La vuelta ao día en ochenta mundos

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Literatura argentina, recomendo: Julio Cortazar

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La vuelta ao día en ochenta mundos

  1. 1. Julio CortázarA VoltA Ao DiAem 80 munDos tradução alberto Simões
  2. 2. título original: la vuelta ao día en ochenta mundos© Herdeiros de Julio Cortázar, 1967(para os textos e para as ilustrações)© Cavalo de Ferro editores, 2009para a publicação em território portuguêsRevisão: Maria aida MouraPaginação: Finepaper1ª edição, Novembro de 20092ª edição, Dezembro de 2009iSBN: 978-989-623-104-0Quando não encontrar algum livro Cavalo de Ferro nas livrarias,sugerimos que visite o nosso site: www.cavalodeferro.com
  3. 3. De distancias llevadas a cabo, de resentimientos infieles, de hereditarias esperanzas mezcladas con sombra, de asistencias desgarradoramente dulces y días de transparente veta y estatua floral,¿qué subsiste en mi término escaso, en mi débil producto? PaBlo NEruDa, Diurno doliente Ah crevez-moi les yeux de l’âme S’ils s’habituaient aux nuées. araGoN, Le roman inachevé
  4. 4. PassepartoutPhileas Fogg
  5. 5. Assim se ComeçA Devo ao meu homónimo o título deste livro, e a lesterYoung a liberdade de tê-lo alterado sem ofender a sagaplanetária de Phileas Fogg, Esq. Numa noite em quelester enchia de fumo e de chuva a melodia de ThreeLittle Words, senti mais do que nunca aquilo que tornatais os grandes do jazz, aquela invenção que permanecefiel ao tema enquanto o combate, o transforma e o irisa.Quem é que alguma vez poderá esquecer a entrada impe-rial de Charlie Parker em Lady, Be Good? lester escolhiaagora o perfil, quase a ausência do tema, evocando-ocomo a antimatéria evoca talvez a matéria, e eu penseiem Mallarmé e em Kid azteca1, um pugilista que conheciem Buenos aires por volta dos anos 40 e que, face ao caossantafesino2 do adversário daquela noite, construiu umaausência quase perfeita à base de esquivas imperceptíveis,desenhando uma lição de vazios na qual se iam desfazeras patéticas bordoadas de onze onças. além disso, acon-tece que com o jazz saio sempre a descoberto, livro-me dacarapaça do idêntico para ganhar esponjosidade e simul-taneidade porosa, uma participação que naquela noitede lester era um ir e voltar de fragmentos de estrelas, deanagramas e palíndromos que a certa altura me trouxe-ram inexplicavelmente a recordação do meu homónimo1 Pseudónimo do legendário pugilista mexicano luis Villanueva. (todas as notas numera-das são da autoria do tradutor e do editor, as notas do autor estão identificadas pelo sim-bolo .)2 Proveniente de Santa Fé, cidade da argentina. 9
  6. 6. Julio CoRtÁZARe de repente foram Passepartout e a bela aouda, foi avolta ao dia em oitenta mundos, porque comigo a analo-gia funciona como com lester o esquema melódico queo atirava para o avesso do tapete, onde os mesmos fios eas mesmas cores se entrelaçavam de modo diverso. tudo o que se segue participa o mais possível (nemsempre se pode abandonar uma carapaça quotidianade cinquenta anos) dessa respiração da esponja em quecontinuamente entram e saem peixes da memória, alian-ças fulminantes de tempos e estados e matérias que aseriedade, essa senhora demasiadamente tida em conta,consideraria inconciliáveis. Diverte-me pensar este livroe alguns dos seus previsíveis efeitos na senhora aludida,um pouco como o cronópio3 Man ray pensava no seuferro de engomar com pregos e outros objectos maioresquando afirmava: «Não se deve de forma alguma confun-di-los com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plásticoque se espera das obras de arte em geral. Naturalmente– dizia ainda a corujazinha caixa de óculos, pensando nasenhora acima nomeada –, os visitantes da minha exposi-ção ficavam perplexos e não se atreviam a divertirem-se,uma vez que as galerias de pintura são consideradas san-tuários e que com a arte não se brinca.»  E não se atreviam a divertirem-se. Man ray, comoterias gostado de ouvir o que eu ouvi há uns meses emGenebra, onde uma galeria da cidade velha apresentavauma homenagem a Dada. Era precisamente o teu ferrocom pregos que lá estava, e enquanto a senhora mencio-3 Cronópio: palavra inventada por Cortázar que designa um indivíduo de personalidadeingénua, idealista, desorganizada, diametralmentre oposto às «famas», cfr. «Historias deCronopios y de Famas» (1962). Man ray, Autoportrait. 10
