Michel Foucault - A Arqueologia do Saber

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Apresentação realizada para a disciplina de Estudos do Discurso e Processos Comunicacionais do PPG em Processos e Manifestações Culturais

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Michel Foucault - A Arqueologia do Saber

  1. 1. O ENUNCIADO E O ARQUIVO DOUTORADO EM PROCESSOS E MANIFESTAÇÕES CULTURAIS ESTUDOS DO DISCURSO E PROCESSOS COMUNICACIONAIS POLIANA LOPES 2015/1
  2. 2. • à primeira vista, ele aparece como um elemento último, indescomponível, suscetível de ser isolado em si mesmo e capaz de entrar em um jogo de relações com outros elementos semelhantes a ele – como um átomo do discurso ; "Ninguém ouviu" X “É verdade que ninguém ouviu" • duas proposições que dizem a mesma coisa não são dois enunciados iguais; elas não são equivalentes nem intercambiáveis, não estão no mesmo lugar no plano do discurso, não pertencem exatamente ao mesmo grupo de enunciados . "Os critérios que permitem definir a identidade de uma proposição, distinguir várias delas sob a unidade de uma formulação, caracterizar sua autonomia ou sua propriedade de ser completa, não servem para descrever a unidade singular de um enunciado." p.92 DEFINIR O ENUNCIADO
  3. 3. O ENUNCIADO • pode ser reconhecido em uma frase gramaticalmente isolável; • não corresponde à estrutura linguística da frase – desconstrução ; • existe quando se pode reconhecer e isolar um ato de formulação, quando descreve-se a operação que foi efetuada pela própria fórmula, em sua emergência - promessa, decreto, ordem; Nos três casos (a partir da gramática, lógica e análise), o enunciado não é compreendido em toda sua extensão, porque encontramos enunciados: • sem estrutura proposicional legítima; • onde não se reconhece nenhuma frase; • em maior quantidade do que os atos ilocutórios que se pode isolar.
  4. 4. • a língua jamais se apresenta em si mesma e em sua totalidade; • os signos que constituem seus elementos são formas que se impõem aos enunciados e que os regem do interior; • sem enunciados, a língua não existiria - mas nenhum enunciado é indispensável à existência da língua; • língua e enunciado não estão no mesmo nível de existência. O ENUNCIADO E A LÍNGUA Não é preciso uma construção linguística para formar um enunciado, mas não basta uma realização material de elementos linguísticos ou qualquer emergência de signos no tempo e no espaço.
  5. 5. A FUNÇÃO ENUNCIATIVA • uma série de signos se torna um enunciado quando tem com "outra coisa" uma relação específica que se refira a ela mesma - e não a sua causa ou elementos; • a relação entre o enunciado e o que ele enuncia não é a relação entre proposição e referente ou entre a frase e seu sentido; • a ausência de referente é o correlato do enunciado, aquilo a que se refere, seu "tema“; • o referencial do enunciado define as possibilidades de aparecimento e delimitação do que dá à frase seu sentido, à proposição seu valor de verdade. Esse conjunto caracteriza o nível enunciativo da formulação.
  6. 6. A FUNÇÃO ENUNCIATIVA • o enunciado se distingue por manter com o sujeito um relação determinada; • o sujeito não é necessariamente o autor da formulação. Este lugar pode ser ocupado por indivíduos diferentes e é variável o bastante para manter-se idêntico a si mesmo através de várias frases – ou para se modificar a cada uma; • esse lugar do “autor” é uma dimensão que caracteriza toda formação enquanto enunciado e constitui um dos traços que pertencem à função enunciativa e permitem descreve-la; • descrever essa formulação enquanto enunciado é determinar qual é a posição que o indivíduo pode e deve ocupar para ser o sujeito.
  7. 7. A FUNÇÃO ENUNCIATIVA • para ser tratar de um enunciado, uma frase precisa ser relacionada com um campo adjacente; • o enunciado tem margens povoadas de outros enunciados, as quais o tornam possível – margens não são o contexto; • uma sequência de elementos linguísticos só é enunciado quando imersa em um campo enunciativo em que apareça como elemento singular; • há sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, neles se apoiando e deles se distinguindo; • ele supõe outros, tem um campo de coexistências, efeitos de séries e de sucessão, uma distribuição de funções e de papeis. •
  8. 8. A FUNÇÃO ENUNCIATIVA • o enunciado deve ter existência material ; é, em parte, constituído por ela ; • ele precisa de um suporte, um lugar e uma data. Se os requisitos mudam, ele muda de identidade; • a enunciação é um acontecimento que não se repete, é situada e datada; o enunciado pode ser repetido apesar da materialidade; • a identidade do enunciado está submetida aos limites impostos pelo conjunto dos outros enunciados em que figura - a frase “A terra é redonda." é enunciados diferentes antes e depois de Copérnico; • Um discurso e sua tradução simultânea são um único e mesmo enunciado, em formas linguísticas diferentes - o conteúdo informativo e as possibilidades de uso são as mesmas.
