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UNIOESTE
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CAMPUS TOLEDO
PATRÍCIA DAIANA LOEBENS
MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE
A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE
AMADO.
TOLEDO
2012
PATRÍCIA DAIANA LOEBENS
MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE
A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE
AMADO.
Trabalho monográfico apresentado
como pré-requisito para a conclusão
do curso de Ciências Sociais da
Universidade Estadual do Oeste do
Paraná – Campus Toledo.
Orientador: Profª. Esp. Taísa Carvalho.
TOLEDO
2012
i
TERMO DE APROVAÇÃO
PATRÍCIA DAIANA LOEBENS
MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE
A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE
AMADO.
Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito parcial para a obtenção do
grau de licenciatura em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do
Paraná – UNIOESTE, pela banca examinadora formada por:
___________________________________________
Orientador: Taísa Carvalho
UNIOESTE
____________________________________________
Professor: Nilceu Jacob Deitos
UNIOESTE
____________________________________________
Professor: Roberto Biscoli
UNIOESTE
Toledo, 12 de novembro de 2012
ii
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, agradeço Andressa, pela persistência em manter debates -
de horas e horas de devaneios e asperezas, - e por toda a contribuição intelectual e
cultural ao longo desses cinco anos.
Aos amigos e colegas de graduação, dos quais guardarei boas lembranças,
especialmente, Jorge, Diane, Everton, Marcão, Aline, Conrado, Samara, Simone,
Caroline e Giovane, Alessandra, Andreine, Ricardo, Rafaela... Também Mathias,
Christian, Karla e Michael Isenberg.
Aos professores, principalmente a minha orientadora Taísa pela coragem de
se aventurar nesse novo campo de conhecimento, ao professor Roberto pelos
valiosos empurrões, ao professor Nilceu Deitos que se dispôs a compor a banca
examinadora. Agradeço juntamente, todos os demais professores do curso de
Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Toledo.
Grata a todos que participaram de alguma forma, da minha formação
acadêmica. Minha família, especialmente meu falecido avô, Arnoldo Both, e minha
mãe por acreditar em mim. Acreditar é fundamental.
Por fim, agradeço aqueles que desacreditam a relevância deste estudo.
iii
O Eterno Pisca-pisca
...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu.
Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda,
Até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?
Monteiro Lobato
iv
“Quando um tipo vai além de todas as medidas e de
fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico
enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe
nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu
cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos
individuais, os mortos jazem em cova rasa, na
promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o
fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me
magoar.
Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de
um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade,
traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita,
arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil.
No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem
um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas
poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da
vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, paro a
conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações,
aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo
adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal
sabe ele que está morto e enterrado” (AMADO, 2006, p.13).
v
LOEBENS, Patrícia Daiana. Morrer no plural: uma reflexão antropológica sobre A
morte e a morte de Quincas Berro Dágua de Jorge Amado. Monografia apresentada
ao curso de Ciências Sociais. UNIOESTE, Campus Toledo, 2012.
RESUMO
Morrer é tão natural como nascer. Curioso é a vasta gama de elementos que
envolvem a morte: entre eles o ritual fúnebre e a lágrima. A morte dos outros é claro,
afinal, se fosse a nossa, já estaríamos mortos e nada teríamos com que nos
preocupar. Sendo assim, ante a morte alheia, se abre um leque de possibilidades de
comportamentos e rituais que variam segundo cada região geográfica, momento
histórico e padrão cultural, interelacionados com a particularidade de cada sujeito
agente. Deixo claro que, o interesse deste trabalho, é estudar a expressão
obrigatória dos sentimentos e as relações sociais diante da morte e no decorrer do
ritual fúnebre, entendido como rito de passagem de vivo para morto. O campo de
pesquisa fica inicialmente delimitado à morte de Quincas, personagem central do
romance de Jorge Amado, intitulado A morte e a morte de Quincas Berro Dágua
(1961), episódio descrito na Bahia, no século XX. Parto do pressuposto que é
possível morrer de diversas maneiras, e que morrer é de alguma forma deixar de
existir, para o grupo no qual se estava inserido. Assim, a possibilidade de morrer, ou
ser morto, mais de uma vez, faz com que Vanda, filha do defunto, não chore quando
o pai, Quincas, tem sua “morte biológica”. Para ela, Quincas morreu no momento em
que passou a viver vagabundo, boêmio, libertino, envergonhando a família,
recusando-se a voltar para casa, e assumir suas responsabilidades de pai, marido, e
funcionário público exemplar. Então, esse estudo apresenta como base teórica,
pensadores como Marcel Mauss, Roberto DaMatta e Victor Turner, entre outros.
Palavras-chave: Ritos funerários, lágrima, literatura, Antropologia.
vi
LOEBENS, Patrícia Daiana. Dying in the plural: an anthropological reflection on
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua of Jorge Amado. Paper presented at
the Social Science course. UNIOESTE, Campus Toledo, 2012.
ABSTRACT
Dying is as natural as birth Curious is the wide range of elements involving death,
including the funeral ritual and tear. The death of others is clear, after all, if it were
ours, we'd be dead and would have nothing to worry about. Thus, before the death of
others, opens a range of possibilities of behaviors and rituals that vary according to
each geographical region, historical moment and cultural pattern, interrelated with the
particularity of each individual agent. I make it clear that the interest of this work is to
study the binding expression of feelings and social relationships in the face of death
and during the funeral ritual, viewed as a rite of passage for living dead. The
research field is initially bounded to the death of Quincas, central character of the
novel by Jorge Amado, entitled A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (1961),
episode described in Bahia, in the twentieth century. I assume that you can die in
many ways, and that dying is somehow cease to exist for the group in which it was
inserted. Thus the possibility of dying or being killed, more than once, makes Vanda,
daughter of the deceased, do not cry when his father, Quincas, has its biological
death. For her, Quincas died when they went to live vagabond, bohemian, libertine,
shaming the family, refusing to go home and assume his responsibilities as a father,
husband, and exemplary public servant. So, this study presents as theoretical base,
thinkers such as Marcel Mauss, Roberto Da Matta and Victor Turner, among others.
Keywords: Funeral Rites, tear, literature, anthropology.
vii
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................9
2 NOTAS SOBRE A BAHIA, JORGE AMADO, E A MORTE E A MORTE DE
QUINCAS BERRO DÁGUA......................................................................................12
2.1 O AUTOR, JORGE AMADO...............................................................................12
2.2 NOTAS DE HISTÓRIA .......................................................................................27
2.3 A OBRA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA.....................29
3 NOTAS SOBRE COMO O CIENTISTA SOCIAL PODE USAR A LITERATURA
PARA FALAR DA SOCIEDADE...............................................................................39
4 A EXPRESSÃO OBRIGATÓRIA DO SENTIMENTO E O RITUAL FÚNEBRE.....47
4.1 NOTAS SOBRE AS MORTES DE QUINCAS.....................................................47
4.2 O RITUAL E SEUS COMPONENTES................................................................52
4.3 A LÁGRIMA COMUNICANDO............................................................................59
5 CONCLUSÃO ........................................................................................................63
REFERÊNCIAS.........................................................................................................65
vii
1 INTRODUÇÃO
Mas porque é que a Vanda, filha do defunto, não chorou no funeral de seu
pai? Ou não é obrigação de filho chorar quando pai ou mãe morre? Pois bem, o
interesse desta pesquisa está justamente em refletir sobre a obrigatoriedade da
expressão do sentimento em rituais fúnebres. Para isso, contaremos com a
colaboração de Jorge Amado (1912 – 2001), que nos narra o velório de Quincas
Berro Dágua. Escolher a obra literária de Jorge Amado, A morte e a Morte de
Quincas Berro Dágua1
(2008), se justifica pela riqueza que a narrativa oferece para
pensar relações sociais, rito funerário, lágrima, sagrado e profano, a sociedade
baiana, etc..
A narrativa conta a história de Joaquim Soares da Cunha, “pai de família
respeitável, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido,
barba escanhoada, paletó preto de alpaca, pasta sob o braço”, (AMADO, 2008, p.18)
que abandona sua casa, mulher e filha, para viver boêmio e vagabundo, festejando
com malandros e mulheres de má fama nas ruas de Salvador, Bahia. Com essa
virada existencial Joaquim, de apelido Quincas passa a ser reconhecido por novo
nome: Quincas Berro Dágua, como todo personagem que troca de posição na
hierarquia social, e recebe um nome que o torna único. Assim, um homem que vive
duas vidas tão contrastantes, parece justo que tenha também duas mortes. Duas
vidas e três mortes, segundo Jorge Amado, pois a morte biológica ocorrida dez anos
depois do abandono do lar, que é considerada como a morte moral, é seguida por
uma terceira morte quando de fato o corpo do falecido desaparece, se jogando ao
mar.
O objeto de estudo, fica restrito a obra literária citada, focando na expressão
obrigatória do sentimento de familiares e amigos, durante o ritual fúnebre de
Quincas. Este ritual tem início quando o personagem renega a família, gerando
assim, um processo de realocação do sujeito na organização social, do antigo grupo,
o qual pertencia. Objeto que se amplia com a análise da relação entre a biografia do
autor e esta obra. É essa relação entre o contexto histórico de produção e a obra
1
Essa confusão em saber se é novela ou romance deriva do fato da narrativa ser lançada
inicialmente como novela em 1959, pela Revista Senhor, e mais tarde, em 1961, publicada em livro
juntamente com outra estória de Jorge Amado. Leia mais na sessão 2.3.
10
literária, que tem o objetivo de testar a proximidade entre a realidade e a narrativa,
numa tentativa de conhecer elementos da sociedade baiana da época, ou seja, as
representações da sociedade no texto literário, mostrando as práticas sociais, o jeito
de viver e o jeito de morrer.
O momento histórico de investigação fica delimitado entre o final século XIX
e o século XX, onde Jorge Amado viveu, permitindo um espaço de tempo histórico,
equivalente ao tempo disponível para buscar elementos que contribuem para esta
investigação sobre rituais fúnebres e relações sociais nesse “canto” do Brasil –
Salvador, Bahia, onde a história de um homem que morre três vezes é narrada.
Estudar uma obra literária brasileira, escrita por um regionalista, como Jorge
Amado, remete a possibilidade de olhar o Brasil e mais especificamente a Bahia, por
outro ângulo, o artístico. A literatura se apresenta como uma forma de representação
das categorias sociais de entendimento e ação, permitindo ponderar essa produção
textual como outro modo de apresentar o Brasil para estudantes do ensino médio,
levando em consideração as contribuições e as limitações das informações contidas
nesse gênero textual. Em síntese, é uma oportunidade de se pensar um momento
histórico e regional do Brasil a partir de uma narrativa quase poética. É uma tentativa
de viabilizar a interdisciplinaridade tão desejada pelos educadores, no qual a
História, língua portuguesa, Sociologia conversam sobre o mesmo tema, que neste
trabalho é a cidade de Salvador e o funeral de Quincas, mas que poderia ser
qualquer outro clássico da literatura nacional, como esses que devemos
obrigatoriamente ler quando pretendemos prestar vestibular, justamente porque
falam, usando certo código como diria Roberto DaMatta (1993), da história do nosso
país. Assim, a literatura é considerada como expressão da sociedade por certo
código, e a ciências sociais podem usar suas categorias de análise para aprofundar
a compreensão da relevância desse tipo artístico.
