APRESENTAÇÃO
Comecei a escrever este livro como uma forma de
terapia. Precisava verbalizar a confusão que se passava na mi...
Condenáveis
Leonardo Torres

Condenáveis
Uma história de filho e pai
Copyright © 2012 by Leonardo Torres
Todos os direitos reservados
Projeto Gráfico
Leonardo Torres
Capa
Leonardo Torres
Imag...
Já há algum tempo nossa relação está
por um fio, e um fio que basicamente
consiste de decepções do passado. Não
temos nada...
Primeira parte

Operação Guilhotina
1
Foi assustador o impacto daquela reportagem lá em casa.
Minha mãe e eu já não estávamos no melhor momento de nossas
vida...
eles estavam falando antes do meu pai aparecer na tela. Com
algum esforço, encontrei a resposta: ele estava preso.
Olhei p...
Operação Guilhotina: dos charutos cubanos à revenda
de armas apreendidas para o tráfico
O inspetor Leonardo da Silva Torre...
Agente é acusado de vender informações a bandidos
Famoso por fumar charuto durante as operações,
Leonardo da Silva Torres,...
Inspetor Trovão vendia armas para traficantes
Integrado por cinco policiais e um informante, o grupo de
policiais chefiado...
Policiais e traficantes negociavam por SMS
Os policiais militares adidos, ou seja, “emprestados” pela
PM a unidades da Pol...
Minha mãe desligou o telefone e veio me contar o que
meu avô havia dito.
- Ninguém conseguiu ver o Léo ainda, só o advogad...
Minha mãe disse que eu deveria visitá-lo na prisão.
Obviamente, eu não pensava em fazer isso. Se não o encontrava
antes, m...
que ele estivesse envolvido em algo tão grande assim. Se o
pensamento da corrupção pequena já me dava asco, a notícia do
r...
Uma prova vinculada ao vivo. Lembrei-me do caso do cantor
Belo e o código do tênis.
Estranhamente, no entanto, ninguém ain...
podia. Como já era obrigado a ocultar sua paternidade para
sobreviver àquele caos e fugir da curiosidade alheia, resolvi
l...
- Tudo bem mesmo?
- Aham.
- Você não tá precisando de nada?
- Como assim, Kátia?
- Não sei. Um dinheiro, uma cesta básica,...
esotérica, minha mãe, por ser quem sustentava a casa, seria mais
afetada do que eu com essa história toda. Ela disse també...
repercutindo, porque eram muitos policiais presos e muita gente
grande envolvida no caso, mas não falavam mais
especificam...
- Quando falei com a Clarissa, ela me perguntou onde eu
tinha visto isso. Respondi: na tv, no jornal, no rádio, em todos o...
primeiro telefonema. “Ele não é fácil também. Pedi para me
avisar de qualquer novidade e me ignorou”. O fato é que meu
avô...
telefone da mão da sua mulher. Desde então, elas nunca mais
trocaram palavras. Pelo menos até esse dia, mais de dez anos
d...
- Não fala isso do seu pai!
- Mas é verdade.
- Ele é seu pai ainda assim.
- Não tenho que respeitar ou gostar de alguém só...
Ao me ver sorrindo pela primeira vez na conversa, minha
mãe aproveitou para falar a cereja do bolo:
- Depois ela disse tam...
- Era. Eu não vou me indispor com você por causa do
seu pai. Falei para ela: o problema é que dois bicudos não se
beijam.
...
Segunda parte

Infância
10 coisas que meu pai me ensinou
1) Emparelhar garfo e faca no lado direito do prato no fim das
refeições;
2) Não olhar pa...
4
Lembro que levei algum tempo para tomar coragem de
fazer a pergunta. Naquela altura da minha vida, eu já sabia os
valore...
filho bastardo da realeza. Não custava aproveitar a oportunidade
do papo para saber se isso era possível. Mas minha mãe ri...
preocupada, embora eu não conseguisse saber se pelo meu
possível desejo de ter outros pais ou por eu estar perto de
descob...
dos longos discursos histéricos e agressivos de Maria do Carmo.
É esse o nome dela.
Segundo minha avó, ela escutava as bri...
possível não escutá-lo. “O Léo (como disse, calhamos de ter o
mesmo nome) não tem educação nem para tocar uma
campainha”, ...
assim como minha mãe, ele havia voltado a morar com os pais –
e, neste caso, eu ficava com meus avós ou corria para a casa...
Até que um dia minha mãe deu com a língua nos dentes
e falou para ele que eu preferia o Flamengo. Para quê? Vieram
mais ro...
frustrou. Ele gostaria – talvez como todo pai, é verdade – de ser
uma referência para o filho. Lembro de uma vez em que el...
qualquer tipo de esforço nesse sentido. Dessa forma, conseguiu
unicamente a minha antipatia. E, assim, a última coisa que ...
Eu já devia ter uns 12 anos e fui pego de surpresa. Ele não me
contou para onde estávamos indo. Na verdade, me enganou.
El...
uma partida de futebol. Mas eu me sentia como um cachorrinho
carregado pela coleira. Eu estava achando tudo muito ridículo...
jogo é ali! Olha!”, me dizia, apontando o campo. Eu olhava por
alguns minutos, até cair no tédio novamente. Perguntei o qu...
Antes, porém, que você pense que nossas divergências
giravam apenas em torno dos gramados, te conto outra história.
Meu pa...
exemplo, que não podia ir muito para o fundo; que o melhor era
ficar perto de onde tinha mais gente; e que se algum adulto...
se interferir nessas histórias, porque podia parecer que era ela
quem estava me impedindo de ir, quando na verdade eu que ...
chamasse para sair. Assim, o passeio seria mais divertido. Pelo
menos, estaria fazendo algo que eu gostasse. Seria uma boa...
pessoas ao redor não falavam a nossa língua. Nenhuma delas
parecia um palhaço não-caracterizado ou um mágico sem a
cartola...
de conquistá-la. Conclusão: foi minha mãe quem me levou ao
circo, de ônibus mesmo.
6
Da mesma forma que acontecia com os p...
uma forma de evitar que, com o Natal, a casa se enchesse de
mais produtos do Fluminense ou luvas de boxe naturalmente
inút...
momento, pensei “será que ele esqueceu?” Dei uma olhada para
a minha mãe, buscando uma explicação para aquilo, e ela, talv...
“viajando”. Dei umas apertadas nos botões e logo desanimei
(mais). Passei o resto da noite brincando com as lembrancinhas....
divertir com um microfone que minha vizinha havia me dado de
presente. Aquele havia sido o brinquedo que eu mais tinha
gos...
brincava de boneca”, frisando essa parte. Ele ficava orgulhoso,
aparentemente. E eu não tinha que escutar suas reclamações...
demais para conviver com tais condicionamentos de afeto. Mas
convivia.
As coisas começaram a melhorar depois que ele se ca...
quando eu ia para a casa dele, eu tinha alguém com quem
conversar, que era a sua mulher, uma pessoa muito mais fácil de
di...
dos brinquedos. Só que isso também não era algo exatamente
bom.
Meu pai deve ter falado para ela que eu gostava muito de
b...
com a desculpa “não vou saber o que te dar, é melhor você
mesmo comprar”. Tarde demais.
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O Dia dos Pais é até hoje a data...
crianças se empenhavam nesta tarefa e eu não. Elas queriam
muito agradar aos pais, que, para elas, eram seus super-heróis,...
não seria interessante para a escola), então era bem provável que
ele tivesse se esquecido.
Mas, por fim, ele apareceu. Se...
porque a verdade é essa: eu não tenho – por que tenho que
render homenagens a ele?
“Parabéns por nunca ter me dado um cons...
Ela era chegada a esse tipo de chantagem, embora não
aguentasse levar o castigo até o fim.
- Oi, pai, é o Leozinho. Tô lig...
queria dizer e até dou razão a ela. É melhor viver consciente que
iludido.
Pelo menos, nossos problemas se limitavam à afi...
bem ou mal, a criança cultiva um ódio desproporcional ao seu
tamanho e imagina formas de se vingar do agressor covarde.
Ao...
Terceira parte

Adolescência
10 coisas que meu pai não me ensinou
1.Fazer a barba;
2. Defender-me;
3. Dirigir;
4. Aparar os pelos pubianos (minha mãe t...
9
Com o tempo, meu pai e eu nos afastamos naturalmente.
Os encontros quinzenais passaram para mensais, depois
semestrais e...
Pelo contrário. Nessas poucas vezes em que nos víamos,
não tínhamos assunto, o que era, no mínimo, ilógico. Quando
duas pe...
Condenáveis, uma história de filho e pai
Condenáveis, uma história de filho e pai
Condenáveis, uma história de filho e pai
Condenáveis, uma história de filho e pai
Condenáveis, uma história de filho e pai
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Condenáveis, uma história de filho e pai

  1. 1. APRESENTAÇÃO Comecei a escrever este livro como uma forma de terapia. Precisava verbalizar a confusão que se passava na minha cabeça, sem medo de julgamentos. Queria ter o direito de ser politicamente incorreto na minha privacidade. Mas logo veio a ideia incoerente de tornar pública a minha versão da história. No início, tudo começou como uma defesa a ataques que ainda eram imaginários. Mas meu relacionamento com as páginas evoluiu e pude perceber meus erros através delas. O mais difícil foi revirar o passado e entender a mentalidade que tinha na época. Tentei ser o mais verdadeiro comigo mesmo e fiel aos meus sentimentos, muitas vezes dúbios. Daí veio o título: Condenáveis. Condenáveis porque nós dois – meu pai e eu – temos culpa pelo ponto em que chegamos. Este livro me ajudou a enxergar isso. Agora, tenho consciência de que dificultei suas aproximações muitas vezes. Mas os erros não começaram nem terminaram comigo. Posso dizer com segurança que, pelo menos, não tenho nenhum arrependimento. FAVOR NÃO REPRODUZIR O CONTEÚDO DESTE EBOOK SEM AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DO AUTOR.
  2. 2. Condenáveis
  3. 3. Leonardo Torres Condenáveis Uma história de filho e pai
  4. 4. Copyright © 2012 by Leonardo Torres Todos os direitos reservados Projeto Gráfico Leonardo Torres Capa Leonardo Torres Imagem de capa © Leonardo Torres Revisão Patrícia Martins ISBN 978-85-913543-0-6 Projeto independente sem editora Rio de Janeiro – RJ www.falaleonardo.com
  5. 5. Já há algum tempo nossa relação está por um fio, e um fio que basicamente consiste de decepções do passado. Não temos nada a perder ao cortá-lo. Um Método Perigoso, filme escrito por Christopher Hampton e dirigido por David Cronenberg.
