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A clavina ou carabina, espingarda curta usada por caçadores. O bacamarte é uma armade cano curto e largo, reparado em coro...
perdem também o prestígio porque o termo do momento é suíte que representa aindividualidade e o conforto do homem moderno....
5. Referências bibliográficasARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ (APEC). Livro de registros deprovisões, alvará etc, caixa,...
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Léxico e cultura as influências sociais nas formas de nomeação - expedito ximenes

  1. 1. LÉXICO E CULTURA: AS INFLUÊNCIAS SOCIAIS NAS FORMAS DE NOMEAÇÃO1Resumo: O presente artigo discorre a respeito da denominação das coisas e das pessoas estabelecendouma relação com a realidade sócio-cultural de uma comunidade e de uma época. Tratamos também dodesaparecimento e da criação do léxico de uma língua em que tudo está relacionado com o meio social, amaneira de o homem vivenciar o mundo em seu tempo como também as interferências de outras culturas.Outrossim, abordamos o léxico da língua comum e das línguas de especialidades. Apresentamos umaanálise relativa às formas de nomeação dos instrumentos do crime relacionados nos Autos de Querela,documentos que registram denúncias criminais ocorridos no Ceará nos séculos XVIII e XIX.Palavras-chave: léxico, cultura, realidade social.LEXICON AND CULTURE: THE SOCIAL INFLUENCES ON NOMINATION WAYS.Abstract: This article is about the denomination of things and people stablishing a connection betweensocialcultural reality of a community and of a time. It is also about the lexicon creation and desappearingof a language where everything is related to the social environment, the way in which the peopleexperience the world in its time and the interferences of different cultures. Likewise, it is about thelexicon of the ordinary language and the languages of specialty. We present a relative analysis of thenomination forms of instruments of crime related in Autos de Querela, documents that record criminalcomplaints which ocurred in Ceará in the eighteenth and nineteenth centuries. Key words: lexicon, culture, social reality.1. Considerações iniciais A língua é uma das formas mais genuínas de revelar a identidade de uma pessoaou de um grupo social. Quando falamos, de imediato, estamos afirmando quem somos,qual o nosso grau de cultura, qual a nossa origem regional, que conhecimentos temos domundo e da própria língua. Este trabalho visa refletir sobre o léxico e a cultura, ou seja, como as formas denomear as coisas revelam dados das vivências culturais de uma comunidade vivendo em1 Expedito Eloísio Ximenes, professor adjunto I do Curso de Letras da UECE/FECLESC.eloisio22@hotmail.com
  2. 2. um espaço geográfico e em determinada época histórica, uma vez que “o léxico é umdos pontos em que mais claramente se percebe a intimidade das relações entre línguae cultura” (FARACO, 1991, p.25) De imediato surgem algumas perguntas: o que é léxico e o que é cultura? Qual arelação da cultura com a língua? Como a língua expressa dados da cultura de umacomunidade de falantes? Como o léxico reflete as vivências de um grupo social situadono tempo e no espaço? Não temos pretensão de dar respostas completas para estesquestionamentos, mas apenas apresentarmos os devidos conceitos dos termos com quelidamos e fazermos algumas digressões sobre os dados concretos de realizaçõeslinguísticas que representam a manifestação do universo real e cultural de um povo,expresso por meio da sua língua, especificamente, por meio do seu léxico ou daspalavras. No item seguinte apresentamos uma definição para léxico e cultura e comoocorrem as relações do meio e as denominações das coisas.2. Discutindo o léxico e a cultura O léxico pode ser definido como o conjunto de vocábulos ou palavras de quedispõe uma língua para realizar suas necessidades de comunicação diária. Para Dubois(1973, p. 364) “a