Roberto Soares Lopes
Maicon Roberto Poli de Aguiar
Mateus Pinho Bernardes
Michele Valentim Morais
Nair Sutil
Tamelusa Ceccato do Amaral

Revisão final:
Aline Zilli Ziliotto

Florianópolis, junho de 2015.

Curta-nos no Facebook: facebook.com/questoescronicas

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Ficha elaborada pela Biblioteca Central da UDESC:

O48q Oliveira, Márcia Ramos (Org.)

Questões crônicas no ensino da História / Márcia Ramos de Oliveira, Elton Frias Zanoni (Orgs.) et al. - Florianópolis: UDESC, 2015.
85 p. : il. color. ; 21 cm

ISBN: 978-85-8302-079-0
Inclui referências.
Ebook disponível: <http: /> e <pt.slideshare.net />.

1. História - Estudo e ensino. 2. História - Ensino fundamental. I. Zanoni, Elton Frias. II. Título.

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Questões crônicas no ensino de Historia

  1. 1. Questões crônicas NO ENSINO DE HISTÓRIA
  2. 2. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 1 Questões crônicas NO ENSINO DE HISTÓRIA
  3. 3. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 2
  4. 4. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 3 Sumário Apresentação............................................................................ 4 Pra que serve esse prédio velho? ....................................................7 Por que eu não sei (quase) nada sobre a África?...............12 Quando a gente aprende a aprender? ......................................15 E se.............................................................................................................22 E as mulheres daquela época?.....................................................26 Formação política...............................................................................29 A Idade Média, é a média do quê?............................................34 O tribunal das causas anacrônicas ...........................................40 Por que existe o Dia da Consciência Negra?.........................45 Todas as Histórias são chatas?......................................................50 Onde está a História no mundo tecnológico?........................56 Professor, eu vi num filme, é verdade? ...................................60 O trânsito, a chuva e… A História..............................................68 “Meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro” Será?.........74 Quem tem medo de museu? ...........................................................78 Minhas cápsulas do tempo.............................................................81
  5. 5. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 4 Apresentação O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. Pe. Antonio Vieira. “Questões crônicas no ensino de história” é um livro em formato digital. Ebook ou e-book, uma abreviação do termo eletronic book, apresenta este mesmo significado. A identificação técnica na acepção do termo remete também ao contexto contemporâneo, à cultura digital a que estamos submetidos, a um mundo ancorado na crescente necessidade de comunicação e informação. Evidencia no suporte escolhido, a imaterialidade do livro, páginas intocadas, percursos narrativos que se alternam, apelo à visualidade. Roger Chartier ao longo de suas reflexões sobre a história e a leitura, acabou por destacar no campo da história cultural a importância do universo de recepção, a importância do contexto relacional para além do suporte em que se encontrava o livro. Tão importante quanto seu formato, formas de circulação e espaços percorridos, em última instância, o que efetivamente importa é se o autor conseguiu chegar ao seu leitor, especialmente, em que medida foi compreendido por ele. Em essência, com esta tão destacada ferramenta, conseguimos dialogar com alguma propriedade. Impressões individuais, autorais, coletivas, os textos nos representam, nos dão consciência de nossa presença, nos humanizam. Tão longos caminhos atravessados, certezas comuns que atravessam os séculos na busca que, insistentemente, iniciamos pela compreensão de nossa própria condição humana e historicidade. Acredito que chegamos a este termo, através deste livro.
  6. 6. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 5 Questões, crônicas, cronos... Indagações que nos fazemos na prática diária ao planejar aulas de história, ao ouvir perguntas exteriorizadas pelos estudantes, que ecoam em nossos próprios questionamentos. Como saber de quem são as perguntas apresentadas nos textos deste livro? Dos mestres ou dos alunos? Como identificar quem ocupa tal posição na constante provocação que é o cotidiano escolar... Este livro é resultado em construção, é pergunta sem resposta, é o caminhar dos seus autores em um súbito momento de atender às demandas da disciplina de “Produção de Material Didático e o Universo Virtual”, no percurso de formação dos autores, durante o primeiro semestre de 2015 no Mestrado Profissional em História (PROFHISTÓRIA), desenvolvido nos pólos da UFSC e UDESC. O Programa nacional, voltado à formação continuada dos professores de história em atuação profissional, oferece como parte de sua grade curricular a disciplina, em caráter optativo, que teve por proposta o “Estudo de suportes tecnológicos aplicados ao ensino de História, tais como ambientes virtuais de aprendizagem, editores de texto colaborativo, aplicativos, jogos, entre outros. Construção de ambientes virtuais para realização de atividades de pesquisa e ensino de História na Educação Básica.” A narrativa produzida pelo grupo de 16 professores em curso resultou deste ementário e objetivos gerais da disciplina. O aprendizado de conhecer o processo de sua formulação, desenvolvimento e, especialmente, dedicação de todos, possibilitou a construção de um conhecimento comum, coletivo, de trocas e parcerias e, esperamos, de futuras iniciativas desta natureza. Projeto apoiado nas mídias digitais, teve início pela criação de um grupo de compartilhamento no Facebook – Produção de material didático e universo virtual -, seguido da disponibilidade dos textos e comentários através de arquivos inseridos no dispositivo do Google Drive. Dessa forma, colegas de diferentes Estados, com atuação nas escolas de Santa Catarina e Paraná, puderam se
  7. 7. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 6 encontrar continuamente para além do ambiente físico que a disciplina proporcionou. Muitos e-mails trocados também, formalizando ajustes de cronogramas e encontros de avaliação, além de textos de referências sugeridos, oficinas temáticas e muito compartilhamento de ideias. O resultado não poderia ter sido diferente. Páginas de crônicas, imagens cuidadosamente escolhidas na construção discursiva, preocupação com o apoio da leitura e compreensão estendida a professores e alunos... E, principalmente, que chegasse a todos os interessados nestes temas, tão cotidianos, tão cheios de humor e expectativas, tão temerosos em estar agindo de acordo com o compromisso em ensinar e, especialmente, refletir com a história. Histórias Crônicas... Questões crônicas no ensino de história! Acesse: pt.slideshare.net/profhistoria2014/questoes-cronicas- no-ensino-de-historia Divulgue: facebook.com/questoescronicas Boa leitura! Prof.ª Márcia Ramos de Oliveira, Departamento de História/UDESC. 15 de junho de 2015. Referências: Sermões Padre Antônio Vieira: http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/padreantoniov.pdf CHARTIER, R. Leituras e Leitores na França do Antigo Regime. Ed. Unesp. 2004. _______. O Beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. Trad. Denise Bottmann. São Paulo, Companhia das Letras, 1990. _______ .Práticas da Leitura. São Paulo. Ed. Estação Liberdade. 1996.
  8. 8. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 7 Pra que serve esse prédio velho? Prof. Anselmo UANDO caminhamos pelo centro histórico de minha cidade, eu e meus alunos, do 6º ano, nos deparamos com uma infinidade de prédios antigos. Construções essas que em um passado, não muito distante, eram habitadas e serviam de moradia ou tinham outras funções dentro desta cidade. No decorrer da caminhada observamos uma antiga escola, uma antiga mercearia, um antigo hotel, um pequeno teatro, algumas lojas e diversos casarões. Gabriela, uma das alunas, mais observadora, perguntou: - Professor, porque algumas dessas construções estão abandonadas? Várias estão caindo aos pedaços! E sabemos que alguns desses lugares, hoje em dia, são locais de vendas de drogas. Respondi: - Gabriela, para muitos moradores da cidade essas construções são apenas “prédios velhos” e acham que deveriam ser derrubados para dar lugar ao “progresso”, ou seja, construir estacionamentos ou arranha-céus. Daí Léo, outro aluno, interveio: Q
  9. 9. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 8 - Muitas dessas pessoas não entendem que nesses prédios antigos estão boa parte da História da cidade, né, professor? Por exemplo, minha mãe estudou naquela escola e eu soube que ela está condenada. Podendo cair a qualquer momento. Respondi: - Sim Léo, muitas crianças aprenderam nessa escola, assim como sua mãe. Viajantes e até celebridades dormiram no antigo hotel. Artistas apresentaram espetáculos nesse teatro. Aposto que suas mães e as mães de suas mães já compraram roupas para suas famílias nessas lojas e alimentos na mercearia. Muitas pessoas viveram e conviveram nesse espaço. - Mas professor, porque as pessoas de nossa cidade, principalmente os governantes, não se preocupam em preservar esse patrimônio e o deixam caindo aos pedaços? Perguntou Léo. - Muito desse patrimônio não é reconhecido como parte da História dessas pessoas. Até porque, a maioria delas nunca teve informações suficientes na escola, não formou uma consciência patrimonial, ou seja, o que estamos fazendo aqui hoje. E até porque, a preocupação com a proteção de nosso patrimônio é algo muito recente. O que se busca preservar no Brasil são apenas os monumentos que
  10. 10. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 9 representavam os “grandes feitos” das autoridades políticas de cada cidade, de cada Estado e do país. - Verdade professor, olha ali a estátua do primeiro Padre de nosso município - apontou Léo. - Na maioria das vezes, os políticos tradicionais não ligam para o nosso patrimônio, ou edificações que revelam mais a identidade de grupos populares ou da população em geral. Acho que acreditam que somente serão reeleitos se produzirem transformações urbanas de grande visibilidade. Se fizerem muito asfalto para as pessoas desfilarem com seus carros. Mas se construírem escolas, oportunizando mais conhecimento e trocas culturais e, com isso, preservando o patrimônio, não imaginam que poderão ganhar votos, pelo contrário. Naquele momento de nossa caminhada chegamos à igreja matriz do município. Estrategicamente construída em um local elevado para que possa ser vista de todos os pontos da cidade. Olhamos para cima, observamos o esplendor da construção. Fiz algumas provocações. - Vocês sabiam que a construção dessa “monumental” igreja foi paga pelos cidadãos católicos de nosso município? Que eles doaram quase todo o material para sua construção? Que muitos ajudaram a construí-la
  11. 11. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 10 trabalhando nos finais de semana junto aos trabalhadores contratados para execução da obra? - Mas professor, minha mãe disse que quem construiu a igreja foi o primeiro Padre - disse Gabriela. - Será que ele conseguiria construir esse grande monumento sozinho? Indaguei. - Claro que não professor. Ele precisou de vários pedreiros, carpinteiros, serventes - observou Léo. Respondi que: - Esse patrimônio nos faz lembrar que é obra de um esforço coletivo, portanto, pertence a todos. O que nos devolve a responsabilidade quanto à sua proteção, à medida que nos representa e diz muito sobre cada um de nós e de nossa comunidade. Mas esse patrimônio nos faz lembrar que muitas coisas pertencem a todos. Portanto todos nós temos o dever de protegê-lo. Um silêncio pairou sobre nós e sentamos nas escadarias do templo católico. Ficamos ali observando o movimento do município. As pessoas vão e vem. Sem nem olhar umas para as outras, como acontecia antigamente. - Entenderam então para que servem esses prédios velhos? Perguntei, esperando uma resposta sincera e objetiva. Um silêncio pairou sobre a turma, e Pedro, que até então só escutava o diálogo, disse:
  12. 12. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 11 - Eles servem para preservar a nossa memória. Para sabermos que nossa História está sempre presente. Então, se deixarmos que esse patrimônio seja derrubado, muito de nossa História cairá junto com ele. Dou um sorriso de aprovação à resposta de Pedro. O orgulho brotou em meu coração e pensei: “essa é razão de ser professor”, ou seja, fazer com que meus alunos entendam a importância que a História tem em suas vidas.
