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FREUD, Sigmund (1920). Além do Princípio do Prazer. In: EdiçãoStandart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vo...
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Artigo filmes de terror e psicanálise

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Artigo filmes de terror e psicanálise

  1. 1. Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores. Diego Amaral Penha1 Prof.ª Drª Ana Cristina Marzolla2RESUMOO presente trabalho elabora um esboço na tentativa de explicar a fascinaçãoque algumas pessoas têm por filmes de terror. Este tipo de filme tem comopremissa incomodar, assustar e repugnar quem os assiste, assim a existênciade pessoas que gostam deles é contraditória. A pesquisa busca construir umahipótese para satisfatoriamente responder quais são mecanismos psíquicosresponsáveis pelo „gostar‟ de filmes de terror. Para tanto, foram utilizadostrabalhos de Sigmund Freud. O esboço constitui-se por um percurso reflexivoque se inicia na compreensão de que imagens assustadoras estãorelacionadas a conteúdos recalcados. Em seguida, verifica que estesconteúdos recalcados em algum momento produziram sentimentosdesprazeros e foram reprimidos. Por último, trata de explicar como imagenseliciadoras de desprazer podem atuar a favor do princípio de prazer.Palavras-Chave: Filme, Terror, Psicanálise.AbstractThis paper elaborates a draft in an attempt to explain the fascination that somepeople have for horror movies. This type of film is premised harass, frighten andrepel those who watch them, so the existence of people who like them arecontradictory. The research seeks to build a hypothesis to satisfactorily answerpsychic mechanisms which are responsible for someone to like horrorfilm. For this, we used the work of Sigmund Freud. The outline is constitutedby a reflective journey that begins on the understanding that scary images arerelated to repressed contents. Then checks that these repressed contents, atsome point, were produced by unpleasant feelingsthat were suppressed. Finally, explain how this iseliciting images ofdispleasure can act in favor of the pleasure principle.1 Aluno de Iniciação Científica do curso de Psicologia – Faculdade de Ciências Humanas e daSáude - PUC-SP, Campus Barueri (PIBIC-CEPE / Aluno de IC sem bolsa) E-mail:penhadiego@yahoo.com2 Psicóloga e Professora do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento - Faculdade deCiências Humanas e da Saúde – PUC-SP
  2. 2. Keywords: Film, Horror, Psychoanalysis.INTRODUÇÃO Ao sentarmos em uma poltrona confortável para assistir um filme,olhamos fixamente para a tela em branco que logo estará nos transportandopara um mundo fantástico. Queremos viver o ator, queremos nos aventurar porlugares desconhecidos. Buscamos o prazer. O meio cinematográfico é uma das maiores fontes de entretenimento doséculo XXI. Tratando-se de falar sobre filmes demanda-se diferenciá-lo decinema. É preciso compreendê-los como fenômenos distintos, mas interligados.Existem múltiplas maneiras de defini-los, porém uma delas produz umareflexão interessante que explora a função e o objetivo de ambos. Partindo deste meu ponto de vista, o cinema desde sua mais precoceaparição tem como objetivo atingir o imaginário humano, confundindo ficçãocom realidade. A função da sétima arte está extremamente ligada com areação dos espectadores. Assim como a literatura, o cinema pode sercompreendido como arte. Nele está contida a técnica para confecção de seusprodutos. Por outro lado, o filme é veículo da fantasia. Para ele não existerealidade, mas há a ambição de se contar uma história. Mesmo emdocumentários e em filmes históricos, o filme tem como função contar a suaversão. Não se compromete com a realidade, e sim com a sedução. Tal comolivros, atua como obra e é o rio condutor dos sentimentos dos espectadoresrumo ao oceano de deleite. Os filmes de terror permeiam a história