Aconcágua - Relato da Expedição Polacos

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Relato detalhado da Expedição Polacos, no Aconcágua, realizada por Paulo Marin Junior e Arthur Estevez, em 2010.

Eles foram os únicos brasileiros a chegar ao cume do Aconcágua na temporada 2010.

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Aconcágua - Relato da Expedição Polacos

  1. 1. Aconcagua – Expedição Polacos Dezembro 2010/Janeiro 2011. Particpantes: Arthur Estevez e Paulo Marim Junior. Texto: Paulo Marim Junior. Revisão: LH Moreira
  2. 2. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brGlaciar dos Polacos – parte 1.................................................. 3Pisar nas encostas daquela montanha novamente me fazia automaticamentelembrar das circunstâncias da primeira experiência há quatro anos. Eu nãopodia deixar de sempre comparar com o que eu estava vivendo agora. Nofinal, cheguei à conclusão de que fora...Pé na estrada – parte 2........................................................... 9No dia seguinte saímos para resolver a burocracia da permissão na Secretariade Turismo e Caro nos acompanhou. Tive problemas para sacar dinheiro docartão do meu “querido” banco Santander que insiste em bloquear minhastransações internacionais mesmo utilizando o...Muita neve – parte 3 ............................................................ 16Nesta noite nevou pesado sem interrupção. Para sair da barraca primeirotivemos que desobstruir a entrada. Acordamos com meio metro de nevecobrindo tudo de branco. Mais tarde partimos para o campo um. Arthur mecontou que ouvira de alguém, que...Expectativa – parte 4 ........................................................... 25No dia seguinte não fizemos o dia de descanso e movemos nossoacampamento do 1 para o 2. A subida foi um pouco menos dura, pois pelomenos eu já sabia que ela terminava e onde. Eu oltara a usar...A Escalada – parte 5............................................................. 31Acordei com o bip inaudível do alarme do meu relógio de pulso. Diferente dosdias de folga, que eu custava para levantar às nove da manhã, eram 4:30 damadrugada e fazia 21 graus negativos no termômetro. Chamei Arthur que...A Volta – parte final ............................................................. 43Não sei se era porque estava escuro, mas a descida me pareceu muito maiordo que eu lembrava. Uma nova onda de medo bateu. Se eu não conseguisseforças para descer… A maioria das estórias que eu conhecia de acidentes...Cronograma ......................................................................... 66A Equipe .............................................................................. 67 GLACIAR DOS POLACOS 2
  3. 3. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brGlaciar dos Polacos – parte 1 Pisar nas encostas daquela montanha novamente mefazia automaticamente lembrar as circunstâncias daprimeira experiência há quatro anos. Eu não podia deixarde sempre comparar com o que eu estava vivendo agora.No final, cheguei à conclusão de que fora quase outramontanha. De 2006 pra cá, subi algumas montanhas nevadas.Algumas com companhia. E uma delas foi o Tronador, naArgentina. Tive sorte de encontrar com Arthur Estevez nacidade de Bariloche querendo subir a mesma montanha esem parceiro. No final conseguimos fazer cume e desdeentão combinávamos uma próxima escalada. Recebi alguns convites de amigos para voltar aoAconcagua, mas já que era pra sofrer aquilo tudonovamente, eu gostaria de fazer algo bem diferente da rotanormal, que eu já conhecia. Sentir a ansiedade queantecederia o que seria pra mim um novo desafio. Euqueria tentar o Glaciar dos Polacos, pela rota direta. A facedo Glaciar dos Polacos tem um nível de dificuldadeintermediário naquela montanha e a rota diretaacrescentaria o fator aventura. O Glaciar dos Polacos fica na face nordeste damontanha ligeiramente oposta à rota normal na facenoroeste. Esta última costuma ter bem menos neve, poisrecebe a maior parte dos ventos que carregam a neve quese deposita na face sul e nos glaciares do leste. Em 2010, quando eu começava a planejar algumamontanha na Bolívia, Arthur me perguntou se eu nãoqueria voltar ao Aconcagua. GLACIAR DOS POLACOS 3
  4. 4. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br - Só se for pela Polacos Direta! - Respondi. Achamos que já estávamos prontos para encararuma rota um pouco mais técnica na maior montanha dasAméricas e sugeri que nos preparássemos para atemporada de 2011. O negócio é que eu pensava emdezembro de 2011 e Arthur já planejava para janeiro.Quando percebi o que ele quis dizer, fiquei um poucoassustado com o pouco tempo que eu teria para treinar eorganizar todos os detalhes da expedição, mas mesmoassim sugeri o período entre o natal e o meio de janeiro. Epor que não fazer também alguma alta montanha no meiodo ano? Seria um belo treino. O colega russo AlexeyMaylibaev convidou para escalar no Peru e o treino estavaacertado. Aos poucos Arthur foi chegando com as notícias deapoio das marcas representadas pelas empresas Proativa eVerticale. Pudemos então contar com equipamentosexcelentes da Deuter, Princeton Tec, Lorpen e Edelweiss eeu ainda com o apoio da Associação da minha empresa, aAssiplan. Apesar de ter escalado três montanhas por volta dos6.000 m no Peru e estar com certo ritmo de treinamento, GLACIAR DOS POLACOS 4
  5. 5. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.breu tinha a impressão de que em 2006 estava muitomelhor preparado. O que era uma pequena preocupação,visto que imaginava que o esforço seria muito maior destavez. Eu não conseguia me imaginar na condição que euanteriormente cheguei ao cume, sem agüentar dar umpasso antes de respirar profundamente e tendo queescalar um lance de rocha de vinte metros que fosse. Aquase 7.000 m de altura, com todo o peso do equipamentoe mais alguma coisa (parafusos, estacas, corda,mosquetões, capacete), seria um esforço hediondo, mesmopara um terceiro grau. E os lances de 60 graus deinclinação? É a inclinação das paredes do Morro daBabilônia. Isso ia ser extremamente desgastante paraprogredir reto para cima por um trecho de 100 metros… Cruzar novamente a cordilheira dos Andes, naestrada de Santiago do Chile a Mendoza, me transportouno tempo também. Eu acompanhava cada detalhe daferrovia abandonada que seguia paralelamente a estrada eque ainda resistia ao tempo. Por vezes desaparecida sobalgum desmoronamento e outras vezes serpenteandointacta através dos numerosos túneis na rocha. Na fronteira, alcancei o ponto mais alto do percurso,por volta de 3.100 e a cabeça pesou. Ao sair do ônibuspara os procedimentos de imigração, senti repentinamenteo ar frio e seco doer as narinas e o vento frio em contrastecom o calor abafado de Santiago. Na rodoviária deMendoza, fui recebido pelo casal de amigos Sebastian eCaro que me acompanharam até o Hostel onde Arthur sehospedara. Larguei minhas coisas lá também e saímospara jantar. Sentados num restaurante de frente parauma praça com guarda-sóis vermelhos e mesas nacalçada, onde em 2006 comi uma hamburguesa,contamos nosso primeiro perrengue com o aumento da GLACIAR DOS POLACOS 5
  6. 6. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brpermissão de escalada em 50% (só para o governo deMendoza, estávamos desembolsando 1.500,00 reais) enossa pretensão de economizar ao máximo dali pra frente.Talvez por isso também, o casal tenha nos convidado paraum assado em sua casa no dia seguinte e oferecidotambém uma pernoite lá antes de partirmos para a regiãodo Aconcagua. Sebastian e Caro O assado argentino é uma espécie de churrasco comalguns legumes também feitos na brasa. Além disso,tínhamos uma piscina no quintal para aliviar do calor“mendocino” que só se diferenciava do carioca por serextremamente seco. Aproveitamos bem com a consciênciade que não veríamos banho e carne por quase um mês. Sebastian já esteve no topo do Aconcagua por trêsvezes e o conheci lá em 2006 em sua segunda vez. Depoisvoltou com uma equipe de cientistas para ajudar namanutenção dos equipamentos de medição que estãoinstalados no topo. Seba nos forneceu muitas informaçõesimportantes e contou algumas estórias curiosas a respeitodo andinismo em Mendoza e no Aconcagua. Segundo ele, GLACIAR DOS POLACOS 6
  7. 7. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.bresta estava sendo uma das temporadas mais frias e hádois dias tinham sido registrados ventos de 100 km/h nocume. De conhecimento desta última notícia, Arthur ficouum pouco apreensivo, pois optara em não levar os gogles(máscara de esqui). Soubemos de uma gigantescaexpedição japonesa de uma empresa multinacional nadécada de 90 que ocupou o acampamento de Plaza deMulas e consumiu todos os recursos de infraestrutura demulas, porteadores para colocar uma grande equipe notopo com cinegrafistas espalhados pelo caminho paraprodução de um documentário. Conversamos sobre oacidente do mendocino Federico Campanini e Seba contoualguns detalhes. Seba estava se preparando para retornarem dois meses para ajudar a levar um equipamentochamado gravímetro, de 45 quilos, lá pra cima que serviriapara um estudo sobre a força da gravidade no local. Oscientistas querem saber se a força da gravidade age commaior ou menor intensidade naquela altitude e se oenorme volume de massa da montanha também influialterando a intensidade da atração gravitacional.Perguntei se ele sabia como ia levar o equipamento, quenão podia ser desmontado, mas não havia sido decididoainda. Talvez seja carregado por porteadores peruanos… Os porteadores nos Andes são os equivalentes aossherpas no Himalaia. Trabalham como carregadores dealtitudes levando até 30 quilos, subindo várias vezes aodia entre um acampamento e outro, montando barraca,fazendo comida e ocasionalmente como guias ouassistentes para os clientes de expedições comerciais.Cada trecho feito por eles custa em torno de 100 dólares,seja subindo ou descendo. Isto, é claro, estava fora denosso orçamento. E, segundo nosso plano de aclimatação,iríamos fazer cada trecho entre os acampamentos GLACIAR DOS POLACOS 7