palavra léxico designa o conjunto das unidades que formam a línguade uma comunidade, de uma atividade humana, de um locutor, etc.” Dessa forma,podemos falar do léxico da língua comum que compreende todo o repertório linguísticode que os falantes necessitam no seu cotidiano, esse conjunto faz parte do estudo daLexicologia. Já o léxico de cada área do conhecimento especializado, denominamos determo e é objeto de estudo da Terminologia. Acrescentamos também as frases feitas,expressões consagradas pelo uso, provérbios, formas fixas de uso em documentosoficiais que podem ser agrupadas no campo de estudo da Fraseologia que, por sua vez,pertence à lexicologia. Todas estas realizações linguísticas constituem as formas denomear e de dizer as coisas pelos usuários de uma língua. Quanto mais complexo é o grau de conhecimento de uma comunidade linguística,mais ela dispõe de vocábulos que enriquecem o seu acervo lexical. Desta feita, associedades modernas, dado o alto grau de complexidade, de invenções e relações
  3. 3. sociais, políticas, culturais e cientificas dispõem de uma abundância de termos e defraseologias para nomear todas as atividades, as instituições, as técnicas, as invenções emuitas outras atividades do universo científico e também do popular. O léxico de uma língua está em constante processo de transformação, váriosfatores contribuem para isso, podemos relacionar os empréstimos de outras línguas ouestrangeirismos. Uma vez que vivemos no mundo moderno e globalizado, é inevitável ocontato entre as línguas e o câmbio linguístico. Para citar alguns exemplos, vejamos asformas de comunicação desenvolvidas por membros de comunidades da rede mundialde computadores, a internet. Palavras como chart, messenger, orkut, facebook, blog emais recentemente o twitter, todas da língua inglesa, passaram a fazer parte da vida doscidadãos brasileiros. Os vocábulos de forma muito célere adaptaram-se tão bem à línguaportuguesa que já formam outras palavras derivadas como os adjetivos orkuteiro,tuiteiro, blogueiro e o verbo tuitar. Embora ainda não sejam registradas nos dicionáriosvernaculares da língua portuguesa, estas palavras circulam livremente no meio socialbrasileiro, principalmente dos grupos de pessoas mais jovens e afeitas às novas práticastecnológicas e aos recursos da internet, os chamados internautas. Outro processo de renovação de uma língua é a criação lexical ou neologia queocorre por meio do desenvolvimento de palavras novas, os neologismos. Conforme osurgimento de novos objetos e invenções humanas que necessitam de denominação,cria-se uma forma de nomear que vai muito ao encontro da cultura do falante. Osrecursos da criação neológica são processos internos à própria língua como os prefixos esufixos que se agregam às palavras já existentes gerando outro léxico; ou os processosde composição por justaposição e aglutinação. Podemos enumerar algumas ocorrênciasde palavras geradas a partir desses processos que circulam diariamente nos grandesjornais do nosso país. Vejamos as palavras pré-carnaval, pós-eleição, mega-show, sem--teto, sem-terra, sem-salário, sub-20, bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-renda, salário-educação, cara-pintada que foram criadas a partir dos recursos acima mencionadosquando surgiu a necessidade de dar nomes a um evento ou a uma realidade social. O desaparecimento de vocábulos que caem em desuso, os chamados arcaísmos, éoutra maneira de a língua renovar-se. Assim como uma palavra é criada, a já existente érejeitada por não mais satisfazer as necessidades aos usuários ou por não existir mais acoisa a que nomeava. Por esse processo um vocábulo entra no lugar do outro, ou a