Foi dada ênfase aqueles fatos que apresentam de forma mais clara a
expressão do sentimento perante a morte de Quincas, num processo de passagem
de vivo para morto. Isso sem deixar de anteceder uma exposição da obra como um
todo. Assim, esta pesquisa é orientada por uma investigação bibliográfica, utilizando
fontes literárias, históricas, sociológicas, antropológicas, entre outros. O uso de
fontes biográficas e históricas serviram para contextualizar quem narra, Jorge
Amado, o fato estudado, a sociedade onde este fato ocorre, e curiosidades sobre a
obra, reunidas no próximo capítulo. O capítulo seguinte defenderá a importância do
11
diálogo entre Ciências Sociais e a literatura, e como o cientista social pode usar
fontes literárias para falar da sociedade, seus limites e possibilidades. O capítulo
posterior mais especificamente, será dedicado à expressão obrigatória do
sentimento diante a morte de Quincas, como um elemento que compõem o rito de
passagem de vivo para morto, exemplificando o que seria esse rito de passagem.
Para finalizar, apresento algumas observações acerca da hipótese: de que a
expressão obrigatória do sentimento, lágrimas e oralidades, existe devido ao caráter
social da morte, e que varia, segundo o momento histórico e o espaço geográfico, e
também, devido ao tipo de morte e a relação pessoal que cada um tinha com o
morto, isso tudo dentro do sistema moral e cultural onde se está inserido. A
expressão obrigatória do sentimento, além disso, pode ser pensada como um
elemento de comunicação e solidariedade, que contribui no processo de realocação
do “indivíduo morto” na sociedade, fazendo relacionar entre si, parentes e amigos do
falecido.
2 NOTAS SOBRE A BAHIA, JORGE AMADO, E A MORTE E A MORTE DE
QUINCAS BERRO DÁGUA.
2.1 O AUTOR, JORGE AMADO
Para comentar a vida de Jorge Amado (1912-2001), contei em grande parte
com a publicação online nominada Cronologia 2
. Com Companhia das Letras, a
vasta obra de Jorge Amado é relançada sob coordenação de Alberto da Costa e
Silva e Lilian Mortiz Schwarz, por eles, Jorge Amado é considerado um dos maiores
protagonistas da literatura brasileira. Um escritor atemporal, por ter leitores de
diversas idades, livros publicados em mais de cinquenta países e tendo seus textos
adaptados para o rádio, cinema, televisão e teatro, onde seus personagens
acabaram se tornando parte indissociável da vida brasileira.
Filho de João Amado e Eulália Leal, Jorge Amado nasceu em 10 de agosto
de 1912, na fazendo Auricída, em Ferradas, distrito de Itabuna, sudeste baiano. O
pai, João, havia migrado de Sergipe para a Bahia, para se tornar fazendeiro de
cacau. Além de Jorge, primeiro filho, o casal teve Jofre (1915), que morreu aos três
anos, Joelson (1920) e James (1922).
Por volta de 1914, a família migra de Ferradas para Ilhéus, fugindo de uma
epidemia de varíola (a “bexiga negra”). Em 1917, a família se muda para uma
fazenda em Itajuípe, onde o pai volta a trabalhar na lavoura de cacau.
2
http://www.jorgeamado.com.br/vida.php3 e http://www.jorgeamado.org.br/?page_id=75 Publicação
composta por uma parceira entre Academia Brasileira de Letras, Biscoito Fino, Fundação Casa de
Jorge Amado, Instituto Moreira Salles, SESC-SP – Serviço Social do Comércio, São Paulo –,
Videofilmes, que conta com o apoio educacional da Volkswagen, onde apresentam a vida e todas as
obras de Jorge Amado, publicadas depois de 2008 pela editora Companhia das Letras. Segundo
consta, o crédito pelo texto é de Bruno Zeni e Ilana Seltzer Goldstein.
13
Figura 1 - Mapa - Algumas cidades da Bahia onde Jorge Amado viveu.
Fonte: Google Mapas – Organizado pelo aor mim.
No litoral sul da Bahia, o menino Jorge desenvolve intimidade com o mar,
elemento que se torna fundamental em seus livros, e onde vive alguma das suas
mais marcantes experiências.
Como relatado por Bruno Zeni e Ilana S. Goldstein3
, Jorge Amado cresceu
em meio às lutas políticas, disputas pela terra e brigas de jagunços e pistoleiros. Aos
dez meses de idade, viu seu pai baleado em uma tocaia na própria fazenda. Já em
companhia do caboclo Argemiro que, em dia de feira colocava o menino na sela e o
levava a Pirangi, conheceu as casas de mulheres e rodas de jogo.
A região cacaueira seria um dos cenários favoritos do autor, presente em
toda a sua carreira literária, em livros como Terras do sem-fim (1943), São Jorge dos
Ilhéus (1944), Gabriela, cravo e canela (1958) e Tocaia Grande (1984), onde relata
as lutas, a crueldade, a exploração, o heroísmo e o drama associados ao cultivo do
cacau que se desenvolveu nos arredores de Ilhéus, no início do século XX.
Jorge Amado conheceu as letras através da mãe, que o alfabetizou com a
leitura de jornais. Em 1918, Jorge Amado retorna a Ilhéus, onde frequenta a escola
de D. Guilhermina, professora que contava com o apoio da palmatória e outros
castigos aos seus alunos. Aos dez anos, cria um jornalzinho, A Luneta, que é
3
Com base no texto publicado em http://www.jorgeamado.com.br/vida.php3.
14
distribuída para vizinhos e parentes. Aos onze anos foi conduzido a Salvador para
estudar no Colégio Antônio Vieira, de padres jesuítas.
O internato causava em Jorge Amado a sensação de encarceramento, e
apesar da saudade que sentida, da liberdade e do mar de Ilhéus, o menino
experimentou ali a paixão pelos livros. Seu professor de português era o padre Luiz
Gonzaga Cabral, que lhe emprestou livros de autores como Charles Dickens, José
de Alencar, Jonathan Swift e clássicos portugueses. Cabral foi o primeiro a perceber
que Jorge Amado se tornaria escritor, ao ler uma redação do estudante, intitulada “O
mar”.
Em 1924, aos 12 anos, quando o pai o trouxe de volta para a escola, depois
das férias, Jorge Amado foge do internato e passa dois meses andando pelo sertão
baiano, até chegar à Itaporanga, Sergipe, onde morava seu avô paterno, José
Amado. A pedido de seu pai, seu tio Álvaro, uma das figuras mais importantes de
sua infância, foi buscá-lo na fazenda do avô, e o leva de volta para Itajuípe.
Assim, continua os estudos em outro internato, o Ginásio Ipiranga, onde
conhece o dirigente do jornal do grêmio da escola. Pouco tempo depois funda outro
jornal em oposição a este. Em 1927, Jorge Amado, passa para o regime de
externato, indo morar em um casarão no Pelourinho, em Salvador. O prédio serviria,
mais tarde, de inspiração ao seu terceiro romance, Suor, publicado em 1934. Com
quatorze anos, consegue seu primeiro emprego, como repórter policial no Diário da
Bahia, e escreve artigos para vários jornais.
Nessa época, participava intensamente da vida popular e da boemia de
Salvador, frequentava casas de raparigas, botecos, feiras e costumava sair com os
pescadores em seus saveiros, barcos geralmente de madeira, usados por
pescadores para velejar próximo da costa.
Em 1928, com uns 16 anos, fundou com amigos a Academia dos Rebeldes,
reunião de jovens literatos que pregavam uma arte moderna, sem ser modernista,
antecipando a ênfase social e o teor realista que caracterizariam o romance do
Movimento de 304
. O grupo era liderado pelo jornalista e poeta Pinheiro Viegas e
dele faziam parte Sosígenes Costa, Alves Ribeiro, Guilherme Dias Gomes, João
4
O movimento de 30 se caracteriza como um movimento político-militar que pôs fim a Primeira
República (1889 – 1930), motivado por insatisfações das oligarquias nacionais e de grupos radicais
do exercito, com o resultado das eleições presidenciais de 1930, e dando início a Era Vargas (1930 –
1945).
15
Cordeiro, o etnólogo Edison Carneiro, entre outros. Foi este último quem apresentou
Jorge Amado ao pai de santo Procópio, de quem o escritor recebeu o título de ogã
de Oxóssi (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé.
A descoberta do candomblé, religião celebrativa em que não existe a noção
do pecado, o contato com as tradições afro-brasileiras e com a história da
escravidão, levaram Jorge Amado a desenvolver uma visão específica da Bahia – e
do Brasil – que perpassa toda a sua criação literária: uma nação mestiça e festiva.
Aos dezoito anos, Jorge Amado, vê publicado pela Editora Schmidt seu
primeiro romance, O país do carnaval, com prefácio de Augusto Frederico Schmidt e
tiragem de mil exemplares. O livro recebe elogios dos críticos e sucesso de público.
No mesmo ano, 1931, em que é aprovado, entre os primeiros colocados, para a
Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, cidade onde passou a
morar, e formou-se em 1934, porém nunca exerceu a profissão.
No ano de 1932, muda-se para um apartamento em Ipanema com o poeta
Raul Bopp. Conheceu José Américo de Almeida, Amando Fontes, Gilberto Freyre e
Rachel de Queiroz – através de quem se aproxima dos comunistas, sensibilizado
com as fortes desigualdades sociais do país, se filia ao PCB, Partido Comunista
Brasileiro em 1932. Sai a segunda edição de O país do carnaval, desta vez com
tiragem de dois mil exemplares. Começa a escrever Cacau, publicando em 1933
pela editora Ariel do Rio de Janeiro, com tiragem de dois mil exemplares, com capa
e ilustração de Santa Rosa. O livro se esgotou em um mês. A segunda edição sai
com três mil exemplares. Partindo deste, Jorge Amado dá início ao ciclo de livros
que retratavam a civilização cacaueira.
Torna-se redator chefe da revista Rio Magazine. E em dezembro de 1933,
em Estância, Sergipe, se casa com Matilde Garcia Rosa. Juntos, lançaram pela
Schmidt, o livro infantil Descoberta do mundo. Em 1934, publicou, também pela
Ariel, o romance Suor, ficção que se aventurou pela realidade urbana e degradada
da capital Salvador. Trabalhou na Livraria José Olympio Editora, do Rio de janeiro,
primeiro escrevendo lançamentos e depois na parte editorial propriamente dita.
Influenciando a publicação de O conde e o passarinho, primeiro livro de Rubem
Braga, e no lançamento de autores latino-americanos como o uruguaio Enrique
Amorim, o equatoriano Jorge Icaza, o peruano Ciro Alegria e o venezuelano Rómulo
Gallegos, de quem traduziu o romance Dona Bárbara.
