poemas turba
paulo alzamora

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POEMAS TURBAÇÕES
paulo alzamora
A todos aqueles que durante 50 anos
contribuíram com letras para a
minha sopinha.
Tive o privilégio de ver nascer, um a um, cada poema
deste livro. Ao longo de dois meses foram-me sendo
presenteados, todo...
ACREDITA

Ainda te sobeja a loucura do sonho
Ainda te sobeja a ilusão da honestidade
Ainda te sobeja o delírio da criativi...
ALQUIMISTA

Empertigado ente
Pavoneante criatura
Jactante personagem
Bazofiador ser
De arrogantes fanfarronices
Presunçosa...
ALUCINAÇÃO

A língua peja-te a boca
As pálpebras obstruem-te a vista
Os braços impedem-te o abraço
Os pés tolhem-te o anda...
AMOR CONFEITO

De mel se faz a noite
De açúcar o abraço
De caramelo o enlace
De chantilly a fantasia
De ovos-moles o acto
...
AMOR É

Observo-te na contra luz
No fogo do pôr-do-sol
Admiro-te a silhueta
Torneada a negro
Surripiada à neblina
Vigio-te...
APRESSADAMENTE

Bebo a vida de um trago
Degluto o dia numa única garfada
Sorvo a noite sem respirar
Devoro a cidade num se...
CLONE

Encostei-me à solidez da tua estrutura
Tornei-me dependente da tua sensatez
Endeuso a irrefutabilidade dos teus pri...
CONTRA-SENSO

Porque colocamos esse biombo
A encobrir o sentimento?
Porque nos arrastamos atrás desse absurdo
De resguarda...
CREDO

A esse dedo em riste
Que me pinta descrente
A essa garra empenhada
Que me impinge doutrinas
A essa boca matraqueado...
DESTINAR A TARDE

A tarde é para fazer o amor
Escapar da gaiola da rotina
Percorrer o corpo com a carícia
Deixar escorrega...
DÚVIDA

Onde encaixas na minha história
Que personagem incorporas na minha peça
Ou que papel desempenhas no meu filme
Que ...
E SUBITAMENTE…

Tudo rápido
Tudo dolorosamente célere
Tudo nostalgicamente doloroso
Dolorosamente veloz
No período de um f...
ENGUIA

Ziguezagueias pela multidão
Esgueiras-te pelas quelhas
Adejas-te quando se aproximam
Contorces-te se te abordam
Di...
ESCULTURA

A pele retesada
Repuxada atrás das orelhas
Os olhos aparados de sulcos
Amendoadoadamente esguios
Os sobrolhos a...
ESPIRAL

…
Afagando a canela
Sem pousar a mão
Roçando no pé o sexo
Insinuando a cópula
Voltando em looping ao início
Delic...
Voltando em looping ao início
Deliciosamente exaurido
Osculando o cabelo
…
EXCLUIDO

Não tenho tempo
Para me incomodar
Estou demasiado ocupado
Para me aborrecer
Esgotei o prazo
Para me importunar
É...
FEBRE

Que ideia absurda essa
A de um mundo todo louco
Que despropósito tão grande
Querer imprimir-lhe mudança
Que insensa...
FINGERING

Viajando a mão
Passeando a pele
Divagando o corpo
Vagueando o peito
Beliscando o bico
Vagabundeando o ventre
Va...
Empinando o quadril
Contraindo a nádega
Contorcendo o tronco
Agitando a cabeça
Gemendo
Espasmando
Extasiando
FLASH-BACK

Espreguiça-se na chaise longue
Deleitada por esse horizonte
Que traz o infinito estampado
Encaixilhado na amur...
FLORAL

Um corpo de camélia
Um cabelo de jasmim
Um semblante de lírio
Uma expressão de crisântemo
Uma boca de dália
Um sor...
FUSÃO

Hoje estou naqueles dias
De te espremer contra mim
Esborrachar-te o peito
Esmagar-te a bochecha
Derreter-te no aper...
HAVERÁ SEMPRE

Haverá sempre um futuro
Mesmo no vazio do tempo
Não adianta que emparedes o vento
De nada serve que envasil...
HOJE É O DIA

Vem das entranhas
O borralho que me aquece
Vem da epiderme
O perfume que me invade
Vem do som da voz
A melod...
HOMO PERFECTUS

Encurva-se o homem vertical
Desbarata-se-lhe o castelo de sonhos
Renuncia-se-lhe aos combates íntegros
Vel...
IMPAVIDEZ

Ouço violentamente a violência da violência
Ouço o estardalhaço assertivo das destruições
Ouço o estrondear ima...
IN VERSO

