PrólogoA       única coisa que eu conseguia ver com clareza era o homem a pou-cos passos, o meu alvo... Se ainda me restas...
1. Visão                    “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos.”                        ...
conseguiu olhar para trás. Temia o que veria. A porta do vagão tinha sidoaberta silenciosamente, alguém o invadira.       ...
que não haja videntes sensitivas de verdade nesses lugares, mas tanto faz.       Tanto faz porque eu não uso um lenço na c...
to bom e não acontece, por alguma mudança de planos repentina. Porisso nem sempre fico empolgada com alguma coisa boa que ...
***       Apenas algumas horas antes, tudo parecia normal. Nenhum indí-cio de que aquela visão chegaria para virar meu mun...
nós, só tinha um jeito meio despreocupado de ver a vida. Mas, sincera-mente, se os quinze dias se esgotarem, vou começar a...
– Não se preocupe, não vamos deixá-lo escapar das responsabili-dades. Jean cuidará disso.      Torci o nariz. Jean, o advo...
meus pensamentos. – Você ainda pode ir para a Universidade de Iowa.Não é tão ruim assim, é? E olha, seu pai é mesmo um gro...
avaliar a quantidade de calorias que havia ingerido. E concluí que nãodeviam ser tantas assim, já que aquela calça jeans a...
seguinte. Além do mais, já havia deixado bem clara a minha opiniãosobre o assunto.      Bem, talvez não clara o suficiente...
Superei meu abalo ao ter voltado a pensar nesse baile idiota e esva-ziei a mente para finalmente dormir.       Mas não con...
"A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

"A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)

1.405 visualizações

Publicada em

Primeiro capítulo do livro "A Destinada", de Paula Ottoni.
(Para fins promocionais). Para mais informações sobre o livro, acesse: www.adestinada.com
Para ler o livro completo, compre seu exemplar nas livrarias Cultura, Saraiva ou Fnac.
Conheça outros trabalhos da autora em: www.paulaottoni.com

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.405
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
985
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
11
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

"A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)

  1. 1. PrólogoA única coisa que eu conseguia ver com clareza era o homem a pou-cos passos, o meu alvo... Se ainda me restasse alguma força. Tudo o maisnão parecia existir, apenas um borrão de cores e formas ao meu redor. É claro que tinha de restar alguma força, ou tudo o que eu passaranão teria valido de nada. Eu sabia exatamente o que fazer, mas tudo pa-recia tão irreal e tão doloroso que a cada batida do coração eu me sentiamais fraca e vulnerável. Heroísmo é para heróis, eu sempre soube disso. E o problema éque eu nunca fui uma heroína. A despeito de tudo o que parecia sensato,porém, lá estava eu, lutando até a última fagulha de esperança, usandode cada fiapo de resistência que meu frágil e despreparado corpo ofere-cia, infringindo a lei natural das coisas... Salvando a vida da pessoa queamava. Ou melhor, tentando salvar. Era a segunda vez que eu via essa cena. Apesar de ter visto antes, naminha mente, com a mesma nitidez, agora era real, avassaladoramentereal. E nesse instante eu estava lá, de espectadora, esperando reunir co-ragem suficiente para agir. O barulho estrondoso veio da arma. O som mais terrível do mun-do. Naquele segundo, meu universo desabava. Havia muitas coisas que eu queria dizer para expressar a dor queatingia meu peito e que nada tinha a ver com dores físicas. Mas, no mi-nuto em que eu soube que ouviria aquele som explosivo e nauseante,tudo o que consegui emitir através de meus lábios secos foi um longo edesesperado grito. 9