  7. 7. A VoltA Ao DiA em 80 munDosnada mais acima o contemplava com um respeito gelado,uma rapariga ruiva mantinha com outra mais a dar parao louro este diálogo exemplar: – No fundo não é assim tão diferente do meu ferro deengomar. – Como assim? – Sim, com este picas-te e com o meu queimas-te. ou, para voltar a lester, aquela vez em que um crí-tico musical tão sério como a senhora lhe perguntoupelas profundas razões estéticas que o tinham levado aabandonar a bateria pelo saxo-tenor e lester lhe respon-deu: «a bateria limita-te muito. De que vale a pena a umtipo reparar nas miúdas mais giras da plateia, se quandoacaba de desmontá-la já os outros as levaram todas?» ter-se-á já reparado que as citações abundam porestas bandas, e isto não é nada comparado ao que aí vem,ou seja, quase tudo. Nos oitenta mundos da minha volta ao dia há por-tos, hotéis e camas para os cronópios, e além dissocitar é citar-se, não sou o único a dizê-lo e a fazê-lo,com a diferença de que os pedantes citam porque ficabem, e os cronópios porque são terrivelmente egoís-tas e querem açambarcar os seus amigos, tal como eua lester, Man ray e todos os que se seguirão, robertlebel, por exemplo, que descreve este livro na per-feição quando diz: «tudo aquilo que vê nesta divisão,ou melhor, neste armazém, foi deixado pelos inquili-nos anteriores; por conseguinte, não verá grande coisaque me pertença, mas eu prefiro estes instrumentos doacaso. a diversidade da sua natureza impede-me de melimitar a uma reflexão unilateral, e neste laboratório,cujos recursos submeto a um inventário sistemáticoe, bem entendido, em sentido contrário ao natural, 11
  8. 8. Julio CoRtÁZAR Júlio Vernea minha imaginação expõe-se menos ao risco de mar-car passo.»  Eu teria precisado de mais palavras, decerteza. a personagem que fala através da boca de lebel énada menos do que Marcel Duchamp. À sua forma desuscitar uma realidade mais rica – por exemplo, fazendocultivos de pó, ou criando novas unidades de medidapelo sistema não mais convencional do que outros, dedeixar cair um bocado de cordel sobre uma superfíciecom cola revelando a sua longitude e o seu contorno –,junta-se aqui algo que não se poderia dizer explicita-mente mas que talvez chegue a dizer-se, a soltar-se de tudoisto. Faço alusão a um sentimento de substancialidade, aesse «estar vivo» que falta em tantos dos nossos livros, aofacto de escrever e respirar (no sentido indiano da respi- robert lebel, La double vue. 12
  9. 9. A VoltA Ao DiA em 80 munDosração como fluxo e refluxo do ser universal) não seremdois ritmos diferentes. algo como o que antonin artaudtentava dizer: «… Falo desse mínimo de vida pensantee em estado bruto – que não chegou à palavra mas quepoderia fazê-lo se fosse necessário –, e sem o qual a almanão pode viver e a vida é como se já não o fosse.»  E com isso, muito mais – oitenta mundos e em cadaum outros oitenta, e em cada um… – disparates, café,informações como as que fizeram a obscura fama de LesAdmirables Secrets d’Albert le Grand, entre as quais a de quese um homem morde outro quando está a comer lentilhas a mor-didela é incurável, e também a maravilhosa fórmula: Para fazer dançar uma rapariga em camisa Junte manjerona silvestre, orégãos puros, tomilho silvestre,verbena, folhas de murta com três folhas de nogueira e três caulespequenos de funcho, sendo que todos os ingredientes serão colhi-dos na noite de São João no mês de Junho e antes de o sol nas-cer. Devem secar-se à sombra, moer-se e peneirar-se numfino tamis de seda, e quando se quiser levar a cabo estabonita brincadeira soprar-se-á o pó para o ar, no localonde a rapariga estiver para que ela o respire,ou então far-se-á com que ela o tome como sefosse pó de tabaco; o efeito manifestar-se-á deimediato. Um autor famoso diz também queo efeito será ainda mais infalível se esta expe-riência travessa for levada a cabo num lugaronde ardam lâmpadas alimentadas com gor-dura de lebre e de jovem macho caprino. antonin artaud, L’ombilic des limbes. 13
