História da Igreja II: Aula 13: A Igreja no Século XX

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Aula ministrada no curso de História Eclesiástica II do Seminário Teológico Shalom. A presente aula visa introduzir o aluno nos temas do surgimento do fundamentalismo, teologias do novo século como existencialismo, teísmo aberto, Teologia do Processo e Teologia da Libertação e apresentar o que foi o Pacto de Lausanne.

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História da Igreja II: Aula 13: A Igreja no Século XX

  1. 1. A Igreja no Século XX História Eclesiástica II Pr. André dos Santos Falcão Nascimento Blog: http://prfalcao.blogspot.com Email: goldhawk@globo.com Seminário Teológico Shalom
  2. 2. A Igreja no Século XX  Evangelicalismo e Fundamentalismo  Pacto de Lausanne  Teologias do Novo Século  Relação Igreja-Estado  Ecumenismo  Concílio Vaticano II
  3. 3. Panorama teológico do séc. XIX  Final da década de 1880 recheado de ideias liberais nos seminários e igrejas  Darwin: A Origem das Espécies e A Descendência do Homem.  Filosofia idealista de Kant, Hegel e Schleiermacher.  Alta Crítica bíblica de Wellhausen.
  4. 4. Reação Conservadora  A.A.Hodge (1823-1886) e Benjamin Warfield (1851-1921): Publicam artigo no Presbyterian Review de 1881 defendendo a inspiração plena e verbal da Bíblia, a inerrância dos autógrafos originários, e a Bíblia como regra infalível de fé e prática.  Foram apoiados por Francis Patton, professor e posteriormente reitor de Princeton (1888-1902) e por A.T.Robinson, professor do Seminário Batista do Sul dos EUA e maior estudioso de grego do seu tempo.  Dwight Moody defende o retorno pré-milenista, e o aspecto dispensacionalista é elaborado por J.N.Darby e divulgado na Bíblia de Scofield, que vende 5 milhões de exemplares entre 1909 e 1967.  Evangelicais conservadores passam a se reunir em conferências bíblicas a partir de 1875, para estudar a Bíblia e a profecia.  A inerrância e o pré-milenismo são contrários à posição liberal de leitura social da Bíblia.
  5. 5. Reação Conservadora  Escolas Bíblicas para leigos, com o intuito de formar uma ponte entre púlpito e bancos, forma pessoas que defendem a inerrância e o pré-milenismo, além de terem a Bíblia como livro texto.  Institutos Bíblicos criados: Nyack Missionary College, Instituto Bíblico Moody (6100 missionários treinados), Central American Mission, de Scofield, além de outros em Toronto, Los Angeles e Prairie, Canadá.  The Fundamentals: Motivado por sermão pregado por A.C.Dixon em 1909 que levou dois ricos empresários petrolíferos a dar cerca de US$ 200.000,00 para financiar a obra, é um compêndio de 12 volumes com artigos escritos por evangelicais denominacionais e não-denominacionais de ambos os lados do Atlântico. Em cinco anos, lançam 12 edições, e 300 mil exemplares de cada volume foram enviados gratuitamente para professores e estudantes de seminários, pastores e secretários de ACMs nos EUA, Canadá e Grã-Bretanha. Os que seguiram suas ideias passaram a ser denominados Fundamentalistas.
  6. 6. As lutas entre liberais e fundamentalistas  Julgamento de Scopes (1925): Devido à oposição de alguns estados ao ensino da evolução em escolas públicas, John T. Scopes, professor de biologia, se culpou de ensinar a evolução em uma escola de Dayton, Tennessee. O objetivo do julgamento não era de prender ou multar Scopes, mas sim atrair a mídia americana ao local e a um debate sobre o caso. Os maiores advogados da época, William Jennings Bryan e Clarence Darrow, atuaram como promotor e advogado de defesa, respectivamente defendendo o criacionismo e o evolucionismo. Scopes foi declarado culpado e teve que pagar 100 dólares de multa, decisão revertida posteriormente por um detalhe técnico.  As leis anti-evolucionismo só foram banidas dos EUA em 1968, quando o caso Epperson v. Arkansas na Suprema Corte definiu que tais leis vão contra a Liberdade de Expressão.