do cinema, com clássicos quemarcam gerações. São os responsáveis por incontáveis noites de pesadelo.Quem nunca teve uma imagem aterrorizante gravada na memória? Mesmo quenunca assista filmes deste tipo, só de saber que eles existem já faz com que aimaginação produza nossos próprios thrillers. Assim como em livros e contos de terror, tais filmes estãomarcadamente presentes na cultura, pois cativam o imaginário da população.Fazem com que as características mais hediondas da realidade e ficçãotransformem-se em uma forma de entretenimento. E talvez nenhum outrogênero possa gabar-se como pode o terror em relação a seus assíduos fãs.Apreciadores do cine-terror movimentam as salas de cinema, basta conferir,sempre há filmes para aterrorizar a platéia. Há uma tendência no homem, que vive no século XXI, de valorizarelementos como beleza, harmonia, alegria, saúde, sanidade, felicidade ebenevolência. Não necessariamente trata-se de uma tendência particularmentenova, mas em certos aspectos o homem moderno tornou-se obcecado porestes elementos. Porém, existem os elementos opostos a estes, que em conjunto aosprimeiros produzem um retrato síntese de nossas sociedades. Valorizamos sim
  3. 3. todas as qualidades e belezas humanas, mas caímos em tentação e somoscorrompidos. Há espaço para o horrível, o caos, a morbidez, a pestilência, ainsanidade, a tristeza e a vilania. Como então pessoas conseguem gostar de filmes medonhos e cruéis?Que mecanismos estão por trás de um espectador apreciador de filmes deterror? De onde vem este terror?METODOLOGIA A Psicanálise sendo um método de investigação tem como objeto deestudo o inconsciente e os seus mecanismos. Essa instância abrangeconteúdos não-conscientes, ou seja, conteúdos que dizem respeito à vidapsíquica de um indivíduo que podem ser acessados e compreendidos com oauxílio do método psicanalítico. Portanto, quando assumimos não conhecer oporquê alguém poderia gostar de filmes de terror, podemos inferir que talvez omotivo seja um tramite que envolveria mecanismos inconscientes econscientes da psique. Sigmund Freud (1856-1939) foi o criador da psicanálise e ainda hoje é ogrande referencial teórico para qualquer uso da teoria. Disponho para estapesquisa de trabalhos do autor, que abarcarão os conceitos necessários parasatisfatoriamente poder constituir uma idéia que possibilite responder a questãoelaborada para esta pesquisa.O ASSUSTADOR Quando assistimos a um filme deste gênero nos deparamos com osentimento de estranheza que este nos causa, seja em detrimento de algohorrível e repugnante esteticamente, seja pela ansiedade causada pela afliçãodo personagem. Recorri ao texto de Freud (1919) O Estranho. Neste texto, Freud primeiramente busca na palavra „estranho‟(unheimlich, no alemão) o significado que a ela se liga historicamente. O autor,após um grande estudo linguístico chega à conclusão de que o significado detal palavra evolui de uma maneira em que aproxima „unheimlich‟ de seu oposto„heimlich‟. O estranho, então, tem um significado duplo: refere-se tanto ao queé assustador como se aproxima do seu antônimo, isto é, tem um sentido quese refere ao que é familiar. Secundariamente o autor reúne coisas, impressões sensoriais,experiências e situações de estranheza, tentando achar seus pontos emcomum. Freud afirma então que [...] o estranho é aquela categoria doassustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar.(FREUD, 1919, p.238)