A boa poesia
Está no verso por declamar
A boa música
Está na partitura por tocar
A boa comida
Está na receita po...
INVERNO

A morrinha lá fora
A amolecer a vontade
A mantinha a cobrir as pernas
Os traseiros encovados no sofá
Os braços en...
JACENTES

Definhamo-nos todos os dias um nico
Doemo-nos deficitariamente
Compadecemo-nos espaçadamente
Emocionamo-nos epis...
LUME

Sentes o brasume ao teu lado
Encostas-te a esse borralho
Aconchegas-te nessa acendalha
Enroscas-te nesse tição
E cav...
MANDAMENTOS

Não deixarás de te deificar a qualquer preço
Não deixarás de idolatrar a tua matula
Não deixarás de ascender ...
MONTADA

Amazona
Trabalhas a rês
Amansas o potro
Em desenfreado concúbito
No teu hábito varonil
Copulas sem sela
Fruis des...
NARCISO

Que excelso ser, eu
O espelho grita-o
Que iminente personalidade
Que ilustre individualidade
Que sublime competên...
NORMAL

Envergou a pele do avesso
Vestiu-a da própria sombra
Projectou no chão o corpo autêntico
Imprimiu-se em negativo
C...
OPOSTOS

Nem timorato, nem arrojado
Enverga ambos titubeante
Fascinado pela ousadia
Agrilhoado pelo receio
Harmoniza-se ne...
ORAÇÃO

Bem-aventurados os aproveitadores
Pois deles será a dianteira
Bem-aventurados os extorsores
Pois deles será o banq...
PARA ALÉM

Entopes o espaço do pensamento
Preenches o vácuo da lembrança
Transpões as fronteiras da tela
Extravasas os con...
PARA TI

Tenho para ti um desejo
Que acolherás sem pejo
Tenho para ti um carinho
Que regarás a bom vinho
Tenho para ti uma...
PASSAMENTO

Quando um artista morre
Um país abre uma ferida
Quando o artista morre
A cultura abre uma chaga
Quando o artis...
PATOLOGIA

A ganância é deplorável
O egoísmo é lastimoso
O individualismo é detestável
A imbecilidade é nociva
A humilhaçã...
PERVERSÃO

Porque me avexas
Farpeias com insultos
Ensanguentas com desprezo?
Porque me punes
Golpeias com críticas
Feres c...
POUCO

Espremes uma só gota de ti
Para encharcar um sequeiro
Gretado de crónica aridez
Balbucias uma só palavra
A quem per...
PREDADORA

No seu instinto ardiloso
Armadilha o caminho
Tece a cilada
Embosca o desprevenido
Lança-lhe o engodo
Enreda o i...
PRODÍGIO

Como enxertas em ti o grão
Que germina e espigará
Como prenha és mais cheia
Que o indefinível volume da tua barr...
RESPOSTA

Porque caminho paralelo?
Porque me movo aos solavancos?
Porque me arrasto cambaleante?
Porque fujo do embate?
Po...
RESVALO

Haverá sempre mais um gato negro
Para cruzar o teu caminho
Haverá sempre mais uma sexta-feira treze
A ensombrar o...
RETORNO

O teu menino volta sempre
No sorriso inseguro
Nos olhos achinesados
Nas mãos sapudas
O teu menino volta sempre
Na...
RICO

Diz-se entregue à sorte
Confiscado pelo acaso
Encarcerado por fadário
Pungente e insensível
Maldiz a desventura
Como...
SEMPRE

Hoje é mais um dia,
Senti-o como sempre ao acordar
Com esse odor chamativo de carne…
Hoje é mais um dia,
Senti-o c...
TU

