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  1. 1. A pesquisa qualitativa vem se estabelecendo nas ciências sociais e na psicolo- gia. Existe, atualmente, uma enorme variedade de métodos específicos dispo- níveis, cada um dos quais partindo de diferentes premissas em busca de obje- tivos distintos. Cada método baseia-se em uma compreensão específica de seu objeto. No entanto, os métodos qualitativos não podem ser considerados inde- pendentemente do processo de pesquisa e do assunto em estudo. Encontram- se especificamente incorporados ao processo de pesquisa, sendo melhor com- preendidos e descritos através de uma perspectiva do processo. Portanto, apre- sentar as diferentes etapas no processo de pesquisa qualitativa será a preocu- pação central deste livro. Os procedimentos mais importantes para a coleta e a interpretação de dados, bem como para a avaliação e a apresentação de resultados, serão determinados nesse modelo processual, oferecendo aos lei- tores uma visão geral do campo da pesquisa qualitativa, de alternativas meto- dológicas concretas e suas pretensões, aplicações e limites, devendo permitir- lhes a escolha da estratégia metodológica mais apropriada no que diz respeito à questão e aos assuntos de pesquisa. A RELEVÂNCIA DA PESQUISA QUALITATIVA A relevância específica da pesquisa qualitativa para o estudo das relações so- ciais deve-se ao fato da pluralização das esferas de vida. Expressões-chave para essa pluralização são a “nova obscuridade” (Habermas, 1996), a crescen- te “individualização das formas de vida e dos padrões biográficos” (Beck, 1992) e a dissolução de “velhas” desigualdades sociais dentro da nova diversidade A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 1 A relevância da pesquisa qualitativa .......................................................................... 17 Limites da pesquisa quantitativa como ponto de partida........................................... 18 Aspectos essenciais da pesquisa qualitativa ............................................................... 20 A história da pesquisa qualitativa .............................................................................. 22 Apresentação do processo como orientação no campo dos métodos qualitativos ..... 26 A pesquisa qualitativa ao final da modernidade ........................................................ 28
  2. 2. 18 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa de ambientes, subculturas, estilos e formas de vida (Hradil, 1992). Essa plura- lização exige uma nova sensibilidade para o estudo empírico das questões. Os defensores do pós-modernismo argumentam que a era das grandes narrativas e teorias chegou ao final: as narrativas agora devem ser limitadas em termos locais, temporais e situacionais. Quanto à pluralização de estilos de vida e de padrões de interpretação na sociedade moderna e pós-moderna, a afirmação de Herbert Blumer ganha novamente relevância, assumindo novas implica- ções: “A postura inicial do cientista social e do psicólogo quase sempre carece de familiaridade com o que de fato ocorre na esfera da vida que ele se propõe estudar” (1969, p. 33). A mudança social acelerada e a conseqüente diversificação de esferas de vida fazem com que os pesquisadores sociais defrontem-se, cada vez mais, com novos contextos e perspectivas sociais; situações tão novas para eles que suas metodologias dedutivas tradicionais – questões e hipóteses de pesquisa derivadas de modelos teóricos e testadas sobre a evidência empírica – fracas- sam na diferenciação de objetos. Conseqüentemente, a pesquisa é, cada vez mais, obrigada a utilizar estratégias indutivas: em vez de partir de teorias para testá-las, são necessários “conceitos sensibilizantes” para a abordagem de con- textos sociais a serem estudados. Entretanto, contrariando o equívoco difun- dido, tais conceitos são, em sua essência, influenciados por um conhecimento teórico anterior. Porém, aqui, as teorias são desenvolvidas a partir de estudos empíricos. O conhecimento e a prática são estudados como conhecimento e prática locais (Geertz, 1983). No que tange à pesquisa em psicologia, de forma particular, discute-se a sua falta de relevância para a vida cotidiana por não se dedicar suficientemen- te à descrição precisa dos fatos de um caso (Dörner, 1983). O estudo dos significados subjetivos e da experiência e prática cotidianas é tão essencial quanto a contemplação das narrativas (Bruner, 1991; Sarbin, 1986) e dos discursos (Harré, 1998). LIMITES DA PESQUISA QUANTITATIVA COMO PONTO DE PARTIDA Por tradição, a psicologia e as ciências sociais têm adotado como modelo as ciências naturais e sua exatidão, prestando uma atenção especial para o de- senvolvimento de métodos quantitativos e padronizados. Princípios norteado- res de pesquisa e de planejamento de pesquisa são utilizados com as seguintes finalidades: isolar claramente causas e efeitos, operacionalizar corretamente relações