  7. 7. As lutas entre liberais e fundamentalistas  A partir de 1929, o liberalismo venceu a disputa nas igrejas históricas, apesar dos livros, sermões, escolas bíblicas e faculdades. Os evangelicais eram obrigados a se retirar das igrejas, por coerção ou julgamentos eclesiásticos, ou saíram voluntariamente. Na saída, criaram novas denominações, escolas elementares e colégios cristãos, além de faculdades, seminários e outras instituições.  Algumas denominações surgidas entre 1929 e 1945 foram as Igrejas Presbiterianas Bíblica e Ortodoxa e a Igreja Batista Regular.  Após a Segunda Guerra Mundial, as denominações liberais diminuíram em números de membros, enquanto que as denominações fundamentalistas reduziram seu separatismo estrito e começaram a colaborar mais, gerando maior crescimento. Os expoentes fundamentalistas pós-45 mais abertos foram Pat Robertson, Jerry Falwell e Beverly LaHaye  Conceitos dos dois lados: p. 489 do livro
  8. 8. Pacto de Lausanne  Graham apoiou o Congresso Mundial de Evangelização, patrocinado pela Christianity Today em 1966. Cerca de 1200 evangélicos de todas as partes do mundo reuniram-se para discutir e orar acerca da evangelização mundial, considerando a relevância, urgência, natureza, problemas e técnicas.  Da movimentação deste congresso, a maior conferência sobre evangelização foi realizada em Lausanne, na Suíça, em julho de 1974, com 2400 delegados, sendo um terço do 3º mundo.  O Pacto de Lausanne, resultante do encontro, enfatiza a lealdade às escrituras como infalível regra de fé e prática, e declarou, sob pressão dos delegados do 3º mundo, a preocupação com a ação social como parte relevante do evangelho.
  9. 9. Teologias do Novo Século  Correntes Teológicas geradas no Século XX:  Neo-Ortodoxia: Karl Barth, Emil Brunner, Reinhold Niebuhr, Paul Tillich e Rudolf Bultmann (p. 487-450).  Teologias Radicais (p. 490-491)  Morte de Deus: Altizer, van Buren e Hamilton  Deus não age no mundo por estar morto, psicologicamente, historicamente ou ontologicamente. Buscam um cristianismo sem religião  Teologia da Esperança: Moltmann e Pannenberg  Ênfase em um desenvolvimento social motivado por Deus.  Teologia do Processo: de Chardin e Whitehead  Evolução universal impulsionada por Deus.  Teologia da Libertação: Gustavo Gutierrez, Richard Shaull e Rubem Alves  Teologia deve partir do compromisso pela libertação prática dos oprimidos. A salvação é econômica, social e política, libertação de todas as formas de opressão.
  10. 10. Relações Igreja-Estado – Transformações políticas  A partir de 1914, o mundo entrou em parafuso, devido às consequências da Primeira Guerra Mundial. Em 4 anos, o mapa da Europa foi realinhado, com impérios como o alemão, russo, turco e austríaco caindo, sendo substituídos por estados democráticos ou totalitários.  A Europa começa a perder força para EUA e Rússia no comércio mundial.  Novos governos como a Alemanha Nazista, a Itália Fascista e o Império Japonês surgem e sobrevivem até 1945, quando dão lugar a estados democráticos.  O comunismo soviético terá influência até o final da década de 80, quando os regimes comunistas começam a ruir na Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia e Romênia.
  11. 11. Relações Igreja-Estado – Transformações religiosas  Queda no prestígio de teologias liberais.  Declínio no número de membros de igrejas históricas, dando lugar a igrejas evangelicais e pentecostais.  Avanço do evangelho nas regiões da Ásia, África e América Latina.  Surgimento de organizações paraeclesiásticas e megaigrejas nos EUA.  Surgimento do Pentecostalismo  Engajamento social partindo de forças ecumênicas liberais.  Perseguição da igreja em países fechados ao evangelho.
  12. 12. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Final século XIX e início século XX  Movimentos pacifistas que promoviam o ideal da paz mundial (teologia liberal e Evangelho Social). A guerra é condenada exceto em defesa própria. Tratados de paz são apoiados (William Jennings Bryan negociou 30 deles).  Várias conferências internacionais de paz são realizadas de 1889 a 1913, incluindo a famosa conferência de Haia de 1899. Essa conferência gerou a fundação de uma corte para arbitrar disputas internacionais.  Nos EUA, até 1914, a posição das igrejas era de determinar se a guerra era justa e fortalecer o moral nacional, aliviando o sofrimento e se empenhando em evitar o declínio moral comum no pós-guerra.
  13. 13. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Primeira Guerra Mundial  Inicialmente, os EUA entenderam que a culpa da guerra recaía sobre a Alemanha e seus aliados, mas também sobre os outros países, pela sua avareza, imoralidade e negligência pelas coisas espirituais. Desta forma, se abstiveram de qualquer auxílio.  Com uma forte propaganda interpretando a guerra em termos espirituais, como uma luta para salvar a civilização cristã dos “hunos” que tentavam destruí-la, a opinião dos crentes foi mudando. Em 1916, já havia um interesse em um armamento para defesa própria. Um ano depois, o sentimento de que os EUA poderiam ajudar a construir a democracia quando a paz viesse fez as igrejas apoiarem a declaração de guerra do governo em 1917, apoiando a guerra de várias formas, como envio de capelães, venda de bônus de guerra nos cultos e recrutamento de jovens através de mensagens nos cultos.