  9. 9. A DESCRIÇÃO DOS ENUNCIADOS Fixar o vocabulário • performance linguística: conjunto de signos produzidos a partir de uma língua natural; • formulação: ato que faz surgir, em um material qualquer e segundo uma forma determinada, esse grupo de signos; • frase ou proposição: unidades que a gramática ou a lógica podem reconhecer em um conjunto de signos; • enunciado: modalidade de existência própria desse conjunto de signos, que lhe permite ser algo diferente do uma série de traços e estar dotado de uma materialidade repetível; • - discurso: constituído por um conjunto de sequência de signos, enquanto enunciados - a lei de tal série é a formação discursiva. Ou seja, é o conjunto de enunciados que se apoia em um mesmo sistema de formação; • descrever um enunciado é definir as condições nas quais se realizou a função que deu origem a uma série de signos uma existência específica.
  10. 10. O enunciado é não oculto: • caracterizada pela existência de um conjunto de signos produzidos, a análise enunciativa só pode se referir a análise de performances verbais realizadas; • a análise enunciativa é uma análise histórica fora de qualquer interpretação, que pergunta como as coisas existem, o que significa para elas sua manifestação; • dificuldade: as coisas são ditas por outras ou são esquecidas - não afeta o enunciado como definido por Foucault; • a polissemia se refere a uma frase ou proposição - que podem ter significações diversas - sobre um base enunciativa que permanece idêntica. A DESCRIÇÃO DOS ENUNCIADOS O enunciado é não visível: • o nível enunciativo está dentro das frases e proposições; • a estrutura significante da linguagem remete sempre a outra coisa, ao ausente, longínquo; • o enunciado é suposto por outras análises da linguagem sem que elas tenham que mostra-lo; • considerar os enunciados em si mesmos é tentar torna visível e analisável a transparência que constitui o elemento de sua possibilidade. • a linguagem, na instância de seu aparecimento e modo de ser, é o enunciado e como tal se apoia em uma descrição nem transcendental nem antropológica.
  11. 11. Ajustes da descrição dos enunciados à análise das formações discursivas: • organizar o domínio dos enunciados, seu princípio de agrupamentos, unidades históricas que podem constituir e os métodos que permitem descreve-los; • as dimensões próprias do enunciado são usadas na demarcação das formações discursivas; • a formação discursiva constitui grupos de enunciados, conjuntos de performances verbais que não estão ligadas entre si por laços gramaticais (frases), lógicos (proposições) ou psicológicos (formulações) - mas ligados no nível dos enunciados; • descrever enunciados é tentar revelar o que se poderá individualizar como formação discursiva - que é o sistema enunciativo geral ao que obedece um grupo de performances verbais. A DESCRIÇÃO DOS ENUNCIADOS
  12. 12. A DESCRIÇÃO DOS ENUNCIADOS 1. A demarcação das formações discursivas revela o nível específico do enunciado - a descrição dos enunciados conduz à individualização das formações discursivas. 2. Um enunciado pertence a uma formação discursiva, a regularidade dos enunciados é definida por ela. 3. Chama-se de discurso um conjunto de enunciados quando eles se apoiam na mesma formação discursiva, não sendo uma unidade retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento pode ser assinalado na história. 4. A prática discursiva é um conjunto de regras anônimas, históricas, determinadas no tempo e no espaço, que definiram em dada época e área social as condições de exercício da função enunciativa .
  13. 13. RARIDADE, EXTERIORIDADE, ACÚMULO A análise do discurso busca estabelecer uma lei de raridade: • a raridade repousa no princípio de que nem tudo é sempre dito; • os enunciados são estudados no limite que os separa do que não está dito, na instância que os faz surgirem à exclusão de todos os outros e onde a formação discursiva é uma distribuição de lacunas, de vazios, de ausências, de limites, de recortes; • não se supõe que haja algo oculto sob enunciados manifestos; eles são analisados não como estando no lugar de outros enunciados, pois cada enunciado ocupa um lugar que pertence apenas a ele; • ela explica que os enunciados não são uma transparência infinita, mas coisas que se transmitem e se conservam que tem um valor que tentamos nos apropriar.
