História da Igreja II: Aula 9: Movimentos Espiritualistas

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Aula ministrada no curso de História Eclesiástica II no Seminário Teológico Shalom, em 2013. A presente aula visa apresentar a reação espiritualista ao estado dogmático que assolou a igreja no séc. XVII, com análise dos movimentos pietista, morávios, metodista e reavivamentos.

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História da Igreja II: Aula 9: Movimentos Espiritualistas

  1. 1. Movimentos Espiritualistas A fé acima da razão História Eclesiástica II Pr. André dos Santos Falcão Nascimento Blog: http://prfalcao.blogspot.com Email: goldhawk@globo.com Seminário Teológico Shalom
  2. 2. Religiosidade pós-Guerra dos 30 anos (1648)  Movimento Denominacionalista surge após ser declarada paz e tolerância religiosa na maioria dos territórios europeus.  Formulação de Confissões de Fé para estruturar o arcabouço teológico de cada grupo.  A Ortodoxia passou a ser a chave hermenêutica de interpretação e pregação da Bíblia, levando a um descasamento entre púlpitos e membresias e a um formalismo religioso.  Duas reações surgiram a esta situação:  Racionalismo: Desvalorização do extraordinário.  Espiritualismo: Valorização do extraordinário.
  3. 3. Facetas do Movimento Espiritualista  Pietismo  Morávios  Metodismo  Avivamentos europeus pós Metodismo  Movimento Missionário  Milenarismo e seitas religiosas
  4. 4. Predecessores espiritualistas do séc. XVI  Carlos Borromeo (1538-1584, cardeal e arcebispo de Milão)  Ignácio de Loyola  Teresa de Ávila (1538-1584)  Francisco de Sales (1567-1622)  Introduction to a Devout Life
  5. 5. Pietismo  Movimento fundado pelo pastor luterano Philip Spaner (1635-1705), em Frankfurt, a partir de 1666.  Caracterizado por encontros de oração e estudos bíblicos práticos nas casas (collegia pietatis).  Pia Desideria (1675) apresenta as reuniões como um auxílio para cultivo da piedade pessoal entre os luteranos.  Spaner também sugere uma formação teórica e prática para futuros ministros, com estágios.  Spaner vai pra Dresden (1686) e posteriormente a Berlin (1691), onde fica até a morte.
  6. 6. Pietismo Pós-Spaner  Pietismo floresce na Alemanha, Holanda e Escandinávia.  August Francke (1663-1727) e amigos da Universidade de Leipzig iniciam grupo para estudo da Bíblia.  Influenciado por Spaner em visita a Dresden, consegue vaga de professor de Halle em 1691, sendo esta universidade transformada no centro do pietismo.  Como legado, ajuda na criação de uma escola elementar livre para crianças pobres em 1695 e um orfanato, além de influenciar a criação de um instituto bíblico em 1719 por um grande amigo para publicar e distribuir exemplares da Bíblia.
  7. 7. Pietismo - Características  Estudo e discussão da Bíblia de forma prática, buscando sua aplicação diária.  Reuniões de oração nas casas.  Espírito Santo como Iluminador da Bíblia.  Boas obras são expressão da verdadeira religião.  Esforço missionário, com trabalhos pioneiros na África, América, Ásia e ilhas do Pacífico.  Negligência da doutrina leva alguns pietistas a adotarem o idealismo de Kant.
  8. 8. Morávios  Movimento diretamente oriundo do pietismo, fundado pelo Conde Nicolas von Zinzendorf (1700-1760), estudante da escola de Francke em Halle e de direito em Wittenberg.  Pregava vida de devoção pessoal a Cristo e encontros de oração.  Movimento se organiza em 1727 em igreja, cinco anos após grupo de refugiados funda Herrnht em Berthelsdorf, propriedade de Zinzendorf.  É reconhecida como independente em 1743 e se organiza com três ofícios em 1745: bispo, ancião e diácono.  Visão missionária: 175 missionários em campo em 1750.  Alcançaram os EUA em 1743, no estado da Pennsylvania, onde se aproveitam da liberdade religiosa para arregimentar todos os alemães protestantes.  Zinzendorf compôs mais de 2000 hinos.
  9. 9. Metodismo  Movimento fundado na Inglaterra como paralelo ao pietismo alemão (Anglicanismo está para Metodismo assim como Luteranismo está para Pietismo).  Fundação relacionada a três pregadores: George Whitefield, John e Charles Wesley.  Precursor foi o avivamento galês propagado por Howell Harris (1714-1773) e Griffith Jones (1683-1761), geradores da Igreja Metodista Calvinista Galesa.  Pano de fundo: Inglaterra com clero desmoralizado, bebida barata gerando mortes e problemas mentais, jogo, brigas de animais e enforcamentos como espetáculos de gala.