teóricas, medir e quantificar fenômenos, criar planos de pesquisa (que permitam a generalização de descobertas) e formular leis gerais. Por exemplo, selecionam-se amostras aleatórias de populações de forma a se assegurar a representatividade. Enunciados gerais são dissociados, o máximo possível, de casos concretos que tenham sido estudados. Os fenômenos observados são classificados de acordo com sua freqüência e distribuição. Com o intuito de classificar, da forma mais clara possível, as relações causais e sua validade, as condições sob as quais os fenômenos e as relações em estudo ocorrem são controladas ao extremo. Os estudos são planejados de tal maneira que a in- fluência do pesquisador (entrevistador, observador, etc.) possa ser excluída ao máximo. Assim, deve-se garantir a objetividade do estudo, eliminando-se, em
  3. 3. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 19 grande parte, as opiniões subjetivas do pesquisador, bem como daqueles indi- víduos submetidos ao estudo. Padrões obrigatórios gerais para a realização e a avaliação de pesquisa social empírica têm sido formulados. Procedimentos da ordem de como construir um questionário, como planejar e experimentar e como analisar dados estatisticamente tornam-se cada vez mais apurados. Durante muito tempo, a pesquisa psicológica utilizou, quase que exclusi- vamente, planos experimentais. Através desses planos, foram produzidas gran- des quantidades de dados e resultados que demonstram e testam as relações psicológicas entre variáveis e as condições sob as quais elas são válidas. Pelas razões acima mencionadas, durante um longo período, a pesquisa social em- pírica teve por base essencialmente levantamentos padronizados. O objetivo era documentar e analisar a freqüência e a distribuição dos fenômenos sociais na população – por exemplo, determinadas atitudes. Em escala cada vez me- nor, padrões e procedimentos de pesquisa quantitativa foram fundamental- mente examinados e analisados, de forma a esclarecer a quais objetos e ques- tões de pesquisa eles se ajustam e a quais não. Quando a pesquisa realizada com os alvos acima é, em sua totalidade, equilibrada, os resultados revelam-se bastante negativos. Os ideais da objeti- vidade desencantam-se quase que por completo: há algum tempo atrás, Max Weber (1919) anunciou o “desencantamento do mundo” como a tarefa da ciência. Mais recentemente, Bonß e Hartmann (1985) propuseram o crescen- te desencantamento das ciências, seus métodos e suas descobertas. No caso das ciências sociais, o baixo grau de aplicabilidade e conectabilidade de resul- tados é considerado um indicador disso. Com um abrangência bem menor do que a esperada – e, sobretudo, de forma bastante diversa – as descobertas da pesquisa social têm achado o caminho dos contextos políticos e cotidianos. A “pesquisa da utilização” (Beck e Bonß, 1989) demonstra que descobertas cien- tíficas não são transferidas para as práticas políticas e institucionais tanto quanto seria de se esperar. Quando utilizadas, são obviamente reinterpretadas e criti- cadas: “A ciência não mais produz ‘verdades absolutas’, capazes de serem ado- tadas indiscriminadamente. Fornece ofertas limitadas para a interpretação, cujo alcance é maior do que o das teorias cotidianas, mas que podem ser empregadas na prática com comparável flexibilidade” (1989, p. 31). Resta claro também que os resultados das ciências sociais são raramente percebidos e utilizados na vida cotidiana porque – para satisfazer a padrões metodológicos – suas investigações e descobertas, muitas vezes, afastam-se das questões e dos problemas do dia-a-dia. Por outro lado, análises da prática da pesquisa demonstram que grande parte dos ideais de objetividade formula- dos com antecedência não podem ser consumados. Apesar de todos os contro- les metodológicos, a pesquisa e suas descobertas são inevitavelmente influen- ciadas pelos interesses e pelas formações social e cultural dos envolvidos. Tais fatores influenciam a formulação das questões e hipóteses da pesquisa, assim como a interpretação de dados e relações. Por último, o desencantamento relatado por Bonß e Hartmann traz con- seqüências para a forma de conhecimento pela qual a psicologia e as ciências sociais podem lutar para produzir, e, sobretudo, são capazes de assim o fazer: “Na condição do desencantamento dos ideais objetivistas, não podemos mais, irrefletidamente, partir da noção das frases objetivamente verdadeiras. O que fica é a possibilidade de enunciados que se relacionem a sujeitos e situações, e