Os teus olhos brilham
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  1. 1. poemas turba paulo alzamora es
  2. 2. POEMAS TURBAÇÕES paulo alzamora
  3. 3. A todos aqueles que durante 50 anos contribuíram com letras para a minha sopinha.
  4. 4. Tive o privilégio de ver nascer, um a um, cada poema deste livro. Ao longo de dois meses foram-me sendo presenteados, todos os dias, às vezes dois, por vezes três … Ri, chorei… O meu indefectível companheiro, sabia que eu iria fazê-lo. É nisso que dá o partilhar da vida, de caminhar lado a lado ao longo de muitos anos. Já não somos facilmente surpreendidos pelo outro. Se é certo que “turbação” pode significar estado de turvo, também é certo que significa inquietação e desassossego. Com essas “prendinhas” diárias fui sedimentando a minha certeza de que o Paulo não estava turvo, antes pelo contrário. Porém, mantém a mesma inquietação, a mesma impaciência, a mesma combatividade dos seus tempos de juventude. Se o livro anterior resultou de uma selecção de poemas escritos no final da adolescência, a ilustrar o idealismo dessa fase, os fragmentos deste livro tiveram o propósito de resultar no “marco dos 50”. O desassossego agora é diferente, perdeu a inocência… Ana Machado
  5. 5. ACREDITA Ainda te sobeja a loucura do sonho Ainda te sobeja a ilusão da honestidade Ainda te sobeja o delírio da criatividade Ainda te sobeja a quimera da harmonia Ainda te sobeja a fantasia da correcção Ainda te sobeja a utopia da fraternidade Ainda te sobeja a extravagância da excelência Ainda te sobeja a ficção da dignidade Ainda te sobeja o capricho da nobreza Ainda te sobeja o disparate da magnitude Ainda te sobeja a aberração da generosidade Ainda te sobeja o desvario da paixão Ainda tens hipóteses, Homem!
  6. 6. ALQUIMISTA Empertigado ente Pavoneante criatura Jactante personagem Bazofiador ser De arrogantes fanfarronices Presunçosa pessoa De excêntricas bizarrias Alardeadora individualidade De fúteis vanglórias Onde descobriste esse filão? Onde desencantas-te essa riqueza? Onde desenterras-te essa sobrevalia? Onde exumas-te esse tesouro? Elevaste ao cume a mediocridade Promoveste ao auge o demérito Transformas-te a imbecilidade no teu maná A inaptidão no teu sustento A incompetência no teu manjar Como venero o teu elixir! Como reverencio a tua pedra filosofal! Como anseio pela tua panaceia!
  7. 7. ALUCINAÇÃO A língua peja-te a boca As pálpebras obstruem-te a vista Os braços impedem-te o abraço Os pés tolhem-te o andar A pele inviabiliza-te o tacto O coração furta-te o sentimento O cérebro castra-te o imaginário O corpo encarcera-te a mobilidade A escola surripia-te a aprendizagem O meio limita-te a evolução A sociedade subtrai-te a liberdade A vida enclausura-te nessa tetraplegia chamada Mundo
  8. 8. AMOR CONFEITO De mel se faz a noite De açúcar o abraço De caramelo o enlace De chantilly a fantasia De ovos-moles o acto De chocolate o clímax De confeitos o descanso De maçapão o encore De compota o êxtase De moscatel o raiar do dia De guloseimas a nossa lascívia De glicose a nossa luxúria
  9. 9. AMOR É Observo-te na contra luz No fogo do pôr-do-sol Admiro-te a silhueta Torneada a negro Surripiada à neblina Vigio-te apanhando as conchas Que mãe de santo lançará Espreito-te a dançar esvoaçante Embriagada pela maresia Espio-te a rebolar pela duna Gargalhando inocentemente Arrasto-te em volteaduras de mãos dadas Até a tontura nos derrubar Meto-te mar adentro Com a nudez excitando as ondas Demoro-te no beijo Até o momento ser eterno Vejo-te feliz E rejúbilo com quanto o sou também
  10. 10. APRESSADAMENTE Bebo a vida de um trago Degluto o dia numa única garfada Sorvo a noite sem respirar Devoro a cidade num segundo Na gáspea, empanturro-me de gente E arróto o trabalho a toda a mecha A todo o vapor corro pró sofá E o mais veloz que posso, carrego no play Então, apressadamente, revejo tudo em slow motion
  11. 11. CLONE Encostei-me à solidez da tua estrutura Tornei-me dependente da tua sensatez Endeuso a irrefutabilidade dos teus princípios Descaracterizo-me na absorção do teu carácter Enveredo pelo exemplo da tua conduta Adopto a excelência da tua moral Esvazio-me para que me ocupes Mas não passo de uma versão made in china de ti