  6. 6. Primeira parte Operação Guilhotina
  7. 7. 1 Foi assustador o impacto daquela reportagem lá em casa. Minha mãe e eu já não estávamos no melhor momento de nossas vidas quando assistimos àquilo, mas não imaginávamos que a situação pudesse piorar. Não é o que dizem? “Pior do que está, não fica”. Mentira. Fica, sim. Eu não conseguia encontrar um estágio remunerado e, enquanto isso, encarava um que não pagava nem a passagem de ônibus. Basicamente, investia dinheiro no trabalho para adquirir experiência. Já minha mãe acreditava que poderia ser demitida a qualquer momento, porque era exatamente isso que o novo chefe do seu emprego já havia feito com a maioria dos outros funcionários. Mas foi ali, assistindo ao Fantástico, naquela noite, que eu senti meu mundo cair. Eu nunca tinha passado por nada nem remotamente parecido com aquilo. Era 13 de fevereiro de 2011. Nós estávamos vendo o programa, como fazemos todos os domingos e, neste caso especificamente, eu não prestava muita atenção, porque estava conversando com alguns amigos pelo messenger. Mas de repente a televisão gritou comigo: ela falou o meu nome. Desviei o olhar da tela do computador para a da TV imediatamente e percebi que não era sobre mim que estavam falando. Era sobre o meu pai. Por maus dos pecados, nós temos o mesmo nome (uma auto-homenagem que ele se fez na ocasião do meu nascimento). A matéria jogava na tela uma série de fotos e vídeos dele para ilustrar o que estavam chamando de Operação Guilhotina. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava. A adrenalina da surpresa tomou o meu corpo e percebi que estava com dificuldade de entender o que os apresentadores diziam. Mas, de alguma forma, me forcei a entender. Meu cérebro trabalhou rapidamente, tentando resgatar na minha memória recente o que 8
  8. 8. eles estavam falando antes do meu pai aparecer na tela. Com algum esforço, encontrei a resposta: ele estava preso. Olhei para a minha mãe como quem busca uma explicação. Eu tinha 21 anos e não era mais nenhuma criancinha, mas era assim que me sentia: como se ela pudesse me dizer que tudo não passava de um mal entendido e que iríamos ficar bem. Mas ela estava muito mais chocada do que eu e me encarava com um olhar apavorado. Olhei de novo para a televisão, mas eles já estavam falando de outro assunto. Talvez da próxima garota fantástica. Não me lembro bem. Achei uma enorme falta de respeito jogar aquela bomba no meu colo e me deixar ali, cheio de perguntas. Mas talvez Patrícia Poeta, a então apresentadora, e Zeca Camargo tenham me explicado tudo muito bem, naqueles segundos em que ensurdeci de emoção. Não sei. Voltei a olhar para minha mãe. - Você viu isso? - Eu tô passando mal. Enquanto eu me levantava para beber o primeiro de muitos copos d’água despropositais daquela noite, ela procurava o telefone do meu avô para entender o que tinha acontecido. Como se a água tivesse feito com que eu voltasse aos meus sentidos, um sentimento de vergonha invadiu o meu corpo. Com que cara eu iria à faculdade no dia seguinte? Corri para o computador e fiquei off no messenger. Não queria que ninguém comentasse aquela matéria comigo, até porque eu ainda não sabia o que dizer nem o que pensar sobre aquilo. Coloquei o nome do meu pai no Google, enquanto minha mãe falava com meu avô ao telefone. Não era a primeira vez que eu fazia isso na minha vida. Mas foi a primeira que me apareceram resultados assustadores de verdade: a prisão dele estava noticiada nos sites dos maiores jornais do país. 9
  9. 9. Operação Guilhotina: dos charutos cubanos à revenda de armas apreendidas para o tráfico O inspetor Leonardo da Silva Torres, o Trovão, conhecido por fumar charutos cubanos durante operações em favelas do Rio, era chefe de uma das quadrilhas desmanteladas na Operação Guilhotina. Relatório da PF mostra que o grupo comandado por ele era formado pelo PM Aldo Leonardo Premoli Ferrari, e pelos inspetores Flávio de Brito Meister, o Master, e Jorge do Prado Ramos, o Steve, ex-integrantes da Delegacia de Combate às Drogas (Decod). O grupo, segundo a PF, negociava armas arrecadadas em operações policiais, com os traficantes Nem da Rocinha e Roupinol. Os bandidos ainda pagavam mensalmente, cada um, R$ 50 mil aos policiais para receber informações sobre ações policiais em sua comunidades. O bando chefiado pelo inspetor Torres costumava revender para Roupinol armas e drogas apreendidas em favelas dominadas pela facção rival. Foi o que aconteceu em 2009, após o grupo realizar uma operação no Morro da Mangueira. Na ocasião, uma metralhadora .30 apreendida na ação foi desviada e vendida para Roupinol. A investigação cita várias outras negociações conduzidas por Torres, que estava lotado na 17 DP (São Cristóvão). Um dos trechos da interceptação telefônica feita pela PF mostra que até as mulheres dos policiais sabiam do envolvimento deles na venda de armas. (...) O bando do inspetor Torres também participou da "garimpagem" no Complexo do Alemão. De acordo com o relatório da PF, o inspetor teria encontrado R$ 2 milhões no alto do Alemão. O dinheiro, segundo escutas, foi retirado da Vila Cruzeiro dentro de uma picape durante a fuga de traficantes para o Alemão. O Globo – 12/02/2011 10
  10. 10. Agente é acusado de vender informações a bandidos Famoso por fumar charuto durante as operações, Leonardo da Silva Torres, o Torres Trovão, lotado na 17 ª DP (São Cristõvão), segundo a Polícia Federal, é responsável por vender armas a traficantes, passar informações sobre incursões da polícia aos bandidos e receber por isso R$ 100 mil por mês — mesmo que as ações não ocorram. Ele foi preso em casa no Maracanã. De acordo com as investigações, Torres Trovão é ligado a Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, chefe da Rocinha, que está foragido, e Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, morto ano passado, em operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) no Morro do São Carlos, de onde era chefe do tráfico. Os dois são da facção Amigos dos Amigos (ADA). Segundo a PF, de cada um dos criminosos, Torres Trovão recebia R$ 50 mil. Ainda segundo informações obtidas pela polícia, ele teria vendido uma metralhadora ponto 30 no Morro da Mangueira em 2009 e duas pistolas calibre 9 milímetros com kit rajada, encontradas no Morro da Coroa, em julho de 2009. Vendeu as pistolas por R$ 14 mil na Rocinha. Ele teria, ainda, vendido a criminosos uma pistola 9 milímetros de uso pessoal. Os contatos entre Torres Trovão e os chefões do tráfico na Rocinha e no São Carlos, eram feitos através do informante Magno Carmo Pereira, que está preso, e do advogado de Nem, identificado como Alípio e que morreu de câncer. Por meio deles, eram negociadas as informações e as propinas com Nem e Roupinol. Algumas vezes, era ele que recebia o dinheiro direto do advogado de Nem. Torres Trovão é um dos personagens do documentário americano ‘Dancing with The Devil’, que narra a guerra do tráfico em comunidades do Rio. O Dia – 12/02/2011 11
  11. 11. Inspetor Trovão vendia armas para traficantes Integrado por cinco policiais e um informante, o grupo de policiais chefiado pelo inspetor Leonardo da Silva Torres, o Trovão, é apontado pela PF como responsável pela venda de pistolas, metralhadoras e fuzis apreendidos em operações policiais para os traficantes Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol e Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha. De acordo com a investigação, os policiais são acusados ainda de receber do tráfico uma propina mensal de R$ 100 mil. Segundo o relatório da Polícia Federal, no dia 24 de julho de 2009, durante uma operação no Morro da Coroa, deflagrada pela Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), onde Trovão era lotado, foram apreendidos, um fuzil dourado e duas pistolas Glock, calibre nove milímetros. Vinte e quatro horas depois, as pistolas foram vendidas pelos policiais para o traficante Roupinol. O encarregado de intermediar o negócio foi o informante Magno Pereira do Carmo, que está atualmente preso no Presídio Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. O mesmo grupo de policiais também é apontado como sendo o responsável pela negociação de uma metralhadora ponto 30. Capaz de derrubar helicópteros, a arma, apreendida em 2009 no Morro da Mangueira, foi vendida para traficantes do São Carlos e da Rocinha. A mesma equipe de policiais também teria participado da apreensão de um fuzil, em 4 de dezembro de 2009, no Morro da Pedreira. Extra – 12/02/2011 12
  12. 12. Policiais e traficantes negociavam por SMS Os policiais militares adidos, ou seja, “emprestados” pela PM a unidades da Polícia Civil, como a Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) e a Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), caíram na teia de monitoramentos telefônicos da PF a partir da troca de mensagens SMS — torpedos de celular — com os traficantes de drogas Antônio Bonfim Lopes, o Nem, chefe do tráfico de drogas na Favela da Rocinha, em São Conrado, e Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, que era chefe do tráfico no São Carlos, morro do Estácio, e morreu em confronto. Segundo o relatório de investigação da PF, os inspetores da Polícia Civil Leonardo da Silva Torres, o Trovão; Flávio de Brito Meister, o Master; e Jorge do Prado Ramos, o Steve; e o cabo PM Aldo Leonardo Premoli Ferrari, o Léo Ferrari, ex-integrantes de unidades operacionais especializadas, vendiam informações sobre a movimentação da polícia e negociavam armas apreendidas em operações. O elo de negociação do grupo com os traficantes era Magno Pereira do Carmomas. O monitoramento comprovou também a relação direta entre os policiais e os chefões. Em 2 de setembro de 2009, às vésperas de uma operação da Federal para prender Roupinol, o bandido foi avisado, via torpedo, que deveria fugir da favela ou se esconder na comunidade. Magno foi identificado na Operação Paralelo 22, da Delegacia da Polícia Federal de Macaé. Preso, em 27 de agosto de 2010, passou a ser réu-colaborador na investigação. De acordo com a PF, Torres Trovão dialogava, via SMS, com Nem e Roupinol, semanalmente, para vazar aos bandidos qualquer movimentação policial que tivesse ligação com o negócio da dupla. Com ou sem operação nas favelas, sua equipe recebia R$ 100 mil por mês dos traficantes. Extra – 14/04/2011 13
  13. 13. Minha mãe desligou o telefone e veio me contar o que meu avô havia dito. - Ninguém conseguiu ver o Léo ainda, só o advogado. Mas ele disse que seu pai tá tranquilo. Seu avô falou que temos que esperar o dia de visita para vê-lo. A parte dos dias de visita fez a minha ficha cair: prisão. Isso era muito sério. A que ponto meu pai tinha chegado? Só podia ser visto nos dias de visita. Eu estava cada vez mais horrorizado. Conversando com minha mãe, chegamos à conclusão de que meu avô não saberia de qualquer crime que meu pai tivesse cometido. Isso não é o tipo de assunto que filhos contam orgulhosos para os pais. Ele devia estar tão perdido quanto a gente. Em seguida, minha mãe começou a dizer o quanto estava arrasada com a notícia. Mas não precisava falar nada: dava para notar pela sua respiração ofegante e pelo seu rosto, de repente pálido e perturbado. Eu estava paralisado e bebendo litros d’água sem a menor sede, apenas para me manter de pé na cozinha, longe do computador e na segurança da presença da minha mãe. Mas ela queria saber mais informações e pediu que eu lesse as notícias da Internet em voz alta. Minha mãe não aceitou o que “estavam falando sobre o meu pai” e fumou um maço inteiro de cigarros. Profundamente envergonhado, eu sentia que minha cabeça estava para explodir a qualquer momento. Era informação demais para mim. Meu pai é um bandido. Meu pai vendia drogas. Meu pai ajudava os traficantes. Sou filho de um criminoso. Meu pai está preso. E agora? Todos esses pensamentos pipocavam na minha mente, como se ela tivesse se tornado um micro-ondas compacto e irritante. Nunca imaginei passar por algo assim. 14
  14. 14. Minha mãe disse que eu deveria visitá-lo na prisão. Obviamente, eu não pensava em fazer isso. Se não o encontrava antes, menos ainda depois que ele se mudou para uma cela. Naquele momento, tudo o que eu queria era que as pessoas se lembrassem que eu e meu pai não tínhamos o menor contato. Não tenho nada a ver com esses crimes. Não sou cúmplice. Aos poucos, dei-me conta de que estava sentindo raiva. Raiva por ele ser tão pequeno e tão burro. Raiva de sua ambição desmedida, do seu despropósito, da sua falta de princípios. Por um momento, também questionei o fato de receber uma pensão miserável enquanto ele ganhava uma mesada de milhares do Nem. Mas preferi assim. Foi melhor não ter tido acesso ao dinheiro sujo. Ele me dava nojo por tudo que havia feito, e, repito, muita vergonha, como se eu tivesse culpa de ser filho de um bandido. Nunca me dei bem com meu pai. Não gosto dele desde pequeno. Mas isso era algo pessoal. A sua personalidade nunca me agradou. Somos completamente diferentes e isso é difícil de remediar. Profissionalmente, no entanto, já acreditei que ele fosse bom, como na vez em que recebeu um prêmio das mãos do ex-deputado estadual Álvaro Lins. Eu deveria ter desconfiado que algo estava errado quando, mais tarde, esse mesmo político foi preso com acusações de lavagem de dinheiro e facilitação do contrabando. Agora, era a vez do premiado, um completo zero à esquerda. Não vou negar: eu já havia pensado na possibilidade de meu pai ser corrupto. Sempre ouvi dizer que policiais ganhavam mal, e o que eu via nas poucas vezes em que estive com ele não era isso. Ele estava sempre de carro novo, gastando uma fortuna em restaurantes caros, comprando roupas e acessórios de marca e levando uma vida de luxo. Dava para notar que ele não tinha do que reclamar financeiramente. Mesmo assim, nunca imaginei 15
  15. 15. que ele estivesse envolvido em algo tão grande assim. Se o pensamento da corrupção pequena já me dava asco, a notícia do relacionamento estreito com traficantes foragidos me causava uma enorme aversão. Ele não deveria estar prendendo essa gente? Não era para isso que ele era pago? Não era disso que ele se orgulhava tanto? “Eu gosto de prender bandido!” Sei. Sou a favor da justiça: se cometeu um crime, tem que pagar. Se foi meu pai quem aprontou, mais ainda. Ele nunca foi o retrato do bom moço. Mas, por outro lado, eu pensava no quanto essa prisão poderia me prejudicar. Minha mãe já estava nervosa com relação à pensão (ela havia ido a uma cartomante naquela semana e a mulher tinha lhe avisado sobre preocupações financeiras). Preso, não teria como ele depositar aquela miséria que destinava a mim (que, apesar de pouca, era essencial para a economia do lar). E eu duvidava que a mulher dele fosse assumir para si essa responsabilidade. Ela nunca teve o que se possa chamar de boas relações com a minha mãe, na conta de quem o dinheiro era depositado, apesar da minha maior idade. Ou seja: problemas à vista. Minha mãe não sabia o que fazer. Eu menos. Só queria um buraco para me enfiar. 2 No dia seguinte à matéria do Fantástico, a sensação de vergonha e desespero não tinha diminuído – pelo contrário. Era segunda-feira, o dia de encarar o mundo. Na noite anterior, a melhor amiga da minha mãe – talvez a única – já havia ligado dizendo que tinha assistido à reportagem. Segundo ela, o programa passou gravações telefônicas, que ela não sabia dizer se a voz era do meu pai. Estremecemos, mesmo sem saber se aquilo era verdade. A emoção não nos deixou prestar atenção na matéria. Mas gravações soavam como algo muito incriminador. 16