  8. 8. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brsuperiores duas vezes. Uma para transporte de carga eoutro definitivo. Isso nos possibilitava levar 15 quilos cadaum em cada viagem, uma vez que nossa carga total era de60 kg incluindo equipamentos técnicos e comida. A aproximação de três dias até o acampamento baseainda não estava 100% decidida. Na noite anterior,conversamos sobre estes detalhes pendentes, aindaconsiderávamos uma pequena hipótese de não pagar oserviço de mulas para diminuir o nosso prejuízo total comos 500 dólares do aumento da taxa da escalada que juntosteríamos que pagar. As mulas no Vale de Vacas custam odobro do preço do mesmo serviço no Vale de Horcones. Aempresa mais barata que encontramos cobrou 290dólares. Além de o caminho ser mais longo, sessentaquilômetros até Plaza Argentina contra quarenta até Plazade Mulas, muitos dos que contratam as mulas para PlazaArgentina fazem a travessia e voltam pelo outro vale.Assim as mulas fazem uma viagem somente com cargaenquanto as outras do outro valem fazem ida e volta comclientes. Essa era nossa idéia também. Queríamos voltar pelooutro vale. Queríamos aproveitar que estaríamos maisleves, sem o peso da comida, combustível e descendo,para não contratar as mulas na volta. Por Horconesseriam somente dois dias. Seria mais interessante fazerum caminho diferente para voltar, para eu relembrar 2006e para Arthur conhecer o outro lado da montanha. Talvezuma visita à face sul… GLACIAR DOS POLACOS 8
  9. 9. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brPé na estrada – parte 2 No dia seguinte saímos para resolver a burocracia dapermissão na Secretaria de Turismo e Caro nosacompanhou. Tive problemas para sacar dinheiro docartão do meu “querido” Banco Santander que insiste embloquear minhas transações internacionais mesmoutilizando-o assim várias vezes ao ano. Escolhemos aempresa que forneceria as mulas e aproveitamos paraesticar até a Casa Orviz, na mesma avenida. Uma loja devenda e aluguel de equipamentos que eu conhecia por tergrande oferta de material e preços bons. Eu decidia aindase comprava ou alugava uma jaqueta de penas de ganso,pois eu tinha uma de pluma sintética muito pesada – 1,6kg contra os 600 g da maioria dos modelos de pena deganso. No final, decidi ir com a minha mesmo que apesarde pesada era muito quente. Compramos somente um refilde gás para levar para o cume junto com um pequenofogareiro em caso de emergência. Conhecemos umapaulista que trabalhava na loja. A menina nos mostrou osdedos levemente atrofiados e contou que tiveracongelamentos há alguns anos por não utilizar mitones(luvas de dois dedos, mais quentes do que as de dedosseparados). Recomendou que levássemos hot-hands, umaespécie de sachê que, em contato com o ar, produz calorpor até 12 horas. Concordamos prontamente e levamosum par para as mãos e um para os pés. GLACIAR DOS POLACOS 9
  10. 10. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br No dia seguinte, estávamos pegando o último ônibuspara Los Puquios, base ao lado da rodovia de onde sairiamnossas mulas e onde acamparíamos ao lado de umacabana que funcionava como restaurante também. Foiengraçado ver um grupo de alemães e americanos nosobservando com cara de preocupação quando sacamos abarraca dentro da embalagem, ainda lacrada, ecomeçamos a descobrir como montaríamos em meio aalguma leitura nas instruções. Eu namorava esse modelode barraca há anos pela internet em uma loja chilena ealgumas semanas antes de viajar, descobri que haviasomente uma dela e em promoção. Comprei e pedi paraentregar na casa de uma conhecida de Arthur que moravaem Santiago. Depois de conversar com os gringos quetambém acampavam em Los Puquios, expliquei quesomente a barraca era nova. Nós tínhamos algumaexperiência! Os alemães foram muito gentis e ficaramempolgados depois que contamos que tínhamos o apoio damarca alemã Deuter no Brasil e que tentaríamos oGlaciar. Logo durante a noite, a barraquinha já tinha o seubatismo, suportando uma pesada chuva que diminuiu deintensidade somente pela manhã, se transformando emum sereno. Arrumamos nossas coisas, acompanhamos oempacotamento do equipamento que seguiria nas mulas eseguimos de van até a entrada do parque em Punta Vacas.Lá fizemos o “check-in” na tenda dos guarda parques ecomeçamos o nosso primeiro dia de caminhada embaixode uma chuva fina. GLACIAR DOS POLACOS 10
  11. 11. Junior, Paulo Marimhttp://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brGLACIAR DOS POLACOS 11
  12. 12. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Após 4 horas, mais ou menos, cheguei aoacampamento Pampa de Las Leñas e Arthur, que tinha seadiantado, já me aguardava. Neste primeiro dia as mulaschegaram depois de nós. No segundo dia, decidimoscolocar a barraca que carregávamos na carga das mulaspara ficarmos ainda mais leves e desta vez quase corremospor outras quatro horas até o acampamento Casa dePiedra. O caminho desde então, apesar de longo, comvinte quilômetros cada dia, tinha pouco desnível, mas otrecho seguinte nos reservava o dobro ou mais: mil metrosaté o acampamento Plaza Argentina. No acampamento Casa de Piedra, conhecemos umpolonês que falava um pouco de português. Morou algunsmeses no Brasil e nos contou de sua idéia de tambémentrar no glaciar conquistado por seus conterrâneos. Neste terceiro dia, acordamos muito cedo, às cincoda manhã, para as sete já estar atravessando um rio dedegelo que corria ao lado do acampamento. Só de tirar osapato e a meia, já dava uma tristeza sem fim. No primeiropasso dentro da água congelante, já não senti mais o pé. Apartir daí era pisar com cuidado pra não machucar naspedras e torcer pra acabar logo. O torpor virava uma doraguda com o passar do tempo. Mesmo depois de calçar os GLACIAR DOS POLACOS 12
  13. 13. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brsapatos novamente, ainda caminhamos um bom tempocom os pés gelados e dormentes. Combinamos de Arthur se adiantar, pois no diaanterior segui seu ritmo e achei que tinha me desgastadomais do que no primeiro. Além do mais eu parava parafotografar e filmar. Neste último dia, a beleza do Vale deVacas continuava presente na vegetação rasteira atéquase 4000m. Numa das paradas que fiz para descansar,sentei num tufo daquelas gramíneas e imediatamentesenti as nádegas pegando fogo! Saltei com a sonoplastiade um berro. É claro que uma vegetação que nasceu atanto custo naquela altitude e com aquele clima desértico,tinha que se proteger das mulas e espertinhos como eucom centenas de espinhos duros, com o comprimento deuma unha e afiados como agulhas, camuflados entre aspequenas folhas. Somente neste terceiro dia também é que tivemos anossa primeira visão do gigante. Caminhando por umestreito cânion, depois de abandonar o Vale de Vacas, oprimeiro que aparece é uma ponta branca de neve atrásde montes de rocha. Quando o glaciar se mostrou porinteiro e pude identificar, inclusive, a rota direta 4000 macima de mim. Senti-me um insignificante arrogante epretensioso. Eu tentava me imaginar formiguinha, GLACIAR DOS POLACOS 13
  14. 14. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brarranhando o glaciar e pendurado em alguma parte daimensidão branca. Quem tinha inventado essa idéia? Maisuma enrascada! O glaciar parecia uma parede, visto dalionde estava. Quem disse que era o tempo todo 45 grausde inclinação? Restava-me ir lá e conferir… Neste dia reparamos numa equipe de oitomontanhistas indonésios que traziam os dizeres “SevenSummits” nas bagagens. Seria o Aconcagua o primeiro ouo último cume dos de cada continente que eles estariamtentando? Por ser um grupo maior ou por estarem commais peso, ultrapassei o pessoal, agradecendo apassagem. Horas depois cheguei ao acampamento base PlazaArgentina e encontrei Arthur já finalizando a montagemda nossa barraca. O esquema lá é parecido com o de Plazade Mulas. O acampamento é todo loteado pelas empresasde expedições e de acordo com o fornecedor contratado,você acampa em um local determinado. Neste primeiro dianão fizemos mais nada a não ser beber água e urinar. Para gostar de alta montanha tem que ser meiodoido. Deve-se gostar de andar mais que Cristo e de beberágua até explodir, estilo tortura oriental. A consequência éa vontade de urinar a cada hora. Uma vontade que chega GLACIAR DOS POLACOS 14
  15. 15. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brdevastadora e de repente você tem poucos segundos pararesolver. A solução é deixar uma garrafa com boacapacidade e boca larga dentro da barraca. E esvaziá-la devez em quando lá fora. Era o último dia do ano, o segundo réveillon que eupassava dormindo sem comemorações e na companhia deArthur. Quantas pessoas estariam se abraçando,desejando votos de felicidades numa onda que circundavao planeta a cada hora? Naquele momento somenteinteressava me aninhar no saco de dormir e me entregarao sono sem tomar conhecimento de nada. No dia seguinte, tiramos para descanso, pois nopróximo faríamos nossa primeira subida com carga aoprimeiro acampamento de altitude, o campo 1. No nossodia de folga visitamos o médico para exames de rotina.Já vínhamos monitorando a oximetria com um oxímetrode bolso e sabíamos que estávamos com bons níveis.Arthur se mantinha com a porcentagem de oxigênioalguns pontos melhor que eu, mas no exame com omédico, apresentou a pressão arterial um pouco alta. Foirecomendado evitar sal e fazer uma nova visita depois. GLACIAR DOS POLACOS 15
