O LÉXICO ROMÂNICO               HERANÇA LATINA NAS LÍNGUAS OCIDENTAIS                                                    B...
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medieval, continuador do latim literário, subministrou os empréstimos posteriores,muitas vezes com significado diverso do ...
dada preferência a termos comuns e usuais nas línguas românicas. Esse levantamentorestringiu-se a cerca de 120 palavras, d...
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Em latim, essa idéia era expressa por advenire, que figuradamente significava também“suceder”, “acontecer”, passando da id...
respeitavam as antigas bases étnicas e provinciais romanas, fez surgir novos centros deirradiação, cujo exemplo mais claro...
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passo que inexistem empréstimos nos de inventário fechado, como advérbios,preposições e conjunções, em que a herança latin...
extemperare > astîmpara, “acalmar”; floralis > florar, “abril”; *fragmentare >framînta, “quebrar”; *fulgerare > fulgera, “...
Dados recentes sugerem que um quinto do léxico romeno provém do francês direta ouindiretamente, reforçando a relatinização...
idioma, além de buscarem uma terminologia técnica acessível a todos. A história daslínguas, entretanto, tem mostrado que o...
Meyer-Lübke, W. 5ª ed. Romanisches Etymologisches Wörterbuch. Heidelberg:Universitäsverlag, 1972.Rohlfs, G. Diferenciación...
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O lexico romanico herança latina nas linguas ocidentais - bruno fregni bassetto

  1. 1. O LÉXICO ROMÂNICO HERANÇA LATINA NAS LÍNGUAS OCIDENTAIS Bruno Fregni Bassetto (USP e ABF)Léxico é o conjunto de todas as palavras pertencentes de alguma forma a um idioma,passíveis de serem empregadas em seus vários níveis lingüísticos. O léxico constitui uminventário aberto, em parte mutável por representar a Weltanschauung, a visão domundo e a cultura do povo que o usa. Essa mutabilidade, porém, observa-se mais naspalavras ditas de significação externa, como substantivos, adjetivos e verbos, que nas designificação interna, tais como advérbios, preposições e conjunções, cujo inventário égeralmente fechado. As mudanças léxicas acompanham as alterações sociais,econômicas, políticas e culturais da comunidade, conforme atestam os resultados daaplicação dos métodos da Geografia Lingüística, Wörter und Sachen, Onomasiologia emesmo o Histórico-Comparativo. Modificações sociais mais rápidas aceleram tambémas do léxico, conforme se verificou no século XX e no nosso com a rápida evoluçãotecnológica e seus numerosos neologismos. Contudo, uma parte considerável do tesourovocabular de uma língua resiste às mudanças quase tanto como sua gramática, conformese verifica nas línguas românicas em relação a seu léxico fundamental, herdado dolatim.Um estudo mais aprofundado do léxico deve ter, como ponto de partida, oconhecimento da etimologia ou mesmo da biografia da palavra, segundo recomendavaKurt Baldinger. Desse modo, será possível conhecer sua origem, suas modificaçõessemânticas por ampliação ou restrição, além das relações entre linguagem e cultura.Importa ainda relacionar a história interna com a externa, ter presente a importância dosubstrato, do superstrato e do adstrato, pois é no léxico que a influência desses diversosestratos é mais atuante e sensível. Esse inter-relacionamento explica os diferentesempréstimos às línguas românicas, como as palavras eslavas, albanesas, turcas ehúngaras no romeno, não encontradas, v. g., nas línguas da Ibéria, da mesma forma quenão se usam, no romeno, os empréstimos francos ao francês. Levadas para regiõesdiferentes, as línguas, românicas ou de outros troncos, sofrem a inevitável influência domeio; nesse sentido, basta considerar os milhares de empréstimos tupis ao português doBrasil, em grande parte desconhecidos em Portugal e em outras regiões de falaportuguesa.Por outro lado, dentro do próprio léxico latino das línguas românicas é convenientedistinguir os vocábulos comumente denominados herdados, semi-eruditos e eruditos.Os herdados são aqueles que provieram diretamente do latim através da fala correntedos usuários, apresentando as mutações fonéticas e semânticas características de cadalíngua; esses constituem o vocabulário básico inicial. Os semi-eruditos são introduzidosna língua por via culta; ao entrarem, porém, no uso corrente, sofrem mudanças segundoos padrões e as tendências características da língua, que podem afetar tanto sua formacomo seu conteúdo semântico. Os eruditos são os transportados do latim para a línguaromânica sem qualquer adaptação fonética e com conteúdo significativo igual ou muitosemelhante ao latino. Exemplificando: lat. macula > port. mancha, através dosmetaplasmos > macla (síncope da pós-tônica) > mãcla ou mancla (prolação,característica do português, que consiste na nasalação da vogal seguinte pela nasal
