Filologia e edição de texto

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Filologia e edição de texto

  1. 1. 'viria/ t' . Ê'/ _., K)¡. ;¡Í¡(v ; Mk s. _"". Lv¡§, ..›4 «ÍX-Ikq, ífzph LFÁXLLALKÃÍQ euíw _ÁLA/ «y T4 CWol/ Qff( “A NLA 1 I l 1 1 1 1 1 r ROSA BORGES ARIVALDO SACRAMENTO DE SOUZA EDUARDO SILVA DANTAS DE MATOS ISABELA SANTOS DE ALMEIDA EDIÇÃO DE TEXTO E CRÍTICA FILOLÓGICA
  2. 2. Cpynght by 2012 Quarteto Editora Projeto Gráfico e Capa: Ateliê Casa de Criação Finalização: Quarteto Editora E 401.41 Borges, Rosa - Souza, Arivaldo Sacramento de ~ Matos, Eduardo Silva Dantas de A Almeida, Isabela Santos de, Edição de Texto e Crítica Filológica / Rosa Borges, Arivaldo Sacramento de Souza, Eduardo Silva Dantas de Matos, isabela Santos de Almeida. r Salvador: Quarteto, 20 l 2. 230 p. : Inclui referências ISBN: 978-85-8005-044-8 1. Filologia. 2. Critica Textual. 1, Titulo. Quarteto Editora Av, Antonio Carlos Magalhães, 3213 , sala 702 e 1009 - Iguatemi 41275 - Salvador Bahia Telefax: 71-3452-0210 Email: quarteto. livros@compos. com. br Quebrar o brinquedo é mais divertido. As peças são outros jogos: construiremos outro segredo. Os cacos são outros reais antes ocultos pela forma e o jogo estraçalhado se multiplica ao infinito e é mais real que a integridade: mais lúcida. Mundos frágeis adquiridos no despedaçamento de um so'. E o saber do real múltiplo e o sabor dos reais possiveis e o livre jogo instituído contra a limitação das coisas contra a forma anterior do espelho E a vertigem das novas formas multiplicando a consciência e a consciência que se cria em jogos múltiplos e Iúcidos até gerar-se totalmente: no exercicio do jogo esgotando os níveis do ser. Quebrar o brinquedo ainda e' mais brincar. FONTELA, Orides. Ludismo. In: . Trevo. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.19-Z0.
  3. 3. FILOLOGIA E EDIÇÃO DE TEXTO Rosa Borges e Arivaldo Sacramento de Souza FILOLOGIA E FILOLOGIA COMO CRITICA TEXTUAL (In)felizmente, quando se trata de discutir o que é Filologia e definida em termos precisos, depara-se com dificuldades enormes. Algumas possiveis razões para isso são: (i) a senilidade da Filologia; (ii) a pluralidade de atividades alcunhadas de “ñlológicas" ao longo da tradição ocidental; (iii) a emergência de um paradigma cientifico dominante no século XIX; e (iv) o impacto imanentista da Linguistica Moderna e dos Estudos Literários (SOUZA, 2008). No que diz respeito à “origem” e à “idade”, não é com sur- presa que se diz que a Filologia surgiu entre OS gregos. Entretanto, é necessário discutir tal exclusividade para desconfiar que só se pensa dessa maneira no Ocidente por causa da preponderância dos legados e influências do paradigma cultural grego e grecO-latino, principal- mente, dentro do universo da “latinidade" (GAUGER, 1989). Assim, para Cano Aguilar (2000, p. 14, tradução nossa), [a]s origens da Filologia estão vinculadas à coitsideraçño de “sagrados” alcançada por determinados textos em várias sociedades antigas. A crença em um texto manifestador de verdade imutável e de sabedoria sempre atuante (texto, pois. que será sempre "mestt-e") provocou a intenção de salvaguar- dar a lingua na qual estavam escritos [. ..]. ' l Los Orígenes de la Filologia están vinculados a la consideración de “sagrados” alcanzada por (leterminados textos en varias sociedades antiguas. La creencia en un texto manifestador de verdad inmutable y de sabiduria siempre actuante (texto. pues, que será siempre “maestro") provoco el intento de salvaguardar la lengua en que estaban escritos [. ..]. (CANO AGUILAR, 2000, p. 14). ? Y/tçãu t/ z» [err/ a e @(62411 ¡Ê/ oÁíy/ t-a /5
  4. 4. "Note-se que não e' exclusivamente dos gregos a preocupação com o sentido dos textos e das linguas nas quais foram escritos. Em outras tradições culturais já havia, como añrma Cano Aguilar (2000), diversos intentos de preservação de textos sagrados, como é o caso dos árabes, hebreus e hindus. Essa é uma questão que parece atravessar muitas civilizações que, quando perceberam a progressiva transformação dos textos e dos gestos de leitura deles, construíram esforços para corrigir e higienizar as “inovações” acrescidas durante o processo de transmissão textual. Para isso, elaboraram diversas estra- tégias exegéticas que resultaram em anotações, glosas a passagens do texto e comentário das obras dos mais diversos enfoques (linguístico, _mora1, ético, retórico. ..) É” r' De todas as tradições culturais que desenvolveram "práticas ñlológicas", a que se destacou e se tomou parâmetro para os intelec- tuais do Humanismo Renascentista e, mais tarde, para os postulados oitocentistas foi a ñlologia alexandrina, cujos principais mestres estiveram preocupados com a crítica dos textos homéxicos. Por isso, não ha como negar que o princípio da correção (diorthosis) para o resgate da origem e da verdade de textos corrompidos, ainda que por métodos e teorias diferentes, seja uma constante na tradição filológica ocidental, isto é, embora por caminhos diferentes, a práxis filológica no Ocidente quase sempre decorre de uma busca do sentido inaugural, no qual estaria a verdade inconuptível. Dito isso, precisa-se tomar evidente a seguinte constante: essa consciência de que o texto mudava, ou melhor, deturpava-se ao longo do tempo, caminhava par¡ passu com a angústia de que o sentido primitivo estava sendo corrompido e, portanto, caberia ao ñlólogo resgatar o sentido verdadeiro. Um dos exemplos mais marcantes de tal tarefa na tradição ocidental aconteceu no séc. XVI quando intelectuais huinanistas, no intento de resgatar e compreender a cultura e os textos clássicos, propuseram leituras, interpretações exegéticas e colocaram à prova a autenticidade dos textos transmitidos pelo medievo. 75» . Wma ÍQBWM l @Éahiaáú &Ima/ menú; a4» @xuxa "i/ Vale ressaltar que a pratica ñlológica humanistica, embora guarde bastantes semelhanças com a prática alexandrina, não é a mesma, e sim uma ressigniñcação dela, do intuito de restituir sentidos que foram alterados pelo tempo. De maneira mais ampla, todas as perspectivas filológicas posteriores, ainda que perfiladas pelo já refe- rido traço comum consagrado desde a antiguidade, são reelaborações históricas que, de uma maneira direta ou indireta, estão relacionadas ao paradigma de saber que configura uma dada época/ z Tal observação pode ser ratificada pela concepção de Silvio Elia (1993), ao discorrer sobre A Critica textual em seu contexto sócio-histórico. Para ele, os diversos paradigmas epistemológicos inñuenciam na perspectiva de Crítica Textual. Desse modo, quando a Crítica Textual adomou-se das concepções de ciência durante o século XIX, puderam-se acompanhar vários desenvolvimentos que explicam as diferentes concepções. A mais famosa das perspectivas ficou conhecida através do nome de Karl Lachmann(1793-1851), que sistematiza o debate sobre a edição critica dos textos biblicos e propõe um método inspirado em um modelo historicista e positivista, cujo objetivo consistia em, a partir do estudo da tradição, formular um arquétipo, texto mais pró- ximo , de um original perdido. A grande crítica chegaria, mais tarde, do famoso discípulo de G. Paris, Joseph Bédier (1864-1938), para quem o texto, estabelecido criticamente pelo método lachmarmiano, de natureza compósita, resultaria num texto contaminado e longe do ideal de resgate do original perdido. Contra isso, Bédier propõe um modelo pautado em um principio humanista, que busca entender a fenomenologia do texto. Assim, diante de um conjunto de testemunhos de um dado texto, se deve estudar a tradição e escolher o manuscrito que melhor a representa, o bom manuscrito. Outro exemplo dado por Elia é o de D. Henri Quentin (1872-1935), cujo trabalho foi o de construir um método que levasse em consideração a distribuição das variantes observadas pela comparação dos-testemunhos. Dai', o /7 . _g-: çÉkvbÉ-lrawfdíàà
  5. 5. resultado obtido deveria ser tratado a partir do rigor de cálculos esta- tísticos. Somente assim e que~se podiam selecionar as variantes que entrariam na construção do texto editado. Portanto, fica evidente que as reinterpretações histórico-epis- temológicas da Filologia estão diretamente relacionadas à dificuldade de apresentar uma definição pronta e acabada do que ela é, de fato. A situação parece não melhorar muito se se consultar a definição de Filologia proposta por um dos grandes ñlólogos do séc. XX, Erich Auerbach, cuja concepção de Filologia não se restringe à edição de texto, a saber: [. ..] conjunto das atividades que se ocupam metodicamente da linguagem do Homem e das obras de arte escritas nessa linguagem. Como se trata de uma ciência muito antiga, e como é possivel ocupar-se da linguagem de muitas e dife- rentes maneiras, o termo ñlologia tem um significado muito amplo c abrange atividades assaz diversas. [. ..] (AUERBACH, 1972, p. 1 l). Dentre essas atividades “assaz diversas”, há os seguintes ramos: (i) a Edição Crítica dos Textos, preocupada com a preser- vação do patrimônio cultural escrito de uma dada civilização; (ii) a Linguística, para Auerbach, tão antiga quanto a Edição de Texto, mas que, nos tempos modemos, mudou totalmente de objeto e de métodos; (iii) as Pesquisas Literárias: (a) a bibliografia e a biografia, (b) crítica estética e (c) História da Literatura; (iv) a Explicação dos textos, comprometida com a iluminação de textos que são difíceis de serem compreendidos ou assim se tornaram, por conta dos processos de mudança linguistica. A *Auerbach, então, para além da atividade de edição de texto, considera que todas as atividades, que articulam língua, texto e cultura, podem ser entendidas como práticas tilológicas. Tal concepção docu- menta uma concepção ampla de Filologia que está necessariamente M . a/? am . l%aryes j @Qi/ Mua/ t/a Cywmmm/ o r/ e @aaa ligada às diversas práticas relativas, ao longo da história do Ocidente, às letras, ao “amor às letras", sentido etimológico da palavra; mas também aos intelectuais eruditos, filólogos, que eram [. ..] lingüistas [. ..], etnógrafos. historiadores, folclorislas. arqueólogos e não tinham problema de identidade disciplinar. pois se sabiam participantes de uma vasta empresa de aquisição de conhecimentos diversificados, mas harmcnizáveis em tomo de um interesse comum pela palavra documental ou artistica e pelo seu comportamento na história. Conhecerem-se todos eles por filólogos era tradicional e apropriado (CASTRO. 1995, p. 512). Entretanto, essa situação começa a mudar quando, ainda sob influência das recomendações positivistas, o interesse pela perspectiva histórica e cultural, com a qual a Filologia sempre esteve comprome- tida, decresce, e as vertentes dos estudos linguisticos e dos estudos literários especializam-se em disciplinas estanques. Em relação aos estudos linguísticos, Rita Marquilhas afirma que, enquanto se acreditava que as linguas expressavam o “espirito dos povos" (volksgeíst) e que evoluiam, era imprescindível a incursão histórica e cultural (filológica). Porém, quando os neogramáticos, em seu famoso manifesto, declaram, através da Hipótese da Uniformi- dade, que À [. ..] as gramaticas das línguas de todas as épocas e de todos os lugares têm natureza semelhante e não se degradam com o tempo. São qualitativamente iguais em todos os contextos espaciais e temporais. A partir do momento em que esta ideia tomou fonna, os estudos linguisticos e os literários seguiram rumos forçosamente diversos, uma vez que deixou de fazer sentido para os linguistas que o seu objecto de estudo estrito (a gramática das línguas) tivesse uma dimensão cultural e, portanto também, histórica (MARQUILHAS, 2008, sem paginação). git/ fção r/ e far/ o e kgw/ /Zca/ rÀ/ a/Áyírz¡ / _9