  10. 10. Julio CoRtÁZAR Fórmula que não deixarei de testar nos meus vales daalta Provença onde todas essas ervas tanto perfumam,para não falar das raparigas. E ainda os poemas, creioeu, que se queixam de um olvido quiçá justo – mas issonunca se pode saber –, e um ar, um tom que eu queriacomo o de Dimanche m’attend do grande audiberti, e doThe Unquiet Grave, e de tantas páginas de Le Paysan deParis, e mais atrás, sempre, Jean, o passareiro que mearrancou da adolescência idiota de Buenos aires parame dizer aquilo que Júlio Verne tantas vezes me tinharepetido sem que eu o tivesse totalmente compreendido:há um mundo, há oitenta mundos por dia; há Dargelose Hatteras, há Gordon Pym, há Palinuro, há oppianolicario (desconhecido, não é? Já iremos falar do cronó-pio lezama lima, e um dia também de Felisberto4 e deMaurice Fourré), e há sobretudo o gesto de partilhar umcigarro e um passeio pelos bairros mais furtivos de Parisou de outros mundos, mas já chega, já ficaram com umaideia daquilo que vos espera, e por isso digamos comoo grande Macedonio: «recuso-me a assistir ao final dosmeus escritos, e é por isso que os termino antes.»54 Felisberto Hernández (1902-1964), escritor uruguaio e um dos principais expoentes daliteratura fantástica latino-americana.5 Macedonio Hernández (1874-1952), poeta e romancista argentino, conhecido pelo seuexcepcional sentido de humor e por uma tendência pela metafisica. 14
  11. 11. VeRÃo nAs ColinAs ontem à noite acabei de construir a gaiola para o bispode Evreux, brinquei com o gato teodoro W. adorno, edescobri sobre o céu de Cazeneuve uma nuvem solitá-ria que me fez pensar no quadro de rené Magritte, LaBataille de l’Argonne. Cazeneuve é uma pequena aldeia nascolinas que enfrentam o maciço do luberon, e quandosopra o mistral que polui o ar e as suas imagens, gostode observá-la da minha casa de Saignon e imaginarque todos os seus habitantes estão a cruzar os dedos damão esquerda ou a enfiar um boné de lã roxa, sobre-tudo ontem à noite, quando essa extraordinária nuvemMagritte me obrigou não apenas a interromper o encar-ceramento do bispo mas também o prazer de me rebo-lar pela erva com teodoro, actividade que ambos valo-rizamos acima de qualquer outra. No filoso céu da altaProvença, que às nove da noite retinha ainda muito sol eum quarto crescente de lua, a nuvem Magritte estava sus-pensa exactamente sobre Cazeneuve, e então senti umavez mais que a pálida natureza imitava a arte ardente, eque essa nuvem plagiava a suspensão vital sempre omi-nosa em Magritte e as ocultas potências de um texto pormim escrito há muitos anos e jamais publicado salvo emfrancês e que reza assim: 15
  12. 12. Julio CoRtÁZAR maneira simplicíssima de destruir uma cidade aguarda-se escondido no pasto que uma grande nuvem cumuliforme se posicione sobre a detestável cidade. lança-se então a flecha petri- ficadora, a nuvem converte-se em mármore, e o resto dispensa qualquer comentário. a minha mulher, que me sabe ocupado com a tarefade escrever um livro do qual apenas tenho definido odesejo e o título, lê por cima do meu ombro e pergunta: – Vai ser um livro de memórias? Quer dizer que jácomeçaste com a arteriosclerose? E onde é que vais ins-talar a gaiola do bispo? respondo-lhe que, com a idade que tenho, as artériasdevem já seguramente ter começado a sua vitrificaçãoassolapada, mas que as memórias estarão longe de incor-rer no narcisismo que acompanha a andropausa intelec-tual e que se acomodarão antes na nuvem Magritte, nogato teodoro W. adorno, e numa conduta que ninguémdescreveu melhor do que Felisberto Hernández quandodescobre em Tierras de la memoria (não das memórias)que os seus pensamentos oscilam sempre entre o infi-nito e o espirro. Quanto à gaiola, ainda me falta prendero bispo, que além disso é uma mandrágora, e só depoisse verá onde é que instalamos o seu oscilante inferno.a nossa casa é bastante grande, mas eu sempre tivetendência para lutar contra o vazio enquanto a minhamulher se bate em sentido contrário, o que tem dado aonosso casamento um dos seus muitos aspectos exaltan-tes. Se dependesse de mim, pendurava a gaiola do bispoa meio da sala para que a mandrágora episcopal tomasse 16