  14. 14. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Pós Primeira Guerra Mundial  Com o fracasso das nações em assegurar a paz pós-Primeira Guerra, crescimento do nacionalismo, recusa das nações europeias em saldar suas dívidas e as revelações sobre a venda de armas durante a guerra, as igrejas se desiludiram com a guerra.  Entre 1919 e 1939, as igrejas apoiaram, porém, o processo de reconstrução das empobrecidas igrejas europeias, além do desarmamento e ajudando os fugitivos de guerra.  A perseguição aos judeus se acentuou neste período, motivada por um documento falso chamado Protocolos dos Anciãos de Sião, surgido na Rússia em 1897 e que teria uma conspiração para que os judeus atingissem a “dominação mundial”. Outros fatores foram a retenção de recursos nas mãos dos banqueiros, teorias genéticas sobre a superioridade do sangue ariano sobre o judeu e o pacifismo durante a Primeira Guerra.
  15. 15. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Pós Primeira Guerra Mundial – O caso Alemanha  Na Alemanha, por conta do antissemitismo exacerbado na população e o avanço do Partido Nazista, diversos esforços foram empreendidos para “desjudaizar” o cristianismo. A consequência foi a criação da Igreja Cristã Alemã, um grupo de movimentos eclesiásticos que tinham como objetivo eliminar qualquer traço judaico da religiosidade cristã.  Este grupo foi apoiado diretamente por Hitler até 1935 e sofreu oposição de um grupo de pastores e líderes que não concordavam com suas posturas. O grupo se reuniu e formou a Igreja Confessante, sendo liderada pelos pastores Martin Niemoller e Dietrich Bonhoeffer. Este grupo foi duramente perseguido durante os 10 anos seguintes e, graças a sua resistência e esforço de ortodoxia bíblica, foi responsável por reconstruir a Igreja Alemã após a Segunda Guerra Mundial.
  16. 16. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Pós Primeira Guerra Mundial – O caso Alemanha  Entre as formas de se desjudaizar o cristianismo, a Igreja Cristã Alemã apelou para os seguintes expedientes:  Exclusão do Antigo Testamento como livro inspirado por Deus.  Exclusão de termos judaicos do Novo Testamento, como “aleluia” e “hosana”.  Sacralização da terra e do sangue alemães.  Criação de hinários com músicas relativas ao tema e proibição de hinos e hinários com músicas com alusões judaicas.  Criação de catecismos que desmistificavam os milagres bíblicos e enfatizavam a pureza do sangue e a obediência ao führer.
  17. 17. Relações Igreja-Estado no período entreguerras  Segunda Guerra Mundial – Países Democráticos  Apoio da igreja àqueles que não desejavam participar da guerra.  Não apoio à guerra como forma de sobrevivência da nação.  Sentimento de unidade de todos os cristãos, independente do lado em que estavam.  Auxílio de mais de 100 milhões de dólares de cristãos americanos para assistência e reconstrução das igrejas destruídas durante a guerra na Europa.  Envio de capelães aos campos de batalha para assistência aos combatentes e à Cruz Vermelha.
  18. 18. Relações Igreja-Estado no período pós-Guerra  Países Democráticos  EUA: “Muro de Separação”, devido à Primeira Emenda da Constituição sobre a negação de uma Igreja Estatal e o livro exercício da religião, começa a gerar decisões judiciais contrários à influência religiosa na educação, como a leitura voluntária da Bíblia e as orações públicas em escolas de caráter público.  Alemanha, Inglaterra e Escandinávia: União entre Igreja e Estado, com uma Igreja estabelecida e tolerância a todas as denominações dissidentes. Indicação de líderes e mudanças nos padrões de fé devem ser aprovadas pelo Estado.
  19. 19. Relações Igreja-Estado no período pós-Guerra  Países Totalitários  Governo de um partido com poder ilimitado, vinculado ao controle da população mediante propaganda e polícia secreta, governando pelo bem-estar do Estado. Direitos públicos e privados não se distinguiam. Produção privativa de propriedade banida em regimes de esquerda, como China, Rússia e Cuba.  Igreja Romana: Perseguida em países totalitários, por conta da obediência primeiro à hierarquia papal. Atualmente emergente nos EUA e em lugares onde se coloca ao lado do operariado. Não se opõe a estados totalitários quando estes reconhecem os direitos do papado, como no caso da Itália e do Acordo de Latrão, de 1929, firmado com Mussolini que permitiu a organização do Estado do Vaticano. Outros acordos feitos foram com Franco, na Espanha, Salazar, em Portugal, e Hitler, na Alemanha, em 1933. Notável é a falta de crítica papal ao holocausto. Opõe-se ao comunismo devido à sua postura ateísta materialista, que enxerga a religião como um “ópio” que deixa o oprimido satisfeito com sua dura situação presente. Nota: A Igreja Ortodoxa Russa era parte do sistema de opressão czarista.
  20. 20. Próxima Aula  Ecumenismo  Concílio Vaticano II  Pentecostalismo
  21. 21. Fontes  Texto base: CAIRNS, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. 3 ed. Trad. Israel Belo de Azevedo e Valdemar Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2008.  Textos auxiliares:  DREHER, Martin N. Coleção História da Igreja, 4 vols. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996.  GONZALEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo. 10 vols. São Paulo: Vida Nova, 1983

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