  16. 16. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br O médico e a guarda parque Erica nos deramalgumas informações e sugeriram que fizéssemos porteioem cada acampamento de altitude. Disseram quepoderíamos conseguir informações com dois porteadoresque haviam feito a mesma rota há algumas semanas, umdeles chamado Mariano. Procurei a pessoa peloacampamento, mas não o encontrei. Ocasionalmente, víamos montanhistas manipulandoequipamentos técnicos: cordas, parafusos, estacas ecapacetes. Isso confortava, pois sabíamos que existiriamoutras equipes no glaciar, mas preocupava com apossibilidade de haver engarrafamento nos lances maisdelicados, caso a rota fosse a mesma que a nossa. Tratamos de separar nossa tralha que subiria no diaseguinte.Muita neve – parte 3 Nesta noite nevou pesado sem interrupção. Para sairda barraca, primeiro tivemos que desobstruir aentrada. Acordamos com meio metro de neve cobrindotudo de branco. Mais tarde partimos para o campo um.Arthur me contou que ouvira de alguém, que o ideal parasabermos se conseguiríamos fazer a Polacos era seconseguíssemos subir o trecho entre o acampamento basee o acampamento um em três horas e meia. Segundoinformações na internet esse percurso era feito de 3 a 5horas. Ia ser a primeira vez que eu iria caminhar comaquelas minhas novas botas duplas. Novas porque euestava estreando, mas eu as tinha comprado de segunda GLACIAR DOS POLACOS 16
  17. 17. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brmão. Foi meio em cima da hora e pela internet, pois asminhas antigas tinham começado a se esfarelar na últimamontanha que fiz no Peru. Não me preocupei muito comisto, pois elas eram do mesmo número da antiga e, apesarde serem de outra marca e modelo, já vinham amaciadas! Bolhas nos calcanhares Mas não é que as coisinhas começaram a fazer umatrito miserável nos calcanhares? Eu não estava nem nametade, Arthur já tinha disparado na frente com os “silvertape” enrolados nos bastões e agora eu ia pisando comcuidado e curtindo as dores das bolhas que começavam ase formar. Sempre costumo dizer que bolha se resolve noinício. E a melhor solução pra mim é cobrir o local com“silver tape” antes de formar a bolha e não vi outraopção. Nem me lembro da última vez que tive bolhas nospés e agora eu tinha mais uma coisa pra me preocupar. Seandar algumas horas estava me torturando, no dia docume, com 10 horas de escalada e o pé já detonado hádias ia ser uma delícia, além de ficar mais suscetível acongelamentos nas áreas machucadas. Durante a subida, novamente ultrapassei umaturma que havia começado antes de nós e entre eles, osindonésios do grupo “Seven Summits”. Notei que um delescaminhava muito devagar com uma cara nada boa,acompanhado de perto por um guia. A dupla estava bem GLACIAR DOS POLACOS 17
  18. 18. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brdistante do resto do grupo e parava com frequência paraque o cliente se recuperasse. Acho que esse indonésio,infelizmente, retornou antes do campo 1. Vento branco no cume à esquerda, subindo para o campo1 Consegui chegar ao campo 1 com as 3:30h, mesmoparando algumas vezes e não caminhando a todo vapor.Arthur chegou com uma hora de antecedência e tiritava defrio me esperando abrigado do vento atrás de um muro depedras construído rusticamente. Ensacamos osequipamentos que iam ficar lá dois dias até a nossa voltae os colocamos contra a parede de pedra com algumasrochas por cima. Um grupo que acabava de chegar, nosperguntou quando voltaríamos, pois queriam usar oespaço para a barraca deles. Com a nossa resposta,começaram a armar seu acampamento por ali, já quepensavam em deixar o campo 1 logo no dia seguinte,antes de retornarmos. O campo 1 me era muito exposto, pois fica na bordade um despenhadeiro bem íngreme e rochoso, mas asbarracas se aglomeravam dali para cima ao longo de umacanaleta estreita que parecia mais abrigada dos ventosque vinham do alto. GLACIAR DOS POLACOS 18
  19. 19. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Começamos a descida que foi desgastante, mas bemrápida – em torno de uma hora e meia. No resto do dia tivemos Sol, vento forte, neve, Sol denovo, vento, neve outra vez… Placas solares O dia seguinte era mais um dia de folga e novamentepassamos o dia bebendo água e urinando. Começava aficar chato ter que ir tantas vezes ao rio para buscar águae revezávamos. Como desde 2006 não havia mais o sinalchileno de celular na montanha, começamos a nosdistrair, pra não morrer de tédio, com os joguinhos domeu celular, que eu carregava com umas plaquinhassolares. Arthur começou a reclamar de uma dor de cabeçaresistente à aspirina e atribuiu a ela a sua subida muitorápida. Talvez ele tivesse bebido pouca água. Sugeri a eleque não tomasse a aspirina diária que ele vinha tomandopara ajudar a afinar o sangue, pois isso poderia mascararqualquer falta de hidratação. Eu usava a minha dor decabeça como alarme. Quando ela começava de leve, eubebia alguns litros de água e em pouco tempo eladesaparecia. GLACIAR DOS POLACOS 19
  20. 20. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Chegou o dia em que deixaríamos o acampamentobase e esse dia começou com um vento aterrador. Fomosdar uma última olhada na previsão do tempo e tiramosuma foto da tela do “netbook” da barraca de umaexpedição comercial, para podermos consultar depois.Tínhamos planejado tentar o cume nos dias 9 ou 10 dejaneiro. A previsão mostrava até somente o dia nove, comneve neste último dia. Imaginando uma melhora dia 10 ou11, desmontamos a barraca, com muita dificuldade – poisela teimava em achar que era um paraquedas - epartimos. Agora eu usava as botas de “trekking”, pois vi que nasubida anterior não estava tão frio e nemfoi necessário usar crampons. Tinha feito uns baitasremendos com “silver tape” e esparadrapo nas bolhas doscalcanhares e nas novas bolhas dos dedos mínimos quesurgiram na descida. Como eu sabia que era capaz defazer o caminho em três horas e meia, não me preocupei edemorei um pouco mais parando no caminho para comeralgumas barras de cereais. Comecei a subir a últimaladeira antes do acampamento e à medida que eu ganhavaaltura, o vento se tornava mais violento. O último trechoantes do platô, que é o campo 1, era bem íngreme e, aindano barranco, faltando um metro para alcançá-lo, pude veras primeiras barracas do acampamento. Tomei então umarajada de vento tão forte que tive que me agarrar com asduas mãos nas pedras ao meu lado e esperar ummomento para não voar ladeira abaixo. Ao chegar, láestava Arthur, quase roxo de frio, se abrigando atrás deoutra parede de pedras. O grupo da barraca que ocupou onosso lugar, não tinha desmontado acampamento eaguardava ainda ali pela melhora do tempo. Arthur tinhacomeçado a levantar outra parede de pedra que abrigaria GLACIAR DOS POLACOS 20
  21. 21. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brnossa barraca e, depois de descarregar minha mochila,ajudei-o a montar a nossa tenda. Vesti o casaco pesado depluma para poder continuar o trabalho do muro no meioda ventania e ficou razoável. No resto do dia, a turbina continuou ligada enevando. No dia seguinte, o vento continuou forte epassamos boa parte do tempo tomando mate argentino – ochimarrão brasileiro. Era o nosso dia de folga antes doporteio para o campo 2. A diversão dos nossos vizinhos debarraca deve ter sido contar as vezes que saíamos paraurinar. O chato de urinar no vento forte é que se tem quese preocupar em fazer o xixi e se esquivar dele ao mesmotempo. Depois passamos a usar as garrafas dentro dabarraca. Se com a urina, resolvíamos com garrafa, com oresto não tinha escolha. Era abaixar a bunda nua novento e na neve e tentar ser o mais rápido possível. Arthurcomeçou com um papo de que ia fazer dentro da barraca,mas discordei com veemência! Desagradável pordesagradável, achei mais sensato continuarmos sentindoo frio na bunda do que o cheiro na barraca! Pegar água no rio, quase sempre congelado, tambémera um castigo, o que ia lá sempre voltava com os dedosduros e doendo de frio. Mesmo com luvas. Neste dia chegaram muitas barracas e conversamoscom um dos guias dos indonésios. Seu nome era Abu e eleera peruano, de Huaraz. Arthur fez uma médiacomentando então que o camarada deveria ser bem forte eAbu se empolgou contando suas façanhas. Disse quehavia feito a Polacos direta de um tiro só desde a entradada rodovia em Punta Vacas e saiu por Horcones.Comentamos do Tocllaraju, montanha que escalamos emHuaraz e Abu se amarrou relembrando e simulando com GLACIAR DOS POLACOS 21
  22. 22. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.bras mãos os movimentos com o piolet do lance negativo degelo sobre uma grande greta. Disse, então, que nãoteríamos dificuldades na rota direta, pois os lancestécnicos eram mais simples do que os do Tocllaraju. Abutambém comentou sobre a bota de Arthur, pedindo paraele tomar cuidado, pois ela era bem fria. Disse que jáhavia escalado com ela lá e que ele tinha que ser rápido,sem parar, usar um sache de esquenta pés e recomendoulevar um par de meias secas pra trocar quando as outrasficassem úmidas. Disse que o Aconcagua era a montanhamais fria que ele conhecia. Durante a noite continuou nevando. Caminho para o campo 2 No dia do porteio, pra variar, o vento continuava bemforte e arrumamos as coisas devagar. Quando finalmentedeixamos o acampamento, uma fila indiana de váriosgrupos se espalhava por uma linha que era o caminhona encosta nevada. Alcançamos o último grupo edescobrimos que todos seguiam por uma bifurcação rumoao acampamento Guanacos, para o que chamam deTravessia da Polacos, Polacos Transversa ou Duas Faces.Neste ponto, os grupos saem para encontrar a rota normal GLACIAR DOS POLACOS 22
  23. 23. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brmais ou menos na altura de Berlim ou Cólera, com umaparada no acampamento Guanacos que também éconhecido como campo 3. Tomamos o caminho da esquerda e começamos umasubida interminável. A altitude começava a fazerdiferença. No final alcançaríamos os 5.800 m doacampamento 2. Somente mais um grupo de três homense três meninas dos Estados Unidos seguiram conosco etambém se instalaram aos pés da imensa geleira. A visãodaquela massa de gelo que agora sumia lá no topo entrenuvens escuras era ao mesmo tempo incrível eassustadora. O belo e liso tapete branco visto desde os3000 m de altitude agora se transformava num oceanoencrespado de seracs, gretas e rimalhas como cicatrizesou rugas que se franziam por causa da nossaproximidade. Pelo menos a inclinação parecia menor. Uma das meninas me ofereceu biscoitosamanteigados, mas recusei, num gesto de educaçãoirracional. Perguntei qual o caminho que eles fariam e medisseram que seguiriam para Cólera, numa variação daRota Duas Faces. Esta opção usa um trecho deaproximadamente duas horas para ligar o campo dois coma rota normal e que também é chamada de Falsa Polacosquando a aproximação é feita pela rota normal, porém oataque ao cume é feito pelo glaciar, no sentido inverso.Este caminho nós utilizaríamos em parte da nossadescida. GLACIAR DOS POLACOS 23