  13. 13. A VoltA Ao DiA em 80 munDosparte do nosso cadenciado Verão e nosvisse a tomar mate às cinco da tarde ecafé à hora da nuvem Magritte, para jánão falar da guerra sinuosa contra ostavões e as aranhas. a minha querida María zambrano,que defende amorosamente as diversasmanifestações de aracne, perdoar-me-áse eu disser que esta tarde apliquei umsapato e setenta e cinco quilos de pesosobre uma aranha negra que miravasubir pelas minhas calças, manobra coma qual consegui desencorajá-la notoria-mente. É óbvio que os restos da aranha jáse juntaram aos alimentos destinados aobispo de Evreux, que se vão amontoandonum canto da gaiola onde a ponta deuma vela permite distinguir pedaços decordel, beatas de Gauloises, flores secas,caracóis, e outro monte enorme de ingre-dientes que mereceriam a aprovação dopintor alberto Gironella, ainda que agaiola e o bispo lhe parecessem purotrabalho de amador. Seja como for nãovou poder pendurar a gaiola na sala; talcomo a nuvem sobre Cazeneuve, ficaráinquietamente suspensa sobre a minhamesa de trabalho. Já prendi o bispo: comduas chaves inglesas, apertei a corda emferro que lhe cinge o pescoço, deixando--lhe apenas um ponto de apoio para o pédireito. a corrente que sustém a gaiola teodoro W. adornochia cada vez que se abre a porta do meu 17
  14. 14. Julio CoRtÁZARquarto, e eu vejo o bispo de frente, depois de três quar-tos, e às vezes de costas; a corrente tem tendência parafixar a gaiola apenas numa posição. Quando chega ahora de comer, acendo a ponta da vela e a sombra dobispo é projectada nas paredes caiadas; o seu lado man-drágora acentua-se mais na sombra. Como em Saignon há muito poucos livros, apenas osoitenta ou cem que vamos ler durante o Verão e os quecompramos na livraria Dumas quando descemos até aptem dia de mercado, faltam-me referências sobre o bispo enão sei se estava solto ou preso na gaiola. Enquanto bispoprefiro tê-lo preso pelo pescoço, ainda que enquantomandrágora esse tratamento me inquiete. o meu pro-blema é mais complicado do que o de luís Xi para quemhavia apenas o problema episcopal; eu tenho bispo, man-drágora, e além disso as duas coisas são uma terceira emforma de velha vide de uns quinze centímetros de com-primento, com um enorme sexo confuso, uma cabeçarematada com dois cornos ou antenas, e uns braços quepodem ter abraçado hipocritamente um condenado àroda ou uma criada que não desconfiava o suficiente dospalheiros. Decido-me pela corda e por uma alimentaçãode raiz diabólica; para a mandrágora, haverá de tantoem tanto tempo um pratinho de leite, sem contar quealguém me disse que é preciso acariciar as mandrágorascom uma pena para que elas fiquem contentes e dispen-sem os seus favores. a ironia da pergunta da minha mulher ficou emmim um pouco como a nuvem sobre Cazeneuve. E por-que não um livro de memórias? Se me apetecesse, por-que não? Que continente de hipócritas o sul-americano,que medo que nos chamem vaidosos e/ou pedantes. Serobert Graves ou Simone de Beauvoir falam de si mes- 18
  15. 15. A VoltA Ao DiA em 80 munDosmos, grande respeito e deferência; se Carlos Fuentes oueu publicássemos as nossas memórias, diziam imedia-tamente que nos achamos importantes. uma das pro-vas do subdesenvolvimento dos nossos países é a faltade espontaneidade dos seus escritores; a outra é a falta dehumor, pois este não nasce sem espontaneidade. a somade espontaneidade e de humor é o que noutras socieda-des dá ao escritor a sua personalidade; Graves e Beauvoirescrevem as suas memórias no mesmíssimo dia em queisso lhes passa pela cabeça, sem que a eles ou aos leito-res lhes pareça algo de excepcional. Nós, tímidos produ-tos da auto-censura e da vigilância sorridente de amigose críticos, limitamo-nos a escrever memórias de segundacom aparições à Fregoli a partir das nossas novelas. E setodo o novelista faz sempre um pouco isso, porque estána própria natureza das coisas, mas nós deixamo-nosficar no interior, estabelecemos morada legal nas nossasnovelas, e quando saímos à rua somos uns senhores abor-recidos, de preferência vestidos de escuro. Vamos lá a ver:porque é que eu não deveria escrever as minhas memó-rias, agora que inicia o meu crepúsculo, que terminei agaiola do bispo e que sou culpado de um pequeno montede livros que me dão algum direito à primeira pessoa dosingular? o problema é resolvido por teodoro W. adorno, quesalta desajeitadamente para cima dos meus joelhos comos consequentes arranhões, porque quando brinco comele esqueço-me das memórias, mas queria por outrolado esclarecer que o seu nome não lhe foi dado por iro-nia, mas por causa do regozijo infinito que certas corres-pondências argentinas nos causam à minha mulher e amim. antes de explicar isto, já se deve ter notado que medivirto muito mais a falar de teodoro e de outros gatos 19