  12. 12. CONTRA-SENSO Porque colocamos esse biombo A encobrir o sentimento? Porque nos arrastamos atrás desse absurdo De resguardarmos um amor tão sublime? Porque escondemos o gesto terno Ocultamos o olhar apaixonado Dissimulamos a gulodice libidinosa E sepultamos as fantasias? Porque não nos beijamos em público Ou nos galanteamos ao pé de outros Não nos revelamos apaixonados Persistimos em não dizer “amo-te”? Porque deixei de te oferecer flores E tu de me bordares lenços? Será antiquado andarmos de mão na mão Arcaico perder o filme num eterno linguado? Será ultrapassado prender os olhos nos outros olhos Trocar babosices Desprender risadas patéticas? Será mesmo ridículo escrevermos poemas de amor?
  13. 13. CREDO A esse dedo em riste Que me pinta descrente A essa garra empenhada Que me impinge doutrinas A essa boca matraqueadora Que me cativa cerimoniosamente Em labirínticos sortilégios A esses braços feiticistas Que urdem perniciosamente teias Apologizando novos Olimpos A essas pernas arrastadeiras Que me rojam empenhadas Aos pés de incontáveis divindades Não vos ufaneis de sucesso Não vos regozijeis do êxito Não vos vanglorieis da vitória Eu só acredito que só do homem sairá o Homem Eu só acredito no homem
  14. 14. DESTINAR A TARDE A tarde é para fazer o amor Escapar da gaiola da rotina Percorrer o corpo com a carícia Deixar escorregar a mão atrevida Levar com o beijo todo o sabor Sorver o gemido em surdina Segredar cortejos com malícia Contorcer a pele recém-lambida Roçar a genitália rapada Arder entrelaçando os instintos Rumar em viagem descontrolada Explodir em ofegante torpor A tarde hoje, é para fazer o amor
  15. 15. DÚVIDA Onde encaixas na minha história Que personagem incorporas na minha peça Ou que papel desempenhas no meu filme Que lugar destinar-te no meu elenco Ou que cargo na minha hierarquia Até que ponto retomamos um caminho Depois de perdidos por atalhos Até que ponto recuperamos uma riqueza Depois de a esbanjar levianamente Até que ponto expectamos uma vitória Depois de jogar fora os trunfos Uma ferida não é uma ressaca Não vai lá a Guronsan Suturamos um golpe Mas não o extinguimos do corpo Ou o abolimos da vida Não conseguimos remover uma cicatriz Sem causar outra É utópico reedificar um pedestal No templo que um novo altar tenha repletado
  16. 16. E SUBITAMENTE… Tudo rápido Tudo dolorosamente célere Tudo nostalgicamente doloroso Dolorosamente veloz No período de um flash Encarquilha-se-me o invólucro Amarrota-se-me a pele Engelha-se-me o rosto Descaem-me as pálpebras Mirram-me as mãos Tudo, tudo melancolicamente instantâneo Os amigos a metamorfosearem-se Os entes a desaguarem noutros mares Os arquivos sempre abertos na véspera Só que a contristar cada vez mais Filho, ontem embalei-te no colo Hoje volatilizas-te a chamar-me cota
  17. 17. ENGUIA Ziguezagueias pela multidão Esgueiras-te pelas quelhas Adejas-te quando se aproximam Contorces-te se te abordam Dissimulas-te quando te observam Camuflas-te se te destapam Mascaras-te quando te interpelam Encaracolas-te se te olham Esfumaras-te quando te tocam Remoinhas-te se te apalpam Disfarças-te quando te radiografam Encobres-te se te focalizam Enfarpelando-te grotescamente Como és cristalina enquanto negrura Como és transparente enquanto treva
  18. 18. ESCULTURA A pele retesada Repuxada atrás das orelhas Os olhos aparados de sulcos Amendoadoadamente esguios Os sobrolhos alteados Expressivamente talhados O nariz coanóide Cuidadosamente esquadrejado Os lábios rechonchudos Revirando as bordas Substancialmente injectados O peito túrgido De mamas aboladas Promovidas a nova copa E recheadas a saquetas gelatinosas A barriga esticada Sem vestígios de refegos O apuro da velha prega Atribuído ao nadegueiro O quadril cientificamente rectificado Sem escapar às investidas do cutelo E a coroar expressão esclarecedora GENUINE DEVICE Estrategicamente tatuada acima do sacro
  19. 19. ESPIRAL … Afagando a canela Sem pousar a mão Roçando no pé o sexo Insinuando a cópula Voltando em looping ao início Deliciosamente exaurido Osculando o cabelo Desgrenhando-o selvaticamente Debicando os lábios Avermelhando-os de carmim forte Mordiscando os mamilos Eriçando-os rudemente Circundando a nariz o umbigo Indecorosa e subversivamente Cunilínguando a vulva Simulando-lhe o coito Tacteando as coxas Arranhando-as indelevelmente Pressionando os joelhos Rejuntando-os novamente Afagando a canela Sem pousar a mão Roçando no pé o sexo Insinuando a cópula
