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24 ATRIBUNA VITÓRIA, ES, DOMINGO, 07 DE SETEMBRO DE 2014 
Polícia 
DNA da maconha ajuda 
a descobrir rota do tráfico 
Em pesquisa inédita, 
geneticista molecular 
utilizou amostras de 
maconha apreendidas 
para detectar de 
onde partiu a droga 
REUTERS 
PREPARO do cigarro de maconha: nova pesquisa pode ajudar a polícia no combate ao crime organizado no País 
Michelli Possmozer 
Estudar oDNA da planta can-nabis 
sativa – espécie usada 
para a produção da maconha 
– pode ajudar a polícia a descobrir 
a rota do tráfico de drogas e, assim, 
combater o crime organizado. 
É o que descobriu o geneticista 
molecular Rodrigo Soares de 
Moura Neto, que analisou o DNA 
de 22 amostras de maconha apre-endidas 
no Rio de Janeiro, em pes-quisa 
inédita que já vem sendo 
realizada há dois anos. 
O cientista esteve em Vitória na 
última terça-feira, e apresentou o 
trabalho no Encontro dos Biólogos 
no Espírito Santo, realizado pelo 
Conselho Regional de Biologia 2ª 
Região (CRBio-02-RJ/ES), na Fe-deração 
das Indústrias (Findes). 
Segundo Moura Neto, o objetivo 
é fornecer uma ferramenta cientí-fica 
à polícia a fim de responder al-guns 
questionamentos, por exem-plo, 
se a maconha comercializada 
vem de um ou mais fornecedores, 
contribuindo, assim, para o traba-lho 
de inteligência policial. 
Embora a análise genética da 
cannabis sativa feita pelo cientista, 
até o momento, esteja restrita ao 
Rio de Janeiro, o biólogo afirma 
que a descoberta pode ser apenas 
o início para se traçar a rota do trá-fico 
de drogas no País, caso a ideia 
seja abraçada por pesquisadores 
em outros estados. 
Moura Neto sinalizou, inclusive, 
que já foi procurado por um perito 
da Polícia Civil capixaba que quer 
desenvolver pesquisa similar, na in-tenção 
de mapear o DNA da maco-nha 
que é traficada para o Estado. 
A TRIBUNA – Qual a motivação 
para realizar este trabalho? 
RODRIGO MOURA NETO – Um 
grupo de cientistas da Austrália 
publicou um trabalho em 2006, 
em que analisou amostras genéti-cas 
de can nab is de todo mundo, 
menos da América do Sul. Então, 
eu achava que o mundo científico 
deveria ter acesso às informações. 
Como eu tinha a possibilidade de 
firmar um acordo de cooperação 
técnica entre a Universidade Fede-ral 
do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Po-lícia 
Civil do Rio, concluí que deve-ria 
obter essas amostras de canna-bis, 
sequenciar regiões de interesse 
forense e disponibilizar a pesquisa 
por meio de artigos científicos, para 
que outros possam dar continuida-de 
a esse trabalho. 
> O que pretendia? 
Identificar a cannabis distribuí-da 
no Rio de Janeiro e, se possível, 
compará-la com outras do Brasil 
para obter um quadro da assinatu-ra 
genética brasileira dessa planta. 
Claro que eu não posso fazer isso 
sozinho, então, comecei no Rio de 
Janeiro, esperando que esse estí-mulo 
leve outras unidades a fazer 
o mesmo e juntar os esforços. Em 
resumo, a minha ideia é determi-nar 
uma assinatura genética a fim 
de identificar a origem igual ou 
distinta dos diferentes tipos de 
maconha distribuídas no País. 
> Como isso ajuda a polícia? 
O estudo, basicamente, é para 
fornecer uma ferramenta que pos-sa 
ajudar na inteligência policial a 
determinar rotas do tráfico, para 
saber de onde vem a droga distri-buída 
no País. 
> A maconha do Rio vem de 
onde? 
Não sei ainda, pois não tenho 
amostras de outros estados para 
fazer uma comparação. Mas posso 
afirmar que todas as 22 amostras 
coletadas são iguais. E para desco-brir 
de onde elas vieram, preciso 
compará-las a amostras do restan-te 
do País e de outros países. 
No passado, foi mapeada que a 
maconha é originada do Paraguai 
ou do Nordeste. Contudo, a can-nabis 
do Rio ainda não sei de on-de 
veio. Teria de expandir esse es-tudo 
para todo o Brasil para con-seguir 
dar uma resposta maior à 
polícia e é o que estou tentando 
fazer. 
