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  1. 1. (7 EÍÊLOLOGIA, CRÍTICAS E PRoCEssQ§ DECRIAÇAO a g ROSA BORGES DOS SANTOS 駧; > @b @É q E CÉLIA MARQUES TELLES X (Organizadoras) . >4%JÕ%J
  2. 2. Ficha Técnica ' Filologia, críticas e processos de criação Editora Appris r' 1° edição Autor: Célia Marques Telles _ Rosa Borges dos Santos (ORGANIZADORAS)_ Editor Chefe: Vanderlei Cruz Editor Adjunto: Marli Caetano ' Coordenação Comercial: Rafael Souza mwi-. z. Revisão Final? Luiz Carlos de Almeida Oliveira Diagramação: y . g Fabio Delfino › ' Capa: Sara Coelho * Eplwm ' Editora Appris Ltda. Rua Alfredo Scorsin, 59, Orleans 82300-460, Curitiba/ PR (41) 3053-5452 wwvi/ .editoraappriscombr catalogação na Fonte Elaborado por: Sônia Magalhães * j Bibliotecária CRB 9/1191 _ -' "Filologia, criticas e processos de criação l Célia Marques Telles_ Rosa Borges › (org. ). - Curitiba zAppris, 2012. i f' 320 p. : 23 cm. - (Coleção ciências sociais) Vários autores k Inclui bibliografias ' ISBN 978-85-8192050-4 '~ 1. Filologia. 2. Critica textual. 3. Literatura. 4. Lexicologia. 5, Linguagem e linguas. I. Borges, Rosa. ll. Duarte. Rosines de Jesus. lIl. Serie. con 2o. ed. - 40o
  3. 3. CAPÍTULO 1 o A PERSPECTlVAS PARA A CRÍTlCA ' TEXTUAL NO BRASIL: ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS " César Narde/ /¡ . Cambraia Universidade Federal de Minas 'Gerais - CNPq QINTRODUÇÃO a No presente trabalho, pretende-se defender que há dois aspectos es- ísenciais para o amadurecimento da crítica textual no Brasil: (a) a adoção de , ma orientação teórico-pragmática e (b) uma exploração mais intensa da teração transdisciplinan' . Amplio neste texto a defesa de um ponto de vista apresentado já em outras oportunidades: Cambraia (2007, ~2012a, 2012b). . ' 137
  4. 4. ,- -v-n- . ..e . . S138 PERSPECTIVAS PARA A CRÍTICA TEXTUAL NO BRAS/ L: ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS Ó ORIENTAÇÃO TEÓRICO-PRAGMÁTICA A crítica textual de hoje é fruto de um acúmulo milenar de experiências: que remontam, pe_| o menos, aos alexandrinos da Grécia antiga (no séc. _lll_Í_ a. C). Apesar do estabelecimento e da sedimentação de princípios para guiar* o critico em seu trabalho, sua efetivação aplicação está longe de ser incon- troversa: basta mencionar principios tão frequentemente invocados, como aí lectio difficí/ ior, e as polêmicas que emergem de sua aplicação em casoscon-J¡ cretos - como exemplo, pode-se citar a polêmica na edição dos poemas de Martin Codax por Cunha (1956, 1985a) e Spaggiari (1980), que já comenteii_ em outra oportunidade (CAMBRAIA, 2005, p. 154). ' Mas os problemas não estão apenas na aplicação de um princípio especl- , , fico: surgem também na constatação de que, para um mesmo lugar-crítico, um principio (p. ex. , lectio antiquíor) pode apontar para uma variante como '¡. sendo a genuína, enquantoum outro (p. ex. , lectio brevior) aponta para ' outra variante. Esses dois tipos de problema são evocados aqui para defen- der que a crítica textual está longe - muito longe - de constituir um campo do conhecimento de tal forma consistente e rigoroso a ponto de oferecer uma teoria de edição capaz de resolver todas as questões relativas a textos de natureza diversa (religioso x não religioso, em lingua clássica x em língua vernacular, em tradição manuscrita x em tradição impressa etc. ). Ao contrá- rio de se considerar essa constatação como um desalento, ela deve ser vista ~ como um indicativo do quanto é ainda necessária a produção de estudos propriamente de crítica textual. , “ Conforme comentado por Megale e Cambraia (1999, p. 4), .a critica tex- tual no Brasil passou a ser impulsionada, a partir de meados da década de 80, pela linguistica histórica e pela crítica genética. Em função das demandas dessas duas áreas, muitas edições passaram a . ser feitas, sobretudo no pri- meiro caso, devido à grande necessidadede corpora para estudo da história do português brasileiro - assinale-se, no