  4. 4. palavra antiga permanece ganhando roupagem nova, ou seja, muda o sentido,continuando a mesma forma. Na diacronia da língua portuguesa, podemos relacionar apalavra revolução que significava o movimento regular e sistemático dos corposcelestes, com o tempo, houve uma renovação semântica, ampliando o seu sentido,passando a designar movimento de caráter social que conduz a mudança de uma ordemestabelecida ou de um sistema político por meio de movimento da sociedade,transforma um velho sistema e se estabelece um mundo novo, afirma Faraco (1991). Elencamos também as palavras hospício e presídio ambas usadas fartamente nosdocumentos da administração pública do Brasil colonial. Hospício nos dicionáriosatuais significa “casa ou estabelecimento de caridade onde são tratadas pessoas doentese pobres...”(AULETE, 1986, p. 1008). No início da colonização do Brasil, pertencia aocampo semântico religioso e designava uma casa que hospedava qualquer pessoa, ouseja, recebia hóspedes, geralmente viajantes, aventureiros ou pessoas do reino. RegistraDe Plácido e Silva (2006) que hospício antigamente “era o nome dado à parte dosmosteiros, ou conventos destinada a receber os hóspedes, ou para nele se recolheremos religiosos que por aí passam em missão de seus votos ou de outros negócios”. Um caso muito notável foi quando o ouvidor o Ceará Pedro Cardoso de NovaisPereira foi nomeado para o cargo e seu antecessor não lho quis entregar, aquelepermaneceu por mais de um ano no hospício dos jesuítas até assumir a função, quandoeste lha resolveu entregar. A palavra presídio na acepção moderna nomeia o local de recolhimento ou “prisãoonde se recolhe os criminosos numa praça de guerra ou lugar fortificado” (AULETE,1986, p.1552). Alhures referia-se ao que conhecemos hoje por quartel, local onde serecolhe e se alojam os militares ou guarnição. Estas palavras não desapareceram, aocontrário, permaneceram com a mesma forma, mas houve alteração semântica. Emoutros casos a forma poderá desaparecer como ogano que significava outro ano, saiudefinitivamente da língua portuguesa. Bem afirma Lapa (1998) que o termo velho nãodesaparece aos poucos até que seja substituído por outro e aquele se resguarde nosdicionários. “Efetivamente, as palavras não morrem de um golpe. Vão sendo pouco apouco abandonadas, em benefício de termos novos, até que perecem e ficam sepultadasno seu cemitério próprio, que são os dicionários” (LAPA, 1998, p.47).
  5. 5. Os motivos da arcaização do léxico são vários, um deles é o desaparecimento dasinstituições e das coisas que leva ao desaparecimento das formas linguísticas, asinonímia, o neologismo, a homonímia são outros motivos relacionados por Coutinho(1976). Vejamos as palavras alcaide, juiz de vintena, juiz de fora, juiz ordinário,alferes, curador, cabido, freguesia e muitas outras que eram termos correntescirculando na língua portuguesa no Brasil colonial porque fazia parte das vivências enomeavam autoridades públicas e religiosas daquele período. Atualmente só sabemos aquem se referem quando consultamos um dicionário da época, porque tais palavras nãopertencem mais ao repertório dos falantes brasileiros. Podemos concluir que tudodepende do contorno sócio-cultural e da visão de mundo de um povo. O conjunto dos signos, símbolos e emblemas, bem como as figuras e figurações de linguagem, que se encontram mais ou menos codificados e aceitos, tudo isso tende a adquirir os contornos de uma acepção da realidade, de um modo de perceber ou imaginar a sociedade (JANNI, 1999, p.38). Em outras palavras, a cultura de um povo e de uma época se expressa em todas asformas linguísticas. E o que podemos entender como cultura? Melo (1974) discute otema em seu livro Origem, Formação e Aspecto da Cultura Brasileira, apresentandodiversos conceitos de cultura, considerando vários aspectos. Tomemos aqui a cultura nosentido sociológico, definido pelo autor da seguinte maneira: Sendo a pessoa, por natureza, comunicativa e receptiva, cada um vai difundindo o que descobre e o que elabora na ordem da inteligência, dos misteres e das artes, e vai, ao mesmo passo, apreendendo e aprendendo o que os outros descobrem e elaboram. Por isso, em toda comunidade existe permanente uma