> Pretende fazer acordo de co-operação 
com outros estados? 
Acho difícil fazer esse tipo de 
acordo com outra instituição, visto 
que se trata de uma material de di- 
Fungos podem 
auxiliar no 
combate ao 
narcotráfico 
O combate ao narcotráfico, na 
Biologia, também sugere o empre-go 
de fungos que podem ser utiliza-dos 
no controle biológico de plan-tas 
entorpecentes, como a coca. 
Tal utilização foi apresentada 
pela geneticista molecular Rosane 
Silva, que é doutora em Biofísica 
pela Fox Chase Cancer Center, nos 
EUA. Ela também palestrou no 
Encontro dos Biólogos no Espírito 
Santo, realizado pelo Conselho 
Regional de Biologia 2ª Região 
(CRBio-02 - RJ/ES), em Vitória, 
na última terça-feira. 
“Teoricamente, é possível usar 
fungos herbicidas levando a uma 
doença na plantação com o objeti-vo 
de diminuir a produção de uma 
planta alvo. Dessa forma, destruin-do 
plantações clandestinas, como 
grandes plantações de coca”. 
Silva, que desconhece o emprego 
prático dessa técnica, ressaltou que 
ainda são necessários mais estudos. 
“Ainda não sei o quanto essa estra-tégia 
é efetiva, mas é possível com-bater 
o crime através dessas armas 
biológicas ou de biocontrole”. 
CINTHIA RAMOS 
ROSANE SILVA: controle biológico 
AVANÇO 
ANDRESSA CARDOSO 23/02/11 
Moscas para desvendar crimes 
Larvas de moscas podem ajudar 
a identificar autores de assassina-tos. 
A descoberta é do perito crimi-nal 
capixaba Carlos Augusto Cha-moun 
e faz parte da sua tese de 
doutorado, pela Universidade Fe-deral 
do Rio de Janeiro (UFRJ). 
O objetivo do perito é identificar o 
esperma humano em larvas presen-tes 
em corpos de mulheres estupra-das. 
É possível recuperar o DNA hu-mano 
até oito dias após o crime. 
DIVULGAÇÃO 
“Minha ideia é 
determinar uma 
AMOSTRAS de maconha assinatura genética a fim 
de identificar a origem 
das diferentes maconhas 
distribuídas no País” 
“Aqui no Espírito 
Santo, já vejo 
a possibilidade de 
estabelecer uma parceria 
para desenvolver o 
mesmo estudo” 
PERFIL 
Rodrigo Soares de 
Moura Neto 
> É BIÓLOGO e especialista em Gené-tica 
Molecular Humana e Genética 
Forense 
> FEZ PÓS-DOUTORADO no Institute 
for Cancer Research da Philadel-phia, 
nos Estados Unidos 
> COORDENOU a implantação do labo-ratório 
de DNA da Polícia Civil do Rio 
> É PROFESSOR na UFRJ 
fícil acesso. Consegui no Rio por-que 
alguns peritos criminais ti-nham 
interesse em desenvolver 
esta tecnologia no estado carioca. 
Mas, aqui no Espírito Santo, já vejo 
a possibilidade de estabelecer uma 
parceria para desenvolver o mes-mo 
estudo. 
> Que parceria? 
Um perito da Polícia Civil me 
procurou, pois está interessado em 
colher as amostras da cannabis que 
são apreendidas no Espírito Santo. 
Como ele tem acesso ao material 
biológico, já fez a extração do DNA, 
mas ele irá fazer uma outra aborda-gem 
científica nas amostras. 
Dessa forma, pretendo firmar 
essa parceria com ele a fim de co-laborar, 
juntar os esforços e colher 
a maior quantidades de dados so-bre 
a cannabis do Espírito Santo e 
do Rio, com objetivo sempre de 
auxiliar as investigações que, cer-tamente, 
estão sendo realizadas. 