  2. 2. anterior) > mancha (palatalização do grupo /-cl-/ não intervocálico > /-ch-/);semanticamente, mancha é equivalente a macula do latim. Da forma macla, semprolação (/-cl-/ intervocálico > /-lh-/), do fr. maille ou do prov. malha, proveio malha,com vários significados relacionados com o primitivo latino, como em “cavalomalhado”, isto é, “manchado”. Essas duas formas são herdadas. No séc. XV, o usopopular da forma latina macula resultou em mágoa, por metaplasmos diferentes emrelação às duas herdadas (mancha e malha) devido à época diversa: macula > magula(sonorização da surda intervocálica /-c-/ > /-g-/) > magua > mágoa (síncope do /-l-/intervocálico); semanticamente, mágoa entende-se como uma espécie de “mancha” noespírito de quem sofreu agravo ou decepção. Essa forma é considerada semi-erudita. Porfim, com o Renascimento, introduziu-se a forma erudita macula, sem qualquermodificação fonética; apenas o uso restringiu seu significado a “mancha moral”,enquanto “mancha” apresenta um significado mais amplo. Nesse contexto, percebe-seclaramente a presença constante do denominado “adstrato permanente” do latim,primeiramente clássico e depois eclesiástico e medieval, como fonte de empréstimosléxicos às línguas românicas e também não românicas, até nossos dias. Por isso convémexaminar, ainda que resumidamente, esses aspectos.1. Consideram-se herdadas, portanto, as palavras transmitidas às línguas românicasdiretamente do latim vulgar pelo falar do povo. Incluem-se nesse rol também aspalavras não latinas (pré-românicas, gregas, germânicas, eslavas, ibéricas etc.) que olatim vulgar havia assimilado, v. g., gr. pevtra > lat. petra (que substituiu totalmente lat.lapis), base de todos os correspondentes românicos. Estatisticamente, segundolevantamento de A. Graur, em que foram consideradas apenas as formas simples, nãosendo computadas as derivadas e as compostas, dos 6700 vocábulos latinos do REW(Romanisches Etymologisches Wörterbuch), cerca de 1300 são panromânicos (20%),3900 foram herdados por algumas línguas românicas (60%) e 1500 (20%) por apenasuma. A mesma obra registra ainda 1621 empréstimos no latim vulgar de línguasestrangeiras, dos quais 25 são ibéricos, 70 bascas, 780 gregas, 746 de várias origens:celtas, lígures ou simplesmente “pré-românicas” quando a origem é incerta. Esseinventário, Manual, vol. II, p. 101), o autor não incluiu os empréstimos ilíricos e trácios,encontrados no romeno e no dalmático, e que não é clara a cronologia dos empréstimosgregos, desde os tempos da Magna Grécia. De qualquer forma, os dados mostram apermeabilidade do latim vulgar a empréstimos. Cumpre lembrar que o léxico do latimvulgar nunca será totalmente recuperado, uma vez que se trata de uma línguaeminentemente falada, cujas fontes são incompletas e incoerentes. Por isso, os dadossobre o vocabulário herdado românico são relativos e aproximados.Entretanto, é latino o fundo específico do léxico românico, abrangendo particularmenteas palavras que indicam ações comuns e necessárias, objetos de uso constante, partes docorpo, moradia e seus componentes, parentesco, entre outros, embora não hajacoincidência formal e semântica senão bastante relativa. São também de origem latinaos adjetivos mais comuns, os numerais, o sistema pronominal, a conjugação verbal, osprincipais advérbios, as preposições e as conjunções. Em relação ao latim literário,porém, como observou Therodoro Henrique Maurer (Gramática do Latim Vulgar, p.232), muitas palavras correntes no latim literário eram desconhecidas ao vulgar,enquanto outras persistiram na língua falada, como arcaísmos, não se encontrando maisna língua escrita.. Desse modo, explicar-se-iam as palavras isoladas em algumasvariedades românicas. Por outro lado, o adstrato permanente do latim eclesiástico e
  3. 3. medieval, continuador do latim literário, subministrou os empréstimos posteriores,muitas vezes com significado diverso do herdado correspondente.2. Termos eruditos ou de caráter poético eram certamente desconhecidos no latimvulgar, como aequor, audere, cruor, crus, entre muitos outros. Apesar de seu conteúdosemântico concreto, desapareceram da língua popular ou nunca lhe pertenceram.Faltaram-lhe também termos abstratos, culturais e os de caráter genérico, fatocomprovado pelas formas eruditas e foneticamente fora dos padrões evolutivos normaisnaqueles poucos encontrados, denunciando introdução posterior, sem dúvida de cimapara baixo, isto é, da forma culta para a popular.Parte do léxico foi sendo substituída com o tempo, da qual restaram apenas vestígiosnas diversas regiões da România. Freqüentemente, porém, os correspondentesromânicos assumiram outra acepção, seja por polissemia ou metáfora, seja por analogia.Contudo, tais alterações mantêm sempre alguma relação semântica com a base latina,embora nem sempre visível de modo imediato. Considerem-se, por exemplo, lat. raptus,“arrebatado” ou “rapto” e cast. rato, “instante”, cujo ponto de convergência écertamente a idéia de “rapidez”; ou innocuus, “inofensivo”, e log. innokidu, “tolo”, emque a inoperância ou o alheamento aparente ou real do que é inofensivo rupes,“rochedo”, e mác. –rom. arup, “abismo”, em que o elemento rochoso geralmente se fazpresente. Em todo caso, o meio ambiente e a cultura são elementos que influem nasalterações semânticas, uma vez que a língua em geral e o léxico em particular sãoreflexos da cultura.3. Por outro lado, o latim vulgar utilizava palavras desconhecidas ou raras no literário.Levando-se em conta o fato de o latim vulgar ter sido uma variante eminentementefalada, sem dúvida muitas se perderam, sem deixar traços nas línguas românicas. Hácasos de ampliação ou de restrição semântica, de substituição total ou parcial, inclusivepor locução, como em bassus por humilis, bellus por pulcher, bilancia (ocid.) por libra,bucca (gura e rostrum) por os, bucina por tuba, caballus por equus, capsa por arca, poronerare, casa por domus, causa (ocid.) por res, comparare por emere, corrigia porlorum, coxa por fêmur, (de)gannare por deludere, ficatum por iecur, filare por nere,“fiar”, “tecer”, grandis por magnus, grossus por crassus, gula por fauces, hibernotempore por hiems, longo (multo) tempore por diu, infirmus por aeger ou aegrotus,manducare (e comedere) por edere, pisinnus por parvus, plorare por flere portare porferre, praestare por commodare, prima vera por ver, siccus por aridus, spissus