  16. 16. Uma prova vinculada ao vivo. Lembrei-me do caso do cantor Belo e o código do tênis. Estranhamente, no entanto, ninguém ainda tinha me procurado. Fui para a faculdade morrendo de medo, porque não sabia como lidar com essa situação: eu nunca tinha sido filho de bandido antes. E se quando chegasse lá todos estivessem falando do meu pai? Ou de mim? Ou dos dois? Mas não, isso não aconteceu. Ninguém tocou no assunto, o que me pareceu muito estranho. A sensação que tive é que minhas amigas estavam se esforçando para encontrar quaisquer outros temas de conversa, menos esse. Talvez elas também não soubessem lidar com o fato. No estágio, tudo foi tranquilo também. Ninguém sabia que o cara da televisão era o meu pai, o que não intimidou o pessoal de comentar o assunto cada vez que um novo noticiário falava da chamada Operação Guilhotina (e eu sempre me assustava, saltando da cadeira, quando diziam especificamente o nome do meu pai, com medo de alguém fazer alguma ligação). Como se tratava de uma redação de jornalismo online, a TV ficava ligada o tempo inteiro nos telejornais para que não deixássemos nenhuma informação passar, caso surgisse algo que ainda não tivéssemos noticiado. Por isso, afirmo: não teve um programa jornalístico que não tenha falado do meu pai naquele dia. Algumas entrevistas davam a entender que, no mínimo, ele seria exonerado. Obviamente, ouvi opiniões ácidas dos meus colegas de trabalho – exatamente o que eu falaria se não fosse meu pai o criminoso em questão. Mas isso serviu para aflorar em mim aquele espírito de justiça que já havia dado sinais no dia anterior. Agora, eu já tinha uma postura diante daquilo tudo: era só me portar como se ele não fosse meu pai. Se todo mundo podia tratá-lo como um personagem condenável, eu também 17
  17. 17. podia. Como já era obrigado a ocultar sua paternidade para sobreviver àquele caos e fugir da curiosidade alheia, resolvi levar isso ao extremo. A partir daquele momento, ele não era mais meu pai. Pronto. Decidido. O meu erro foi esquecer de avisar ao mundo a minha decisão, porque, se o Fantástico não tinha surtido efeito, o mesmo não aconteceu quando a notícia foi dada pelo Jornal Nacional. Uma amiga da faculdade imediatamente veio falar comigo na Internet e perguntou se era verdade que o meu pai estava preso. Pensei: você sabe que é verdade. Por que ela tinha que fazer isso comigo? Era ainda mais constrangedor ouvir isso da boca de conhecidos do que dos repórteres e apresentadores da televisão. - É verdade sim, mas não sei de nada além do que foi dito na televisão. - Meu padrasto que me contou. Fiquei de cara. Achei que ele tinha confundido. Quem dera. Não sei se ela comentou com as nossas amigas e colegas de classe sobre isso. Provavelmente sim. Mas ninguém nunca tocou no assunto comigo. Se entraram em comum acordo de não me fazerem mais perguntas, agradeço a amigável decisão. Se nunca souberam da prisão, melhor ainda: fechem esse livro e vão ler o jornal de hoje. Se, no entanto, as meninas da faculdade não falaram nada, tinha uma pessoa que eu sabia que ia me ligar na primeira oportunidade. Na verdade, estava estranhando que não tivesse telefonado ainda. Mas, no terceiro dia de inferno, meu celular tocou. Era ela: Kátia, uma amiga da época de escola que não perdia a chance de tripudiar em cima da vida dos outros. Atendi já sabendo o que ela queria, mas me fingindo de morto. - Tudo bem? - Tudo, e você? 18
  18. 18. - Tudo bem mesmo? - Aham. - Você não tá precisando de nada? - Como assim, Kátia? - Não sei. Um dinheiro, uma cesta básica, uma advogada... - Do que você tá falando? - Desse negócio do seu pai... - Você é ridícula. E ela começou a gargalhar, achando que o território estava propício para suas brincadeiras (um engano, claro). A maioria das pessoas fica irritada ou chateada com seus comentários ácidos, mas eu não me importo. Prefiro entrar no jogo e levar tudo na esportiva. Sou a favor de enxergar as piores situações da vida com bom humor. Contei tudo o que eu sabia e disse que essa era a maior vergonha da minha vida. “Quem te conhece sabe que isso não tem nada a ver com você”, me respondeu. Senti-me até reconfortado, apesar de surpreso com sua declaração. Mas logo Kátia voltou a ser ela mesma: “Quer dizer então que Trovão virou chuvinha fina?” Rimos. As notícias continuaram, sempre atualizadas e com detalhes mais graves. O chefe da polícia civil pediu afastamento do cargo, ao que tudo indicava, para não ser cassado (uma recomendação do Secretário de Segurança). Minha mãe passou a comprar o jornal diariamente para saber as novidades – e elas sempre estavam lá, bem ilustradas. Ela ficava arrasada. Eu, com raiva. Dele. Desesperada, minha mãe apelou mais uma vez para a cartomante vizinha do nosso prédio. Na verdade, ela queria saber por que não fora avisada, na última vez em que se consultou, de que meu pai seria preso. Mais esperta, a outra a levou no papo e a pergunta nem sequer foi feita. Segundo a 19
  19. 19. esotérica, minha mãe, por ser quem sustentava a casa, seria mais afetada do que eu com essa história toda. Ela disse também que a situação do meu pai era grave (o que era só assistir à TV para saber). “Vão cair ele e mais quatro. E as coisas tão respingando em você. Você viu o que tá acontecendo na polícia?” Na mesma semana, outra amiga da escola – Fabrícia – me procurou. Não é incrível como as pessoas não aparecem nunca, mas são como urubus em cima de carniça quando acontece algo ruim na vida dos outros? - Posso te fazer uma pergunta escrota? - Pode. - Era o seu pai naquelas notícias? Que desagradável. Ela não podia perguntar a minha posição sexual favorita ou qualquer outra coisa mais deselegante? Mas não. Tinha que ser isso. Conversei rapidamente com ela, que pareceu estar mais desconfortável com o assunto do que eu, verdade seja dita. No mesmo dia, saí com Juliana, outra amiga da época da escola (essa, amiga mesmo, daquelas que a gente troca uma ideia de vez em quando e não apenas quando algo vergonhoso acontece para um dos lados dessa amizade). Fomos ao show da decadente banda de rock Paramore e, curiosamente, ela não tocou no assunto. Preferi assim. Gostei. Pela primeira vez desde que aquela notícia foi ao ar, me diverti sem culpa. E quando comecei a acreditar que a minha rede de contatos ignorava completamente o noticiário nacional – afinal, já haviam se passado alguns bons dias e apenas três pessoas tinham comentado a prisão comigo – Kátia voltou a me procurar, porque, como diria minha mãe, todo castigo para corno é pouco. No fim da semana, meu pai já havia deixado de ser a cara da Operação Guilhotina. O assunto ainda estava 20
  20. 20. repercutindo, porque eram muitos policiais presos e muita gente grande envolvida no caso, mas não falavam mais especificamente dele, o que com toda certeza já era um alívio – e foi isso que eu disse para ela. - Não falam mais o nome dele nas matérias. Vamos ver se assim as pessoas esquecem... - Eu não vou esquecer nunca! – e caiu na gargalhada, sem me deixar responder que tampouco esqueceria. Acho que prisão, por mais que a pessoa seja inocentada depois, é algo que deixa marcas eternas. Ela me disse que a Juliana tentou tocar no assunto comigo no dia do show, mas eu não comentei nada e ela preferiu não insistir. Juro que, se tentou mesmo, eu não percebi. Ela foi muito sutil na abordagem. Com ela, eu teria conversado tranquilamente (embora tenha sido ótimo não ter que falar disso por algumas horas). Quem passa pelo bombardeio da Kátia, a ácida, está preparado para qualquer outro. - Será que a sua mãe não sabia de nada? Ela é telefonista, ganha pouco, você sempre teve a sua mesadinha... Haja paciência diante de tanto absurdo. Ela ainda tentou fazer fofoca com o assunto, dizendo que a Fabrícia era “muito sonsa”. Segundo Kátia, quando a garota veio falar comigo, já tinha espalhado a notícia para Clarissa, outra colega da época de colégio. “Ela foi podre perguntando para você, como quem não quer nada. Me surpreendeu. Muito falsa”. Não me deixei levar por ela. Não vejo a situação dessa forma. Acho normal que as pessoas comentem, justamente por me conhecerem. Normalmente, não temos nenhum vínculo com a sessão policial do jornal, então quando nos sentimos relativamente próximos do caso, comentamos mesmo. Eu, no lugar de qualquer uma delas, faria isso. Não julgo. 21
  21. 21. - Quando falei com a Clarissa, ela me perguntou onde eu tinha visto isso. Respondi: na tv, no jornal, no rádio, em todos os lugares. Não se fala em outra coisa. E logo a ligação terminou. Agora com a certeza de estar na boca do povo. Não se fala em outra coisa. Por coincidência, minha mãe ligou para o banco no mesmo dia para saber quanto tinha em sua conta e, felizmente, a pensão havia sido depositada. Era menos um problema. O dinheiro era o que mais me preocupava. Passaríamos por maus bocados sem a pensão. Repito: era um salário mínimo (sempre é bom deixar claro que não tenho acesso a um real do dinheiro sujo), mas necessário. 3 Com o tempo, a imprensa abandonou o caso, talvez por falta de novidade, talvez por falta de interesse, talvez por conveniência. Nem mesmo na redação onde eu trabalhava tocaram mais no assunto, fora um estagiário que tentava a toda custa uma entrevista com o delegado Carlos de Oliveira, que fora preso junto com o resto dos policiais. Este foi ainda mais exposto do que meu pai, e o estagiário achava que conseguiria algumas declarações dele, por serem vizinhos (uma tolice, porque não há vizinhança quando alguém está preso). Toda a redação o incentivava a investir nessa matéria, o que foi uma razão a mais para eu ficar calado sobre o Trovão ser meu pai. Se descobrissem, poderiam querer tirar vantagem disso de alguma forma e eu não estava disposto a colaborar. Não mesmo. Então, subitamente, o reality show terminou. Não tivemos mais notícias sobre a operação, sobre os presos, sobre a possibilidade de habeas corpus (que a nova chefe da Polícia Civil já havia descartado publicamente, mas até onde sabíamos os policiais continuavam tentando), nada. Foi aí que minha mãe voltou a ligar para o meu avô, cerca de um mês depois do 22
  22. 22. primeiro telefonema. “Ele não é fácil também. Pedi para me avisar de qualquer novidade e me ignorou”. O fato é que meu avô também não tinha muita informação. Ele se limitou a defender meu pai com unhas e dentes, totalmente crédulo de sua inocência (algo que minha mãe queria acreditar também, mas eu não permitia, porque para mim estava tudo muito óbvio). - Você não sente pena dele? - Eu não. Se fez, tem que ser preso mesmo. - Eu sinto pena, mesmo que ele seja culpado. Seu pai não está acostumado com essas coisas. Ele é metido a fino. - Se ele é bandido, tem que ser tratado como tal. Ele era pago para prender os traficantes, não para ajudá-los. - Eu sei. Mas dá pena. - Eu não sinto. Se fosse outra pessoa na televisão, que não conhecêssemos, você estaria esculachando e não defendendo. - Você é muito frio, Leozinho. Meu comportamento começou a incomodar as pessoas. O meu namorado na época, que era a única pessoa com quem eu me sentia confortável para dizer tudo que estava passando na minha cabeça, também achava que eu não podia julgar meu pai antes de sua condenação. Ele estudava Direito, então era cheio dessas regrinhas judiciais de convivência. Mas, para mim, estava tudo muito claro: meu pai era culpado. Não havia dúvidas disso. Eu já o havia condenado. Foi então que a mulher dele ligou para conversar com minha mãe. Uma atitude inédita em toda a minha vida – e provavelmente na delas também. Uma vez, quando eu era criança, minha mãe ligou para a casa do meu pai para reclamar que ele havia se esquecido de depositar a pensão, e quem atendeu foi ela. Não lembro direito o porquê, mas as duas se estressaram nesse pouco contato, até que meu pai tomou o 23
  23. 23. telefone da mão da sua mulher. Desde então, elas nunca mais trocaram palavras. Pelo menos até esse dia, mais de dez anos depois. Sua desculpa para ligar era um pedido para que a minha mãe deixasse de telefonar para o meu avô querendo saber as novidades do caso. Isso porque “ele já estava muito velho e, sempre que falava da prisão do filho, ficava muito nervoso”. Pediu para que minha mãe, a partir de então, ligasse para ela quando quisesse saber de algo (o que, obviamente, não tinha o menor cabimento). Mas, como disse, isso foi apenas uma desculpa. Pelo que minha mãe me relatou, concluí que a mulher estava precisando desabafar. E desabafou – não necessariamente com a pessoa mais adequada, é claro. Ela começou a defender a inocência do meu pai, como se eu ou minha mãe o tivéssemos acusado de alguma coisa. Ok, eu vinha fazendo isso, mas não exteriorizava, então não tinha como ela saber. - Parecia que eu tinha ligado para a casa dela condenando o seu pai. - Ela devia estar nervosa, já perdendo o senso de ridículo. - Ela passou um recado do seu pai. Ele pediu para te dizer que é inocente. - Como se eu fosse otário de acreditar. - Ela disse que nem 10% do que estão dizendo na televisão é verdade, que estão inventando muita coisa. - Então alguma coisa é verdade. - É, também pensei isso na hora, mas fiquei calada. - Para mim, é tudo verdade, porque falam em gravações, em torpedos, em várias provas. Mas vamos supor que a maioria das coisas seja mentira. Se apenas uma das acusações feitas for verdadeira, eu já tenho nojo dele. 24
  24. 24. - Não fala isso do seu pai! - Mas é verdade. - Ele é seu pai ainda assim. - Não tenho que respeitar ou gostar de alguém só porque ele é meu pai. Ele só tem esse título, mas nunca fez nada para merecê-lo. Foi pai apenas na hora de me fazer. Minha mãe sabia que eu estava falando a verdade e, contra fatos, não há argumentos. Mas ela não se calou. Continuou narrando a ligação, sempre pontuando que não via sentido na mulher do meu pai estar falando aquilo tudo para ela. - Teve uma hora que foi engraçado. Ela começou a falar do apartamento, dizendo que tinha sido comprado com o dinheiro dela. Ou do pai dela. Algo assim. Não entendi direito. Fiquei pensando: mas o que eu tenho a ver com isso? - Alguém deve ter falado algo. Lembra que saiu no jornal que as mulheres dos policiais sabiam de tudo? Ela deve ter sido sondada, por causa das gravações. Ou algum vizinho se achou no direito de esculachá-la. As pessoas gostam de apontar o dedo. - Pode ser. - Porque também é estranho que o cara encontre dois milhões de reais e a mulher não se dê conta disso. Até porque ela trabalha em banco, deve ser ela que cuida do dinheiro deles. - Espero que seu pai não tenha sido burro ao ponto de botar esse dinheiro no banco. A primeira coisa que vão fazer é investigar as contas. Tem que ter depositado lá na Suíça! Rimos das ideias da minha mãe. A situação era delicada e tensa demais – mal parecia real – e às vezes eu tinha a impressão de estar comentando o enredo de um filme ou de uma novela e não da vida pessoal do meu pai. Mas, assim, estávamos conseguindo levar tudo no bom humor, pelo menos. O Trovão havia, de fato, virado um personagem, cujas histórias conseguíamos acompanhar com certo distanciamento. 25
  25. 25. Ao me ver sorrindo pela primeira vez na conversa, minha mãe aproveitou para falar a cereja do bolo: - Depois ela disse também que seu pai fica muito chateado com o seu afastamento, essa indiferença. - Nem comece. - Não sou eu que estou falando. É ela. - Não quero ouvir besteira. Odeio esse papinho. Falam como se eu, do nada, tivesse tomado a decisão de me afastar. Isso foi natural. Ele não me procurou também. Ele nunca fez a parte dele, por que eu teria que fazer a minha? Não temos relação alguma. - Ele é seu pai... - Você fica repetindo isso o tempo todo, como se esse mantra explicasse ou justificasse tudo. Para mim, isso não significa nada. Ele é meu pai. E daí? No que isso muda? Nada. Não é por causa de uma herança genética – e nada mais – que eu sou obrigado a gostar dele ou, pior ainda, conviver. Não me sinto minimamente conectado a esse cidadão. Ao me escutar, minha mãe baixou a cabeça por alguns segundos, desconsolada, como quem evita encarar a minha opinião e tenta ignorar a realidade esfregada em seu rosto. - Enfim, ela pediu para eu falar com você, porque acha que sou a única pessoa que pode conseguir reverter essa situação. Falei para ela que já cansei de conversar contigo, mas que você é maior de idade e cabeça dura. Não posso te forçar a nada e, enquanto podia, fiz. - Não pode e não vai mesmo. - Mas eu também acho que vocês deviam se falar. - Bem, eu não acho, não quero e não estou a fim de continuar essa conversa. Era só isso? 26
  26. 26. - Era. Eu não vou me indispor com você por causa do seu pai. Falei para ela: o problema é que dois bicudos não se beijam. - Ótimo. Melhor assim. 27
  27. 27. Segunda parte Infância
  28. 28. 10 coisas que meu pai me ensinou 1) Emparelhar garfo e faca no lado direito do prato no fim das refeições; 2) Não olhar para as outras mesas no restaurante (e se olhar, ser discreto); 3) Segurar os óculos pela ponte e não pelas hastes; 4) Não falar “cruz credo”; 5) Experimentar um prato antes de dizer que não gosto; 6) Que homem dá soco, mulher dá tapa; 7) Que homem não diz obrigada, mas obrigado; 8) Não temer o mar; 9) Usar óculos escuros para não parecer um bobo com os olhos semicerrados; 10) Indiretamente: só discutir com quem vale a pena.