  24. 24. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br O Glaciar visto do campo 2 A menina então perguntou qual a nossa rota. Apontei para o Glaciar e disse: -The Polish Direct. -The glaciar? Good Luck! – Respondeu em inglêsdesejando boa sorte. Que surpresa. Tanta gente nos acampamentosinferiores e somente eu e Arthur pra entrar nesse mar degelo… Iniciamos a descida para o campo 1 junto com ogrupo de americanos. No campo 2 nenhuma viva alma,somente nossos equipamentos. GLACIAR DOS POLACOS 24
  25. 25. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brExpectativa – parte 4 No dia seguinte não fizemos o dia de descanso emovemos nosso acampamento do 1 para o 2. A subida foium pouco menos dura, pois pelo menos eu já sabia queela terminava e aonde. Eu voltara a usar as botas duplas,administrando as bolhas com fitas, esparadrapos eguardando para o dia do cume uns curativos própriospara bolhas que Arthur trouxera e me ofereceu. Era umaespécie de adesivo de espuma em forma de círculos devários tamanhos e vazados no meio para acomodar abolha. Depois de montar a barraca, fomos nos abastecercom benzina deixada lá pelos grupos que voltavam maisleves. Nossos dois litros iniciais já estavam no final egarantimos mais um litro. De acordo com nosso planejamento, precisaríamosficar dois dias no campo 2 aclimatando antes de tentar otopo no dia 9. Mas este dia era o dia da neve pela tarde. Aguardaríamos um pouco mais para, na véspera,contatar o acampamento base via rádio e nos informarsobre o clima. Cheguei a cogitar a hipótese de, por contada meteorologia, antecipar a tentativa de cume para o dia8, mas Arthur discordou, com razão. Não seria suficientepara nos acostumarmos com a altitude. Precisávamos tercerteza que estaríamos em perfeitas condições físicas paraa escalada. Meses antes, eu havia mandado “email” para aslistas de discussão sobre montanhismo de que faço partebuscando opiniões de quem por ventura houvesseescalado esta rota. Recebi uma resposta de Rudah, do RioGrande do Sul, que definiu a diretissima como mais GLACIAR DOS POLACOS 25
  26. 26. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brtranquila para subir, porém mais complicada em caso deabandono e retorno devido a alguns trechos maisíngremes. Quando conversamos com o guia peruano Abu,tivemos esta definição: - O Glaciar dos Polacos é fácil, mas muito perigoso!Complicado para desistir e voltar por ele. Além dessas informações, eu já tinha conhecimentode pelo menos uns dois relatos na internet sobre acidentesfatais ali. Um ao tentar retornar e outros numatempestade no próprio acampamento. Além disso, nasemana anterior, havia morrido uma americano que subiupela Polacos. Provavelmente se esforçou além do que podiapara sair por cima e morreu na descida, pela rota normal,após chegar ao cume. Foi vítima de edema pulmonar egraves congelamentos devido à tempestade que osurpreendeu na volta. O maratonista e escalador carioca Fernando Vieira,conhecido por sua força e velocidade na escalada, tambémtem uma estória na direta da Polacos. Encontrou umparceiro na montanha para acompanhá-lo, mas este veio afalecer na tentativa. Fernando chegou ao topo, saindo darota, escalando lances de rocha ao invés de seguir pelaneve. Ouvi a estória pelo Flávio Carneiro - o Bagre - eArthur pôde saber dos detalhes quando pegou o pioletemprestado do próprio Fernando. Em 2009, um vídeo repercutiu pela internet e TV,Mundo afora, mostrando o resgate frustrado do guiaargentino Federico Campanini que acompanhava umgrupo de clientes pela rota normal. Os montanhistas GLACIAR DOS POLACOS 26
  27. 27. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brchegaram muito tarde ao cume e o guia vinha subindodistante, mais atrás, já sofrendo sintomas de edemapulmonar. Cansados, confusos e com o tempo fechado, osclientes tomaram a direção do Glaciar dos Polacos nadescida. Somente após duas noites esperando socorro, umgrupo de resgate alcançou os montanhistas. Aitaliana Elena Senin já havia falecido, vítima de umaqueda de centenas de metros por não ter equipamentostécnicos para o glaciar. Os outros três clientes italianosforam salvos, mas Federico foi deixado ainda com umsopro de vida depois de infrutíferas tentativas de arrastá-lo de volta para cima. O pai teve acesso então ao chocante material quetrazia registrados os últimos instantes do filho e desdeentão lutou para provar que houve negligência nacondução, deste que foi o resgate de maior mobilização daestória da montanha. Aliado à comoção pública,conseguiu que o chefe da equipe de resgate fosseexonerado do cargo. O pai faleceu no ano seguinte. A família da italiana doou recursos para aconstrução de um novo abrigo de emergência na rotanormal, no acampamento Cólera, que passou a se chamarrefúgio Elena. Todas essas estórias me traziam a certeza de queuma vez começado a escalada, ela teria de acabar no topo. Então que esperemos pelo dia 10 ou 11. GLACIAR DOS POLACOS 27
  28. 28. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Mas esperar confinados num espaço de 2×2 sem termuito o que fazer e ante tamanho desafio e riscos fazem amente trabalhar contra nós. Ou a favor de nossaintegridade. É esperando pela batalha, que muitosexércitos se acovardam. É preciso ter muito equilíbriopara afastar os pensamentos paranóicos sem perder obom senso. Passávamos o tempo lendo, jogando conversafora, fazendo pequenos reparos nos equipamentos, com osjogos do celular e com as tarefas diárias de derreter gelo,fazer comida e tomar líquidos. Neste primeiro dia de folga no acampamento, vimosuma dupla descendo pela nossa rota e fomos ao encontrodeles para saber as condições. Eram dois russos, umfalava muito mal o inglês e o outro sabia algumas palavrasde espanhol. Depois de muita dificuldade, entendemosque eles tinham subido somente 200 m e comentaram quenão havia muita neve. No máximo até a canela. Contaramque estavam aguardando alguém subir antes deles paraabrir o caminho… Mais tarde, um grupo maior, mas microscópico peladistância, descia, desta vez, pela rota clássica, menosinclinada e acompanhando a borda esquerda do glaciarnuma grande curva. Mesmo assim o grupo parecia descerlentamente e com dificuldade, usando corda em alguns GLACIAR DOS POLACOS 28
  29. 29. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brlances. Não conseguimos encontrá-los para colherinformações. Neste dia também fizemos contato com oAcampamento Base, via rádio, mas nem precisava.Estávamos no dia 8 e a neve nem esperou pela tarde dodia 9 para cair. Com o entardecer, começou cairpesadamente e assim permaneceu a noite toda e opróximo dia inteiro. Após novo contato com os guarda parques de PlazaArgentina, ficamos sabendo que o dia seguinte seria decéu azul, mas com ventos de 50 km/h. O dia 11 teriasomente 20 km/h e isso é uma brisa no Aconcagua.Tínhamos que torcer para durante o dia anterior ventarbastante e fazer calor para soprar ou derreter a neve doglaciar e durante a noite fazer bastante frio paraendurecer o que restasse. Ou… Talvez no dia 12 tivéssemos mais um dia propício,sem nuvens e pouco vento. Não seria melhor esperar maisum dia ainda pra garantir melhores condições no glaciar?Pedi a Arthur que perguntasse sobre o prognóstico do dia12 enquanto ainda estava no rádio com os guardas. MasArthur não ouviu ou não achou necessário. Talvez não GLACIAR DOS POLACOS 29
  30. 30. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brconseguisse se imaginar mais um dia de expectativa,enfurnado na gaiola de nylon. Nós dois já não víamos ahora de começar o retorno. Não precisar urinar na garrafaa alguns centímetros do parceiro. Respirar ar puro aoinvés do ar malcheiroso da barraca de dois marmanjos, 15dias sem banho e usando as mesmas roupas. Usar umaprivada limpa ao invés de evacuar atrás de uma pequenarocha, indignamente, quase em praça pública sob osolhares dos outros montanhistas. Comer um lomo - o filémignon argentino - em Mendoza. Tomar um suco de frutareal, ao invés de pó químico… Outra vantagem também é que se o dia 12 fosse debom tempo também, seria um dia de novo intento caso atentativa do dia 11 fosse fracassada. O dia seguinte foi extremamente azul, com o solderretendo um pouco da camada de meio metro de neveque se formou pelo acampamento. Conversamos com umguia argentino chamado Julio que nos deu cereais,biscoitos e capeletti que estavam sobrando nosmantimentos de sua expedição. Isto foi bem providencial,pois nossa comida começava a ficar na conta certa, comos dias a mais além do planejado. Seu grupo sairia à tardepara a travessia e acamparia nas proximidades de Cólera.Julio nos incentivou dizendo que a direta seria fácil e GLACIAR DOS POLACOS 30
  31. 31. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brdetalhou cada parte da rota, segundo havia ouvido falar.Julio nunca teve oportunidade de fazê-la. Esta seria a grande noite, preparamos osequipamentos e os colocamos nas mochilas de ataque.Vestimos todas as roupas de baixo que usaríamos durantea escalada e nos aninhamos no saco de dormir. No inícioda noite a temperatura estava igual aos outros dias: -18º. Fomos dormir antes das 22 h, torcendo paradescansar o máximo possível até as 4:30 h. Antes de cairno sono, pedi à vovó, à bisa, ao sensei e a mais quemconseguisse me ouvir que eu tivesse muita força,perseverança e bom senso no dia seguinte.A Escalada – parte 5 Acordei com o bip inaudível do alarme do meurelógio de pulso. Diferente dos dias de folga, que eucustava para levantar às nove da manhã, eram 4:30 h damadrugada e fazia 21 graus negativos no termômetro.Chamei Arthur que começou os preparativos. Apesar deter adiantado alguma coisa na noite anterior, váriosdetalhes ainda eram necessários. Colei os curativos deArthur nas bolhas dos meus pés, passamos protetor solarfator 60, derretemos gelo, pois, antes de partir,precisávamos de água para beber e para levar nasgarrafas térmicas. Engolimos alguns biscoitos, fixamos aslanternas nos capacetes, regulamos os bastões, ajustamosas cadeirinhas, vestimos balaclava, gorro, luva. Colocamosas botas e alguns minutos depois das seis, já estávamosdando os primeiros passos em direção à grande geleiracom o tilintar dos metais pendurados. GLACIAR DOS POLACOS 31