circulação dos bens da cultura, da qual todos se beneficiam e que, em termos de média resultante, se traduz num estado da comunidade. É um patrimônio de ideias, de ideais, de conceitos científicos ou de conhecimentos empíricos, de costumes, de criações artísticas. Esse patrimônio social transmite-se, de uma geração para outra, ao longo do tempo, com perdas e conquistas novas, com empobrecimento e com enriquecimento. Aí está o sentido sociológico de cultura, que traz como conotação necessária a tradição, o tempo, a história. Cultura, assim entendida, é, pois, um produto histórico-social. (MELO,1974, p.19). Neste sentido de cultura sociológica como patrimônio histórico-socialentendemos as formas de nomear as coisas, condicionadas pelo contexto. Vejamos, porexemplo, os antropônimos. Em cada época predominam nomes que fazem parte dorepertório cultural do momento. Se fizermos um levantamento dos registros de batismosnos acervos das paróquias ou nos cartórios de registro civil, veremos que em cadadécada há predominância de nomes que revelam o patrimônio cultural daquele período.Quando a religião era um fator de forte influência na vida das pessoas, os pais
  6. 6. batizavam os filhos com os nomes dos santos, principalmente os mais populares:Francisco, José, Raimundo, Antonio, Maria em suas infinitas formas (Maria José, doCarmo, do Rosário, do Socorro, da Conceição, da Natividade, das Dores, doLivramento, das Trevas etc.). Com a mudança social, principalmente com o advento datelevisão e à medida que os meios de comunicação se fortaleceram no seio da sociedadee da família, os nomes das crianças começaram a se diversificar. A hagiografia perderaa importância, passou a ser substituída pelos nomes de artistas, cantores, jogadores defutebol, personagens de novelas, não muito raro encontrarmos Fábio Junior, RobertoCarlos, Romário, Rivelino. Atualmente os nomes hebraicos trazidos através da Bíblia,voltaram ao convívio social por que caiu no gosto dos artistas e das personagens denovelas. Nomes como Mateus, Filipe, Gabriel, Tiago, Samuel, João, Rafael ampliam oelenco dos mais populares. Tudo isso demonstra as influências de culturas diferentestransmitidas por ondas do rádio, da televisão e de outros meios. Nomes de artistas de TV e/ou cinema, de personagem de radionovela, de telenovela, dos esportes, também, com sacrífício da eufonia e longe do sistema fonológico vigente mostram um universo estreito, de emoções fáceis. Como exemplo clássico, podemos lembrar do grande número de Isabel Cristina, por ocasião da novela radiofônica O direito de nascer, que marcou uma época. Mais recentemente, tivemos Pamelas (de Dallas) e, ainda mais recentes, Iasmins (como apelo da tragédia que vitimou a atriz) e Lady Dianas (com as mais variadas grafias, também reforçado pela tragédia). (MEXIAS-SIMON, 2004, p. 57). Em relação à toponímia, não é muito diferente. Ao observarmos as denominaçõesdas primeiras vilas brasileiras, não poderia deixar de ser diferente, eram nomes dostopônimos portugueses ou que estivessem relacionados ao sagrado e à administraçãoportuguesa. No Ceará, por exemplo, os topônimos Soure, São João do Príncipe, MonteMor o Velho, Monte Mor o Novo da América, Campo Maior, Arronches referem-se aosprimeiros povoamentos, que mais tarde mudaram para os nomes da cultura indígenacomo conhecemos hoje, Caucaia, Tauá, Pacajus, Baturité, Quixeramobim, Parangabarespectivamente. Permaneceram, porém Sobral, Granja, Aquiraz, Icó ,Aracati, Crato,Fortaleza. A Vila Viçosa Real passou a se chamar Viçosa do Ceará. Atualmente háinúmeros topônimos de base indígena, basta examinarmos a raiz ita, pedra que é base demuitas localidades cearenses como Itapiúna, Itapajé, Itapipoca, Itaitinga, etc. No século XVIII os nomes indígenas chegaram a ser proibidos por meio dedocumentos emitidos pelas autoridades, conforme o bando transcrito abaixo que proíbea denominação da vila de índios de Jucás fazendo mudar para Arneiroz.