  29. 29. 4 Lembro que levei algum tempo para tomar coragem de fazer a pergunta. Naquela altura da minha vida, eu já sabia os valores morais que ela representava. Alguém poderia tomar tal questionamento como ofensa. Eu poderia até apanhar. Ou ficar de castigo. Mas não me importava. Precisava saber. Queria aquela resposta. Foi assim que, com cinco anos de idade, sem mais rodeios, coloquei a minha mãe contra a parede (era isso que eu me sentia fazendo, ao menos). Era a hora da verdade. Eu sabia que aquele momento iria dividir a minha vida em um antes e depois – eu não me lembro, mas, provavelmente, fui influenciado pelo enredo de alguma novela mexicana. Eu gostava de assisti-las, embora a vovó tentasse me impedir, alegando que eu ficava chorão como a Maria do Bairro. - Mãe, você já traiu? – foram exatamente essas as palavras que eu usei, sem tirar nem pôr, tentando fingir desinteresse para encaminhá-la à minha armadilha. - Já. – minha mãe sempre foi assim: sincera e direta. No mesmo ano, ela já havia me confirmado a inexistência do Papai Noel. Eu tinha só quatro anos e ela não havia pensado duas vezes antes de acabar com a magia do Natal. Mas claro que a situação agora era mais delicada. Saber que a minha mãe era uma mulher infiel era, no mínimo, desconfortável (para não dizer decepcionante). A imagem de uma heroína começava a se desfazer no meu imaginário (talvez cedo demais). Mas, de qualquer forma, era justamente essa a resposta que eu queria. Além de fazer sentido, a revelação me dava esperanças. - Quando o Príncipe Charles veio ao Brasil, você o encontrou? – eu tinha essa fantasia de um dia descobrir que era 30
  30. 30. filho bastardo da realeza. Não custava aproveitar a oportunidade do papo para saber se isso era possível. Mas minha mãe riu. - Claro que não! O que você está querendo saber? - Então não há a menor chance de eu ser irmão de Harry e William? – dessa vez, ela riu mais. - Não, Leozinho. Você é filho do seu pai mesmo. - Você já o traiu? – era aqui que eu queria chegar. Se ela o tivesse traído, haveria a chance de eu ser filho de outro homem que não meu pai. Não me pergunte como eu tinha esse raciocínio tão precocemente, porque eu também não sei. Devo ter ouvido em algum lugar algo a respeito disso e, pasmem, entendi. Eu não dominava, claro, o aspecto sexual com o qual eu estava lidando naquele momento. Traição para mim, naquela época, era beijar outro homem. Então, um simples beijo poderia ter mudado o meu destino. Eu me contentaria em não ser filho do Príncipe Charles, desde que pudesse descobrir o meu pai de verdade. - Claro que não! – ela pareceu quase ofendida, embora tenha me revelado, já adulto, que o traiu sim, para se vingar, mas então eu já era nascido. - Tem certeza? - Tenho. - Mas você disse que já traiu. - Mas não o seu pai. – eu já contava com isso. Ela poderia blefar. Mas eu tinha um plano B. Embora não quisesse colocá-lo em prática naquele momento, foi o que fiz. - Então eu sou adotado? - Que papo é esse, Leozinho? - Pode falar, eu não vou ficar chateado. Você vai ser sempre a minha mãe. - Eu sou sua mãe. Você não é adotado. Por que está dizendo isso? – ela agora parecia um misto de irritada e 31
  31. 31. preocupada, embora eu não conseguisse saber se pelo meu possível desejo de ter outros pais ou por eu estar perto de descobrir a verdade. - Apenas quero saber. Eu tenho direito. – que criança irritante eu devia ser... - Tenho certeza de que você é meu filho. - E que meu pai é meu pai? - E que seu pai é seu pai. - Como você pode saber se eu não fui trocado na maternidade? – valia tudo, até mesmo perder a minha mãe, para ter outro pai. Com sorte, eu teria duas mães ao descobrir a minha família de verdade. Eu detestava meu pai. Ele e minha mãe se separaram quando eu tinha um ano de idade. Obviamente, não me lembro disso. Assim como não me lembro dos dois juntos (e na verdade me custa até imaginar). Para mim, sempre fui filho de pais separados. Até hoje não sei direito por que eles terminaram (embora a questão importante talvez seja “por que começaram?”). Já ouvi minha mãe dizer que ele a traía – o que é bastante provável, porque eu já o vi “galinhando” descaradamente dezenas de vezes. Segundo minha mãe, enquanto ela ficava em casa tomando conta de mim, ele saía com os amigos à noite, dizendo que ia buscar emprego e, ao invés de voltar com dinheiro, chegava em casa com menos do que havia saído. Minha avó tem outra versão. Não que ela tenha me contado diretamente; mas quando morávamos com ela, era comum minha mãe e ela brigarem. Nervosa, minha avó falava mais do que devia (algumas vezes, por exemplo, disse que minha mãe estragou a vida dela ao ter filho “antes da hora”, aos 21 anos, tendo que interromper para sempre seu curso universitário). Conheci boa parte da história da família por meio 32
  32. 32. dos longos discursos histéricos e agressivos de Maria do Carmo. É esse o nome dela. Segundo minha avó, ela escutava as brigas constantes dos meus pais (eles moravam em um apartamento ao lado da vila onde fica a casa dela). “Eu o ouvia gritando. Você o deixava fora de si e ficava caladinha, que nem faz comigo”, era o que ela dizia para alegar que era minha mãe quem era o “espírito ruim”. Em uma dessas brigas, meu pai teria batido na minha mãe. “Você não aguenta surra de homem”, minha avó dizia, como se isso fosse algum defeito. Minha mãe não teria esperado meu pai levantar a mão para ela uma segunda vez e “voltou para casa, com um filho no braço”. Sempre acreditei nessa versão – o que já era motivo o suficiente para gerar aversão ao meu pai – mas, como disse, também não duvido que ele tenha dado umas boas puladas de cerca e que, talvez, fossem elas o motivo das brigas relatadas mais tarde pela vovó. Na verdade, isso não importa. Por mais que essas histórias sejam verdadeiras, não sinto que as vivi. Embora eu estivesse lá, no berço, chorando, eu não me lembro de nada disso. Uma vez, minha mãe me disse que eles brigavam tanto que eu, bebezinho, não podia escutar brigas na televisão, que começava a chorar. Mas as memórias mais antigas que eu tenho são as de um homem alto e forte, com perfumes que nunca me agradavam (tenho rinite alérgica), indo me buscar nos fins de semana. Diziam que ele era meu pai. Para mim, era a materialização do Bicho-Papão. Lembro-me como se fosse ontem. Cada vez era um novo martírio. Ele aparecia, geralmente de manhã, no portão da vila, tocando a campainha da casa da vovó freneticamente até que alguém aparecesse na janela confirmando ter ouvido aquele apito estridente, como se fosse 33
  33. 33. possível não escutá-lo. “O Léo (como disse, calhamos de ter o mesmo nome) não tem educação nem para tocar uma campainha”, dizia minha avó. Antes de abrir a porta e ir com ele, eu perguntava se tinha mesmo que fazer isso. “Tem. É o dia dele. É seu pai”, dizia minha mãe. Eu insistia para ficar. Ela falava para eu me comportar. Sem saída, eu caminhava até o portão como se caminhasse à forca. Às vezes, chorava. Dizem – não me lembro disso – que, certa vez, ao me ver chorar, meu pai também chorou. “Meu filho não gosta de mim”, teria dito. Não sei até que ponto isso é verdade. Não sei, também, se confirmei para ele - “não, não gosto mesmo” – ou dissimulei. Mas, se isso aconteceu mesmo, deve ter sido um momento extremamente tenso e não restam dúvidas de que a crise sempre esteve ali. Então não me venham com essa história de se chocar com nosso atual afastamento. Eu não posso ser culpado. Imagine a situação: você, com dois, três anos, não lembra de ter convivido com um cara que, de 15 em 15 dias, aparece para te buscar. Dizem que ele é seu pai, mas você sente que, na verdade, ele é o Bicho-Papão. Ou do Homem do Saco. Talvez o próprio Boi da Cara Preta. Vai saber... É ou não é para chorar? Era quase um castigo fixo. O que quero dizer é que ele nunca colaborou. Esses pais divorciados que veem os filhos quinzenalmente, geralmente, fazem de tudo para agradar essas crianças. Não era o caso dele. Meu pai, assim como minha mãe, ganhou esse título por acidente, mas, diferentemente dela, não aprendeu nunca a exercer o papel que lhe foi dado pelo destino. Digo com segurança que nunca nem tentou. Ele não nasceu para isso. Não tem tato com crianças. Não é carinhoso. Não é gentil. Não é divertido. E se acha engraçado, mas também não é. Ele me buscava para cumprir agenda. Levava-me à praia – porque ele já iria de qualquer forma, com ou sem mim – ou à casa dele – 34
  34. 34. assim como minha mãe, ele havia voltado a morar com os pais – e, neste caso, eu ficava com meus avós ou corria para a casa dos meus primos, ali perto, porque ele sempre tinha algo mais interessante para fazer do que brincar com uma criança. A impressão que eu tinha é que, assim como eu ia obrigado, ele me buscava obrigado. Eram os dois cumprindo com uma parte da convenção social que não lhes agradava. É compreensível: ele tinha menos de 30 anos, queria curtir a vida e eu atrapalhava. Futuramente, descobri que minha mãe e meu pai já haviam optado por um aborto antes do meu nascimento. Foi meu avô paterno quem pagou. Mas quando ela engravidou de novo – eles não conheciam a camisinha, ao que tudo indica – não tinham dinheiro para recorrer à decisão pouco ortodoxa de novo. Era mais barato me deixar nascer, o equivalente a pagar parcelado. Acredito que minha mãe tenha gostado das parcelas depois que nasci, porque essa coisa de maternidade mexe mesmo com as mulheres. Mas nunca acreditei na paternização do meu pai. Sou como um produto caro que ele comprou, não gostou, mas tem que continuar pagando. Meu pai e eu somos completamente diferentes. Não demorei muito para perceber isso. Ele também. Quando pequeno, dizia que meu time era o Flamengo, simplesmente porque via que a maioria das pessoas também era. Nunca gostei de futebol, então minha escolha era mais para satisfazer a uma tradição – todo mundo tem que ter um time e uma cor favoritos, você sabe como é – do que qualquer outra coisa. Mas meu pai é Fluminense e não aceitava isso. Começou a me comprar uniformes, bandeiras e outros produtos tricolores, que eu nunca usaria e seriam todos repassados para os filhos das empregadas. Perguntava na frente dos outros qual era o meu time. Passei a dizer para ele que era Fluminense, mas, às escondidas continuava flamenguista. 35
  35. 35. Até que um dia minha mãe deu com a língua nos dentes e falou para ele que eu preferia o Flamengo. Para quê? Vieram mais roupas, bandeiras e todo o tipo de material que agradaria a um colecionador fanático, o que não era o meu caso. Nem que fosse tudo preto-e-vermelho! Decidi: o melhor era passar a divulgar que não tinha time nenhum e que não me interessava por futebol. Eu poderia receber em troca (e recebi) muitos olhares estranhos, mas, pelo menos, seria poupado de tanta tralha. Foi o que fiz. Meu pai, então, tentou me direcionar para outros interesses seus. Quis me matricular em uma escolinha de judô, mas não conseguiu, porque eu queria fazer teatro. Deu-me um saco e um par de luvas de boxe, o que me pareceu demasiadamente selvagem. Tentou fazer com que eu gostasse de brincar com aquilo. “Soca direito. Faz que nem homem. Mais forte. Imagina que esse saco é alguém que você odeia”. Imaginei a cara dele. Soquei forte. Falei para a vovó entregar aquilo para quem quisesse. E, quando ele achou que havia baixado a guarda comigo, me sugeriu fazer aulas de música. “Escolhe um instrumento para aprender a tocar”. Eu não queria. Na época, eu não sabia, mas meu pai, antes de se tornar policial (e, junto com isso, adquirir uma postura e personalidade desagradáveis e intrínsecas à profissão), havia estudado música. “Ele não era esse troglodita não. Quando eu o conheci, fazia poesia e tocava violão”, minha mãe me disse certa vez. “Fazia tudo para mim”. Ele me confirmou essa informação posteriormente, ao se gabar que, diferente de mim, ele sim entendia de música. “Estudei na Villa-Lobos”. Então, o que ele queria, na verdade, era que eu me parecesse com ele. Apenas tenho dúvidas se ele desejava que eu seguisse seus passos ou fosse como ele gostaria de ter sido. Ao perceber que eu não era parecido com nem um nem outro, se 36