  4. 4. Freud deixa claro que quando destrinchamos algo que nos é assustadorchegaremos a alguma estranheza relacionada com uma fantasia infantil. Defato, não é possível determinamos quais cenas ou personagens de um filmeproduzirão medo em alguém, mas podemos afirmar, que o motivo pelo qual talimagem é estranha decorre de a mesma lhe ser familiar, mas pela consciênciarejeitada pelo processo de recalque. Rejeitada no sentido de que não foraesquecida, nem negada, mas apresenta-se como algo externo, algo que “nãofaz parte de mim”. No texto A Cabeça de Medusa (1940 [1922]), Freud debruçou-se sobre otema mitológico da cabeça decapitada da Medusa de maneira análoga a comopropomos investigar o “estranho” em um filme. O “decapitar” possui a mesma significação psíquica de “castrar”, damesma maneira como teria o “cortar”, “esfaquear”, “estripar” e “amputar”presentes em filme de terror. Por isso, não de maneira acidental, temosinúmeros exemplos de figuras castradoras neste gênero de filme: Jason e seufacão3; Freddy Krueger e suas garras afiadas4; Leatherface e a moto-serra5;Normam Bates e faca de cozinha6, que acabam por potencializar a angústia decastração do espectador, que assim poderá vivenciar a famosa cena doassassinato de Marion Crane no banheiro do Motel Bates, por exemplo, comouma cena estranha e motivadora de terror.7O GOSTAR Na tentativa de utilizar apenas termos científicos perdemos aoportunidade de abordar temas e termos cotidianos que expressam ricasinformações sobre como se relacionam os humanos. Freud não abordou otermo „gostar‟ diretamente em suas obras, mas ao falar de desejo e prazercirculou pelo seu significado. O „gostar‟ pode ser substituído por curiosidade,desejo, prazer, interesse ou atração, porém acredito que se assim for feito, seperde a complexidade do termo. Para tanto, opto por mantê-lo. O „gostar‟ provavelmente está relacionado com o prazer e com o alíviode tensão libidinal. Trata-se de um dado momento gravado como prazeroso.Mantém-se na memória como algo a ser revivido, pois é „gostoso‟. Para Freud,[...] um sentimento de tensão tem de trazer em si o caráter de desprazer,(FREUS, 1905, p.198), ou seja, o acúmulo de tensão nos passa a impressãode ser desprazeroso, caso a tensão não seja eliminada. Esta idéia parte dopressuposto de que se a busca para realização do desejo tem como gatilho atensão sexual, esta estará relacionada e emparelhada à satisfação, que étomada como prazer. Desta maneira a satisfação agiria como eliminação dodesprazer de tensão acumulada. Estas afirmações vão em direção aconstatação de que prazer e desprazer, pelo menos no que concerne a tensão3 Sexta-Feira 13 (1980).4 A Hora do Pesadelo (1984).5 O Massacre da Serra Elétrica (2003).6 Psicose (1960).7 Idem.
  5. 5. sexual, estão complexamente relacionados. Mas o que tem Freud a nos dizersobre o desprazer?GOSTAR DO ASSUSTADOR Ao tratar do desprazer, Freud (1920) inicialmente o associa ao ponto devisita econômico da psique. Para o autor, em sua metapsicologia, o desprazeré produzido pelo acúmulo de tensão devido ao aumento de excitação, presentena mente e corpo. Caso aconteça desta excitação diminuir, o individuo sentiráprazer devido à eliminação da tensão desprazerosa. (FREUD, 1920, p.17-18) Para o autor, o desprazer perceptivo corresponde à maior parte dosdesprazeres que experimentamos, e acredito ser este o desprazer sentido porum espectador que assiste ao filme de terror. Ele explica que: Este desprazer pode ser a percepção de uma pressão por parte de instintos insatisfeitos, ou a percepção externa do que é aflitivo em si mesmo ou que excita expectativas desprazerosas no aparelho mental, isto é, que é por ele reconhecido como „perigo‟. (FREUD, 1920, p.21) Aqui definimos que o sentimento de estranheza compõe a maior partedos desprazeres experimentados pelas pessoas. O que nos falta agora éresponder quais mecanismos estão por trás da possibilidade de obtenção deprazer através destes meios. Há mais para se falar sobre os sentimentos de prazer e desprazer nadinâmica psíquica. Freud faz duas ressalvas importantes na compreensãodesta questão: Primeiramente, os sentimentos de prazer e desprazer (que constituem um índice do que está acontecendo no interior do aparelho) predominam sobre todos os estímulos externos. Em segundo lugar, é adotada uma maneira especifica de lidar com quaisquer excitações internas que produzam um aumento demasiado grande de desprazer; há uma tendência a