  32. 32. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Na atmosfera violeta de fim de noite, uma filaindiana de dez ou mais montanhistas caminhavalentamente a distância de um braço um do outro naencosta da montanha rumo à face noroeste. Outro grupodeixava o acampamento e seguia junto conosco poralgumas dezenas de metros até desviar em direção atravessia também. Procurei alguma luz de lanterna ànossa frente, mas a verdade era que seríamos os únicosnaquela parede. Esta nossa ascensão teria ao todo 1200m de desnível e achávamos que oito a dez horas seria umtempo aceitável para completar a empreitada. Decidimos que após subirmos 600 m, verificaríamosnosso tempo. Este deveria ser a metade também. Na tarde anterior, também contatamos oacampamento base para informar nossos planos deataque para o dia seguinte. Foi-nos pedido novo contatopara avisarmos quando chegássemos ao cume. A caminhada foi ficando levemente inclinada e, coma luz dos primeiros feixes de Sol, paramos na rampa paracolocar os crampons. O Sol já iluminava o dia e agoraprocurávamos os trechos de gelo, onde fazíamos menosesforço do que nos dois palmos de neve fofa. Logo no GLACIAR DOS POLACOS 32
  33. 33. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brinício, estranhei o fato de não ser mais fácil pisar naspegadas de Arthur. Eu afundava do mesmo jeito e às vezesme atolava mais do que quando usava um caminhodiferente. Decidimos não subir encordados, maslevávamos a corda. No tempo em que passamos observando a rota doacampamento, identificamos alguns pontos estratégicos.Primeiro dividimos o glaciar em dois. Até a sua metadeseria uma bela rampa de 45 graus. Ali havia uma ilha derocha pequena. Daquele ponto em diante dividimos asegunda metade em três outras partes, mais ou menoscom o mesmo tamanho. A primeira era da Ilha de Rochaaté o Cuello de La Botella, uma espécie de gargalo, como onome mesmo diz, formado por uma rampa íngremeespremida entre uma ponta da parede rochosa limítrofe dadireita e um bloco de gelo dos seracs à esquerda. Asegunda parte seria uma grande rampa que ia dos 45 aos60 graus até logo abaixo da chaminé rochosa. Este seria otrecho mais íngreme. E a última parte seria o caminho atéo cume. Cinquenta metros bem inclinados e depois umacaminhada pela crista de mais ou menos duas horas até oponto culminante. GLACIAR DOS POLACOS 33
  34. 34. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Aproximamo-nos da ilha de pedra ainda sem saberqual lado usaríamos para contorná-la. Nesse ponto arampa ficou mais íngreme e tivemos os primeirosproblemas com a neve fofa. Arthur tomou o lado esquerdo,o que eu acreditava ser melhor também, mas um poucomais afastado da rocha. - Vai pela direita! Ele então gritou que eu tentasse olado oposto, pois havia escalado um lance negativo paraalcançar um platô formado pela neve da rampa,acumulada no topo da porção de pedra. Dali, Arthur melançou uma ponta da corda para dar segurança, uma vezque eu começava a afundar e brigar com a neve fofanaquele lance mais inclinado. Alternando piolet e grandesagarras, subi. Mas não sem bufar um monte e sentir ocoração disparar. Ali era o ponto onde teríamos quedecidir se continuaríamos. Olhei o altímetro do GPS emarcava em torno dos 600 m de diferença doacampamento 2. Estávamos na metade! E tínhamos feitonas quatro horas que queríamos! Se continuasse assim,mesmo com aquela quantidade de neve, conseguiríamoschegar a tempo. Sentíamo-nos bem e decidimos, semmuita dificuldade, continuar. GLACIAR DOS POLACOS 34
  35. 35. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br A inclinação voltou aos 45 graus e a quantidade deneve aumentou um pouco. O ritmo caiu, pois em algunsmomentos, nos vimos desajeitados pisando naquele chãoinstável que cedia com o nosso peso. Agora a neve chegavaaos joelhos. Em determinado momento, não acreditei no quemeus olhos estavam vendo. Uma avalanche descia comouma cachoeira pelo Cuello de La Botella. A neve vertiacomo água numa cascata, por sobre os seracs, a rampa ea massa de rochas. Estático e com todos os sentidosligados, esperei uma reação de Arthur que estava uns 30m à frente para confirmar o que eu vi. Arthur continuavasuas passadas. Olhei com mais cuidado para ter certeza,pois era bem onde teríamos que passar. Continuei com osolhos vidrados para me certificar de que uma massa deneve maior não nos alcançaria. E depois que cessou tudo,perguntei: -Arthur, você viu aquilo? A avalanche no gargalo? Arthur respondeu com uma negativa e deve terachado que eu estava delirando ou impressionado. Mas ofenômeno continuou, com menor intensidade. Descargasde neve despencavam hora como água, hora como pó,dissolvendo ao vento. Ok! Não chegavam até nós, cem metros abaixo. Nãoera tão forte, mas aquilo ligou o alerta. Um deslizamentomaior parecia agora não ser tão impossível. Para nos aproximarmos do gargalo foi uma luta.Arthur tentou subir reto, mas a neve estava tão fofa queteve que se desviar para o lado direito, fazendo umziguezague e passando bem abaixo da rampa de neve, que GLACIAR DOS POLACOS 35
  36. 36. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brpossuía um desnível de dois metros. Parecia feito para umcaminhão encostar a caçamba ali e abastecer-se de geloem pó. Aquele funil natural era o caminho óbvio paragrande parte da neve que descia. Infelizmente também erao único para nós que subíamos. Tentávamos,inocentemente, nos mover na areia movediça branca.Tentei seguir meio para a esquerda e atolei mais aindacom neve pela cintura. Arthur parecia que se saía umpouco melhor, talvez uns dez quilos a menos fizessemdiferença na consistência da neve. Eu continuava semsaber qual o melhor: se era pisar em neve virgem ou usaras marcas dos passos de Arthur. Após um longo tempopara vencer menos de dez metros, nos reunimos na lateralesquerda da rampa, junto ao serac. Prosseguiríamos pelo gelo, uma vez que o caminhopela canaleta estava impossível. Nesse lance, Arthurofereceu que eu seguisse na frente. Eu disse a ele que eupreferia que ele fosse. Imaginei que ele estivesse menosdesgastado. E o lance requeria cuidado. Atamo-nos cadaum a um ponta da corda e Arthur iniciou a subidavencendo o balcão de gelo daquela rimalha. Tínhamos doisparafusos e três estacas e Arthur levou todos. Começou asubir cravando a ponta frontal dos crampons e aspiquetas na íngreme e reluzente parede de gelo. Algunsmetros depois fixou um parafuso para “costurar” a corda.Enquanto eu fazia a segurança de baixo, novas descargasde neve caiam sobre nós, como uma ducha. Arthurcontinuou a escalada e dessa vez esticou vários metros atéfinalmente fixar outro parafuso. Depois de algum tempo, acorda esticou e comecei a subir simultaneamente. Tive umpouco de dificuldade na saída com o gelo e a nevedesmoronando sob meus pés e deixando a greta darimalha cada vez mais visível. Não entendi como eu GLACIAR DOS POLACOS 36
  37. 37. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brconseguia encontrar algum lugar sólido naquilo queparecia ser bem o centro da boca da greta, mas conseguisair dali. Escalei 30 metros da parede lateral do serac atéencontrar com Arthur fazendo minha segurança. Agora tínhamos a rampa íngreme até chegar àchaminé de rocha. Sugeri a Arthur que subíssemosencordados a partir dali, pois Abu mencionara umacidente fatal, com uma pessoa que não usava corda nomomento de um escorregão. Arthur não achava vantagem,pois disse que se um escorregasse, cairiam os dois. Masfalei que poderíamos usar as estacas entre a gente.Subiríamos simultaneamente e, quando eu chegasse àestaca, avisaria Arthur para fixar outra antes que euretirasse a primeira. Desta forma teríamos sempre umaproteção entre nós e com somente três estacas poderíamosavançar três vezes o comprimento da corda. Assimfizemos, mas após a terceira estaca, víamos queprogredíamos muito mais lentamente. Me desencordei econtinuamos outra vez sem a segurança da corda. O glaciar, que recebeu a luz direta do Sol a maiorparte do dia, começava a receber sombras na altura dachaminé. O Sol estava completando o seu ciclo e seposicionava atrás da montanha agora. O medo veio deestalo! Eram quatro horas da tarde e ainda faltava muito!Pelo menos um terço do trajeto. Já tínhamos estouradonosso horário planejado de chegada, que era às 14hs, olimite para o cume, que era as 15 e provavelmente faltariauma hora antes de alcançar a crista e mais duas até ocume! Progredir na neve fofa, cada vez mais alta, consumiamuito o nosso tempo e energia. Aquelas condiçõesestavam fazendo uma diferença absurda. Levávamos GLACIAR DOS POLACOS 37