CINTHIA RAMOS

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  • 1. 24 ATRIBUNA VITÓRIA, ES, DOMINGO, 07 DE SETEMBRO DE 2014 Polícia DNA da maconha ajuda a descobrir rota do tráfico Em pesquisa inédita, geneticista molecular utilizou amostras de maconha apreendidas para detectar de onde partiu a droga REUTERS PREPARO do cigarro de maconha: nova pesquisa pode ajudar a polícia no combate ao crime organizado no País Michelli Possmozer Estudar oDNA da planta can-nabis sativa – espécie usada para a produção da maconha – pode ajudar a polícia a descobrir a rota do tráfico de drogas e, assim, combater o crime organizado. É o que descobriu o geneticista molecular Rodrigo Soares de Moura Neto, que analisou o DNA de 22 amostras de maconha apre-endidas no Rio de Janeiro, em pes-quisa inédita que já vem sendo realizada há dois anos. 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A TRIBUNA – Qual a motivação para realizar este trabalho? RODRIGO MOURA NETO – Um grupo de cientistas da Austrália publicou um trabalho em 2006, em que analisou amostras genéti-cas de can nab is de todo mundo, menos da América do Sul. Então, eu achava que o mundo científico deveria ter acesso às informações. Como eu tinha a possibilidade de firmar um acordo de cooperação técnica entre a Universidade Fede-ral do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Po-lícia Civil do Rio, concluí que deve-ria obter essas amostras de canna-bis, sequenciar regiões de interesse forense e disponibilizar a pesquisa por meio de artigos científicos, para que outros possam dar continuida-de a esse trabalho. > O que pretendia? Identificar a cannabis distribuí-da no Rio de Janeiro e, se possível, compará-la com outras do Brasil para obter um quadro da assinatu-ra genética brasileira dessa planta. Claro que eu não posso fazer isso sozinho, então, comecei no Rio de Janeiro, esperando que esse estí-mulo leve outras unidades a fazer o mesmo e juntar os esforços. Em resumo, a minha ideia é determi-nar uma assinatura genética a fim de identificar a origem igual ou distinta dos diferentes tipos de maconha distribuídas no País. > Como isso ajuda a polícia? O estudo, basicamente, é para fornecer uma ferramenta que pos-sa ajudar na inteligência policial a determinar rotas do tráfico, para saber de onde vem a droga distri-buída no País. > A maconha do Rio vem de onde? Não sei ainda, pois não tenho amostras de outros estados para fazer uma comparação. Mas posso afirmar que todas as 22 amostras coletadas são iguais. E para desco-brir de onde elas vieram, preciso compará-las a amostras do restan-te do País e de outros países. No passado, foi mapeada que a maconha é originada do Paraguai ou do Nordeste. Contudo, a can-nabis do Rio ainda não sei de on-de veio. Teria de expandir esse es-tudo para todo o Brasil para con-seguir dar uma resposta maior à polícia e é o que estou tentando fazer. > Pretende fazer acordo de co-operação com outros estados? Acho difícil fazer esse tipo de acordo com outra instituição, visto que se trata de uma material de di- Fungos podem auxiliar no combate ao narcotráfico O combate ao narcotráfico, na Biologia, também sugere o empre-go de fungos que podem ser utiliza-dos no controle biológico de plan-tas entorpecentes, como a coca. Tal utilização foi apresentada pela geneticista molecular Rosane Silva, que é doutora em Biofísica pela Fox Chase Cancer Center, nos EUA. Ela também palestrou no Encontro dos Biólogos no Espírito Santo, realizado pelo Conselho Regional de Biologia 2ª Região (CRBio-02 - RJ/ES), em Vitória, na última terça-feira. “Teoricamente, é possível usar fungos herbicidas levando a uma doença na plantação com o objeti-vo de diminuir a produção de uma planta alvo. Dessa forma, destruin-do plantações clandestinas, como grandes plantações de coca”. Silva, que desconhece o emprego prático dessa técnica, ressaltou que ainda são necessários mais estudos. “Ainda não sei o quanto essa estra-tégia é efetiva, mas é possível com-bater o crime através dessas armas biológicas ou de biocontrole”. CINTHIA RAMOS ROSANE SILVA: controle biológico AVANÇO ANDRESSA CARDOSO 23/02/11 Moscas para desvendar crimes Larvas de moscas podem ajudar a identificar autores de assassina-tos. A descoberta é do perito crimi-nal capixaba Carlos Augusto Cha-moun e faz parte da sua tese de doutorado, pela Universidade Fe-deral do Rio de Janeiro (UFRJ). O objetivo do perito é identificar o esperma humano em larvas presen-tes em corpos de mulheres estupra-das. É possível recuperar o DNA hu-mano até oito dias após o crime. 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Como ele tem acesso ao material biológico, já fez a extração do DNA, mas ele irá fazer uma outra aborda-gem científica nas amostras. Dessa forma, pretendo firmar essa parceria com ele a fim de co-laborar, juntar os esforços e colher a maior quantidades de dados so-bre a cannabis do Espírito Santo e do Rio, com objetivo sempre de auxiliar as investigações que, cer-tamente, estão sendo realizadas. CINTHIA RAMOS