  6. 6. No campo dos estudos literários, o questionamento do deter- minismo e do essencialismo que envolviam as atividades de biografia (a interpretação da obra estaria condicionada à biografia do autor) e de história da literatura (o contexto determinaria o texto) levou ao extremo oposto: a critica das estnituras textuais. É o que pode ser visto em duas correntes da primeira metade do século XX: o Formalismo Russo e o New Criticism. Com o impacto imanentista das abordagens da Linguistica e dos Estudos Literários, a Filologia circunscreve seu campo de atuação à Crítica Textual. Ainda com Marquilhas, pode-se observar o processo de restrição da Filologia que consiste [no e]studo do texto escrito na perspectiva de sua produção material, da sua transmissão através do tempo e da sua edição. O que e' essencial no texto que constitui o objecto da ñlologia é o seu registro em suporte material, ficando os textos orais excluídos das preocupações desta disciplina. O termo evoluiu de uma acepção muito lata, romântica, sobretudo, que englo- bava estudos literários e linguísticos, para o conceito estrito de disciplina concentrada na recriação das coordenadas materiais e culturais que presidiram à fabricação e sobrevivência de um texto escrito. A orientação ultima é a de preparar a edição do texto, dai que a ñlologia culmine na critica textual. [, ,.] (MARQUILHAS, 2010, verbete Filologia, grifo nosso). Assim, seguindo essa perspectiva, toma-se Filologia (strictu . vensu) por Crítica Textual, compreendendo a especiñcação do sentido daquela, mas sem que, com isso, se deixem de observar as novas di- nâmicas e problemáticas que recaem agora sobre esta. Añnal, Crítica Textual não pode servista como uma disciplina auxiliar da Linguistica Histórica, nem como prática intelectual sem qualquer relação com outras ciências. A Critica Textual tem muito zelo por relações inter- disciplinares, desde que se dê por via de uma "disciplinaridade inte- ractiva, traduzida em efectiva permuta da informação e consequente desenvolvimento de conhecimento” (OLIVEIRA, 2007, p. 382). 20 %Myw I @$«)uaM› amora/ hindu# @uma A partir das diversas relações estabelecidas entre Crítica Tex- tual e as novas abordagens de Crítica Literária, Sociologia da Arte e da Cultura, Psicanálise e História Cultural, contempla-se a renovação dos hábitos da "velha” Filologia. Assim, pode-se entender a Crítica Textual (Filologia stricto sensu) como um feixe de práticas de leitura, interpretação e edição que, a um só tempo, consideram como objeto, de modo indissociável, língua, texto e cultura. Tem por objetivo _a compreensão e estudo dos processos (i) de produção das práticas de cultura escrita; (ii) de transmissão histórica dos textos; (iii) de circu- lação social do texto, (iii) recepção e reconfigurações que uma dada epoca constrói para o texto (McKENZIE, 2005). Como nenhuma dessas perspectivas pode ser pensada sem considerar a implicação dos sujeitos envolvidos com tais tarefas, a Crítica Textual considera, ainda, os processos de “mediação editorial" (CHARTIER, 2002b) de todos os atores envolvidos com o processo de produção, leitura, impressão e circulação. De toda essa configuração, podem resultar diferentes produtos que, obviamente, dependerão do intento de cada pesquisador e de sua relação com o objeto. A grande mudança empreendida nessa nova abordagem e' a ampliação da práxis filológica. Antes, na chamada Crítica Textual Tra- dicionall (CTT) ou na Crítica Textual Modema* (CTM), a investigação 1 Crítica Textual Tradicional: aplicada a textos com original ausente, propõe-se “à restituição de um texto que se aproxime o mais possível do original", (MAAS, 1927, p. 1, apud DUARTE, 1997, p. 34), eliminando os erros introduzidos na tradição (totalidade dos testemunhos, manuscritos ou impressos, conservados ou desaparecidos, em que um texto se materializou ao longo da sua transmissão (APL, 1990, apud DUARTE, 1997, p. 88)), preparando-o para a publicação (canstitutio tzxrus). Critica Textual Moderna: aplicada a textos com original disponível, com o objetivo de edita-lo, estabelecendo um texto que "represente aproximadamen- tc as intenções originais (ou finais) do autor", (McGANN, 1983, p. 15, apud DUARTE, 1997, p. 35). Considera que as relaçoes entre o poeta, a obra e seu público (leitor) têm definido princípios críticos adequados a publicação das obras modemas. Esta nova postura que vem sendo adotada, tanto do ponto de ÊúçaaúwaÊMaa/ ááxym g¡
  7. 7. da tradição (conjunto de testemunhos de um dado texto) e, portanto, da história de cada cópia, de cada contexto, de cada variante, estava comprometida com a necessidade de higienizar os textos que foram corrompidos durante o processo de transmissão. Nesta outra abordagem, prescinde-se da necessidade de encon- trar a verdade oculta(da) do texto durante sua transmissão, uma vez que se acredita que as mudanças documentadas nos diversos testemunhos da tradição revelam as diversas maneiras como uma dada sociedade compreendeu e reinventou um texto. Essas possibilidades expressas acima parecem figurar as duas grandes vertentes editoriais contemporâneas. Segundo a oposição estabelecida por David Kastan (2001, p. 117-118), lido aqui numa paráfrase de Chartier (2010, p. 41, giifo nosso): [seria] “platônica' a perspectiva segundo a qual uma obra transcende todas as possiveis encamações materiais e [. ..] “pragmática” a que afirma que nenhum texto existe fora das materialidades que lhe dão para ler e escutar. Essa percepção contraditória dos textos divide tanto a critica literária como a prática editorial, opondo aqueles [da perspectiva da fixação dos textos] que têm a necessidade de encontrar o texto tal como o autor o redigiu, imaginou, desejou, sanando as feridas que lhe inñigiram a transmissão manuscrita ou a composição tipográfica, àqueles para quem as multiplas formas textuais cm que uma obra foi publicada constituem diferentes estados históricos, que devem ser respeitados, editados e compreen- didos em sua diversidade irredutível. Tais perspectivas não se constituem, aqui, como eixos de classificação de tipos de edição, mas de tendências editoriais. Diante vista teórico quanto metodológico, apresenta elementos que identificam a antiga Filologia com a emergente Critica Genética, que agora vêm sendo amalganiadas. Tem-se comumente apresentado sob a rubrica de "Edição Crítico-genética": edição critica, quanto à obra publicada (fase editorial) e genética, por examinar os testemunhos de redação. 71' @Md : ção/ agua | @Wan/ Ja &imman/ a Je μ do objeto e da finalidade da pesquisa, o editor pode comportar-se pelo viés platônico, orientado pela busca do sentido original ou repre- scntarivo do ânimo autoral, ou pelo viés pragmático, no qual, ainda que se estabeleça um texto, ele não será a recuperação de um texto perdido ou ideal, ou ainda uma autoridade de uma voz historicamente reconstruída, mas, sim, um centro provisório, um testemunho posto em evidência, não por privilégio ou merecimento, mas por estratégia de leitura e critica. Diante de tudo isso, compreende-se como perspectiva plalÕHlCkI a práxis ñlológica da edição critica, de K. Lachmann, e intenciona- lista, de W. Greg e Tanselle, F. Bowers; e como pragmática, a práxis sociológica de McKenzie e J. McGanii e também da critica textual genética e histórica, de origem francesa e alemãf Cada texto é um problema particular e, como tal, deve ser estudado pelo critico textual, o filólogo, a partir do conhecimento c da experiência necessários ao exame da tradição textual. Ao se fazer a opção pela edição de um texto, seja romance, novela, poema, texto teatral, ou qualquer que seja o gênero textual, deve-se levar em conta seu processo de produção e de transmissão, considerando as peculiari- dades que os testemunhos* apresentam. Segundo Perez Priego (1997. p. 36, tradução nossa): Os testemunhos são efetivamente individuos históricos, com uma fisionomia própria, portadores, em seu cerne, muitas vezes, de eloquenies marcas e dados sobre onde foram com- postos, quem os encomendou ou possuiu, quem foram os Isabel Lourenço (2009), sobretudo no terceiro capitulo, faz uma reseulia das teorias de edição, com destaque para as dos franceses e alemães, que exploram a critica textual genética e desenvolvimentos textuais; e as teorias anglo-arucri- canas, com foco nas teorias de edição intencionalistzi e sociológica. Entende-se por TESTEMUNHO o “documento escrito (manuscrito, daculuscntu, [digitoscrito] ou impresso) que contém o texto, tanto na sua lição original, como em qualquer das versões que dele exista [. ..]" (DUARTE, 1997, p. 88). %; Á:ção z/ e [ea-lo ze igjklltbaÂ/ o/«íytba 3,(
  8. 8. eopistas, os impressoras, os leitores, que tipo de papel e de letra foi utilizado, cm que tipografia etc. Tudo isso nos pro- porciona, seguramente, uma infomração muito interessante para a história cultural, mas também muito rica e aproveitável sob a perspectiva da pura critica textualf Tem-se então de tecer considerações sobre o suporte de escrita, os instrumentos utilizados para a escrita ou reprodução, por cópia ou impressão, sobre quem escreveu ou reproduziu o texto, o contexto sócio-histórico de produção e de recepção, entre outros aspectos. ” Estas e outras informações iluminam o texto a ser editado, conjugando o trabalho da Critica Textual com o de outros campos do conhecimento, imprescindível às construções de leituras acerca do texto, do tecido textual que se elabora de elementos diversos. Embora tradicionalmente interesse ao critico textual, quando se trata de uma edição crítica, o texto final, representativo da última "vontade do autor” ou da intenção autoral final, autêntico, autorizado, resultado da aplicação do método filológico (texto critico), quando sc trata da edição de textos modemos e contemporâneos, de autori- tladc múltipla, identificados por uma instabilidade textual, e muitas versões, e' preciso repensar a prática editorial, dessa vez pondo em evidência a multiplicidade de textos (estados, versões, etc. ) e suas especificidades, a partir da história da tradição e transmissão textuais, devendo-se propor outros modelos editoriais que sejam coerentes com o exame de cada situação textual e com o propósito de cada editor t» Los testimonios son efectivamente individuos históricos, con una fisonomia pro- pla, portadores en su seno muchas veces de elocuentes huellas y datos respecto de dónde se compusieron, quien los encargo o poseyó, quiénes fueron los eopistas, los impresores, los lectores, qué tipo de papel y de letra fue utilizado, que taller tipográfico, etc. Todo ello nos proporciona una información muy interesante, por supuesto, para la historia cultural, pero también muy rica y aprovechable desde la pura crítica textual (PEREZ PRIEGO, 1997, p. 36). A propósito, leia-se o capítulo O manuscrito moderno: objeto material, objeto vit/ tura! , objeto de conhecimento (GRÉSILLON, 2007, p. 51-146). 