  4. 4. 20 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa que devem ser estabelecidos por um conceito sociologicamente articulado de conhecimento” (1985, p. 21). A formulação empiricamente bem-embasada desses enunciados relacionados ao sujeito e à situação é uma meta que pode ser alcançada com a pesquisa qualitativa. ASPECTOS ESSENCIAIS DA PESQUISA QUALITATIVA As idéias centrais que conduzem a pesquisa qualitativa diferem daquelas em- pregadas na pesquisa quantitativa. Os aspectos essenciais da pesquisa qualita- tiva (Quadro 1.1) consistem na escolha correta de métodos e teorias oportu- nos; no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas; nas reflexões dos pesquisadores a respeito de sua pesquisa como parte do processo de pro- dução de conhecimento; e na variedade de abordagens e métodos. QUADRO 1.1 Aspectos da pesquisa qualitativa: lista preliminar • Apropriabilidade de métodos e teorias • Perspectivas dos participantes e sua diversidade • Reflexividade do pesquisador e da pesquisa • Variedade de abordagens e métodos na pesquisa qualitativa Apropriabilidade de métodos e teorias Em seu influente livro-texto sobre pesquisa empírica, Bortz (1984, p. 15-16) sugere, por exemplo, que é necessário verificar a “adequação de idéias para investigações” e escolher apenas aquelas idéias de pesquisa que possam ser estu- dadas empiricamente. Para ele, as seguintes idéias não se ajustam a esse campo: idéias para investigações de (...) conteúdo filosófico (por exemplo, (...) o sentido da vida) e investigações que lidem com conceitos imprecisos (...) o estudo de situações ou pessoas excepcionais (por exemplo, os problemas psicológicos dos anões) (...) Por fim, estudos sobre a relevância causal de aspectos isolados, que, na verdade, só são eficazes em combinação com outros fatores que os influenciem. Não há dúvidas de que faz sentido refletir sobre a possibilidade de uma questão de pesquisa ser estudada empiricamente ou não (veja o Capítulo 5). Porém, para Bortz, o critério para a avaliação do objeto de pesquisa consiste em definir se os métodos disponíveis (e, mais ainda, aceitos) podem ou não ser empregados para estudá-lo. Pessoas ou situações excepcionais podem até ser encontradas, mas não necessariamente em número suficiente que justifi- que uma amostra para um estudo de quantificação e descobertas generalizá- veis. O fato de que a maioria dos fenômenos da realidade, de fato, não possam ser explicados de forma isolada é resultado da complexidade da realidade e dos fenômenos. Se todos os estudos empíricos fossem planejados exclusiva- mente de acordo com o modelo das nítidas relações de causa e efeito, todos os objetos complexos teriam de ser excluídos. Essa é a primeira solução para o
  5. 5. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 21 problema da análise de causas abrangendo diferentes aspectos, mencionado por Bortz. Uma segunda solução é levar em conta condições contextuais em planos complexos de pesquisa quantitativa (por exemplo, análises multiní- veis: Saldern, 1986) e entender modelos complexos empírica e estatistica- mente. A abstração metodológica necessária dificulta a reintrodução das des- cobertas nas situações cotidianas em estudo. O problema básico – de que o estudo pode apenas mostrar o que o modelo subjacente da realidade já abran- ge – não é resolvido dessa maneira. A terceira forma de resolver o problema é buscada na pesquisa qualitati- va: planejar métodos tão abertos que façam justiça à complexidade do objeto em estudo. Aqui, o objeto em estudo é o fator determinante para a escolha de um método e não o contrário. Os objetos não são reduzidos a variáveis únicas, mas são estudados em sua complexidade e totalidade em seu contexto diário. Portanto, os campos de estudo não são situações artificiais em laboratório, mas as práticas e interações dos sujeitos na vida cotidiana. Aqui, em particu- lar, situações e pessoas excepcionais são freqüentemente estudadas (veja o Capítulo 7). Em justiça à diversidade da vida cotidiana, os métodos caracteri- zam-se por uma abertura para com seus objetos, garantida de diversas formas (veja os Capítulos 8 a 17). A meta da pesquisa concentra-se menos em testar o que já é bem conhecido (por exemplo, teorias já formuladas antecipadamen- te) e mais em descobrir o novo e desenvolver teorias empiricamente embasa- das. Além disso, avalia-se a validade do estudo com referência ao objeto que está sendo estudado, sem seguir, exclusivamente, critérios acadêmicos de ciên- cia como na pesquisa quantitativa. Ao contrário, os critérios centrais, na pes- quisa qualitativa, consistem em determinar se as descobertas são embasadas em material empírico e se os métodos foram adequadamente selecionados e aplicados ao objeto em estudo. A relevância das descobertas e a reflexividade dos procedimentos são critérios adicionais (veja o Capítulo 18). Perspectivas dos participantes e sua diversidade O exemplo das perturbações mentais permite-nos explicar outro aspecto da pesquisa qualitativa. Estudos epidemiológicos mostram a freqüência da esqui- zofrenia na população, e, além disso, a forma como sua distribuição varia: em classes sociais mais baixas, perturbações mentais sérias, como a esquizofre- nia, ocorrem com bem mais freqüência do que nas classes mais altas. Essas correlações foram descobertas por Hollingshead