  20. 20. Voltando em looping ao início Deliciosamente exaurido Osculando o cabelo …
  21. 21. EXCLUIDO Não tenho tempo Para me incomodar Estou demasiado ocupado Para me aborrecer Esgotei o prazo Para me importunar É totalmente inoportuna Essa oportunidade Absolutamente inconveniente Essa conveniência Despropositadamente intempestivo Esse ensejo Um estorvo incontornável Essa ocasião Transtorna-me consideravelmente esse transtorno Constrange-me genuinamente esse constrangimento Maça-me efectivamente essa maçada Não tenho tempo Para me ralar Estou demasiado ocupado Para me apoquentar Esgotei o prazo Para me amofinar Ando demasiado envolvido Para me envolver
  22. 22. FEBRE Que ideia absurda essa A de um mundo todo louco Que despropósito tão grande Querer imprimir-lhe mudança Que insensatez tão evidente Ambicionar mudar-lhe as políticas Que disparate monumental Descobrir-lhe os extremismos Que descomedimento imponente Combater-lhe os vícios Que imprudência magnificente Regular-lhe as negociatas Que desatino exacerbado Desmistificar-lhe as crenças Que insolência sublime Aniquilar-lhe os timoneiros Que exagero excelso Impugnar-lhe os ditames Que inconveniência delirante Querer o mundo melhor
  23. 23. FINGERING Viajando a mão Passeando a pele Divagando o corpo Vagueando o peito Beliscando o bico Vagabundeando o ventre Vadiando a unha Arrepiando o poro Eriçando a penugem Afagando a anca Acariciando a coxa Invadindo a vulva Sondando o ornato Estimulando o rebento Provocando a gema Friccionando o lábio Espalhando o suco Esfregando o damasco Acelerando o ritmo Alentecendo a cadência Ofegando a respiração Arfando Bafando Mordendo a travesseira Rebolando o edredão
  24. 24. Empinando o quadril Contraindo a nádega Contorcendo o tronco Agitando a cabeça Gemendo Espasmando Extasiando
  25. 25. FLASH-BACK Espreguiça-se na chaise longue Deleitada por esse horizonte Que traz o infinito estampado Encaixilhado na amurada O mar encarneirado Encrespado pelo vento As nuvens a emantar o céu Formando o ecrã Onde repassa o seu filme Memorial bonito Triunfante Com os seus amados Doando-lhe toda a alma Na essência dos seus papéis Ergue a flûte Brinda aos happy endings Na convicção indubitável Deste ser também um orgasmo A calma conquistou os seus domínios A paz é toda sua
  26. 26. FLORAL Um corpo de camélia Um cabelo de jasmim Um semblante de lírio Uma expressão de crisântemo Uma boca de dália Um sorriso de violeta Um colo de estrelícia Um umbigo de gardénia Um andar de orquídea Uma voz de jacinto Uma pele de girassol Uma tez de narciso Um cheiro de amarílis Uma sedução de tulipa Uma temperatura de acácia Uma energia de magnólia Uma aura de miosótis És o melhor bouquet Que a vida me ofereceu
  27. 27. FUSÃO Hoje estou naqueles dias De te espremer contra mim Esborrachar-te o peito Esmagar-te a bochecha Derreter-te no apertão Consumir-te sôfrego Dissipar-te impetuosamente Dissolver-te fogosamente Jorrar-te sobre mim Brutal Intenso Arrebatado Hoje estou naqueles dias De te afundar em mim Incorporar-te no meu corpo Sumir-te nas minhas células Adunar os nossos seres Fundir as nossas almas Alcançar a impossibilidade Do amor pleno Inteiro Completo Perfeito
  28. 28. HAVERÁ SEMPRE Haverá sempre um futuro Mesmo no vazio do tempo Não adianta que emparedes o vento De nada serve que envasilhes o mar Ou que carbonizes o sol Haverá sempre um futuro Mesmo no vazio do tempo Podes desrimar os Lusíadas Carracundar a Gioconda Desafinar o Stradivarius Que haverá sempre um futuro Mesmo no vazio do tempo Hoje guias a trepadeira E amanhã ela esgueira-se desvairada Adobas a raiz Mas a toupeira dá conta dela Ainda assim haverá sempre um futuro Mesmo no vazio do tempo Olha no espelho E destapa aos olhos a mulher grande Que dessa grandeza Sairá o fruto destinado Olha minha força! Haverá sempre um futuro Mesmo no vazio do tempo
  29. 29. HOJE É O DIA Vem das entranhas O borralho que me aquece Vem da epiderme O perfume que me invade Vem do som da voz A melodia que me embala Vem da onda do cabelo O mar que me ocupa Vem da palma da mão O destino que me comanda Vem do engenho Toda a sapiência que me tricota Vem de todo o lado que tu és Tudo aquilo que me estrutura Hoje é o dia de todo aquele açúcar Me tornará voluntariamente diabético