entanto, que edições de textos me- dievais felizmente continuam sendo realizadas. Essa abundância de edições, no entanto, não tem gerado estudos vol- tados para a crítica textual em si: por isso, pode-se dizer que ainda hoje a crítica textual no Brasil se caracteriza por uma orientação essencialmente pragmática, ou seja, as atividades em crítica textual tem sido essencialmente. de produção de edições. É óbvio que a produção de edições é um dos prin- cipais objetivos da critica textual e, por isso, realizar uma edição continua 'sendo um cumprimento da devida tarefa pelo critico textual, mas essa orien- tação essencialmente pragmática não tem permitido gerar progressos mais substantivos em termos de evolução de teorias em critica textual. É preciso produzir generalizações, avaliações de princípios, reformulação de métodos - enfim, falta uma orientação que seja também teórica.
  5. 5. César Nardelli Cambraia É bem possível que um fator que provavelmente justifique a ausência da medievais em língua portuguesa - a saber, a grande quantidade de casos de g testemunho único - esteja atuando ainda hoje, já que na edição de textos ? gpara o estudo da história do português brasileiro geralmente se trabalha ; com testemunho único ou, mais raramente, com a edição de apenas um F testemunho no caso de textos com testemunhos múltiplos. Essa circuns- , tância, porém, não legitima a ausência de estudos mais centrados na crítica ? textual em si, pois há um grande número de edições criticas prontas que @oferecem material riquíssimo para estudo de problemas de transmissão de gtextos e de seleção de variantes. Há, portanto, rico material para ser inves- M_ -tigadojmas dificilmente se encontra um estudo de crítica textual que seja “V *propriamente mais teórico. __ Este é, enfim, o primeiro ponto a ressaltar: o amadurecimento da critica i textual no Brasil se dará quando, aliada a uma orientação pragmática (rea- ' * 'zação efetiva de edições), seja exercida também segundo uma orientação teórica (estudos de problemas de transmissão de textos), ou sejajé necessá- ria a adoção de uma orientação teórico-pragmática. Mas que tipo de estudos, concretamente, se caracterizariam por uma _orientação mais teórica? Basicamente aqueles que busquem generalizações ímais amplas, que permitam a avaliação de princípios estabelecidos ou a ela- oração de novos princípios. Embora Carvalho e Silva (1994, p. 59-60) já te- . nha arrolado aspectos de natureza teórica entre as tarefas do crítico textual (citando, por exemplo, questões como "definição do conceito, do objeto, "do método e das finalidades", "pesquisa da gênese dos textos" e "fixação Í de princípios"), convém listar alguns tipos de estudo que podem permitir a 'obtenção de resultados de orientação mais teórica: - . ' . (a) Estudo de tipos de variantes: esse tipo de estudo permitirá identificar quais são os padrões que regem as modificações de um texto no processo de : sua transmissão, estudo que pode ser inovador ao adotar abordagens não “ apenas qualitativas como também quantitativas - como exemplo, pode-se citar o estudo de Cambraia e Laranjeira (2010), realizado com base em um e corpus de 18 testemunhos em língua latina e 1711 variantes; _e (b) Estudo de seleção de variantes: esse tipo de estudo permitirá identi- ~ _ ficar de que forma os editores aplicam princípios estabelecidos ou por eles criados, constatando-se, assim, se há predições pessoais em favor de um ou resultado geral da edição); (c) Estudo de conjuntos de norrriasde edição: esse tipo de estudo permitirá identificar como a concepção sobre edição tem mudado ao longo dos tempos e ' quais são os impactos dessa mudança na transmissão e na recepção dos textos, _constituição de propostas teóricas robustas no domínio da edição de textos' outro principio (o que, naturalmente, aumenta o grau de subjetividade no «139