tratá-las como se atuassem, não de dentro, mas de fora, de maneira que seja possível colocar o escudo contra estímulos em operação, como meio de defesa contra elas. (FREUD, 1920, p.40) Refere-se aqui ao mecanismo de projeção em sua natureza de defesapsíquica. Devo induzir o raciocínio do leitor para uma reflexão chave destapesquisa. Se os sentimentos de prazer e desprazer que são internospredominam sobre os estímulos externos, devemos duvidar da seguinteafirmação: “os espectadores gostam de filmes de terror, pois sentem prazeradvindo dos estímulos presentes nestes, tais como som, imagem e susto.”.Freud foi preciso ao afirmar que o que é assustador está relacionado com orecalque, já que o medo e o possível prazer proporcionado por ele dependemde como este indivíduo externalizará o que lhe aflige. Os filmes de terrorconstroem situações e personagens que provavelmente assustam a maioria deseus espectadores. Isto está relacionado com a cultura, já que para participar
  6. 6. de bom grado da sociedade todos os indivíduos abdicam de seus desejosinfantis, desta maneira o que a maioria das pessoas recalca, em geral, sãoconteúdos relacionados aos mesmos temas, por exemplo, a vivência infantiledípica. Desta maneira, a premissa de Freud é plausível de ser aplicada nocontexto deste trabalho, ou seja, o estímulo aterrorizante está presente, masele só será vivido como prazer ou desprazer internamente. Exteriormente oestímulo será alienado da consciência pela projeção dos conteúdos recalcados.CONCLUSÃO Não posso ignorar que ao falar de prazer e desprazer, pareço estartrilhando um caminho de raciocínio redundante. Na tentativa de explicar estaquestão optei por esboçar os mecanismos psíquicos presentes emespectadores de filmes de terror. Assistir a um filme e voltar a assisti-lo, oumesmo assistir outros filmes do mesmo gênero, precisa estar relacionado àpromoção de prazer. Procurei explicar como as imagens incomodativas de terror sãorecebidas por espectadores, porque são percebidas como tais e como podealguém satisfazer-se nelas. Devo admitir que talvez esta linha de raciocínioseguida por mim não é a única maneira de se tentar responder esta pergunta,muito menos a mais simples. Portanto, acredito que sintetizar os principaisargumentos se faz necessário neste momento. Precisamos, por agora, nosapropriar de qualquer filme de terror. Esta escolha é sobre alguma imagem quepor um determinado período nos produziu medo. Guardemos a imagem aflitivae tentemos compreendê-la a partir de meu esboço. Esta imagem não necessariamente é uma imagem de terror paraoutrem. Assim, não me complico quando afirmo que, de fato quem estáprojetando o terror nesta imagem é o próprio espectador. Não negarei que estaimagem provavelmente fora construída para assustar, mas ninguém podegarantir qual efeito ela terá em um potencial espectador. Interessanterelacionar a projeção realizada pelo espectador, com o que é mostrado numfilme. Em última análise o filme não passa de uma projeção na tela. Ao assumir que o grande caráter assustador desta imagem é projetadopor nós mesmo, podemos facilmente aceitar a noção de Estranho, proposta porFreud. Algo que é projetado, ou seja, imposto pelo espectador na imagem dofilme, só pode estar localizado no inconsciente do mesmo. De fato o que estálhe proporcionando o terror é algo familiar, em algum momento recalcado. O fato de este conteúdo estar no inconsciente enuncia que forarecalcado em algum momento anterior. O recalque atua a favor do ego e desua proteção. Desta maneira, confirma-se que no momento em que se viunecessário o recalque de tal conteúdo, ele ameaçava a integridade do ego doespectador. Provavelmente por ser repudiado no meio social. Somentepoderemos descobrir qual é o conteúdo que está sendo projetado após umaprofunda análise de tal imagem, assim como fez Freud em A Cabeça deMedusa. A associação livre é um instrumento que revelaria o que há por detrás desta imagem.