  13. 13. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 12 Por que eu não sei (quase) nada sobre a África? Prof. Bruno OMO assim? Peraí, eu sei algumas coisas. Se parar para pensar com calma, acho que consigo encher uma folha de caderno com esse tema... O quê? Exemplos? Ora, foi lá uma das últimas copas do mundo. Eu sei que a África não é um país, mas a África do Sul é. Tem outros países lá, mas não sei de cor os nomes... Não passa na TV? Claro que passa! Já perdi a conta de quantos programas do Globo Repórter eu vi sobre a África. Não teria coragem de fazer um safári, mas deve ser uma experiência e tanto. Ah, e vez ou outra sai algo de lá no jornal também... O Ebola, lembra? Tinha gente morrendo de medo porque parece que é bem contagioso, aí estavam controlando quem viajava e tal. Mas antes, passava mais coisas de guerra. Inclusive deve ser por isso que o povo passa fome por lá. Nunca esqueço uma vez que vi, era um avião, grande, aí eles jogavam comida do alto mesmo, nuns sacos. Então o pessoal que estava embaixo corria, rasgava o saco, C
  14. 14. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 13 ficava catando o arroz do chão, separando da terra, aquelas crianças pretinhas e barrigudinhas de vermes. Aí minha mãe dizia “Viu? você precisa dar valor pro que tem, pode comer seu prato todinho!” Onde era? Na África, ora. País? Eu sei que a África não é um país, mas foi lá... E tem mais, se você for pensar na História, dá pra encher mais uma folha ainda, rapidinho. Foi de lá que os negros vieram pro Brasil. O quê? Ora, pra ser escravos, isso todo mundo sabe. Acabou com a Lei Áurea, que a princesa Isabel assinou. Aí, terminada a escravidão, vieram os imigrantes alemães, italianos e outros. Eu sou descendente de italiano. Hã? Não, nem todos os meus avós eram italianos, tem espanhol e português, parece. E bugre também. Africano não sei, acho que não... Se eu pudesse escolher um lugar pra viajar na África? Não sei... Na época da copa eu fiquei curioso com a África do Sul... Não sei de outro lugar bom, teria que pesquisar, ver se não é perigoso... Onde? Egito? Ah é, o Egito é na África né? Claro, queria muito conhecer as pirâmides de perto, aquelas coisas de múmias também. Tem gente que diz que isso foi coisa de alienígena, de tão grandioso que é. Mas viajar mesmo eu queria é pra Europa. Conhecer a Itália. Na França ir pra Paris. Tenho uma tia que
  15. 15. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 14 mora lá perto, na Alemanha. Ah, e pra Disney. Não morro sem ir. Hã? Ah, sobre a África? Acho que não sei mais nada. Na escola não falam muito né? Parece que agora é que estão falando mais… Ah sim, tem o dia da consciência negra, já ia me esquecendo! Esse é legal, é um dia diferente sempre tem algo novo, como o dia do índio, sabe? A escola muda, o pessoal faz apresentações, alguns alunos ajudam também. Teve uma fala sobre o Zumbi, foi legal, ele era um herói negro que morreu lutando contra a escravidão, parece… Se tinha mais coisas nesse dia? É que não me lembro direito, isso faz tempo, foi no final do ano passado. Depois ninguém mais falou nada… Você quer ainda mais? Ah, deixa de ser chato, não tem outro assunto não? Eu sei de vários. Sobre a África até acho que falei muito… E por que só pergunta? Fale alguma coisa também! Ou você não sabe nada além disso? E você que tá olhando aí, sabe ou não sabe???
  16. 16. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 15 Quando a gente aprende a aprender? Prof. Cleyton S AULAS mal haviam começado e um feriado prolongado já estava chegando. As expectativas estavam se construindo. Até porque “uma coisa sobre ser professor, é criar utopias nas férias e se deparar com as distopias da sala de aula”. Professor Amarildo jurava ter ouvido essa frase de algum colega de profissão, certa vez durante o café. Lembrou-se que nesse mesmo intervalo, o assunto girava em torno de temas bem comuns para tal ambiente: o desrespeito “habitual” dos estudantes, a desatenção, a ignorância dos alunos, as péssimas perspectivas para o futuro da educação. Um dos professores, talvez o mais ativo na conversa, na tentativa de construir uma piada com algum crédito intelectual, afirmou que isso seria culpa da “Pedagogia da Hipocrisia” – numa clara referência aos textos de Paulo Freire. – Estamos formando uma geração de fracassados que só fala bobagens. Quando lê, é um monte de besteiras que vendem bastante. E ainda são aplaudidos por qualquer asneira que dizem – teria dito o professor, naquilo que considerou uma perfeita análise crítica da realidade educacional. A
  17. 17. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 16 O grupo se dividiu. Uns poucos riram com certa segurança, por ter entendido a intenção; outros os seguiram; e houve ainda aqueles que, constrangidos, apelaram para a diplomacia: – Ainda bem que as férias estão chegando. Afinal de contas, “os de esquerda” estavam ali ao lado e um incidente agora, colocaria em risco o resto do recreio. Amarildo se levantou naquela manhã e, enquanto escovava os dentes, tentou pensar porque teria se lembrado daquele episódio. Talvez tenha até sonhado com ele naquela noite. Decidiu ligar a TV para saber como estaria o tempo. O país era outro naquela manhã. Protestos e greves eram palavras que traziam os mesmos adjetivos. Era estranho, na semana anterior nada disso parecia acontecer. Agora o país era tomado por uma gigantesca insegurança, um medo extremo e, sobretudo, um ar de que “se não está conosco, está contra nós.” Como disse um entrevistado, defensor de um país ordeiro e pacífico e indignado com tamanha corrupção. Para ele, os males do país seriam resolvidos tirando “algumas maçãs podres” da política. Lutar
  18. 18. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 17 por educação, saúde, era um monte de besteira que diminuía a importância daquilo que realmente mudaria o Brasil. – Ele falou pacífico ou passivo? – Amarildo não havia entendido. Foi o barulho da chaleira que fervia ou o entrevistado se confundiu? Tomou um longo gole de café e corrigiu-se: o país era exatamente o mesmo. Naquela segunda-feira, com cara de segunda-feira, os alunos arrastavam-se para suas salas, as aulas iriam começar. – Fazia anos que eu não via tanta politização nas ruas e na mídia! Essa baderna precisa acabar! - falou com tom de discurso um colega na sala ao lado. Amarildo tentou continuar a aula, enquanto aquilo que tinha ouvido nos últimos dias tentava se organizar em sua mente, ou pelo menos encontrar um eixo que ligasse todo esse momento. O sinal bateu. – O país não aguenta mais! Para acabar com a corrupção, esse pensamento de esquerda precisa ser exterminado! - Ecoou pelo corredor durante a troca de salas. No sacrossanto horário do café, havia uma disputa instalada. Quem utilizasse menos adjetivos contra o “atual estado do país”, estaria sendo favorável a ele e, Deus nos livre, até “esquerdista”. Sentado próximo à janela para sentir o cheiro da grama que estava sendo cortada – um oásis àquele ambiente árido - finalmente ele conseguiu entender. O fim da diplomacia confirmava as palavras proféticas de antes: morre a utopia e nasce a Era da Distopia.
  19. 19. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 18 Sempre foi partidário do meio termo. E talvez por isso, aqueles olhares trocados na sala dos professores o incomodavam tanto. Olhou para o relógio, viu que faltava um minuto para o fim do intervalo. Na tentativa de exorcizar os sentimentos daquele dia, pegou um giz, juntou suas coisas e escreveu no quadro de recados: “Uma mentira, quando dita muitas vezes, corre o risco de virar uma aula”. Saiu sem ver os lucros e os prejuízos daquilo que nem de perto julgou ser um ato de coragem. No corredor, sentia que ainda não estava bem. As palavras escritas não o ajudaram como pensava. Tentou um último ato de desespero. Entrou em sala, olhou cordialmente para seus alunos, fez a chamada e sentou-se sobre a mesa. Pensou que pela primeira vez em seus dez anos de profissão, estava realmente olhando para eles, tentando se colocar no lugar daqueles meninos e meninas. Como estariam diante daquele turbilhão? O quanto a família os influencia? De tudo isso que estava acontecendo, o que mais lhes chamava atenção? Será que leram algo a respeito? Só viram na TV? Ou em redes sociais apenas? A opinião de um professor é diferente das demais? Como? Será que querem falar sobre tudo isso?
  20. 20. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 19 Finalmente se levantou, pegou o giz e foi ao quadro. Escreveu tantas palavras quanto conseguia lembrar: “direitos, deveres, política, direita, esquerda, Estado, corrupção, baderna, vandalismo”. Os alunos não entenderam. Guilherme perguntou se era para copiar. Pedro perguntou se poderia acrescentar outras. Amarildo sorriu. Em seguida, solicitou que cada um desse uma definição a elas, de acordo com aquilo que estavam pensando no momento e pediu que tentassem conectá-las através de uma redação. – Vale nota, professor? – Claro que vale. Mas para mim. A turma pareceu não entender, mas aceitou a atividade com certa alegria, pois tinham muito a dizer. Nas aulas seguintes, as redações foram discutidas. De acordo com os textos, o professor trazia informações, notícias, gráficos, que confirmassem ou, quase sempre, questionassem os dados apresentados. Alguns alunos se incomodaram, porque já fazia algum tempo que não ouviam nenhuma resposta. O material didático estava abandonado! Só eram provocados a questionar as próprias informações. Um deles gravou um desses momentos da aula e levou para os pais. – Olha, senhora diretora, ter professores comunistas é muito perigoso! Ainda mais no atual momento em que vivemos. Eles fazem lavagem cerebral nessas crianças e aí acontece tudo isso que a gente está vendo. Talvez seja até bom a senhora pensar em substituí-los. Caso contrário, não
  21. 21. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 20 sei, alguns pais podem se reunir para tomar medidas legais contra o colégio. A diretora conhecia as famílias de seus alunos, já que sempre conversava com pais, mães e responsáveis, para destacar a importância deles no trabalho da escola, sempre houve conversas muito ricas e abertas. Ela sabia que a opinião daquele pai era quase uma voz solitária. Talvez fosse mera ignorância política, talvez apenas fruto daquele momento complicado, repetido sem parar pela mídia. Tinha medo que fossem os dois. Sem parecer dar tanta importância para o assunto, a diretora então respondeu: – Senhor Willian, eu acompanho o trabalho dos professores bem de perto. Mas vou verificar o que o senhor está me trazendo.
  22. 22. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 21 Ao sair do colégio, com um ar de superioridade, por acreditar que estava contribuindo para combater a praga do comunismo no país, Senhor Willian parou no sinal e foi abordado por um homem, que lhe pediu alguma moeda. De dentro do carro, seus olhos se encheram de raiva, ele começou a chamá-lo de marginal e a dizer que essa cidade precisava ser limpa desse tipo de gente. Mas ao olhar para o banco do carona, com medo de que aquele homem fosse lhe roubar a carteira, ele se lembrou de que havia deixado o celular na sala da diretora. De novo no colégio, ao entrar na sala, tamanha foi a sua surpresa, quando percebeu a diretora diante de um quadro de recados, meio distraída, com um sorriso nos lábios, enquanto escrevia algo: “Obrigado, professor. Nota dez.”