  38. 38. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brmuito tempo lutando para avançar poucos metros. Agora,já havíamos chegado à região sombreada e, por sorte, nãorecebíamos ventos que, provavelmente, sopravam vindosda direção oposta. Com a aproximação da chaminé, ainclinação aumentava e cada vez mais nos afundávamosna neve. Em outro momento, tentei usar as pegadascompactadas por Arthur, mas parecia pior para mim, poiselas cediam mais ainda e depois era mais difícil de sair doburaco em que eu afundava. Em outra situação, nãoconsegui sair do lugar, pois a cada movimento, o chão sedesmanchava, revelando uma greta abaixo de mim. Tenteicravar a piqueta acima, mais a neve se esvaía e aferramenta não fixava. Nessa hora, lamentei não estarencordado. Quando finalmente golpeei fundo algo maissólido, pude dar um impulso e sair da borda do buraco,torcendo e rogando para a piqueta não soltar. A inclinaçãoestava forte, mas só percebíamos quando olhávamos parao lado e víamos o perfil da parede em contraste com o céue o horizonte. Algo como as escaladas de 3° ou 4º grau daUrca. Pouco depois, notei que os meus dedões de cada péestavam dormentes. Movimentei-os dentro da bota, massoube que pouco podia fazer. A inclinação foiaumentando, Arthur já tinha chegado à base da chaminée preparava uma ancoragem com o parafuso e a piqueta.Enquanto isso, lutei uns dez minutos para me mover seismetros para a direita e alcançá-lo. Arthur novamentejogou a corda, mais com a finalidade de me desatolar doque dar segurança tradicional. Ancorei-me nas fitas e fiznovamente o nó de correr, o UIAA, na corda e no meumosquetão para assegurar a subida de Arthur. Estecomeçou a se deslocar para a esquerda, se afastando demim na horizontal para ficar na direção da chaminé. GLACIAR DOS POLACOS 38
  39. 39. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brArthur se movimentava cravando os crampons e os pioletsquando a neve cedeu e ele deslizou somente um metro,parando na corda. Foi pouco, mas o suficiente para umpequeno susto. Arthur ainda teve tempo de gritar mepedindo: - Segura! Segura! Acho que respondi: - Claro! A chaminé era uma vão na rocha da largura de umapessoa. Arthur subiu e depois armou uma ancoragempara me assegurar. Escalei o trecho relativamente fácil,alternando o piolet na neve do fundo desta canaleta, asagarras na rocha e os pés nos degraus das paredeslaterais. Depois de vinte metros encontrei Arthur. Aatmosfera já tomava a mesma cor violeta do amanhecer ea borda da crista brilhava com os últimos raios de Sol emcontraluz. Arthur enrolava a corda enquanto eudesenroscava o parafuso somente com a luva de polartec.Havia tirado a grande e desajeitada luva de dois dedoschamada mitone para executar algumas tarefas maisdelicadas, como já havia feito antes. Depois de terminado,não senti mais o dedo polegar da mão direita. Estavagelado, sem sensibilidade, como se simplesmente ele nãoestivesse ali. Enfiei a mão embaixo do braço por algumtempo, esfreguei o dedo e coloquei-o junto com os outrosdedos na mitone. Alguns minutos depois ele voltou à vidae passei a senti-lo novamente. Tínhamos transposto o último obstáculo da rota,agora viria a parte fácil! Mas o cansaço não nos deixoueste gostinho. Continuamos encordados, subindo pelos GLACIAR DOS POLACOS 39
  40. 40. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brúltimos lances inclinados, que pareciam levar umaeternidade. Arthur subia mais devagar agora e achei queme esperava para a corda não esticar. Perguntei-me se eleestaria com frio e torci para que chegasse logo na crista efosse banhado pela luz do Sol, mas este parecia fugir denós na mesma velocidade em que avançávamos. Quandoalcancei a crista da montanha, tive a sensação de estarnum sonho. Depois de tantos dias rodeados por cadeiasde montanhas, agora não havia nada mais alto do quenós, no horizonte. E este desaparecia no infinito. À nossafrente, uma pequena colina branca, para o qualseguíamos lentamente, pé após pé, sem emitir nenhumapalavra. Além dele, o céu quase negro caía sobre o tom delilás e uma estreita linha alaranjada e brilhante seestendia no horizonte. Para completar o cenário, o ventotrazia um lençol de neve fina deslizando a um palmo dochão formando um efeito de fumaça de gelo seco. Fiqueimuito assustado. Era noite! E eu estava chegando aocume do Aconcagua! Eu sabia que tinha que ligar o pilotoautomático agora e só parar quando chegasse aoacampamento. A passos de zumbi, comecei a meaproximar de Arthur e fui recolhendo a corda lentamente eenrolando-a na mão. Estávamos caminhando agora emuma parte bem suave e com neve mais firme! Então meassustei novamente quando vi Arthur simplesmente parare tombar a cabeça. Ficou somente alguns segundos comose estivesse dormindo em pé, mas era a primeira vez queeu o via assim tão esgotado! Temi que ele não tivesseforças para caminhar, esta seria uma situação terrívelpara nós, pois certamente eu não conseguiria arrastá-lonem com a ajuda de mais três pessoas. Passar uma noiteali provavelmente seria fatal. Continuei enrolando a cordaaté passar a sua frente para dar algum apoio moral. Apóso primeiro monte, avistamos novo falso cume, mas a GLACIAR DOS POLACOS 40
  41. 41. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brsubida deste foi um pouco mais penosa, pois a neveestava fofa, chegando à metade da canela com o pisar. Cume (foto com brilho aumentado) A superfície era bem lisa aparentando ser firme, masafundava com um som de gemido tal quais passos nasareias finas da Barra da Tijuca. No topo deste novo montepudemos avistar agora um grande e alvo chapadão.Começaram a surgir as primeiras rochas negrassalpicadas na neve e a paisagem começou a ficar familiar.Paramos ao lado de alguns blocos maiores para guardar acorda e colocar os casacos de pluma. A confirmação docume veio com a visão de um aparelho de medição, a vistado cume sul, mais afiado do que nunca, e de algum objetona escuridão que deveria ser a cruz. Que visualmaravilhoso e ao mesmo tempo aterrador. A cadeia demontanhas toda aos nossos pés, negras pela noite, mascom muita neve ainda refletindo um resquício deiluminação. Que diferença da primeira vez, com Sol etempo de sobra pra curtir e descansar! GLACIAR DOS POLACOS 41
  42. 42. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br A noite estava incrivelmente clara, podíamos avistarmuito longe com nitidez. Tivemos muita sorte de haversomente uma brisa, já que, sem Sol, o frio aumentava acada minuto. Eu só procurava o caminho da descida eArthur foi quem se lembrou de sacar a câmera para fazerduas fotos e me pedir para filmar. Puxei a filmadora, masesta só filmou dois segundos. A bateria se esgotou pelofrio. Achamos a descida com facilidade, estava bemmarcada de pisadas. Mas ao olhar pra baixo vi queestávamos diante de um novo desafio. Uma longa descidana escuridão... GLACIAR DOS POLACOS 42
  43. 43. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brA Volta – parte final Não sei se era porqueestava escuro, mas a descida mepareceu muito maior do que eulembrava. Uma nova onda demedo bateu. Se eu nãoconseguisse forças paradescer… A maioria das estóriasque eu conhecia de acidentesenvolvia a chegada ao cume muito tarde, problemas nadescida e pernoite lá em cima. Acho que Arthur selembrou de me saudar pelo nosso feito com um toque demão, mas eu só conseguia pensar em sair dali. Logo noinício da descida, percebi que a neve que tanto nosatrapalhou para subir, agora dava uma ajudaincomparável para descer. Os quatrocentos metros finaisda rota normal seguem “espremidos” entre grandesmassas e pilares de rocha. Espremidos para aproporção da montanha, pois,para nós, é como uma autoestrada com uns 50 m delargura. Um caminho demilhares de rochas de umdesmoronamento de milhões deanos. A neve pisada formavauma rampa estreita seguindo rente à lateral, por cimadaquele terreno irregular que eu bem me lembrava. Arthurjá recuperava as energias e disparava caminho abaixo. Euficava mais atrás e, de vez em quando, sentava em umapedra maior para descansar as pernas da forte e contínuadescida. Não tardei em chegar à “Cueva”, uma cavidade naparede do início da canaleta, usada como abrigo em GLACIAR DOS POLACOS 43
  44. 44. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brsituações de emergência. Lá havia dois tambores deplástico azul provavelmente com água, comida, remédios,mantimentos e a frequência de rádio dos guarda parquesescrita na parte externa: 142.800 MHz. Arthur descansavalá também e decidimos passar um rádio para avisar queestava tudo bem. Na face em que nos encontrávamos, só conseguimoscontato com o acampamento base Plaza de Mulas, da rotanormal. Demos detalhes de nossa situação e eles pediramque avisássemos o acampamento base Plaza Argentina, nolado leste, quando chegássemos à barraca.Noite turbulenta Normalmente uma grande montanha não ficapróxima de centros urbanos e poucas têm sinal de celularou alguma estrutura de resgate. Gosto de imaginar essetipo de escalada como uma apresentação para o qual vocêse prepara por muito tempo, mas na hora não há nenhumpúblico para te assistir. Não funciona o: “Mãe, olha aquionde eu estou!”. Bem que seria legal, talvez num futuro distante, umatransmissão ao vivo do que os nossos olhos vêem… Alémdos amigos distantes poderem acompanhar em tempo realnossos grandes momentos, seria mais seguro em caso deproblemas. Um diálogo como este poderia ser comum: - O que você vai fazer hoje? - Mais tarde vou acompanhar a entrevista deemprego de minha filha que mora na Austrália. Ah e GLACIAR DOS POLACOS 44
  45. 45. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.bramanhã tem o ataque ao cume do Toinho que está lá noHimalaia! Assiste lá em casa que é 3D… Mas não precisou nem tanta tecnologia assim…Fomos assistidos com um equipamento já conhecido háséculos. Sem que soubéssemos, o pessoalde Plaza Argentina acompanhou toda nossa escalada portelescópio e transmitiam entre eles informações nafrequência 142.800, frequência ouvida por muitos dentroe fora do parque. Nossa situação então era repassada paraoutras frequências também como as das expediçõescomerciais e empresas diversas no entorno. Estava criadaa novela brasileira no Aconcagua. Enquanto a médica Gabriela e as guardas Erica eRuth torciam para que chegássemos ao cume antes deescurecer, outros apostavam quando morreríamos. Hápoucos dias, por causa do último acidente, acontecera umtreinamento para o pessoal do parque que trabalhava emPlaza Argentina e, vendo dois “brasileños” atolados naneve e movimentando-se tão lentamente no glaciar, já tãotarde, era compreensível esperarem que muito em breve,teriam que se por ao trabalho para resgatar algo lá decima… Os guarda parques estavam tendo uma noitedaquelas. Um pouco antes de chegarmos ao cume, osfuncionários receberam um rádio que os deixaram aindamais alertas. Um grupo com dois guias havia chegado bemtarde no cume e um dos clientes tinha sintomas de edemapulmonar. Na descida, devido à piora do estado de saúdedo montanhista, um dos guias resolveu descer direto comele para Nido de Condores, para buscar um resgate oumédico, enquanto o outro grupo seguiu para Cólera, oacampamento onde estavam estabelecidos. GLACIAR DOS POLACOS 45