pordensus, taliare por caedere, testa por caput, toccare por tangere, tostare por torrere,vadere por ire, venter por alvus e muitos outros. Nota-se sempre o caráter concreto dovocabulário vulgar, como também a busca de maior audibilidade, fator importante nacomunicação oral.4. Com elementos do sistema latino, o latim vulgar criou e usou uma série de palavrasnão encontradas nos textos literários nem nas fontes indiretas do latim falado, mas queconstituem o ponto de partida das correspondentes românicas. São as formasreconstituídas, ainda não documentadas por fonte escrita e por isso indicadas porasterisco, como no Romanisches Etymologisches Wörterbuch de Meyer-Lübke. Nessaobra básica para a Filologia Românica foi feito levantamento para comprovar acriatividade do latim vulgar e sua importância para o conhecimento do léxico românico.Não foram elencadas as palavras que se arcaizaram, as que designam algo regionalespecífico, técnico ou rural e as provenientes de empréstimos de qualquer origem. Foi
  4. 4. dada preferência a termos comuns e usuais nas línguas românicas. Esse levantamentorestringiu-se a cerca de 120 palavras, das quais seguem apenas alguns exemplos:abbiberare, “abeberar”, (lit. aculeus), “aguilhão”, alapa, “aba”; alleviare, “aliviar”;alluminare, “alumiar”; altiare, “alçar”; amicitas, “amizade”; apparescere, “aparecer”,burrula, “borda”; caesellum, “cinzel”; cepulla, “cebola”; costatum, “costado”; crassia,“graxa”; excappare, “escapar”; excarnare, “escarnar”; exmagare, “esmagar”;extravagare, “estragar”; fallia, “falha”; figicare, “ficar” e “fincar”; fortia, “força”;fortiare, “forçar”; imbuccare, “embocar”; ingannare, “enganar”; insignare, “ensinar”;lusciniolus, “rouxinol” (< prov. rosinhol); maneana, “manhã”; mantaica, “manteiga”;mordacia, “mordaça”; muscus, “musgo”; natica, “nádega”; novius, “noivo”; palumbus,“pombo”; parescere, “parecer”; pariare, “pairar”; passare, “passar”; pettia, “peça”;piliare, “pilhar”; pottus, “pote” (< prov. pot); pugnale, ”punhal”; putatoria, “remolere,“remoer”, remolinare, “remoinhar”; remussicare, “resmungar”; ruptiare, “roçar”;sappus, “sapo”; sessicare, “socegar”; sucidus. “sujo”; superculus, “sobejo”; tardivus,“tardio”; tegella, “tigela”; tirare, “tirar”; to(n)sare, “tosar”; traginare, “treinar”;tribulare, “trilhar”; truncus, “tronco”; truppicare, “tropicar”; tuscus, “tosco”; usare,“usar”; vagativus, “vadio” (só port.); veranum (tempus), “verão; voltare, “voltar”, alémde outros comentados mais abaixo.Um exame desses exemplos do léxico do latim vulgar confirma as características dolatim falado. O caráter mais simples do latim vulgar se manifesta na redução dasdeclinações, pois nesse pequeno corpus é total a ausência de palavras da 4ª e da 5ªdeclinações. Mesmo a rica e importante 3ª está pouco representada: amicitas(amicitatem > port. amizade, cast. ant. amizad, mod. amistad, cat. e prov. amistad, fr.amitié, eng. mustet, it. amistà) e acúleo, cujo sufixo bem popular, mais visível noacusativo, geralmente tem caráter depreciativo. Os verbos depoentes da norma literáriasão substituídos por formas regulares: uti por usare, imitari por (de)imitare, scrutor porscrutiniare; da 4ª conjugação há apenas florire (florere, 2ª conj. clássica), panromânico,menos port. e cast. que têm o incoativo florescer. Aliás, a forma incoativa, característicade boa parte dos verbos da 2ª conjugação românica, está também em parescere eapparescere É notável que a grande maioria dos verbos pertence à 1ª conjugação, amais simples e regular, característica dos verbos românicos. Da 2ª há apenas remolere,de conteúdo bem popular.O analitismo do latim vulgar no vocabulário é patente em veranum (tempus), “verão”,originariamente um adjetivo. Um rápido exame do conteúdo significativo dos termosselecionados mostra seu caráter eminentemente concreto, designando ações docotidiano, objetos de uso comum, elementos da fauna e da flora, emoções; nada deabstrações. A expressividade se manifesta nos diminutivos, nem sempre comcorrespondentes literários: aviolus por avus, caesellum por caelum, cepulla por caepa(cepa), molinum por mola, natica por nates (gen. natium), supercullus, tegella.Numerosas são também as geminações expressivas, freqüentemente sem fundamentaçãoetimológica: excappare, ingannare, muccus, pettia, puttus, pullitus, sappus,subgluttiare, truppicare. A verificação desses fatos característicos ajuda a entender anatureza do léxico românico.6. As fontes do latim vulgar, sobretudo as inscrições, constituem importante ponto dereferência para o conhecimento do léxico românico, sobretudo em relação às mutaçõesdo latim vulgar mais antigo. Sendo datáveis e localizáveis com relativa segurança,fornecem dados dificilmente encontráveis em outras fontes escritas. Nessa perspectiva,
  5. 5. Meyer-Lübke, W. von Wartburg, G. Rohlfs, Väänänen, entre tantos outros, apresentamvaliosos subsídios. Dada a grande extensão do léxico românico, vejamos apenas doisexemplos bem esclarecedores da criatividade românica: o campo semântico deesquecer. O latim literário tinha o depoente obliviscor, oblitus sum, oblivisci, cujocorrespondente vulgar não depoente obliscere está documentado no papiro 304 do CPL(Cavenaile) e substituído no latim tardio por oblitare, que os gramáticos latinosconsiderariam um verbo freqüentativo. Derivado do particípio oblitus como tantosoutros (como ausare, jactare, junctare, pictare, tutare, unctare, usare) foiprevisivelmente incorporado à primeira conjugação, mais homogênea e de uso maisfácil. De oblitare > cast. olvidar, cat. oblidar, prov. oblidà (< ant. oblidar, além deemblidar e omblidarn <* inoblitare), fr. oublier, rét. emblidar (< *inoblitare), rom.uita. Na Península Ibérica, excadescere, “cair das mãos”, usado metaforicamente como“cair para fora da mente”, deu port. e gal. esquecer, ast. escaecer, cast. ant. escaecer,log.. scarésciri (< cast. escaecer, além de olvidare e orvidare no log. literário). Partindode mens e cor, a Itália cunhou o neologismo bem popular *exmenticare, com asvariantes *dementicare e *deexmenticare, e *excordare; no norte italiano e na Toscanahá desmentegá > it. lit. dimenticare, > nuor. ismentigare, cors. smenstigá e sminticá; nocentro e no sul a forma dominante é scordare. Note-se ainda a forma desmembrar <*deexmemorare, corrente em algumas regiões do sul da França. Em todas essas formaspercebe-se o ponto de partida concreto para expressar algo em si abstrato.Embora de uso muito freqüente, as formas do verbo ire eram curtas demais, comescassa perceptibilidade dentro do fluxo frasal; além disso, no latim vulgar encontram-se homonímias, como eo < ego, “eu”, e eo “eu vou”, it, “ele vai” e id, “isto”, além denumerosas flexões nominais e verbais passíveis de sugerirem homonímia. Mesmo assimlogrou manter algumas de suas formas com o auxílio de vadere, “ir”, “caminhar”; desdeos séc. IV e V, os textos latinos apresentam as seguintes formas para o presente doindicativo: vado, vadis, vadit, imus, itis, vadunt (port. vou, vais, vai, imos ou vamos,ides, vão). Note-se que na Vulgata não se encontram is, it nem o imperativo i,substituído por vade (181 ocorrências), mas o plural ite é usado 68 vezes, fato queconfirma a fuga da homonímia. Da mesma forma, nenhuma forma monossilábica seencontra na Peregrinatio. As formas resultantes das combinações desses dois verbospermanecem nas línguas da Ibéria, no rético dolomítico (central) e nos falares italianosdas Marcas até a Sicília (vai, vai, va, imu, iti, vanu). Nas outras regiões, o quadroromânico dos substitutos de ire é complexo. Pode-se supor que, ao lado de ambulare,“passear”, “caminhar”, usa-se também annare, “passar o ano”, figuradamente com osentido de ire. Partindo-se de annare, chega-se regularmente ao cat. e prov. anar. Deambitare, “rodear”, “ir”, de ambitus, “circunferência”, “circuito”, já no lat. vulg.admite-se *andare (ambitare > ambidare > ambdare > andare), donde port., cast.andar, log. e it. andare. Pelo cruzamento com ambulare teriam surgido *amnare ou*ambnare e *allare, bases do mac. –rom. îmnare, megl. –rom. amnari e fr. aller. Deambulare, com poucas modificações, provieram fr. ambler, istr. amble, rom. umbla. Oromeno adaptou semanticamente também mergere, “mergulhar”, “submergir”, > merge,“ir”; da mesma forma, ducere, “conduzir”, > duce, em expressões como eu ma( ,“vou embora”. Em português, mandar-se é usado nesse sentido. Esse campo semânticomostra como as ampliações e as restrições semânticas se fazem com muita facilidade. Apartir de um sema comum, no caso o de “movimento”, “deslocamento”, a língua passa autilizar as palavras para expressar idéias aparentemente não relacionadas; um exameatento descobre o caminho seguido. Outro exemplo interessante de que o léxico é umregistro das atividades humanas encontra-se nas expressões românicas para “chegar”.
  6. 6. Em latim, essa idéia era expressa por advenire, que figuradamente significava também“suceder”, “acontecer”, passando da idéia concreta de espaço para a abstrata de tempo,como em Periculum advenit e Dies advenit. Isso facilitou o aparecimento de váriasexpressões, dentre as quais se destaca plicare, “dobrar”. Usava-se em linguagem náuticana expressão plicare vela, “dobrar as velas (do navio)” à aproximação da chegada aoporto, com que se obtinha que o navio atracasse mais lentamente. Por braquissemia,dizia-se apenas plicare, logo com o significado de “chegar” (plicare > plegar > port.chegar, cast. llegar, com a sonorização da surda intervocálica e a palatalização para achiante em português e para a lateral no castelhano). Já na Peregrinatio Aetheriae,plicare significa “chegar” sem ligações com a linguagem náutica: “cum iam propeplicarent civitati” (10,9); “ut plecaremus nos ad montem” (38,11). Fora da PenínsulaIbérica, plicare passou a significar “chegar” numa região da Sicília, “chicari” e ao sulda Calábria, chiicari. Na Dácia, plicare era empregado na expressão plicare tentoria,“dobrar as tendas” e plicare sarcinam, “dobrar a mochila”, na linguagem militar, comque se indicava a hora de “partir”, ao se desmontar o acampamento; daí, plicare > rom.pleca passou a significar “partir”, ao contrário do que se deu na Ibéria. Note-se aindaque o romeno é a única língua românica que conserva o termo sarcina(, ”mochila”.Contudo, o romeno conserva também pleca no sentido etimológico de “dobrar”,“inclinar”, “curvar”. No latim literário, ocorrem expressões com o composto applicareou applicari com significado próximo a plicare, “chegar”, como em applicare se adflammam, “achegar-se ao fogo”, em Cícero, e naves terrae (e ad terram) applicare,“chegar os navios à terra”, se ad arborem applicare, “encostar-se a uma árvore”, emCésar e Tito Lívio. De applicare provém sic. e cal. agghiicari, também “chegar”. Outrosubstituto de advenire é adripare, (< ad + rip(a) + are), “aproximar da margem”, depossível procedência das populações litorâneas; por sua evolução fonética pode-seconcluir que surgiu na Gália e difundiu-se em outras regiões: fr. arriver, prov. arribar,cat. arribar, (> sard. arribare), it. arrivare, ingl. arrive. No português, arribar, “chegarà riba”, “aportar”, já é documentado no séc. XIV. No italiano, encontra-se aindagiungere, mais como um preciosismo absolutamente não popular; em certas regiões daSicília, porém, é corrente