  23. 23. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 22 E se... Prof. Dismael AULA estava boa. O assunto era interessante para a maioria dos alunos e um dos prediletos do experiente professor de História, a Segunda Guerra Mundial. Alguns eram fanáticos por games, outros tinham assistido documentários, muitos já tinham visto filmes e, uns dois ou três, tinham até lido livros sobre a temática. O certo é que todos já entendiam um pouco sobre a grande guerra. O jeito como o mestre contava a história era tradicional, tinha pesquisado durante anos nas pilhas de seus livros didáticos “clássicos” os detalhes do evento. Os fatos eram citados na ordem cronológica, do mais velho ao mais recente, com destaque às questões políticas. A aula, expositiva e dialogada, até o momento tinha deixado a parte da discussão de lado, o diálogo estava apenas no planejamento entregue no início do ano à coordenação. Algumas imagens de cartazes, fotos e mapas eram projetadas na tela e serviam para ilustrar e dar um tom de veracidade ao seu discurso. O ambiente estava à meia luz. Só o professor falava, era de manhã cedinho... Ainda assim, os estudantes estavam prestando atenção. O contexto pré- guerra já tinha sido explicado, as alianças estavam postas, a A
  24. 24. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 23 Alemanha tinha invadido a Polônia. E a classe permanecia atenta, concentrada. Quase todos. No fim da sala, um rapaz com o olhar contemplativo de repente volta de seu mundo de pensamentos. No momento em que o mestre fazia uma breve pausa para beber água, ele interrompeu sua narrativa e mandou, de bate-pronto, uma pergunta: - Professor, e se Hitler não tivesse nascido, existiria a segunda guerra? Sua paciência não era a mesma, depois de tanto tempo na sala de aula. Inúmeras vezes ele já ouvira esta questão e tantas outras respondeu, sem pestanejar, “o se para a História não existe!” Pronto, discussão encerrada. Mas desta vez a resposta fácil não veio à tona. Se a paciência não era a mesma de um iniciante, sua experiência o encorajou a usar a criatividade, e depois de alguns segundos, sacou do bolso um trunfo previamente preparado e com uma postura teatral começou a declamar: - Se Hitler não tivesse nascido, muitas coisas iriam mudar: as possibilidades são imensas, fica difícil mensurar... Se Hitler não tivesse nascido, mapas seriam modificados, Goebbels e Mengeli esquecidos, uns acabariam arruinados, outros seriam afortunados.
  25. 25. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 24 A turma ficou atônita. Não era comum o professor interromper a aula daquela maneira, ele sempre fazia de tudo para concluir os conteúdos sugeridos da apostila. Não abria espaço para uma discussão tão infantil. Avançando entre as carteiras, continuou: - Se Hitler não tivesse nascido, não existiriam campos de concentração, outro mundo teria sido construído, a paz reinaria desde então... Pausa. O aluno que indagara a questão, parecia insatisfeito. Em silêncio as perguntas em sua cabeça se multiplicavam: será que a culpa da guerra caberia toda nas mãos de Hitler? Teríamos um mundo melhor? Os judeus não teriam sofrido? Outro colega que sentava na fila da janela pertinho dele sussurrou: - Agora o professor forçou a barra... Mas ele estava interessado no desenrolar daquele momento inusitado e respondeu imediatamente: - Shiiiii!!! Não interrompe o professor! Quero saber como vai acabar esse papo!! Do fundo da sala, o professor que não tinha percebido a conversa, continuou: - Se Hitler não tivesse nascido outro ocuparia seu lugar, a guerra teria acontecido, o sangue de qualquer forma
  26. 26. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 25 iria jorrar. Se Hitler não tivesse nascido, Martin Bormann comandaria o partido nazista, Albert Speer se tornaria ministro de guerra e Rudolf Hess (quem sabe!) seria apenas um dentista. Silêncio. O professor, então, retornou à sua posição habitual na frente do quadro e terminou a pequena surpresa preparada para a turma, olhando diretamente para o aluno que tinha feito a pergunta: - O “se” para a História não existe, serve apenas como um exercício de reflexão... Mas lembre-se: em toda narrativa de historiador (ou historiadora), cabe um pouco de imaginação.
  27. 27. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 26 E as mulheres daquela época? Prof.ª Elaine MAIS uma manhã gelada de julho apontava. Como era difícil sair da cama naquele frio, da pequena cidade do interior de Santa Catarina, onde eu morava. Mas não tinha remédio, o jeito era encarar de uma vez. Muito bem agasalhada, fui tomar café e saí para a escola. Aquela semana havia sido muito cansativa. Provas, trabalhos escolares e a demanda das funções domésticas que me eram incumbidas. Aquilo realmente me irritava, meu pai e meu irmão na “ajuda”, minha mãe e eu na lida. Por que aquele trabalho era de exclusividade feminina, enquanto os homens “bons” apenas ajudavam? Chegava da escola e lá estavam os banheiros me esperando... Depois a arrumação da casa, a louça suja do almoço. Ah, o almoço. Eu chegava da escola e minha mãe ainda estava no fogão, enquanto meu pai assistia ao início do jornal do meio dia. Honestamente, aquilo me indignava. Mas E
  28. 28. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 27 minha mãe sempre dizia: “Minha filha, teu pai ajuda tanto, não reclame, antigamente era bem pior”. No caminho para a escola pensava na apresentação do trabalho de História. A professora nos incumbiu a difícil tarefa de encontrar as mulheres que contribuíram para a construção da sociedade brasileira na Primeira República. Mulheres? Onde? Quem? Berta Lutz? Só encontrei uma. Então, onde elas estavam? Acho que meu zero estava garantido... Mergulhada em meus pensamentos de preocupação com o tal trabalho de História e ainda zangada, ao lembrar das tarefas que me esperavam quando chegasse em casa, encontrei a Malu e a Natália, minhas colegas de classe. Elas reclamavam da professora, diziam que o trabalho era impossível, pois não apareciam mulheres nesse período da História. Que se fosse pensar em toda História, apareceriam uma Olga, uma Anita, uma Joana e olhe lá, sempre com um Prestes, um Giuseppe ou um Deus, como companhias, dizia Natália, sempre muito criativa e bem humorada. Acabamos rindo um pouco da nossa preocupação. Na sala de aula, combinei com minhas colegas que teríamos de tentar enrolar a professora de História, pois o trabalho estava deficiente em informações. Não havíamos encontrado figuras históricas femininas nos livros didáticos, como era nossa tarefa. Combinamos de falar muito durante a
  29. 29. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 28 apresentação dos trabalhos dos colegas, fazer questões, sugerir repetições até chegar ao final da aula e não dar tempo de apresentarmos o nosso trabalho. Estava tudo combinado, não tinha como não dar certo. Só não contávamos com a irreverência da professora que inverteu a ordem da apresentação dos trabalhos e colocou o nosso grupo como primeira apresentação. E agora? Deu tudo errado! Estamos reprovadas, pensei com meus botões. Mas em frações de segundos, após este pensamento, num lampejo de inspiração (destes que só os desesperados têm!), solicitei que minhas colegas iniciassem a apresentação, dissertando sobre as poucas figuras femininas que encontramos. Terminada a explanação delas, solicitei a palavra e comecei relatando o dia a dia de uma dona de casa, com seus afazeres. Relatei uma série de figuras masculinas, casadas, que tinham em suas companheiras a base de sustentação para as suas atividades. E, que por muitas vezes, essas mulheres extrapolaram os afazeres domésticos, adentrando e apoiando diretamente suas atribuições profissionais. Ao narrar sobre o cotidiano das atividades domésticas foi praticamente impossível deixar de falar na realidade de muitas “Marias”, que mesmo anônimas, têm construído a história deste país e do mundo inteiro, todos os dias.
  30. 30. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 29 Formação política Prof. Elton ELA manhã, o menino saiu de casa para brincar e se deparou com a calçada e a rua repletas de folhetos. Aquela avalanche de papéis fora capaz de ocultar totalmente as pedras e o cimento, em algumas partes. Mais tarde, soube que esses papéis eram chamados de santinhos. Alguns tinham fotos, eram grandes e coloridos. Outros eram de papel ordinário, com letras pretas, bem sem graça. A diversão era recolher alguns e levar para casa. Havia uns santinhos mais interessantes que outros. Aqueles com verso em branco, ele usava para desenhar. Tendo foto, dava para rabiscar sobre a cara, desenhar óculos, bigode e outras coisas. Era o dia seguinte às eleições. Sabia disso, pois tinha ido votar com o pai, que o levara junto à cabine para marcar o X. Essa história de marcar o X era bem falada na TV naquele ano. Na sala da 1ª série C, onde estudava, havia uma tira de papel colada no quadro negro, bem no alto. A professora dizia que aquilo pertencia aos alunos da manhã, P
  31. 31. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 30 da 8ª série. O menino já tinha visto aquele mesmo papelzinho na TV e sabia para que servia. Também sabia que os pais iam fazer o X no primeiro quadradinho quando chegasse o dia certo, mas nem todos da família iam. Havia uns tios que não gostavam do barbudo, mesmo ele tendo a melhor música, e preferiam o que tinha óculos de fundo de garrafa. Depois passaram a gostar do que usava gel no cabelo. Era uma briga! O avô dizia que ia votar no velhinho de cabelo branco. O menino sempre achou que fosse porque o avô tinha os cabelos iguais. De qualquer forma, no papelzinho da sua sala, na escola, o X seria posto no primeiro quadradinho. Para isso, subiu numa cadeira em um momento que a professora não estava observando, no meio da bagunça da turma, e marcou com gosto um X no primeiro quadradinho. Nos dias seguintes, observava aquilo com orgulho. O barbudo ia ganhar, pensou. Passados alguns dias, entretanto, a expectativa do menino não correspondeu à realidade. O que mais o chateou foi que não teve comemoração, igual estavam falando que ia ter. Depois que sua mãe falou que o barbudo tinha perdido, o menino ficou em casa, meio triste, igual aos pais. Sua torcida não foi o suficiente. O cara de gel no cabelo e que ia para TV chamar todo mundo de “minha gente!”, levara a melhor.
  32. 32. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 31 Aquele de bigode, que dizia “brasileiros... e brasileiras!” não aparecia mais. Melhor para ele, pois todo mundo o xingava sempre. Foi de espantar que, com esse novo, a coisa não fora muito diferente. Depois de um tempo, todos os que fizeram o X nele ficaram com uma raiva danada, que só aumentava. Tinha gente que dizia “o barbudo falou, o barbudo avisou...”, até fizeram música. Mas parece que alguns não tinham ouvido seus avisos. O menino também não ouviu, mas achava que seus pais sim, então estavam do lado certo. Por que os tios e os avós de todo mundo não tinham feito o X no primeiro quadradinho também? Agora tinha ficado ruim para todo mundo. Então, muita gente foi para rua pedir para o cara de gel no cabelo cair fora e ele aceitou. Devia ter feito muita coisa errada mesmo. Mais ou menos por aquela época que o barbudo perdeu, um pouco depois, o time de futebol de preferência do menino – que também era o time do pai, do avô e do tio – venceu um campeonato e houve comemoração. Ah, desta vez sua torcida deu certo! Podia sair às ruas comemorar e assim o fez. O menino foi crescendo e compreendendo um pouco melhor as coisas. Sabia que seu
  33. 33. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 32 time, que alternava vitórias e derrotas em finais de campeonato – permitindo, ao menos de vez em quando – uma comemoração diante de uma importante conquista, já tinha ficado 23 anos sem vencer nada... Mesmo assim, muita gente não tinha parado de torcer por ele, pelo contrário: a torcida só cresceu. Mas as conquistas não dependiam só disso. Havia outros fatores, desconhecidos para o menino, que interferiam e a comemoração não vinha. E ainda, havia outras torcidas, também desejando vencer para comemorar. Nem por isso o menino deixou de se manter fiel ao seu time de futebol, aquele que era o mesmo de seu pai. Com o tempo, o menino viu que o time do barbudo, aquele do primeiro quadradinho, tinha grande dificuldade de obter vitórias – pelo menos no campeonato que mais valia. Na escola, o menino convenceu seus colegas a batizarem o time de futebol do campeonato da 7ª série com a sigla do time do barbudo. Uns aceitaram por brincadeira, houve quem lutasse contra, mas no final a sigla ficou como nome, mas sem conquista. Se o time do homem de gel no cabelo já não oferecia perigo, com o tempo, surgiu um outro, muito forte – pois tinha resolvido um problema que era antigo e que ninguém conseguia resolver por muito tempo. Como é que ele fez isso, o menino não sabia explicar. Contudo, esse novo adversário do homem barbudo tinha uma torcida muito grande. O barbudo perdeu mais uma vez e nem houve a emoção da disputa anterior contra o homem de gel no cabelo, que todo mundo pediu pra sair depois. O novo adversário que o barbudo enfrentou, ao contrário do homem de gel no cabelo, queria inventar um jeito de todos pedirem
  34. 34. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 33 para ele ficar. E conseguiu! O barbudo só conseguiria vencer depois de muito tempo... E o menino, torcedor que era, e agora crescido, comemorou – já um pouco consciente dos significados daquela vitória. Para ele, tinha um gosto de infância, embora já soubesse que nem os santinhos eram inocentes. — Professor, então você é petista? — Petista, eu? Você prestou mesmo atenção? Eu sou corintiano, rapaz.