  16. 16. Julio CoRtÁZARou pessoas do que de mim. ou da mandrágora, se vamospor aí, da qual ainda quase nada se disse. albert-Marie Schmidt  ensina-nos que o adão doscabalistas não só foi expulso do Éden, como Jeová, essepassarinho mandão, lhe negou Eva. Num sonho, adãoviu a imagem da mulher amada com tanta claridade queo desejo fez aquilo que tinha a fazer e a semente do pri-meiro homem caiu sobre a terra e deu origem a umaplanta que tomou forma humana. Na idade Média (eno cinema alemão) insinua-se a crença de que a man-drágora é fruto de cadafalso, do sinistro espasmo finaldo enforcado. Fazia falta um cronópio de longuíssimasantenas para estender uma ponte entre tão dísparesversões. Jesus não é o novo Adão, não foi pendurado a umpedaço de madeira como se diz nos actos dos apóstolos? a decência cristã escamoteou – literal- mente – a raiz da crença, que se degradou até se tornar num conto de Grimm, o do ado- lescente virgem injusta- mente enforcado aos pés do qual nasce a mandrá- gora; porém esse adoles- cente é o Cristo, e o seu fruto involuntário preen- che o folclore à falta de melhor descendência. La Mandragore, Flammarion, Paris, cap. iii. 20
  17. 17. A VoltA Ao DiA em 80 munDos mais sobre gatos e filósofos Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda porcima argentino, e não sentir-me obrigado a escrever asério, a ser sério, a sentar-me diante da máquina comos sapatos engraxados e uma noção sepulcral da gravi-dade do instante. Das frases que mais amei premonito-riamente na infância figura a de um colega de carteira:«Que risada, toda a gente chorava!» Nada mais cómicodo que a seriedade entendida como valor prévio a toda aliteratura importante (outra noção infinitamente cómicaquando postulada), essa seriedade do indivíduo queescreve como quem vai a um velório por obrigação ou dáuma massagem a um padre. Sobre este tema dos velórios,tenho de contar uma coisa que ouvi uma vez da boca dodoutor alejandro Gancedo, mas primeiro regressemosao gato porque já está na hora de explicar porque é quese chama teodoro. Numa novela que está a cozinhar afogo lento, havia uma passagem que eu suprimi (breve-mente se verá que já suprimi tantas coisas a essa novelaque, como Macedonio diria, se suprimo mais uma deixade existir), e nessa passagem havia três argentinos nadasérios nem importantes que discutiam o problema dossuplementos dominicais dos jornais de Buenos aires etemas adstritos da seguinte forma… talvez já se tenha falado de um gato negro; é tempode precisar que se chamava teodoro em homenagemindirecta ao pensador alemão, e que Juan, Calac ePolanco lhe tinham dado esse nome depois de glosasprolixas sobre os materiais literários que algumas tiasfiéis lhes enviavam do río de la Plata e nos quais algunssociólogos feitos mais a dedo do que outra coisa citavamabundantemente o célebre adorno, cujo apelido vistoso 21
  18. 18. Julio CoRtÁZARpareciam querer aproveitar por uma simples questão deembelezarem os seus ensaios e assim impressionaremo conterrâneo. Nesses tempos quase todos os artigosdesse tipo apareciam cobertos de citações de adorno etambém de Wittgenstein, razão pela qual Polanco tinhainsistido que o gato merecia ser baptizado de Tractatus,moção mal recebida por Calac, Juan e o próprio gatoque, pelo contrário, não parecia nada deprimido por sechamar teodoro. Segundo Polanco, que era o mais velho, vinte anosantes o gato ter-se-ia chamado rainer Maria por razõesanálogas, um pouco mais tarde albert ou William – ave-rigua, averiguador –, e posteriormente Saint-John Perse(grande nome para um gato, bem vistas as coisas) ouDylan. agitando velhos recortes de jornais do país nataldiante dos olhos estupefactos de Juan e de Calac, ele eracapaz de demonstrar irrefutavelmente que os sociólogosque colaboravam nessas colunas deviam no fundo serum único sociólogo, e que a única coisa que ia mudandoao longo dos anos eram as citações, isto é, o importanteera estar na moda nessa matéria e evitar-sob-pena-de--descrédito toda e qualquer menção a autores já usadosno decénio anterior. Pareto, uma má escolha. Durkheim,que falta de gosto. assim que chegavam os recortes, ostrês tártaros averiguavam de imediato qual a ocupaçãodo sociólogo nas últimas semanas sem se preocuparemcom as diferentes assinaturas no fim dos artigos, umavez que o único ponto de interesse estava em descobrir acada tantos centímetros a citação de Wittgenstein ou deadorno sem as quais seria inconcebível qualquer artigo.