34 gema l &ma; crítico de textos. Adverte-se, pois, para o fato de que toda atividade de edição é critica e pode ser marcada pela intervenção de diversos outros mediadores. Qualquer modificação quanto à prática de editar textos deve iniciar-se pela atitude crítica do ñlólogo humanista que propõe uma leitura ativa dos textos, tomados em seu processo de construção, pois, como assegura Barthes (2006, p. 74), o texto', objeto da Filologia, “[. ..] se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétua", é algo que se elabora atravésde seus elementos constitutivos e que, em sua trama, produz sentido? O texto é, portanto, um produto cultural carregado de significação e, desta forma, toma-se um caminho para estudar diferentes relações. Assim sendo, a Filologia caracteriza-se por sustentar uma investigação de natureza interdisciplinar, que en- volve a Critica Textual, a Crítica Genética, a Bibliografia Textual, a Sociologia do Texto, a Linguistica, os Estudos Literários e a História Cultural( O texto passa a ser compreendido como um espaço de possibi- lidades relacionais, como um processo que envolve o contexto no qual é produzido e se inscreve, e onde adquire sua significação (GUZMÁN GUERRA; TEJADA CALLER, 2000). Caberá então ao filológo ir além da superficie do texto, assumindo uma atitude historicista, pois o “ñlólogo sabe desde o inicio que o seu estatuto é o do critico, pois nenhuma constituição textual, nenhuma emenda seriam possiveis fora ou antes de uma compreensão total, de uma interpretação no sentido mais amplo e preciso do termo" (PICCHIO, 1979, p. 212-213). A mudança na concepção de texto, considerado em seu pro- cesso de produção e de recepção, e no contexto no qual se inscreve, faz ver que o texto se constrói de diferentes elementos que afetam aos mesmos textos, a seus produtores, bem como a seus receptores. E Do latim TEXTÚS, de TEXERE "tecer", refere-se a sua condição de tecido, à trama ou textura de materiais (McKENZIE, 2005, p. 3-1, tradução nossa). ÊL/ »çaaúaazaeÊwaa/ Aáxym , g5
  9. 9. O contexto, no qual o texto é produzido, e' imprescindível para novos modelos de edição e interpretação. Os textos “[. ..] são recebidos como objetos culturais, como sistemas ideológicos de valores e crenças, consubstanciais à cultura em que são escritos ou lidos” e "falam mais ou menos de acordo com o contexto cultural em que se inscrevem seus receptores” (GUZMÁN GUERRA; TEJADA CALLER, 2000, p. 34; 35, tradução nossa). Ressalte-se, porém, que o trabalho ftlológico não se limita tão somente à pratica de edição de textos, ao trabalho de uma disciplina que existe para “servir" a outras, mas que se mostra atual e coerente com a forma de pensar e construir saber na contemporaneidade, por meio de leituras que possibilitam, através do aspecto multifacetado e fragmentado do objeto de estudo, conjugar vários campos do conheci- mento, desenvolvendo, de fato, um trabalho interdisciplinarjsegundo Said (2007, p. 82-83): Uma verdadeira leitura filológica e ativa; implica acreditar no processo da linguagem já em funcionamento nas palavras e fazer com que revele o que pode estar oculto, incompleto, mascarado ou distorcido em qualquer texto que possamos ter diante de nos. Nessa visao da linguagem, as palavras não são marcadores significantes passivos que representam despreten- siosamente uma realidade mais elevada, mas antes uma pane formativa integrante da própria realidade. Nessa linha de raciocínio, afirma: [. ..] É especialmente apropriado que o humanista contempo- râneo cnltive essa percepção de mundos multiplos e tradições complexas que interagem umas com as outras [. ..]. A tarefa do humanista não e' apenas ocupar uma posição ou um lugar, nem l se reciben como objetos culturales, como sistemas ideológicos de valores e creencias, consustanciales a la cultura en que son escritos o leidos" e “ . ..] hablan más o menos de acuerdo con el contexto cultural en que se inscriben sus receptores" (GUZMAN GUERRA; TEJADA CALLER, 2000, p. 34; 35). 26! : alçada @Âmym l Ocúáiza/ a/n ( xllñífd/ IIMIÍÚ r/ e C , mau simplesmente pertencer a algum local, mas antes estar ao mesmo tempo por dentro e por fora das idéias e valores circulantes que estão em debate na nossa sociedade, na sociedade de alguma outra pessoa ou na sociedade do outro (SAlD, 2007, p. 101) Em síntese, o trabalho ñlológico e' o resultado das ações de ler, interpretar e editar textos. Cada situação textual, porém, exige procer dimentos diferentes para a edição do texto. Informações contextuais e paratextuais oferecem ao investigador instrumentos hermenêuticos adequados, e, nesse terreno, o estudo do processo de criação faz-se relevante, considerando a tradição textual, caracteristica das obras literárias modernas e contemporâneas, que envolve, entre o manusr crito e o texto publicado, impresso ou eletrônico, re-escrituras e re- elaborações constantes. Destaque-se ainda que a pesquisa de fontes é de suma impor- tância para o trabalho filológico, pois os materiais, tais como críticas, comentários, citações, traduções, auxiliam na leitura do texto a ser editado. A seguir explicam-se os diferentes modelos editoriais que. na pesquisa filológica, podem ser o fim, por meio de edições cientificas que publicam e divulgam o(s) texto(s) para ser(ern) lido(s) e estudadots), e o meio, edições que sirvam de ferramentas de pesquisa, com o intento de dar a conhecer certos aspectos das tradições textuais. TIPOS DE EDIÇÃO “' Edição, segundo Luiz Fagundes Dtizirie ([1991], verbete), e o Conjunto de operações filológieas necessarias para escolher_ fixar e anotar um texto, inédito ou edito, preparando-o parti publieii ção num determinado circuito de leitura isto e', para o olereeui n um tipo caracterizado de leitor". Seguem-se os tipos de ediçao qm- caracterizam a pratica editorial: critica, crítica em perspectiva genetien ? bz/ ação r/ e / eztfzt r CÊÀ/ /zirtzfk/ o/etyrir¡ , ','
  10. 10. (critico-genética), interpretativa, paleográñca ou diplomática, semi- diplomática, fac-similar, além das edições: genética, histórico-crítica, sinóptica (sinóptico-critica), eletrônica. Cada uma e' identificada pelo grau de mediação do editor, maior ou menor intervenção no texto que se busca editar, o que permite concluir que toda edição é critica dada à mediação do filólogo no texto. EDIÇÃO CRÍTICA Para os textos de tradição plural, que trazem várias marcas, autorais e não-autorais, com suas idiossincrasias, em diversos testemu- nhos, elege-se um texto de base (copy~rext) para o exercicio da prática editorial. Para tanto, e' preciso conhecer os pormenores da tradição: o uso linguístico da obra e da época, as particularidades dialetais, o uso estilistico do autor e do gênero, as caracteristicas do texto conservado, valoração intrínseca dos testemunhos sobre a base dos erros evidentes uu juizo sobre as lições singulares etc. (PÉREZ PRIEGO, l997). Para sua realização, cumprem-se todas as etapas do método filológico. recensio, collatio, emendatio, stemma codicum, conslimtio lllxlllj'. O trabalho se completa com a apresentação ultima de um texto, unico, com determinadas caracteristicas gráficas e tipograñcas, eia or- ganização de um aparato de variantes, alinhado à esquerda ou no rodapé (la página, espaço que, além de mostrar as variantes que circularam entre o público e o leitor, também possibilita ao leitor conhecer o processo de decisão do editor, envolvendo-o no processo critico, ao que se podem acrescentar, em um segundo aparato, anotações de caráter histórico, cultural ou linguístico quc considere o editor. Segundo Duarte ([ l 997-1, verbete), uma edição critica trata da [. ..] reprodução do texto do autógrafo (quando existente) ou do texto criticamente deñnido (pela operação de conrii/ urio terna) como mais proximo do original (quando este não exis- ?5 mma, ?Âmym I (%«ÀtaÁÁz (yu/ Kurumin a/ e @yum te), depois de submetido às operações de rcccnsão (rw NiMH/ l_ colação (co/ lana), definição do estema com base na ¡nn-rpa- tação das variantes (estemática), definição do testemunho base, elaboração de critérios de transcrição e de correcção (emendaría ope codicum ou emendatio ope ingenii). Todas estas operações devem ser devidamente justificadas e explica- das (annorazio), e todas as intervenções do editor, com realce para as lições não adoptadas (do original ou dos testemunhos da tradição), devem ser registadas no aparato critico. Isabel Lourenço (2009, p. 229) assegura que "[t]oda a edição crítica é uma edição histórica, na medida em que inclui a evolução histórica de uma obra desde a origem até esse momento presente. " EDIÇÃO CRÍTICA EM UMA PERSPECTIVA GENÉTICA (EDI- ÇÃo CRÍTICO-GENETICA) A elaboração de uma edição critica em uma perspectiva genética procurará trazer à tona o momento textual último, pelo menos no que conceme àquele processo de produção, de manipulação do texto pelo escritor, e, através do exame do texto, mostrar os caminhos da criação, a partir dos materiais autógrafos reunidos, definindo as marcas estilis- ticas, o usus scribendi, l° que, por sua vez, deverão fomecer subsídios para outras leituras ou conj ecturas por parte de estudiosos do assunto e até mesmo para tomadas de decisões do editor quando da fixação do texto crítico ou determinar a lição" definitiva em face de uma lição altemativa. ” Para a edição critica em uma perspectiva genética, são relevantes o processo de criação e a obra, o produto e o processo. 1° Diz respeito ao estilo do autor do texto em que se trabalha. “ Entende-se por LIÇÃO o conteúdo de um lugar do texto em qualquer de seus testemunhos; pode ser substantiva (palavras ou frases) ou adjetiva (sinais de pontuação e capitalização, por exemplo) (DUARTE, 1997, p. 82). l¡ Diz-se que uma LIÇÃO é ALTERNATIVA quando o escritor apresenta várias lições para o mesmo lugar, não se decidindo por nenhuma delas. %«ág›á'oúkaú›e gy
  11. 11. Apresenta-se como proposta a realização de um estudo das variantes autorais, utilizando uma metodologia analítica que deter- minaria uma matriz ou matrizes de criação do texto ou da obra de um autor/ escritor. A' busca de uma matriz criativa do autor apóia-se no método comparativo, o qual revela aspectos comuns e diferentes do objeto analisado. Consideram-se, para sua feitura, Os modos de composição da obra e como esta produção dialoga com as esferas, artística, cultural e social, nas quais se insere e como o autor/ escritor incorpora, em seu processo criativo, novos instrumentos inspirados por esse contexto. Uma edição crítico-genética, portanto, é aquela l. .. ] que combina os objectivos e os métodos da edição critica e da edição genética: por um lado, reproduz o texto que o seu responsavel considera criticamente como contendo a última vontade do autor, registando todas as intervenções do editor e, no caso de textosjá publicados e que originaram tradição, elaborando um aparato de variantes da tradição; por outro lado, faz a recensão de todos os manuscritos relacionados com o texto, classificando-os, organizando-os e descrevendo-os, registando em aparato genético as sucessivas alterações auto- rais, lugar a lugar e testemunho a testemunho, utilizando para isso um dispositivo técnico que permite ao leitor reconstituir a génese do texto e, eventualmente, no caso em que o texto não foi claramente acabado pelo autor, fazer a escolha de cada uma das variantes altemativas (DUARTE, [l997-], verbete). EDIÇÃO INTERPRETATIVA Para Os textos de tradição singular, sugere-se que se faça uma edição interpretativa. Diferentemente das edições, fac-similar e diplomática, que fazem uma representação documental do texto, fomece-se um texto critico, pois como afirma João Dionisio (2007, p. l20), “[. .,] há um componente de critica na edição interpretativa, que pode Inesmo passar pelo confronto entre o texto do testemunho 37¡ Wow: @war/ ea l Midia/ lá¡ @carro/ remar a4: 0 riam¡ único e os passos correspondentes de fontes do texto” “. Adverte-se ainda para o fato de que ajustar na transcrição os sinais de pontuação e diacriticos, como a divisão de palavras e emprego de maiúsculas, ao uso modemo, supõe a tomada de uma série de decisões criticas na interpretação do texto, dai' justificar-se, dentre outros procedimen- tos filológicos, o preparo de uma edição interpretativa (DIONISIO. 