  46. 46. Junior, Paulo Marimhttp://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brGLACIAR DOS POLACOS 46
  47. 47. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br O grupo de guardas, que já estava alarmado, semsaber se teria que resgatar os brasileiros, agora precisavamobilizar pessoal para esta outra situação. Foi quandorecebeu novo rádio com a notícia de que um dessesclientes havia se perdido na descida! Mais tarde, recebeunovo chamado informando sobre dois corpos encontradosnas proximidades do campo Cólera. Estava configurado ocenário de confusão. Teria a novela brasileira terminadocom um final triste? Seriam clientes do grupo guiado?Seria outro grupo ainda? O dia amanheceria com meiadúzia de corpos lá em cima? Gabriela contou, mais tarde,que por causa dessa noite turbulenta, os funcionários doacampamento base quase não dormiram. Foi combinadoque, no dia seguinte, um guarda parque de Nido deCondores subiria até Cólera e faria a travessia, descendoaté Plaza Argentina para verificar esse chamado. Antes de retomarmos nossa descida perguntei,achando improvável, se Arthur ainda possuía água, poiseu tinha sede desde as cinco ou seis da tarde, quando aminha terminara. Pra minha surpresa Arthur ainda tinha.Fiquei um pouco preocupado, pois ele havia trazido aindamenos água do que eu. Ele tinha bebido muito pouco! Recomeçamos a andar e me preocupei em manter adireita, para começar a contornar a montanha rumo à faceleste ao invés de perder a saída e continuar seguindo .pelo Gran Acarreo, uma ladeira sem fim de 2000 m dedesnível que eu tinha usado em 2006 para chegar direto aNido sem passar por Berlin. Lá embaixo as luzes dosacampamentos Nido de Condores e Plaza de Mulasbrilhando na escuridão da noite lembravam as cidades doVale do Paraíba vistas das montanhas da Serra daMantiqueira. Lembrei-me de quando eu estava lá embaixo,na rota normal e vi, assustado, duas luzes descendo do GLACIAR DOS POLACOS 47
  48. 48. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brcume a noite. Estaria agora mais alguém nos observandotambém? Chegamos rapidamente ao Independência, umrefúgio em forma de chalé, em ruínas, sem teto.Estávamos chegando perto do desvio para a Polacos eacompanhávamos no GPS, onde eu tinha marcado umponto com as coordenadas do acampamento. Estávamosna direção, mas havia sempre uma dúvida quanto aocaminho que agora nenhum dos dois conhecia. Depois dealgumas bifurcações, comecei a ver luzes lá em baixo.Aquela nova “cidadezinha” que agora avistávamosprovavelmente era o campo 2! Estávamos na reta final.Mas este trecho era tão longo, reto e enfadonho queArthur chegou a perguntar se realmente estávamos certos.Só faltava essa! Errarmos de acampamento e ficarmosvagando exaustos pela montanha naquela noite fria!Também me preocupei com isso e só tive certeza que era ocampo 2 mesmo, quando cheguei. Lá estava Arthur sinalizando para mim com a luz dalanterna. Mesmo a poucas dezenas de metros doacampamento ele ainda não tinha reconhecido o local eme aguardava para confirmar. Em seguida, fomosrecebidos por uma dupla de noruegueses que nos traziaágua, comida e nos acompanhou até nossa barraca.Foram muito gentis nos oferecendo chá quente, biscoitos echocolate. Perguntei duas vezes que horas eram até tercerteza de que compreendi: 1:30 h da madrugada! GLACIAR DOS POLACOS 48
  49. 49. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Considerando que escurece porvolta de 10:00h da noite –provavelmente o horário quechegamos ao topo -, levamos trêshoras e meia para descer. Naquelanoite, logo que Arthur tirou as botas emeias, comentou que não tinhasensibilidade nos dedos dos pés e também notou umacoloração anormal. Eles estavam esbranquiçados naspontas e escurecidos no meio. Eu também sentia os meusdedos dormentes e não acreditamos que nenhum doscasos fosse grave. No dia seguinte, acordamos bem tarde e Arthurnovamente examinou os dedos. Comentei: - Não deve ser nada grave, Arthur. Não há bolhas.Da última vez, fiquei com um dedo da mão semsensibilidade por mais de um mês. Ainda pela manhã, passamos um rádio para PlazaArgentina, para avisar que estava tudo bem conosco.Arthur explicou que fizemos cume tarde e só chegamos nabarraca 1:30 h da manhã. - Está tudo bem. Agora vamos levantaracampamento e partir para Nido de Condores para descerpela face noroeste e Vale de Horcones. Somente os meusdedos dos pés que estão um pouco queimados. GLACIAR DOS POLACOS 49
  50. 50. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Ao término desta frase, a guarda que estava do outrolado da transmissão, respondeu prontamente quedeveríamos descer para Plaza Argentina. Arthur tentouargumentar, disse que não era nada grave, mas não tevejeito. A mulher se mostrava convicta de que Arthur teriaque descer por lá mesmo para ser examinado. Arthurentão disse que aguardaríamos para descer no diaseguinte, pois estávamos cansados e desligou. Discutimos então o que fazer. Ignorar a guarda e descer por Plaza Mulas? Arthurdesceria por um lado e eu por outro? Arthur desceria e euaguardaria ele voltar já que provavelmente não era umcongelamento grave? Eu acreditava nisso, mas eu nãopoderia saber. Quem estava sentindo o pé era Arthur.Para mim, descer para Plaza Argentina significava deixarde conhecer um caminho novo, significava também levarum dia a mais dentro do parque, deixar de rever oslugares por onde passei em 2006. Para Arthur, seguir poronde eu queria poderia significar danos permanentes emseus pés e nem de longe seria justo que eu influísse nessadecisão. GLACIAR DOS POLACOS 50
  51. 51. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Recepção Arhur decidiu seguiras instruções de Ericanaquele dia mesmo ecomeçamos a organizar astralhas para partir. Agorateríamos que descer tudode uma vez e as mochilaspesavam quase trintaquilos cada uma. Comoele tinha pressa, me deixou terminando de arrumar ascoisas e iniciou a descida quase uma hora antes demim. Despedi-me do campo 2, agora deserto, e comecei adescer também. Eu usava minhas botas de “trekking”para dar um descanso aos meus pés e não me preocupeinem em encher minha garrafa com água, uma vez que adescida não levaria mais de duas horas até o campo 1. Logo no início docaminho, enfrentei um trechoda trilha coberta de neve e comuma bela ribanceira decentenas de metros pedregososabaixo. O peso da mochila e osolado inapropriado naneve escorregadia quase mecolocaram em apuros e solteialguns grunhidos enquanto fazia força nos bastões paranão vazar lá pra baixo. Decidi colocar os cramponsautomáticos sobre as botas de “trekking” mesmo e perdium tempão tentando adaptá-los, já que a bota não tem osencaixes para isto. Depois de muito apertar com ospróprios cadarços da bota, agora envergada, me coloqueide pé e constatei que não funcionou. Com o peso da GLACIAR DOS POLACOS 51
  52. 52. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brmochila e o terreno pendendo para a esquerda, os péssambavam em cima dos crampons. O jeito foi colocar asbotas duplas. Nesse meio tempo dois grupos passaram por mimsubindo. Algumas horas depois, um destes grupos mealcançou quando já desciam. Eram dois caras e umagarota da República Tcheca e mostraram uma foto quetiraram de mim e Arthur no meio do Glaciar. Fiqueientusiasmado, dei meus e-mails e pedi que me enviassem,mas tal qual no Mont Blanc, estou esperando até hoje porisso! Eles se adiantaram e mais um tempo depois umcasal me alcançou também. Faltando menos de uma horapara chegar ao campo 1, eu realmente descia devagar porcausa do peso e da falta de água e comida. A dupla meperguntou se eu estava bem, pois eu estava muito lento epesado, parando frequentemente para descansar. - Sim, eu estou bem. – Respondi, mostrando umsorriso. - Tem certeza? Não precisa de alguma coisa? –Insistiu a mulher em inglês. - Talvez um pouco de água… GLACIAR DOS POLACOS 52
  53. 53. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br - Quando foi a última vez que você bebeu e comeu? –Perguntou a mulher em tom de bronca, já puxando o seureservatório de água de uma grande pochete para encherminha garrafa. - Por volta de duas da tarde. – Menti, já que eu tinhasaído do campo 2 antes disso e mesmo lá não tinhabebido água. A mulher continuou o pito me dizendo que se temque beber de hora em hora e bla, blá, blá. Não liguei eaproveitei a ajuda deles para encher a barriga de água ebarra de proteínas que me empurravam. - Não se preocupe, eu estou acostumado a carregarpeso e passar estes perrengues… – Tentei me explicar. “Não há lugar na montanha para heróis”, disse abraba menina de nacionalidade canadense. “O sujeito nãotem mais nem direito de passar um perrengue em paz”,pensei. Depois desta sessão de broncas e depois deconvencê-los de que eu não precisava de ajuda com minhacarga, o casal se adiantou e eu pude continuar com muitomais energia, quase acompanhando os dois, que levavamsomente uma pochete cada um. GLACIAR DOS POLACOS 53
  54. 54. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br A algumas dezenas de metros das primeiras barracasdo campo 1, um dos tchecos me aguardava com umagarrafa de isotônico morno. Uma espécie de chá degatorade. Agradeci e sorvi quase metade da garrafa. Otcheco me acompanhou por mais alguns metros,insistindo em repartir o meu peso, quando fui abordadopor mais pessoas. Dois guias de uma expediçãoperguntaram se era eu o brasileiro que estava com Arthur,pois ele me esperava já em Plaza Argentina e tinhammandado um recado por rádio para que me avisassemquando eu chegasse ali. Outro grupo de norueguesestambém se mostrou preocupado comigo, pois eram setehoras e temiam que eu não chegasse ao acampamentobase antes de escurecer. Eu explicava que tinha quedescer tudo, pois Arthur estava lá me esperando commetade da barraca. Ofereceram vaga em alguma barraca.Mais a frente, um americano se aproximou e ofereceusopa. Sentei, tirei a mochila e aceitei. Eu estava perto dabarraca dos canadenses e a menina braba novamenteapareceu com uma embalagem de paella liofilizadafumegando! Não pude recusar. Mais alguém trouxe umagarrafa com refresco e logo eu estava quase explodindo detanta comida e bebida! GLACIAR DOS POLACOS 54