  6. 6. 140 PERSPECTIVAS PARA A CRÍT/ m TEXTUAL NO BRAS/ L: 'ULTRAPASSANDO FRONTE/ RAS revelando assim o enquadramento histórico das práticas seja por parte do edi- tor seja por parte do público-leitor - como exemplo, pode-se citar o estudo de Fachin (2008; 2009) sobre normas de edição de textos em língua portuguesa; (d) Estudo comparado de processos de transmissão: esse tipo de estudo permitirá identificar se há padrões universais no processo de transmissão (o que validaria a proposta de principios de edição aplicáveis a qualquer tradi- ção) e se há padrões particulares (o que justificaria criar teorias e métodos es- pecifico para cada tradição) ~ como exemplo, pode-se citar o estudo de Cam- braia (2012a), que contrasta os tipos de variante no processo de transmissão de um mesmo texto em diferentes línguas (latim, português e catalão). Para melhor evidenciar a riqueza deste último tipo de estudo, apresento abaixo os resultados gerais apurados por Cambraia (2012a): Tabela 1: Padrões de modificação nas tradições latina, catalã e portuguesa. 69/320 (21,6%) 157/320 (490/0) 36/258 (13,9%) Portuguesa 138/606 (22,8°/ o) ' 135/606 (22,3%) 286/606 (47,2%) Omissão Substituição Alteração de ordem 40/320 (12,5%) 47/606 (7,7%) Gráfico 1: Padrões de modlficação nas tradições latina, catalã e portuguesa 10o em” em_ _i 5o . . , , _m_ . .._. .____. ... s. , E, , _E_ . -.E , _WWW_ , ,. _. l É” 49 47,2 Bmssãa Substtuêçà) Atteraçãa decrdem Os resultados acima demonstram, a um só tempo, certos universais (como a predominância de substituições em qualquer uma das três tradições) e cer- tos particulares (menor número de modificações textuais na tradição latina e maior na portuguesa). Estudos comparados podem ser feitos examinando-se fatores como lingua, época, lugar, tipo de texto (prosa >< verso), conteúdo do texto (descritivo >< narrativo x argumentativo) etc. . Em síntese, interessa saber quais modificações são universais em processos de transmissão e quais são particulares e, portanto, reguladas por fatores de ordem diversa.
  7. 7. César Nardelli Cambraia INTERAÇÃO TRANSDlSClPLlNAR A critica textual é um campo do conhecimento em que' a transdisciplina- ridade constitui não apenas uma abordagem relevante para seu desenvolvi- ç mento, mas, sobretudo uma condição para sua existência. Não custa lembrar como são importantes para a crítica textual conhecimentos pertencentes à paleografia (estudo de escritas antigas), codicologia (estudo da técnica do livro manuscrito), bibliografia material (estudo da técnica do livro impresso), _ linguística histórica (estudo da mudança linguística), apenas para citar os _ç mais evidentes. ' Os casos de diálogo entre disciplinas acima listados são consensuais e já "estão bastante assentados na tradição. Nesta seção, pretende-se salientar ' . que o diálogo pode ser estendido de forma produtiva e frutífera ainda a outras disciplinas. ' Antes de tudo, convém assinalar que se parte aqui do pressuposto de _que o processo de transmissão de textos é efetivamente uma atividade linguística. As relações entre crítica textual e linguistica são antigas e, nas priscas eras, ambas, ainda não individualizadas, eram manifestações dos estudos filológicos - saliente-se que ainda hoje o são, apesar de agora terem sua individualidade (teórica e metodológica) devidamente reconheci- da. A origem comum da linguística e da critica textual deveria ser suficiente para revelar o fato de que a 'transmissão de textos é realmente uma ativi- dade linguística, mas, na prática acadêmica, essa constatação não se ma- nifesta com muita clareza. O que se quer salientar aqui é que, nos estudos de transmissão de textos, se deve tentar interpretar os fatos (ou muitos dos fatos) como regidos por processos iguais ou semelhantes aos que atuam _em diferentes manifestações da atividade linguística (como na leitura e na produção de textos). Justamente por isso, a crítica textual deve dialogar _ E mais com os diferentes campos de estudo que se ocupam da linguagem J humana. ' - Primeiramente, pode-se apontar que deveria haver uma maior