  35. 35. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 34 A Idade Média, é a média do quê? Prof.ª Juliana F. ÃO consigo entender essa tal de Idade Média! Pra começar, é a média do quê? - Cara, Idade Média é muito simples! É o feudalismo, que tem a pirâmide social: Clero, Nobres e Camponês; tudo acontece no feudo, e quem manda é o suserano, e o vassalo só obedece. Pronto! - Só? Não são mil anos? E só tem isso? - É! Eu já estudei esse assunto na minha outra escola, e tirei 10 na prova. É fácil demais. - Não tô acreditando não. No livro tinha tanta coisa. Olha ali ó, a professora tá ali ó, vamo fala com ela... Ô profeeeee, a gente quer saber uma coisa de História. -Humm, se interessando por História, é? Diga, qual é a dúvida? N
  36. 36. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 35 -Prof. Silene, eu tava falando pra Mariana como Idade Média é fácil. Que tudo rola no feudo, tem 3 classes sociais e tem os suseranos e os vassalos. Não é isso aí? - Então meninos, é e não é. O que você tá me dizendo aconteceu sim, mas não o tempo todo, e nem em todos os lugares. -Então o meu professor na outra escola me ensinou errado? Desgraçado! - Não, não, não! Não é uma questão de certo ou errado. São pontos de vista, que compõem a História. Nesse caso, esse ponto de vista é dos historiadores da França, que organizaram os estudos de Idade Média lá no século XIX. Pra eles, a maior parte do período foi isso mesmo que você falou. Aconteceu isso também na Inglaterra, na Alemanha, em parte da Itália, mas não dá pra dizer que aconteceu isso em todos os lugares. -Não te falei, cara? Mil anos é muita coisa pra só aquilo que tu falou!! -Tá, se não foi só isso, o que tava acontecendo nos outros lugares, profe? - Posso te dar muitos exemplos. Aqui no Brasil, na América, na África, na Ásia, não teve nada disso de feudalismo, em nenhum momento. Ou vocês imaginam os indígenas vivendo como cavaleiros e princesas? -Dã, lógico que não né, profe. - Então, tá. Mas também, dentro da própria Europa, as coisas não eram totalmente iguais. Por exemplo, na região da Península Ibérica, onde hoje estão Portugal e Espanha. Lá as coisas foram bem diferentes...
  37. 37. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 36 No século VIII essa região foi invadida e dominada por um grande império, que veio lá da Arábia, o Império Islâmico, que acreditava no deus Alá e seguia a religião revelada pelo profeta Maomé. Os árabes-islâmicos vieram pelo norte da África, atravessando dunas e desertos, e chegaram até a ponta, onde a África se aproxima da Europa. Lá, um ex-escravo, que se transformou em comandante militar, Tariq ibnZiyad, liderou a invasão para a Europa, em 711. O primeiro lugar que ele aportou na Europa foi numa península rochosa, que ficou conhecida como “Monte de Tarik”, ou Gibraltar, como conhecemos hoje. Tão importante foi, que a passagem entre África e Europa recebeu o nome de Estreito de Gibraltar. Ali os Islâmicos combateram e venceram os visigodos, um antigo reino bárbaro, e dominaram a região por muitos séculos. O domínio deles não tinha nada a ver com o feudalismo cristão, até porque eles eram principalmente comerciantes e viviam em centros urbanos. A Península
  38. 38. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 37 Ibérica foi dominada com o nome Califado de Córdoba, e as maiores cidades tinham livrarias e banheiros públicos, lojas de tecidos e joalheiros, e havia convivência com vários outros povos, como judeus, berberes, bizantinos e também cristãos. O Império Islâmico era tão grande que dominava um pedaço da Europa, uma parte da África, e um pedaço da Ásia, até chegar na China! Com esse vasto território, eles conduziam uma grande rede de comércio, onde circulavam coisas dessas várias regiões, como moedas, temperos, tecidos, alimentos, armas, conhecimento e tecnologia. Por exemplo, são os islâmicos que trazem a pólvora para a Europa, junto com o papel, ambos da China. Também a cana-de-açúcar, que vem pro Brasil depois, e os números, os algarismos indo-arábicos, também vêm de lá. Os conhecimentos astronômicos, as experiências químicas e as práticas de alquimia, e mesmo conhecimentos de Medicina, através de uma enciclopédia criada por um
  39. 39. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 38 médico persa chamado Avicena. -Nooossa professora, que legal! Não tinha ideia de que essas coisas tinham acontecido. Isso foi bem mais empolgante que aquela coisa do senhor feudal. Viva o Tarik! - Poxa professora, e eu que tinha aprendido que a Idade Média era a Idade das Trevas, ou como o professor repetiu várias vezes: “mil anos de escuridãooo” hohoho!!! - Olha meninos, não é só o seu outro professor que diz isso. É uma visão muito comum, mas precisamos pensar de novo sobre isso. Será que foi só escuridão? Só trevas? - Não professora! Olha só essa tal de Córdoba, quanta coisa... Até arma de fogo eles já tinham! - Isso mesmo. Tá vendo como a História é feita de pontos de vista? Não foi só escuridão não. A Idade Média é vista como um período ruim desde o século XVI. Nesse momento, chamado de Renascimento, o pessoal queria afirmar que eram mais racionais que no período anterior. Eles diziam que estavam retomando a racionalidade das grandes civilizações clássicas da Idade Antiga, Grécia e Roma. Por conta disso, criaram a ideia de que o período de mil anos
  40. 40. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 39 entre o final de Roma e o tempo que eles viviam, era só um intervalo, uma pausa entre duas grandes épocas. Foi por isso que inventaram o nome Idade Média, como o que tá no meio. - Ahhhhhh! Então é por isso que Idade Média é média. Eu não tava entendendo isso, ia mesmo te perguntar. Mas agora entendi. - É, e essa ideia de “mil anos de escuridão”, de “idade das trevas”, quem criou foram os pensadores de um movimento chamado Iluminismo, no século XVIII. Eles se aproveitaram dessa ideia da pausa no conhecimento, pra falar que se não tinha conhecimento, era escuridão. E adivinha quem ia trazer a luz do conhecimento, pra tirar o povo da escuridão? -Os tais iluminadores? -Iluministas, iluministas. Isso mesmo. Espertinhos, não é mesmo? Meninos, o papo foi bom, mas está na hora da aula. Até mais, Salaam Aleikum. -hm? Salamaleico? -É a saudação dos povos islâmicos. Significa: “que a paz esteja com você”. E a resposta pra essa saudação é Alaikum As-Salaam, “e você também tenha paz” - Ahhhh, Aleicosalam, professora!
  41. 41. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 40 O Tribunal das Causas Anacrônicas (ou “Como julgar o passado?”) Prof.ª Juliana H. ARADO, garoto! Desça da bicicleta devagar e coloque as mãos na parede. O rapaz se virou surpreso. - Quem? Eu? O som da sirene é inconfundível: ele estava sendo preso. Os policiais, com exóticas roupas prateadas, iam se juntando para a abordagem, enquanto o cérebro do rapaz tentava entender o que estava acontecendo. Um dos prateados avisou pelo microfone que o alvo finalmente havia sido encontrado. Com os braços abertos e as palmas da mão quase tocando a parede, o garoto hesitou. - Mas por quê?! Tirando coragem sabe-se lá de onde, segurou firme a bicicleta e fugiu pedalando o mais rápido que podia. Atrás dele, luzes e sirenes. O garoto conseguiu ganhar vantagem dos policiais. Como conhecia cada quebrada naquela cidade, pedalou por uns 15 minutos sem se perder. P
  42. 42. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 41 Mas, apesar da adrenalina, era impossível conter o espanto: quem eram aquelas pessoas? E os automóveis estranhos? Por que estariam atrás dele? Se o garoto não estivesse pensando nisto tudo e tivesse olhado para cima ao invés de só olhar para frente, talvez tivesse percebido quando o drone começou a sobrevoar sua cabeça. O aparelho acendeu uma luz e quando o menino se deu conta, uma rede solidificante já havia caído sobre ele. A bicicleta travou e algumas pessoas atravessaram a rua quando ela e o garoto capotaram no chão. Os policiais o colocaram desacordado dentro da viatura. O drone pairou um tempo em cima do automóvel e, exatamente como nos filmes de ficção científica, emitiu um flash de luz que fez todos desaparecerem. Quando o menino acordou, vestia um camisão branco e algemas muito finas, de um material que nunca tinha visto antes. Estava escoltado por dois policiais, um de cada lado, que lhe conduziram por uma porta. Nela, uma placa indicava: Sala de Julgamento. Ao fundo do salão, ele reconheceu as clássicas mesas do juiz, advogados, testemunhas e o júri. Ele já havia visto filmes suficientes para concluir que ele era o réu. Mas acusado do quê? E onde afinal ele estava? - Caso nº 16 do dia. Você é André dos Santos, nascido no ano de 1995?
  43. 43. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 42 - Sim, Vossa Excelência! O tribunal explodiu em gargalhadas. “Fala direito, moleque!”; “Que sotaque bizarro!”; “De que época ridícula você vem pra falar assim?!”. O garoto se sentiu diminuindo e foi assim, miudinho e humilhado, que seguiu respondendo às perguntas da juíza. - André dos Santos, você está sendo acusado do crime de barbárie e incivilidade, relacionados à crueldade com os animais. “Crueldade com os animais? Mas eu adoro os bichinhos! Será que eles estão falando daquela vez quando eu atirei num passarinho com espoleta? Poxa, eu nunca mais fiz aquilo desde que tinha uns 7 anos!”. Enquanto André pensava, entrou a primeira testemunha. Ela segurava um projetor holográfico. - Boa noite, tribunal. Tenho aqui imagens que podem chocar a todos. Peço, desde já, desculpas pela brutalidade do que iremos ver. No entanto, provas são provas. A cada holograma que aparecia, vinha uma exclamação da plateia. Algumas pessoas viravam o rosto. Houve os que choraram e também aqueles que se indignaram e saíram do tribunal. O advogado de acusação apenas comentou, com uma entonação profundamente atordoada: “Temos aqui provas irrefutáveis da crueldade e especismo do acusado.” André reconhecia as fotos que foram mostradas e não estava entendendo nada. Eram as fotos que ele postava nos seus perfis na internet, mostrando os alimentos que preparava nos finais de semana.