«Esperem só um bocado – dizia Polanco, – vão ver quedepressa chega a vez de levi-Strauss, se é que não che- 22
  19. 19. A VoltA Ao DiA em 80 munDosgou já, e aí é que vão ser elas, pibes 6.» Juan lembravaentretanto que os blue-jeans mais prestigiados nos Euaeram fabricados por um tal de levi Strauss, mas Calac ePolanco faziam-lhe ver que se estava a afastar da questão,e os três passavam então à investigação das últimas acti-vidades da gorda. a história da gorda era propriedade quase exclusivade Calac, que sabia dezenas de sonetos da celebradapoeta de cor e os recitava enquanto ia alternando qua-dras e tercetos sem que ninguém se desse conta da dife-rença, tal como o facto de a gorda dedomingo 8 ter dois apelidos e a do 29apenas um não alterava em nada acerteza de que havia apenas umagorda, que vivia em diversasmoradas sob diversos nomes ecom diversos maridos mas que,de uma maneira que não dei-xava de ser comovente, escre-via sempre o mesmo sonetoou quase. «É pura fantaciência– dizia Calac, – eles estão aentrar em mutação nesses jor-nais, che 7, há um protagonistamúltiplo que ainda não sabeque poderia pagar apenas umarenda. os investigadores deviamprovocar o encontro nada fortuitodo Sociólogo e da Gorda para verse se acende a chispa genética e6 Pibe – (arg.) Miúdo, puto.7 Che – (arg.) interjeição popular; amigo. 23
  20. 20. Julio CoRtÁZARdamos um salto enorme para diante.» inútil será dizerque tudo isto interessava bem pouco a teodoro desdeque lhe metessem a sua taça de leite morno ao lado dacama de Calac, que era o ágora onde se estudavam essesproblemas do destino sul-americano. 24
  21. 21. Julios em ACçÃo ao longo do século XiX, refugiar-se na metafísicafoi uma das mais frequentes soluções face ao timor mor-tis, às misérias do hic et nunc e ao sentimento do absur-do através do qual nos definimos e definimos o mundo. Encore à cet astre Espèce de soleil! tu songes: – Voyez-les, Ces pantins morphinés, buveurs de lait d’ânesse Et de café ; sans trêve, en vain, le jour caresse L’échine de mes feux, ils vont étiolés ! – – Eh ! c’est toi, qui n’a plus de rayons gelés ! Nous, nous, mais nous crevons de santé, de jeunesse ! C’est vrai, la terre n’est qu’une vaste kermesse, Nos hourrahs de gaîté courbent au loin les blés. Toi seul claques des dents, car tes taches accrues Te mangent, ô Soleil, ainsi que des verrues Un vaste citron d’or, et bientôt, blond moqueur, Après tant de couchants dans la pourpre et la gloire, Tu seras en risée aux étoiles sans cœur, Astre jaune et grêlé, flamboyante écumoire ! Seja dito de passagem (mas numa passagem privilegiada) que em 1911 Marcel Duchamp fez um desenho para este poema, de onde haveria de sair o seu Nu descendant un es- calier. Sequência patafísica normalíssima. 25
  22. 22. Julio CoRtÁZARFoi então que veio Jules laforge, que, num certo sentido,se adiantou como cosmonauta ao outro Jules, e mostrouum recurso mais simples: para quê a vaporosa metafísicaquando tínhamos a física palpável à mão? Numa época emque todo o sentimento se movia como um bumerangue,laforge lançou o seu como um dardo contra o sol, contrao desesperante mistério cósmico. Que ele estava certo pro-vou-o o tempo: no século xx, nada pode curar-nos melhordo antropocentrismo, causa de todos os nossos males, doque a aproximação à física do infinitamente grande (oupequena). através de qualquer texto de divulgação cientí-fica, recupera-se vivamente o sentimento do absurdo, masdesta vez trata-se de um sentimento ao alcance da mão,nascido de coisas tangíveis ou demonstráveis, quase con-solador. Já não há que acreditar porque é absurdo, senãoque é absurdo porque há que acreditar. as minhas leituras eruditas do correio científico deLe Monde (sai às quintas) têm ainda a vantagem de, em 26