  7. 7. Bando que se lansou arespeito dos Indios Jucas OTenente Coronel do Regimento deInfantaria paga da Goarni= saõ daPrassa doRecife dePernambuco acujo cargo seacha ogoverno desta Capitania doceará grande por ElRey Vosso Senhor Porquanto SuaMagestade pelo Alvará de8 deMayo de1758 foy servido mandar que neste estado seobsseruase = inviolauel mente aley deSeis deJunho de1755 que determinou acreçaõ das Vilas elugares deIndios das capitanias do Gram Parã Maranham Ficando commua aeste Estado sem restrição interpretaçaõ ou modificaçaõ alguã: Enadita Ley manda que nas fundaçons das Villas elugares sepratique emquanto for posi- vel apolitica que ordenou para afundaçaõ daVila nova deS. Joze do Rio negro: ecomo areferida política outro sim ditrimina1 que nas Vilas elugares que denovo Seeregirem nas Aldeas dos Indios sedenominem com os nomes dos lugares eVilas doReyno que bem parecer aoGovenador sem atenção aos nomes Barbaros que actual mente tem// Ordeno emobseruancia dasmensionadas Leis eordens que esta Aldea que athe agora sechamaua doJucá daqui emdiante sedomine Lugar deArneyrõz epor tal seja tido eavido eReconhecido em todas os Actos Judici aes eextrajudiciaes enem já mais sepossa emtempo algu2 chamar deoutra forma epara que chegue anoticia atodos esenaõ possa alegar ignorancia sepublicarâ este asom decayxa nomesmo lugar que denouo erigi por vertude daSobre dita Ley decuja execução meincaregou oIllustrissimo eExcelentissimo Senhor Conde nosso general emcarta de 20 deMarço deste anno esefixarâ este nolugar custumado despois deregistado naSecretaria deste governo camara daVila doIcô emais partes que tocar Dado nesta Freguesia deNossa senhora doMonte doCarmo dos Inhamuns aos 28 dias domes de7bro de1767// estaua oSello// Antonio Joze vitoriano. Borges daFonceca OSecretario Feliz ManueldeMatos (APEC, 1762, Livro 86, fl. 21r) Relacionamos mais um exemplo das experiências da população interferindo nocomportamento linguístico. Ao pensarmos no nome estrada do algodão empregado paradenominar a CE 060 que corta vários municípios do sertão central do Ceará, podemosnos perguntar o que justifica este nome na atualidade. Para entendermos o porquê destetopônimo precisamos voltar ao passado, ao contexto histórico da produção de algodãono Ceará, principalmente no sertão por onde corre a estrada. Por ela se escoava o ourobranco do sertão, às suas margens prosperaram as cidades e ainda permanecem váriosgalpões onde funcionavam as fábricas de beneficiamento do algodão. Eis aí o porquê dasua denominação.1 Ditrimina por determina2 algu por algum
  8. 8. Recentemente quando surgiu a necessidade de medir a quantidade de álcoolingerida por um motorista, criou-se um objeto no qual o condutor do veículo devesoprar possibilitando, assim, medir-lhe o teor alcoólico contido no seu sangue e suacapacidade de dirigir ou não. O objeto poderia se chamar soprador ou soprômetro, masa denominação passou a ser bafômetro, porque está envolvido aí o bafo objeto deanálise do instrumento e metro, ou seja, a medição. De qualquer forma é o fator culturale concreto da mundividência que determina como denominar os objetos e as práticas doser humano.3. Análise do léxico do crime nos Autos de Querela Analisando o léxico específico dos instrumentos dos crimes ocorridos no Cearános séculos XVIII e XIX, observamos quanta diferença há em relação ao presente.Tratamos aqui, dos 133 Autos de Querela que foram editados e analisados por Ximenes(2009). Os textos tratam de denúncias de crimes, logo se