  2. 2. 1. Visão “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos.” William ShakespeareHavia um trem andando sobre os trilhos, numa paisagem repleta ape-nas de árvores e campos vazios. Era madrugada e a lua brilhava no céu,parcialmente encoberta por nuvens densas. O sopro gelado passeava pelasjanelas do trem, especialmente em uma, toda aberta, deixando o ventofrio adentrar a cabine. Havia apenas um passageiro no vagão. Ele deixavao cabelo ricochetear em seu rosto pelo vento vindo da janela escancarada. Era um homem jovem. Mas era difícil ver seu rosto, pois os cabelosgrandes e escuros o encobriam à medida em que o vento batia neles emsentido oposto. Ele não parecia ligar para o frio que fazia, parecia gostarde estar sozinho na companhia da brisa noturna. Seus olhos finalmente se cansaram de ver a paisagem escura e monó-tona. Fechou-os e inclinou suavemente a cabeça para trás, para encostá-lano banco. O vento ainda brincava com seus cabelos quando o trem parou. Os olhos do homem se abriram por reflexo, porque ele tinha certezade que ainda não tinham chegado ao destino final. E não havia escala. Ohomem não conseguia imaginar os motivos para o trem ter parado tão derepente, nesse lugar vegetal, onde nem havia estação. Finalmente começou a notar o frio. Mas talvez seu tremor não es-tivesse relacionado à temperatura ou ao vento, e sim ao som de passoschegando mais perto. Não era a movimentação de passageiros, já que não havia mais ne-nhum além dele próprio, pelo que sabia. Congelado no banco, o rapaz não 11
  3. 3. conseguiu olhar para trás. Temia o que veria. A porta do vagão tinha sidoaberta silenciosamente, alguém o invadira. Eram passos cautelosos, vindo diretamente para as primeiras filasde poltronas, onde ele estava: o homem de cabelos escuros encoberto pelaescuridão da noite, que tremia compulsivamente – porque talvez ele sou-besse o que esperar. E no instante seguinte ele encarava dois homens grandes e fortes,que usavam toucas cobrindo toda a cabeça, permitindo que se vissem ape-nas seus olhos sombrios. O viajante se ergueu do acento, pensando emgritar. Mas antes que tivesse tempo para isso, os silenciosos encapuzadoso amordaçaram e amarraram seus pulsos. Rápida e cautelosamente, es-gueiraram-se pelo corredor, carregando o jovem, e pularam do trem já emmovimento, levando o rapaz. Acordei assustada, fazendo o possível para manter em meu peito ogrito que se formara. Ofegando, sentei-me na cama e esperei que meus batimentos car-díacos voltassem ao normal; o grito também não saiu. Então comecei achorar, mas tentei ser silenciosa, para que minha mãe ou minha irmãnão ouvissem. Não conseguia acreditar que aquele pesadelo estava começandode novo. E era quase que literalmente um pesadelo. Mas eu sabia bemdemais que eram minhas visões. E era isso que me incomodava, porquenão me importava de sonhar com coisas ruins, se eu sabia que era tudomentira. Mas com minhas visões era diferente. Era real demais, e eraverdade. Algo assim iria acontecer com alguém, talvez essa noite mesmo.Talvez estivesse começando nesse instante... Bem, é isso. Eu sou vidente. Não é uma palavra que eu goste muito de usar para nomear isso,mas é a que todo mundo entende. Não que muitas pessoas saibam quetenho esse dom, mas todo mundo já se habituou a chamar aqueles queveem o futuro de videntes – o que não me agrada muito, porque a ima-gem de vidente que sempre aparece na minha cabeça é a da mulher comum turbante, que atende pessoas em tendas, em troca de dinheiro nãomerecido. É não merecido porque a maioria delas é charlatã, não tem po-der sensitivo nenhum e abusa da ingenuidade de pessoas iludidas. Não 12
  4. 4. que não haja videntes sensitivas de verdade nesses lugares, mas tanto faz. Tanto faz porque eu não uso um lenço na cabeça e nem fico mis-turando cartas de tarô. Além do mais, não se deve cobrar por esse tipo de serviço – pelomenos foi o que aprendi em meus dezoito anos. É algo que se faz de gra-ça para as pessoas a quem se quer ajudar. Porque se você vê um destinoruim para alguém, é legal avisar a essa pessoa, para que ela mude de ideiaquanto a alguma decisão que tomou. Por exemplo, se alguém resolveu viajar de carro para o Arizona evocê ficou sabendo por meio de uma visão que o carro dessa pessoa vaibater nos trinta quilômetros finais da viagem, avisaria a ela, para quedesistisse da viagem o quanto antes? Pelo menos é o que eu