juntari (< junctare) no sentido de “chegar”.5. Entretanto, apenas a base latina não logra explicar a diferenciação léxica das línguasromânicas. Mesmo levando-se em conta a situação privilegiada da filologia românicaem relação ao conhecimento documentado do terminus a quo e do terminus ad quem, énecessário recorrer a outros meios para explicar aquela diferenciação, verificada maisno léxico do que nos aspectos fonéticos. Dentre as tentativas de explicação, destacam-sea de Gustav Gröber, com a “teoria dos substratos do latim vulgar”, a da LingüísticaEspacial de Matteo Bártoli e a mais aceitável, por parecer condizente com os fatoshistóricos, é a posição de Gerhard Rohlfs: a diferenciação do latim em geral, e do léxicoem particular, tomou impulso depois da descentralização do Império, a partir doimperador Adriano (117-138 d. C.), que foi obrigado, entre outras medidas, a retirar aslegiões da Dácia. Sem os estreitos laços com Roma, a grande influência da capitalperdeu força, permitindo que o latim da Ibéria, da Gália e da Dácia seguisse caminhosdiferentes, fragmentando-se mais rapidamente. Sendo a língua expressão da cultura, olatim adquiriu feições mais locais, expressando novas formas de pensamento comrenovação das referências metafóricas e analógicas. Com o ofuscamento de Roma,surgem novos centros irradiadores de cultura, como Mediolanum (Milão), Lugdunum(Lyon), Burdigala (Bordéus), Caesaraugusta (Zaragoza), Augusta Emérita.Posteriormente, a criação das circunscrições diocesanas eclesiásticas, que de modo geral
  7. 7. respeitavam as antigas bases étnicas e provinciais romanas, fez surgir novos centros deirradiação, cujo exemplo mais claro é o de Coira, atualmente Chur, para o rético.6. Apesar dessas contingências da história externa das línguas românicas, todasherdaram do latim, ainda que em épocas diferentes, seu repertório léxico básico.Conforme a predominância política, militar ou cultural, as línguas românicasinfluenciam-se mutuamente ao longo dos séculos. Nesse contexto, o francês sempre sedestacou como fonte de empréstimos léxicos a praticamente todas as suas irmãs e, demodo geral, a todas as línguas do Ocidente. Destaque-se, nesse contexto, a grandepresença do francês como fonte de empréstimos na relatinização do romeno, na segundametade do séc. XIX. No Renascimento, foi o italiano o maior fornecedor deempréstimos ao Ocidente, enquanto o castelhano e o português buscaram em terrasdistantes nas grandes navegações, nos séc. XV e XVI, termos exóticos de muitosidiomas e os introduziram no mundo românico. Contudo, as línguas em adstrato semprese inter-influenciam. Encontram-se atualmente numerosos estudos específicos erecentes no campo dos empréstimos léxicos, reflexo da disputa com o inglês. Umexemplo esclarecedor é o trabalho de Marjolein van der Berg, L’influence néerlandaisesur , encontrado na internet, em um sítio interessante também sob outros aspectos(http://users.belgacom.net/ethesis7/influ_ned/influ_ned_inhoud). Foram levantados 208empréstimos holandeses ao francês, no período de 1100 a 2000, aplicando os princípiosestabelecidos por Michel Bréal. O maior número de empréstimos é dos séc. XI-XII,com o pico nos séc. XVIII-XIX. Desses 208, 164 (78,8%) são substantivos, 15, 4% sãoverbos, 4,8%, adjetivos, uma interjeição (ploc) e um advérbio de lugar (vrac, usado nalocução en vrac “a granel”), perfazendo perto de 0, 5%. São analisados também oscampos semânticos, denominados setores, desses empréstimos, destacando-se os termosnáuticos, com quase 70%, pois os holandeses sempre foram grandes navegadores,seguindo-se os nomes de profissões, de botânica e de termos comuns. Sendo algunsmuito antigos, permitem seguir-lhes a história e as alterações semânticas. Algunsexemplos, com a data da atestação: hol. boeye > fr. bouée (1375), “bóia”; bolwerk,“baluarte” > fr. boulevard (1327), “obra de defesa”; séc. XVIII > “rua larga comárvores, fazendo a volta à cidade sobre o lugar das antigas fortificações”; brikke >brique (1175), “tijolo”; cabret > cabaret (1275), “café”, no valão e no picardo, séc.XV-XVII, “lugar de reunião para beber e jogar”; séc. XIX, “estabelecimento deapresentações satíricas, teatrais etc., onde se pode beber, comer, dançar”; kringhelen,“fazer curvas”, > degringoler (1677), “despencar em quedas sucessivas”; droog, “seco”,> drogue (1690), “secado”, depois “produto farmacêutico”, “remédio tradicional” feitocom ervas secas (1568), passando a significar um século depois “algo ruim de serabsorvido” ou “alguém ou algo desprezível”, e no séc. XX passou a designar assubstâncias alucinógenas (1913), além de manter o significado de “ingredientes, cadauma das matérias primas da fabricação de remédios”; drol (séc. XIV), “traquinas”, >drôle, “folgado”, “debochado” (séc. XVI) > “pessoa não confiável”, “despresível”(1718); no séc. XVIII, passou a significar “criança”; em 1635, é usado como adjetivo,“divertido”, cômico”; o significado atual, “que provoca riso por sua originalidade,singularidade”, “que é anormal ou espantoso”; manneken, “homem pequeno”, >mannequin (1467), com a mesma significação: séc. XVI, “figura de madeira ou decera”, “escultura”; a partir de 1614, “modelo numa vitrine”, além de outros; maken,“fazer”, > pic. maquier (1468), “fazer”, “fingir” na gíria, nos séc. XVII e XVIII,significava “roubar”, e também “trabalhar”; entre 1798 e 1849 voltou a significar“fazer”; no começo do séc. XIX, entre os jogadores de baralho, “falsificar a aparênciade algo para enganar”; na gíria teatral, “caracterizar-se”, “produzir” (1840) e daí o
