Asa correio da_educacaofev2011

164 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
164
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Asa correio da_educacaofev2011

  1. 1. 30-01Entrevista a Jaime Carvalho e Silva1) Como caracteriza o ensino em Portugal nos últimos anos?O ensino não está tão bom como eu gostaria e acho que somos capazes de o pôr a funcionar,nem tão mau como o pintam os comentadores amantes de adjetivos cortantes e arrasadores.2) Que propostas sugeria para melhorar o ensino em geral e da Matemática em particular?Há muitas coisas que deveríamos fazer e poderíamos fazer melhor. Por exemplo, a ligaçãoescola-família não funciona satisfatoriamente: ainda há défice de explicação aos pais sobrequais os rumos de cada escola e os pais procuram demasiado a escola para discussõesredutoras de classificações escolares. A formação contínua de professores, essencial para umaboa qualidade do sistema educativo, está muito aquém do desejável. A Matemática tem ficadodemasiado longe das outras disciplinas e muitas vezes confinada aos poucos minutos onde nãocabe uma disciplina altamente exigente e extremamente cumulativa; uma saudável exceçãotem sido o chamado Plano da Matemática, mas este parece estar em vias de extinção. Esteplano suscitou um trabalho colaborativo dos professores de Matemática da mesma escola e deescolas vizinhas que é essencial para a contínua melhoria do ensino.3) Como é que o funcionamento das escolas pode ser melhorado?Primeiro que tudo, havendo um planeamento global, desde os horários aos espaços escolares.Não se compreende que nas escolas médias e grandes os horários não sejam planeados demodo a que as faltas dos professores de uma disciplina não sejam supridas por um professorda mesma área. Depois, atendendo às necessidades de específicas de cada disciplina. Não secompreende que muitas escolas não só não tenham laboratórios de Matemática, como estestenham sido “retirados” nalgumas escolas e os novos edifícios não os contemplem sequer. Porúltimo, um plano do tipo do Plano da Matemática deveria tornar-se permanente.4) A profissão de educador parece ser cada vez mais complexa, desgastante, exigente,excessiva… qual é a sua perspectiva sobre esta questão?“Excessiva”? Parece-me uma caracterização excessiva. Os desafios mudam necessariamente aolongo dos tempos e a “geração da Playstation” tem outras expectativas e necessidades a que aescola não pode ser alheia. O mundo do século XXI tem outras exigências que obrigam a escolaa uma reanálise constante. O “segredo” é a melhoria da formação inicial de professores e aintensificação da formação contínua.
  2. 2. 5) Como aperfeiçoar a articulação escola-família e fomentar o envolvimento dos paisna escola?Essa é uma questão muito pertinente, como já dei a entender. Em termos gerais entendo que aescola deve comunicar muito mais frequentemente com os pais, dizendo cada professor (nomínimo no início do ano escolar) o que espera dos pais na prossecução dos objetivos escolares:deve ler algum livro, estudar pelo manual escolar com regularidade, a ordem vai ser diferente,deve comprar-se um caderno de atividades? Os pais devem ser chamados a colaborar, nas suasáreas profissionais com a escola: debates, introduções à vida de várias profissões, visitas deestudo guiadas... É muito importante a existência de Dias Abertos nas escolas, deve-sevalorizar o trabalho dos diretores de turma, deve ser feito o convite aos pais para assistirem oumesmo colaborarem em atividades da escola.6) Que medidas se podem tomar para combater a indisciplina e o insucesso escolar?