16
Em 1935, nasceu à primeira filha de Jorge Amado com Matilde, Eulália Dalila
Amado, falecida subitamente com apenas catorze anos. Escreve em A Manhã, jornal
da Aliança Nacional Libertadora, pelo qual cobre a viagem do presidente Getúlio
Vargas ao Uruguai e à Argentina. Cacau é publicado pela Editorial Claridad, de
Buenos Aires. Neste mesmo ano Cacau e Suor seriam lançados em Moscou. Em
1936, sofreu sua primeira prisão por motivos políticos, acusado de participar do
levante ocorrido em novembro do ano anterior em Natal, chamado de "Intentona
Comunista” é detido no Rio.
Lança Jubiabá, em 1936, pela José Olympio Editora, romance protagonizado
por Antônio Balduíno, um dos primeiros heróis negros da literatura brasileira. O livro
tornou-se seu primeiro sucesso internacional. Publicou Mar morto, protagonizado
pelo mestre de saveiro Guma. Recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia
Brasileira de Letras. O livro inspirou o amigo Dorival Caymmi a compor a música “É
doce morrer no mar”. Pode ter sido essa música, inspirado o personagem de Jorge
Amado, Quincas Berro Dágua, a querer a liberdade do mar para o seu corpo morto.
É um elemento da vida do autor que se entrelaça a sua obra.
Aos 23 anos, Jorge Amado começou a ganhar fama e projeção, e em meio à
efervescência cultural do Rio de Janeiro, então capital do país, Jorge Amado travou
amizade com personalidades da política e das letras, como Raul Bopp, José
Américo de Almeida, Gilberto Freyre, Carlos Lacerda, José Lins do Rego e Vinicius
de Moraes. A convivência com o chamado Movimento de 30 marcou profundamente
sua personalidade e a preocupação que reteve com os problemas brasileiros.
Em meados dos anos 30, Jorge Amado fez uma longa viagem pelo Brasil,
pela América Latina e pelos Estados Unidos, durante a qual escreveu Capitães da
Areia, publicado em 1937.
Ao retornar ao Rio de Janeiro, em 1937, foi preso pela segunda vez, devido
à supressão da liberdade política resultante da proclamação do Estado Novo entre
1937 e 1945, regime de exceção instituído por Getúlio Vargas. Em Salvador, mais
de mil exemplares de livros de Jorge Amado, foram queimados em praça pública por
determinação militar.
Liberto em 1938, Jorge Amado se muda do Rio para São Paulo, onde dividiu
apartamento com o cronista Rubem Braga. Voltou a morar no Rio de Janeiro e entre
1941 e 1942 se exilou no Uruguai e na Argentina, onde escreveu a biografia de Luís
17
Carlos Prestes, nominada O cavaleiro da esperança, publicada originalmente em
espanhol, em Buenos Aires, e proibida no Brasil.
De volta ao país, teve sua liberdade restrita pela terceira vez, agora em
regime de prisão domiciliar, na Bahia. Em 1943, escreveu o romance Terras do sem-
fim, que foi o primeiro livro publicado e vendido depois de seis anos de proibições de
suas obras.
Em 1944, Jorge Amado se separou de Matilde, depois de onze anos de
casamento. No ano seguinte, em São Paulo, chefiava a delegação baiana no I
Congresso Brasileiro de Escritores quando conheceu Zélia Gattai. A escritora se
tornaria o grande amor de sua vida.
Jorge Amado foi eleito deputado federal pelo PCB para a Assembleia
Constituinte em 1945, mesmo ano da sua união com Zélia Gattai, assumiu o
mandato no ano seguinte. Algumas de suas propostas, como a que instituiu a
liberdade de culto religioso, liberdade religiosa, e a emenda que garante os direitos
autorais, foram aprovadas e viraram leis. Já em 1947, o partido foi colocado na
clandestinidade e Jorge Amado teve o mandato cassado em 1948, seus livros foram
considerados material subversivo.
Em 1947, nasceu o primeiro filho do casal, João Jorge. Quando o menino
completou um ano, recebeu do pai o livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá,
escrito em 1948, presente pelo primeiro aniversário. Em 1976, o livro foi publicado
com ilustrações de Carybé. O casal teve também a filha Paloma, nascida em 1951,
na Tchecoslováquia. Jorge e Zélia oficializaram a união apenas em 1978, quando já
eram avós.
Ainda em 1948 fixou-se em Paris, em exílio voluntário, na Europa conheceu
Jean-Paul Sartre e Picasso, entre outros escritores e artistas. Em 1950, o governo
francês expulsou Jorge Amado do país, por motivos políticos. Jorge Amado e a
família se mudam para a Tchecoslováquia, e nos anos seguintes viajou pelo Leste
Europeu, visitando a União Soviética, a China e a Mongólia. Escreveu seus livros
mais engajados, como a trilogia Os subterrâneos da liberdade, publicada em 1954.
Em 1956, após as denúncias de Nikita Khruchióv contra Stálin no 20º Congresso do
Partido Comunista da União Soviética, Jorge Amado se desliga do PCB.
Se pensarmos Jorge Amado, e a produção gerada durante o período de
concordância com o viés político comunista, percebemos uma literatura engajada,
preocupada com a transformação social e militante por certo tempo.
18
Quem escreve sobre isso é Matheus de Mesquita e Pontes (2009) à Revista
Revelli5
num artigo intitulado Jorge Amado e a Literatura de combate: da literatura de
engajada à literatura militante de partido, onde explica que o engajamento ocorre
quando o escritor opta por contribuir para a transformação do mundo através de sua
produção, por mais que isso fique subliminar em sua narrativa.
Ser militante, segundo o posicionamento adotado por Mesquita e Pontes
(2009) é ir para além do engajamento. Significa construir uma obra acreditando na
vitória, se enquadrando, dessa maneira, numa das tendências que disputam ou
elaboram teses e mecanismos que almejam a transformação do homem e do
mundo. O militante não atua apenas pela boa vontade de contribuir nas
transformações, pois isso é engajamento. O escritor militante não é espontâneo em
suas narrativas e considerações, mas coerente ou centralizado numa proposta
política, isto é, seu texto parte de um eixo político já existente e sua produção vem
reafirmar essa linha de pensamento ou estratégia transformativa.
Assim, Jorge Amado oscila, ainda segundo Mesquita e Pontes, “de acordo
com o período de produção de suas obras, do escritor engajado ao militante e, até
mesmo, um vanguardista” (MESQUITA E PONTES, 2009, p.149). Ao olhar para a
biografia de Jorge Amado, se esclarece que era filho de fazendeiro e oriundo da
classe média. Sua inserção no mundo literário ocorre com a participação no
Movimento Modernista, cuja proposta vanguardista, através da Academia dos
Rebeldes, em Salvador, na Bahia, no final dos anos 20, no plano político, tal
movimento tinha como atitude dominante a rejeição ao coronelismo provinciano e a
denúncia da situação de pobreza e atraso em que vivia o país, em especial, o
Nordeste.
Sobre Modernismo e Jorge Amado, Roger Bastide afirma que a Literatura
brasileira se manteve fixada segundo as tendências da Literatura europeia
até 1922, ano em que foi realizada a Semana de Arte Moderna, evento que
elevou o Modernismo a um divisor de águas no que se refere à produção
literária nacional.
Esta nova tendência, segundo a interpretação de Bastide, apresenta duas
correntes internas: uma de traços neorrealistas e de cunho sociológico,
caracterizada pela tentativa de descrever com a maior exatidão possível a
realidade circundante; e outra de traços neorrealistas, cuja intenção não
consiste em pintar o real, mas mudá-lo em nome de uma ideologia
socialista. Amado insere-se nesta última corrente, sendo seus romances
5
Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG, Inhumas. Matheus de Mesquita e Pontes é
mestre em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor substituto de História
do Brasil da Universidade Estadual de Goiás - Unidade Universitária de Iporá.
19
concebidos como mensagens voltadas à ação revolucionária (BASTIDE,
1972, p. 39-45, apud MESQUITA E PONTES, 2009, p.149).
A partir do final da década de 50, a literatura de Jorge Amado passou a dar
mais prestígio ao humor, à sensualidade, à miscigenação e ao sincretismo religioso,
mesmo já presente em suas narrativas, esses elementos passam agora a ocupar um
espaço privilegiado, onde antes apresentam um posicionamento político mais
evidente. Aparentemente a discussão política cede lugar às narrativas que valorizam
um lado mais descontraído da vida, percebido fundamentalmente em Gabriela, cravo
e canela, 1958, que marca essa grande mudança. O escritor, porém, preferia dizer
que com Gabriela houve uma afirmação e não uma mudança de rota. Algo que já
vinha acontecendo.
Roberto DaMatta observa, ao estudar Gabriela, cravo e canela, que Jorge
Amado
(...) começou a inventar personagens com duas vidas e mudou radicalmente
a postura de seus heróis. Assim, se até Gabriela os heróis são homens,
depois se transformaram em mulheres. E se antes levavam uma vida
coerente com os princípios do Partido Comunista, agora tinham uma
existência muito mais livre, contraditória e autêntica. (...) Gabriela é o início
da elaboração da ruptura de Jorge Amado com o Partido Comunista. A
mudança dos personagens (tendo duas vidas radicalmente opostas)
correspondia, num plano lógico ou biográfico mais profundo, as duas vidas
do autor. A presença dos personagens femininos corresponderia, ao mesmo
plano, a atenção dada pelo autor aos aspectos pessoais e familísticos (tudo
o que diz respeito ao mundo da casa) no universo social brasileiro.
(DAMATTA, 1993, p.48)
Demonstra assim, como já dito, a importância de situar historicamente o
autor da obra investigada, que corresponde a sua biografia. Quando escreveu
Gabriela, cravo e canela, em 1958, Jorge Amado estava em Petrópolis, Rio de
Janeiro e em duas semanas o livro vendeu vinte mil exemplares. No ano seguinte
ultrapassou a casa dos cem mil exemplares vendidos.
Ilana Goldenstein (2002), interessada em fazer uma leitura antropológica
deste autor, relata que no início pensava que as razões pelo sucesso de Jorge
Amado estivessem vinculadas somente ao marketing, ofertando um produto ao
gosto do público de massa, juntamente com uma rede de boas relações pessoais,
tanto do povo, quanto da elite econômica e intelectual, mas aos poucos foi se
convencendo de que, para além das manipulações, oportunismos e facilidades
linguísticas, o escritor soube tocar as pessoas de duas maneiras “por conseguir
transpor poeticamente para a literatura formas populares de viver e de narrar, e por
20
saber manipular e recriar representações identitárias da Bahia e dos baianos”
(GOLDENSTEIN, 2002, p.125).
Nessa época, Jorge Amado passou a se interessar cada vez mais pelos ritos
afro brasileiros. Em 1957, conheceu Mãe Menininha do Gantois, e em 1959 recebeu
um dos mais altos títulos do candomblé, o de obá Arolu do Axé Opô Afonjá, OBÁ
OROLU. No mesmo ano, saiu na revista Senhor, como novela, A morte e a morte de
Quincas Berro Dágua, objeto de estudo desse trabalho, considerada uma obra
prima, que depois seria publicada juntamente com o romance O capitão de longo
curso no volume Os velhos marinheiros (1961). Mais tarde, viriam algumas de suas
obras mais consagradas, como Dona Flor e seus dois maridos (1966), Tenda dos
Milagres (1969), Tereza Batista cansada de guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977).