  7. 7. Para ser recalcada está imagem teve de produzir tensão libidinal,provocando desprazer em algum momento. Provavelmente atrelada à pulsãosexual, ela buscou através do organismo sua realização. Mas apesar de suarealização aliviar a tensão, esta imagem, por alguma razão, ameaçava aintegridade do ego. Se a aparência e as ambições desta imagem fossemmanifestadas, o resultado seria desprazeroso para a psique. A essência doterror é exatamente esta: provocar medo no momento. Cabeças giratórias esopa de ervilha8 não seriam tão eficazes nos cinemas hoje em dia. Os filmesde terror mais comentados e mais assustadores de cada época são osmelhores representantes de conteúdos infantis recalcados e extremamenteangustiantes para a maioria dos espectadores. Quando se delimita a maioriado público espectador como neuróticos – só assim garantiremos o recalque –também se precisa definir o momento histórico em que eles vivem. O tipo desociedade em que vivem os espectadores atua de maneira relevante paraquais imagens e conteúdos serão considerados execráveis. Dado interessante este, já que o seu reverso também é válido. Aodissecarmos os filmes de terror mais representativos de um momento histórico,encontraremos lá uma pista de quais são os conteúdos, imagens ou conflitosque precisaram ser recalcados pelos espectadores. Por exemplo, na população americana que havia a pouco assistido duasbombas atômicas explodirem, tinha como um de seus maiores temores adizimação instantânea pelas mãos da tecnologia avançada. Na década de 50os filmes de terror mais representativos nos EUA eram: O Cadáver Atômico(1955), Plano 9 do Espaço Sideral (1958) e Invasores Invisíveis (1959). Estesremontam o temor em relação ao Holocausto, à radioatividade, à guerra e aimpotência humana em relação à tecnologia. Já nos anos 60, Martin Luther King e John F. Kennedy são assassinadosem 1968 e 1963, respectivamente. A „Família Mason‟, liderada por CharlesMille Mason, massacrou duas famílias de Bel Air – Los Angeles em 1969. Foiuma década que os jovens reivindicavam a paz, ao mesmo tempo em que aviolência amedrontava a população em cada esquina. Psicose (1960), O Bebêde Rosemary (1968) e A Noite dos Mortos Vivos (1968), são exemplos domedo correspondente desta época. Medo da vizinhança, do dia-a-dia, do quevem de dentro e do fracassado ideal de família americana. Assim quando optamos por assistir aquele filme que nos incomoda tanto,provocamos voluntariamente o aumento de tensão libidinal. A pulsão de morteproporciona para a psique incentivo suficiente para que o ego disponha-se aodesprazer do aumento de tensão. Como no masoquismo, o espectador seexpõe à tortura psíquica de postar-se diante do que lhe aflige. Desta maneira, aquantidade de tensão no aparelho se eleva. Quando o momento de pavorameniza-se, a tensão por consequência se esvai proporcionando para oorganismo uma sensação prazerosa. Porém, afirmar que o prazer nestes filmes é obtido pela bruscadiminuição da tensão, não explica por quais motivos o aparelho psíquicoescolheria um desprazer inicial para satisfazer-se posteriormente. Mas é de8 O Exorcista (1973)
  8. 8. fácil reconhecimento que a postergação do prazer em conjunto com atolerância ao desprazer temporário não é assunto obscuro para Psicanálise. Éda natureza do aparelho psíquico portar-se desta maneira. O que posso nestemomento afirmar é: se em um dado momento uma pessoa optou, pela primeiravez, sujeitar-se ao terror em um filme, e de alguma maneira isto proporcionouprazer, existem altas probabilidades de que essa pessoa volte a assistir a umfilme de terror. A grande pergunta que se forma aqui é: qual a diferença entre umaparelho psíquico que se submete a este processo e um que o rejeita? Nãotenho ambição de responder a esta pergunta. Trabalhos posteriores poderãoaprofundar-se neste tema, mas posso fazer alguns