2007). No entanto, quando não há intervenções significativas tl fazer. reproduz-se diplomaticamente O texto. Assim, uma edição interpretativa seria uma [l] edição crítica de um texto de testemunho único; nesta situação, o editor transcreve o texto, corrige os erros por conjectura (emendario ope ingenií) e regista em aparato todas as suas intervenções. [2] Edição de um texto de testemunho único ou de um determinado testemunho isolado de uma tradição, destinada a um público de Irão-especialistas: para além da transcrição e da correcção de enos, o editor actuali- za a ortografia e elabora notas explicativas de carácter geral (DUARTE, [l997-], verbete). Vê~se, portanto, que uma edição interpretativa poderá ser também aplicada a textos de tradição plural, desde que o testemunho seja tomado individualmente. EDIÇÃO PALEOGRÀFICA OU DIPLOMÁTICA Segundo Pérez Priego, “a edição diplomática supõe uma pura c simples transcrição do texto antigo [. ..] segundo permitem os mo- demos caracteres de imprensa e a composição tipografica", sendo ; i transcrição diplomática ou paleográñca “[. ..] Litilizada, sobretudo, no caso de textos e documentos antigos que interessam do ponto de vista l] Segundo João Dionisio (2007, p. 121) “tesieniunhtf continua sc¡ Il pllltlvltt relativa ao trabalho do editor, remetendo fonte' para o traballio do nutrir" ãl/ zçau Je ! err/ n « “raiz/ i'm / f/o/ Ayizu . n
  12. 12. histórico ou linguístico" (PÉREZ PRIEGO, 1997, p. 43-44, tradução nossa)". Duarte ([1997-], verbetes) deñne esse tipo de edição como sendo uma reprodução tipogriâñca rigorosa da lição de um testemunho, conservando todas as suas caracteristicas (erros, lacunas, ortografia, fronteiras de palavra, abreviaturas, etc. ). Também se diz edição paleográfica. Está a cair em desuso porque a reprodução fotográfica tem tomado o seu lugar (esta tem, contudo, alguns inconvenientes também). É ainda Luiz Fagundes Duarte (2007, p.13) quem melhor esclarece o propósito de uma edição diplomática, que [d]escreve e reproduz mimeticamente, lugar a lugar e lição a lição, a universalidade que e um manuscrito - descreve as caracteristicas dos suportes e dos instrumentos de escrita, da topografia dos folios, dos hábitos caligráficos, das decorações; e reproduz o texto, transliterando-o, com a lição que ele tem no manuscrito, guardando-lhe a ortografia, as abreviações, a sintaxe, a variação intema, as lacunas, as repetições, enfim, tudo aquilo que faz dele um objeto único e irrepetlvel. iaDiÇÃo SEMIDIPLOMÁTICA Situa-se entre a interpretativa e a diplomática, sendo sua prá- tica marcada pela ação menos iriterventiva que a interpretativa e mais inteiventiva que a diplomática. Comumerite, faz-se pela intervenção do editor no sentido de desenvolver as abreviaturas. “ La cdición diplomática siiponc una pura y simple transcripción del texto antiguo [ . l según permiten los modemos caracteres de imprenta y la composición tipo- gráñca [. . ] utilizada sobre todo en el caso de textos y documentos antiguos que interesan especialmente desde el punto de vista histórico o lingüístico (PÉREZ PRIEGO, 1997, p. 43-44). _W @dia . Jahr/ qm i OPÃMza/ Jo &MO/ /HGH/ Oaé Oyama, EDIÇÃO FAC-SIMILAR Quanto à conservação e preservação dos textos trabalhados e também para toma-los acessíveis a outros interessados, faz-sc ii reprodução (xerográñca, fotográfica, digital, por meio de scanner c mesa digitalizadora gráfica (imagem ou sinal analógico)) dos mesmos. Devido ao avanço tecnológico, tem-se optado pela edição fac-similar, fazendo-se a simples reprodução fotográfica, transferindo-se a ima- gem do documento para o meio digital, ou convertendo a imagem ou sinal dialógico para o código digital, realizando-se a digitalização dos textos. Adverte-se, porém, que, mesmo sendo o tipo de edição que reproduz o texto de forma mais aproximada, ainda assim há, nela, intervenção do editor, que manipula a captura da imagem e a apresentação por meio da edição. No âmbito da Critica Genética ou Critica de Processo, a edição fac-similar tem como função dar a conhecer o manuscrito” na sua forma autêntica. A Edição fac-similada é a “reprodução obtida por meios mecânicos [ou digital] [. ..] de um texto manuscrito, impresso ou esculpido, cujo testemunho se revela muito importante, do ponto de vista estético e ñlológico [. ..]" (DUARTE, [l997-], verbete). EDIÇÃO GENÉTICA Este tipo de edição inscreve-se no trabalho da Filologia como instrumento para ler e conhecer o processo de escritura, com o pro- pósito de editar criticamente textos, e enfoque na gênese textual. A edição genética, proposta no âmbito dos estudos da Crítica Genética, não tem a intenção de publicar o texto (produto), mas os manuscritos, '5 Manuscrito: feito à/ da mão do autor/ escritor. incluem-se documentos datilo- grafados e digitados pela mão do próprio autor/ escritor, bem como impressos e provas tipográficas por ele emendados ou modificados, por meio de anotações. Nele, expõe~se o trabalho de escrit(a)ura de um autor. ãfçãoaéâmfos _g3
  13. 13. pondo em evidência o trabalho do escritor (processo), realizando-se transcrições diversas: diplomática, linearizada ou mista (semidiplo- mática). Segundo Grósillon (2007, p. 246), geneticista, "[e]ntende-se pelo termo “edição genética' uma edição que apresenta exaustivamen- te, e na ordem cronológica de seu aparecimento, os testemunhos de uma gênese? que busca “reproduzir um a um todos os manuscritos do prototextomó. Fagundes Duane ([l997-], verbete), ñlólogo, define a edição genética como aquela “que apresenta, sob forma impressa e na ordem cronológica do processo de escrita, o conjunto dos documentos genéticos conservados de uma obra ou de um projecto, anotados de modo a perceber-se o processo da sua escrita”. Posições diferentes e afins, conforme interesse dos pesquisadores. A edição genética, portanto, não objetiva publicar uma obra ou estabelecer um texto, mas “tomar visivel e inteligivel uma etapa de sua gênese ou o processo integral que a originou”, conforme declara Biasi (2010, p. 91), e assim atende aos propósitos da Critica Textual, na realização de edições criticas, com componentes genéticos, e, sobretudo, da Critica Genética, Para análise dos manuscritos, devem-se cumprir as seguintes etapas metodológicas: coleta e classificação dos documentos genéticos (constituição de um dossiê genético, especificando as peças (localizar e datar), classificação dos rascunhos, deciframento (classificar e decifrar), atividades próprias da genética textual); transcrição e leituras, por meio de um procedimento interpretativo do dossiê genético. Quanto aos métodos de transcrição”, para representar e trans- mitir os resultados concretos da pesquisa com manuscritos, Biasi 1° Termo cunhado por Jean Bellemiir-Noêl em sua obra Le / exie e! lavam-terre (O ! ex/ o e o pra/ mexia) para designar “o conjunto constituido pelos rascunhos, pelos manuscritos, pelas provas, pelas 'variantes', visto sob o ângulo do que precede materialmente uma obra, quando essa e' tratada como um tax/ o, e que pode fonnar um conjunto com ele" (GRÉSILLON, 2007, p. 29, grifo do autor, nota 21). '7 Confira os modelos de transcrição em Grésillon (2007, p. 172-175; 178-181) e Biasi (2010, p, 85-86). ' 34 @um @negava i GZÍÀ/ ríwz/ cá; Oyzmrmemlo a/ e μ (2010, p, 84-87) destaca: transcrição diplomática, “pouco codificada, bastante fácil de ler, ocupa muito espaço, mas é fiel à paginação": transcrição linearizada codificada, “fácil de lei', econômic[a] em espaço, mas não respeita a paginação autógrafa”; transcrição semi- diplcmática codificada (mista), “difícil de ler, ocupa muito espaço. mas respeita em parte a paginação autógrafaf transcrição diacrônic-. i linearizada (com simulação de versões sucessivas), "[. ..] reconstruir uma imagem das etapas sucessivas da escritura [as campanhas de escritural" (BIASI, 2010, p. 86; 85; 86). Grésilloit (2007, p. 164-181) chama atenção para o fato de que uma transcrição não é assimilavel a um texto, dar' a opção pela trans- criçâo diplomática, que auxilia o pesquisadora decifrar o manuscrito. respeitando “a disposição topográfica - página, linha, margem e rees- crituras interlineares - do original"; ou pela transcrição linearizada. aquela que reduz a “dimensão paradigmatica das reescrituras ao curso sintagmático da linha, uns renunciando a toda indicação sobre a posição das variantes [v|4], outros instituindo um sistema sofisticado de códigos topográficos”, somente e' feita para manuscritos pobres em reescrituras, como documentos autobiográñcos. O tipo misto apresenta uma solução intermediária: “o corpo principal da escritura e linearizado enquanto as notas marginais constam efetivamente nu margem" (GRÉSILLON, 2007, p. 168; 169). Biasi (2010, p. 91-109) propõe a edição genética em duas grandes orientações: a edição que se ocupa de Lima fase precisa da gênese e que tem por objetivo a publicação dos documentos dessa fase - edição horizontal (edição de uma fase particular da gênese (GRÉSILLON, 2007, p. 250)); a edição que visa a apresentar na or- dem cronológica de sua formação todos os manuscritos e que publica todos os documentos, do projeto ao texto definitivo, que perpassani o itinerário das fases que atravessam o dossiê genético - edição vertical (edição de um percurso genético integral (GRÉSILLON, 2007, p. 252)). Biasi e Gresillon tecem ainda considerações a propósito da ? Mação r/ e ! rw/ a e rlívitlfzba/ /o/ ltyzrvr Jg¡