  23. 23. A VoltA Ao DiA em 80 munDoslugar de me subtraírem ao absurdo, incitarem-me a acei-tá-lo como o modo natural segundo o qual se nos ofereceuma realidade inconcebível. E isto já não é a mesma coisaque aceitar a realidade ainda que se considere absurda,mas a suspeita de que no absurdo existe um desafio quea física terá acolhido sem que possa saber-se como e noque é que vai terminar a sua correria louca pelo túnelduplo do telescópio e do microscópio (será esse túnelrealmente duplo?). Quero com isto dizer que um sentimento claro doabsurdo situa-nos melhor e mais lucidamente do que asegurança de raiz kantiana segundo a qual os fenómenossão mediatizações de uma realidade inalcançável, masque de qualquer forma lhes serve de garantia por um anocontra qualquer dano. os cronópios têm desde pequenosuma noção sumamente construtiva do absurdo, e é porisso que ficam bastante sobressaltados quando vêem osfamas tão sossegados depois de lerem uma notícia comoa que se segue: A nova partícula elementar («N. Asterisco3245») possui uma vida relativamente mais longa do que a deoutras partículas conhecidas, ainda que apenas dure um milé-simo de milionésimo de milionésimo de milionésimo de segundo.(Le Monde, quinta-feira 7 de Julho de 1966). – Ó Coca – diz o fama depois de ler esta informação, –traz-me os sapatos de camurça que esta tarde tenho umareunião importantíssima na Sociedade de Escritores.Vai ser discutida a questão dos jogos florais em CuruzúCuatiá e já estou vinte minutos atrasado. No meio de tudo isto, já vários cronópios se excita-ram enormemente porque acabam de se dar conta deque às tantas o universo é assimétrico, o que vai contraa mais ilustre de todas as ideias apreendidas. um investi-gador chamado Paolo Franzini e a sua mulher Juliet lee 27
  24. 24. Julio CoRtÁZARFranzini (já repararam como a partir de um Julio queescreve e de outro Julio que desenha8 se incorporaramaqui dois Jules e agora uma Juliet, tudo isto à base de umanotícia publicada a 7 de Julho, mês cujo nome deriva deum Giulio?) sabem muitíssimo sobre o mesão Eta neutro,que saiu do anonimato há pouco e que tem a curiosa par-ticularidade de ser a antipartícula de si próprio. assimque se decompõe, este mesão produz três mesões Pi, dosquais um, coitadinho, é neutro, e os outros dois são res-pectivamente positivo e negativo para grande alívio detodos nós. até que (e é aqui que entram os Franzini) sedescobre que o comportamento dos dois mesões Pi nãoé simétrico; a harmoniosa noção de que a antimatéria éo reflexo exacto da matéria esvazia-se como um balãozi-nho. o que vai ser de nós? os Franzini não se assustaramminimamente; não faz mal que os dois mesões Pi sejamirmãos inimigos, pois isso ajuda a reconhecê-los e identi-ficá-los. até a física tem os seus talleyrand. os cronópios sentem assobiar nas orelhas o vento davertigem quando lêem no final da notícia: «assim, gra-ças a esta assimetria, poderá chegar-se talvez à identifica-ção dos corpos celestes de antimatéria, sempre que essescorpos existam, como alguns defendem baseando-se nasradiações emitidas por estes.» E isto sempre à quinta, sem-pre no Le Monde, sempre com algum Julio por perto. Quanto aos famas, já o disse laforge a partir de umadas suas cabines espaciais:La plupart vit et meurt sans soupçonner l’histoireDu globe, sa misère en l’éternelle gloire,Sa future agonie au soleil moribond.8 Julio Silva, pintor e escultor argentino, nascido em 1930, vive em Paris desde 1955. 28
  25. 25. A VoltA Ao DiA em 80 munDosVertiges d’univers, cieux à jamais en fête !Rien, ils n’auront rien su. Comment même s’en vontSans avoir seulement visité leur planète. P.S. Quando anotei: «Sequência patafísica normalís-sima» após indicar esse enlace laforge-Duchamp que, deuma maneira ou de outra, me envolve sempre, não imagi-nava que uma vez mais teria passagem para o mundo dosgrandes transparentes. Nessa mesma tarde (11 Dezembrode 1966), depois de trabalhar neste texto, decidi visitaruma exposição dedicada a Dada. o primeiro quadro quevi ao entrar foi o Nu descendant un escalier, enviado espe-cialmente para Paris pelo museu de Filadélfia. 29