faria. É o que eu faço sempre. É o que estoudestinada a fazer para o resto da minha vida – e sem cobrar nada. Ainda mais se essa pessoa é sua tia. Ou o seu pai, sua avó, sua mãe,sua irmã, ou quem quer que você ame, esteja correndo perigo e vocêsaiba. Porque não é inevitável. Sabe como é, mudar o destino. O destinonão é algo que está gravado profundamente numa pedra. Ele pode serapagado e refeito. Dependendo da decisão que você toma, outro destinovai ser traçado para você, até que você vá lá e mude ele de novo. É comouma árvore, dependendo da vontade dela, outros galhos vão nascendo.Mas alguém pode ir lá e tirá-los, desviando a árvore a crescer em outradireção. Eu sou o jardineiro. Eu arranco os galhos tortos das árvores, endi-reitando-as até que algum outro galho perigoso nasça de novo – e eu oarranque também. Já deu para perceber que minha família deve me achar algum tipode heroína. Meu pai, meus avós, minha tia e as pessoas a quem já ajudeiprovavelmente me consideram alguma bênção dos céus, apesar de nãosaberem bem o que sou, porque nunca contei. Sabe, tem muita gente quenão acredita nessas coisas e acha que é tudo coincidência. Mas as duas pessoas que conviveram comigo todos os dias durantedezoito anos – onze para Vicky – sabem que é um pouco mais do queisso. Inclusive se têm que me ouvir gritar durante quase todas as noites.Porque normalmente vejo as coisas quando estou dormindo. Mas também nem sempre são coisas ruins. O pior é quando é mui- 13
  5. 5. to bom e não acontece, por alguma mudança de planos repentina. Porisso nem sempre fico empolgada com alguma coisa boa que veja aconte-cendo, ainda mais se for comigo. Só tento seguir aquilo que acho que vaigerar aquele acontecimento bom e espero para ver o que dá no final. Àsvezes coincide, às vezes não. Por isso tento seguir minha vida normalmente, tentando até es-quecer essa anormalidade que possuo, só me lembrando dela quandouma coisa bem ruim vai acontecer. O negócio é que já havia muito tempo que não tinha visão algu-ma. Muito tempo mesmo. Desde meus dezesseis anos isso havia parado.Pensei que esse dom tinha me abandonado de vez, apesar de sempre des-confiar de que não seria assim tão fácil. Não adiantava eu querer apenas.Sempre voltava. Mas por que agora? Depois de dois anos sem ver absolutamentenada... Era frustrante! Não que fosse algo totalmente ruim. Por conta desse dom, eu jáhavia evitado que coisas horrorosas acontecessem. Mas é muita responsabilidade. É como se eu estivesse cuidandodas pessoas o tempo inteiro, sempre com medo de não dar tempo deavisá-las e me sentindo culpada se algo acontece. Além do mais, não éagradável ficar tendo visões. Sem falar que não vejo o que quero, quando quero. E já tive proble-mas psicológicos com isso. Eu tinha medo das visões. Minha mãe pre-cisava me acolher, ouvindo-me chorar a noite inteira, porque eu ficavacom medo de dormir. Vai ver é por isso que elas pararam. Por causa domeu próprio bloqueio. Só que não conseguia entender por que voltaram naquela noite ede uma maneira totalmente atípica, já que geralmente eu via coisas pertoda minha realidade, com pessoas que eu conhecia. E eu não conhecia aquele homem. O que é que esse cara tinha a ver comigo? E aquele lugar não era Iowa, ou o Brasil. Não era nenhum lugarque eu já tivesse ido. Sequei os olhos com o lençol e me deitei de novo. Não conseguiamais dormir. Era disso que eu estava falando. Não dormiria nunca mais. Mas, para minha grande surpresa, acabei mesmo pegando no sono. 14