  55. 55. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Lamentei ter que deixar aquele acampamento degente tão amistosa. Um dos noruegueses se ofereceu parame acompanhar na descida até o acampamento base e nametade do caminho encontramos com dois guardasparque enviados para me encontrar e me acompanhar atéPlaza Argentina. Perguntei do estado dos pés de Arthur eme responderam “assim, assim”. Agradeci ao norueguês eme despedi quando este retornou para o campo 1. Enquanto eu tentava acompanhar o ritmo dos guardasparque, um novo guarda nos alcançava descendo. O rapazme parabenizou pela escalada. Era o guarda de Nido,designado a procurar os dois corpos avistados na noiteanterior. Misteriosamente não encontrara nada. Chegamos ao campo base pouco depois de escurecer.Fui direto para a enfermaria, onde Arthur já se encontravajantando, sentado na única cama do lugar e com aspernas enfiadas no seu saco de dormir. Além dele, amédica Gabriela, as guardas Erica e Ruth, um espanholcom um dedo congelado e um argentino buscandoremédios para um amigo. Cheguei fazendo piada efilmando até começar a me inteirar do que aconteceu.Arthur contou que ao tirar as botas lá em baixo, asmalditas bolhas apareceram. Tínhamos que separarequipamentos para voltar de mulas e uma mochilapequena com artigos essenciais leves, pois iríamos emboraamanhã, na parte da manhã, no helicóptero! Quase nãoacreditei, pois normalmente o helicóptero é deixado paraos casos extremos… Dormi junto com os congelados na enfermaria,depois de um belo jantar que incluía sopa, macarronada echá, tudo oferecido pelos guardas, que foram todossempre extremamente gentis e atenciosos. Acordamos nofrio das seis horas da manhã do dia seguinte e engolimos GLACIAR DOS POLACOS 55
  56. 56. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.bralguns biscoitos. Deixamos macarrão, cereais e osbiscoitos que sobraram dos nossos mantimentos para osfuncionários e aguardamos o “helicóptero das sete”. Oprimeiro que pousou era particular, contratado por umaexpedição para deixar os montanhistas diretamente nocampo base. O nosso veio em seguida. Arthur foi auxiliadopor dois guardas e caminhou com dificuldade, apoiandosomente os calcanhares pelo solo pedregoso até oheliporto demarcado na morena. Vindo mais atrás, perguntei a um guarda sobre oestado de Arthur. O conselho que recebi foi quetomássemos muito cuidado com o local onde Arthur fossetratado. - Já vi pessoas na situação dele que se recuperaramtotalmente e outros que… Fipt! – Fez um gesto com a mão,decepando dedos invisíveis! Fiz nova consulta com a médica Gabriela, que pôdeme passar detalhes. - Existem quatro tipos de congelamento: 1º grau:superficial. 2º grau: quando surgem bolhas de coloraçãoclara. 2º grau profundo: quando surgem bolhas de sanguee 3º grau: quando há necrose e só o que resta é aamputação. Arthur tem vários dedos com bolhas e doisdeles com bolha de sangue. Por isso classificamos deforma geral o congelamento dele como 2º grau profundo.Só conseguiremos saber como vai se desenvolver daqui auma semana. Talvez tenha que remover tecido e fiquemalgumas sequelas. Gabriela recomendou uma médica particular emMendoza, especializada em congelamentos. Erica me GLACIAR DOS POLACOS 56
  57. 57. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brperguntou como eu estava e respondi que estava triste porArthur. Em outra situação eu estaria radiante pelo cume epor sobrevoar o parque…Entramos no helicóptero, que manteve o rotor ligado,provocando um vento que resfriava ainda mais oambiente. Fomos acomodados no banco de trás e um dosguardas também embarcou, sentando-se no banco dafrente. A porta foi fechada e a aeronave subiu tãosuavemente que só percebi que estava voando já adezenas de metros do chão, quando as pessoascomeçaram a ficar anãzinhas. Despedimo-nos com umaceno de mão e já imediatamente começamos a tentarabsorver o máximo possível do que estávamos vendo. Opiloto fez uma curva para manobrar e tomar altitude antesde apontar para a cadeia de montanhas que separa PlazaArgentina de Plaza Francia. Plaza Francia é oacampamento base aos pés da grande Parede Sul.Lentamente subíamos para vencer este passo e o vôo nãoparecia tão suave e controlado agora que alcançava os5.000 m de altitude. O helicóptero saía de lado como sederrapasse na pista molhada e trepidava um pouco, talvezpela falta de sustentação no ar rarefeito ou por rajadas devento. Apesar de minha irmã ter trabalhado numaempresa de voos turísticos de helicóptero no Rio deJaneiro e ter oferecido várias vezes uma carona, eu nuncatinha aproveitado estes convites. Nunca poderia imaginarque o primeiro voo seria naquelas condições. Quandofinalmente ultrapassamos a muralha de pedra, tivemos abela visão da íngreme face sul e todo o vale que leva àConfluência, que foram descortinados repentinamente.Depois de estranhar o caminho feito de cima, finalmenteconsegui identificar o rastro de formiga que era a trilhaque saía de Confluência para Plaza Francia! Logo GLACIAR DOS POLACOS 57
  58. 58. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brsobrevoávamos a pequena cidadela de barracas multicoresque era o campo Confluência. Um minuto depoisavistamos Horcones e as instalações dos guarda parques.Levamos três minutos para percorrer tudo aquilo quelevaríamos três dias a pé. Ao descer em Horcones, repareique estava tudo reformado, pavimentado. As instalaçõesde recepção e check-in não eram mais as tendas de lonaazul semicilíndricas e sim casas pré-construídas. Fomos fazer o “check-out” e encontrei o amigo RubénMassarelli, guarda parque que conheci em 2006 ereencontrei em Itatiaia, em 2008, quando foi trabalharnum intercâmbio com o Parque Nacional. Ele contou omotivo da reforma na entrada do parque: em agosto de2009, uma avalanche de neve e lama se precipitou sobre orefúgio da entrada do parque onde jantavam Rubén e maistrês guardas, dois guias e uma médica. Com algumasescoriações e hipotermia, o grupo conseguiu sair dorefúgio e chegar à autoestrada, onde foram socorridos. Aavalanche destruiu tudo e foi quase um milagre teremescapados todos com vida. Refúgio dos guarda parques soterrado Antes de partirmos, Rubén me presenteou com umbelo pôster. Nosso transporte nos levou à Ponte Inca. Nocaminho, o rapaz que dirigia e se chamava Emanuel, GLACIAR DOS POLACOS 58
  59. 59. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.brperguntou sobre os pés de Arthur, pois haviaacompanhado tudo por rádio. Combinamos com ele queiríamos a Mendoza no primeiro ônibus, às 11:40 h e euvoltaria no dia seguinte para reaver nosso equipamento,que só chegaria de mula às sete da noite. Aguardamos oônibus na Hosteria Puente del Inca, onde tomamos café damanhã. Lá também conhecemos o gerente geral daempresa de Expedições Aymará, que nos contou quetambém acompanhara nossa “epopéia” via rádio e explicouque a temporada havia estado extremamente seca atéentão, quando a neve toda de um período desabou empoucos dias. Reflexões Em uma mesa, Arthur, que já evitava caminhar comaqueles pés inchados, enfaixados e cheios de bolhas,encontrara tempo para recapitular os acontecimentos dosúltimos dias, passando os olhos nas fotos e vídeos dascâmeras, recolhendo-se sob a aba de seu boné. Aproveiteio tempo que tínhamos agora para pensar em tudo queaconteceu e me afastei, já com lágrimas nos olhos, para irao banheiro chorar um pouco. Eu e ele sabíamos que, namelhor das hipóteses, Arthur teria tempos difíceis daquipra frente. Meu parceiro começara a imaginar comoconseguiria escalar em rocha novamente se tivesse queamputar dedos dos pés e eu tentava animá-lo dizendo quetodo mundo se adapta e que ele provavelmente voltaria aescalar até melhor, se fosse o caso. Mas era uma barrabem pesada e me permiti derramar algumas lágrimas nafrente do espelho do banheiro. Que porcaria de esporte demaluco era aquele que matava e mutilava! Qual era osentido de tudo aquilo? Questionei-me com o pensamentode leigo. Perguntas que provavelmente sempre ecoarãosem resposta. GLACIAR DOS POLACOS 59
  60. 60. Junior, Paulo Marim http://expedicaopolacosnoaconcagua.wordpress.com http://www.trilhaecia.com.br Limpei o rosto e saí para tentar resolver algumascoisas por telefone. Passei quase uma hora ocupado com atarefa de trocar o dinheiro em moedas e procurarencontrar o único telefone público do lugarejo para discarpro Seba e perguntar se podíamos ir para sua casa. Numadestas tentativas, liguei por engano para o celular de suanamorada, Caro, que naquele exato momento estava emMachu Picchu. Gastei minhas moedas, mas valeu ouvir oentusiasmo em sua voz. Também consegui falar com amédica recomendada por Gabriele, que cobrou cemdólares a consulta. Fiquei de decidir com Arthur e tornar aligar pra ela de Mendoza. Ao retornar para a Hosteria onde estava Arthur,encontrei-o conversando com três turistas brasileiros queestavam por lá de passagem. - Cara, você não sabe quem morreu… Esse tipo de pergunta é só pra dar mais angústia,pois eu realmente não vou conseguir imaginar se foi umparente ou o Barack Obama. Perguntei, temendo aresposta: “Quem?”. -Bernardo. -Bernardo Collares? – A voz embargou. Arthurcontou o ocorrido, descritos pelos brasileiros que, apesarde não serem montanhistas, sabiam detalhes e até osnomes dos escaladores. Estava difícil ter esperança de quenão fosse o nosso pessoal. Tentei disfarçar o abatimento,mas estava sendo difícil com uma porrada atrás de outra.Nem tivemos muito tempo de conjecturar, pois o ônibusestava de saída. Os brasileiros fizeram questão de, um porum, tirar foto conosco. Será que nunca viram um sujeito GLACIAR DOS POLACOS 60

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