  36. 36. frustrou. Ele gostaria – talvez como todo pai, é verdade – de ser uma referência para o filho. Lembro de uma vez em que ele, revoltado, gritou que não aceitava que eu não fosse como ele. “O Leozinho é igual à Nina (minha mãe)! Não tem nada a ver comigo!” Na época, a indignação soou absurda a todo mundo, inclusive a mim. Por que diabos eu deveria ser como ele? Se ele ao menos fosse legal... Não sei que tipo de referência meu pai julgava ser. No mínimo, uma muito interessante. Para você ter uma ideia, sempre o associei ao Alexandre Frota. Aquele jeito de machão que se acha o rei do mundo, cuspindo no chão, andando sem camisa para mostrar os músculos e tratando os outros mal. Lembra-se do Frota, na Casa dos Artistas, chamando a Mari Alexandre, modelo de revistas eróticas, de pata? Então, é mais ou menos esse o meu pai. Sempre que assisto ao ex-ator pornô na televisão, me lembro dele. Até a forma de falar é parecida. Meu pai não é uma pessoa gentil. Ele se acha muito melhor do que é e trata os outros com desdém. Já cansei de presenciar cenas de rispidez dele com os supostos amigos e a esposa. Essa mulher, aliás, é uma santa e deveria ganhar um prêmio por aturá-lo há tanto tempo (já eu sou extremamente grato aos céus por não ter tido que conviver com ele na rotina normal de um lar). O fato é que meu pai em vez de tentar me moldar para que eu fosse como ele – o caso do FlaxFlu é bobo, mas é um bom exemplo do que estou falando – poderia ter se esforçado para saber quem eu realmente era. Ele nunca fez isso. Sempre preferiu me ditar quem ser. “Vamos jogar futebol, escalar montanhas, lutar boxe ou judô. Melhor: boxe e judô”. Poderia, no lugar disso, ter-me feito mais perguntas e, assim, conhecer a minha personalidade. Ele não era obrigado a saber tudo de mim, visto que nos víamos de 15 em 15 dias, mas nunca notei nele 37
  37. 37. qualquer tipo de esforço nesse sentido. Dessa forma, conseguiu unicamente a minha antipatia. E, assim, a última coisa que eu queria no mundo era ser como ele. O resultado foi contrário às suas intenções. 5 Às vezes, eu penso: será que o errado sou eu? O problema pode estar comigo. Não sou exatamente normal. Tenho consciência disso. Na minha idade, eu deveria estar indo a baladas no fim de semana para beber, dançar e “pegar mulher”. Não gosto de nenhuma das três atividades. Não há lugar no mundo no qual eu me sinta mais desconfortável do que uma boate, com aquela música ensurdercedora, me impossibilitando de manter qualquer conversa, e aquelas pessoas se sacolejando como animais epilépticos, supostamente no ritmo do som. Neste sentido, sou fora dos padrões. O fato é que sempre fui assim. Não julgo meu pai por ter se imaginado jogando futebol com o filho quando soube que teria um menino. É o que homens idealizam mesmo. Normal. “Vou ter um filho. Ok. É cedo demais para isso. Mas pelo menos vamos poder ir juntos ao Maracanã assistir aos jogos”. Obviamente, sou a frustração dele. O que eu questiono é quando, ao perceber que a criança não leva jeito e nem tem interesse pela coisa, o adulto insiste. Como se fosse uma ditadura patriarcal. “Ele vai aprender a gostar”. Isso não existe. Hoje em dia, eu não assisto nem a jogo do Brasil na Copa do Mundo. Esse completo desinteresse – para não dizer aversão pelo esporte (ou pelos esportes, visto que eu não gosto de nenhum, com exceção da ginástica olímpica com Daiane dos Santos e Diego Hypolito, porque é linda) me faz lembrar uma vez que meu pai me levou ao jogo do Fluminense no Maracanã. 38
  38. 38. Eu já devia ter uns 12 anos e fui pego de surpresa. Ele não me contou para onde estávamos indo. Na verdade, me enganou. Ele me buscou naquele fim de semana dizendo que íamos a um churrasco na casa do irmão de sua esposa. E fomos. Ela não foi, o que me leva a crer que eles estavam passando por alguma crise (não era ela que deveria estar no almoço na casa do irmão?). Mas isso era o de menos. No churrasco, tudo muito bem, tudo muito bom. Lembro que serviam muita linguiça e eu, que não gosto, não aceitava. Meu pai me perguntou por que eu não estava comendo e eu confessei meu desgosto. “Também não sou muito fã não”, revidou. Lembro que identifiquei aquela afinidade – ao menos gastronômica – como um avanço, depois de tantos anos acreditando que não tínhamos absolutamente nada em comum (aos 12 anos, você já faz reflexões). Mas ele estragou tudo. Passadas algumas horas, disse que nós tínhamos que ir embora, por causa de outro compromisso. Eu não tinha a menor ideia de qual. A mulher do cunhado dele perguntou. “Vamos fazer um programa de homem. Um programa de pai e filho no fim de semana”, ele respondeu. Ela sorriu, como quem diz com os dentes que entendeu a mensagem. Temi. Será que meu pai estava planejando me levar a um puteiro? Ele é definitivamente o tipo de pessoa que faz isso (anos mais tarde, ele insistiu nesse assunto algumas vezes, mas eu sempre consegui me esquivar). Mas não era o caso. Despedimo-nos, entramos no carro e ele me deu de presente – adivinha! – uma camiseta do Fluminense e me mandou vesti-la. Com certo desprezo, foi o que fiz, mais como forma de não criar caso do que por obediência. Fomos ao Maracanã. Lembro que vi o estádio, subi aquelas rampas, procuramos um lugar na arquibancada e ele não me disse nada. Talvez tenha achado que tudo era muito autoexplicativo. Realmente era. Eu já tinha entendido: veríamos 39
  39. 39. uma partida de futebol. Mas eu me sentia como um cachorrinho carregado pela coleira. Eu estava achando tudo muito ridículo. Àquela altura do campeonato, ele já estava cansado de saber que eu detestava futebol. Até já tinha desistido de me encher de produtos tricolores, bolas e coisas do tipo. Quando alguém perguntava o meu time na frente do meu pai, ele mesmo já dizia que eu não gostava de futebol (talvez para evitar a cara feia que eu faria se eu mesmo respondesse). Pensei que já tinha entendido isso e que o assunto estava superado. Mas ele me provou que não. Os 45 minutos de cada tempo foram, para mim, intermináveis. O jogo obviamente não me interessava (nem sequer lembro qual era o outro time). Houve um momento em que um jogador do Fluminense chutou um pênalti (é assim que se diz?) e bateu na trave – ou foi para fora do campo, não sei. O fato é que não entrou no gol. E meu pai me culpou – na brincadeira, na superstição, mas culpou. “Ele não fez gol porque você não torceu. Tem que torcer!”. A declaração me fez sentir vergonha alheia. Será que todo mundo que estava ali era idiota assim ou apenas ele? Naquela idade, tudo que um adolescente não quer é ser tratado como criança. Senti-me tratado como retardado. Como assim ele não fez gol porque eu não torci? Ele não fez o trabalho dele porque é um péssimo profissional. Se dependessem de mim para pontuar, os jogadores estariam perdidos. Lembro que eu olhava para o céu, para as pessoas ao meu redor, para as torcidas organizadas, para a estrutura do estádio, para qualquer coisa. Sou observador. Eu, na época, não tinha essa percepção, mas aquela era uma oportunidade de observar a tudo e a todos sem ser notado, já que estavam hipnotizados. Tudo era mais interessante do que o meu pai ou o jogo que se desenrolava na minha frente. Ele percebeu isso. “O 40
  40. 40. jogo é ali! Olha!”, me dizia, apontando o campo. Eu olhava por alguns minutos, até cair no tédio novamente. Perguntei o que significava “Young Flu”. Eu ainda não tinha começado o curso de inglês, então não tinha a menor ideia. Ele me disse que era uma das torcidas do Fluminense, que as pessoas se organizavam e iam sempre juntas assistir aos jogos, levando essas faixas imensas. Não foi isso que eu perguntei, mas fiquei com preguiça de explicar para ele. Naquela altura, eu já evitava diálogos desnecessários. No intervalo do jogo, ele colocou na cabeça que merecia um lugar melhor no estádio e começou a me carregar pela mão para cima e para baixo. Subimos para o topo da arquibancada e ele tentou entrar em uma área proibida. Estava claro que o acesso ao local era restrito, mas ele se achou importante o suficiente para quebrar as regras. Um segurança local o proibiu de passar e ele tentou “dar carteirada”, mostrando seu distintivo. Não conseguiu. Envergonhados, voltamos ao nosso lugar e ficamos calados até o fim da partida. Meu pai percebeu que eu não gostava mesmo de futebol. Acredito que essa tenha sido sua última tentativa de me catequizar neste sentido. Como um test-drive de desespero. Foi lamentável. É mais ou menos como os antigos médicos – já ouvi histórias a respeito – que acreditavam poder “curar” a homossexualidade. Colocavam os gays diante de fotos de mulheres nuas e os obrigavam a se masturbar e, quando expostos a imagens de homens nus, levavam choques. No meu caso, meu pai me colocou diante de um jogo e me obrigou a torcer. Não torci. O método não foi eficaz – assim como os gays do passado, que continuaram homossexuais (mas com problemas mentais, devido à corrente elétrica, o que, no meu caso, não sei se chega a tanto). 41
  41. 41. Antes, porém, que você pense que nossas divergências giravam apenas em torno dos gramados, te conto outra história. Meu pai é viciado em praia e, na maioria dos fins de semana em que me buscava, era para uma que ele me levava. É aquilo: ele já iria de qualquer jeito e, como tinha que me encontrar de vez em quando, era para lá que ele me carregava. Era o seu programa de fim de semana. Não o meu. Exibia-me para os amigos – como se o fato de eu estar forte e saudável tivesse qualquer relação com ele – e passava aquela imagem de paizãocom-o-filho-na-praia, que deveria ajudá-lo a levar mais mulheres para a cama. O que as pessoas não sabiam era que eu não desejava exatamente estar ali. Se alguém estava acompanhando o outro, este alguém era eu. O correto, então, seria dizer que eu era o filhão-com-o-pai-na-praia. Ele ficava estirado na areia se bronzeando, tostando o dia inteiro. Como nunca tivemos afinidade e, talvez por isso, eu nunca tenha me sentido a vontade na presença dele, eu ficava no mar. Quando ele ia para a água, eu tentava voltar para a areia. Era mais ou menos como cão-e-gato. Mas a maior parte do tempo eu ficava no mar. “Parece um peixe!”, ele dizia. Mal sabia as minhas motivações. Neste sentido, a praia não era exatamente um programa de família. Nós íamos juntos – ainda que contra a minha vontade – mas não passávamos o dia juntos. Às vezes, ele até colocava a cadeira de costas para o mar, para se posicionar melhor para o sol. Quando eu contava isso para minha mãe, ela ficava desesperada. Imagina: uma criança de seis, sete anos, sujeita a todo tipo de perigo (de uma correnteza a um sequestro) sem ninguém para tomar conta dela. Meu pai, claro, não tinha essas preocupações. Mas, de qualquer forma, eu sabia me cuidar. Conseguia entender que, se dependesse dele, eu estaria perdido. Na falta de um responsável, aprende-se na marra. Eu sabia, por 42
  42. 42. exemplo, que não podia ir muito para o fundo; que o melhor era ficar perto de onde tinha mais gente; e que se algum adulto falasse comigo, o melhor era ignorar; se não funcionasse, sebo nas canelas. Todo esse contexto foi o suficiente para, ainda cedo, descobrir: não gosto de praia. Detesto areia. Detesto mar (as pessoas urinam ali! É quase uma gigantesca piscina de urina). E odeio – com todas as minhas forças – o sol. Porque essa associação de praia com sol é inevitável, não é mesmo? Ninguém vai à praia com chuva. Menos meu pai. Ele vai mesmo com toró. Foi o que aconteceu certa vez. Ele havia me ligado na sexta-feira para que fôssemos à praia no dia seguinte. Tendo usado a desculpa de que estava estudando muito nas últimas três semanas, senti-me sem saída e disse que iria. O sábado, no entanto, amanheceu chuvoso. Minha mãe me acordou na hora combinada e disse que estava chovendo muito e que não havia nem sinal de sol. Voltei a dormir. Cerca de quarenta minutos depois, ela me acordou novamente: meu pai havia aparecido no portão e disse que voltaria em meia hora. Não entendi nada. O toró já havia passado, mas ainda chuviscava. Não é lógico que, na ausência do sol e ainda com chuva, o programa tenha fracassado? Minha mãe disse para eu falar com ele, porque talvez quisesse me levar a outro lugar. Liguei e falei: “mas tá chovendo...” Para minha surpresa, meu pai disse que iríamos mesmo assim. Isso me pareceu o fim da picada. Um absurdo. Desliguei e reclamei com a minha mãe (eu devia ter uns nove anos). Ela ficou horrorizada com a ideia de ele me levar à praia para ficar embaixo de chuva. Eu já disse: tenho rinite. Minha saúde não é das melhores. Fico doente com qualquer coisinha, basta um copo d´água um pouco mais gelado. Foi isso que ela falou para ele, em um segundo telefonema (ela evitava 43