interação entre a crítica textual e a linguística textual. Em um estudo recente de crítica f textual, defendeu-se que: ' a transmissão do texto seria uma espécie de processo sistêmico - em que as vicissitudes do ato de cópia (que, gerariam as omis- s sões e diminuiriam a coesão textual) desencadeariam nos copistas uma intervenção reparadora (através de adições que restaurariam a coesão textual) (CAMBRAlA; LARANJElRA, 2010, p. 34). Esse resultado derivou da verificação de que, na transmissão da versão latina do tratado ascético Livro de Isaac, existe uma correlação entre as fre- quências de adição e omissão das principais categorias envolvidas: conjun- i " l4l
  8. 8. PERSPECTIVAS PARA A CR/77CA TEXTUAL NO BRASIL: ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS i ' ção, pronome e preposição. É necessário lembrar que essas categorias são exatamente as queidesempenham-papel importante no processo de_coesão textual, ou seja, a não aleatoriedade no predomínio das categorias envolvi- das em adições e em omissões revela a existência de processos regidos por padrões, não surpreendentemente padrões relacionados a processamento. linguístico (no caso citado, processamento de segunda língua, já que o latim não era a língua materna dos copistas em questão). A interação proposta há de permitir contribuição para as duas áreas. A linguística textual se beneficiará dos conhecimentos estabelecidos pela crítica textual, pois será possível ampliar o conhecimento sobre processa- mento linguístico de forma geral ao se trabalhar também com dadosrefe- rentes a processos deitransmissão, investigando-se, por exemplo, diferenças de processamento segundo a naturezagda atividade linguística (leitura para interpretação seria regida por um tipo de processamento; e leitura para có- pia, seria regida por outro tipo - tendo certamente ambas pontos em co- mum, já que ambas constituem atividades linguísticas). A crítica textual se beneficiará dos conhecimentos _estabelecidos pela lin- 7 guística textual, pois será possível entender melhor os mecanismos que re- gem o processamento linguístico (expresso, por exemplo, pela organização textual), conhecimentos estes que permitirão identificar e diferenciar com mais clareza pontos e/ ou camadas de interferência na transmissão (organi- l zação textual genuína x organizações textuais sucessivamente inseridas por copistas e, portanto, não genuínas). Em segundo lugar, pode-se defender uma maior interação entre a crítica textual e a análise do discursofAs modificações no processo de transmissão dos textos podem ser voluntárias, o que significa que o copista ou otipógra-l fo podem optar por inserir no objeto de ofício sua própria visão de mundo. v Para a análise do discurso é de interesse saber, p. ex. , quais são as estratégias discursivas de que esses "interventores"'lançam mão para fazer infiltrar sua' opinião em um texto que reproduzem: naturalmente devem ser estratégias bastante refinadas, caso contrário romperiam a unidade do texto e se reve- Iariam' nitidamente como adulterações, o que provavelmente bloquearia sua transmissão. O conhecimento dessas estratégias também é de interesse para a crítica textual, pois permite ao crítico identificar as infiltrações alheias e separar o joio (as intervenções não genuínas) do trigo (as formasgenuínas) na: fixação de um texto. Em terceiro lugar, é de interesse defender uma maior interação entre a crítica textual e a linguística computacional. O tratamento computacional de textos permite o desenvolvimento de teorias (sobretudo formalistas) sobre a organização da linguagem humana, mas naturalmente o input para esse tratamento precisa refletir de fato o uso linguístico real, condição que-não se alcança com coleta aleatória de textos sem a preocupação de que estejam