  44. 44. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 43 - Sr. Santos, você preparou e comeu aqueles animais? - … sim. - E o que você sentia ao realizar tais atos perversos? - Não sei... Fome, só, eu acho. - E por que fez isso? - Bom... Não sei... Acho que porque era gostoso. E também: todos na minha família faziam o mesmo, eu aprendi a fazer isso desde pequeno... Ninguém nunca achou errado. A defesa interveio: - Você sabia que estava cometendo um grave crime, além de ser extremamente cruel com as outras espécies? - Claro que não! Comer isso não é considerado crime! Até já ouvi gente dizendo que é crueldade, mas... O que mais a gente poderia comer? Minha família não tem dinheiro pra comprar comida cara... - Entendo - disse a advogada. - Bem, tribunal, creio que chegamos à solução deste caso! De início também me indignei. No entanto, o réu não pode ser penalizado! Este comportamento que nos parece cruel é um comportamento típico da época em que André viveu. Todos, ou quase todos que o acusado conhecia, faziam e pensavam as mesmas coisas que ele. Ele cometia tais crimes, porque aprendeu assim. Vocês bem sabem que tudo o que pensamos e fazemos está limitado pela época em que vivemos. Quem sabe se muito do que fazemos hoje também não será visto como algo errado no futuro? Por isto, mesmo que para nós, André pareça um criminoso, um bárbaro, não podemos condená-lo!
  45. 45. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 44 A juíza entendeu a defesa da advogada e proferiu a sentença de André: “Apenas mandem-no de volta para sua época, pois aqui entre nós ele não terá lugar!”. Assim que André saiu da Sala de Julgamento, o próximo réu se apresentou à juíza. - Caso nº 17 do dia. Você é Fernão de Góis, nascido no ano de 1615? - Sim, Vossa Excelência. - Fernão de Góis, você está sendo acusado de fazer parte da Inquisição, tendo torturado e executado 30 pessoas, devido a questões religiosas. Entrou a primeira testemunha.
  46. 46. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 45 Por que existe o Dia da Consciência Negra? Prof.ª Karla RA 20 de novembro e a organização do evento começou cedo na escola. Grupos dividiam-se entre fixar os painéis, carregar carteiras e montar os estandes. Eu estava lá, ajudando em tudo. Afinal, era um dia de celebração. Era o Dia da Consciência Negra. Nas paredes, murais denunciavam o racismo. Havia máscaras e esculturas “africanas” por entre os espaços. Na entrada havia uma brava exaltação a Zumbi dos Palmares. Para as maquetes quilombolas reservamos um lugar especial. Aos poucos um cenário negro ia se construindo em nossa escola. A esta altura, a manhã já havia passado. Não fui para casa almoçar, a professora precisava de mim. Eu me identificava com tudo aquilo e decidi ficar. Lá do pátio ouvíamos os ensaios do Grupo Negrociação. Como eu gostava de dançar! Como eu gostava de música! Como eu gostava de Hip Hop! E
  47. 47. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 46 Não podia me dispersar, ainda tinha muito a ser feito até a abertura do evento. Éramos poucos. Chamei Marcos, um colega que estava sentado na escada aguardando a aula do período da tarde iniciar. Acho que ele era da turma 201. Ele me disse: - Eu não sou negro! Esta festa não é minha! Alguns risos do grupo em que Marcos estava me deixaram chocada. Como assim? É assunto de negro, não me interessa? Quem falou em festa? Pensei... Racista! Não comentei nada com a professora. Não queria chateá-la. Afinal, ela havia se empenhado muito para tudo acontecer direitinho. Não vi movimentação de outros professores. Será que seguiam o mesmo pensamento de Marcos? Será que entendiam que a responsabilidade do “assunto negro” era da professora negra? Pensei... Se for isso... Acho que meus professores também são racistas. As horas passaram rapidamente. Na verdade, eu nem vi o tempo passar. Já era noite e os capoeiristas estavam chegando. Na biblioteca o agogô ecoava, era a primeira vez que nossa escola vivenciava
  48. 48. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 47 manifestações religiosas de matriz africana. Os visitantes começavam a chegar e o cheiro dos quitutes ganhava corpo pela escola. Tudo pronto! A capoeira abriu o evento e na roda todos foram convidados a participar. Em seguida, os orixás ao movimento do batuque giravam, giravam e se encaminhavam até o auditório, nos conduzindo à palestra de abertura. Era de arrepiar! Eu via força em tudo aquilo. Auditório repleto. Tema da palestra: Por que existe o Dia da Consciência Negra? A palestrante era a professora Ana, a mesma que pensou todo o evento. Ana era minha professora negra, minha professora de História. Ela nos deu uma super aula! Recuperou o passado de luta do povo negro na figura de Zumbi dos Palmares. Ela nos disse que a data, 20 de novembro, marcava a morte deste herói negro. Ana tentava nos mostrar que mesmo após a abolição da escravatura no Brasil, os negros precisavam continuar lutando. Para resistir era preciso nos reconhecermos como negros e negras. A professora insistia que precisávamos questionar o lugar que ocupamos nesta sociedade. A atividade trouxe certos desconfortos, algumas conversas paralelas, muitas saídas antecipadas. Realmente a
  49. 49. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 48 questão não tocava a todos. Terminada a palestra, o debate iniciou. A primeira pergunta veio de Marcos: - Somos todos iguais, somos seres humanos. O racismo não está mais na cabeça dos negros? Eu pensei... Por que não foi embora? O que esse garoto pretendia? A conversa rolava de maneira calorosa. A professora Ana apresentou alguns dados para comprovar as desigualdades existentes entre negros e brancos em nosso país. Ela falou de mercado de trabalho, de acesso à universidade, de mídia... Ela insistia em mostrar para Marcos que o racismo é uma realidade. Ele: - Ok, professora! Essa história de escravidão e de preconceito eu já entendi. Mas ter um dia para o negro já é demais! Em alguns lugares tem até feriado! A professora: - É exagerado ter o dia de Tiradentes? Esse feriado é questionado? Os comerciantes reclamam? A sociedade se incomoda? O papo durou mais que o previsto na programação e o Grupo Negrociação ainda tinha que se apresentar. Os meninos estavam aguardando com ansiedade desde cedo para cantar. Como estava auxiliando a professora em tudo, achei que era melhor interromper. Marcos esbravejou:
  50. 50. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 49 - Agora sou obrigado a ouvir Hip Hop também? A professora: - Não. Você não precisa ouvir Hip Hop. Você precisa refletir sobre o que é ser negro e a música pode lhe ajudar muito nisso. Veja... Há passados que são relembrados constantemente. Há passados que são esquecidos intencionalmente. Hoje, especialmente hoje, queremos que você e todos aqui presentes possam partilhar de uma outra História. O Dia da Consciência Negra é um convite para isso também... Marcos aceitou o convite. E você aceita, amigo(a) leitor(a)?
  51. 51. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 50 Todas as Histórias são chatas? Prof.ª Karoline SEGUNDA 07:45 ULA de leitura com a profe Mônica de Português. Ela me fez ir à biblioteca, porque, pra variar, eu me esqueci de levar algo “diferente” pra ler e não podia ficar lendo o livro de História de novo. Chegando lá, pedi pra Mari, a bibliotecária, me indicar alguma coisa. Não estava com muita inspiração pra escolher um livro àquela hora da manhã, não é que eu não goste de ler, mas é que antes das 8h eu realmente não funciono direito. Ela me indicou um livro que tinha acabado de chegar na escola, Azincourt, de um autor estrangeiro, disse que eu ia gostar, tinham várias batalhas e grandes exércitos. Apesar do livro ser E-NOR-ME resolvi levar mesmo assim, a capa era bacana, tinham umas flechas e, se eu não gostasse não precisava ler inteiro, afinal era pra aula de leitura, não tinha que fazer apresentação depois, nem texto pra entregar pra professora. SEGUNDA 09:15 Começou a terceira aula. Sei que deveria estar prestando atenção ao que o professor Carlos está dizendo. Eu geralmente gosto das aulas de História – não quando ele pede pra gente fazer resumos e responder aquelas questões A
  52. 52. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 51 chatas, que é só encontrar no livro e copiar – mas emprestei aquele livro da biblioteca, e ele é realmente muito bom. A Mari não estava mentindo quando disse que eu ia gostar. Deixei ele embaixo da mesa e fiquei lendo até o final da aula, o professor nem notou, depois eu vejo com alguém do que foi que ele ficou falando. SEGUNDA 11:45 Finalmente pude ir pra casa. Tenho uma montanha de tarefa atrasada pra fazer que deixei acumular da semana passada, mesmo assim, a única coisa que passa pela minha cabeça é almoçar, me trancar no quarto e continuar a ler. QUARTA 08:30 Avancei bastante na leitura do livro, já passei da metade. Como não tivemos a primeira aula (um dos profes faltou de novo) aproveitei pra ficar lendo, enquanto a galera da sala ficava brincando e conversando. Quando o professor de História chegou, eu estava tão concentrada em uma batalha que estava rolando na estória que nem notei que ele tinha parado na frente da minha mesa. A Kaká, minha colega que senta na carteira de trás, precisou me dar um cutucão pra que eu parasse de ler e visse o profe parado ali, feito um dois de paus, me encarando e encarando meu livro. Toda sem jeito eu pedi desculpas e já fui guardando aquele livro e puxando o outro que o professor estava querendo ver na minha mesa. Nesta aula, não ia poder me disfarçar pra ler, fiquei na mira do professor.
  53. 53. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 52 Conforme a aula começou, eu fui reparando que várias das coisas que o professor falava eu já sabia, ou, pelo menos, parecia que eu já sabia. Ele falava nomes de lugares e países, de reis e duques e de técnicas de batalha que eu estava lendo e conhecendo desde segunda-feira. Ele estava falando de uma tal de Guerra dos Cem Anos (aparentemente era esse o assunto da aula que eu não prestei atenção) enquanto eu estava interessada em saber o que ia acontecer com os personagens do livro que estava lendo. Será que as duas coisas tinham conexão? Será mesmo que aquela estória cheia de sangue, mortes, reviravoltas e aventuras que eu estava gostando tanto de ler era a mesma História (essa com H maiúsculo) que o professor estava contando de um jeito tão, TÃÃÃO, chato? Quando me preparei pra levantar a mão e perguntar isso para o professor, o sinal tocou e ele saiu da sala. Decidi guardar as perguntas para a próxima aula, até lá eu ia ter terminado de ler o livro, e ele ia ter que me responder se aquilo que eu li era verdade ou não. QUINTA 18:43 Terminei de ler. SEXTA 11:00
  54. 54. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 53 O sinal bateu e um minuto depois o professor Carlos entrou na sala. Quando terminou de fazer a chamada e pediu pra que nós abríssemos o livro didático na página 87, para terminarmos a leitura sobre as guerras entre França e Inglaterra, eu aproveitei, levantei a mão e perguntei: – Professor, os ingleses massacraram mesmo os franceses na Batalha de Azincourt? Eles realmente lutaram naquela lama toda? Os arqueiros fizeram a diferença de verdade nessa guerra? O profe ficou me olhando com uma cara meio de assustado, meio de surpreso, eu quase nunca fazia perguntas, mas acho que ele se espantou mais porque eu sabia essas coisas. – Isso não está no livro de vocês Heloyse, onde foi que você leu sobre isso? – Aqui. (Eu respondi tirando meu livro de baixo da mesa) Isso tudo aconteceu mesmo? – Bom, eu não li esse livro ainda, mas ele realmente fala de um evento que aconteceu nessa guerra, que nós estamos estudando, a “Guerra dos Cem Anos”. O que se fala dessa batalha é que ela foi ganha pelos ingleses e que os arqueiros fizeram alguma diferença sim... Mas eu prefiro não falar
  55. 55. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 54 muito sobre ela, acho que é mais interessante falar sobre a Guerra como um todo do que só de uma batalha... O professor continuou falando sobre a Guerra e de como ela se desenvolveu, mas a minha cabeça estava muito confusa... Será então que o que eu estava lendo não tinha nada a ver? Não aguentei e fiz mais uma pergunta: – Profe, como é que eu sei então se as coisas que eu estou lendo aqui aconteceram ou não? – Você vai ter que pesquisar sobre o assunto, assim como eu vou ter que ler esse seu livrinho pra saber como é que ele fala dessa guerra tão importante na História da Europa. Quando queremos saber sobre os fatos históricos, nós sempre temos que buscar as informações em mais de um lugar, seja um livro didático, um site na internet, nos livros escritos por especialistas ou documentários, além das fontes históricas em si... Essa é a parte legal da História, ela pode ser escrita de várias formas. A Literatura também pode ser usada como uma fonte da História e os autores de livros de Literatura podem se utilizar da História para escrever as suas estórias. Enquanto o professor ia explicando daquele jeito dele sobre o final da guerra, eu ia revivendo as passagens do livro na minha cabeça, acho que o cara que escreveu esse livro conhecia muito de História.