  6. 6. *** Apenas algumas horas antes, tudo parecia normal. Nenhum indí-cio de que aquela visão chegaria para virar meu mundo pelo avesso. Eu chegara em casa e logo depois mamãe e Vicky apareceram, vin-das da festa de aniversário das minhas primas gêmeas, Kate e Anne, fi-lhas da minha tia Vanessa. Eu bem que gostaria de ter ido com elas, mas não havia como eudeixar de comparecer à minha entrevista de estágio. E nem no advogado,se a gente queria que aquele problema fosse resolvido. Meu pai... ou melhor, Daniel não ficaria nada feliz. Mas o que podemos fazer se ele resolve cancelar toda a pensãosó porque eu fiz dezoito anos e mamãe arrumou um emprego melhor?Sem dúvida mamãe é a melhor confeiteira de Iowa. De Des Moines, pelomenos. Mas nem por isso pessoas de todos os cantos dos Estados Unidosaparecem na confeitaria. Não que muitas pessoas visitem Des Moines.Deveriam. É uma cidade bem legal. Mas provavelmente ninguém ouvefalar (muito menos da confeitaria Sweet Candies). Tudo bem que não há nada confirmado a respeito do não-paga-mento da pensão daqui para frente. Meu pai pode realmente ter tidoalgum problema e não ter podido depositar o dinheiro ainda. Mas o que,afinal, nós podemos pensar quando já faz quinze dias que o dia de de-positar passou e o cara que se diz meu pai não pode ser encontrado emnenhum telefone existente? Cansamos de ligar e ouvir a voz da secretáriaeletrônica. É óbvio que ele decidiu que, agora que sou maior de idade, possoganhar meu próprio dinheiro – e ele não está errado. Eu arrumaria umemprego mesmo que ele continuasse me ajudando mensalmente, porquetenho consciência de que uma faculdade custa muito caro e eu queroajudar de alguma forma. Mas a questão não sou eu. É minha irmã, que tem onze anos euma vida escolar inteira pela frente. Decidimos dar a Daniel um prazode mais quinze dias. Se ele não der as caras, aí vamos entender de quelado ficou. Não que eu nunca esperasse algo assim dele. Sempre foi um paiausente, mas também nunca fez nenhum mal a nós nem deixou de cum-prir com seus deveres. Eu acreditei minha vida inteira que ele gostava de 15
  7. 7. nós, só tinha um jeito meio despreocupado de ver a vida. Mas, sincera-mente, se os quinze dias se esgotarem, vou começar a questionar minhascrenças. E não é como se pudéssemos pegar um carro para encontrá-lo nacasa dele. Alguns países de distância realmente fazem a diferença nessashoras. – E como foi o seu dia? Foi tudo bem lá? – minha mãe perguntou,agitada, ao se lembrar subitamente de onde eu estivera aquela tarde. – O que quer saber primeiro? – A entrevista. – Ah, certo. Hum... eu fiquei muito nervosa, como era de se espe-rar. E, bom, acho que fiz o que pude. Deu um branco em algumas res-postas, mas se eles não levarem isso em conta eu tenho uma chance. Meucurrículo era melhor do que o dos meus concorrentes. Todos os candidatos ao emprego estavam no ensino médio ainda,como eu. Mas certamente minhas notas e meus inúmeros idiomas fluen-tes faziam a diferença. As notas eu valorizo, claro. Mas nos idiomas eu não vejo grandecoisa. Como se eu pudesse ser mais capaz do que alguém só por falar umitaliano fluente. Ou por ter português como segunda língua – ou pri-meira, sei lá, porque agora eu moro nos Estados Unidos e minha línguanúmero um é o inglês. É uma droga perder tempo estudando italiano, quando já sou bi-língue por ter dupla nacionalidade. E, tudo bem, eu tive escolha, mas sóna hora de optar pela próxima gramática – como se não bastassem duas.Já que eu descartei o espanhol, o francês e o alemão, só me restou umaopção viável. É bem inútil, mas mamãe não pensa assim. Para ela, quantomais línguas eu falar, melhor minha qualificação e meu aprendizado. Eupodia estar usando meu tempo para aprender outro instrumento, já quegosto de música e não preciso de mais aulas de piano. Mas não. Tenhoque ir para aquele curso chato. Até parece que um dia eu vou para a Itália. – E o advogado? – a voz de mamãe me tirou das minhas reclama-ções mentais. – Ah, eu o deixei de sobreaviso. Qualquer passo em falso de Da-niel e ele entra em ação – respondi, meio ressentida. Talvez quando – ouse – meu pai souber que a justiça está atrás dele, nunca mais vá quererque eu o visite. Ainda que ele mereça isso, poxa, é meu pai! 16