  9. 9. CésarrNardelli Cambraia . livres de erros de transmissão (que, no mundo digital, proliferaram exponen- cialmente em função da modificabilidade sem precedentes do texto nesse ' formato): justamente por isso, a compreensão das especificidades da trans- missão de textos na era digital oferece subsídios para que se consiga triar com eficiência os dados que, por serem representantes de forma genuína de textos, podem ser utilizados em pesquisas de linguística computacional( Por outro lado, os avanços obtidos por essas pesquisas podem oferecer ao crítico textual ferramentas para realizar, de forma automática, operações do processo de edição: há, por exemplo, aplicativos que realizam uma co- _ lação automática, fornecendo rapidamente uma lista de todos os lugares- " s -críticos nos testemunhos de uma tradição, bem como aplicativos que geram automaticamente um texto crítico baseando nas formas comuns aos teste- ¡ munhos de uma obra, deixando, porém, para o crítico a tarefa deescolher as variantes nos pontos de divergência entre os testemunhos. Em quarto lugar, pode-se invocar uma maior interação entre a crítica tex- tual e os estudos de tradução. Em muitos casos, textos antigos entraram em circulação através de traduções: na Idade Médiagportuguesa, sobretudo a par- tir de versões em latim; mas-não apenas, pois casos há derivados de versão em espanhol, em francês, em italiano, dentro outros. Uma tarefa que tem sido bastante complexa é a determinação do efetivo trajeto de um texto a partir da língua original até a língua final (no caso, o português): pode-se citar aqui o › caso da versão portuguesa da Demanda do Santo Graal, cuja discussão sobre, a prioridade espanholã ou portuguesa tem sido acalorada (MEGALE, 2001). Os estudos da tradução podem oferecer informações preciosas sobre os padrões que caracterizam um texto que é fruto de tradução, revelando assim instrumentos interessantes para resolver disputas em termos de prioridade no processo de transmissão (texto de que língua foi fonte para tradução para que língua). Também os estudos de traduções podem beneficiar-se de inte- ração com a crítica textual, pois o processo tradutório é também uma forma de transmissão de , textos e, portanto, suscetível aos problemas próprios de transmissão '- deve-se elevar em conta, no entanto, que se trata de um pro- cesso com diferentes tipos e graus de transmissão: tradição na língua-fonte f > tradução da língua-fonte para a língua-alvo > tradição na língua-alvo. É muito provável que haja problemas de transmissão comuns não apenas à transmissão em uma mesma língua como à transmissão/ tradução de uma: língua a outra - retorna-se aqui à já tratada questão' dos universais de pro- cessamento Iinguístico. ' I ' ' - Em quinto lugar, pode-sebuscaruma maior interação entre a crítica textual- e os estudos de folclore. Tradicionalmente a crítica textual tem-se debruçado, sobretudo, sobre textos escritos, embora, como já havia assinalado Carvalho e Silva (1994, p. 59-60); competisse também a ela a questão da -transcrição 143'
  10. 10. _. .._. ... .._, ... ..~, ... .--. ... _.-. . . l: 'l 1 l 144 ' PERSPECTIVAS PARA A CR/77CA TEXTUAL NO BRASIL": ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS_ ' , de textos orais em textos escritos. A crítica textual; no entanto, pode ir ainda mais além: pode ocupar-se da transmissão detextosgggestudo que já há tempos tem sidolfeito por folcloristas - como exemplos, podem-se citar o _estudo da tradição do "Romance de d. Juliana ed. Jorge" por Nascimento (1964) e do conto popular "Melancia-Côco Verde" por Brandão (1966). É fato que a questão da oralidade na transmissão de textos não é de todo nova para a crítica textual: prova-o a formulação do conceito de mo- vencia: por Zumthor (1981), aplicado à tradição em língua portuguesa por~ Cunha (19851)) em relação à poesia trovadoresca e por Azevedo Filho (1998) - à lírica de Camões. Entretanto, não parecem ter sido produzidos estudos de textos orais realizados especificamente sob a ótica dos problemas de trans- missão dos textos. A critica textualpode oferecer aos estudos de folclore princípios de estabelecimento