Promoveu em 1960, num shopping em Copacabana o Festival do Escritor
Brasileiro, na condição de vice-presidente da União Brasileira de Escritores e a data
do evento, 25 de julho, foi consagrada por decreto governamental como o Dia do
Escritor. Fora eleito por unanimidade em primeira votação para a Academia
Brasileira de Letras em 1961, ocupando a cadeira 23 que após sua morte foi
ocupada por Zélia Gattai.
A nova fase de sua literatura compreende os livros protagonizados por
figuras femininas, ao mesmo tempo sensuais, fortes e contestadoras. As mulheres
inventadas por Jorge Amado se consagraram no imaginário popular e ganharam as
telas da televisão e do cinema. Nas décadas de 70, 80 e 90, os livros do autor
viraram filmes e novelas, em adaptações realizadas por Walter George Durst,
Alberto D’Aversa, Marcel Camus, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Bruno
Barreto, Aguinaldo Silva, Luiz Fernando Carvalho, entre outros diretores e roteiristas.
Glauber Rocha e João Moreira Salles realizaram documentários sobre o escritor.
Em 1962, Jorge Amado vendeu os direitos de filmagem do livro Gabriela,
cravo e canela, para a Metro-Goldwyn-Mayer. Com o dinheiro, comprou um terreno
em Salvador e construiu uma casa, Rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho,
onde foi morar com a família em 1963. A casa era também uma espécie de centro
cultural. Além de abrigar um grande acervo de arte popular, Jorge Amado e Zélia
recebiam amigos, artistas e intelectuais. Abriam as portas até para admiradores
desconhecidos, de vários lugares do Brasil e do mundo.
Em 1983, Jorge e Zélia, passaram a viver metade do ano em Paris, metade
na Bahia. Na Europa, o escritor era reconhecido e celebrado como um dos maiores
21
romancistas brasileiros. Seu apartamento no charmoso bairro do Marais, lugar mais
tranquilo que sua movimentada casa em Salvador, era como refúgio para escrever.
Durante a década de 80, Jorge Amado escreveu O menino grapiúna, suas
memórias de infância, e o romance Tocaia Grande, dois livros que retomam o tema
da cultura cacaueira, que marcou o início de sua carreira literária. Nessa época
escreveu também O sumiço da santa.
Em 1987, foi inaugurada a Fundação Casa de Jorge Amado, com sede em
um casarão restaurado no Pelourinho, possui em seu acervo publicações sobre o
escritor, como teses, ensaios e outros textos acadêmicos, artigos de imprensa,
registro de homenagens e cartas.
Quando redigiu as últimas notas de memória que compõem Navegação de
cabotagem, publicado por ocasião de seus oitenta anos. Também em 1992, recebeu
de uma empresa italiana a proposta de escrever um texto de ficção sobre os
quinhentos anos do descobrimento da América. Produziu então, a novela A
descoberta da América pelos turcos, publicada no Brasil em 1994. Em 1995, o autor
foi agraciado com o Prêmio Camões, uma das maiores honrarias da literatura de
língua portuguesa.
Durante a década de 90, a filha Paloma, ao lado de Pedro Costa, reviu o
texto de suas obras completas, a fim de suprimir os erros que se acumularam ao
longo dos anos e das sucessivas edições de seus livros, é o que também fez a
editora Companhia das Letras, de 2008 pra cá, como citado no início desta sessão,
talvez seguindo as orientações de Paloma e Pedro Costa.
Em 1996, Jorge Amado sofreu um edema pulmonar em Paris ao voltar para
o Brasil, foi submetido a uma angioplastia, depois se recolheu na casa do Rio
Vermelho, já com um quadro clínico agravado, deprimido devido a cegueira parcial,
que o impediu de ler e escrever.
O escritor morreu em agosto de 2001, poucos dias antes de completar 89
anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas junto às raízes de uma velha
mangueira, no jardim de sua casa em Salvador, ao lado de um banco onde
costumava descansar, à tarde, em companhia de Zélia.
Ao longo das décadas, os livros de Jorge Amado foram traduzidos e
editados em mais de cinquenta países. Seus personagens viraram nomes de ruas,
batizaram estabelecimentos comerciais e foram associados a marcas de vários
produtos. O escritor foi tema de desfiles de Carnaval, frequentou rodas de capoeira,
22
envolveu-se com questões ambientais e teve suas histórias recriadas por trovadores
populares ligados à poesia de cordel.
Além do reconhecimento que o fardão de imortal da Academia Brasileira de
Letras proporcionou, o escritor recebeu o título de doutor honóris causa em
universidades europeias e centenas de homenagens ao longo da vida. Mas se
orgulhou, sobretudo, das distinções concedidas no universo do candomblé.
Em Caderno de Leituras, Reginaldo Prandi (2009)6
publica um artigo
intitulado Religião e sincretismo em Jorge Amado, onde comenta que em matéria de
religião, Jorge Amado foi, antes de qualquer coisa, sincrético. Assim como é
sincrética a Bahia, cenário principal de suas narrativas. “Jorge Amado, dava pouca
importância à pretensão deste ou daquele terreiro de ser mais “puro”.” (PRANDI,
2009, p.49). Tratava a todos como igualmente importantes e misturava todas as
nações de candomblé7
. Tanto os santos católicos como os orixás se confundem nos
enredos de seus romances, na mais fina tradição do sincretismo (PRANDI, 2009,
p.49).
De acordo com Prandi (2009, p.50) “o sincretismo foi um mecanismo cultural
decisivo para a reconstituição das religiões africanas no Brasil.” Lembrando que
sincretismo é aqui entendido como sendo a fusão de doutrinas de diversas origens,
podendo ser religiosas ou filosóficas, uma mistura, no caso, entre a católica e o
candomblé. Ele explica como até os termos foram se tornando sinônimos ou parte
de uma mesma nominação.
A própria palavra “santo” serviu de tradução para “orixá”, inclusive nos
termos “mãe de santo”, “filho de santo”, “povo de santo” e outras palavras
compostas em que originalmente a palavra africana era orixá. E esse santo
é o santo católico.
O candomblé se formou e se transformou no contexto social e cultural
católico do Brasil do século XIX. Pelo sincretismo, os orixás passaram a ser
identificados com os santos, sendo louvados, assim, tanto nos terreiros
como nas igrejas.
Os seguidores dos orixás no Brasil, especialmente nos primeiros tempos,
eram também católicos, e muitos rituais realizados no terreiro eram
complementados por cerimônias atendidas na igreja.
Isso mesmo, candomblé e Igreja católica andam juntos. Nem podia ser
diferente. Antes da primeira constituição republicana brasileira, de 1891, o
6
Disponível online em http://www.jorgeamado.com.br/professores.php.
7
Uma curiosidade explicativa apresentada por PRANDI sobre as Nações de candomblé “Há muitas
variantes rituais do candomblé, dependendo da origem étnica africana predominante nos terreiros
fundados na origem dessa religião. Cada variante étnica é chamada de nação de candomblé. As
principais nações de candomblé originárias dos povos Iorubá – também chamados nagôs – são as
nações queto, alaqueto, ijexá e efã” (PRANDI, 2009, p.51).
23
catolicismo era a religião oficial do Estado e a única tolerada (PRANDI,
2009, p.50).
Um período em que ser brasileiro era também ser católico de religião, o
Candomblé se fez no Brasil, inicialmente, como uma “segunda religião de negros
católicos, fossem escravos ou livres, nascidos no Brasil ou na África” (PRANDI,
2008, p.50). Só de uns tempos para cá, 1960, que o candomblé ganha espaço para
ser mais autêntico, e se tornando religião para todos, “sejam negros, pardos,
brancos ou amarelos, sem fronteiras de etnia, classe social ou origem geográfica”
(PRANDI, 2008, p.50). Observando nos romances de Jorge Amado, como diz
Prandi, a mistura entre o candomblé e o catolicismo ainda está presente, não tem
essa separação.
Segundo Prandi (2009), os africanos desconheciam a figura do Diabo,
ignorando essa separação entre o bem e o mal em campos ou personagens opostos
e irreconciliáveis como na tradição judaico-cristã. Para eles, “o bem e o mal andam
juntos em cada coisa, em cada pessoa. Nessa cultura, Exu era tão somente o
mensageiro dos orixás” (PRANDI, 2009, p.54). Entretanto, esse caráter de herói
divino trapalhão, de Exu, que gosta de brincar e confundir, que adora comer e beber
sem limite, que cobra pelos seus favores, que exibe a própria sexualidade e induz à
quebra das regras e à ruptura dos costumes. Tudo isso fez de Exu, aos olhos dos
primeiros cristãos que conheceram a religião dos orixás, ainda na África,
entenderam como um candidato natural ao posto de demônio. No sincretismo que
mais tarde se constituiu no Brasil, já tinha lugar demarcado. O orixá da transgressão,
do movimento e da mudança foi posto injustamente no lugar do Diabo. Mas é um
diabo alegre, domesticado, com o quem se pode negociar e conviver. “Muitos o
tratam com intimidade e o chamam de compadre. É assim também o Exu sincrético
de Jorge Amado” (PRANDI, 2009, p.55).
Prandi (2009) ressalta que o sincretismo é tema polêmico, e possibilita
diversas interpretações. A concepção de Jorge Amado é diferente daquela entendia
por Roger Bastide, onde sincretismo significa uma justaposição, ou seja, os três
folclores — índio, negro, branco — não se confundem eles se sobrepõem e
coexistem. “O folclore não mistura nem as cores, nem as classes” (PRANDI, 2009,
p.55). A postura de Jorge Amado mostra a brasilidade dos africanismos, acreditava
na fusão harmônica de tradições de origens diferentes, e sempre reiterou que santa
Bárbara e Iansã são uma só entidade, assim como ocorre com santo Antônio e
24
Ogum, e outros tantos pares sincréticos. Para Jorge Amado, ainda, segundo Prandi
(2009), o orixá brasileiro, com a nova face católica, é diferente do orixá africano
original. É algo novo.
É a Bahia de Jorge Amado, encerra Prandi (2009, p.57), com sua gente e
seus deuses quase humanos, “acima de tudo sincrética, povoada por negros,
mulatos e brancos que se ajoelham nas igrejas e dançam nos terreiros, com a
mesma devoção e total sinceridade.” Gente que sabe que o melhor da vida é viver, e
viver bem, e que não há nenhum lugar melhor do que este nosso velho mundo,
como ensina a tradição dos terreiros, perpetuamente lembrada por Jorge Amado.
Maria Lucia Montes (1998) lembra que as religiões afrobrasileiras
adentrariam a um período de modernização brasileira, presente nos anos 30, ainda
sobre o duplo peso da estigmatização e da perseguição. Seria em meio à elite
intelectual que escritores e artistas da Semana de Arte Moderna em São Paulo, ou
abertamente de esquerda, como Jorge Amado, se dedicaram, ao longo da década
de 20 e 30, “resgatar em algum sentido positivo as tradições culturais dos africanos
no Brasil, revalorizando suas práticas religiosas como constituintes da própria
identidade da nação”. Ao mesmo tempo, “denunciavam as condições de abandono e
pobreza” do estado para com os negros (MONTES, 1998, p.94).