sobressai alto teor de violênciaexpressa pelo léxico que reflete as práticas delituosas da população nas vilas e povoadoscearenses. Fizemos o levantamento de todos os instrumentos ou objetos empregados nos 133autos de querela. Podemos demonstrar os tipos de armas mais usados que havia naépoca e as suas várias denominações. Agrupamos da seguinte maneira:1. Armas de fogo: Dentre elas são citados os seguintes instrumentos: espingardas,bacamartes, pistolas, clavina ou carabina.2. Armas brancas: faca catana, faca Parnaíba, faca flamenga, faca de rasto, terçado,canivete, navalha, canivete de estalo.3. Objetos da faina cotidiana: garrafa de vidro, peia de cavalo, chicote, relho, bordão,pedra, chinelo, tição de fogo, pau. Ainda podemos acrescentar um quarto tipo que são aspartes do corpo: os pés e as mãos e palavras petulantes e injuriosas. Estes instrumentos chamam a atenção porque revelam manifestações da vidaprática da população. As armas faziam parte do cotidiano sertanejo, eram utilizadascomo instrumentos de trabalho e a qualquer momento exerciam outra função muitoespecífica: ferir ou matar alguém. O homem do campo vivia constantemente
  9. 9. conduzindo suas armas como parte integrante de seus utensílios, conforme Vieira Jr.(2004, p.172). “Nas vestes dos sertanejos, além dos obrigatórios acessórios de couro, asarmas integravam o traje do dia-a-dia. Facas – como “parnaíbas” e “catanas”, ou armasde pólvora – como bacamartes e pistolas eram signos da sua belicosidade”. Do arsenal bélico utilizado nas contendas da população cearense, destacavam-seas armas brancas e de fogo. Em casos de furtos e estupros não há instrumento oumaterial usado que possamos contabilizar. Nos casos de agressão moral podemosconsiderar como instrumento as palavras insidiosas e difamadoras, que muitas vezesprejudicavam e maculavam a honra mais que os próprios objetos cortantes oucontundentes. Nas agressões físicas são utilizadas não somente vários tipos de armas brancas,tais como facas ou facões denominados parnaíbas, catanas, terçados, faca de rasto e facaflamenga, mas também armas de fogo como bacamartes, espingardas, pistolas,carabinas ou outros instrumentos diversos, como paus, cacetes, chuços, bordões, tiçõesde fogo, peias de cavalo, chicotes, relhos, pedras, garrafas de vidro, vara de ferrão queviravam armas perigosas nos conflitos. Quando não havia nenhum objeto ao alcance damão dos envolvidos, esses se utilizam dos próprios membros do corpo, como os pés e asmãos em forma de coices e punhadas que, usados com violência, poderiam causargrandes danos às pessoas agredidas. Muitos desses instrumentos são desconhecidos dasgerações modernas, no entanto, eles pertencem ao patrimônio cultural da sociedadecearense daquele período longínquo dos dias atuais. A faca denominada de parnaíba é um tipo de faca longa e estreita. A faca catana éuma espécie de espada pequena reta ou curva. O terçado caracteriza-se como umaespada curta e larga. A faca de rasto conforme Caldas Aulete (1986), no Rio Grande doSul é uma faca grande que serve para abrir caminho no mato, no Nordeste adenominação é faca de arrasto. A faca flamenga é um tipo de facão de ponta. Os usos detodos esses instrumentos eram proibidos por lei. “O uso de facas de ponta he punidocom penas pecuniárias, e de degredo. Lei de 20 de Janeiro de 1634 [...]” (SOUZA,1825). Das armas de fogo citam-se a pistola, arma curta que se dispara com uma só dasmãos. A espingarda é uma arma de cano comprido de 1 metro a 1,50m e de uso portátil.