  56. 56. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 55 SEXTA 11:45 A aula terminou enquanto o professor Carlos dizia quais questões nós tínhamos que responder pra próxima aula, pra variar um pouco (só que não). Acho que as aulas seriam bem mais divertidas e interessantes se ele contasse a História de outra forma, como nesse livro que eu li. Mas acho que isso não vai acontecer tão cedo... Enquanto isso não acontecia, acho que vou continuar indo a biblioteca e pedindo indicações pra Mari, como fiz hoje. A aula pode ter terminado, mas eu estou indo pra casa com um livro novo, dessa vez é um tal de O Continente, pelo que ela me disse, esse fala de uma parte da História do Brasil, espero que seja tão legal quanto o anterior.
  57. 57. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 56 Onde está a História no mundo tecnológico? Prof. Lucas OJE estava frio e chovia, passei o dia fazendo o que mais gosto de fazer: nada. É estranho dizer que não fiz nada, afinal sempre estamos fazendo alguma coisa, mesmo quando achamos que não estamos fazendo nada, por exemplo, quando estamos dormindo, não estamos só dormindo, estamos descansando, sonhando, ou mesmo só dormindo, qual o problema? Isso já é fazer algo. Talvez, então, seja essa definição de não fazer nada que tenha que ser mudada. Mas, quantas vezes as pessoas já falaram que estão cansadas de não fazer nada? Acho que vou recontar meu dia, e veremos quantos “nadas” fiz hoje. É domingo, estou na casa da minha mãe, chove e faz frio. Aquela pedida para ficar na cama, mas tinha corrida e jogo de manhã, não que eu pratique esses esportes hoje, mas ia passar na TV e eu tinha acesso à Internet. Coloquei a camiseta H
  58. 58. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 57 do meu time e iria comentar ativamente pelo Facebook e Twitter, então participaria, não jogando, mas torcendo. Jogo e corrida transmitidos de outras cidades e países, que eu acompanharia do sofá da minha casa, sem nenhum problema. Bênçãos à tecnologia! E às minhas condições sociais! Ou nem tanto, já que mesmo pessoas mais pobres que eu, hoje em dia, têm algumas dessas tecnologias disponíveis em suas casas. Enquanto assisto aos jogos, minha mãe prepara uma lasanha em seu forno elétrico, e ao mesmo tempo faz um suco em seu liquidificador, bênçãos à tecnologia! E ao almoço. Após o almoço, fui eu para meu computador ver e- mail, vídeos, Facebook, jogar, me distrair, como se não tivesse feito nada o resto do dia, mas mesmo na distração estava eu ali, fazendo algo, meu cérebro estava ativo. Na volta para casa, ainda chovia e fazia frio, e dentro do ônibus quase vazio, eu mexia em meu celular, jogava de novo, via as mensagens, os “whats”, me distraía, só para variar um pouco nesse dia. Portanto o meu dia de não fazer “nada” foi meio cheio de distrações, que não foram à toa, me levaram a pensar coisas, me ensinaram coisas, sei que meu time empatou, que estou com minha conta de celular atrasada (mensagem só pra isso, ultimamente), que choveu, que fazia frio, portanto, a todo o momento aprendo algo, sinto algo e, automaticamente, entendo a importância das coisas relacionadas às minhas percepções e sentimentos, que movem, ao mesmo tempo, minhas escolhas. Se estiver frio pego um agasalho, se chover pego um guarda chuva, se
  59. 59. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 58 preciso ver meu e-mail acesso a internet, se quero fazer uma ligação, pego meu celular... E assim por diante. A maioria das minhas distrações acho que estão ligadas ao mundo da tecnologia, assim é muito fácil percebê- las e a sua importância, pois com elas nos comunicamos, relacionamos, temos mais empregos, a medicina se desenvolve, ou seja, a ciência se multiplica e ainda nos distrai, que “maravilha é essa ciência”, está em todo lugar nos fazendo o “bem”. Evidente que essa minha visão tem a ver com a presença dela na minha vida, afinal como vocês viram, ela está presente na minha vida, de forma muito clara, assim influencia sobre tudo que eu acho dela. Mas toda ciência produz um artefato, ou algo palpável, que a gente possa usar no nosso dia a dia? A resposta a esta pergunta pode ser respondida de maneira simples: NÃO. Existem ciências que não percebemos logo de cara, para quais muitas vezes somos ingratos, mas que ajudam a produzir, não necessariamente um artefato, um objeto, mas nos ajudam a ver as desigualdades, as diferenças, as intenções, a nos lembrar, a esquecer, a questionar. Ciências que mostram que nossas distrações não são só distrações, que ajudam a produzir a nós mesmos. Ciências que são úteis a
  60. 60. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 59 todos os momentos, que podem responder de onde vêm as percepções e porque as entendemos de determinadas formas e não de outras. Mas por que não as percebemos nesse mundo tão tecnológico? Talvez, porque estamos muito preocupados nos distraindo, vivendo-as como se elas não fossem nada além de uma distração…
  61. 61. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 60 Professor, eu vi num filme... É verdade? Prof. Maicon SESSÃO cinematográfica estava se aproximando. Foram meses de espera desde o anúncio da estreia nos cinemas locais. Angus havia lido de tudo a respeito da trágica história: assistiu documentários, leu diversos artigos, livros e revistas. A paixão era tão grande que resolveu construir inclusive uma réplica do famoso navio. A fila estava imensa, ele percebeu que não era o único entusiasmado pela história. Escolhido o assento, acomodou-se na espera ansiosa pelo início da “verdadeira história” do Titanic! As cenas produzidas acerca dos destroços encontrados há quase quatro quilômetros de profundidade enchiam seus olhos de brilho. - Que incrível! - Angus pensava. Ali estavam as imagens “reais” do navio. A imaginação corria solta. - Será que é possível encontrar algum corpo ainda? Como seria interessante conseguir algum objeto do navio! Existiriam ainda fotos escondidas entre os escombros? Conforme as imagens estavam se sucedendo, mais e mais perguntas alçavam voo em sua mente. Como Jack e Fabrício se conheceram? O que aconteceu aos dois irlandeses que, A
  62. 62. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 61 perderam as passagens do navio numa rodada de pôquer e, então, não puderam embarcar? Por que a mãe de Rose era tão cruel com a filha? Por que ela queria que a filha se casasse com alguém que ela não amava? No entanto, o momento mais aguardado por ele estava no trágico acidente que acometeu o navio e que o levou ao fundo do Atlântico Norte. Perguntas e mais perguntas borbulhavam sua mente: Como ele (diretor) descobriu a forma que o iceberg tinha? Como ele sabe que tiveram operários que ficaram presos na sessão de caldeiras? Algumas das cenas não traziam as mesmas informações que ele aprendera nas suas pesquisas e isso o deixou bastante angustiado e preocupado, afinal, aquele filme era uma mentira? Aquele final de semana foi um dos mais inquietantes da vida de Angus. Muito daquilo que ele sabia sobre o mais famoso dos naufrágios da História, tinha sido “mostrado” de forma diferente no filme. Nunca antes havia desejado tanto, que uma segunda-feira chegasse o mais rápido possível para que pudesse ir à escola, conversar com o professor de História e tirar essas grandes dúvidas que borbulhavam em sua mente. Segunda-feira chegou. Dizer que ele acordou às seis horas da manhã não seria uma verdade, uma vez que a ansiedade venceu o sono naquela madrugada. Ao chegar à escola, dirigiu-se à sala do dos
  63. 63. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 62 professores na esperança de encontrar o professor de História. Bateu na porta e, para seu alívio, quem atendeu foi aquele por quem procurava. - Professor, por favor, preciso conversar contigo! - Ok. Tens alguma dúvida sobre os conteúdos para a prova de hoje? - indagou o professor Mulder. - Não professor. Sei “exatamente como tudo aconteceu” na Segunda Guerra Mundial. Minhas dúvidas são sobre outro fato histórico. O professor já assistiu, nos cinemas, ao filme Titanic? - Sim, assisti ontem à noite. Por quê? - Ok. Então é verdade aquilo que eles mostram no filme? Pergunto isso, pois muitas coisas não batem com aquilo que eu estudei sobre o que aconteceu com esse navio. Nunca Angus havia aguardado tanto por uma resposta, mas, ao mesmo tempo, também preocupava-se com a resposta que iria receber de seu professor. Quem está errado: o filme famoso ou os livros e outros “materiais” que ele pesquisou a respeito do assunto? - Bom Angus, temos que repensar um pouco sobre sua ideia do que é a História. - respondeu o professor. - Como assim? - indagou Angus com uma expressão inquieta. - Primeiramente, vamos deixar claro que não existe “a verdade” absoluta sobre os fatos que estudamos “do”
  64. 64. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 63 passado, pois toda vez que olhamos “para” o passado, podemos construir “uma nova interpretação” sobre esse passado, a partir da forma que pensamos no “presente”. - Bah professor, o senhor está me deixando mais confuso ainda. Explique melhor, por favor! Naquele momento, o professor Mulder percebeu que aquela sua explicação só seria compreendida com um exemplo prático. Então ele questionou Angus: - Você já assistiu ao filme “Ponto de Vista”? - Ainda não professor, por quê? - Bem, nesse filme, um presidente americano estava fazendo um discurso ao público, quando de repente se tornou alvo de um atentado, que buscava matá-lo. Dado esse evento, o filme mostra como oito personagens ligados àquela cena observaram a tentativa de assassinato. Cada um deles compreendia de forma diferente quem seria o autor do crime, mas ao debater e comparar as versões que cada um possuía a respeito daquele evento, conseguiu se perceber quem era o criminoso. - Mas então se encontrou o “verdadeiro” criminoso? - Não é tão simples assim Angus - respondeu o professor. Pense! O personagem que investiga no filme quem teria atentado contra a vida do presidente poderia ter apontado no final para oito criminosos diferentes, se
  65. 65. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 64 escolhesse apenas um dos pontos de vista sobre o fato. Tanto para o investigador, quanto para o historiador, quando este busca compreender um determinado aspecto ligado a um determinado evento, ele precisa obter o máximo possível de informações. Com essas informações em mãos, ele tentará verificar se essas podem ser usadas ou não, verificando sua autenticidade e comparando-as entre em si e, aí, vem o ponto principal: fazer suas escolhas! Nesse momento, Angus, bombardeado de ideias diferentes daquilo que ele imaginava, observava o professor de forma incrédula. E, então, perguntou: - Como assim, fazer suas escolhas? - Meu caro Angus - respondeu o professor. Muitas das informações que o historiador possui sobre um fato são contraditórias e, não necessariamente, ele possui outras fontes que o ajudem a mostrar qual delas é “a correta“ ou qual seria “a errada”. Assim, ele tem que escolher qual caminho seguir, deixando de lado os outros caminhos de “interpretação” possíveis. E o professor ainda indagou: - Você disse que sabe como tudo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, não é? Então me diga: o que aconteceu com o líder alemão Adolf Hitler durante a guerra?