  43. 43. se interferir nessas histórias, porque podia parecer que era ela quem estava me impedindo de ir, quando na verdade eu que não queria, mas este era um caso atípico). “Não tem cabimento, Léo. Não vai ter ninguém lá!” Mas nem ela conseguiu convencê-lo. Conclusão: em meia hora ele chegou buzinando e tocando a campainha que nem louco. Caminhei ao portão disfarçando as lágrimas nos olhos. Aquela situação era caótica para mim. “Às vezes, está chovendo aqui, mas está sol lá”, ele me explicou, ao ver que eu usava até um casaquinho. “Você está muito mimado”. Calei-me. Era melhor assim. Fomos à praia e, como minha mãe disse, só havia a gente. Não estava chovendo, é verdade, mas estava nublado (sabe quando as nuvens estão negras?). Não lembro quanto tempo ficamos lá, mas foi nesse dia que eu percebi que não tinha condições de conviver com esse cara. Mas, de qualquer forma, eu era obrigado. Era parte do acordo. Minha mãe fazia questão de me lembrar disso sempre que ele ligava me chamando para sair. Minha vontade era inventar todo e qualquer tipo de desculpa (desde a clássica “tenho que estudar” à “não posso, vou dar um pulo ali em Marte amanhã”), mas não podia. “Ele dá a pensão, tem direito de te ver”, me dizia. Eu sabia que era verdade. Sentia-me vendido, fazendo algo contra a minha vontade apenas por dinheiro (não é essa a definição de prostituição?), mas era assim que funcionava. Algumas vezes, questionei se essa pensão era mesmo necessária. Era. Uma miséria com a qual, no entanto, eu não poderia viver sem. Lidar com essa situação financeira e me sentir um instrumento de troca não colaborava muito para que eu criasse qualquer tipo de afeto por aquele homem que eu chamava de pai, mas não via como tal. Foi aí que minha mãe intercedeu e disse para que eu tentasse escolher aonde iríamos quando ele me 44
  44. 44. chamasse para sair. Assim, o passeio seria mais divertido. Pelo menos, estaria fazendo algo que eu gostasse. Seria uma boa forma de tornar o tempo que eu passasse com ele mais suportável (ela não usou exatamente essa palavra, mas foi assim que eu entendi). Naquela ocasião, eu estava doido para ir a um circo que estava passando pela cidade. Já tinha pedido para minha mãe me levar, mas o local era distante e fora de mão. Então, ela disse para que eu falasse com meu pai, que tinha carro. Até porque eu sempre soube: ele tinha mais dinheiro do que ela. O natural seria mesmo que meus pedidos fossem direcionados ao meu pai. Mas eu não tinha intimidade com ele para isso. “Ele é seu pai!”, me dizia mamãe, como se isso fizesse algum sentido. Como se a intimidade fosse uma questão sanguínea. Não é. Pedia para ela tudo que eu queria, porque era com ela que eu tinha abertura para isso. Mesmo assim, driblei essas barreiras e falei com meu pai que queria ir ao circo. Ele até pareceu satisfeito – quase animado. Não pelo passeio em si (até porque eu ainda não conseguia imaginá-lo no circo comigo), mas por eu estar me dirigindo a ele voluntariamente. Foi essa a impressão que eu tive. Marcamos para o fim de semana. Pela primeira vez, contei os dias para um passeio com ele. Era uma situação estranha, mas eu estava verdadeiramente animado. Eu gostava muito de circos (até hoje, tenho um afeto pelos artistas circenses). O dia chegou e lá fomos nós. Ele me buscou em casa, como de costume. Mas não me levou aonde eu queria. Obviamente só me dei conta disso quando saímos do carro. Onde é que nós estávamos? Tinha muita gente ali, mas certamente não era o circo. Não vi a lona em lugar nenhum (e eu procurei bem, virando-me para todos os lados). Meu pai comprou ingressos e ficamos esperando um trem. Notei que as 45
  45. 45. pessoas ao redor não falavam a nossa língua. Nenhuma delas parecia um palhaço não-caracterizado ou um mágico sem a cartola. Perguntei o que era aquilo. “É o Corcovado. Hoje você vai conhecer o Cristo Redentor”, me respondeu, com total tranquilidade, como se aquilo fosse muito natural. Mas e o circo? Não estou vendo-o. “A gente vai ao circo depois”, ele disse, com o mesmo descaso de antes. A forma com a qual ele falava não demonstrava que os planos para aquele dia haviam caído por terra. Então íamos ao circo depois do Corcovado? Era isso? Só podia ser. “Não. Outro dia”. Foi aí que eu entendi. Ele nunca me levaria ao circo ou a qualquer outro lugar que eu pedisse. As coisas sempre seriam do jeito dele. Meu pai não se importava com as minhas vontades, porque, para ele, elas nem sequer existiam. Eu estava certo em ter ficado na minha até então. Minha mãe estava errada ao me iludir do contrário. Ele nunca pensou em me levar ao circo, dissimulou o tempo inteiro, doido para fugir do programa infantil. Não preciso dizer: isso não se faz com uma criança. Se ela quer ver mágicos e acrobatas, não a leve a uma estátua religiosa gigante. Nada contra o ponto turístico mais famoso do Rio de Janeiro. Não posso dizer que desgostei do passeio (ao longo da minha vida, voltei lá uma série de vezes). A vista é linda. A estátua é enorme. Os japoneses querendo se comunicar comigo eram engraçados. O trenzinho é divertido quando se é inocente. Mas aquilo, em toda a sua beleza e grandiosidade, não deixava de ser uma decepção proporcional. Não foi o que eu pedi. Eu havia passado a semana inteira esperando por aquilo. Se ele não queria me levar, era só falar. Não precisava me enganar, me iludir dessa forma. Eu criei expectativas. Tirar doces de uma criança pode ser extremamente fácil, mas não é o melhor a se fazer se você é o pai dela e tem a mínima intenção 46
  46. 46. de conquistá-la. Conclusão: foi minha mãe quem me levou ao circo, de ônibus mesmo. 6 Da mesma forma que acontecia com os passeios, eu não tinha grandes expectativas quanto aos presentes que eu ganharia do meu pai. Na maioria das vezes, eram brinquedos dos quais eu não gostava e ficavam encalhados em um quartinho à parte na casa da vovó até que ela se revoltasse e pedisse autorização para repassá-los ao filho da empregada. Minha única preocupação era que algum dia ele me chamasse para sair e falasse “leva aquele brinquedo”. Então, eu esperava passar uns bons três anos para dar os presentes a alguém. Era tempo suficiente para que ele não se lembrasse mais que havia me dado algo e, caso isso ocorresse, eu já poderia dizer que havia quebrado. Por falta de uso, talvez. Nos anos 1990, estiveram na moda uns miniteclados infantis, coloridos, com musiquinhas pré-gravadas, que não sei se ainda existem. Eles eram do tamanho perfeito para que crianças pequenas o levassem para a escola (e era isso que todo mundo fazia). Pois bem, essa bugiganga era encontrada em qualquer camelô, sem maiores dificuldades, embora existissem versões originais mais sofisticadas e com musiquinhas melhores. Então, com a proximidade do Natal, pedi – aconselhado pela minha mãe – que meu pai me desse esse teclado. Na época, eu era o único da turma que ainda não era tecladista. Então, imagina minha ansiedade para fazer parte do grupo. Nenhuma criança suporta se sentir excluída por qualquer motivo. O meu pedido, como disse, não foi espontâneo. Da mesma forma que não tinha intimidade para pedir a ele para que fizéssemos algum passeio específico, não tinha para pedir presentes. Mas a minha mãe me convenceu de fazê-lo como 47
  47. 47. uma forma de evitar que, com o Natal, a casa se enchesse de mais produtos do Fluminense ou luvas de boxe naturalmente inúteis. Mas não deu certo. Afinal, o que dá certo quando meu pai está envolvido? O Natal chegou e, nesta ocasião, a família dele deu uma festa. Eu obviamente não queria ir, mas quando você é filho de pais separados, você se acostuma a esse tipo de negociação: “no Natal ele é seu, no Ano Novo ele é meu”. Para completar, a ceia seria na casa da Tia Ivone, a irmã da minha avó paterna. Eu morria de medo dela. Para mim, Tia Ivone era uma bruxa e ninguém me convencia do contrário. A mulher nunca fez nada para mim, pelo contrário, mas só o olhar dela já me deixava aterrorizado. Por isso, pedi para minha mãe ir comigo. Sozinho que eu não ia encarar a bruxa. Minha mãe ficou bastante relutante. Ela não era exatamente a pessoa mais querida pela família do meu pai e, naquela altura do campeonato, eles já estavam separados há um bom tempo. Não fazia sentido ela ir à festa de Natal deles. Mas ela foi. Convenci-a. A noite foi aquela típica de Natal. A família do meu pai é bastante tradicional no que diz respeito a datas comemorativas. Todo mundo comendo muito. A música tocando. A árvore montada com os presentes em volta. As crianças querendo abrilos logo. Os adultos proibindo. O amigo oculto. Esse tipo de coisa. Só não apareceu o Papai Noel, mas eu também não ligava mais para isso. Quando finalmente chegou a hora que importava – a da entrega dos presentes – recebi uma série de “lembrancinhas” (aquela desculpa para dizer “gastei pouco, mas pelo menos lembrei de você”) dos familiares do meu pai e fiquei ansioso para receber o meu tecladinho. Mas, de repente, meu pai apareceu com uma caixa muito grande. Talvez maior do que eu. Certamente grande demais para o teclado que eu queria. Por um 48
  48. 48. momento, pensei “será que ele esqueceu?” Dei uma olhada para a minha mãe, buscando uma explicação para aquilo, e ela, talvez tão surpresa quanto eu, me incentivou a abrir e desvendar o mistério. Foi o que fiz, com alguma dificuldade, porque a coisa era mesmo imensa. Rasguei o papel de presente, abri a caixa e, com ajuda do meu pai, tirei o teclado de dentro. Sim, era um teclado o que ele estava me dando. Mas não o que eu pedi. Era um teclado de verdade. Um exemplar da Yamaha, que faria a festa de qualquer estudante de música. Não era o meu caso. Eu tinha o quê? Cinco anos? Seis? Aquilo não me servia de nada. Meu pai perguntou, com um sorriso enorme, se eu havia gostado. Era evidente que ele estava satisfeito com a sua compra (como já disse, ele andou tentando me inserir na música). Disse que gostei, claro. Minha mãe me educou para isso. Mas a verdade é que eu estava frustrado. “Não vai dar para levar para a escola”, soltei em tom de lamento, pensando que ninguém poderia ver meu presente no colégio. Todo mundo diz que, por mais que eu tente disfarçar algo, não consigo. Sou muito expressivo (foi por não saber forjar sentimentos que, anos mais tarde, eu desistiria da carreira de ator). Então, talvez tenha sido pela minha cara que minha mãe disse para ele: “Léo, não era esse que ele queria. Era aquele menor, de criança. Não precisava gastar com isso”. Pois é, não precisava. E minha decepção aumentava conforme os minutos se passavam. Ao ligar o trambolho, percebi que ele não tinha músicas pré-programadas. Qual o sentido daquilo? Não servia para nada. “Você tem que tocar as músicas!”, disse meu pai. Mas desde quando eu sabia tocar alguma coisa? Sugeriram-me ter aulas de teclado. Odiei a ideia. Que presente é esse que eu preciso estudar para poder brincar com ele? Estavam 49
  49. 49. “viajando”. Dei umas apertadas nos botões e logo desanimei (mais). Passei o resto da noite brincando com as lembrancinhas. Era sempre assim. Meu pai não tinha problema em gastar muito na hora de comprar um presente para mim. Pelo contrário, ele parecia gostar de torrar a nota. Mas o investimento geralmente era em vão. Eu conseguia perceber que o que ele me dava eram coisas caras ( embora não neste caso do teclado, porque a decepção foi maior que qualquer percepção), mas era um dinheiro jogado fora. Era assim toda Páscoa, por exemplo, quando ele me dava o maior ovo que ele encontrava na loja, mas que não vinha com nenhum brinquedinho dentro. Foi assim, também, quando ele me deu uma mesa de totó do Zico. Neste caso, o presente foi de aniversário. Meu pai chegou na vila onde eu morava com a minha mãe e minha avó, de noite, como era de costume, para me dar parabéns, um beijo, um abraço e o presente de grego. Ele abriu o porta-malas e, quando tirou aquilo dali, eu já sabia que tinha um problema em mãos. Conseguia escutar a vovó reclamando. “Onde vamos guardar isso? Se ainda fosse usar! Mas vai ficar encalhado em algum canto da casa, enfeiando!” Sorri amarelo. Ele não perguntou se eu havia gostado, porque devia saber a resposta. Ele apenas aproveitava essas datas comemorativas para fazer uma pressão. “Vai jogar muito com os amiguinhos!”, disse. Não vou não, pensei. Despedimo-nos e, não sem algum esforço, carreguei aquilo para dentro de casa. Minha mãe sorriu ao ver o presente. “Eu adorava totó na época da escola!”, falou, tomada pela nostalgia, até que se deu conta da situação: “Mas você não gosta disso. Seu pai não aprende!” É, ele não aprende. Tem algum tipo de déficit nesse sentido. Deixei minha mãe estudando o presente – “É do Zico! Você não vai mesmo brincar com isso? É legal, Leozinho. Isso deve ter sido uma fortuna. Meu Deus...” – enquanto eu fui me 50