e Redlich (1958), na década de 1950, sendo, desde então, várias vezes confirmadas. No entanto, não se conseguiu esclarecer a direção da correlação: será que as condições de vida em uma classe mais baixa favorecem a ocorrência e a eclosão de perturbações mentais, ou será que pessoas com problemas mentais caem nas classes mais baixas (veja Keupp, 1982)? Além disso, essas descobertas não nos explicam o que significa viver com uma doença mental. Não se esclarece o significado subjetivo dessa doença (ou da saúde) para aqueles diretamente afetados, nem se compreende a diversidade de perspectivas sobre a doença em seu contexto. Qual é o significado subjetivo da esquizofrenia para o paciente, e qual seria esse significado para seus familiares? Como as diversas pessoas envolvidas lidam com a doença na vida real? O que levou ao aparecimento da doença no
  6. 6. 22 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa curso da vida do paciente e o que fez com que esta se tornasse uma doença crônica? Quais foram as influências das diversas instituições que trataram o paciente ao longo de sua vida nessa trajetória? Que idéias, metas e rotinas indicam a forma concreta de essas instituições tratarem o caso? A pesquisa qualitativa a respeito de tópicos como a doença mental con- centra-se em perguntas como essas (para um panorama geral, veja Flick, 1995b). Demonstra a variedade de perspectivas (do paciente, de seus familia- res, de profissionais) sobre o objeto, partindo dos significados subjetivos e sociais a ele relacionados. A pesquisa qualitativa estuda o conhecimento e as práticas dos participantes. Analisa interações sobre a doença mental e formas de lidar com esta em um campo específico. As interrelações são descritas no contexto concreto do caso e explicadas em relação a este. A pesquisa qualita- tiva considera que pontos de vista e práticas no campo são diferentes devido às diversas perspectivas subjetivas e ambientes sociais a eles relacionados. Reflexividade do pesquisador e da pesquisa De modo diferente da pesquisa quantitativa, os métodos qualitativos conside- ram a comunicação do pesquisador com o campo e seus membros como parte explícita da produção de conhecimento, ao invés de excluí-la ao máximo como uma variável intermédia. As subjetividades do pesquisador e daqueles que estão sendo estudados são parte do processo de pesquisa. As reflexões dos pesquisadores sobre suas ações e observações no campo, suas impressões, irri- tações, sentimentos, e assim por diante, tornam-se dados em si mesmos, cons- tituindo parte da interpretação, sendo documentadas em diários de pesquisa ou em protocolos de contexto (veja o Capítulo 14). Variedade de abordagens e métodos na pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa não se baseia em um conceito teórico e metodológico unificado. Várias abordagens teóricas e seus métodos caracterizam as discus- sões e a prática da pesquisa. Os pontos de vista subjetivos são um primeiro ponto de partida. Uma segunda corrente de pesquisa estuda a elaboração e o curso das interações, ao passo que uma terceira busca reconstruir as estrutu- ras do campo social e o significado latente das práticas (para mais detalhes, veja o próximo capítulo). Essa variedade de abordagens distintas é resultado de diferentes linhas de desenvolvimento na história da pesquisa qualitativa, cuja evolução deu-se, até certo ponto, de forma paralela, e, em parte, de for- ma seqüencial. A HISTÓRIA DA PESQUISA QUALITATIVA Aqui, é possível oferecer apenas uma visão breve e bem superficial da história da pesquisa qualitativa. O emprego dos métodos qualitativos tem uma longa tradição na psicologia, assim como nas ciências sociais. Na psicologia, Wilhelm Wundt (1900-20) utilizou métodos de descrição e verstehen, em sua psicolo-
  7. 7. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 23 gia popular, ao lado dos métodos experimentais da sua psicologia geral. Mais ou menos na mesma época, uma discussão entre uma concepção mais mono- gráfica da ciência, orientada para a indução e os estudos de caso, e uma abordagem empírica e estatística tiveram início na sociologia alemã (Bonß, 1982, p. 106). Na sociologia norte-americana, os métodos biográficos, os estudos de caso e os métodos descritivos foram centrais durante muito tempo (até a década de 1940), o que pode ser demonstrado pela importân- cia do estudo de Thomas e Znaniecki, The Polish Peasant in Europe and America (O Camponês Polonês na europa e na América) (1918-20), e, de uma maneira mais geral, com a influência da Escola Sociológica de Chicago. Durante o posterior estabelecimento dessas duas ciências, porém, abor- dagens cada vez mais “duras”, experimentais, padronizantes e de quantifica- ção declararam-se contrárias às estratégias “suaves”, compreensivas, abertas e qualitativo-descritivas. Demorou até a década de 1960 para que a crítica da padronizada pesquisa social quantitativa ganhasse novamente relevância