  66. 66. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 65 - Essa é muito fácil professor, ele se matou num bunker antes dele ser invadido por tropas soviéticas. Vi um filme e li um livro que contam todos os detalhes sobre isso. Com um sorriso no rosto o professor, estando contente com o entusiasmo e ao mesmo tempo inocência de seu estudante, fez uma nova pergunta: - Você sabia que essa interpretação sobre o suicídio no bunker é recente? Até meados da década de 1990, a explicação que os historiadores davam é de que os soviéticos haviam matado Hitler quando chegaram em Berlim. - Não sabia disso - respondeu Angus com tom de preocupação. - Assim - continuou o professor - podemos perceber que, com as fontes que os historiadores possuem, eles constroem uma interpretação sobre os eventos que investigam, as quais podem variar conforme novas fontes sejam acrescidas e antigas sejam descartadas. Compreendendo agora um pouco melhor como funciona o trabalho do historiador, Angus percebeu que o diretor de um filme age quase que da mesma forma. - Então professor, quer dizer que o diretor do filme Titanic se fez de historiador para explicar a história do naufrágio? Para montar o roteiro do
  67. 67. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 66 filme, ele fez escolhas de quais informações seriam as mais corretas sobre a tragédia e, então, construiu através de imagens a sua interpretação do fato? - É mais ou menos isso Angus - respondeu o professor - mas talvez não devêssemos usar a palavra “corretas”, pois ele poderia utilizar a interpretação mais “aceita” entre os historiadores ou a versão que ele considera mais interessante passar no filme e, ainda temos que levar em conta outras implicações. - Como assim professor? - perguntou Angus. - É fácil de entender. Um filme é produzido com um objetivo: atrair pessoas para as salas de cinema e, assim, trazer recursos financeiros que paguem o custo que o filme teve para ser produzido e, o máximo a mais, que seria o lucro. Para que isto aconteça, os roteiristas, produtores e diretores muitas vezes acrescentam informações ou personagens que de fato não existiram, para “melhorar” a história e atrair o maior público possível. Por exemplo, em Titanic, Jack e Rose não existiram. Além disso, muitas dessas obras cinematográficas são patrocinadas por empresas que têm seus interesses quanto àquilo que querem que seja mostrado através das imagens. Aquela informação atingiu a mente de Angus, como se fosse uma tesoura picotando todo o conhecimento que ele possuía sobre a história do navio e seu naufrágio. Estava boquiaberto com toda aquela situação. E, o professor ainda acrescentou:
  68. 68. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 67 - Muitos livros fazem a mesma coisa, principalmente quando os “profissionais” que os escrevem estão mais interessados em atrair o público, preocupando-se menos em “como lidar” com as fontes que possuem. E, não podemos esquecer que as fontes, que um historiador ou um diretor podem possuir, foram produzidas também com uma intenção, que podem ou não serem devidamente condizentes com os fatos aos quais estão relacionadas. - Bah professor, História é mais complicado do que eu pensava. Sempre entendi que a História era uma só e ponto. - Ela não é simples, mas não é tão complicada assim. Basta perceber que é a pluralidade de olhares que torna a História ainda mais cativante.
  69. 69. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 68 O trânsito, a chuva e… A História (“Pra que serve?” Ou: “O que eu tenho a ver com isso?”) Prof. Mateus HOVIA. E muito. O trânsito parecia superar-se e tornar a cidade ainda mais congestionável. As pessoas estavam infelizes dentro do ônibus 184. Talvez porque muitas se molharam. Ou porque chegariam mais atrasadas do que de costume. Cada uma tinha uma resposta ou, pelo menos, uma sugestão pro caos que ali transbordava. Uns diziam que a culpa era do tempo, que nunca chovia tanto assim em maio. Uma mulher disse que era culpa do aquecimento global. Um idoso disse que era do Chuvalsky, repórter da previsão do tempo que nunca acertava nada. Uns estudantes disseram que a culpa era das pessoas que jogavam lixo em qualquer lugar e que depois entupiam as bocas de lobo. Uma mulher que levava seu filho recém-nascido reclamava que o problema era a falta de infraestrutura e saneamento que o governo não cumpria. Isso sem esquecer os que afirmavam que era tudo coisa de São Pedro que tinha acordado de mau humor. Sentado num assento próximo da janela, João rabiscava seu caderno. Surgiam navios, espaçonaves, zumbis e C
  70. 70. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 69 carros de corrida. Enquanto olhava pela janela molhada, pensava na avaliação que o aguardava. “Prova de História.” Pra que estudar História, hein? Pra que aquelas datas, aquelas palavras difíceis, coisas que não existiam mais e pessoas que já tinham morrido há tanto tempo que nem o pó delas restava mais? Menos as múmias, que eram exceção. Dessas ainda restavam faixas, embrulhando um cadáver esquisito. Pra que isso tudo hein? Nem o seu avô existia naquelas épocas. Mais uma parada. Enquanto o senhor que estava ao lado de João descia junto a outros colegas para trabalhar numa indústria das redondezas, outras pessoas subiam no coletivo, livrando-se temporariamente da chuvarada. Depois de duas senhoras entrarem, João notou um sujeito encharcado. “Nossa, coitado. Vai ter uma gripe daquelas”, pensou. Depois de o sujeito arrumar o cabelo e colocar os óculos, João o reconheceu. Era seu professor de História! Não demorou a passar pela catraca, deixando uma considerável soma ao cobrador pelo uso do transporte. O professor avistou João e veio a seu encontro. Depois de um sorriso, lhe disse “E então, João? Quanta chuva hein? Achei que o mundo ia desabar. Posso sentar com você?” Depois da confirmação de João, a conversa continuou sobre o tempo chuvoso. João disse que as pessoas comentavam sobre o problema do congestionamento e que
  71. 71. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 70 ele, particularmente, não gostava quando chovia porque não tinha aula de Educação Física. O professor riu do comentário. Passaram a dialogar sobre alguns acontecimentos da escola. João notou que o professor se interessou pelos desenhos de seu caderno e disse que gostava muito de desenhos. Falou de alguns personagens de histórias em quadrinhos que João nunca tinha ouvido falar, mas que, de cara, pareceram interessantes. João descobriu até que ambos torciam para o mesmo time de futebol e tinham a mesma opinião sobre o novo zagueiro: um grande perna-de-pau! A conversa estava tão descontraída que João deixou escapar: “Puxa, professor, você é tão legal, como que foi dar aula de História, hein? Eta materiazinha mais chata!” Por um segundo que pareceu uma eternidade, João suou frio e arrependeu-se do que disse. Afinal, o professor podia não gostar do comentário e ainda tinha uma prova com ele em breve. Já pensou se ele descontasse a nota? Antes que pudesse começar as desculpas, o professor começou a falar. Dava pra perceber que ele sentia a necessidade de falar sobre aquilo – e “de boa”. Ele contou que nem sempre gostou de História. Falou que a História tem uma coisa engraçada: quando não a entendemos ela parece não ter sentido algum, como se fosse um amontoado de fatos que se sucedem; porém, quando passamos a compreender pra que serve a História, ela torna-se parte da nossa forma de pensar, vira parte integrante de nossa vida. E foi explicando...
  72. 72. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 71 – Graças à História eu tenho hoje um olhar diferente sobre as coisas, sabe? Você me falou sobre o modo que alguns passageiros explicaram o problema do trânsito. Em certo sentido eles estão corretos, embora provavelmente a melhor explicação para o problema seja a questão da mobilidade urbana: o crescimento desordenado das cidades, a exploração do serviço de transporte público por empresas privadas e um excessivo número de automóveis rodando, estimulado por uma cultura que associa um volante a prestígio social. Acontece que muitas destas pessoas estão tão mergulhadas (melhor dizendo no dia de hoje: encharcadas) em seus problemas que não se questionam sobre a razão de viverem no mundo em que se encontram. Você notou os operários que desceram? A fábrica em que trabalham está na iminência de demitir muitos deles. Será que eles entendem o motivo disso? Estarão resignados? Ou organizados para defenderem seus direitos? E você, João? Você que está indo estudar, percebe o quanto ir à escola pode fazer a diferença em sua visão de mundo? O professor continuou dizendo que só conseguimos entender nosso mundo atual se estudarmos o passado. “O mundo não ‘caiu do céu’, João. Este mundo é consequência de escolhas que foram tomadas pelos seres humanos. Por exemplo, eu nunca pego ônibus neste horário. Sempre pego o próximo. Mas hoje, resolvi sair de casa mais cedo porque com essa chuva, o trânsito fica pior ainda. Se eu tivesse escolhido pegar o ônibus no horário de costume teria chegado tarde na escola e não conversaria com você agora.”
  73. 73. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 72 - Puxa, é verdade professor. Eu pensei que era coincidência, mas a gente só se encontrou por que você escolheu um ônibus diferente. Mas diz aí, quando você começou a gostar de História? - Ora, eu comecei a me interessar pela História quando descobri que faço parte dela. - Faz parte dela? Como assim? - Todas as pessoas fazem parte da História, João. A História não é um assunto só de reis e generais. Imagina só: olhe pras pessoas deste ônibus. Cada uma indo pra um lugar, estudar, trabalhar. Uma desce, outra sobe. Uma com guarda-chuva, outra com uma capa e um todo molhado como eu. Muitas delas não sabem, mas são capazes de lutar por um mundo mais justo, mais digno para todos. É sobre isso que a História trata. Os seres humanos no tempo. Não para estudar o passado como curiosidade; mas para entender o passado, compreender o presente, construir o futuro. - Nossa professor que legal! Eu nunca tinha pensado na História dessa maneira. - É. Pensar em que as coisas poderiam ter acontecido de outra forma nos ajuda a imaginar que
  74. 74. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 73 podemos ter um futuro bem diferente do nosso. - Um futuro sem trânsito e sem uma fortuna pelo “busão”, professor? - É isso aí, João! Um futuro em que a chuva seja o nosso maior problema.