  10. 10. Metodismo – Pano de Fundo  Clero desmoralizado e absente de suas dioceses.  Bebida barata gerando mortes e problemas mentais (de cada três casas, uma vendia bebidas, e os bares ofereciam palha para as pessoas se deitarem até passar a ressaca).  Jogo.  Violência (saques e pilhagens de multidões em Londres e Birmingham, queimando casas, abrindo portas das prisões e aterrorizando o público).  Falta de educação (restrita somente às classes mais ricas).  Brigas de animais.  Enforcamentos como espetáculos de gala.
  11. 11. Metodismo – Os Fundadores  George Whitefield (1714-1770): Mais jovem do trio e primeiro pregador do grupo, adotou a teologia calvinista e acabou rompendo com o grupo.  John Wesley (1703-1791): 15º de 19 filhos do casamento de Samuel e Susannah Wesley, foi um fellow (administrador-doutor) da Lincoln College de 1726 a 1751, sendo ordenado em 1728. Fundador do Clube Santo, grupo de estudos bíblicos em seu quarto na faculdade, tentou trabalhar sem sucesso na Geórgia, devido a sua liturgia e rigor com membros, além de simplicidade e franqueza no trato com as mulheres.  Charles Wesley (1707-1788): Irmão mais novo de Charles, se tornaria seu grande companheiro de ministério compondo mais de 6000 hinos e auxiliando-o em suas jornadas.
  12. 12. Metodismo – Marco Inicial  O Metodismo deriva da tentativa do grupo de estudantes de Lincoln College de viver mediante regras estritas na tentativa de alcançar a santidade. O grupo possuía um método de auto-exame diário, tentando agradar a Deus e ser santos.  A inauguração do ministério veio por volta de 1738, quando os três sentiram seus corações “aquecidos” e aceitaram a Cristo como único capaz de salvá-los do pecado. A partir daí, o grupo pregou uma conversão instantânea e a segurança da salvação, contrariando a teologia calvinista vigente, que dizia que você devia buscar esta certeza ao longo da vida.  O movimento morávio exerceu fortíssima influência no movimento, devido ao contato de John com um corajoso grupo durante uma tempestade em viagem à Geórgia, o contato com Spangenberg e esforços de Peter Böhler. John, por conta disso, estuda em Herrnhut.
  13. 13. Metodismo – Marco Inicial  No Ano Novo de 1739, durante uma festa de amor em Londres entre os três fundadores e mais quatro membros do Clube Santo, por volta das três da manhã, o grupo é atingido por experiências como queda ao chão e gritos de alegria, a que o grupo associa ser uma manifestação do poder de Deus.  Duas semanas depois, em 14/01, George Whitefield foi ordenado pastor aos 25 anos. Sua juventude não atrapalhou seu ministério. Grandes multidões começaram a afluir para seus locais de pregação. Seu quarto ficava cheio de estudantes de Oxford para orar. Sua experiência de pregação na igreja de Bermondsey, que ficou até com o pátio lotado, o levou a começar a pregar em público.  No começo, os três pregaram. George era o pregador mais poderoso e Charles, o mais emotivo. John era o mais organizado e tinha a personalidade mais dominadora.
  14. 14. Metodismo – Ministério de Whitefield  George Whitefield foi o primeiro pregador metodista, antecedendo até mesmo John Wesley. John teve a chance de tomar o lugar ao lado de Whitefield seis semanas após o início da carreira de George.  Chamado de “Despertador” e “Foguista”, Whitefield pregava para ganhar almas, passando o tempo entre os sermões aconselhando pessoas convencidas de sua condição de pecadoras e orando com elas.  Chegou a pregar quatro vezes no domingo, começando às seis da manhã, com policiais controlando a ordem e milhares tendo que voltar por não conseguirem espaço.
  15. 15. Metodismo – Ministério de Whitefield  Em 28/12, viaja para os EUA, retornando três meses depois para levantar fundos para a construção de um orfanato.  Após ter as igrejas de Bristol fechadas, vai a Kingswood, cidade de carvoeiros na periferia da cidade, onde prega a primeira vez para 200 pessoas atônitas com o pregador fora da igreja, e retorna no dia seguinte para pregar para 5000 pessoas.  A partir de Kingswood, Whitefield percorre a Inglatera pregando ao ar livre, reunindo até 30 mil pessoas de uma vez. A nobreza em geral ouvia o pregador de seus cochos, enquanto o povo se amontoava onde podia.  Nos EUA, Whitefield prega de 1737 a 1741, fazendo contato com presbiterianos, tornando sua posição teológica mais calvinista. Também colaborou com Jonathan Edwards, jogando mais lenha na fogueira do Grande Avivamento. No total, Whitefield fez 13 viagens aos EUA e alavancou o avivamento metodista na Escócia e Irlanda.
  16. 16. Metodismo – Ministério de John Wesley  John Wesley iniciou seus esforços em 1742, sem desejar se separar da Igreja Anglicana.  Inicialmente, reuniu seus convertidos em comunidades semelhantes ao collegia pietatis de Spener, dividindo-as em grupos e depois em classes de dez a doze pessoas.  A partir de então, John começou a pregar e atrair as pessoas à mensagem do evangelho. Em uma semana comum, pregava seis vezes no domingo, três na terça, uma na quarta, uma na quinta e três vezes na sexta-feira.  Assim como nas mensagens de Whitefield, fenômenos de extremo arrependimento tomavam conta das pessoas, com quedas ao chão e gemidos e gritos de agonia pelo despertar ao pecado.