na sociologia norte-americana (Cicourel, 1964; Glaser e Strauss, 1967). Essa crí- tica foi, na década de 1970, empregada em discussões alemãs, levando, por fim, a um renascimento da pesquisa qualitativa nas ciências sociais e também (com algum atraso) na psicologia (Jüttemann, 1985). Os avanços e discussões nos EUA e na Alemanha não apenas ocorreram em épocas diferentes, como também são marcados por fases distintas. Avanços em regiões de língua alemã Na Alemanha, Jürgen Habermas (1967) foi o primeiro a reconhecer que tradi- ção e discussão “diferentes” de pesquisa evoluíam na sociologia norte-ameri- cana, relacionadas a nomes como Goffman, Garfinkel e Cicourel. Desde a tra- dução da crítica metodológica de Cicourel (1964), diversas coleções (por exem- plo, Arbeitsgruppe Bielefelder Soziologen, 1973; Bühl, 1972; Gerdes, 1979; Hopf e Weingarten, 1979; Steinert, 1973; Weingarten et alii, 1976) importa- ram contribuições das discussões norte-americanas, disponibilizando, para dis- cussões alemãs, textos básicos sobre etnometodologia ou interacionismo sim- bólico. A partir desse mesmo período, o modelo de processo de pesquisa cria- do por Glaser e Strauss (1967) atrai muita atenção (exemplos em Hoffmann- Riem, 1980; Hopf e Weingarten, 1979; Kleining, 1982). As discussões são motivadas pelo propósito de se fazer mais justiça aos objetos de pesquisa do que é possível na pesquisa quantitativa, conforme demonstra a alegação de Hoffmann-Riem pelo “princípio da abertura”. Kleining (1982, p. 233) argu- menta que é necessário considerar a compreensão do objeto da pesquisa como preliminar até o final da pesquisa, pois o objeto “apresentar-se-á com suas cores verdadeiras somente no final”. Ademais, as discussões sobre uma “soci- ologia naturalista” (Schatzman e Strauss, 1973) e sobre métodos adequados são determinadas por suposição similar, inicialmente implícita e posterior- mente também explícita, de que entender o princípio da abertura e as regras sugeridas por Kleining (por exemplo, adiar uma formulação teórica do objeto de pesquisa) possibilita ao pesquisador evitar constituir o objeto pelos mes- mos métodos utilizados para estudá-lo. Ou melhor, abre-se a possibilidade de “tomar a vida cotidiana em primeiro lugar e sempre retomá-la na forma pela
  8. 8. 24 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa qual ela se apresenta em cada caso” (Grathoff, 1978; citado em Hoffmann- Riem, 1980, p. 362, que termina seu artigo com essa citação). Ao final da década de 1970, iniciou-se, na Alemanha, uma discussão mais ampla e original, que não mais contava exclusivamente com a tradução da literatura norte-americana. Essa discussão trabalha com entrevistas, sua aplicação (por exemplo, Kopf, 1978; Kohli, 1978), sua interpretação (Mühle- feld et alii, 1981) e questões metodológicas (Kleining, 1982), estimulando uma pesquisa extensiva (para panoramas gerais, veja Flick et alii, 1995, 2002). Küchler (1980) formula a questão característica desse período, que expõe a dúvida sobre a forma como esse movimento deve ser enxergado: “uma ten- dência da moda ou um novo começo?” Crucial para esse impulso no desenvolvimento ocorrido no início da dé- cada de 1980 foi o aparecimento de dois métodos originais e sua ampla dis- cussão: a entrevista narrativa, de Schütze (1977; veja também Riemann e Schütze, 1987) e a hermenêutica objetiva, de Oevermann et alii (1979). Esses dois métodos deixaram de ser apenas uma importação dos avanços norte- americanos, como foi o caso na aplicação da observação participante ou de entrevistas com um entrevistador orientado para a entrevista focal (veja Hopf, 1978). Estimularam uma práxis extensiva de pesquisa (principalmente na pesquisa biográfica: para panoramas gerais, veja Bertaux, 1981; Kohli e Ro- bert, 1984; Krüger e Marotzki, 1994). Mas a influência dessas metodologias na discussão geral sobre métodos qualitativos é, no mínimo, tão crucial quan- to os resultados a partir delas obtidos. Em meados da década de 1980, problemas de validade e generalização das descobertas obtidas com métodos qualitativos atraíram maior atenção (veja, por exemplo, Flick, 1987; Gerhardt, 1985; Legewie, 1987). Discutiram-se ques- tões relacionadas de apresentação e transparência de resultados. A quantida- de e, sobretudo, a natureza não-estruturada dos dados exigem o uso de com- putadores também na pesquisa qualitativa (Fielding e Lee, 1991); Kelle, 1995, 2002; Richards e Richards, 1998; Weitzman e Miles, 1995). Finalmente, pu- blicam-se os primeiros livros-texto ou introduções sobre o pano de fundo das discussões na região de língua alemã (por exemplo, Bohnsack, 1999; Lamnek, 1988, 1989; Spöhring, 1989). As discussões nos Estados Unidos Denzin e Lincoln (2000b, p. 12-19) referem-se a fases diferentes daquelas descritas há pouco em relação à região de língua alemã. Eles visualizam “sete momentos da pesquisa qualitativa”, conforme segue. O período tradicional estende-se do início do século XX até a Segunda Guerra Mundial. Relaciona-se à pesquisa de Malinowski (1916) em etnografia e à Escola Sociológica de Chicago. Durante esse período, a pesquisa qualitati- va interessou-se pelo diferente, o estrangeiro ou o estranho, e por sua descri- ção e interpretação mais ou menos objetiva. As culturas estrangeiras constitu- íam o assunto da etnografia, e os outsiders dentro de sua própria sociedade eram estudados pela sociologia. A fase modernista dura até a década de 1970, sendo marcada por tentati- vas de formalizar a pesquisa qualitativa. Com esse propósito, publicam-se cada