  14. 14. edição eletrônica dos manuscritos, importante para tomar o prototexto visivel, legível e inteligível. Grésillon (2007, p. 246-264), ao tratar da edição genética, diferencia os tipos: “livro a ler" e "ferramenta de pesquisa", e destaca suas partes componentes, a saber: - reprodução de todos os documentos genéticos de uma obra na ordem de uma redação, incluindo as primeiras anotações docu- mentárias, esboços ou começos; [. . , ] cada fólio será apresentado em fac-simile e acompanhado de uma transcrição em face; - notas de rodapé [. ..] fomecendo [informações] sobre o traça- do, sobre os suportes e sobre as ferramentas de escrita [. ..]; um outro tipo de notas, facultativo, pode comportar informações mais enciclopédicas; - uma introdução descrevendo a composição do material e a localização dos manuscritos do mesmo modo que a história global da gênese, nela integrando documentos "periprototcx- mais" como a correspondência, testemunhos de terceiros etc. (GRÉSILLON, 2007, p. 243) 1°. O dossiê genético seria apresentado através de uma introdu- ção e de um relato de gênese e, a seguir, os manuscritos de gênese, em forma de fac-simile, para dar a ver, e transcrição, para dar a ler, dispostos simultaneamente (GRÉSILLON, 2007). A interpretação do dossiê genético realiza-se a partir de leituras dos "processos de 's - reproduction de tous les documents genétiques d'une oeuvre dans l'oi'dre de la rédaction, y compris les premieres notes documentaires, ébauches ou esquisses; [. ..] chaque folio sera présenté en fac-simile' et accompagnê d'une transcription figuram en regard; - des notes en bas dc page, [. ..] fournissant [informations] sur le tracé, les supports et les outils d'ecriture [. ..]; un aiiire type de notes, facultatif, peut componer des informations plus encyclopédiques; r une introduction décrivant la composition matérielle et la localization des manuscrits de même que ? historic globale de la genese, en y intégrant des do- cuments "peri-avant-textuels" comme la correspondance, des temoignages de tiers, etc. (GRÉSILLON, 1994. p. 189). «75 mada, 96:11:79.1 i Cwáua/ Áz &ora/ mort/ o ré gama escritura e [d]a emergência das significações conforme os principios de uma abordagem critica determinada: poética, psicanalítica, linguistica, sociocrítica e intertextual, entre outros" (BIASI, 2010, p. lll). Deve-se, no entanto, levar em conta o “estatuto do objeto a publicar (gênese/ texto/ obra), [as] finalidades científicas e culturais da edição critica [e da edição genética], [os] meios técnicos e [as] condições sociais de sua difusão" (HAY, 2007, p. 241) para concreti- za: o labor editorial que interpreta ou propõe leituras do manuscrito, tomado na pluralidade de suas significações. Quanto à apresentação do texto, produto, ou do processo, a escrita em movimento, faz-se necessário considerar as limitações dos suportes, papel ou computa- dor. Segundo Faulhaber (1991, p. 129, apud GRÉSILLON, 2007, p. 264, grifo nosso), "O hipertexto coloca em cena conexões e relações e, assim fazendo, muda a maneira como os textos existem, mas também aquela como lemos". EDIÇÃO HISTÓRICO-CRÍTICA Quanto à edição histórico-crítica, de tradição alemã, Louis Hay (2007, p. 346) esclarece que a “distinção entre as edições “histórico- críticas” e edições genéticas baseia-se na escolha de seus procedimen- tos editoriais. " Ela, porém, estaria bem situada entre a edição critica e a genética, destacando-se que, na atividade ñlológica, o manuscrito é abordado na pluralidade de suas significações, em uma perspectiva crítica e hermenêutica. É na “tradição editorial alemã que se encontra um interesse real por uma concepção dinâmica do texto, muito menos presente na tradição editorial francesa" (GRÉSILLON, 2007, p. 236), através de aparatos sinópticos de variantes, pensando a obra em termos de processo, confrontando “cada segmento do texto base com todas as variantes de gênese contidas no conjunto dos testemunhos manuscritos e impressos” (GRÉSILLON, 2007, p. 242). Desse modo, o objetivo ãVMaçúmmJÉwm/ /ahywa 47
  15. 15. principal não será mais a edição de textos, mas a atualização dos mecanismos de escritura. Para as edições criticas e históricas, constata-se que “a escola alemaÀ[. ..] estabelece um texto critico relativamente ao qual todas as variações são documentadas [e] [a] escola francesa de critique génétique procede ao estudo genético do texto em relação ao 'avant texte'[. ..]" (LOURENÇO, 2009, p. 181). EDIÇÃO SINÓPTICA (SINÓPTICO-CRÍTICA) Em algimas situações, faz-se necessário realizar uma edição sinóptica” com o intento de reproduzir, “lado a lado, as lições de pelo menos dois diferentes testemunhos, com o objectivo expresso de as comparar” (DUARTE, [1997-], verbete). Tal edição, como afirma Pérez Priego (l997, p. 44, tradução nossa), “consiste na reprodução simultânea [. ..] da transcrição diplomática de todos e de cada um dos testemunhos da tradição de uma obra"" O cotejo entre diferentes versões textuais, em confronto sinóptico, toma essa edição critica e também histórica; nela, buscando-se demonstrar pontos em que tais versões se aproximam ou se afastam, trazendo notas e comentários que visam esclarecer os textos em seus múltiplos aspectos, '9 Consultar trabalhos, como: Esapaidn OL! Vida de Erapo: Edição sinóptica e interpretativa: leitura do manuscrito, introdução, notas e comentários por José Oliveira Barata, publicado nos Ac/ a Universitatir Conimbrigerisir em Coimbra em 1979; e Ulysrer: A Critical and Synnptic Edition, edição de Hans Walter Gablei, com Wolfhard Steppe e Claus Melchior, publicado em Nova York, pela Garland, em 1984. 2o . i v . , , _ _ _ _ consiste en la reproduccion simultânea [. .,] de la transcripción diplomática de todos y cada uno de los testimonios de la tradición de una obra" (PÉREZ PRIEGO, 1997, p, 44). 35| @um @Azi/ apta i (ÍÊÚrPua/ r/a @mamae/ nú Je μ EDIÇÃO ELETRÔNICA O uso de meios eletrônicos e da informática fez questionar o modo de fazer e as teorias de edição. Primeiro, pelo processo mecânico, melhor realizado por meio de ferramentas informáticas (fac-símile (imagem). digitalização, transcrição, cotejo das variantes, das transformações no texto, etc. ); segundo, pela prática de uma edição critica, entendida como a produção de um texto único, singular, estabelecido a partir das lições de outros testemunhos ou do juizo do editor. Aedição eletrônica, esclarece Biasi (2010, p. 108), “permite associar os fac-similes dos manuscritos (modo imagem) com transcrições (modo texto) que possibilitam a pes- _quisa texto cheio e o uso de motores de investigação [. ..]". Deslocando-se o foco da prática editorial do produto para o processo, para a dinâmica do texto, cabe, então, ã Critica Textual a publicação de cada um dos documentos e das versões que integram a história da criação e da transmissão de determinada obra, conforme afirma Maria Morrás (2003)“, em vez de decidir-se pelo texto singular, acompanhado do aparato critico, à margem ou no rodapé da página. Assim, o texto fixado por uma edição critica somente atende à constru- ção de sentido dada por seu editor, como mediador, mas, quando são conhecidos os documentos e versões de uma obra, o que se nota são as intenções cambiantes do autor, as sucessivas modificações linguísticas e bibliográficas da comunidade de recepção (leitores, eopistas, impres- sores), contemplados como produtores de significados (MORRÀS, 2003, tradução nossa). Nesse contexto, a edição eletrônica surge como resposta, aquela que daria conta, de forma simultânea, das ! Tlúillpiáls versões de um mesmo texto. Uma edição eletrônica sera' Luna forma de investigação do lux to, cabendo ao editor mediar entre a dispersão dos testemunhos c m 2' Trabalho apresentado no Seminário de Filologia e Informática cm 1000_ cn¡ Barcelona. ÊII/ r// çãu z/ e Ít/ :ITÍO r %›i4frkw / íi/ a/dr m¡ _rp/
  16. 16. a composição de edições virtuais” (URBINA et a1., [200-], dados que seu exame proporciona. Deveria então contemplar, além das p. 3, tradução nossa). informações que o impresso traz, introdução, notas, aparato crítico, [. ..] a reprodução fac-similar e a transcrição completa de todos os testemunhos da obra em questão, música e/ ou imagens relacionadas com o texto, programas que permitam gerar concordãncias e indices, de acordo com as necessidades do pesquisador, etc. ” (FAULHABER, 1991, p. 128, 144; DUG- GAN, 1996, p. 79 apud MORRÁS, 2003, tradução nossa). Propõe-se reunir em um arquivo eletrônico (a reprodução fac- similada dos testemunhos, transcrição de cada uma das redações e a edição propriamente dita) a edição critica, as versões, as transcrições de cada um dos textos e sua reprodução fac-similar. A informática, desse modo, propiciaria transparência à história da transmissão textual. Nesse lugar, deve-se pensar uma metodologia para a prática editorial que leve em conta a criação de programas e ferramentas que tomem possível a edição e a consulta a textos; digitalização de imagens; informatização de textos e programas de gestão de base de dados à critica textual; criação de edições eletrônicas e de arquivos digitais. Urbina et a1. ([200-]) propõem um arquivo hipertextual que compreende três categoriais de edições: edição fac-símile digital; edição diplomática/ documental (em duas partes: a edição diplomática eletrô- nica; a edição de um texto documental); edição variorum eletrônica, [. ..] elaborada a partir dos textos e cotejos das edições ante- riores, com classificação e anotação de variantes, incorpo- ração de emendas, anotações textuais, links hipertextuais às edições fac-similes e documentais, e interface interativa para n [m] la reproducción facsimilar y transcripción completa de todos los testimonios de la obra en cuestión, música y/ o imagenes relacionadas con el texto, programas que permitan generar concordancias e indices a medida de las necesidades del investigador, etc. (FAULHABER, 1991, p, 128, 144; DUGGAN, 1996, p. 79 apud MORRÁS, 2003). W¡ @ma %orrgw i CLQÃu/ 'uaÁz/ o âuxmmm/ o ú grau: Em relação à prática editorial, no que conceme à nova crítica e à edição hipertextual da era digital, Faulhaber (apud URBINA et ai. [200-], p. 5, tradução nossa) prevê precisamente que já não se trata de produzir um texto critico mecanicamente, mas da capacidade de tomar evidente extensas relações textuais e de permitir através de conexões explícitas e implícitas novas análises, leituras, e juízos edi- toriais”. Partindo do uso de programas e de ferramentas informáticas, investe-se no processo de cotejo, anotação e edição”. O Projeto Cer- vantes" tem-se mostrado, então, importante referência nos estudos que conciliam a Filologia e a Informática. u [. ,,] elaborada a partir de los textos y cotejos de las anteriores ediciones, con cla- sificación y anotación de variantes, incorporación de enmiendas, anotaciones tex- tuales, enlaces hipenextuales a las ediciones facsimiles y documentales, e interfaz interactivo para la composición de ediciones virtuales. (URBINA et al. , [200-], p. 3). 2' Faulhaber (apud URBINA et al. [200-], p. 5) preve certeramentc que no se trata ya de producir un texto critico mecánicamente, sino de la capacidad de hacer evidente extensas relaciones textuales y de permitir a través de enlaces explícitos e impllcitos nuevos análisis, lecturas yjuicios editoriales. 15 Ver procedimentos para uma edição eletronica por meio do programa de cotejo e análise de variantes (MVED) e o módulo de leitura e edição virtual (VERI) (URBTNA, [200-], p. 7-8). 7° O projeto teve inicio em 1998 c teve uma bolsa de investigação da la National Science Foundation (2000-2003), e posterior apoio da Cátedra Cervantes (Uni- versidad de Castilla-La Mancha). Sobre o Projeto Cervantes, consultar <http: // ccrvantes, tamu. edu>. - $úçãacúâuazüaegarfâiaafêâyaba 4¡