apontamentos no sentidode tentar sustentar meu esboço. Apesar de ser obviamente prazerosa adiminuição de tensão após o sentimento de medo, continua sendo um desafioao ego enfrentar seus medos e conflitos. Duas reflexões se fazem aquipossíveis. Pessoas que experimentam as sensações advindas de um filme deterror precocemente podem conseguir, com algum tempo, apenas repetir oprocesso, sem que este cause muitos danos à integridade do ego. A outrareflexão relaciona à tolerância de certas pessoas a estes filmes. Com aelaboração de suas questões mais profundas a intensidade da experiênciadiminui, ou seja, o medo do estranho só é extremamente angustiante enquantoele se mantiver como estranho, bem longe de sua faceta familiar. O esboço por mim apresentado abre diversas linhas de raciocínios quenão cabem aqui explicitar. Acredito que os mais relevantes foram apresentadosnos parágrafos anteriores. As conclusões a que cheguei nesta pesquisa podemparecer ser redundantes e obvias, mas é no percurso teórico pelo qual percorrique este esboço tem o seu mais alto valor. A meu ver, o grande trunfo dequalquer pesquisa não é responder com objetividade suas questões, mas abrircaminho para que mais e mais pesquisas possam ser feitas. A psique precisaser uma fonte inesgotável de incertezas para que valha a pena estudá-la.REFERÊNCIAS A HORA DO PESADELO. Escrito e dirigido por Wes Craven. EUA: NewLine Cinema, 1984. (91 min.): DVD, NTSC, Legendado. Port. A NOITE DOS MORTOS-VIVOS. Escrito por John A. Russo e George A.Romero. Dirigido por George A. Romero. EUA: The Walter Reade Organization,1968. (96 min.): DVD, NTSC, Legendado. Port. FREUD, Sigmund (1905). Três Ensaios sobre a Teoria daSexualidade. In: Edição Standart Brasileira das Obras Completas de SigmundFreud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006. FREUD, Sigmund (1919). O Estranho. In: Edição Standart Brasileira dasObras Completas de Sigmund Freud, vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  9. 9. FREUD, Sigmund (1920). Além do Princípio do Prazer. In: EdiçãoStandart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio deJaneiro: Imago, 2006. FREUD, Sigmund (1921). Psicologia de Grupo e A Análise do Ego. In:Edição Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII.Rio de Janeiro: Imago, 2006. FREUD, Sigmund (1940 [1922]). A Cabeça de Medusa. In: EdiçãoStandart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio deJaneiro: Imago, 2006. INVASORES INVISÍVEIS. Escrito por Samuel Newman. Dirigido porEdward L. Cahn. EUA: Robert E. Kant Productions, 1959. (67 min.): DVD,NTSC, Legendado. Port. O BEBÊ DE ROSEMARY. Escrito por Ira Levin e Roman Polanski.Dirigido por Roman Polanski. EUA: Willian Castle Productions, 1968. (136min.): DVD, NTSC, Legendado. Port. O CADAVER ATÔMICO. Escrito por Curt Siodmak. Dirigido por EdwardL. Cahn. EUA: Clover Productions, 1955. (69 min.): DVD, NTSC, Legendado.Port. O EXORCISTA. Escrito por Willian Peter Blatty. Dirigido por WillianFriedkin. EUA: Warner Bros, 1973. (122 min): DVD, NTSC, Legendado. Port. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. Escrito por Kim Henkel, TobeHooper e Scott Kosar. Dirigido por Marcus Nispel. EUA: New line Cinema,2003. (98 min.): DVD, NTSC, Legendado. Port. MEZAN, Renato. Pesquisa em Psicanálise Algumas Reflexões. Jornalde Psicanálise, São Paulo, 39(70): 227-241, jun. 2006. PLANO 9 DO ESPAÇO SIDERAL. Escrito e dirigido por Edward D.Wood Jr. EUA: Reynolds Pictures, 1959. (79 min.): DVD, NTSC, Legendado.Port. PSICOSE. Escrito por Joseph Stefano. Dirigido por Alfred Hitchcock.EUA: Universal Home Video, 1960. (109 min.): DVD, NTSC, Legendado. Port.
  10. 10. SEXTA-FEIRA 13. Escrito por Victor Miller e Ron Kurz. Dirigido por SeanS. Cunningham. EUA: Paramount Pictures, 1980. (95 min.): DVD, NTSC.Legendado. Port.

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