  9. 9. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 25 vez mais livros-texto nos EUA. A atitude desse tipo de pesquisa ainda sobrevi- ve na tradição de Glaser e Strauss (1967) e Strauss e Corbin (1990), bem como em Miles e Huberman (1994). Os gêneros obscuros (Geertz, 1983) caracterizam os avanços até mea- dos da década de 1980. Vários modelos e compreensões teóricas dos obje- tos e métodos encontram-se lado a lado. A partir deles os pesquisadores podem escolher, podendo também contrastá-los ou combiná-los: interacio- nismo simbólico, etnometodologia, fenomenologia, semiótica ou feminis- mo são alguns desses “paradigmas alternativos” (veja também Guba, 1990; Jacob, 1987). Em meados da década de 1980, a crise da representação, discutida até então na inteligência artificial (Winograd e Flores, 1986) e na etnografia (Cli- fford e Marcus, 1986), influencia a pesquisa qualitativa como um todo, o que faz do processo de exposição do conhecimento e das descobertas uma parte substancial do processo de pesquisa. E esse processo de exposição do conheci- mento e das descobertas como parte das descobertas, enquanto parte das des- cobertas per se, atrai maior atenção. A pesquisa qualitativa torna-se um pro- cesso contínuo de construção de versões da realidade. A versão que alguém apresenta em uma entrevista não necessariamente corresponde à versão que essa pessoa teria formulado no momento em que o evento relatado ocorreu; não necessariamente corresponde à versão que ela teria dado a outro pesqui- sador com uma questão de pesquisa diferente. O pesquisador, o qual interpre- ta sua entrevista e a apresenta como parte de suas descobertas, produz uma nova versão do todo. Diferentes leitores do livro, artigo ou relatório interpre- tam a versão do pesquisador de forma diversa, de modo que surgem outras versões do evento. Interesses específicos, trazidos à leitura em cada caso, de- sempenham um papel central. Nesse contexto, a avaliação da pesquisa e das descobertas torna-se um tópico central nas discussões metodológicas, o que vem a se juntar à dúvida quanto à validade dos critérios tradicionais, e, no caso de estes já não mais serem válidos, à busca de outros padrões que devam ser aplicados na avaliação da pesquisa qualitativa. A situação recente é caracterizada, por Denzin e Lincoln, como o quinto momento: as narrativas substituíram as teorias, ou as teorias são lidas como narrativas. Porém, aqui, tomamos conhecimento do fim das grandes narrati- vas – como no pós-modernismo em geral. A ênfase é transferida para as teo- rias e narrativas que se ajustem a situações e problemas específicos, delimita- dos, locais e históricos. A situação atual (sexto momento) caracteriza-se pela composição pós-experimento, vinculando assuntos da pesquisa quali- tativa a políticas democráticas, e o sétimo momento é o futuro da pesquisa qualitativa. Comparando-se as duas linhas de evolução (Tabela 1.1), encontramos, na Alemanha, uma crescente consolidação metodológica complementada por uma concentração em questões quanto aos procedimentos em uma prática de pesquisa em expansão. Nos Estados Unidos, por outro lado, o que caracteriza os avanços recentes é uma tendência ao questionamento mais profundo, ou, mais uma vez, a questionar as certezas aparentes que os métodos proporcio- nam: o papel da apresentação no processo de pesquisa, a crise da representa- ção e a relatividade do que é apresentado têm sido enfatizados, o que têm tornado as tentativas de formalizar e canonizar métodos um tanto secundá-
  10. 10. 26 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa rias. A aplicação “correta” de procedimentos de entrevista ou de interpretação tem menor importância do que as “práticas e políticas de interpretação” (Den- zin, 2000). A pesquisa qualitativa torna-se, assim, uma atitude específica baseada na abertura e na reflexividade do pesquisador, ou se une ainda mais a esta. APRESENTAÇÃO DO PROCESSO COMO ORIENTAÇÃO NO CAMPO DOS MÉTODOS QUALITATIVOS Objetivos da apresentação neste livro Ao longo do período histórico delineado, houve o surgimento de uma varieda- de de métodos que se caracterizam por pontos de partida e alvos diferentes. Diferem em sua compreensão do objeto em estudo, sendo que cada um contri- bui de maneira específica para a discussão geral acerca da pesquisa qualitati- va