  30. 30. HOMO PERFECTUS Encurva-se o homem vertical Desbarata-se-lhe o castelo de sonhos Renuncia-se-lhe aos combates íntegros Vela-se-lhe o ideal nobre Soterra-se-lhe a diversidade Incinera-se-lhe a genuinidade Aniquila-se-lhe a originalidade Volatiliza-se-lhe a atitude Dissipa-se-lhe a iniciativa Adopta-se-lhe a mesquinhez Cultiva-se-lhe a ignorância Promove-se-lhe a hipocrisia Desenvolve-se-lhe a incompetência Espevita-se-lhe a arrogância Fomenta-se-lhe a imbecilidade Viva o homem novo!
  31. 31. IMPAVIDEZ Ouço violentamente a violência da violência Ouço o estardalhaço assertivo das destruições Ouço o estrondear imaculado das implosões Ouço o estrépito silencioso da mole Ouço o barulhar genesíaco dos amotinados Ouço o retumbar efervescente das manifestações Ouço o torpedear esgaçado das palavras Ouço o berrar esganiçado dos slogans Ouço o ribombar presunçoso das locuções Ouço a estridência empertigada das palavras de ordem Ouço a reverberação das intervenções Ouço o ensurdecedor espalhafato da surdez Ouço o colossal fragor da indiferença
  32. 32. IN VERSO A boa poesia Está no verso por declamar A boa música Está na partitura por tocar A boa comida Está na receita por confeccionar A boa crença Está na religião por professar O bom golo Está na penalidade por marcar A boa casa Está no projecto por desenhar O bom gadget Está no aparelho por inventar A boa frase Está no lema por propagandear O bom carro Está no veículo por fabricar A boa mulher Está no mito por desmascarar
  33. 33. INVERNO A morrinha lá fora A amolecer a vontade A mantinha a cobrir as pernas Os traseiros encovados no sofá Os braços enlaçados A tv sem cativar atenções E o tempo parado A luz do dia desbotada A tigela dos cereais na mesinha O radiador aceso a um canto Os risinhos toleirões Intercalando as rajadas de parvoíces Os mimos trocados vagarosamente Com a pele a emitir declarações de amor
  34. 34. JACENTES Definhamo-nos todos os dias um nico Doemo-nos deficitariamente Compadecemo-nos espaçadamente Emocionamo-nos episodicamente Acabamo-nos todos os dias um pedaço Esquecemo-nos amiudadamente Desprezamo-nos frequentemente Exaltamo-nos incansavelmente Extinguimo-nos todos os dias uma porção Injuriamo-nos continuadamente Violentamo-nos diligentemente Finamo-nos todos os dias um naco Extorquimo-nos afincadamente Marginalizamo-nos indiferentemente Jazemo-nos todos os dias um fragmento Constrangemo-nos zelosamente Desamamo-nos duradouramente Morremo-nos todos os dias um bocado Sem nos ressuscitarmos equivalentemente
  35. 35. LUME Sentes o brasume ao teu lado Encostas-te a esse borralho Aconchegas-te nessa acendalha Enroscas-te nesse tição E cavalgas esse tarugo chamejado Até lhe extraíres todo o calor Segredas-lhe mais lenha ao ouvido Flamejas-lhe gemidos apimentados Incendeias-lhe o nervo Com um ardor ritmado Com uma incandescência ofegante Até que os teus pés estejam quentes E consigas finalmente dormir
  36. 36. MANDAMENTOS Não deixarás de te deificar a qualquer preço Não deixarás de idolatrar a tua matula Não deixarás de ascender por qualquer meio Não deixarás de caluniar em proveito próprio Não deixarás de enriquecer de forma ilícita Não deixarás de subjugar para te promoveres Não deixarás de renegar as tuas origens por vergonha Não deixarás de aniquilar quem te bloquear o caminho Não deixarás de madraçar chulando a labuta doutrem Não deixarás nunca de cobiçar a mulher alheia
  37. 37. MONTADA Amazona Trabalhas a rês Amansas o potro Em desenfreado concúbito No teu hábito varonil Copulas sem sela Fruis desaustinada Fornicas obscenamente Como se cada foda fosse a ultima Gozando cada indecência Cada indecorosa depravação Qualquer perversão Num big-bang de clímaxes Desfaleces a cavalgadura Abates a parelha
  38. 38. NARCISO Que excelso ser, eu O espelho grita-o Que iminente personalidade Que ilustre individualidade Que sublime competência Como são superiores as qualidades Como são inatingíveis as virtudes Inalcançável o talento Divina a inteligência Que reles seres, os outros O espelho ecoa-o Que medíocres aptidões Que grosseiras maneiras Que desprezível carácter Como são inferiores as índoles Como são rasteiras as faculdades Desvanecido o brilho Insignificante a erudição Oh! Que eminente sumidade, espelho meu, Reprodutor fabulista de tão conveniente realidade!