  50. 50. divertir com um microfone que minha vizinha havia me dado de presente. Aquele havia sido o brinquedo que eu mais tinha gostado de ganhar naquele aniversário. E era puramente simbólico. O microfone não funcionava, estava escangalhado. Certamente a mãe do meu amiguinho não tinha gastado mais do que dez reais naquilo em algum brechó, mas foi sensível o suficiente para perceber que eu gostava de brincar de artista. Talvez meu pai também tenha percebido, mas não aprovado. Para ele, devia ser coisa de viado. Tudo era. Se eu pintava, viado. Se eu cantava, viado. Se atuava, viado. Se dançava, então, era um caso perdido. E, para completar, eu tinha o questionável hábito de brincar de boneca, o que, de certa forma, dava um embasamento para ele. Imagina o escândalo que não era, nos anos 1990, um policial ter um filho – de cinco, seis, sete anos, sei lá – gay. Inadmissível. Ele me fazia prometer que não ia brincar com as bonecas da minha prima (essa mania das pessoas de acreditarem que podem curar a homossexualidade “enquanto é tempo”), quando eu fugia para a casa dela. Ela morava no mesmo condomínio que meu pai e, quando ele me buscava nos fins de semana, eu corria para o apartamento dela, que era muito mais divertido. Não era legal passar o dia preso em uma casa com meu pai, que se trancava no quarto e dormia a maior parte do tempo; minha avó, incapaz de ser mais do que educada comigo; e meu avô, tão tranquilo quanto invisível. Eu prometia que não brincaria com as bonecas da minha prima, mas descumpria sem culpa. Era só uma forma de ele não me encher o saco. Que parte meu pai não entendia que eu ia à casa dela justamente para brincar com as suas bonecas? Ela tinha a casa da Barbie, pô! E todas aquelas roupas! Quando ele me buscava, perguntava como tinha sido o dia. Eu mentia e dizia que tinha jogado videogame “enquanto minha prima 51
  51. 51. brincava de boneca”, frisando essa parte. Ele ficava orgulhoso, aparentemente. E eu não tinha que escutar suas reclamações. A mentirinha era positiva para os dois. Não sei se seu irmão contava a verdade para ele depois. Provavelmente, mas nunca sofri retaliação. Porém, nessa questão de bonecas, não o julgo. É natural que qualquer pai queira ensinar para o filho que boneca é coisa de menina e que meninos brincam com carrinhos (nunca me interessei por eles). Faz parte da “educação tradicional”, acredito eu. Não que ele estivesse me educando, porque não era bem isso que ele fazia. Ele me julgava. Não é como se ele falasse simpaticamente, me explicando. Ele me dava bronca. Como se eu devesse sentir culpa por querer brincar com bonecas. E, de alguma forma, eu sentia mesmo, embora não entendesse o porquê (ok, ele gritava que “tinha um filho viado”, cheio de raiva, e até me fazia ter medo de ser gay, porque, pela sua reação, não era algo bom, mas nada mais do que isso). Não via maldade nas bonecas. Para mim, era tudo neurose da cabeça dele. Eu até tinha paixões platônicas pelas menininhas na escola. Minha mãe era mais flexível. Não sei se ela achava que brincar com bonecas não caracterizava uma homossexualidade infantil ou se não se importava com a futura orientação sexual do seu filho. Nunca perguntei. Ela até comprava algumas bonecas para mim, quando eu pedia, como se fossem qualquer outro brinquedo, sem julgamentos. Mas meu pai não podia saber disso. Meus amiguinhos do colégio também não, porque iriam zombar de mim. Era segredo. Às vezes, eu estava brincando com as bonecas, quando meu pai chegava ao portão da vila e eu tinha que escondê-las correndo, jogando-as em um saco de lixo preto ou algo parecido. Eu sentia medo e culpa. Lembro que, certa vez, minha mãe me preveniu: “Se você virar ‘boiola’, jamais conte isso ao seu pai. Ele vai te matar”. Eu era criança 52
  52. 52. demais para conviver com tais condicionamentos de afeto. Mas convivia. As coisas começaram a melhorar depois que ele se casou (com a prima dele, quase um escândalo social). No dia que, nos arredores da capela, ele sentou comigo para ter aquela conversa clichê de pai-que-vai-se-casar-novamente com o filho, achei que ele estava dando importância demais para o assunto. “Papai e mamãe vão continuar te amando”. Foi meio patética aquela ladainha. Minha mãe já tinha tido outros namorados, assim como ele. Então, isso não me assustava. Nunca tive o sonho de ver os meus pais juntos de novo. Até me custa imaginá-los assim: é uma ideia meio repugnante. Eu torcia para que ele tivesse outro filho e me deixasse em paz. Ouvia dizer que os pais sempre davam mais atenção aos caçulas, então essa poderia ser a salvação. Também escutava conversas da minha mãe com a minha avó e elas estavam na mesma torcida, mas por razões diferentes: acreditavam que ele se tornaria um pai melhor se tivesse que participar ativamente da vida de um filho. Mas eu nunca ganhei um irmãozinho. No dia da cerimônia, não fiquei dentro da igreja. A missa parecia se arrastar e eu morria de tédio. Algum adulto percebeu isso e me levou para brincar do lado de fora, sem se preocupar com o que os outros iriam pensar. Não vi o meu pai, de branco como a noiva, dizer sim, mas também não me importava com isso. Lembro-me dos ovos de codorna da festa, de uma minhoca que chamou a minha atenção em um muro próximo à igreja e da cachoeira a qual meu primo mais velho me levou para nadar. Mas não nadei, porque não queria molhar a minha roupa nem ficar nu, como os outros garotos ficaram, sem qualquer tipo de pudor. O casamento do meu pai, na minha cabeça, não mudaria nada na minha vida. Mas mudou. Primeiro, porque, agora, 53
  53. 53. quando eu ia para a casa dele, eu tinha alguém com quem conversar, que era a sua mulher, uma pessoa muito mais fácil de dialogar do que ele. Ela chegava a ser agradável, fingindo se interessar pelo que eu dizia, mas reclamando com as amigas que o enteado não parava de falar se ela desse corda. “Esse aí, depois que abre o bico, não para mais”. Segundo, porque o tipo de presente que passei a receber também mudou. No início, eram dois presentes que eu ganhava: o sem noção dele e um simpático dela. Lembro-me quando ela acertou ao me dar um cavalete, tintas e quadros para pintar. Fiquei encantado na época. Era engraçado, porque eu acreditava mesmo que sabia o que estava fazendo e que era um novo Da Vinci ou Monet, embora eu preferisse o primeiro, pela coincidência do nome. Os adultos ao meu redor tinham parte nisso: elogiavam-me e diziam “que eu tinha futuro”. Eu tinha aula de Artes Plásticas na escola, então adorava quando a professora pedia para levarmos tintas guache, porque, além delas, eu levava a minha enorme variedade de tintas (que não eram usadas, porque de guache não tinham nada, mas valiam a pena para mostrar a minha coleção aos outros). Andei presenteando alguns adultos com meus quadros, inclusive meu pai (ou a mulher dele, ou os dois, não sei bem) e eles, gentilmente, o penduraram em uma das paredes da casa (pelo menos quando eu ia visitá-los). Na minha casa, também havia pinturas penduradas por todos os cantos. Definitivamente, o presente dela caiu bem. Com o tempo, eles passaram a me dar apenas um presente. O “do casal”, o que, juro, não era um problema para mim. Nunca achei que ela tinha que me presentear (os namorados da minha mãe tampouco o faziam, com exceção de um, o Marcos, que era uma figura à parte). E aí passei a receber coisas diferentes também. Era nítida a influência dela na escolha 54
  54. 54. dos brinquedos. Só que isso também não era algo exatamente bom. Meu pai deve ter falado para ela que eu gostava muito de brincar com LEGO, aquelas pecinhas de encaixar que faziam os adultos acreditarem que os filhos tinham talento para a arquitetura (comigo não foi diferente), e ela achou que isso era algo bom para me presentear. Bem, não era. Meu pai chegou – não sei se em um aniversário ou em um Natal – com uma caixa muito grande, que continha algo como cinco mil peças de LEGO dentro. Ou dez mil. Não me lembro. O número vinha impresso para impactar. E impactou. Primeiro, porque, justamente por gostar, eu já tinha peças demais para montar tudo o que eu sabia: mini casas, mini prédios, mini armas (meu pai não pode dizer que não me influenciou de alguma forma) e mini carros. Segundo, porque, quando ele me deu isso, eu já não brincava de LEGO há muito tempo. Estava naquela fase insuportável da pré-adolescência e achava que tudo “era coisa de criança”. E eu não era criança, na minha cabeça. A caixa de LEGO foi aberta, mas as peças não chegaram a sair de lá. Nem senti curiosidade de confirmar o número de peças. O filho da empregada ganhou um presente novo. Não sei como essas situações repercutiam na casa do meu pai. Se é que repercutiam. Ele pode ter achado, por esses anos todos, que estava acertando e me agradando. Será? Improvável. Ele não é o Senhor Inteligência, mas também não é burro o suficiente para tanto. O que eu, sim, acho é que ele nunca se importou com isso. Apenas queria cumprir o esperado, que era me dar algum presente. No máximo, utilizava as datas comemorativas em proveito próprio, ao me dar algo que ele queria que eu usasse, com a esperança que eu o fizesse. Duvido que tenha levado em consideração meus gostos alguma vez. O engraçado é que, depois que cresci, ele passou a me dar dinheiro 55
  55. 55. com a desculpa “não vou saber o que te dar, é melhor você mesmo comprar”. Tarde demais. 7 O Dia dos Pais é até hoje a data mais desconfortável para mim. Sem dúvidas. Entra ano, sai ano e é a mesma coisa: minha mãe começa a me azucrinar três dias antes dizendo que “eu vou ter que ligar, hein”. Eu, claro, nunca quero telefonar (o que, na maioria das vezes, consigo deixar de fazer). Tenho os meus motivos, claro, e vão muito além de uma infância frustrada com meu pai (caso eu não tenha conseguido demonstrar até agora, vou ser bastante objetivo: eu o odiava, com todo exagero e sinceridade que só uma criança é capaz de expressar). Mas é bem verdade que os motivos começaram todos lá, na infância. Freud explica. Quem já foi criança, sabe: as escolinhas – creches, maternais, não sei qual o nome que dão para isso hoje em dia – adoram qualquer gancho para dar uma boa festa e suspender as aulas. O desejo dos “professores” por não dar aulas (bastante inúteis quando você não aprendeu nem a escrever, é verdade) só não é maior do que o das crianças em não assisti-las. Então, quando chegam estas épocas de Dia dos Pais, das Mães, do Índio, do Palhaço, da Avó, do Avô, da Árvore, do Bichinho de Estimação, do Lápis, do Quarto ou até mesmo do Copo D’água, a primeira coisa que os donos dessas instituições fazem é organizar uma festinha. E comprar tintas para pintar a cara das crianças com motivos temáticos. No caso do Dia dos Pais especificamente, as criancinhas não tem os rostos pintados, mas recebem a incumbência de colorir uma gravatinha para o papai. Comigo, pelo menos, era assim. Eu gostava de pintar, como já disse, mas, nesta situação, era algo especialmente difícil. Lembro-me de como as outras 56
  56. 56. crianças se empenhavam nesta tarefa e eu não. Elas queriam muito agradar aos pais, que, para elas, eram seus super-heróis, como dizem as mensagens das propagandas comerciais nesta época do ano. Meu pai não era um herói para mim (estava bastante longe disso...). Eu não ia entregar aquela gravatinha para ele. Meu pai nunca ia às festinhas do colégio. Ele só foi uma vez. Eu era bem novinho – estamos falando de uma fase pré-alfabetização – então não me lembro muito bem. Acho que minha mãe ligou para ele, explicou a situação e meu pai se propôs a ir àquela comemoração do colégio. E eu pintei a gravatinha para ele. Sem qualquer simbolismo, apenas pintei com as minhas cores preferidas (ainda estava naquela fase do azul). Encontrar o meu pai nunca foi sinônimo de diversão, então eu não estava muito animado. Eu só queria cumprir a minha parte do acordo (é curioso como tudo que diz respeito a ele sempre cai nessa palavra...). O combinado é que ele passaria na casa da vovó para me buscar, me levar ao colégio (que era na minha esquina) e, juntos, participarmos da festinha. Até porque não fazia sentido eu chegar antes, sem meu pai, na festa do Dia dos Pais. Deu a hora marcada e eu já estava pronto, circulando pela casa, de certa forma ansioso, olhando pela janela para ver se ele já tinha chegado. Fiz esse processo algumas vezes e nada de ele aparecer. Está aí outra diferença entre nós: eu sou pontual, ele não. Os ponteiros do relógio do teto da parede da sala andavam e meu pai não chegava. Bateu aquela dúvida: será que ele tinha esquecido? Provavelmente. Comecei a achar que ele não viria mais, e então ligaram para saber o que estava acontecendo. Repito: não me lembro bem, mas não devem ter conseguido estabelecer contato de primeira, porque o tempo continuou passando e meu pai não chegava. A festinha era na sexta-feira e não exatamente no domingo de Dia dos Pais (senão 57