e de seus avanços posteriores. Em vez de discutir os métodos qualitativos de forma isolada, parece necessário discuti-los no esquema do processo de pesquisa, tendo, como premissa, três fundamentos: experiências provenientes de sua aplicação em estudos empíricos, experiências do seu ensino a estudan- tes e experiências que provenham do treinamento de pesquisadores em proje- tos em progresso. Este livro procura oferecer essa apresentação do processo. Por um lado, fornece uma visão geral, como base para a escolha de métodos específicos de coleta e de interpretação de dados. Por outro lado, essa visão geral permite-nos avaliar até que ponto um método específico ajusta-se a outros elementos do processo de pesquisa: até que ponto o método de interpretação escolhido a partir de alternativas possíveis (Capítulo 17) ajus- ta-se ao método de coleta de dados (Capítulos 11 e 13) e ao plano do processo de pesquisa (Capítulo 4), ou à estratégia de amostragem (Capítu- lo 7)? Para considerações adicionais e para a aplicação de métodos indivi- duais, será necessária a consulta à literatura original. Sugestões para leitu- ras adicionais e referências aos principais trabalhos são oferecidas em cada capítulo. TABELA 1.1 Fases na história da pesquisa qualitativa Alemanha Estados Unidos Primeiros estudos (final do séc. XIX e início Período tradicional (1900 a 1945) do séc. XX) Fase da importação (início da década de 1970) Fase modernista (1945 até a década de 1970) Começo das discussões originais Gêneros obscuros (até meados da década (fim da década de 1970) de 1980) Desenvolvimento de métodos originais Crise da representação (desde meados da (décadas de 1970 e 1980) década de 1980) Consolidação e questões quanto ao Quinto momento (década de 1990) procedimentos (fim da década de 1980 e década de 1990) Prática da pesquisa Sexto momento (composição pós-experimental) Sétimo momento (o futuro)
  11. 11. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 27 O procedimento na apresentação O ponto de partida da apresentação neste livro consiste no fato de que a pes- quisa qualitativa trabalha, sobretudo, com textos. Métodos para a coleta de informações – como entrevistas e observações – produzem dados que são trans- formados em textos por gravação e transcrição. Os métodos de interpretação partem desses textos. Caminhos diferentes conduzem aos textos do centro da pesquisa e também se afastando destes. De forma bem resumida, o processo de pesquisa qualitativa pode ser representado como uma trajetória que parte da teoria em direção ao texto, e outra do texto de volta para a teoria. A inter- seção dessas duas trajetórias é a coleta de dados verbais ou visuais e a inter- pretação destes em um plano de pesquisa específico. Na trajetória da teoria ao texto, existe uma postura teórica implícita em cada método mais tarde aplicado. Várias posturas teóricas, que, tradicional- mente e também recentemente, têm determinado o campo da pesquisa quali- tativa, podem ser distinguidas, embora possuam alguns aspectos em comum (Capítulo 2). Uma delas é que, além de empregar textos como material empí- rico, a pesquisa qualitativa trata das construções da realidade – suas próprias construções e, especialmente, das construções que encontra no campo ou nas pessoas que estuda. O Capítulo 3 assinala essas relações de construção, texto e realidade com mais detalhes. Antes de se deparar com os dados empíricos pela primeira vez, uma certa compreensão do processo de pesquisa – como linear ou encadeado (Capítulo 4) – é transformada em um plano de pesquisa. Além disso, formula-se a ques- tão da pesquisa (Capítulo 5), para, então, procurar e encontrar uma resposta para o problema do acesso ao campo e aos indivíduos que estão sendo estuda- dos (Capítulo 6). Aplica-se uma estratégia específica para os casos ou grupos de amostragem (Capítulo 7). A pesquisa qualitativa trabalha essencialmente com dois tipos de dados. Os dados verbais são coletados em entrevistas semi-estruturadas (Capítulo 8) ou como narrativas (Capítulo 9), às vezes com a utilização de grupos em vez de indivíduos (entrevistas e discussões em grupo, grupos de foco, narrativas conjuntas: Capítulo 10). No Capítulo 11, há uma comparação entre as alter- nativas metodológicas para a coleta de dados verbais, com a apresentação dos critérios para a escolha de um método específico e para a avaliação dessa escolha. Como um segundo grupo principal, os dados visuais resultam da apli- cação de diversos métodos observacionais, que variam da observação partici- pante e não-participante à etnografia e à análise de fotografias e filmes (Capí- tulo 12). São, mais uma vez, comparados com base nos critérios para a esco- lha de um método específico e para a avaliação dessa escolha (Capítulo 13). Na etapa seguinte, dados verbais e visuais são transformados em textos através da sua documentação e transcrição. A pesquisa dá início à segunda parte de sua jornada – do texto à teoria. A documentação de dados não é simplesmente uma gravação neutra da realidade, mas uma etapa essencial da sua construção no processo de pesquisa qualitativa (Capítulo 14). A interpre- tação de dados é orientada ou para a codificação e a categorização (Capítulo 15) ou para a análise de estruturas seqüenciais no texto (Capítulo 16). A com- paração entre os principais métodos para ambas as estratégias de interpreta- ção de textos provê um conselho útil para a decisão sobre qual método especí-