  14. 14. RARIDADE, EXTERIORIDADE, ACÚMULO • analisar uma formação discursiva é procurar a lei de sua pobreza, medir e determinar sua forma específica e pesar o valor dos enunciados.; • o discurso deixa de ser o que é para a atitude exegética: tesouro inesgotável de onde se podem tirar sempre as riquezas; • a análise dos enunciados trata-os na exterioridade, ao contrário da descrição histórica das coisas ditas, que se volta do exterior ao interior; • pela exterioridade, a análise ocorre pela descontinuidade, apreendendo sua irrupção no lugar e no momento de produção, reencontrando a incidência de acontecimento; • A exterioridade supõe que o campo dos enunciados seja aceito como local de acontecimentos, regularidades, relacionamento, modificações determinadas, como um domínio prático autônomo que pode se descrever em seu próprio nível.
  15. 15. RARIDADE, EXTERIORIDADE, ACÚMULO A análise dos enunciados: • está no nível do "diz-se“ - conjunto das coisas ditas, relações, regularidades e transformações que podem receber o nome de um autor; • leitura, traço, decifração, memória - termos que definem o sistema que permite arrancar o discurso passado da inércia e reencontrar algo de sua vivacidade perdida; • supõe que os enunciados sejam na remanência que lhes é própria, que se conservaram graças a um certo número de suportes e técnicas materiais, segundo certos tipos de instituições e com certas modalidades estatutárias; • a remanência pertence ao enunciado; o esquecimento e a destruição são seu grau zero e sob o fundo que ela constitui se desenrolam os jogos da memória e lembrança; • supõe que se considerem os fenômenos da recorrência, pois ele compreende um campo de elementos antecedentes em relação aos que se situa com o poder de reorganizar e redistribuir segundo relações novas.
  16. 16. O A PRIORI HISTÓRICO E O ARQUIVO • a positividade de um discurso caracteriza-lhe a unidade através do tempo e além das obras individuais. Ela define um espaço limitado de comunicação, mas mais extenso que o jogo das influências que pôde ser exercido de um autor a outro; • toda a massa de textos de uma mesma formação discursiva comunica em seus discursos pela forma da positividade, que desempenha o papel do que se poderia chamar um a priori histórico - condição de realidade para enunciados; • o discurso não tem apenas um sentido ou verdade, mas uma história que não o reconduz às leis de um devir estranho; é um tipo de história que lhe pertence , mesmo em relação com outros tipos; • a densidade das práticas discursivas tem sistemas que instauram os enunciados como acontecimentos e coisas. São esses sistemas de enunciados que Foucault chama de arquivo.
  17. 17. O A PRIORI HISTÓRICO E O ARQUIVO O arquivo: • inclui enunciados que tenham aparecido pelo jogo de relações que caracterizam o nível discursivo, nascidos segundo regularidades específicas; • é a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares; • agrupa as coisas ditas em figuras distintas, que se compõem segundo relações múltiplas, que se mantenham ou esfumem por regularidades específicas; • define, na raiz do enunciado-acontecimento e no corpo em que se dá, o sistema de sua enunciabilidade; • diferencia os discursos na existência múltipla e os especifica em duração própria; • define uma prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciados como acontecimentos regulares e coisas oferecidas ao tratamento e à manipulação; • entre a tradição e o esquecimento, faz surgir as regras de uma prática que permite aos enunciados subsistirem e se modificarem regularmente - sistema geral da formação e da transformação dos enunciados.
  18. 18. "A revelação, jamais acabada, jamais integralmente alcançada do arquivo, forma o horizonte geral a que pertencem a descrição das formações discursivas, a análise das positividades, a demarcação do campo enunciativo. O direito das palavras - que não coincide com o dos filólogos - autoriza, pois, a dar a todas essas pesquisas o título de arqueologia. Esse termo não incita à busca de nenhum começo; não associa a análise a nenhuma exploração ou sondagem geológica. Ele designa o tema geral de uma descrição que interroga o já dito no nível de sua existência; da função enunciativa que nele se exerce, da formação discursiva a que pertence, do sistema geral de arquivo de que faz parte. A arqueologia descreve os discursos como práticas especificadas no elemento do arquivo." (FOUCAULT, p. 149)

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