  8. 8. – Não se preocupe, não vamos deixá-lo escapar das responsabili-dades. Jean cuidará disso. Torci o nariz. Jean, o advogado, com certeza resolveria o caso, maseu não estava contente por termos que colocá-lo na situação. Minha mãetinha um ponto de vista bem diferente do meu. Para ela, meu pai tinhafinalmente feito o que ela sempre achou que ele faria, cedo ou tarde:deixar-nos na mão de vez. Eu podia entender o ressentimento dela, depois de anos separadado meu pai, sabendo das maluquices que ele já fez e se lembrando dosdesentendimentos que tiveram. Ela o conhecia bem, mas não tinha fénenhuma nele, em seu caráter. Mamãe já estava pronta para atacá-lo comseu amigo advogado. Eu que ainda insistia em esperar mais um pouco,tonta e esperançosa como era. Não queria acreditar que tinha um pai quenão ligava nem um pouco para as filhas. Nicole, a mulher que me carregou na barriga por longos novemeses, sabia que isso não era fácil. Não me refiro a ganhar o processo,porque era certo que ganharíamos. Refiro-me ao que talvez ela tambémestivesse pensando. Sobre a postura do meu pai depois disso. Ele poderianão me querer mais lá, no Brasil, na casa dele. E isso era péssimo. Eu gostava do Brasil. Do Rio Grande do Sul. De Caxias do Sul. Eunasci lá. Por mais norte-americana que eu possa me sentir agora, estanão é minha verdadeira nacionalidade. Minha mãe que é estadunidensee se apaixonou por meu pai brasileiro. Moramos lá até ela decidir quenão queria mais dividir o mesmo teto com ele. Então me tornei umacidadã do estado de Iowa. No início, uma cidadã da área rural, porquefomos morar na fazenda do meu avô materno, Robert. Ficamos com meu avô em Jackson County até meus treze anos(cheguei lá com sete). Até que mamãe decidiu que a vida campestre nãoera o melhor para nós três. E mais uma vez partimos em busca de umbom lugar para chamar de lar. E achamos. Uma casa cor-de-rosa mais oumenos perto do centro, na capital do estado, Des Moines – onde estamosaté hoje. Já gosto de morar aqui. Mas vou ter que decidir onde farei facul-dade. E confesso que ainda tinha esperança de fazer no Brasil, onde temo meu pai. Mas depois disso tudo... – Não fique chateada, meu bem – disse minha mãe, adivinhando 17
  9. 9. meus pensamentos. – Você ainda pode ir para a Universidade de Iowa.Não é tão ruim assim, é? E olha, seu pai é mesmo um grosso. Foi por issoque me separei dele. Isso não melhorou muito o meu ânimo. Mas, em todo o caso, eu ainda não tinha sido aceita em universi-dade nenhuma. Talvez, dentro de umas semanas, recebesse as cartas dealgumas delas. Mas nada garantia que me aceitariam. Quando comentei isso com minha mãe, Vicky se manifestou. – Não seja boba, é claro que vão te aceitar. Se eu tivesse suas notasiria até para Harvard. Certo, Vicky era exagerada. – Sua irmã tem razão. Não tem com que se preocupar – mamãe re-petiu no que parecia a centésima vez naquelas últimas semanas; os olhosvidrados na televisão, que passava Lost. Então ela comentou algo como:– Esse não é aquele brasileiro, o Santoro? E percebi que finalmente a conversa havia mudado de foco, o queera bom, porque eu não queria pensar em mais nada disso. Nem em meupai e nem nas faculdades. Só o que eu queria era um pouco de descanso,físico e mental. Aquele programa definitivamente também não me trazianenhum descanso mental. O sangue escorria da cabeça de um dos ilhados quando anunciei: – Acho que vou para a cama. – Uma ilha repleta de perigos e pes-soas machucadas certamente não era do que eu precisava. Minha mãe, que parecia incapaz de desgrudar os olhos da tela,acenou para mim, mandou um beijo e disse que havia alguns doces nacozinha. Rumei para lá, onde imediatamente encontrei roscas açucaradas, eme lambuzei. Um hábito nada saudável, eu tinha consciência, mas comonão era diabética nem nada, jamais tentei ignorar os deliciosos doces daminha mãe. Eu ainda tinha uma semana de aulas. A última antes da formatura. Ainda bem que era a última. O ensino médio pode ser realmentemuito estressante. Por outro lado, porém, sentia-me insegura quanto aofuturo. Ainda não sabia o que viria depois dessa semana. Não havia nadacerto. Nada até eu receber alguma bendita carta de admissão em umauniversidade... Depois de exterminar os doces, subi para meu quarto, tentando 18