Não sem propósito, o romancista escolheu o orixá Exu, representado no
desenho abaixo, criado pelo amigo Carybé, como marca pessoal. Trata-se de uma
figura da mitologia iorubá que simboliza o movimento e a passagem. Exu está
associado à transgressão de limites e fronteiras. A escolha indica tanto a filiação à
cultura popular mestiça baiana como a valorização da arte de transitar entre
universos sociais e culturais diferentes.
Figura 1 - Ilustração de Kiko Farkas sobre Exu de Carybé
Fonte: Imagem reproduzida do livro de Jorge Amado. Arquivo pessoal.
25
Este é o símbolo de Exu, orixá do Candomblé, muito usado por Jorge
Amado, tanto em seus livros quanto nas suas casas, conhecido como o Orixá da
comunicação ou como o Guardião. Em diversas obras de Jorge Amado se nota a
presença desse símbolo, dentro ou na contra capa de alguns. A edição de 2008 de
A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, analisada neste trabalho, a figura é
encontrada no centro da segunda folha, e novamente na página 110, depois de
terminada a narrativa.
Exu foi escolhido como guardião da Casa de Jorge Amado a pedido do
escritor. Mesmo antes que a casa fosse inaugurada, Jorge Amado fez questão de
que se assentasse o orixá na entrada da casa, como um sinal de proteção.
Curiosidade interessante sobre Exu é ser ele sempre, o primeiro a receber
oferendas, por se acredita que seja o responsável pela ligação entre mundo material
e mundo espiritual.
Alegre, brincalhão e generoso, é também ciumento, podendo trancar os
caminhos, provocar discussões e criar armadilhas aos que estão em falta com ele. É
comum que se assente o Exu na entrada das casas de candomblé como guardiões
assim como fez Jorge Amado. Nas palavras do próprio Amado, Exu come tudo que
a boca come, bebe cachaça, é um cavalheiro andante e um menino reinador. Gosta
de algazarra, senhor dos caminhos, mensageiro dos deuses, correio dos orixás, um
capeta. Por tudo isso “misturaram e confundiram” com o diabo, na verdade ele é
apenas o orixá em movimento, amigo de um bafafá, de uma confusão mas, no
fundo, excelente pessoa. De certa maneira é o Não onde só existe o Sim, o Contra
em meio do a favor, o intrépido e o invencível. Toda festa de terreiro começa com o
padê (despacho) de Exu, para que ele não venha causar perturbação, com suas
brincadeiras e estripulias. Sua roupa é bela: azul, vermelha e branca e todas as
segundas-feiras lhe pertencem. Exu leva o ogó (bastão com cabaças), sua insígnia,
e gosta de sentir o sangue dos bodes e dos galos correndo em seu peji (altar), em
sacrifício8
.
Até o mais célebre dos ateus baianos, o comunista Jorge Amado, cujo
centenário se comemora este ano, 2012, tinha sua queda religiosa pelos orixás.
8
A maioria das informações sobre Exu, escrevi com base na publicação online da Fundação Casa de
Jorge Amado, que contém a fala de Jorge Amado e Myriam Fraga. O ano de publicação não foi
encontrado. Disponível em http://www.jorgeamado.dreamhosters.com/?page_id=53 visitado em
agosto de 2012.
26
Todo mundo lá sabe disso: era o ateu que “simpatizava” com o Candomblé. Há
relatos de que, havia uma cruz atrás do caixão no velório do escritor, em 2001. E
uma senhora da Irmandade da Boa Morte, confraria afro-católica do recôncavo, que
cantava, disse saber que ele era ateu, mas também que era do culto afro. O casal
Amado pertencia a um tipo bastante comum na Bahia o “ateu de todos os santos”, é
o que comenta Cynara Menezes em artigos publicados online em abril deste ano.
Jorge Amado chegou a exercer o posto de Obá de Xangô no Ilê Axé Opô
Afonjá, o respeitadíssimo terreiro de mãe Stella de Oxóssi, no bairro do Cabula. Ser
Obá, um cargo honorífico, significa ser amigo e protetor do terreiro. Ainda moço, o
escritor tinha recebido do pai de santo Procópio seu primeiro título no candomblé,
Ogã, o “guardião das chaves da casa”. Bem, a propósito, uma das frases mais belas
sobre a fé que conheço, de Caetano Veloso, dizem que foi inspirada em Jorge
Amado: “Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não
cessam de brotar,/ Nem cansam de esperar”. Ateus baianos enxergam milagres…9
Apesar de sua amizade com personalidades de destaque – como Pablo
Neruda, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro – e do amplo reconhecimento de sua obra,
Jorge Amado recusava grandeza à sua trajetória de vida. Diz ele em Navegação de
Cabotagem (2006) que aprendeu com a vida, se diz um escritor e não um literato,
“em verdade sou um obá, em língua ioruba da Bahia obá significa ministro, velho,
sábio: sábio da sabedoria do povo” (AMADO, 2006, p.9). E mais adiante, fala ainda
que não nasceu pra ser famoso nem para ilustre, se sente apenas escritor e homem.
Jorge Amado foi um dos escritores que mais teve sua obra adaptada para
cinema e televisão. Tieta, Tereza Batista, Capitães de Areia, Os Pastores da Noite,
Terra do Sem Fim. Em 2010, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua vai aos
cinemas como Quincas Berro Dágua, e em 2012, Gabriela, cravo e canela, vira
novela. Em vários momentos da pesquisa foi mencionado Jorge Amado como um
escritor regionalista, e em busca de saber mais sobre isso me deparei com um artigo
publicado pela Fundação Getúlio Vargas10
, que de forma resumida, se nomina
9 Últimos dois parágrafos, com base na publicação online, ambos os artigos foram escritos por
MENEZES, Cynara. Não existem ateus na Bahia. 2012 IN: Carta Capital. Disponível em
http://www.cartacapital.com.br/cultura/nao-existem-ateus-na-bahia/, e
https://religioesafroentrevistas.wordpress.com/2012/04/06/nao-existem-ateus-na-bahia/. Visitado em
julho de 2012.
10
FGV. Anos de Incerteza (1930 – 1937) > Romance Regionalista. IN: Eras Vargas: dos anos 30 a
1945. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-
37/IntelectuaisEstado/RomanceRegionalista acesso em agosto de 2012.
27
"romance regionalista" ou "romance de 30" um conjunto de obras de ficção escritas
no Brasil a partir de 1928, geralmente associados aos romances nordestinos,
especialmente às obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado.
Esse fenômeno é bem mais abrangente, incluindo também a produção de autores
como Érico Veríssimo, Marques Rebelo, Ciro dos Anjos, Lúcio Cardoso e Cornélio
Pena, José Américo de Almeida com A bagaceira.
Os romances tidos como regionalistas veem mostrar as contradições e
conflitos de um Brasil que se desejava moderno, urbano e industrializado, mas que
guardavam ainda traços arcaicos da diversidade regional. O Brasil na época,
composto de uma mistura entre alguns estados mais desenvolvidos, de modernos
centros urbanos em expansão, do campo dominado por uma sociedade patriarcal
em decadência, de cidades, onde havia o homem comum, enfrentando problemas
sociais. “Assim como os autores da literatura proletária, os autores regionalistas
tinham uma preocupação sociológica e documental, distinguindo-se dos modernistas
com seu experimentalismo estético” (FGV, Romance Regionalista).
E também citam que a temática agrária aparece no romance regionalista em
obras que retratam o problema da seca, como O Quinze (1930) de Raquel de
Queirós, e Vidas Secas (1938) de Graciliano Ramos, ou a decadência dos engenhos
de açúcar, como Menino de engenho (1932), Bangüê (1934) e Usina (1936), de José
Lins do Rego. Igualmente a temática urbana é trabalhada nas obras de Jorge
Amado, que contam histórias de Salvador, ou de Érico Veríssimo, como Clarissa
(1933) e Caminhos cruzados (1935).11
2.2 NOTAS DE HISTÓRIA
Notavelmente a lágrima acompanha a morte. Entretanto, em cada lugar, em
cada época, segundo cada religião e grupo cultural, a intensidade da expressão o
sentimento durante o ritual fúnebre varia, um exemplo é o relato de Câmara
11
Sobre romances regionalistas contei com o apoio da publicação online da Fundação Getulio
Vergas, disponível em http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-
37/IntelectuaisEstado/RomanceRegionalista.
28
Cascudo (2001) sobre as Carpideiras12
no nordeste brasileiro, herança portuguesa,
quase inexistente no sul do Brasil. No entanto, percebemos que a presença ou
ausência de um “profissional do choro” nos rituais funerários, nada altera a
necessidade das lágrimas: “defunto sem choro, índice [símbolo] de suprema
indiferença e abandono total” (CASCUDO, 2001, p.117).
Quando se pensa o ritual fúnebre, este não pode ser resumido em lágrimas.
Existem “n” variáveis que podem ser observadas, como símbolos, objetos, orações,
o momento histórico, o significado da morte, as influências religiosas etc. e tudo o
que envolve esse rito de passagem que realoca o indivíduo vivo em seu lugar de
morto na organização social e biológica. Essa mudança de estado físico e status
social são fundamentais para compreendermos o que é isso que chamamos de ritual
fúnebre, assim como sua relação com o funeral descrito por Jorge Amado.
Falando de história, José João Reis (2004), professor e historiador baiano,
realizou uma pesquisa interessante sobre Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil
do século XIX, onde apresenta com detalhes um episódio ocorrido em outubro de
1836, a Cemiterada, evento onde a população de Salvador, revoltada, sai às ruas
em protesto, contra os governantes que impuseram uma “lei proibindo o tradicional
costume de enterros nas igrejas e concedendo a uma companhia privada o
monopólio dos enterros em Salvador por trinta anos” (REIS, 2004, p.13). Esse
episódio de modo geral, faz pensar a relação que se estabelece com a morte e todo
o processo de despedida do corpo sem vida, que a partir da lei, tem um novo
destino: a cova na terra, longe das igrejas, morada de Deus e antessala do paraíso.
Com essa nova tendência, o encaminhamento da alma para o outro lado, segundo a
moral religiosa vigente na época, em Salvador, se torna mais complicado.
Eventos, como o acima citado, ocorrido cerca de cem anos antes da obra de
Jorge Amado, mudam a relação desse povo com a morte e o morrer. Comprar um
terreno ou lote, construir uma cova e tudo mais que é preciso, inicia uma fase mais
intensa de comercialização da morte. Morrer como negócio, diz Reis (2004). Tais
despesas com a morte também se fazem presentes em A morte e a Morte de
Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, em vários momentos. Por exemplo, quando
12
Profissão feminina que consiste em chorar para um defunto alheio, mediante vontade dos
familiares ou do próprio falecido, necessário para garantir que a alma do morto fosse bem
encaminhada, ou ficasse tranquila. Esse serviço pode ser pago ou gratuito, dependendo de quem
morre, ou dos costumes locais ou da Carpideira. Segundo CASCUDO (2001) não existiu Carpideira
profissional no Brasil.