  10. 10. A clavina ou carabina, espingarda curta usada por caçadores. O bacamarte é uma armade cano curto e largo, reparado em coronha. “[...] os bacamartes eram proibidos.Decreto de 29 de Maio de 1659. Contra o uso delles se promulgou o Alvará de 10 deAbril de 1660, lavrado em virtude do Decreto de 29 de Maio de 1659[...]”. (SOUZA,1825). O chuço é um instrumento de madeira ou haste de pau armada com um aguilhãoou ponta comprida de ferro. A vara de ferrão é um bastão também com um aguilhão naponta usada para tanger os animais. O bordão é um tipo de pau grosso ou bastão. Outras peças eram utilizadas na lida com os animais, como peias, espécie dealgemas de couro de boi usadas para prender os equinos e outros, amarrando-se em suaspatas quando estão a pastar. O chicote é uma correia comprida de couro entrelaçado,preso à extremidade de um pequeno pau. O relho é uma correia de couro cru, torcida outrançada, usada para amarrar ou açoitar os animais, sobretudo, os de carga. Todos estes objetos constituem instrumentos utilizados nos conflitos que revelamdados da realidade sócio-histórico-cultural da então capitania do Ceará e do Brasilcolonial, cujas práticas estão muito centradas na vida rural e no contexto econômico dacriação de gado. Dessa forma compreendemos que a língua é uma manifestação dacultura de um povo e de uma época.4. Considerações finais Pelo exposto no texto esperamos ter respondido as perguntas anteriormentelevantadas. A língua é de fato um instrumento de manifestação cultural que representaas vivências dos seus falantes e do seu meio social não importa o tempo histórico. Os objetos que inventamos no tempo atual carregam consigo as marcas da culturae das práticas atuais. As instituições, os cargos, as técnicas expressam estes reflexos dasvivências do homem no seu tempo. Quando pensamos na palavra alcova largamenteusada no interior cearense pelos mais velhos, já é inteiramente desconhecida dasgerações jovens. Foi substituída por dormitório ou quarto de dormir que aos pouco
  11. 11. perdem também o prestígio porque o termo do momento é suíte que representa aindividualidade e o conforto do homem moderno. Certamente esse vocábulo cairá emdesuso com o passar do tempo, basta que seja criado outro espaço mais sofisticado parase dormir, para que seja estabelecida outra denominação. Desta forma o processo detransformação das línguas está em conformidade com o desenvolvimento cultural do serhumano. Estudar a linguagem humana é descobrir um universo de possibilidades,de pensamento e de realizações do maravilhoso poder que só o homem tem de seexpressar e, com justiça, denominar-se homo loquens.
  12. 12. 5. Referências bibliográficasARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ (APEC). Livro de registros deprovisões, alvará etc, caixa, 27, Livro 16 antigo – atual 86, 1762-1780.AULETE, F. J. C. 1986. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. 5. ed. Rio deJaneiro: Delta, 3v e 4v.COUTINHO, I. L. de 1976. Pontos de gramática histórica. Rio de Janeiro: Ao livrotécnico.DE PLÁCIDO E SILVA, O. J. 2006. Vocabulário jurídico. 27. ed. Rio de Janeiro:Editora Forense.FARACO, C. A. 1991. Linguística histórica. São Paulo: Ática.JANNI, O. 1999. Língua e sociedade. In: VALENTE, André (org.) Aulas de português:perspectivas inovadoras. 2 ed. Petrópolis: vozes.MELO, G. C. de. 1974. Origem, formação e aspecto da cultura brasileira. Lisboa:centro do livro brasileiro.MEXIAS-SIMON, M. L. e OLIVEIRA, A. de M. 2004. O nome do Homem: reflexõesem torno dos nomes próprios. Rio de Janeiro: H.P. Comunicações editora.SOUSA, Joaquim J. C. P. 1825. Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, epractico, remissivo às leis compiladas, e extravagantes. Lisboa: Nova Impressão Régia.3 tomos.VIEIRA JR., A. O. 2004. Entre paredes e bacamartes: história de família no sertão(1780-1850). Fortaleza: Edições Demócrito Rocha.XIMENES, E. E. 2009. Estudo filológico e linguístico das unidades fraseológicas dalinguagem jurídico-criminal da Capitania do Ceará nos séculos XVIII e XIX. Fortaleza:UFC, 2009, 413 f. Tese (Doutorado em Linguística). – Departamento de LetrasVernáculas, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.

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