  17. 17. Por ñm, vê-se que, conforme a tradição textual e o processo de transmissão dos textos, dentro de cada período Cronológico e sócio- cultural, os instrumentos metodológicos e críticos aplicáveis a cada situação textual são definidos; ou como já añrmara Grésillon (1994), cada época tem sua ciência editorial. Cada obra deverá ser tomada em sua especificidade, considerando tudo que a rodeia. Cumpre, então, ao ñlologo, editor de textos, conhecer bem os materiais de que dispõe para exercer sua praxe editorial. O texto, objeto da investigação filológica, está sujeito às vi- cissitudes várias, mais vulnerável ainda às intervenções alheias que o modificam, não somente no que concerne aos elementos superficiais, mas no que tange à integridade da mensagem por ele veiculada. Assim, o exame dos suportes utilizados e das informações que sobre eles são fomecidas nos próprios textos e na pesquisa de fontes delineia um procedimento editorial, por sua vez critico e interpretativo dada a natureza do objeto da Filologia. O que se proctnou evidenciar aqui é que os materiais de escrita são produtos de um tempo, de um lugar e de uma cultura específica e assim devem ser tomados para os estudos que se queiram desenvolver. E preciso repensar as teorias e as práticas editoriais, a partir da noção de texto - “sancionado por um autor, fixo e historicamente deñ- nivel [. ..]” e “o texto como algo sempre inconcluso e, portanto, aberto, variável, sujeito a um perpétuo refazer-se por parte de seus leitores, seus executantes ou seus espectadores" *l (MCKENZIE, 2005, p. 69, tradução nossa) - e dos aspectos de sua produção, distribuição e consu- mo. Devem-se considerar ainda a teoria anglo-saxônica da bibliografia material, a sociologia do texto, os trabalhos desenvolvidos pelos alemães e franceses, que se centram nos desenvolvimentos textuais e nos estudos 27 u - . . , . . ,, , sancionado por un autor, frio e historicamente deñnible [. ..] e * el texto como algo siempre inconcluso y, por tanto, abierto, variable, sujeto a un perpetuo reha- cerse por pane de sus lectores, sus ejecutantes o sus espectadores" (McKENZIE, 2005, p. 69). 43 @um Qâaoym i ("Él/ xéua/ z/a ÓXZIWW/ ILV/ LÍD (Íe @meu de gênese, fundamentando~se em novos documentos, novas técnicas_ novos métodos e, consequentemente, novos horizontes críticos. Vê-se, então, um deslocamento da intenção autoral para os aspectos que envolvem a produção de textos, tomados como objeto material e social. No campo da Critica Textual, ter-se-iam de consi- derar duas abordagens: a intencionalista (Greg, Tanselle e Bowers) e a sociológica (Mckenzie e McGann). Quanto às teorias de edição, destacam-se: a teoria da edição crítica (método de K. Lachmann aplicado aos textos biblicos e clássicos (genealogia pela qual se recir pera o arquétipo)); teoria do copy-text (aplicada aos textos produzidos tipograficamente durante o primeiro periodo modemo; apresenta um texto critico, estabelecido com base no copy- Iext” [definido a partir dos accidenlals (fonna do texto) e dos SllbSÍüHlÍVES (conteúdo do texto) para recuperar a intenção autorall” ao qual foram introduzidas emendas e correções. no sentido de aproximado [. ..] tio texto autoral entretanto desaparecido, acompanhado de um aparato critico [ . .]" (LOURENÇO, 2009, p. 192)); teoria da intenção final, derivada da teoria do Copy-text (proposta por Fredson Bowers, levando›se em conta novos conceitos como “versões textuais"3°, autoridade múltipla e intenção final e o processo de composição dos textos). A teoria social (McGann) da edição toma o texto como produto cultural em constante mudança que existe em diferentes versões e rejeita a teoria intencionalista de Greg e Bowers pelo seu idealismo editorial (LOURENÇO, 2009). Desse modo, conclui-se que 2” McKerrow foi o primeiro critico a empregar tal termo. 39 Categorização apresentada por Greg, ein 1949, no ensaio The Ra/ íonale ufcttpyr text, para estudo do texto tipogrãñco, propondo uma teoria eclética de edição. Tal abordagem é também seguida por Bowers e Tanselle que tendem a situar a intenção original nos acciderital: e a intenção final nos subxiamiver. 3° Termo introduzido por Hans Zeller. %tz/ z'gão 1/2 (ea-lo e ? w/fzcaÃ/ o/dqzrn 43
  18. 18. [s]e no caso da teoria do copy/ ar¡ e derivadas, o exercicio critico se orientava ainda para a possibilidade de fixar o texto numa forma capaz de representar ou reconstituir a intenção autoral final, a teoria social da edição reconhece a variação, a múltipla intencionalidade e a instabilidade como propriedades intrínsecas da materialidade textual (LOURENÇO, 2009, p. 219). Outro aspecto relevante no campo das teorias e práticas edi- toriais é reñetir sobre o texto eletrônico, sobre o manuscrito digital, bem como sobre a edição eletrônica. Inicialmente, considerando o manuscrito modemo ou 0 impresso, ñxava-se um único texto, em edição diplomática ou critica, e as demais Versões eram dispostas no aparato critico. No entanto, quando se toma a textualidade ñuida e dinâmica do texto eletrônico ou a forma de apresentação de textos em meio digital, vê-se que nos "projectos de edição eletrônica, [. ..] o formato de arquivo em construção [. ..] é o mais adequado ao pro- cesso de representação, historicização e documentação das formas textuais, potenciando o estudo crítico dos textos. " (LOURENÇO, 2009, p. 247). Ressalte-se que a tecnologia digital não descarta o exercicio da critica textual, pelo contrário, parte dos modelos editoriais aplica- dos à tradição impressa e manuscrita. Muda, porém, “as formas de representação e transmissão do saber, e aumenta as possibilidades de armazenamento, acesso, colação e estudo dos textos" (LOURENÇO, 2009, p. 246). Desse modo, a edição eletrônica mostra-se mais_ ade- quada aos textos que apresentem múltiplas versões, tomados em sua materialidade cultural, genética, social e tecnológica, como produtos da ação dos diferentes agentes mediadores (autor, leitor, revisor, editor, entre outros). . M @uma %n›ym i &zom/ monáz (É Jada CRÍTICA FILOLÓGICA Não é insólito que os ñlólogos sejam assaltados com perguntas que, quando não acintosas, são quase sempre para questionar a vitali- dade de suas práticas na contemporaneidade. Alguns motivos parecem ser bastante claros e uma parte deles foi elucidada acima, mas convém ratificar pelo menos dois deles: (i) a falta de correspondência entre os interesses da Filologia e os desígnios da ciência positivista, que fundamentaram a emergência da Linguística e algumas vertentes dos Estudos Literários, e (ii) os conflitos surgidos a partir da desconstrução empreendida pelos teóricos do “pensamento da diferença", que foram responsáveis pelo abalo de noções essenciais para o labor da Crítica Textual, quais sej am: ñdedignidade, verdade e autoria. Por isso, é tão comum que, em todo trabalho, por mais simples que seja, tenha-se sempre de apresentar a concepção de Filologia ado- tada. Basicamente, tal intento e' para evitar a caricatura com a qual os estudos filológicos são revestidos ainda hoje e propor novas agendas de discussões para a/ da práxis ñlológica contemporânea. Além disso, o investimento nesse tipo de definição soa como uma tentativa de demarcação explicita de fronteiras disciplinares, o que está na contramão das perspectivas cujas considerações primam pelo enfoque holistico e pós-disciplinar. Por isso, pretende-se, aqui, pensar a Critica Filológica sem uma reivindicação essencializadora através de estratégias pautadas pela rivalidade, ja' que, confonne Eneida Maria d'e Souza (2002, p. 73), [s]e as fronteiras disciplinares não mais se sustentam em ter~ mos absolutos, a defesa de posições radicais só irá comprovar a dificuldade de se conviver com os lugares indeñnidos do próprio saber contemporâneo. O conceito de indefinição, longe da circulação caótica e irracional do conhecimento, aponta para a necessidade de se pensar na [. ..] substituição da matriz disciplinar por um novo género, uma nova teoria. ãáçaoaáaaaa%ímaafá›laym 4¡
  19. 19. Não se trata, portanto, de bipolarizar as perspectivas entre tradicionais e ecletismos teóricos de vanguarda, mas de compreender que as antigas oposições entre teoria e prática precisam ser revistas uma vez que os diferentes objetos oferecem constantes desafios às tentativas de propor uma definição geral e cristalizada de tudo. Para Jonathan Culler (l 990), o termo filologia tem sido utilizado para legitimar leituras fundadoras de textos considerados como dignos e superiores por sua “qualidade” estética. Essa atitude estabelece um compromisso com o restritíssimo cânone ocidental, que exclui, portan- to, outras tradições culturais. Por essa razão que, independentemente da diversidade de concepções filológicas, quer ligadas à história das linguas, quer aos estudos literários, uma questão mantém-se: “a noção de ñlologia como um tipo básico ou fundamental de conhecimento prévio que serve como a precondição de qualquer outra critica lite- rária ou trabalho histórico e interpretativo” (CULLER, 1990, p. 49, tradução nossa). É contra esse fundacionalismo critico que se coloca Culler, mas não contra a ñlologia, Desse modo, a Filologia anti-fundacionalista deve ser configurada a partir da crítica aos paradigmas de cientiñci- dade com os quais o fazer filológico se envolveu a partir dos séculos XVIII e XIX. Na contemporaneidade, o ñlólogo está sendo desafiado a colocar-se como um dos sujeitos responsáveis pela construção do sentido dos textos, no momento em que participa das atividades de “mediação editorial" de que nos fala Chartier (2002b). Tal reposicionamento redundará na denúncia da objetividade da ñlologia e não provocará o fim dela, mas a aceitação da critica ñloló~ gica como laboratório de produção de sentido. Por outras palavras, a crítica ñlológica precisa ser compreendida como uma atitude critica, j' “[. ,,] the notion ofphilology as basic or foundational a kind offirst knowledge that serves as the precondition of any further literacy criticism or historical and interpretative work. [ . .]" 46' 'fã/ faia PBÚÍÍVMÍ j (Want/ M: Qypommenfo r/ e @yum de leitura concebida aqui como um espaço de produção histórica, linguística, sócio-cultural e politica. Uma das vertentes mais famosas da crítica filológica é a que mantém relação de “complementaridade utilitário” com a Linguistica Histórica. Para além da compreensão tecnicista da produção de da› dos fidedignos para a análise linguistica, Cano Aguilar (2000, p. 24, tradução nossa, grifo nosso) entende que [a] análise ñlológica pode ser vista [| ›|] como reñexão sobre os produtos efetivamente realizados nas [linguasL e mais qui- à especulação abstrata tendem a desentranhar os conteú- dos significados e os mecanismos que por ela significam. nesses produtos aos quais chamamos de textos. Como sabemos, a análise ñlológica não se encerra aqui: utiliza a análise da lingua para algo mais, que bem pode ser a inserção do texto dentro de um momento determinado da história cultural de uma comunidade ou a decisão sobre aspectos “internos" da história do texto. Em todo caso, e isso carac- teriza definitivamente a análise filológica, sua perspectiva e' sempre histórica: estuda a lingua desses textos não como sc fosse o reñexo, a manifestação de “estados estáveis", mas como momentos concretos no devir do idioma, cujos modos evolutivos exemplifica. ” El análisis ñlológico pude Verse [ , .] como reñexión sobre los productos efec- tivamente realizados en ellas, y más que a la especulación abstracta tienden u desentrañar los contenidos significados, y los mecanismos por los que se signi- ñcan, en esos productos a los que llainamos lex/ as. Como sabemos, el análisis filológico no se queda aqui: utiliza ese análisis de lengua para algo más, que bien pude ser la inserción de ese texto dentro de un momento determinado de la historia cultural de una comunidad o la decision sobre aspectos “intemos" de la historia de ese texto. En todo caso, y eso caracteriza definitivamente al análisis filológico, su perspectiva es siempre histórica: estudia la lengua de esos textos no como si fuera el reñejo, la manifestación de “estados estables" [. ..], sino como momentos concretos en el devenir del idioma, cuyos modos evolutivos ejemplifica (CANO AGUILAR, 2000, p. 24), $a4gãa r/ e Karla e ? Xíâba / Ía/ dyrtirr: l, j