29
Tio Eduardo explica:
- Caro mesmo é o caixão. E os automóveis, se for acompanhamento
grande. Uma fortuna. Hoje não se pode nem morrer (AMADO, 2008, p.31).
A filha comenta como faria o velório e enterro do pai.
Depois de vestir decentemente o cadáver, transportá-lo para casa, enterrá-
lo ao lado de Otacília, num enterro que não fosse muito caro, pois os
tempos andavam difíceis, mas que tão pouco os deixassem mal ante a
vizinhança, os conhecidos, os colegas de Leonardo (AMADO, 2008, p.25).
Ressalta, igualmente, o caráter social, comunicativo da morte, e do velório,
pois é para os outros que se veste decentemente o cadáver.
Exemplifica como o nosso meio social, organizado com base no econômico,
influencia em todos os aspectos da vida e da morte do grupo. Fatos como a
cemiterada, analisada por Reis (2004), a vida de Jorge Amado, os ares da Bahia,
avanços da medicina, questões de higiene, o catolicismo, religiões e crenças
africanas, vão se misturando, harmonicamente ou não, e fornecem inspiração para
um contador de histórias criar personagens, mesmo um tanto exagerado, com um
jeito peculiar de encaram a morte e o modo de dar fim ao corpo, como Quincas no
nordeste do país.
E sem mais delongas darei início a conversa sobre a obra escolhida para
este trabalho, A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado.
2.3 A OBRA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA
Para fins de melhor organização do texto, vou apresentar nessa sessão um
apanhado geral da obra A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, juntamente
com algumas notas de análise sociológica e antropológica do conteúdo da narrativa.
A história de Quincas foi publicada inicialmente em 1951, em forma de
novela, para as primeiras edições da revista Senhor, como o título de A discutida
morte de Quincas Berro Dágua, ilustrada por Glauco Rodrigues. Escrita por
encomenda do amigo, pintor e artista plástico Carlos Scliar, responsável na
preparação da revista, fazia indispensável à presença do nome de Jorge Amado na
edição de estreia, qualquer coisa leve, rápida, engraçada...
Zélia Gattai Amado, escreve que “em 1959 Jorge Amado estava
inteiramente mergulhado na escrita do livro de Vasco Moscoso, quando o pintor
Carlos Scliar apareceu lá em casa”, “Jorge capitulou, deixou Vasco Moscoso de
30
Aragão descansando um pouco, colocou papel novo na máquina e começou a
escrever a história de Quincas Berro Dágua”. “
Ele escrevia e passava para eu fazer
cópias”, “fui me apaixonando pela figura maravilhosa do vagabundo de tantas
mortes” (AMADO, 2008, p.91)13
.
Considerada por muitos como obra prima de Jorge Amado, depois da
publicação em 1958 de Gabriela, cravo e canela, um memorável sucesso, A Morte e
a Morte de Quincas Berro Dágua, foi publicada pela primeira vez em livro no ano de
1961, no volume Os velhos marinheiros14
.
O sociólogo Roger Bastide elaborou um longo estudo que serviu de prefácio
à edição francesa da novela, o livro marcou uma virada em sua obra, o texto foi
publicado em mais 21 países e ganhou algumas adaptações para o teatro, a
primeira em 1972, em 1988, foi encenado na França. Na televisão, virou novela da
TV Tupi em 1968. Dez anos depois, Walter Avancini e James Amado realizaram As
mortes de Quincas Berro Dágua para a série Caso Especial, da Rede Globo, com
participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio e Antônio
Pitanga.
Em 2006, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua foi apontado como o
melhor livro de Jorge Amado, numa enquete feita pela revista EntreLivros, da qual
participaram Antonio Dimas, Milton Hatoum, Ferreira Gullar, Fábio Lucas, João
Ubaldo Ribeiro e Boris Schnaiderman.15
Em 2010 a narrativa volta ao cinema. A comédia de cento e dois minutos
intitulada Quincas Berro Dágua, dirigida por Sérgio Machado, conta com a
participação de Marieta Severo, Mariana Ximenes e Vladimir Brichta no elenco,
numa produção toda brasileira.
Bom, para resumir,16
o livro conta a história da dupla, ou tripla, morte de
Joaquim Soares da Cunha, apresentando assim o pluralismo de Jorge Amado, nas
13
Informações contidas na breve nota que Zélia escreve sobre a obra, que acompanha a edição de
2008 da editora Companhia das Letras.
14
A novela vinha acompanhada da narrativa A completa verdade sobre as discutidas aventuras do
comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão-de-longo-curso, texto que depois seria editado à
parte como O capitão-de-longo-curso.
15
Disponível online em http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1. Blog
acessado em 25 de junho de 2012 às 13:45 horas.
16
Para compor essa sessão que apresenta o resumo da obra, contei com as publicações online
disponíveis em: http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1 e
http://www.gargantadaserpente.com/resenhas/87.shtml e
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_morte_e_a_morte_de_qui
ncas_berro_dagua.
31
múltiplas possibilidades de morte, biológica, social e moral, que faz o leitor sentir
aquela curiosidade gostosa de saber quando, de fato, Quincas morre? A primeira
morte, moral, é registrada quando Joaquim deixa de existir no grupo familiar. Aquele
Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa de Rendas
Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços,
esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão. Como
pode um homem, aos cinquenta anos, abandonar a família, a casa, os
hábitos de toda uma vida, os conhecidos antigos, para vagabundear pelas
ruas, beber nos botequins baratos, frequentar o meretrício, viver sujo e
barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável? Vanda
não encontrava explicação válida. Muitas vezes, à noite, após a morte de
Otacília – nem naquela ocasião solene Quincas aceitara voltar para a
companhia dos seus – discutira o assunto com o marido. Loucura não era,
pelo menos loucura de hospício, os médicos tinham sido unânimes. Como
explicar, então? (AMADO, 2008, p.24)
A verdade é que Joaquim só começara a contar em suas vidas [da família]
quando, naquele dia absurdo, depois de ter tachado Leonardo de bestalhão,
fitou a ela [Vanda] e a Otacília e soltou-lhes na cara, inesperadamente:
– Jararacas!
E, com a maior tranquilidade desse mundo, como se estivesse a realizar o
menor e mais banal dos atos, foi-se embora e não voltou (AMADO, 2008,
p.42).
A família sem entender o que motivava essa virada existencial de Joaquim
Soares da Cunha, Quincas, tenta convencer o sujeito a voltar para casa, mas sem
sucesso. Dalí em diante, falavam dele no passado, as crianças acreditavam que o
avô, de saudosa memória havia a muito falecido, rodeado pelo carinho de parentes
e amigos. Tia Marocas, irmã de Quincas comenta,
– Coitado do Joaquim... Tinha bom gênio. Não fazia nada por mal. Gostava
dessa vida, é o destino de cada um. Desde menino era assim. Uma vez, tu
lembra, Eduardo?... quis fugir com um circo. Levou uma surra de arrancar o
pêlo – bateu na coxa de Vanda a seu lado, como a desculpar-se. – E tua
mãe, minha querida, era um bocado mandona. Um dia ele arribou. Me disse
que queria ser livre como um passarinho. A verdade é que ele tinha graça
(AMADO, 2008, p.34).
Então, com a morte biológica de Quincas o santeiro amigo, único que sabia
da existência e da localização da residência da filha do falecido, foi até a pequena,
porém bem arrumada casa da família Barreto, declarar o ocorrido, causando-lhes
um suspiro de alívio.
O santeiro contava de Quincas a Leonardo [genro], não havia quem não
gostasse dele na ladeira do Tabuão. Por que se entregara ele – homem de
boa família e de posses, como o santeiro podia constatar ao ter o prazer de
travar conhecimento com sua filha e seu genro – àquela vida de
vagabundo? Algum desgosto? Devia ser, com certeza. Talvez a esposa o
houvesse carregado de chifres, muitas vezes sucedia. E o santeiro punha
os indicadores na testa, numa interrogação frascária: tinha adivinhado?
– Dona Otacília, minha sogra, era uma santa mulher!
32
O santeiro coçou o queixo: por que então? Mas Leonardo não respondeu,
foi atender Vanda, que o chamava do quarto (AMADO, 2008, p.20).
Logo depois, o santeiro encontrou sua resposta,
Na sala, o santeiro admirava um colorido retrato de Quincas, antigo, de uns
quinze anos, senhor bem-posto, colarinho alto, gravata negra, bigodes de
ponta, cabelo lustroso e faces róseas. Ao lado, em moldura idêntica, o olhar
acusador e a boca dura, dona Otacília, num vestido preto, de rendas. O
santeiro estudou a fisionomia azeda:
– Não tem cara de quem engana marido... Em compensação, devia ser um
osso duro de roer... Santa mulher? Não acredito... (AMADO, 2008, p.21)
Além das considerações expostas pelo santeiro, outros detalhes da vida de
Joaquim, relatados ao longo na narrativa, mostram essa falta de gosto pela vida que
levava.
A casa cheia de gente. Vanda era mocinha, começava a namorar. Nesse
dia quem estourava de contentamento era Otacília, no meio do grupo
formado na sala, com discursos, cerveja e uma caneta-tinteiro oferecida ao
funcionário. Parecia ela a homenageada. Joaquim ouvia os discursos,
apertava as mãos, recebia a caneta sem demonstrar entusiasmo. Como se
aquilo o enfastiasse e não lhe sobrasse coragem para dizê-lo (AMADO,
2008, p.41).
Depois dessa virada existencial que marcaria a morte moral, a segunda se
caracteriza pelos danos que causa ao corpo. Anunciada pelo santeiro à família, logo
depois de Quincas ser encontrado por uma negra do Candomblé, morto no leito
pobre de uma pocilga, da ladeira do Tabuão onde morava. Sujo, com o dedão do pé
escapando por um buraco na meia furada. Ouvindo isso tudo, Vanda, a filha,
Leonardo, o genro, Tio Eduardo e Tia Marocas, irmãos, ao mesmo tempo em que se
apresentam enlutados, davam graças pelo ocorrido. Finalmente morrera a vergonha
da família. Quanto ao velório, os familiares buscavam um acordo. Eduardo reclama,
– Tudo isso está muito bem, Vanda. Que ele seja enterrado como um
cristão. Com padre, de roupa nova, coroa de flores. Não merecia nada
disso, mas, afinal, é teu pai e meu irmão. Mas porque manter o defunto em
casa... (AMADO, 2008, p.35).
Decidem então, velar o parente ali mesmo na Ladeira do Tubão, no quarto
onde morrera. No caixão, porém, Quincas ostenta um sorriso maroto. Estaria mesmo
morto? A morte de Quincas foi sentida, por aonde a notícia chegara, nos bares,
botequins e armazéns, "imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda
irreparável" (AMADO, 2008, p.50). Afinal,
quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto
mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como
ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas,
conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume (AMADO,
2008, p.50).