dos arquétipos de textos orais, enquanto os estudos de folclore podem oferecer dados de natureza singular (dados orais, ' transmitidos sobretudo por via popular) para um estudo de transmissão dos textos que busque_ generalizações ban mais amplas, que sejam aplicáveis a textos escritos e orais. É interessante ver, por exemplo, que a contaminação . . e A' O (produção de cópia a partir de mais de um modelo) ocorre não- apenas em textosescritos, como também em textos_ de tradiçãooral(NASCIMENTO, 1964, p. 116-118). A ~ Para terminar este texto (mas não 'a lista de interações possíveis entre a crítica textual e outros campos do conhecimento), pode-se mencionar *ainda a interação entre a critica textual e os estudos de música. _ Neste caso pode- -se considerar a transmissão da música tanto por via sonora (que poderá ter pontos em comumcom a transmissão de textos via oral, tal como uma mo- dificação por lapso na percepção auditiva) quanto por via escrita (as partitu- ras). Recentemente foi possível ter acesso¡ a um caso interessante: a tradição da melodia de um canto tradícional bretão, chamado Ar Rannou. Esse canto foi compilado por Theodore Hersart de la Villemarqué nos Chants populaires de la Bretagne (BARZAZ-BREIZ, 1845, p. 3-28), parcialmente reproduzido por , François-Joseph Fétis na sua Histoire généra/ e de la musique depuis les temps les plus anciensjusqu'a nos jours (FÉTlS, 1874, p. 351), obra que terá _ servido 'de fonte para a harmonização da compositora brasileira Helza de Cordoville Camêu; 'interessa à crítica textual este caso, porque_ houve um erro de transmissão' na melodia do canto em questão da obra de Villemarqué (BARZAZ-BREIZ, . “ 1846, p. 497) para a de Fétis (1874, pe. 351), erro de transmissão que foi assi- milado por Camêu em sua composição - veja-se abaixo o mesmoç21° compas- 2 Por convite da Profa. Dra. Luciana Monteiro de Castro, da-Escola de Musica da UFMG; iniciamos juntos a edição das partituras de uma coleção de harmonizaçóes para piano, intitulada Cinq Chansons Archaigues, produzidas por volta de 1962 pela compositora brasileira Helza de Cordoville Camêu (103-1995). A edição, em preparação, faz parte ” do projeto do grupo Resgate da Canção Brasileira, coordenado pela referida pesquisadora da Escola de Música da UFMG. '
  11. 11. César Nardelli Cambraia E na obra de Villemarqué (Figura 1) e na de Fétis (Figura 2), em clave de sol: 21:12'; 3.4 íí ? É feHÍkYH-jrfe? , à u¡ 7 tell iitiiaié? A : g. Comparando o compasso da Figura 2 (mi-mi-lá) com o da Figura 3 (dó- Ídó-lá), percebe-se uma diferença que provavelmente constitui errQ na ver- do próprio Villemarqué, pois as notas fazem parte de um refrão que havia aparecido antes na mesma música, (no 4° compasso, em ambas as ras como dó-dó-lá). : - Uma primeira questão é saber se a diferença nas notas da edição de Ville- marqué é realmente um caso de erro de composição tipográfica ou se revela ' . variação da própria melodia (caso em que a variação seria a forma genu- : ipa). - Em segundo lugar, tendo Fétis considerado a variação'(mi-mi-/ á) como " ” o, corrigiu-a segundo o 4° compasso (dó-dó-lá), embora pudesse ter, ao erso, corrigido o 4° compasso (dó-dó-lá) em função do 21° (mi-mi-lá): por e que Fétis considerou que a forma genuína é a do 4° compasso e não a do “Í_21°? Em terceiro lugar, vê-se um caso interessante doque em estemática se _obama de erro conjuntivo: o fato da composição de Camêu seguir a forma da : ¡. ~. , elodia de Fétis (a versão "corrigida") sugere fortemente que derive direta Essas questões indicam que, tal como textos escritos, as partituras são 'scetíveis a erros de transmissão e demandam conhecimento especializado ra restauração de sua forma genuína. Não parece existir uma teoria de ição própria para textos musicais, razão pela qual a crítica textual tem mui- » o a oferecer nesse âmbito aos estudos de música. A realização de pesquisas re transmissão de textos musicais, por outro lado, permitirá à