  39. 39. NORMAL Envergou a pele do avesso Vestiu-a da própria sombra Projectou no chão o corpo autêntico Imprimiu-se em negativo Começou a história pelo fim Conduziu em marcha-atrás Dormiu para os pés Passeou um lagarto pela trela Acreditou nos políticos E no entanto Falhou sempre ser diferente
  40. 40. OPOSTOS Nem timorato, nem arrojado Enverga ambos titubeante Fascinado pela ousadia Agrilhoado pelo receio Harmoniza-se nesse contraste Ousa acanhadamente na evidência Encolhe-se atrevidamente no duvidoso Disputa ruidosamente guerras acabadas Arremessa tímidas hostilidades Quando a inexistência das lutas o justificam Entrincheira-se corajosamente na obscuridade Reverencia silenciosamente os loucos caídos Inveja-lhes a falta de coragem Com que se lançam na voragem Ele é o melhor dos sobreviventes
  41. 41. ORAÇÃO Bem-aventurados os aproveitadores Pois deles será a dianteira Bem-aventurados os extorsores Pois deles será o banquete Bem-aventurados os embusteiros Pois deles será a autoridade Bem-aventurados os peculadores Pois deles será a abundância Bem-aventurados os que manipulam Pois deles será o domínio Bem-aventurados os charlatães Pois deles será a governança Bem-aventurados os prevaricadores Pois deles será a imunidade Bem-aventurados os agressores Pois deles será a liberdade Bem-aventurados os ricos de espírito Pois, em boa verdade vos digo, Deles será o reino dos imbecis
  42. 42. PARA ALÉM Entopes o espaço do pensamento Preenches o vácuo da lembrança Transpões as fronteiras da tela Extravasas os contornos da moldura Ultrapassas as páginas do livro Superas o limite do infinito Hoje tens a beleza do riacho cristalino Amanhã a paz da montanha nevada Tanto és o coqueiral da praia paradisíaca Como a sucessão infinita das dunas do deserto A superfície espelhada do lago Ou o manto florido do prado Soas à sinfonia do arcanjo Ou tens o sabor da iguaria exótica Planas com as asas do albatroz Volteias a galáxia do sonhador Certificas a fortuna do presságio E fazes a constância do amor Para além do grande todo
  43. 43. PARA TI Tenho para ti um desejo Que acolherás sem pejo Tenho para ti um carinho Que regarás a bom vinho Tenho para ti uma festa Que recolherás na sesta Tenho para ti um afago Que sorverás de um trago Tenho para ti uma carícia Que receberás com malícia Tenho para ti uma meiguice Que lembrarás da meninice Tenho para ti um beijo Que eternizarás noutro beijo
  44. 44. PASSAMENTO Quando um artista morre Um país abre uma ferida Quando o artista morre A cultura abre uma chaga Quando o artista morre A sociedade greta Quando o artista morre O mundo fende Quando o artista morre A criação cinde E o artista morre quando o imobilizam Quando o vendam Lhe tamponam os ouvidos O amordaçam Quando o artista morre A arte subsiste A História redige-se
  45. 45. PATOLOGIA A ganância é deplorável O egoísmo é lastimoso O individualismo é detestável A imbecilidade é nociva A humilhação é reles A fraude é danosa A ciumeira é prejudicial A cobiça é escusável A perversão é insuportável A depravação é sórdida O estupro é repugnante A bajulação é ignóbil O servilismo é desprezível A avareza é vil A inconstância não é inócua A infidelidade não é inocente A deslealdade é inaceitável A traição é intolerável A má-fé é odiosa O diagnóstico não é animador A cura é improvável
  46. 46. PERVERSÃO Porque me avexas Farpeias com insultos Ensanguentas com desprezo? Porque me punes Golpeias com críticas Feres com indiferença? Porque me trucidas Corrompes com opiniões Dilaceras com subornos? Porque me despedaças Flagelas com ideias Pervertes com privações? Porque me esganas Asfixias com tributos Reprimes com obstinações? Porque me humilhas Me oprimes Me tiranizas? Porque me amas tanto?
  47. 47. POUCO Espremes uma só gota de ti Para encharcar um sequeiro Gretado de crónica aridez Balbucias uma só palavra A quem perdeu todo o viço Entregas uma só carícia Após anos de continência Formulas uma só promessa Com toda a esperança esgotada Sopras uma só refrega Para tão grandioso velame Travas uma só peleja Como se desta se fizesse a guerra Trazes uma só ideia Para alimentar uma quimera Inventas uma só deusa Esperando reescrever a mitologia Cantas uma só música E está dado o concerto Insistes uma só vez Na consecução da felicidade