  12. 12. 28 Uma introdução à Pesquisa Qualitativa fico empregar (Capítulo 17). O embasamento da pesquisa qualitativa (Capítu- lo 18) envolve o pesquisador em questões do tipo como avaliar a validade e a apropriabilidade do processo de pesquisa e dos dados produzidos. Alternati- vas consistem ou na aplicação de critérios tradicionais (confiabilidade, valida- de) ou no desenvolvimento de novos critérios. É nesse contexto que formas de compor a pesquisa qualitativa – suas estratégias e resultados – têm atraído maior atenção (Capítulo 19). Na parte final, são discutidas as perspectivas recentes e futuras da pes- quisa qualitativa. O uso de computadores (Capítulo 20) é cada vez mais im- portante. Modos de combinar a pesquisa qualitativa e a quantitativa em for- mas apropriadas são ainda um problema à espera de uma solução adequada (Capítulo 21). A questão da qualidade na pesquisa qualitativa, mais do que aos critérios (Capítulo 22), refere-se a problemas de indicação ou à adoção de conceitos e estratégias originários da discussão sobre o gerenciamento de qua- lidade e da avaliação do processo como novas formas de embasar a pesquisa qualitativa. A PESQUISA QUALITATIVA AO FINAL DA MODERNIDADE Com o intuito de mostrar a relevância da pesquisa qualitativa, foram mencio- nadas, no início desta Introdução, algumas alterações nos objetos potenciais. Além disso, a necessidade cada vez maior de desvio para a pesquisa qualitati- va pode ter sua origem em diagnósticos recentes das ciências em geral. Em sua discussão sobre a “agenda oculta da modernidade”, Toulmin (1990) expli- ca detalhadamente por que ele considera as ciências modernas disfuncionais. Como um caminho rumo à filosofia e às ciências em geral, e, assim, à pesquisa social empírica, ele enxerga quatro tendências: • o retorno ao oral, que se manifesta em tendências na formulação de teo- rias e na realização de estudos empíricos em filosofia, lingüística, litera- tura e ciências sociais, em narrativas, linguagem e comunicação; • o retorno ao particular, que se manifesta na formulação de teorias e na realização de estudos empíricos, com o objetivo de “não apenas se con- centrar em questões abstratas e universais, mas de voltar a tratar de pro- blemas concretos que não aparecem normalmente, mas que ocorrem em tipos específicos de situações” (1990, p. 190); • o retorno ao local, que encontra sua expressão no estudo de sistemas do conhecimento, práticas e experiências, novamente no contexto daquelas tradições e formas de vida (locais) nas quais estão fixados, em vez de presumir e tentar testar sua validade universal; • o retorno ao oportuno, manifesto na necessidade de dispor os problemas a serem estudados e as soluções a serem desenvolvidas dentro de seu contexto temporal ou histórico, e de descrevê-los neste contexto e expli- cá-los a partir dele. A pesquisa qualitativa é orientada para a análise de casos concretos em sua particularidade temporal e local, partindo das expressões e atividades das pessoas em seus contextos locais. Portanto, a pesquisa qualitativa está em
  13. 13. A pesquisa qualitativa: relevância, história, aspectos 29 condições de traçar caminhos para a psicologia e as ciências sociais concreti- zarem as tendências mencionadas por Toulmin, de transformá-las em progra- mas de pesquisa e de manter a flexibilidade necessária em relação a seus objetos e tarefas: Como prédios em uma escala humana, nossos procedimentos intelectuais e sociais farão o que precisamos, nos anos por vir, somente se tomarmos o cuidado de evitar a estabilidade irrelevante ou excessiva, e nos mantivermos funcionando em formas que se adaptem a situações e funções imprevistas – ou mesmo imprevisíveis. (1990, p. 186.) Sugestões e métodos concretos para a realização desses programas de pesquisa serão delineados no que segue. LEITURAS ADICIONAIS As duas primeiras referências ampliam a breve visão geral aqui apresentada sobre as discussões alemãs e norte-americanas, ao passo que o livro de Strauss representa a atitude da pesquisa por trás deste livro e da pesquisa qualitativa em geral. Denzin, N., Lincoln, Y.S. (eds) (2000) Handbook of Qualitative Research (2nd edn). London: Sage. Flick, U., Kardorff, E.v., Steinke, I. (eds) (2002) Qualitative Research: A Handbook. London, Sage. Strauss, A.L. (1987) Qualitative Analysis for Social Scientists. Cambridge: Cambridge Universi- ty Press.

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