crítica tex- f ual ascender a níveis mais altos de generalização, podendo fundamentar-se m princípios que sejam aplicáveis a textos das mais variadas ordens. ê _ÍNSIDERAÇOES FINAIS : A; critica textual. no Brasil desfruta hoje de uma grande difusão: segu- _ 'nte nunca houve tantos pesquisadores em tantas instituições diferen- -ocupando-se da área. Justamente porlsso, é de grande importância __ ificar 'aspectos relevantes (como a orientação tegLiço-pra mãtiça e ; era ão, transdiscblinar) que sirvam de orientação para ampliação e o 7 undamento da disciplina no Brasil, ou seja, para seu amadurecimento. e indiretamente desta ultima versão, e não diretamente da de Villemarqué. . 145
  12. 12. 145 ' PERSPECTIVAS PARA A CRÍTICA TEXTUAL NO BRASIL: . de novembro de 2007. _ r CAMBRAIA, C. N. . 2012a. Crítica textual comparada: em busca de universais no processo de transmissão' ' CAMBRAIA, C. N. ; LARANJElRA, M. B. . 20l0.Tipologia dos erros na tradição latina do Livro de Isaac. Caligra- s' _CARVALHO E SILVA, M. de. 1994. Critica textual: conceito, objeto, finalidade. Confluência, Rio de Janeiro, , neiros dos trovadores do mar. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda. Ed. prep. por Elsa Gonçalves. ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS REFERÊNCIAS AZEVEDO Filho, L. A. de. 1998. 0 problema da movência na lírica de Camões. In: Azevedo Filho, L. A. de. L saios de linguística, fila/ ogia e ecdótica. Rio de Janeiro: SBLL/ UERJ, p. 265-272. BARZAZ-BREIZ. 1845. Chants populaires de la Bretagne recuei/ lis et pub/ iés avec une traduction française, des arguments, des notes et les mélodies origina/ es, par Th. Hersart de la Villemar qué. Paris: A. Franck. ' ' - BRANDÃO, T. . 1966. Um conto popular brasileiro. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, ano VI, n ' 14, p. 5-52. ' - _CAMBRAIA, C. N. . 2005.. lntrodução crítica textual. São Paulo: Martins Fontes. CAMBRAIA, C. _N. . 2007. Perspectivas para a critica textual no Brasil. Niterói. Palestra ministradarno 1:5 Simpósio de Crítica Textual, no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, no período de 19 a 20 7 ' dos textos. São Paulo. (Trabalho apresentado em mesa-redonda no ll Congresso Internacional de Lin-_a guística Histórica, na Universidade de São Paulo, no período de 08 a 11 de fevereiro de 2012). CAMBRAIA, C. N. . 201 Zb. Critica textual. ln: GONÇALVES, A. l: ; GÓIS, M. L. de S. . Ciências da linguagem: il o fazer cientifico? Campinas: Mercado das Letras, p. 293-320. ma, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, p. 7-48." n. 7, p. 57-63. - _ . CUNHA, C. . 1999 11956). O cancioneiro de Martin Codax. Rio de Janeiro: [s. n.]. In: CUNHA, C. . Cancio-'u CUNHA, C. . 1985a. Breves , considerações sobre a tipologia dos erros ou variantes em crítica textual. Bracara Augusta, Braga, n. 39, p. 415-427. i CUNHA, C. . 1985b. significância e movência na poesia trovadoresca: questões de critica textual. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. . , FACHIN, P. R. M. . 2008-2009. Critérios de leitura de manuscritos: em busca de lições fidedignas. Filologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, v. 10-11, p. 237-262. ' FETIS, E-J. . 1869-1876. Histoire générale de la musique depuis les temps les plus anciensjusqu'a_ L nos jours. Paris: Firmin-Didot. 5 v. . MEGALE, H. ; CAMBRAIA, C. N. . 1999. Filologia portuguesa no Brasil. DELTA. , São Paulo, v. 15, n. esp. , _ " p. 1-22. ' . MEGALE, H. . 2001. A Demanda. do Santo Graal: das origens ao códice português. São Paulo: FAPESP; Ateliê. - ' ' _ NASCIMENTO, B. do. 1964. Processos de variação do romance. Revista Brasileira de Folclore, Rio de_ Janeiro, ano_4, n. 8-10, p. 59-126. ” -- SPAGGIARI, B. . 1980. II canzoniere di Martin Codax. Studi Medievali, Spoleto, v. 21, n. 1, 3° série, p. 367- _' _ 409. ZUMTHOR, Paul, 1981. lntertextualité et ntouvance. Littérature, Paris, n. 41, p. 8-16.

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