  48. 48. PREDADORA No seu instinto ardiloso Armadilha o caminho Tece a cilada Embosca o desprevenido Lança-lhe o engodo Enreda o imprudente Enleia o desditoso Abocanha o desgraçado Devora o desventurado Digere o infeliz Eructa duas vezes E parte à caça de outro incauto
  49. 49. PRODÍGIO Como enxertas em ti o grão Que germina e espigará Como prenha és mais cheia Que o indefinível volume da tua barriga Como te agigantas quando pares Quão magnificente ao partejar Como da brutalidade de um momento Se irradia a luz sagrada E da veemência de um instante Se difunde a melodia solene Como da rudeza de um ápice Se propaga o magnetismo sobrenatural E do queimor de um segundo Se valida a paixão divina Como da pira de um menos de nada Se adorna o quadro de toda uma vida E do transe de um clique Se fia a linha que borda a estopa Com a palavra das três letrinhas
  50. 50. RESPOSTA Porque caminho paralelo? Porque me movo aos solavancos? Porque me arrasto cambaleante? Porque fujo do embate? Porque me desvio? Porque não me afoito? Porque me encolho? Porque me acobardo? Porque não me rebelo? Porque me violento? Porque faço parte do rebanho Por uns centímetros de pasto ralo e reles?
  51. 51. RESVALO Haverá sempre mais um gato negro Para cruzar o teu caminho Haverá sempre mais uma sexta-feira treze A ensombrar o teu calendário Haverá sempre uma ave de mau agouro A sobrevoar o teu destino Haverá sempre uma calamidade para te arrasar Uma epidemia para te abalroar Uma crise para te devorar Um fantasma para te atormentar Um castigo para te penitenciar Uma borracha para te apagar Ainda tens muito ser para depreciar Muita dignidade a envilecer Muita verticalidade a desonrar Muito orgulho a humilhar Muito bom-nome a ultrajar Ainda não te degradaste todo Não caíste tudo o que podias cair Há mais fundo para lá do fundo Podes sempre ser enrabado mais uma vez
  52. 52. RETORNO O teu menino volta sempre No sorriso inseguro Nos olhos achinesados Nas mãos sapudas O teu menino volta sempre Na brancura desmaiada Na conversa gaguejante No tronco musculoso O teu menino volta sempre Na expressão dura No cabelo ralo No carinho hesitante O teu menino volta sempre Nos julgamentos conservadores Na inteligência brilhante Na solidão preocupante O teu menino volta sempre Até na dor Mas o teu menino volta sempre Porque vem pela mão do amor
  53. 53. RICO Diz-se entregue à sorte Confiscado pelo acaso Encarcerado por fadário Pungente e insensível Maldiz a desventura Como se fora exclusiva Pragueja indistintamente Vocifera vitupérios Contra os dignitários Destrata-os de caudilhos Injuria-os de pançudos E concussionários Clama por benesses Brada por prerrogativas Reivindica até honrarias Depois, espera impávido Que o bico da teta Lhe entre sozinho na beiça
  54. 54. SEMPRE Hoje é mais um dia, Senti-o como sempre ao acordar Com esse odor chamativo de carne… Hoje é mais um dia, Senti-o como sempre ao levantar Enquanto te olhava a tomar banho… Hoje é mais um dia, Senti-o quando te observava Vestindo o body preto… Hoje é mais um dia, Senti-o ao comer-te com o olhar Invadido por fantasias… Hoje é mais um dia, Senti-o como sempre ao acordar, Em que a chama permanece…
  55. 55. TU Os teus olhos brilham Postos a sorrir, sorriem O teu riso encanta A tua espontaneidade seduz O teu cabelo farto e ondulado Apetece desgrenhar As tuas formas magnéticas Deixam-me as mãos inquietas A tua conversa Embala-me O teu jeito Envolve-me O teu amor Privilegia-me
  56. 56. VISTA FINA Se não vês o sofrimento Tens a mais grave das cegueiras Se não enxergas o sentimento Tens a mais grave das cardiopatias Se não reconheces a pobreza Tens a mais grave das insensibilidades Se não detectas a fome Tens a mais grave das indiferenças Se não reparas na violência Tens a mais grave das apatias Se não te toca o abandono Tens a mais grave das negligências Se não te comove o sénior Tens o mais grave dos desprezos Se não te emociona o menino de mama Tens a mais grave das friezas Se não te lacrimeja a vista Tens a mais grave das inexistências
  57. 57. OUTROS TÍTULOS DO AUTOR EDITADOS Salpicos da Memória - 2010 Por Uma Nesga – 2011 Rosto: David Alzamora

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