  8. 8. sentido atual de “modificar ou embelezar certos traços do rosto”, “desnaturar”,“falsear”; mite, “espécie de moeda de cobre” > mitraille (1375), “pedaço de metal”, >“fragmentos de metal com que se carregavam os canhões” (1872), “descarga conjuntade artilharia”, “grande quantidade de bombas ou tiros”. Esses exemplos demonstramcomo age o adstrato, seguindo caminhos imprevisíveis, facilitados pela flexibilidade dosconteúdos semânticos. Através da forma francesa, muitos desses empréstimos passaramàs outras línguas românicas e não românicas.Esses 208 empréstimos holandeses ao francês, incorporados no decurso de quase ummilênio, representam 0, 3% do léxico básico francês, constituído, segundolevantamentos recentes, por cerca de 60.000 palavras. O ponto de partida do léxicofrancês obviamente é o latim, com 10.590 palavras (17%), o grego com 3.785 (6, 3%), oinglês com 2.451 (4%), o .153 (2%) e outros com contribuições menores. Essas e outrasinformações estão no sítio http://users. belgacom. net/ethesis7/influ_ned. Tendo comoponto de partida um dicionário de uso, com cerca de 35.000 palavras, a enciclopédiaWikipedia estima em menos de 13% os empréstimos estrangeiros no francês, dos quais1054 são ingleses, 707 italianos, 550 do antigo alemão (franco), 481 dos antigos falaresgalo-romanos, 215 árabes, 164 do alemão, 160 do antigo celta, 159 do espanhol, 153 doholandês (cf. os mais recentes 208 supra), 112 persas e sânscritas, 101 das línguasameríndias, 80 de diversas línguas asiáticas, 56 de diversas línguas afro-asiáticas, 55 doeslavo e do báltico, 144 de outras línguas diversas. Por outro lado, convém lembrar queo francês é a língua oficial da França, Bélgica, Suíça, Canadá e 21 outros países e“largamente utilizada em determinado número de outros”. Uma parte das nações, quefalam o francês, forma a Organisation Internationale de la Francophonie; conformecálculos dessa Organização, o total dos falantes “reais” ou “parciais” deve atingir 183milhões em 2005. (Cf. http://fr.wikipedia.org. /wiki/Langue_fran%C3%A7aise) Sendofalada nos cinco continentes, em ambientes naturais, culturais e de diferentes visões domundo, é claro que haverá muito regionalismo, termos e expressões próprias paradesignar algo específico – tudo isso dito à maneira francesa, enriquecendo o tesouroléxico total. No sentido inverso, o francês tem sido a fonte de empréstimos léxicos paraas línguas ocidentais, sobretudo para as línguas românicas, do português ao romeno,como ficou dito. Mesmo em relação ao inglês, pesquisas recentes indicam que 29% doléxico do inglês moderno são de origem francesa. No cômputo geral, ao redor de 70%do léxico inglês é de origem latina, direta ou indiretamente. Basta conferir aterminologia computacional, onde são comuns os termos buscados no latim, tais comobit, abreviação de bi(narius) t(erminus); delete, do supino de deleo, deletum,delere¸”apagar”; site fr.méd.site < lat. situs, –us, “situação”, “localização”, do verbosinere, “colocar”, “deixar”, entre tantos outros.Não sendo possível, devido às limitações normais deste texto, proceder a comentáriossobre as características lexicais de cada uma das línguas românicas, algo semelhante aoque se apresentou em relação ao francês, julgamos de interesse alguns dados sobre oromeno, não muito conhecido entre nós. Seu léxico, porém, apresenta aspectosparticularmente interessantes.Apesar das vicissitudes históricas, especialmente os fatos de o eslavo ter sido a línguaoficial do país por dois séculos (X-XI), do isolamento em relação às outras línguasromânicas e ao adstrato permanente do latim eclesiástico e medieval, substituído peloeslavo com a mesma função, o léxico romeno conservou sua feição românica. Recebeuempréstimos para as classes de inventário aberto (substantivos, adjetivos e verbos), ao
  9. 9. passo que inexistem empréstimos nos de inventário fechado, como advérbios,preposições e conjunções, em que a herança latina é completa. Nessa avaliação, énecessário levar em conta a época em que se avalia o caráter do léxico romeno. Arelatinização, iniciada em 1860, veio da classe culta, dos escritores e poetas, portanto decima para baixo; por isso, trata-se de um processo lento, até que atingisse a populaçãoatravés das escolas, dos ritos religiosos e dos meios de comunicação. Destarte, oDictionnaire d’étymologie daco-romain do moldavo Alexandru de Cihac (1825-1887),publicado em Frankfurt em 1870, analisa um total de 5765 vocábulos, dos quais apenas1165 são de origem latina e 4600 são de outra procedência: 2361 eslavos, 965 turcos,635 neogregos, 589 húngaros e 50 albaneses. Note-se que a relatinização efetiva doromeno mal havia sido iniciada; muitos empréstimos foram depois substituídos portermos latinos correspondentes. Além disso, como observou Carlo Tagliavini (Origini,p. 320-321), faltam na obra muitos termos de origem latina e também de outras origens,já que a língua sem dúvida contava com mais palavras do que as estudadas. Numdicionário, todas as palavras, postas no mesmo plano, têm valor apenas unitário,resultando valor estatístico bastante relativo. De fato, na língua viva a porcentagem deelementos românicos é muito mais elevada, porque são os mais usados, ficando os deoutras origens, sob esse aspecto, entre 10 a 15%. Também o inglês conta com maispalavras de origem latina do que germânica, e nem por isso pode ser considerada língualatina, precisamente porque os elementos germânicos são os mais usados. Uma visãomais fiel à realidade dos fatos infere-se da análise dos dados do REW de W. vonMeyerlübke, citados acima. No rateio final, cada língua românica conta com umas 2.000palavras herdadas, sem contar as derivadas e as compostas, freqüentemente muitonumerosas. Especificamente para o romeno, em 