  17. 17. Metodismo – Ministério de John Wesley  O cerne da pregação de Wesley era uma jornada para uma vida plenamente santificada.  Esta jornada se iniciava pela justificação pela fé, com uma experiência súbita de conversão, a busca da perfeição cristã absoluta ainda nesta vida, com a expulsão total do pecado com o enchimento do coração do crente pelo amor de Deus, iniciado com um passo de fé. Não era uma perfeição infalível, mas a possibilidade de impecabilidade de motivação no coração que fosse completamente cheio do amor de Deus.  John Wesley também pregava um cristianismo prático, que influenciasse a sociedade, opondo-se ao álcool, guerra e escravidão. Também apoiou o movimento de escolas dominicais de Robert Raikes, que dava educação a crianças trabalhadoras que não tinham como estudar durante a semana por trabalharem entre 12 e 14 horas por dia.
  18. 18. Metodismo – Ministério de John Wesley  Wesley começou a pregar ao ar livre em função dos convites de George Whitefield e de um confronto com o ministro bêbado da igreja de sua cidade natal, Epsworth, que não permitiu que ele sequer lesse a mensagem da Escritura durante o culto. Isso o forçou a pregar do lado de fora da igreja, sobre a pedra tumular de seu pai no cemitério da igreja.  Por volta desta época, Wesley começa a pregar reavivamentos de um dia e a estruturar as sociedades de reavivamento, grupo de convertidos que se reuniam para adorar o Senhor, dividindo-as em grupos e organizando reuniões de classes para formação de líderes leigos, que deveriam encorajar todos a obedecer à exortação bíblica e advertir quem quer que se tornasse negligente ou se desviasse do erro.
  19. 19. Metodismo – Ministério de John Wesley  Depois de três anos, Wesley formou uma equipe de pregadores leigos, gerando uma estrita regra de conduta para o grupo.  Originalmente Wesley cria que ninguém senão um ministro consagrado por um bispo poderia ministrar o batismo e a ceia. Quando o bispo de Londres se recusou a ordenar seus auxiliares, Wesley, considerando que era um bispo tão bíblico quanto os outros e que a sucessão apostólica não podia ser provada, resolveu ele mesmo ordená-los.  Wesley sofreria enormes perseguições por conta de suas reuniões. Multidões barulhentas abafavam sua voz, tentavam destruir as casas onde pregava, invadiam suas reuniões a cavalo para causar confusão e agredi-lo com porretes e pedras, levando-o a sofrer cicatrizes profundas, apesar de alegar não sentir dor.
  20. 20. Metodismo – Ministério de John Wesley  A grande característica do ministério de John Wesley era suas viagens a cavalo, chegando a correr 20 Km por dia em média, lendo enquanto cavalgava e enfrentando todo e qualquer tipo de clima (de calor a neve, de chuva a vento) para poder ir de cidade em cidade.  As viagens de Wesley eram cuidadosamente planejadas para que ele pudesse parar o maior número de vezes possíveis para pregar. Anúncios prévios eram feitos e o povo das cidades e vilarejos acorria para os pontos de pregação.  Calcula-se que Wesley tenha viajado um total de 365.000 Km e pregado 46.000 vezes em seu ministério.  Wesley publicou seus sermões e os hinos de Charles a preços módicos, para que todos pudessem adquiri-los, doando a maior parte de suas receitas aos pobres.
  21. 21. Metodismo – A formação da igreja  Com uma orientação teológica arminiana, o Metodismo começou a se alastrar pelos EUA e pela Inglaterra com enorme força no final do séc. XVIII.  Logo após a morte de John, formou-se uma igreja nacional na Inglaterra, com cerca de 70 mil seguidores, além de iniciar-se o trabalho de unificação da igreja nos EUA logo após a formulação da Constituição Americana de 1789, com cerca de 30 mil membros.  Hoje, a Igreja Metodista possui cerca de 13 milhões de membros no mundo inteiro. Sua divisão deve-se à decisão dos Metodistas de apoiarem a abolição da escravatura. Aqueles que preferiam a sua manutenção fundaram a Igreja Metodista Wesleyana em 1841 nos EUA, que recebeu influência do movimento holiness do final do séc. XIX, gerando a versão mais avivada da igreja que vemos hoje.
  22. 22. Próxima aula  Avivamentos pós-John Wesley  Movimentos Missionários  Movimentos Escatológicos (Milenaristas)  Movimentos sectários
  23. 23. Fontes  Texto base: CAIRNS, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. 3 ed. Trad. Israel Belo de Azevedo e Valdemar Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2008.  Textos auxiliares:  DREHER, Martin N. Coleção História da Igreja, 4 vols. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996.  GONZALEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo. 10 vols. São Paulo: Vida Nova, 1983

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