  20. 20. Do que foi dito, põe-se em relevo o que caracteriza a preocu- pação da análise ñlológica do texto, a saber: compreender as inter- relações entre os conteúdos produzidos historicamente no texto e os mecanismos (linguistico-discursivos) produtores de significados no texto, ou melhor, pensar a leitura do texto por meio das coordenadas linguístico-discursivas, culturais, sócio-históricas e políticas nas quais o texto foi (re)inscrito e inseminado, Como exemplo, pode-se pensar na famosa cantiga do trovador galego-português Pero da Ponte cuja controvérsia lhe valeu o apelido de “a cantiga do fodimalho". Na mais famosa edição crítica do cor- pus satírico galego-português, a edição de Rodrigues Lapa, logo na primeira estrofe, observa-se a questão: Eu digo mal, com'ome fodimalho quanto mais posso daquestes fodidos e trob'a eles e a seus maridos; e um deles mi pôs mui grand'espanto: topou comigu'e sobraçou o manto e quis en mi achantar o caralho Ando-lhes fazendo cobras e soes quanto mais poss'e and'escamecendo daquestes putos que s'andan fodendo; e üü deles de noifasseitou-me e quis-me dar do carallfe errou-me e [er] lançou depós min os eolhões. Pero da Ponte (LAPA, 1995, p. 508) No aparato critico, contempla-se a critica ñlológica de Lapa, qual seja: o comentário sinóptico e as variantes textuais, nas quais constam reñexões sobre o sentido contextual das palavras. Recomm- se o comentário do texto e a apresentação das variantes textuais, do Cancioneiro da Biblioteca Nacional (CBN) e do Cancioneiro da Vaticano (CV), na apresentação do aparato critico. O comentário figura-se bastante interessante, veja-se: @t7 Esta cantiga de Pero da Ponte leva-nos ao mundo estranho da homossexualidade que ele diz repudiar e cscamcccr, L' conta-nos os casos surpreendentes, em termos de grosseiro rc- alismo, já se vê, de dois pederastns que, talvez por espirito de vingança, pretenderam provar-lhe que eram homens como os outros: fodimalhos. [»4] (LAPA, 1995, p. 508, grife nosso). A concepção do editor sobre a homossexualidade é partidária de uma interpretação bem comum na tradição ocidental e que tem no discurso cristão o principal avatar. Trata-se de um estranhamento das relações ditas antinaturais, porque não estão destinadas à reprodução ou porque borram a concepção de masculinidade hegemonizada, ativa e "superior". Não há dúvidas de que tais interpretações, se não resva- lam no processo de estabelecimento de texto, conduzem a produção de sentido do texto (SOUZA, 2008). Outra questão que salta aos olhos é a certeza de que o léxico dessa cantiga é composto de "termos de grosseiro realismo". Embora se saiba que as “cantigas de mal dizer som aquela[s] que fazem os trobadores. .. descubertamente. E[n] elas entram palavras que querem dizer mal e nom aver outro entendimento senom aquel que querem dizer chãamente. ” (D'HEUR, 1975, p. 349), não se sabe até que pon- to pode-se considerar “caralhd”, “colhões" e “piças” como termos “grosseiros” ou ofensivos, principalmente porque a execução dessas cantigas feitas por trovadores e jograis, alguns deles reis (D. Dinis e D. Afonso, por exemplo), era em ambiente de corte. Assim, mais do que proceder a uma interpretação anacrônica de um texto, vários ñlólogos e medievalistas contemporâneos têm insistido sobre a necessidade de compreender as caracteristicas desse dizer “chãamentd” (ALMEIDA, 2000; MEDEIROS, 2009) e também refletir sobre características do gênero textual da sátira galaico- portuguesa e 0 riso no jogo e o jogo do riso, como é o caso de Paulo R. Sodré (2010). Tudo isso para, enfim, compreender as dimensões dessa invectiva aos "putos e fodidos" do medievo ibérico. ãáçzaaámzaiñõízm/ ái/ aym w
  21. 21. Entretanto, não se pode esquecer que a leitura de Rodrigues Lapa confessa uma inscrição histórica, na qual a homossexualidade era compreendida como prática desviante, anormal e perigosa. Se se repudiar a obra de 'extrema relevância do ñlólogo português, faz-se, hoje, com mais gravidade, uma leitura anacrônica da leinrra ñlológica de Lapa. Por outro lado, o mais interessante no processo de estabeleci- mento da cantiga está localizado no aparato crítico, cuja parte relevante para esta discussão segue transcrita abaixo: l fadimalho CBN, CV; Br, Pan. Parece-nos erro, por fadima- lho, [. ..], O termo, muito raro, deverá provir ou de FUTIMA- CULA = “marca, sinal de que está apto a fomicar", que acha- mos mais provável, ou de um metafórico FUTIMALLEUM = “malho de fomicação”, que sugerimos 'nas Correcções e Aditamentos da l” edição. 0 alvitre de Panunzio, faz de malha > fadimalho, também deve ser tomado em consideração. [. ..] (LAPA, 1995, p. 508). Segundo Lapa, “fadimalho” não e' um vocábulo do qual se possa logo depreender um sentido, razão pela qual a controvérsia entre os ñlólogos logo se instaura. Contudo, vale observar como a discussão sobre os diversos sentidos do lexema na cantiga, embora construída para se desvendar qual seria o genuíno, parece um bom exercicio critico-ñlológico. Primeiro, pela investigação da recorrencia de que a forma apa- rece nos dois cancioneiros que preservaram os testemunhos da cantiga (CBN e CV); segundo, pela interpretação contextual da palavra que, na disposição dos versos, está em oposição a “fodidos”, a partir do que já se podem tecer algumas interpretações; terceiro, por apresen- tar possiveis étimos latinos que ajudam a pensar o campo lexical e a proveniência da palavra: “FUTIMACULA = “marca, sinal de que está apto a fomícar"" e “FUTIMALLEUM = “malho de fomicaçãom; 50 É (ua %wyea l fyÃráwt/ r/o &tommevnlo r/ e @Motuca e, por fim, o quarto fator, trazer leituras de outros editores da cantiga para dar ao leitor maior amplitude sobre as possíveis explicações do texto, como é feito em referência à contribuição de Panunzio “faz de malha > fadimalho ". A critica de Lapa, embora plasmada pelos objetivos de resti- tuição do original perdido, aos moldes lachmannianos, ilustra com bastante propriedade o tipo de leitura ativa dos ñlólogos de que Said (2007) e Cano Aguilar (2000) falam. No entanto, a critica ñlológica não se restringe a uma única interface, mas a todas aquelas que tomem a inscrição histórico-cultural de um texto como espaço para produção de leituras, portanto, de sentidos. Em um recente trabalho publicado em 2008, Jean-Claude Zancarini, Jean-Louis Foumel e Romain Descendre, elaboram um estudo sobre lingua e politica na Florença do século XVI ao qual chamam, surpreendentemente, de “Filologia Politica”, isto e', "[a] abordagem que pretende levar em conta a qualidade dos tempos [. ..]" (ZANCARJNI, 2008, p. lO). Em Umafilolagiapolirica: os tempos' e as manobras darpalbvras (Florença, 1494-1530), Zancarini, ao discutir sobre a escritura da política na historia de Florença, reivindica um “amor pelas letras" diferente daquele que estão mais acondicionados com os rigorosos procedimentos da ecdótica. Por se tratar de uma apropriação não habitual, o estudioso justifica-se: Então, "ñlologia" ¡rorqtte partimos de uma leitura (às vezes de uma tradução, forma particularmente rigorosa de leitura! ) lenta e minuciosa que procura te-estabelecer os laços. os ecos, os distanciamentos no interior de uma obra ou entre Llmd obra e outra; “políticzr”, não somente porque nós escolhemos estu- dar um corpus de textos ligados a uma conjuntura politica e tnilitar precisa, mas também porque, para nós, a abordagem critica dos textos e a reñexão sobre o sentido das palavras utilizadas na linguagent têm um valor eminentemente politico, qualquer que seja o periodo histórico visado (ZANCARINI, 2008, p. ll). ãir/ lção r/ e ! err/ a e» %; Zára Â/ o/dytca 1'/
  22. 22. A compreensão de Filologia apresentada acima dialoga com a perspectiva de Rita Marquilhas, para quem o objetivo da ñlologia stricto sensu é “a recriação das coordenadas materiais e culturais que presidiram à fabricação e sobrevivência de um texto escrito" (MARQUILHAS, 2010, verbete Filologia). E é essa abordagem que permite [. ..] colocar em evidência caracteristicas da escrita que tinham escapado a outros tipos de leitura. Assim, [mostra-se] como a expressão miracolose perdire voltava em várias retomadas sob a pena de Maquiavel, no Principe, nos Discursos, naArte da Guerra e nas cartas, e como esta expressão devia ser colo- cada em relação com um jogo sobre uma palavra de origem religiosa, e 'peccalr', que também voltava em várias retomadas e nas passagens importantes do Principe e Discursos. [Além disso], [e]sta abordagem permite igualmente compreender que laços unem [. ..] autores entre si e como eles se lêem e se citam às vezes, constmindo assim uma lingua da politica ligada aos tempos que eles vivem e querem compreender. [. ..] (ZANCARINI, 2008, p. 11). Para se pensar em uma questão mais vemácula, pode-se veri- ficar a repressão promovida pelos Govemos Militares às produções musicais da chamada MPB. O caso de Chico Buarque, que afirma não possuir vinculação politica (partidária), talvez seja o mais mitificado e frustrante para aqueles esperançosos do engajamento do autor. Todavia, faz-se necessário afirmar que, à revelia do suposto compro- misso partidário de Chico, as produções do artista, na cena musical sob censura, eram atos politicos e, muitas vezes, de subversão. Esse é o caso de Cálice, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil. O jogo que se configura a partir da homofonia de “cálice” e "cale-se" é providencial para a enunciação da canção no contexto de repressão. Nos versos a seguir: Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice 53 96m? ” I @Úrduaá/ aâimvamwnbú &awe; Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue Como beber dessa bebida amarga Traga: a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta (BUARQUE, 1973) nota-se que a invocação presente no ínicio da música está em clara relação com uma passagem do Nova Testamento, na qual Jesus, cons- ciente do fardo que lhe caberia para a redenção do homem, implora pela misericórdia do Pai. Deslocado para o contexto brasileiro, a invocação é pelo livramento do “cálice”, símbolo da opressão ditato- rial, mas também do "cale-se", signo dos silenciamentos promovidos sobre as artes. O "Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil, configura, pois, através do recurso metafórico, a condição de enunciação de uma denúncia, um gritoem meio ao silenciamento. Ainda no que concerne à questão politica da produção e enunciação de discursos em um dado contexto, necessita-se somar as considerações sobre a inscrição material do texto aos papéis desem- penhados por diversos sujeitos que não são comumente considerados como atores do processo de produção de sentido. Desse modo, para Chartier (2002b, p. 61-62), [a] questão essencial que [¡›. J deve ser colocada por qualquer história do livro, da edição e da leitura é a do processo pelo qual os diferentes atores envolvidos com a publicação dão sentido aos textos que transmitem, imprimem e lêem. Os tex- tos não existem fora dos suportes materiais (sejam eles quais forem) de que são os veiculos. Contra a abstração dos textos, é preciso lembrar que as fan-nas que permitem sua leitura [do texto], sua audição ou sua visão-participam da construção de seus significados. O "mesmo" texto, fixado em letras, não é o ãz/ dçãoúmifae 5g