  75. 75. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 74 “Meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro” Será? Prof.ªMichele UIZA estava super empolgada, afinal de contas era sua primeira viagem internacional e como se não bastasse, iria pra bem longe. Finalmente, liberdade e independência! Enfim chegou o dia em que seu sonho de estudar fora ia se realizar. Sua bagagem tinha de tudo um pouco, mas uma coisa não podia faltar, vários cartões de memória com o máximo de músicas que pudesse caber ali, além da memória do próprio iPhone! Era uma adolescente, não poderia ficar dois segundos sem o fone no ouvido, era algo inconcebível. De malas prontas e rumo à Finlândia! Os dias se passavam muito rápido e Luiza tentava se adaptar. A família que a acolheu já tinha recebido outros intercambistas, mas era a primeira vez que recebiam uma brasileira e todos faziam um grande esforço para que tudo desse certo. Ao longo de três semanas, Luiza já estava se dando super bem e até já tinha feito algumas amizades, na maioria L
  76. 76. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 75 outros brasileiros, que também estavam fazendo intercâmbio. Tudo era novo, diferente e divertido, mas a saudade de casa aumentava cada vez mais! Para matar a saudade, ela falava com os amigos e a família que estavam no Brasil, a internet era sua grande aliada! Assistia a alguns programas de TV, que nem tinha muito interesse, mas ouvir o português lhe fazia muito bem. Entretanto, o que mais gostava mesmo de fazer era ouvir as músicas, que com tanto cuidado havia selecionado. Apesar de seu gosto musical ser bastante eclético, ela tinha incluído na sua playlist várias músicas brasileiras que considerava as mais legais. Num determinado dia, Luiza chegou em casa pensativa, remoendo a conversa que tinha tido há poucos minutos com uma finlandesa. Uma das novas amizades, mas essa parecia promissora. Estava conversando sobre como seus “jeitos de ser” eram diferentes, falavam sobre a língua, comida e músicas, claro! O papo ia bem até que a nova amiga pediu: - Me ensina a sambar? - Ih, não sei sambar! Fico te devendo essa... - Como assim não sabe? Você não é brasileira? - Sou, e daí? - Mas o Brasil não é a “terra do samba”? - Pode até ser pra muita gente, mas não pra mim. Eu gosto de ouvir algumas músicas, mas não é o meu estilo musical preferido e nunca
  77. 77. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 76 me interessei em aprender a sambar. Aliás, tem muita gente no Brasil que gosta de outros tipos de música. Essa história de que o Brasil é o país do samba serve pra turista e para a televisão. Quem acaba ganhando com isso são as escolas de samba, que todo ano no carnaval devem ganhar fortunas. Você já viu o tamanho do meu país? Acha realmente que num país daquele tamanho, todo mundo gosta e sabe sambar? Nossa cultura não se resume a isso! - É, eu não tinha pensado nisso… E a conversa seguiu com Luiza explicando para sua amiga que nem todo mundo no Brasil sambava, pulava carnaval ou jogava futebol. Quando chegou em casa sentia-se incomodada e ao mesmo tempo curiosa... “Ora, só porque sou brasileira tenho que saber sambar?” Esse “como não?” ecoava na cabeça de Luiza e ela não conseguia se conformar porque as pessoas que conversavam com ela, ao saberem que ela era brasileira, falavam sobre os mesmos assuntos: carnaval e futebol. Mais do que isso, toda hora alguém se espantava porque ela não se importava muito com essas coisas e isso a deixava cada vez mais incomodada. “Ora, como era possível uma menina brasileira não saber sambar?”Pra Luiza era muito estranho perceber que as pessoas pensavam que no Brasil todos tinham os mesmos gostos, como se isso fosse uma espécie de obrigação, já que “aquilo” representava o país. Então se perguntava: “será que não sou brasileira de verdade?”
  78. 78. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 77 Mas, depois de muito pensar, percebeu que não era menos brasileira porque não sabia sambar. Conhecia tanta gente como ela e nem por isso se sentiam menos brasileiros. Depois de passar por isso, entendeu como era ruim ser rotulado por alguém. Mas, ainda ficou pensando sem achar uma resposta: “Afinal de contas, quem foi que inventou esse negócio de que o Brasil é o país do samba? Quando voltar pergunto pra prof de História, vai que ela sabe!”
  79. 79. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 78 Quem tem medo de museu? Prof.ª Nair UEM tem medo de museu? Eu! Tinha! Sim, eu tinha muito medo de museu ou de qualquer coisa que lembrasse gente morta ou que tivesse pertencido a quem já morreu. O que é que tem num museu? Muitas coisas que pertenceram a quem já está morto. E se o falecido estivesse por ali, cuidando do que era seu? Me arrepiava, só de pensar que aquelas coisas poderiam se mexer ou sair voando pelo lugar. Deus me livre! Bom, era assim que eu pensava e sentia em relação a museus. Como eu disse, tinha medo. Hoje não tenho mais e quer saber, gosto muito de museus! Depois que aprendi que aqueles objetos guardam histórias, ou melhor, eles podem nos contar histórias incríveis, fiquei tranquila. Hoje, gosto de passear em museus, de observar os objetos e imaginar como seriam as pessoas que fizeram uso deles. O que faziam? Como se vestiam? Como preparavam seus alimentos? Sobre quais assuntos falavam? Com o que se divertiam? E mais uma imensidão de perguntas. Q
  80. 80. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 79 Os objetos expostos em museus ajudam a contar histórias de um tempo que já passou, mas também ajudam a entender o nosso tempo presente. Os aparelhos que utilizamos em nosso cotidiano estão profundamente relacionados com diversos objetos que estão em museus. Quer saber? Vamos pensar no celular nosso de cada dia. Aliás, está cada vez mais difícil viver sem ele. Quando hoje fazemos uso do nosso celular para quase tudo, precisamos imaginar que não foi sempre assim. As cartas, as máquinas de escrever, o telégrafo, o telefone enorme e antigo da casa da bisa (e que agora está no museu!), foram todos objetos inventados pelo homem ao longo do tempo, para que chegasse ao que temos hoje, o celular altamente sofisticado. No celular, podemos imaginar que cabem inúmeros objetos que antes existiam de modo independente. Isso para pensarmos apenas em relação às comunicações, mas podemos refletir sobre as vestimentas, artefatos de cozinha, obras de arte, fotografia, arquitetura, transportes e tudo o que diz respeito à vida humana. Que alívio ter me libertado do medo que tinha de museu! Viu como
  81. 81. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 80 podemos aprender diversas coisas interessantes visitando um museu? Ah, e tem mais. Você sabia que todos nós temos o nosso próprio museu? Sim. O nosso museu afetivo. Todos nós guardamos com carinho diversos objetos, que chamamos de ‘lembrança’ ou ‘recordação’, objetos que são muito importantes para nós e que fazem parte da nossa história. Só para dar um exemplo: guardo comigo os cadernos que meu avô utilizou para se alfabetizar, inúmeras cartas que minha mãe me escreveu antes de existir e-mail, meus diários, fotografias, peças de roupas e muitas outras coisas que gosto muito e que fazem parte da minha história. Você também pode montar o seu museu afetivo ou visitar um museu e conhecer diversos objetos interessantíssimos. Que tal?
  82. 82. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 81 Minhas cápsulas do tempo (Minhas lembranças dão História?) Prof.ªTamelusa RA tarde, e uma caneca de chocolate quente me aguardava em cima do balcão da cozinha ainda por arrumar. Só de olhar aquela fumacinha, que insistia em subir pelo ar frio e cortante do inverno, já me sentia aquecida. Naquela semana, minhas noites tinham sido assim: café ou achocolatado bem quentinho, e muitas, muitas coisas para retirar das caixas que se amontoavam pela casa. Tínhamos acabado de nos mudar e ainda faltava muito para aquilo ter cara de lar. Já havíamos nos mudado muitas vezes, mas fazia muito tempo que não me sentia tão bem, tão em casa. Sabe aquelas vezes em que a gente sente um perfume que conhece, mas não tem certeza de onde sentiu pela primeira vez, nem consegue identificar de onde vem? Da janela E
  83. 83. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 82 do meu quarto conseguia sentir aquele cheirinho gostoso que vinha do jardim. Era cheiro de infância, me fez lembrar de coisas que vivi na casa de minha avó. Dividindo o tempo entre a escola e tudo que vinha com ela – muito dever de casa, trabalhos e quilômetros de matéria para estudar para as provas – eu ia tentando por alguma ordem naquela imensidão de caixas, malas e sacos plásticos espalhados no meu quarto. Minha mãe insistia para que eu organizasse logo minhas coisas. E eu até concordava com ela, afinal estava difícil encontrar aquela calça que eu gostava tanto. Mas a preguiça estava tão entranhada em mim, e eu tinha tanto sono... O quarto era menor do que o da casa anterior. Como eu era a mais velha de 3 irmãos, pude escolher entre ficar sozinha em um quarto menor, ou dividir meu sagrado espaço com um dos meus irmãos pestinhas. É claro que não é difícil descobrir qual foi minha escolha. O caso é que, agora, tinha que me desfazer de algumas coisas. Mas o quê? Não imaginei que fosse tão difícil escolher o que guardar e o que jogar fora. Sempre guardei tudo. Os bilhetes declarando amizade incondicional, os diários e agendas que fui acumulando desde a entrada na adolescência, o ticket daquele show em que meu primeiro amor se revelou... Tudo, absolutamente tudo era importante. Minhas recordações ficavam guardadas em lugares diferentes, como se fossem várias cápsulas do tempo que encerravam pedaços de mim.
  84. 84. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 83 Mas algum critério eu tinha que adotar. Não era possível manter tudo o que eu já tinha, e guardar o que ainda estava por vir. Se eu não me decidisse logo, minha mãe podia querer impor sua ordem de limpeza e ir juntando tudo o que ela achasse que não prestava. E aí como eu ia garantir minhas memórias? Ah, não! Eu precisava pensar logo nisso. Então comecei a abrir as caixas e olhar cada objeto amarelado e empoeirado que guardei. A primeira era bem antiga, ainda dos meus tempos de criança. Não tinha muita coisa, porque a época era difícil e eu não tinha muito para guardar. Meus pais não podiam comprar muitos brinquedos. Daquele tempo, ficaram alguns penduricalhos que não sei por que guardei. Além das bugigangas, uma boneca. Mas não era qualquer boneca. Era a minha primeira boneca, com a roupinha original ainda, e parecia muito com um bebê de verdade. Na minha memória, eu passara um ano inteiro pedindo aquela boneca, mas não tenho certeza. Sentia o tempo de um jeito diferente naquela época. Fui abrindo e fechando caixas, tentando decidir onde eu concentraria meus esforços desta tarefa quase impossível. Foi então que me deparei com uma caixa cheia de fotografias. Tinha de tudo ali. Festas familiares (daquelas que reúnem
  85. 85. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 84 todo mundo uma vez por ano), fotos dos meus amigos, de atividades da escola, de lugares que visitamos... Tinha foto até de gente que eu não lembrava mais quem era. Perdi a noção do tempo, olhando cada uma delas... Mesmo não sabendo quem eram todos, acabei deixando tudo lá, como estava. Tinha tanta coisa para relembrar naquele quarto. Quem sabe, eu não acharia uma pista que me ajudaria a lembrar quem eram e porque naquele momento, em que guardei os retratos, a história daquelas pessoas se conectava com a minha. Continuei por mais algum tempo a executar meu plano de rever minhas recordações e decidir o que manter em minhas tantas cápsulas. Mas não deu para terminar naquela noite. Vencida pelo sono, meus sonhos foram embalados pela lembrança de um amor que ficara para trás, perdido com outras coisas importantes que por vezes se perdem nas mudanças. Um pedaço de papel rasgado, com algumas frases que se pretendiam poesia escrita. Foi o que bastou para recordá-lo. Este com certeza não seria desprezado em uma lixeira...
  86. 86. Mestrado Profissional em Ensino de História Questões crônicas 85 Nota Este e-book foi desenvolvido como trabalho para a disciplina “Produção de material didático no Universo Virtual”, ministrada pela professora Márcia Ramos de Oliveira para o programa de Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória - UDESC/UFSC). Trata-se de uma produção coletiva dos seguintes professores-alunos: Anselmo Teles Sabino Bruno Ziliotto Cleyton Machado Dismael Sagás Elaine Prochnow Pires Elton Frias Zanoni Juliana de Almeida Freitas Juliana Hachmann Karla Andrezza Vieira Vargas Karoline Fin Lucas Roberto Soares Lopes Maicon Roberto Poli de Aguiar Mateus Pinho Bernardes Michele Valentim Morais Nair Sutil Tamelusa Ceccato do Amaral Revisão final: Aline Zilli Ziliotto Florianópolis, junho de 2015. Contacte-nos: www.facebook.com/questoescronicas

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