1954, A. Graur somou 857 daqueleconjunto geral românico, ou 43%. Levando-se em conta as vicissitudes históricas dalíngua romena, a proporção é notável, tanto mais que os empréstimos se distribuementre as diversas origens eslavas, bizantinas, turcas, húngaras, neogregas e albanesas.Contudo, a herança léxica latina é notável pelos termos do latim vulgar conservados sópelo romeno e algumas poucas encontradas também em uma ou duas outras, devendo aimensa maioria ser anterior ao fim do século III, quando o Império foi forçado a retirarsuas legiões da Dácia. Tomando o REW como ponto de referência e ressaltando-se queas últimas edições incorporaram estudos de muitos especialistas (Brogea, Candrea,Diculescu, Densusianu, Pu]cariu, Papahagi, Petrovici, Procopovici, Titkin), chegou-se,através de levantamentos sistemáticos, a um número maior de palavras latinasconservadas apenas pelo romeno. Assim, Iurgu Iordan, partindo de várioslevantamentos até à 3ª edição do REW, fala de cerca de 120 palavras latinas herdadasapenas pelo romeno. Os últimos levantamentos indicam 141; a continuação daspesquisas pelos etimólogos romenos indica a possibilidade de que esse número, de fato,pode aumentar. A seguir, vejamos apenas alguns dos termos latinos herdados comexclusividade pelo romeno, embora possam ter tomado outros significados: lat.aduncus, “torto” > rom. adînc, “profundo”; albaster, “esbranquiçado” > albastru,“azul”; allevatum > aluat, “fermento”; alvina, “colméia”, > albina , “abelha”;*antaneus > întîi, “primeiro”; *biliatus > biet, “pobre”; blanditia, “adulação” > e,“ternura”; , “relampejar”; caucus > cauc, “concha”; cautela > , “suavemente”, “aos poucos”; ; circitare > cerceta, “revistar”; * combibulus >curcubeu, “arco-iris”; *cucurbitella > curcubiea (- , “abóbora”, “cabaça”; dedare> a se dada, “entregar-se”; , “arrancar os cabelos”, “desesperar”; , “abrigo”; *derapinare > da(ra(pa(na, “arruinar-se”; *diffamia dormitare > durmita, “adormecer”; *escubulare > a sescuba, “levantar-se”; *experlavare > spa(la, “lavar”; exsudare > asuda, “suar”;
  10. 10. extemperare > astîmpara, “acalmar”; floralis > florar, “abril”; *fragmentare >framînta, “quebrar”; *fulgerare > fulgera, “brilhar”; *gibbulus > gheb, “corcunda”;*hocce > oaoce, “aqui”; horrescere > uri, “odiar”; , “banquete”;*infolliare > înfoia, “inchar-se”; innatare > înota, “nadar”; *intemplare > întîmpla,“acontecer”; intonicare > întuneca, “escurecer”; jugulator > junghetor, “assassino”;languidus > lînced, “frouxo”, “fraco”; lingula > lingura(, “(a) colher”; manicare >mîneca, “madrugar”; , “mentira”; miles > mire, “soldado”;miserare > misereare (ant.), “graça”; neque unus > niciun, “nenhum”; perducere >preducea, “perfurar”; persecare > , “castigar”; pigritare > pregeta, “demorar”;placenta > pla(cinta(, “pastel folheado”; * plupea > pleoapa(, “globo do olho”; prae,“adiante”, > preá, “demais”; praedatio > pra(da(ciune, “saque”; *rapationem,“colheita de beterraba”, > ra , “setembro”; rorare > rura, “orvalhar”.“pingar”: signicare > sineca, “persignar-se”.Dentre esses termos latinos herdados só pelo romeno, conforme registrados pelo REW,encontram-se 58 substantivos, 56 verbos, 18 adjetivos, 6 advérbios, um ordinal (întîi),um indefinido e uma interjeição, 141 no total, salvo algum lapso. Há casos em que otermo latino passa para outra classe, como o substantivo lat. cautela, “precaução” e oadvérbio rom. , “suavemente”, “aos poucos”. Das herdadas pelo romeno e poruma ou outra língua românica, mais comumente com o dalmático, o italiano e o sardo,foram encontradas 16: 7 verbos, 4 substantivos, 4 adjetivos e 1 advérbio. Esselevantamento levou em conta apenas o aspecto formal do daco-romeno; não poucostermos, embora herdados, apresentam um significado diferente daquele do latim, v. g.lat. animus ou anima, “espírito”, > rom. inima , “coração”, ( , “batidas do coração”), enquanto“espírito” é expresso por suflet < suffletus. Registram-se ainda certo número de termospróprios em outras variantes do balcano-romance, isto é, o megleno-romeno, falado novale do rio Meglena ao sul do Danúbio, o mácedo-romeno, encontrado na Macedônia evárias regiões adjacentes, e o ístrio-romeno, em pequenos territórios da península daÍstria, nos Bálcãs; por exemplo, lat. corbula > megl. –rom. croabla , “cestinha”. Essesdados não deixam dúvida em relação à sólida base latina do léxico romeno, preservadaapesar de todas as influências sofridas ao longo dos séculos.As possíveis contribuições germânicas antigas ao léxico romeno são controversas.Mesmo os 26 termos gépidas, atribuídas por Gamillscheg ao romeno, podem ser deoutras origens, dado a intrincada confluência de idiomas na região. Empréstimosposteriores, porém, encontram-se sobretudo na Transilvânia e no Banato; naTransilvânia, houve contato da população romena com florescentes colônias saxônicasnos séc. XII e XIII, embora alguns tenham vindo através do húngaro. No Banato,provieram de colônias suevas no séc. XVIII. Como parte do império austro-húngaro,tanto a Transilvânia, sob administração húngara, recebeu empréstimos germânicosatravés dos húngaros, como o Banato e a Bucovina através dos austríacos,particularmente termos técnicos e administrativos. Alguns exemplos: sax. fyrdel (al.Viertel) > rom. os”; sax. korf (al. Korb) >rom. , “cesto”; al. Strang > rom.]treang, “corda”; sax. purger (al. Bürger) >húng. ant. purgár > hung. mod. polgar > rom. pîrgar, “conselheiro municipal”; al.Lade > húng. lada ou esl. lada > rom.Durante todo o século passado, foi grande a influência francesa sobre o léxico romeno,levando à substituição de antigos termos, sobretudo eslavos, por termos românicos.