33
Todos que lhe queriam bem, mulheres baratas, vagabundos, malandros,
marinheiros desembarcados, comerciantes e jogadores, derramaram lágrimas pela
perda. À noite, no velório não poderiam deixar de faltar os amigos, companheiros de
farra, em especial os inseparáveis Curió, Cabo Martim, Pé-de-Vento e Negro
Pastinha, este que chamava Quincas de paizinho. Já chegaram úmidos de cachaça
e lágrimas se colocando a disposição para auxiliar a família no que fosse preciso.
Como opostos que não se atraem, foi um encontro pouco amistoso.
A família suspendeu a animada conversa, quatro pares de olhos hostis
fitaram o grupo escabroso. Só faltava aquilo, pensou Vanda. Cabo Martim,
que em matéria de educação só perdia para o próprio Quincas, retirou da
cabeça o surrado chapéu, cumprimentou os presentes:
– Boa tarde, damas e cavalheiros. A gente queria ver ele...
Referir-se ao morto usando o termo “ele” é como uma medida de segurança.
Afinal, usar o nome é uma forma de entrar em contato com o morto, um meio do
torná-lo vivo, um meio de evocá-lo (RODRIGUES, 2006, p.78). Cabo Martim, então,
Deu um passo para dentro, os outros o acompanharam. A família afastou-
se, eles rodearam o caixão. Curió chegou a pensar num engano, aquele
morto não era Quincas Berro Dágua. Só o reconheceu pelo sorriso.
Estavam surpreendidos os quatro, nunca poderiam imaginar Quincas tão
limpo e elegante, tão bem vestido. Perderam num instante a segurança,
diluiu-se como por encanto a bebedeira. A presença da família – sobretudo
das mulheres – deixava-os amedrontados e tímidos, sem saber como agir,
onde pousar as mãos, como comportar-se ante o morto (AMADO 2008,
p.63).
Agora estavam ali em silêncio, de um lado a família de Joaquim Soares da
Cunha, filha, genro e irmãos, de outro lado os amigos de Quincas Berro
Dágua. Pé-de-Vento metia a mão no bolso, tocava na jia amedrontada,
como gostaria de mostrá-la a Quincas! Como se executassem um
movimento de balé, ao afastarem-se do caixão os amigos, aproximaram-se
os parentes. Vanda lançava um olhar de desprezo e reproche ao pai.
Mesmo depois de morto, ele preferia a sociedade daqueles maltrapilhos
(AMADO, 2008, p.64).
Pastinha empurrou com a mão o pé incômodo do amigo, sua voz soluçou:
– Ele era o pai da gente! Paizinho Quincas...
Foi como um soco no peito de Vanda, uma bofetada em Leonardo, uma
cusparada em Eduardo. Só tia Marocas riu, sacudindo as banhas, sentada
na cadeira única e disputada (AMADO, 2008, p.66).
Vanda sentia-se melhor. Expulsara para um canto do quarto os
vagabundos, impusera-lhes silêncio. Afinal não lhe seria possível passar a
noite ali. Nem ela nem tia Marocas. Tivera uma vaga esperança, a começo:
de que os indecentes amigos de Quincas não demorassem, no velório não
havia nem bebida nem comida. Não sabia por que ainda estavam no quarto,
não havia de ser por amizade ao morto, essa gente não tem amizade a
ninguém (AMADO, 2008, p.68).
Mais tarde,
34
Tia Marocas começou a dizer de seu desejo de retirar-se, sentia-se cansada
e nervosa. Vanda, tendo ocupado seu lugar na cadeira ante o caixão, não
respondia, parecia um guarda cuidando de um tesouro.
– Cansados estamos todos – falou Eduardo.
– Era melhor mesmo elas irem embora... – Leonardo temia a ladeira do
Tabuão mais tarde, quando houvesse cessado completamente o movimento
do comércio e as prostitutas e os malandros a ocupassem.
Educado como era, e querendo colaborar, cabo Martim propôs:
– Se os distintos querem ir descansar, tirar uma pestana, a gente fica
tomando conta dele.
Eduardo [o irmão] sabia não estar direito: não podiam deixar o corpo
sozinho com aquela gente, sem nenhum membro da família. Mas que
gostaria de aceitar a proposta, ah! como gostaria! (AMADO, 2008, p.66).
Antes de escurecer Vanda e Tia Marocas foram para casa, e perto das dez
horas da noite, Leonardo também foi. Combinaram então, que Tio Eduardo deveria
passar a noite com o falecido. Estava consideravelmente cansado, ainda reflexivo
perguntou,
– Vocês vão ficar a noite toda?
– Com ele? Sim senhor. A gente era amigo.
– Então vou em casa, descansar um pouco – meteu a mão no bolso, retirou
uma nota. Os olhos do Cabo, de Curió e Pé-de-Vento acompanhavam seus
gestos. – Tá aí para vocês comprarem uns sanduíches. Mas não deixem ele
sozinho. Nem um minuto, hein!
– Pode ir descansado, a gente faz companhia a ele (AMADO, 2008, p.72).
Aceitando a proposta ficou ao encargo dos amigos a responsabilidade de
cuidarem do defunto durante a madrugada. Os amigos de tão emocionados, dão de
beber ao morto, vestem-no com suas roupas habituais, dividindo entre si o terno
novo, os sapatos e a camisa. Consideravam um desperdício,
– Bom paletó... – cabo Martim examinou a fazenda. – Besteira botar roupa
nova em defunto. Morreu, acabou, vai pra baixo da terra. Roupa nova pra
verme comer, e tanta gente por aí precisando... (AMADO, 2008, p.76).
No decorrer da conversa, lembraram-se de um evento a acontecer naquela
noite, e levaram o amigo para comer moqueca no barco do seu Manoel. Caminham
de braços dados com Quincas pelas ruas, buscaram as mulheres, vestidas de luto,
Quitéria do Olho Arregalado, toda de negro, mantilha na cabeça,
inconsolável viúva, sustentada por duas mulheres.
– Cadê ele? Cadê ele? – gritava, exaltada.
Curió apressou-se, trepou nos degraus da escadaria, parecia um orador de
comício com seu fraque roçado, explicando:
– Tinha corrido a notícia de que Berro Dágua bateu as botas, tava tudo de
luto.
Quincas e os amigos riram.
35
– Ele tá aqui, minha gente, é dia do aniversário dele, tamos festejando, vai
ter peixada no saveiro de Mestre Manuel (AMADO, 2008, p.83).
Quitéria, quando alcançou seu Berrito, declara,
– Quase morri com a notícia e tu na farra, desgraçado. Quem pode com tu,
Berrito, diabo de homem cheio de invenção? Tu não tem jeito, Berrito, tu ia
me matando... (AMADO, 2008, p.84).
Dirigiram-se todos para comer peixada no saveiro do Manuel,
Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada,
comida ali mesmo na rampa, não iria sair barra fora quando apenas
marítimos rodeavam o caldeirão de barro. No fundo, ele não chegara em
nenhum momento a acreditar na notícia da morte de Quincas e, assim, não
se surpreendeu ao vê-lo de braço com Quitéria. O velho marinheiro não
podia falecer em terra, num leito qualquer.
– Ainda tem arraia pra todo mundo...
Suspenderam as velas do saveiro, puxaram a grande pedra que servia de
âncora. A lua fizera do mar um caminho de prata, ao fundo recortava-se na
montanha a cidade negra da Bahia. O saveiro foi-se afastando devagar
(AMADO, 2008, p.87).
Quando no barco, a passear mar adentro, se forma um forte temporal e em
meio ao caos, Quincas pronuncia sua frase derradeira,
No meio da confusão
Ouviu-se Quincas dizer:
“Me enterro como entender
Na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa no chão.”
E foi impossível saber
O resto de sua oração. (AMADO, 2008, p. 92)
Ouvida por Quitéria, que estava ao seu lado, lançando-se em seguida, ao
mar. Quincas ficou na tempestade "envolto num lençol de ondas e espuma, por sua
própria vontade".
No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo, à luz dos raios,
viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira.
Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara
na tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria
vontade (AMADO, 2008, p.90).
Texto enxuto e denso, poético e debochado, A morte e a morte de Quincas
Berro Dágua de Jorge Amado, trata do conflito entre a ordem instituída e a liberdade
da boemia, como os dois lados de uma mesma moeda (sociedade).
DaMatta (1993) diz que Antonio Candido percebe em Tese e antítese e,
posteriormente em Vários escritos a problemática da vingança e da mudança do
nome como sinais de mudança da posição social em Guimarães Rosa. Essa
questão da troca de nome em virtude da mudança de posição social, pode ser
36
percebia em muitos casos na história do país como, por exemplo, o jogador de
futebol Pelé, antes reconhecido por Édson Arantes do Nascimento, ou da
apresentadora de programas infantis na televisão Xuxa, antes reconhecida por Maria
da Graça Meneghel, igualmente acontece com um personagem de Jorge Amado, de
nome Joaquim Soares da Cunha, apelidado desde sempre de Quincas, que se torna
único, quando passa a ser Quincas Berro Dágua. Não é que esses sujeitos perdem
seu nome “inicial”, apenas são reconhecidos perante o grupo em que estão inseridos
como um ser diferente daquele que era antes, desempenhando assim outros papeis,
com um nome distinto daqueles que corriqueiramente encontraríamos. Pelé, Xuxa,
Quincas Berro Dágua são nome únicos que remetem a personalidades únicas e não
a uma Maria, ou Edson, ou Joaquim qualquer.
Bom, mas e de onde será que surge a ideia para escrever a fantástica
história de um homem que rompe com esse ideal moderno de vida bem sucedida e
estável, para curtir na boemia e rodas de jogo? Affonso Romano de Sant’Anna no
posfácio da edição de 2008, de A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, edição
que baseamos este estudo, conta que essa “história tão inventada é verdadeira” em
dois sentidos. Primeiro “porque o personagem Quincas ganhou vida própria desde
que” foi publicado em 1959, na Revista Senhor, justamente por Jorge Amado criar
tipos tão verossímeis que pareciam competir com a realidade civil, passando a “viver
no imaginário de incontáveis leitores”. A “história também é verdadeira porque deriva
de um fato realmente sucedido”, diz Sant’Anna, Quincas existiu de fato, claro, com
outro nome, cabo Plutarco, que por sinal nem era baiano, era cearense. E
aquela cena do enterro e todas as diabruras dos amigos carregando o
Quincas morto/vivo pelas ruas e fazendo tomar um porre com eles,
ocorreram não nas ladeiras de Salvador, mas em torno da Praça da
República, no Rio de Janeiro, em Abril de 1950 (AMADO, 2008, p.96).