  57. 57. não seria interessante para a escola), então era bem provável que ele tivesse se esquecido. Mas, por fim, ele apareceu. Sem dar qualquer tipo de explicação – o que me leva a crer que, sim, ele tinha se esquecido, mas minha mãe o lembrou “a tempo” – me colocou no carro (para ir até a esquina!) e entramos no colégio. Lá, entreguei a gravatinha para ele e a festa acabou. Com o atraso dele, havíamos perdido tudo (o que não devia ser muita coisa, mas, naquela época, era significativo para mim). Não foi uma experiência emocionante. Não foi um dia especial. Pelo contrário. Mas é o Dia dos Pais mais antigo que eu me lembro. Com o tempo, as coisas não melhoraram muito. Sei que, fora essa gravatinha de papel, eu poucas vezes dei um presente de Dia dos Pais. No início, minha mãe e ele não se davam muito bem. Sempre que tentavam conversar, brigavam. Então, por conta disso, ela não queria gastar o dinheiro dela com ele e fazia questão de deixar isso bastante claro. E, depois, quando eles passaram a ter um relacionamento mais amigável, era eu quem não achava que ele merecia presente nenhum. Algumas vezes ela comprou mesmo assim e me deu para que eu apenas entregasse (geralmente, meu pai me buscava para almoçar fora nesse dia). Mas acho que eu ia e dava o presente com tão pouca verdade no olhar que tanto ele desistiu de me buscar – o que eu adorei – quanto minha mãe parou de comprar presentes. Mas não parou de me fazer ligar para ele, claro. Isso é motivo de discussões todos os anos. “Não custa nada, Leozinho. A família do seu pai é ligada a datas. Você vai se queimar à toa. Faz esse esforço”, ela repete sempre. Nesse lado, eu puxei a minha avó: sou contra quem passa o ano inteiro afastado, mas no Natal quer fingir que faz parte de uma família feliz. A mesma coisa vale para o Dia dos Pais. Se não tenho pai o ano inteiro – 58
  58. 58. porque a verdade é essa: eu não tenho – por que tenho que render homenagens a ele? “Parabéns por nunca ter me dado um conselho; por não ter me ensinado a fazer a barba; por nunca ter me levado ao médico; por não ter conversado sobre sexo comigo; por nunca ter comprado um livro para escola, na verdade, nem um lápis; por nunca ter feito uma vontade minha; por nunca ter me dado um esporro; por nunca ter me colocado de castigo; por nunca ter estudado para a prova comigo; por nunca ter se preocupado comigo; por nunca ter me ajudado em nada; por me fazer descobrir o significado da palavra pai lendo o dicionário. Parabéns por tudo isso, pai” – eu poderia dizer. Mas às vezes - bem poucas, é verdade - engoli o meu orgulho e “cumpri a minha parte do acordo”, na maior falsidade possível. Agora que sou maior de idade, não me deixo mais ser forçado a tais situações, mas antes não tinha jeito, por mais que eu fosse turrão. As ligações, na verdade, eram bem rápidas. Eu discava, dizia “feliz dia dos pais”, ele agradecia e nos despedíamos. Não há vínculo. Não há nem qualquer brecha para alguma conversa. De vez em quando ele até tentava, mas me irritava mais ainda. Puxando papo, ficava muito claro o quanto éramos completos desconhecidos um para o outro. Ele errava a minha idade e perguntava sobre uma cadela que já havia morrido há mais de dez anos. Não é exatamente o que se espera de um pai. Não digo nem um pai presente, mas um pai informado. Isso me deixava profundamente desgostoso. Mas o fundo do poço mesmo foi uma vez em que eu liguei e ele me tratou mal. Eu não queria ligar, como sempre, mas minha mãe acabou me forçando de alguma forma e lá fui eu. Provavelmente, ela ameaçou cometer algum tipo de represália. “Se não ligar, vai ficar sem Internet por um mês!”. 59
  59. 59. Ela era chegada a esse tipo de chantagem, embora não aguentasse levar o castigo até o fim. - Oi, pai, é o Leozinho. Tô ligando para te desejar feliz Dia Dos Pais. – disse, desconfortável como sempre fico quando tenho que falar com ele. Telefonei depois do almoço, para não correr o risco de ter que encarar uma refeição indigesta com ele. - Obrigado pela lembrança – ele respondeu, secamente, como quem manda à merda. Tinha um tom irônico na sua voz, como quem quisesse dizer que eu nunca desse sinal de vida. Como se ele se comportasse diferentemente. - Bem, era só isso mesmo. Tchau – finalizei, sem graça (não sei se por mim ou por ele). Fiquei passado nesse dia. Eu estava ali me esforçando para ser socialmente aceitável e ele nem para colaborar. Minha mãe, pela primeira vez, reconheceu que ele havia sido desagradável. Aproveitei a oportunidade para deixar claro: eu nunca mais ligaria para ele (algo que tenho conseguido cumprir sem grandes esforços). Ela aceitou – e no ano seguinte pediu que eu mandasse “um torpedinho pelo menos”. 8 Minha avó sempre dizia: “Pelo menos, você conhece o seu pai. Tem gente que morre sem saber quem é o seu. Você não sabe o que é vir escrito na certidão de nascimento ‘filho de pai desconhecido’. Uma tristeza”. Eu discordava, claro. Se não conhecesse o meu pai, teria o direito de fantasiar que ele era um homem legal e divertido que, embora tivesse me abandonado (porque não tinha condições financeiras de me criar, certamente), estaria louco para me reencontrar e passar a tarde jogando videogame comigo. Mas não. Conhecendo-o, eu era privado desse direito. Hoje em dia, entendo o que minha avó 60
  60. 60. queria dizer e até dou razão a ela. É melhor viver consciente que iludido. Pelo menos, nossos problemas se limitavam à afinidade e à falta de sintonia. Meu pai falava palavrões na minha frente, o que acentuava sua imagem grosseira, mas não me batia. A única vez em que ele tocou em mim foi um tapa que deu na minha mão. Estávamos na casa de algum parente seu, era noite, e eu fiz xixi nos shorts enquanto brincava. As outras crianças, mais velhas e compreensíveis, chamaram meu pai ao quintal, onde estávamos, mas eu corri para dentro da casa, envergonhado e pingando. - Pai, fiz xixi nas calças – disse, com a cabeça baixa, evitando encará-lo. - Me dá sua mão. – pediu, sério, mas com um sorriso murcho no canto dos lábios, provavelmente resquício de sua tarde regada a álcool. Estiquei a mão esquerda, inocentemente, e ele me deu um tapa. A mão de um homem na mão de uma criança causa certo impacto, mas não foi exatamente doloroso. Ardeu. Eu fiquei assustado, porque era a primeira vez que ele fazia isso, e fui pego de surpresa. Como não poderia deixar de ser, comecei a chorar. Uma prima sua me levou pela outra mão, a não traumatizada, para um quarto distante, e trocou a minha roupa por uma limpa, emprestada de uma das outras crianças. Parei de chorar e, em seguida, fomos embora. Eu e meu pai não nos falamos no carro. Havia aquele clima pesado que paira no ar após uma criança ter levado um tapa. O pai não sabe o que fazer, porque não pode seguir batendo, mas também não pode passar a mão na cabeça, tentando desfazer o ocorrido. Então simplesmente não faz nada, esperando que a criança cresça e se esqueça daquilo, como se fosse um cachorrinho fiel. Mas isso não acontece e, enquanto o adulto se questiona se agiu 61
  61. 61. bem ou mal, a criança cultiva um ódio desproporcional ao seu tamanho e imagina formas de se vingar do agressor covarde. Ao chegar em casa, meu pai tocou a buzina e minha mãe foi abrir o portão. Corri para dentro e, depois que eles se despediram, ela notou algo estranho na minha boca. Uma afta ou algo do tipo, que não tinha nada a ver com os acontecimentos anteriores, mas foi a deixa para que eu começasse a chorar e soltasse: - Meu pai me bateu! Logicamente, ela interpretou que o tapa havia sido na minha boca, algo muito mais grave do que realmente foi. Eu, com raiva e sede de vingança, percebi o equívoco, mas não neguei sua conclusão. Irritadíssima, com fogo nos olhos, ela telefonou para ele, que desmentiu o tapa na boca, mas foi obrigado a escutá-la da mesma forma, ao assumir que havia me dado um “tapinha na mão”. - Você não vai pegar seu filho para bater, está me entendendo? - Eu estava educando-o. - Educa falando! Você é pai de fim de semana, não participa de nada, não tem o direito de bater nele! - Mas ele fez xixi nas calças. - Bater não é a solução! No meu filho, bato eu. Eu, que sou eu, conto nos dedos as vezes em que levantei a mão para ele. A gente dá palmada em criança se ela está de pirraça, não se fez xixi nas calças. Essa foi a primeira e última vez que fez isso. Se voltar a bater no meu filho, você nunca mais vai levá-lo para sair. – e desligou o telefone na cara dele, que também não fez questão de ligar de volta. Nunca mais apanhei. 62
  62. 62. Terceira parte Adolescência
  63. 63. 10 coisas que meu pai não me ensinou 1.Fazer a barba; 2. Defender-me; 3. Dirigir; 4. Aparar os pelos pubianos (minha mãe teve que me dar esse toque!); 5. Sexo seguro; 6. Jogos de baralho; 7. Escutar os Beatles ou os Rolling Stones; 8. Lavar minhas cuecas; 9. Depilação masculina (tive foliculite ao me aventurar); 10. Fazer churrasco.
  64. 64. 9 Com o tempo, meu pai e eu nos afastamos naturalmente. Os encontros quinzenais passaram para mensais, depois semestrais e, por fim, quase anuais. Na verdade, saíamos para almoçar juntos apenas no Dia dos Pais, geralmente na companhia do meu avô e de mais alguns familiares. Fora isso, ele passava na casa da vovó, onde eu morava, para me dar um presente no meu aniversário e no Natal. Então, eram três encontros anuais, todos concentrados no segundo semestre. Não nego a minha culpa para que esse ponto tenha sido alcançado. No início, ele me ligava nos fins de semana e me chamava para sair (leia-se: ir à praia). Mas eu já conseguia evitá-lo. Com a chegada da adolescência, tornei-me o maior inventor de desculpas esfarrapadas. Sempre tinha uma prova para estudar ou um compromisso inadiável, que eu inventava na hora, com tom de lamento. Cada vez mais ausente, ele não podia questionar, porque não sabia nada da minha vida (como já disse, até a minha idade ele costumava errar). A situação já era alarmante, mas eu achava agradável. Ele se deu conta que era melhor não me pressionar e desistiu dos convites inoportunos. Foi como se tivesse me dado, inconscientemente, um tempo para respirar, sem que eu precisasse usar a rebeldia da idade para me livrar dele – ou inventar mais desculpas. Sábia decisão. Mas, no fundo, ele esperava que eu procurasse por ele. Isso ficava claro em cada encontro esporádico, quando ele passou a jogar indiretas supostamente engraçadinhas, reclamando da minha ausência. De repente, virei “o ingrato”. Mas a minha ausência era também a sua ausência. Ele não estava exatamente atrás de mim, ligando para saber se eu cheguei bem em casa, se fui bem na prova ou se estava vivo ou morto. Meu pai nunca fez isso. Absolutamente nunca. 65
  65. 65. Pelo contrário. Nessas poucas vezes em que nos víamos, não tínhamos assunto, o que era, no mínimo, ilógico. Quando duas pessoas passam mais de seis meses sem se ver, têm muito a falar no reencontro. Mas não era o que acontecia conosco. Predominava um desconforto sem igual, que nunca consegui ter certeza se ele também percebia. Eu, confesso, não tinha o menor interesse pela sua vida, mas acho que isso é natural de todo filho adolescente. Na verdade, não me interesso pela vida de nenhum dos meus parentes, nem dos que gosto. Sou a ovelha negra da família. Mas ele também não se interessava por mim e, bem, ele é meu pai. Quando estávamos juntos, ele se limitava àquelas perguntas superficiais para cumprir protocolo, típicas de tia distante: - E a escola? - Tô bem. – na verdade, eu queria responder “está lá, no mesmo lugar, aberta para visitação”, mas não me sentia à vontade para colocar o meu senso de humor à sua prova. Perguntas vazias sobre o colégio me soavam ridículas, patéticas. Desde pequeno, sempre fui o “nerd” da turma. Nunca fiquei em recuperação e só tirei nota abaixo da média uma vez, por um décimo. Chorei horrores na ocasião, sentindo-me um fracassado. Mas acho que ele nem sabe disso. Meu pai nunca soube em qual série eu estava! - E a sua mãe? – não sei se por falta de assunto, por amor platônico não resolvido ou apenas para manter as aparências, ele sempre me perguntava por ela. Eu tinha a impressão que, nesse caso, ele estava verdadeiramente interessado na resposta. - Bem também – minhas respostas eram sempre vagas, porque minha mãe me pedia para não falar da vida dela para ele. Nunca entendi bem o motivo, mas acho que era para evitar possíveis intromissões. Às vezes, ele me perguntava se ela 66

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