É curioso que essa questão seja colocada assim. O insucesso vem muito de situações de menoreficácia dos trabalhos escolares, nomeadamente pela agitação e mesmo indisciplina na sala deaula: ninguém desperdiça o que reconhece como importante e valioso para o seu futuro. Mas oinsucesso precisa de mais medidas do que as que temos hoje. Além do problema da motivação(muito ignorada em Portugal) existe o problema do apoio aos alunos com dificuldades, malestas se manifestam. Não sendo feito esse apoio atempadamente, passados dois ou três anos asituação torna-se muito difícil de resolver.7) De que forma é que as novas tecnologias poderão contribuir para um melhor ensino?Há uma multidão de formas e todos os dias vamos vendo novas formas. O essencial é que nãose perca de vista que o objetivo do ensino não é o uso da ferramenta em si (que rapidamentefica obsoleta), mas sim do que se pode fazer com ela. No caso da Matemática as possibilidadesde experimentação gráfica (tanto nos gráficos de funções dependentes de parâmetros, como nageometria de figuras elementares que podem ser deformadas tanto quanto se quiser) sãotantas que não se percebe como possam ainda existir alunos do Básico ou do Secundário quenunca veem um computador ou uma calculadora gráfica durante grande parte ou mesmo todoo ano!!!8) Qual a importância que atribui, agora e no futuro, ao manual escolar no ensino?O manual escolar é o Big Bang da aprendizagem: tudo começa aí. As aulas são uma discussão,uma exploração, uma confrontação de ideias que o manual enforma e só o manual permite queo aluno, leia, releia e reveja as vezes que quiser, à velocidade que quiser, meditando à vontadenos quês e porquês do que lhe aparece em frente. Além do mais, é o manual escolar que cria oprazer da leitura. Quem não quer ler, não quer aprender. Quem não quer ler tem de sermotivado, trabalhado, incentivado, acarinhado, acompanhado, castigado...9) Na sua perspetiva, como vê o futuro do ensino da Matemática?
  3. 3. O futuro será brilhante se trabalharmos todos para o melhorar. Se não trabalharmos não vale apena lamentarmo-nos.10) Como Secretário-Geral da ICMI, quais as resoluções que estão a ser tomadasmundialmente para a Educação em Matemática?O ICMI tenta melhorar a formação de professores a todos os níveis, a começar com osobjectivos do milénio, nomeadamente os do ensino primário universal: “Atingir o ensinoprimário universal significa mais do que o número de matrículas escolares. Engloba, também,educação de qualidade, o que significa que todas as crianças que frequentam a escola devemadquirir as aptidões básicas de alfabetização e de aritmética e completar o ensino primáriodentro do tempo previsto.” Sem descurar o apoio à colaboração internacional e aoaprofundamento da investigação em educação matemática. Um dos instrumentos principais sãoos Estudos ICMI (de que já foram publicados 17) e os congressos ICME (o próximo será emSeul, Coreia do Sul, de 8 a 15 de Julho de 2012). Todos os professores de Matemática em todoo mundo encontram apoio e inspiração em tais atividades.11) Quais as três medidas que implementaria de imediato, se fosse ministro da Educação?Isso era complicado: medidas avulsas dificilmente terão sucesso...Mas posso arriscar vias de trabalho: Definição clara das funções atuais dos professores numaescola, definição clara do grau de autonomia dos professores e das escolas, criação de umsistema praticável e justo de avaliação/responsabilização das escolas. Concentração curriculardisciplinar em torno das línguas (portuguesa e um mínimo de duas estrangeiras) e daMatemática. Criação de condições para que as restantes disciplinas funcionem em condições(nunca uma só aula por semana) mas não em todos os anos de escolaridade. Criação deestruturas de remediação a todas as disciplinas desde o 1.º ano de escolaridade. Criação de uminstituto de desenvolvimento curricular e um outro de avaliação, assim como a redução daburocracia geral ao mínimo indispensável.12) Que mensagem/conselho gostaria de deixar aos pais, professores e alunos?A Matemática é uma ferramenta essencial para qualquer cidadão do século XXI. Estar equipadocom a ferramenta “Matemática” é estar em condições de escolher a melhor opção de vida emcada momento; não estar equipado com essa ferramenta é ser “empurrado” para opções derecurso que criarão enormes frustrações.A Matemática não é nada de transcendente, não está reservada a génios (são obviamenteprecisos génios em todas as áreas), todos podem aprender a Matemática de uso quotidiano, talcomo, por exemplo, ela é definida no estudo PISA da OCDE. Não é uma tarefa fácil, mas é umobjetivo alcançável.* Jaime Carvalho e Silva é professor associado da Faculdade de Ciências e Tecnologias daUniversidade de Coimbra e secretário-geral da Comissão Internacional da Instrução daMatemática.

×