  26. 26. Do sentimento De nÃo estAR totAlmente Jamais réel et toujours vrai (Num desenho de antonin artaud) Serei sempre uma criança para muitas coisas, masuma dessas crianças que desde o príncipio trazem den-tro de si o adulto, de maneira que quando o monstrinhochega realmente a adulto, acontece que este traz tambémdentro de si a criança, e nel mezzo del camin dá-se uma coe-xistência raramente pacífica de pelo menos duas abertu-ras para o mundo. tudo isto pode entender-se metaforicamente, masem qualquer caso é indicador de um temperamentoque não renunciou à visão pueril como preço da visãoadulta, e esta justaposição que faz o poeta e talvez o cri-minoso, assim como o cronópio e o humorista (questãode doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula,de escolhas: agora brinco, agora mato) manifesta-se pelosentimento de não estar totalmente em nenhuma dasestruturas, das teias que a vida arma e nas quais somossimultaneamente aranha e mosca. Muito do que tenho escrito se pode definir sob o signoda excentricidade, uma vez que jamais admiti uma claradiferença entre viver e escrever; se ao viver chego a dissi-mular uma participação parcial na minha circunstância,não posso por outro lado negá-la naquilo que escrevo,uma vez que escrevo precisamente por não estar ou porestar de forma parcial. Escrevo por defeito, por desloca- 30
  27. 27. A VoltA Ao DiA em 80 munDosção; e como escrevo a partir de um interstício, estou sem-pre a convidar os outros a procurarem os seus e a olha-rem por eles, o jardim onde as árvores dão frutos que,obviamente, são pedras preciosas. o monstrinho conti-nua firme no seu lugar. Esta espécie de constante lúdica explica, se é que nãojustifica, muito daquilo que tenho escrito ou vivido. aosmeus romances – essa brincadeira à beira do parapeito,esse fósforo ao lado da garrafa de gasolina, esse revólvercarregado em cima da mesa-de-cabeceira – censura-se abusca intelectual do próprio romance, que seria assimum género de comentário contínuo da acção, e muitasvezes a acção de um comentário. aborrece-me argumen-tar a posteriori que existe ao longo dessa dialéctica mágicaum homem-criança que luta por rematar o jogo da suavida: um-dó-li-tá-quem-está-livre-livre-está. Porque, bemvistas as coisas, não é o jogo um processo que parte deuma deslocação para chegar a uma colocação, a umlugar: golo, xeque-mate, um dois três salva todos? Não éa realização de uma cerimónia que avança em direcçãoao estado final que a coroa? o homem do nosso tempo acredita facilmente queo seu grau de informação histórica ou filosófica o salvado realismo ingénuo. Em conferências universitárias eem conversas de café, chega a admitir que a realidadenão é o que parece, e está sempre disposto a reconhe-cer que os seus sentidos o enganam e que a sua inteli-gência lhe fabrica uma visão tolerável mas incompletado mundo. Cada vez que pensa metafisicamente sente-se«mais triste e mais sábio», mas a sua admissão é momen-tânea e excepcional, ao mesmo tempo que o contínuo davida o instala plenamente na aparência, concretiza-a emtorno dele, veste-a de definições, funções e valores. Mais 31
  28. 28. Julio CoRtÁZARdo que um realista ingénuo, este homem é um ingénuorealista. Basta observar o seu comportamento face aoexcepcional, ao insólito; ou o reduz a fenómeno estéticoou poético («era uma coisa mesmo surrealista, estou-te adizer»), ou renuncia de imediato a analisar a semi-visãoque lhe foi oferecida por um sonho, por um acto falhado,por uma associação verbal ou causal fora do comum, poruma coincidência perturbadora, de qualquer uma dasinstantâneas fracturas do continuum. Se o interrogarem,dirá que não acredita de forma alguma na realidade quo-tidiana e que só a aceita pragmaticamente. Mas ó se acre-dita, é a única coisa em que acredita. o seu sentido davida parece-se com o mecanismo do seu olhar. Às vezestem uma breve consciência de que de tantos em tantossegundos as pálpebras interrompem a visão que a suaconsciência decidiu entender como permanente e contí-nua; mas o pestanejar volta a ser inconsciente quase deimediato, e o livro ou a maçã fixam-se na sua obstinadaaparência. Há uma espécie de acordo de cavalheirosentre a circunstância e os circunstanciados: tu não alteras 32

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