  23. 23. “mesmo” caso mudem os dispositivos de sua escrita e de sua comunicação. Nasce dai a importância reconquistada pelas _disciplinas que têm como finalidade justamente a descrição rigorosa dos objetos escritos e impressos que carregam os textos: paleograña, codicologia, bibliografia. [. ..] É precisamente “contra a abstração dos textos", perspectiva adotada por quase todas as abordagens de crítica literária do séc. XX e do começo deste, que se vê a relevância da crítica ñlológica. Nela, não se faz a oposição binária entre texto fisico/ material versus texto abstrato; afinal, como aponta Chartier, quando um “mesmo texto" muda de suporte, não há apenas uma simples transposição de uma massa textual, e sim a recriação de outras coordenadas histórico- culrurais que implicam outros sentidos, Um texto de Borges ilustra bem o entendimento dessa questão. Em Pierre Menard, autor do Quixote, narra-se a história de um celebre escritor, Pierre Menard, que se obstinou na construção, sem tirar nem sequer uma virgula, d'O Quixote. Não queria compor outro Quixote ~ o que é fácil - mas o Quixote. Inútil acrescer que nunca visionou qualquer trans- crição mecânica do original; não se propunha copia-lo. Sua admirável ambição era produzir paginas que coincidissem ~ palavra por palavra e linha por linha ~ com as de Miguel de Cervantes. “Meu proposito é simplesmente assombroso" (BORGES, 1970, p. 33). Nesse excerto, afigura-se o papel do leitor como sujeito criador de obras, o que prova que não ha' leituras nem versões definitivas de texto. Assim sendo, o tom irônico de Borges coloca em xeque, a um só tempo, a ideia de que os textos não mudam de sentido, a noção de autoria, como pólo de emissão de texto, e de leitor, como pólo receptor de informações. A escrita “linha por linha" e a coincidência das páginas com as de Miguel de Cervantes, dos capitulos “nono e trigésimo da primeira parte do Dom Quixote de Miguel Cervantes e 54 ÍÕRÚJÍI iJÂMym i Qízl/ xyztu/ t/o Gsfuyxaammlo t/ e uma de um fragmento do capitulo vinte e dois” configuram o Quixote de Menard (BORGES, 1970, p. 32). Tal obra, aceitando-se o pacto da fic- cionalidade que permite a leitura do texto, esboça aquilo que Chartier considera como relevante, a saber: com a mudança dos dispositivos de escrita e de comunicação do Dom Quixote, e' possível considerar Pierre Menard o autor do Quixote. Em outra direção, mas ainda mantendo as disposições de Chartier sobre a necessidade de se considerar relevantes as inscrições materiais dos textos, pode-se refletir sobre a grafia de Lima Barreto e a relação desse escritor com o editor e também escritor Monteiro Lobato. Na observação desse processo, Lima e Souza (201 l) procedem a Uma leitura da práxis editorial de Edgard Cavalheiro na edição da Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto. Em uma das seções, na qual se lê a edição de Cavalheiro, são flagradas as acentuadas e repetidas marcações do editor (Cavalheiro) em relação à grafia de Lima Barreto. Comenta o editor: “a caligrafia de Lima, como sempre, é muito ruim” (CAVALHEIRO, 1955, p. 18). O comentário do editor é motivado pela carta de 4 de dezembro de 1918, em que Lobato orienta a Lima a ser mais cuidadoso na revisão do romance Vida e Morte de J, MGonzago de Sá, livro editado pela primeira vez por Monteiro Lobato, Em outro momento da edição das cartas_ Cavalheiro retoma as considerações sobre a grafia: Contou-me Monteiro Lobato que os originais de “Uoii/ iigii de Sá" constituíam uma autêntica chariidzi, cuja tlcciliiiçttii exigiu noites de beneditina paciência, Pois tendo o l lllltl devolvido as folhas datilografadas curti ztlgtimiis eiiicntliix, estas estavam em tal caligrafia que os lirtutipistus ilcvolviiiiii à Editora as paginas, pois não entendiam ttbsolutametttc tiiitlii (CAVALHElRO, l955,p. 18). É perceptível que o interesse de Cavalheiro em reverbcrui' as complicações enfrentadas na edição do Gonzaga de Sá por Monteiro ãr/ íção r/ e far/ o e %; <(/ rca / ÁÀ/ ll/ (ly/ (W 5
  24. 24. Lobato (e toda sua equipe de edição) o fez reproduzir o discurso dos intelectuais contemporâneos a Lima Barreto, os quais o rechaçavam pelo mesmo motivo. Ao que parece, em uma leitura menos atenta, a questão da escrita não parece ser uma questão de grande relevância para a crítica literária. Entretanto, a questão sobre a letra de Lima ocupa algumas páginas da edição de Cavalheiro e parece não se restringir ao foro das cartas entre Lima e Lobato, lidas e organizadas pelo referido Editor. Em um artigo publicado na Gazeta, intitulado Essa minha letra. .., Lima Barreto e' extremamente irônico ao falar do incômodo dos jor- nalistas com a sua letra, o que abre chaves de leitura para o contexto de produção de sua obra no primeiro quartel do século XX: O mais interessante é que essa minha letra, além de me ter emprestado uma razoável estupidez, fez me arranjar inimigos. Não tenho a indiferença que todo mundo tem pelos inimigos; se não tem medo, não neutro diante deles; mas, isso de ter inimigos só por causa da letra é de espantar, é de mortificar (BARRETO, 2010). Lima Barreto compreendia as intenções dos "letrados" em implicar com sua caligrafia, parafraseando-o, tratava-se de uma estratégia de “mortificação" de sua fala. Fica evidente, assim, que sua opção em potencializar essa cursiva irregular, despreocupada em agradar os jomalistas, era também um instrumento de protesto aos postulados caligráficos da aristocracia carioca. Ironizando um conselheiro que insistia para que mudasse sua grafia, Lima escreve: Mudar de letra! Onde é que já se viu isso? Com ceneza ele não disse isso ao Senhor Alcindo Guanabara, cuja letra é famosa nos jornais, que o fizesse; com certeza, ele não diria ao senhor Machado de Assis também. O motivo é simples: o Senhor Alcindo é o chefe, é príncipe do jomalismo, é de- putado; e Machado de Assis era grande Chanceler- de letra; mas eu pobre autor de um livresco, eu que não sou doutor em 55 i @ZÕQMÉÃI &Mmummh ú @meu qualquer história - eu, decerto, tenho o dever e pono mudar de letra (BARRETO, 2010). Verifica-se que Lima Barreto, enquanto intelectual, tinha plc- na consciência da relação entre escrita, estética e poder. O próprio Lima acusa a irregularidade na grafia de outros escritores, que, por estarem inseridos em outro contexto sócio-racial-econômico, não foram rechaçados. Desse modo, a crítica à caligrafia barretiana parece, nesse contexto, capciosa e desinteressada em entender os objetivos que par- ticularizam a escrita do escritor. Reverberar a irregularidade na grafia de Lima Barreto trata-se de mais uma estratégia de silenciamento e negação de Lima Barreto como intelectual e homem das letras. Em face disso, a compreensão da letra de Lima Barreto não está distante de uma luta de um sujeito marginalizado e destoante de um cenário literário. Por essa razão, muitas críticas às temáticas abordadas pelo escritor encerram-nas em ressentimento. Entretanto, não se trata disso; afinal, a luta do escritor negro e Suburbano era a de se fazer ouvir num mercado editorial que não o reconhecia como escritor. Para formatar a compreensão de crítica filológica, recorre-se, por fim, ao Humanismo e Crítica Democrática, de Edward Said. Nesse texto, o critico discute a necessidade de se refletir sobre a prática hu- manistica contemporânea. Em suas próprias palavras, “[. ..] o que me interessa é o humanismo como uma práxis utilizável para intelectuais e acadêmicos que desejam saber o que estão fazendo, com o que estão comprometidos como eruditos, e que desejam conectar esses princípios ao mundo em que vivem como cidadãos [. ..]" (SAID, 2007, p. 25). Para tal, ainda sob as considerações de Said, o humanista precisa resgatar a base filológica outrora esmaecida, pois é a partir dela que se dá o ãáçaaatemae%aam/ fzaáxym 57
  25. 25. escrutínio paciente e detalhado e uma atenção de vida inteira que têm como foco as palavras e as retóricas pelas quais a _linguagem e' usada por seres humanos que existem na história. [. ..] SÓ recebendo o texto em toda a sua complexidade e com consciência crítica da mudança. Assim, com efeito, uma leitura minuciosa de um texto literário [. ..] localizará gradativamente o texto no seu tempo como parte de toda uma rede de relações, cujos contamos e influência desempenham um papel formador no texto (SAID, 2007, p.84-85). Assim, embora Said não afirme diretamente, também cabe ao filólogo contemporâneo, enquanto intelectual humanista, a partir de seu procedimento politico de leitura e percepção sócio-cultural das disseminações de sentido dos textos, uma reflexão acerca de sua prá- xis na contemporaneidade. Essa seria, pois, a estratégia para que se proceda a uma critica à concepção do humanismo como patrimônio universal para uma problematização das leituras e democratização critica de obras de outras tradições culturais nãmeuropéias. Por conseguinte, a concepção de Said sobre filologia visa a um conjunto de ações cujo objetivo seria compreender os textos a partir dos respectivos con(textos) que os anunciaram; como uma leitura ativa que possibilitaria revisar leituras ortodoxas, academicamente instituídas, através de pesquisas nos bastidores da criação, transmissão, circulação de textos; como uma leitura ativa capaz de desconstruir cânones literarios e veicular textos/ autores que foram silenciados, inclusive, pelo mercado editorial. Desse modo, a ñlologia como prática humanistica contemporâ- nea é uma tentativa de problematizar a tradição ocidental- etnocêntri- ca ~ e recepcionar todas as possibilidades de critica humanistica, fruto das rasuras e investidas dos movimentos feministas, negros, latino- americanos, asiáticos e de outras tradições culturais não-ocidentais. Portanto, a critica ñlológica é uma prática interpretativa que ob- jetiva a leitura dos textos a partir das coordenadas e diretrizes histórico- culturais que os tomaram possíveis. Logo, difere-se da crítica linguística 58 moda iazarwyea | OÃÉqÍuzI/ t/o &wmmonfo a/ e @and (ao menos a linguística de corpora) pelo fato de esta objetivar reflexões intra-sistêmicas ou sócio-históricas das “estruturas” ou “funcionamento” da lingua, ainda que em sociedade; separa-se da critica literária por não operar com a oposição material versus abstrato, binarismo pelo qual tem sido possivel discutir “textos” sem reñetir ou ao menos considerar as (re)inscrições históricas nos diversos suportes do “texto"; e configura-se a partir da leitura do “devif” textual, entre fendas de rasuras que abrem espaço para a produção do texto, mas também do não-texto, entre atos de censura, como os que decorrem dos vários “cortes” dos técnicos de censura do Govemo Militar do Brasil. Cada uma das atuações de sujeitos históricos diferentes na trama textual traz novidades à tessitura e demonstram intencionali~ dades diferentes que enriquecem e atualizam as diversas produções de sentido no/ do texto. Mas irão foi sempre assim que se pensou. Tradicionalmente, o ñlologo higienizava os “erros” incorporados pelo processo de transmissão, afinal de contas a posição dele era de um erudito cuja autoridade paternal estava comprometida com a re» tituição do sentido do texto. Contemporaneamente, o ñlólogo tenrsc conscientizado de que seu papel não e' o de empreender uma leitura de asseio, mas de perceber cada “erro” do processo de transmissão como “formas de recepção” (MOREIRA, 201 l) de Lim texto em dado momento histórico. Para isso, ele pode ate' propor edições, mas, diferentemente das perspectivas teleológicas de estabelecimento rigoroso dc texto_ elas serão uma fixação de uma das ou de um conjunto dc faces dc uma complexa tradição textual. Tal escolha terá compromisso com os objetivos de leitura e crítica tilologica e, além disso, deve tomar em consideração os propósitos de circulação e publico a que se destina. Desse modo, efetivamente, os investimentos de pesquisa somente para compor um texto ñdedigno não tazem mais parte, exclusivamente, dos intentos da Filologia. kz" , ao (A. fear/ (- e “Fama / ÍÁI/ íyíra 5g

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