  11. 11. Dados recentes sugerem que um quinto do léxico romeno provém do francês direta ouindiretamente, reforçando a relatinização do romeno, iniciada no séc. XIX.. O processode globalização, iniciado no fim do séc. XX e aprofundado no corrente séc. XXI,sobretudo por meio da internete, que alcança diretamente muitos milhões de pessoas emtodo o planeta, aumentou muito a presença da língua inglesa no mundo. O movimentode uma espécie de autodefesa do léxico da língua materna, emtra essa invasão deanglicismos, observa-se por toda parte (Alemanha, Brasil, Espanha, França, Itália). NaRomênia também se trava um constante diálogo nesse sentido em diversos sítios dainternete, sobretudo entre jovens. Na página www.muntealb.com/LimbaRomana-bn.htm(atualizada em junho de 2005), Alexandru Bogdan Munteanu, no artigo Limba “A Língua Romena na Época da Informática”,apresenta resultados do “fórum dos internautas”, em que se debatem questõeslingüísticas. Depois de muita discussão, sugestões e críticas, Munteanu fixou algunsparâmetros, geralmente aceitos, que devem ser considerados no sentido de vernaculizara terminologia da informática, tendo em vista as características do romeno e do inglês.Vale a pena refletir sobre os pontos propostos, sem dúvida, válidos para todas as línguasromânicas, uma vez que visam a manter a integridade e a compreensão da línguamaterna. São os seguintes: a) só adotar um termo para algo novo, quando não houvercorrespondente romeno, ou quando não se possa criar um termo adequado com oselementos existentes no sistema; b) o termo adotado não pode ter o mesmo sentido queoutro já existente na língua corrente; c) respeitar o caráter fonético da língua, de modoque se leia como se escreve, fazendo para isso as devidas adaptações, como aeliminação das consoantes geminadas e dos fonemas não pertencentes ao sistemafonológico próprio; d) levar em conta a facilidade de pronúncia, eliminando-se gruposconsonânticos não tolerados; e) conservar, se possível, o mesmo gênero gramatical dalíngua original; f) atender às particularidades do romeno em relação à declinação,eliminando a necessidade do uso do traço de união. Essas orientações, mutatis mutandis,podem ser aplicadas a todas as línguas românicas, inclusive ao português; com isso,evitar-se-iam formas exóticas, incompreensíveis para considerável parcela dapopulação. Eliminando-se os estrangeirismos desnecessários, preservar-se-á aintegridade da língua e evitar-se-ia o ridículo, conforme já o dissera Cícero em relaçãoao grego. Na prática, foram propostas para o romeno na terminologia computacional,entre outras, as seguintes adaptações ou substituições, segundo os critériosmencionados: boot, “inicializar” > rom. a buta (neologismo); chip, nome comum,“cavaco”, “lasca”, rom. a]chie, já que rom. chip significa “imagem”, “rosto”; computer,rom. calculator; controller > rom. controler, pl. controlere, eliminando a necessidadedo hífen no romeno, e ter origem latina: contra rotulus > fr. desde 1611; core, “caroço”,“núcleo”, rom. nucleu; driver > rom. draiver, com adaptação na grafia; hard disk, rom.hardisc, com uso dos fonemas e do processo romeno de composição; link, “elo”,“conexão”, foi romenizado pelo correspondente alega, legat maus,pl. mausuri, (com adaptação ortográfica e fonética, com a forma plural do neutroromeno. O Dicionarul Explicativ al Limbii Române, 1998, esclarece que é tocmaidispozitivul de interaonare cu calculatorul, (“o maus é precisamente o dispositivo deinteração com o computador”), outros preferem soarece, “rato” (designação dada já eminglês pela semelhança de forma entre o dispositivo do computador e o animal); review,rom. recenzie, “apreciação”; shortcut, “atalho”, rom. mesmosignificado; site, rom. sit; spammer > rom. (empréstimo, sem correspondenteem romeno); thread, “fio”, rom. fir (< lat. filum, “fio”). Esse esforço dos romenos, quetentam romenizar a terminologia computacional, demonstra o apreço que têm por seu
  12. 12. idioma, além de buscarem uma terminologia técnica acessível a todos. A história daslínguas, entretanto, tem mostrado que os vocábulos, que não se enquadram no sistemafonológico próprio ou apresentam uma relação opaca entre significante e significado,cedo ou tarde são rejeitados pelos mecanismos internos de autodefesa do sistema.Exemplo desse fato foi o abandono, em português, da terminologia inglesa referente aofutebol, substituída por outra vernácula, como goleiro por goalkeeper, escanteio porkorner etc.Em conclusão, do exposto pode-se concluir com segurança que o lêxico das línguasromânicas manteve e mantém o caráter latino fundamental, apesar dos numerososempréstimos incorporados à parte do sistema aberto (substantivos, adjetivos e verbos),ao longo dos séculos. Na parte do sistema fechado, praticamente não houveincorporações. Os termos novos geralmente designam algo também novo ou diferente,uma vez que não existem dois sinônimos totalmente coincidentes no aspecto semântico.As rápidas modificações no modo de vida dos tempos atuais, com instrumentos,tecnologias, descobertas científicas aplicadas etc., exigem denominações adequadas,constituídas seja por recurso às fontes tradicionais seja pela adaptação de termos usuais,ou ainda através da criação neologismos. Mesmo os neologismos, porém, não sãocriações ex nihilo, pois partem de elementos do sistema da língua. O estudo do léxicopermite ver que a língua é de fato a expressão de uma cultura, no sentido mais amplo.Particularmente o romeno, apesar de todas as circunstâncias políticas, culturais elingüísticas adversas, manteve o caráter latino de seu vocabulário juntamente com asbases da cultura latina. Orgulham-se os romenos de serem descendentes dos dácios edos romanos, perceptível até no nome de seu país.referências bibliográficasBArtoli, M. Saggi di lingüística spaziale. Torino, 1945.Bassetto, B. F. Elementos de filologia românica. São Paulo: Edusp, 2ª ed., 2005.Bourciez, Ed. Éléments de linguistique romane. 5ª ed. Paris: C. Klincksieck. 1967,Câmara JR., J. M. História e estrutura da língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro:Padrão, 1977.––––––. Dicionário de filologia e gramática. 4ª ed. ver. e aum. Rio de Janeiro: Ozon,1970.Graur, A. Gramática azi. Bucure]ti: Academiei Republicii Socialiste România, 1973.Iordan, I. e Manoliu, M. Manual de lingüística românica. Madrid: Gredos, 1972, 2 vol.Maurer JR., Th. H. A unidade da România Ocidental. São Paulo: Graf. José Magalhães,1951.––––––. Gramática do latim vulgar. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1959.––––––. O problema do latim vulgar. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1962.
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