  10. 10. avaliar a quantidade de calorias que havia ingerido. E concluí que nãodeviam ser tantas assim, já que aquela calça jeans ainda me deixava den-tro de padrões físicos aceitáveis. Sempre fui magra – apesar haver gran-de possibilidade de isso mudar, se eu continuasse adotando essa rotinacalórica e sedentária. Gastei meus últimos minutos antes da meia-noite no banheiro,tentando limpar a quantidade excessiva de maquiagem do meu rosto –que eu tivera de passar para causar boa impressão na entrevista. Desanimei-me ao olhar meu rosto limpo de base e ver as olheirasnos mesmos lugares de antes. Estavam ali, como sempre, no rosto co-mum e branco, emoldurado pelos cabelos mais claros que alguém podeter. Penteei os fios loiros, praticamente brancos perto da raiz, que bro-tavam da minha cabeça até o início da cintura. Imaginei o quão albinaeu podia parecer para um observador distante. É óbvio que eu não era,a cor do meu cabelo vinha de uma combinação genética bem inevitável. Meu pai é loiro, mas tem os cabelos dourados e a pele morena. Eubem que podia ter nascido assim, mas puxei a brancura de minha mãe,que tem ainda menos melanina que meu pai. Dele só peguei os olhosnaquela cor clara e indefinida, que eu chamo de cor-de-chá, uma coisameio esverdeada e sem graça, ao contrário dos de Vicky e mamãe, queparecem esmeraldas num tom vivo e lindo de verde. E ainda que Ashleypossa insistir que adoraria ter meus cabelos e que qualquer garota gasta-ria uma grana para conseguir a cor e a textura, eu ainda não conseguiaencontrar graça neles. Então deitei. E antes que pudesse começar a pegar no sono, o ce-lular apitou. Era um alerta de mensagem. E eram meia-noite e cinco. Bufando,arranquei o celular da cômoda e olhei raivosamente para o número queme incomodara. Era óbvio. Tinha que ser a Ashley. A mensagem, completamente desnecessária. Eliza Stewart, você não vai acreditar! Michael vai aobaile comigo! Ele me convidou hoje. E você, vai com quem?Quem sabe o Ryan? Ele está louco pra ir com você. Ela interrompeu meu sono para dizer isso. Tudo bem, Ashley éminha melhor amiga, mas poderia muito bem falar essas coisas no dia 19
  11. 11. seguinte. Além do mais, já havia deixado bem clara a minha opiniãosobre o assunto. Bem, talvez não clara o suficiente. Então resolvi reforçar.Que ótimo pra você, Ashley! Mas EU não vou ao baile deformatura. Em menos de dois minutos, ela me mandou uma resposta. Eu não acredito que ainda esteja com essa ideiaRIDÍCULA. É o ÚLTIMO baile, Eliza!!! Ao que respondi:Não adianta insistir. E Ryan não é o tipo de par que eu váquerer. Depois dessa última mensagem, Ashley me deixou dormir. Obvia-mente ficou sem palavras diante do meu argumento nada esclarecedor.Apesar de ela já saber o que me irritava nos bailes, nunca saberia como éestar de fato na minha pele. Porque Ashley Willians jamais saberia o que é ser rejeitada. PorqueAshley Willians é linda e consegue qualquer atleta bonitão do colégiopara ser seu par sem o menor esforço. E porque ela, obviamente, nuncatropeça no salto agulha, além de ser uma ótima dançarina. Por que eu teria algum motivo para ir ao baile ao lado de AshleyWillians, e o PIOR: ao lado de Ryan Brown? O cara é o maior idiota. Eninguém, além de Ryan, parece estar sequer remotamente interessadoem me convidar para esse baile. Eu gosto bastante da Ashley. Ela não é uma garota esnobe do gru-pinho popular. Só é legal com todo mundo, e nem um pouco desajeitada,ao passo que eu sou tímida e impopular, por passar meu tempo livre naorquestra da escola, estudando piano. Nenhum garoto parece estar inte-ressado em piano, muito menos no que eu tenho a dizer – provavelmenteporque acham que sou muda ou coisa assim. E mesmo que ela goste de passar um bocado de tempo comigo enão ache nem um pouquinho que sou muda, parece incapaz de entendermeus argumentos anti-baile. E não a culpo. 20
  12. 12. Superei meu abalo ao ter voltado a pensar nesse baile idiota e esva-ziei a mente para finalmente dormir. Mas não consegui. Porque, é claro, aquela visão teve que aparecerpara mudar tudo. Acesse: www.adestinada.com Para saber mais sobre a autora, visite: www.paulaottoni.com Compre o seu nas livrarias Cultura, Saraiva e Fnac! 21

×