Isso foi descoberto graças a curiosidade insistente de José Helder de Souza,
que pesquisou sobre a gêneses da obra, depois de ouvir uma vaga declaração de
Jorge Amado, durante um seminário, em 1981, portanto 22 anos depois da história
de Quincas, rodar “por este mundo de vivos e mortos”, quando Jorge recebia da
Universidade Federal do Ceará o titulo de doutor honoris causa. Na declaração em
parte, dizia,
... Refiro-me a A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Esse vagabundo
dos becos e ladeiras da cidade da Bahia, que hoje trafega mundo afora em
mais de vinte línguas, em trinta países, que virou peça de teatro, balé,
programa de televisão. Quincas Berro Dágua foi gerado em Fortaleza, onde
37
brotou a ideia deste pequeno romance. Deram-me notícia de caso
acontecido quando da morte de um boêmio, contam-me como a
solidariedade dos amigos na hora da ausência transformou a dor da
despedida em festa (AMADO, 2008, p.98).
Acabaram por descobrir que Jorge Amado tinha ouvido a narrativa original e
originária da história de Quincas Berro Dágua na boate Maracangalha, que era na
verdade um nome criativo dado as sessões de encontros de amigos na casa do
advogado Zequinha de Morais, na rua Senador Pompeu, 959, em Fortaleza.
Pelas pesquisas o personagem inspiração tem sua origem familiar, nos
primeiros colonizadores dos sertões de Acara. Cabo Plutarco cai na vadiagem e no
picaresco, quando,
numa viagem de navio do Rio a para Fortaleza, tomou um porre e aprontou
tanta coisa que foi necessário chamar a polícia do porto do Recife, despi-lo
para que não fugisse, localizar um psiquiatra, que o tirou do hospício,
levando-o sob sua guarda ao navio (AMADO, 2008, p.102).
Uma aproximação entre realidade e ficção está presente quando lembramos
o fato de que Quincas cearense, numa outra viagem, foi dado como
náufrago e morto quando os alemães torpedearam o navio Baependi, em
que ele deveria estar, e não estava, por ter ficado em Salvador, pelos
castelos ou prostíbulos da cidade e em arruaças na ladeira do Tubão
(AMADO, 2008, p.103).
Enquanto sua família lamentava sua morte, ele reaparecia lépido e fagueiro,
dias depois. O Quincas baiano, por sua vez, naufraga daquele saveiro numa noite
de tempestade, mas com seu corpo desaparecido fica o mistério sobre sua morte, se
tornando um mito. “Pois um bom personagem mítico morre, mas não deixa vestígio
do corpo” (AMADO, 2008, p.103). Então “caso alguém queria homenagear o
personagem que deu origem” a esta obra literária, “terminada a leitura do livro, dirija-
se ao canteiro 6059 do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, e deposite ali uma flor”
(AMADO, 2008, p.104).
Affonso (2008) comenta, ainda no posfácio da edição de 2008, de A morte e
a morte de Quincas Berro Dágua que “Jorge Amado tinha um ouvido danado de bom
para transformar fatos particulares em narrativas de utilidade pública, e é isso que o
artista é, um indivíduo de utilidade pública” (AMADO, 2008, p.96). Isso caracteriza
Jorge como um escritor oral, um grande contador de casos. E como indivíduo de
utilidade publica, misturando vida e literatura, realidade e ficção, faz com que “a
realidade injeta vida na ficção e a ficção injeta vida na realidade”. É isso que Affonso
Sant’Anna faz no posfácio, mostrar essa proximidade entre a realidade e o inventado
que se torna realidade, e que gera novas invenções...
38
E assim, não se trata de autor falando sobre o povo, mas de alguém que faz
o povo falar através dele, numa brincadeira lúdica onde Jorge Amado flerta entre o
surreal e a realidade, loucura e racionalidade, amor e desamor, ternura e rancor, de
forma envolvente e instigante, uma das características das obras de Jorge Amado e
de seu orixá Exu.
Bem, agora que a história, de um modo geral, foi apresentada, proponho
pensarmos o funeral de Quincas como um ritual de passagem de vivo para morto,
iniciado quando abandona a família e que termina quando Quincas se joga ao mar.
Juntamente, refletirmos sobre como a lágrima está presente nesse processo.
Logicamente, existem outras possibilidades de análise, usando a mesma teoria e
esse mesmo caso, e que certamente este trabalho negligenciará discussões
relevantes, mas como todo recorte investigativo exige delimitações, esta análise é
organizada e orientada com base a ordem instituída, representada na narrativa de
Jorge Amado, pela família e a religião cristã.
3 NOTAS SOBRE COMO O CIENTISTA SOCIAL PODE USAR A LITERATURA
PARA FALAR DA SOCIEDADE.
Diria Raymond Quivy, em Manual de Investigação em Ciências Sociais
(1998), que um pesquisador na área das ciências sociais, com ênfase em
antropologia, optaria em trabalhar com documentos – e não com etnografia como
era de se esperar - por duas razões completamente diferentes. Uma delas se refere
ao estudo de documentos por si próprios, partindo do documento se extrai
elementos para construção do problema, “como quando examina a forma como uma
reportagem televisiva expõe um acontecimento, ou faz análise sociológica de um
romance” (QUIVY, 1998 p.201).
O outro motivo é a busca, no documento, de informações úteis para discutir
o objeto de estudo, como por exemplo, usar autos de processos criminais municipais
para traçar um perfil dos crimes mais frequentes na cidade, assim o que se quer é
descobrir quais os crimes mais frequentes, e para isso se resolve usar tais
documentos. Como no primeiro caso, “os problemas encontrados derivam da
escolha do objeto de estudo ou da delimitação do campo de análise, e não dos
métodos de” coleta “de informações propriamente ditas”, e nem de uma pergunta
problema, Quivy, considera a pesquisa em documentos como técnica complementar
de uma investigação (QUIVY, 1998 p.201).
Este trabalho mistura um pouquinho dessas duas justificativas, num primeiro
momento, em fase de escrita do projeto, a obra A morte e a Morte de Quincas Berro
Dágua, de Jorge Amado, publicado em 1959, chama atenção, tendo em vista a
riqueza de elementos sobre a sociedade baiana e sobre a morte. Deste sai o
problema da expressão do sentimento no velório, narrado por Jorge Amado. Com a
leitura de outros textos e o amadurecimento da ideia, o texto é revisitado como uma
representação possível da realidade, na intenção de obter informações úteis, em
maior ou menor grau de profundidade, sobre identidade, relações sociais, família,
religião e principalmente a expressão do sentimento durante o ritual fúnebre, de
Quincas, personagem que Jorge Amado reinventa17
, sobre a sociedade baiana do
século XX.
17
Affonso Romano de Sant’Anna no posfácio da edição de 2008 de A morte e a Morte de Quincas
Berro Dágua, de Jorge Amado, conta que ocorreu uma investigação e o personagem Joaquim Soares
40
Fica evidente que este trabalho, pretendendo lidar especificamente com
fontes textuais, carece de uma discussão inicial abordando os limites e
possibilidades da antropologia estudar textos tidos como literários. Para tal, conto
com o embasamento teórico fornecido por Roberto DaMatta (1993), que realisou
algumas investigações antropológicas, de cunho etnográficos, em textos literários
que falam da sociedade, no qual, desenvolveu estratégias para lidar com as
importantes e difíceis questões poéticas que envolvem um texto classificado como
literário. Primeiramente DaMatta prestou mais atenção na “história” narrada, e ao
modo pelo qual revelava atividades e valores que serviam para dar sentido a
sociedade brasileira, já que investigar sobre a identidade nacional é elemento
sempre presente em seu trabalho.
E nessa perspectiva tomou as peças literárias como narrativas míticas, como
momentos em que a sociedade fala de si mesma, seguindo um modelo comparativo,
onde os “mitos” são a própria sociedade representada por meio de certo código
(DAMATTA, 1993, p.35). Então, segundo ele, a sociedade pode ser invocada por
meio de muitas vozes, perspectivas ou textos, o que não quer dizer que ela não
possa ter uma visão integrada de si mesma e, por isso mesmo, não tenha
estabelecido modos de falar de si própria que considere mais adequados ou mais
corretos. É ela que funda modos mais “claros” e mais legítimos de falar de si mesma.
Na tentativa de classificar o que é literário, separando daquilo que é outra
coisa, DaMatta (1993) desenvolve a ideia de que o texto literário poderia ser
chamado de texto deslocado. Por exemplo, numa sociedade dominada por valores
religiosos, um texto profano tenderia a ser tido como literário, um espaço onde se
pode expressar o que fora deste seria menos aceitável. Do mesmo modo, se uma
sociedade normalmente não permite falar de sexo, a literatura fala, e discursa sobre
ele de modo aberto e escandaloso. Assim, a teoria do deslocamento pode ajudar a
determinar o que é literário sem cair em armadilhas essencialistas e metafísicas.
Fica evidente que, segundo DaMatta (1993), nas sociedades ocidentais
guiadas por uma ordem prática, o texto literário seria o oposto, é arte, definida como
atividade sem fins práticos, algo feito por amor, paixão, aptidão. Assim, quanto mais
contemplação e renúncia do cotidiano, mais artística seria a obra. Diferente das
da Cunha, que “vira” Quincas Berro Dágua, é inspirado por um cearense, que teria vivido tal história,
menos fantástica talvez, com um fim menos autêntico, mas de história verídica, que ocorreu no Rio de
Janeiro.
41
experiências científicas e etnográficas que possuem um objeto, problemáticas a
solucionar, que reduzem a experiência de viagem, ao ponto de partida e de
chegada, a experiência literária ressalta o caminho, o deslocamento, só o gênio do
artista é capaz de perceber como o mundo se faz em dramas, tragédias e emoções.
Assim, o texto monográfico busca enfrentar ou resolver um problema,
podemos então, concordando com DaMatta (1993), diferenciar os relatos
antropológicos de viajantes, onde se encontra uma série de aventuras, relatado em
primeira pessoa, um tanto ao acaso, e cujo alvo é achatar e padronizar o
comportamento de humanidades radicalmente diferenciadas, das monografias
etnográficas que são narrativas motivadas por responder a questões raramente
formuladas pelo seu autor. São questões colocadas por outros autores em outros
livros, épocas e aldeias, que são reconstruídas e (re)experimentadas pelo
pesquisador, e validada por testemunhas. O que caracteriza esse tipo de narrativa é
um problema ou indagação mais que um povo, e na reposta está a
busca deliberada do padrão, do sistema e da estrutura enquanto
paralelamente evita-se tudo o que é acidental, inesperado e anedótico. De
fato, a respeitabilidade do discurso etnográfico jaz precisamente nisso
(DAMATTA, 1993, p.41).
18
Mesmo os antropólogos sociais se entendendo por meio de textos, seu
objeto não é escrever literalmente,
mas inventar modos de vida, sistemas políticos, mitologias e quadros de
valores. Eles sabem que a virtude da monografia é a descoberta que certas
coisas acontecem aqui, melhor do que lá (DAMATTA, 1993, p.44).
e vice versa. Enquanto a narrativa antropológica é motivada pela tentativa de
descrever regras e responder a questões, na literatura, se trata de descrever
sistemas de ações individuais, talvez para fazer aquela pergunta que ninguém,
exceto os escritores literários, tem a coragem de responder.
DaMatta (1993) continua dizendo que, para tal, o romance brasileiro tem que
ser obrigatoriamente uma narrativa da realidade nacional, mantendo com ela uma
relação de verossimilhança fotográfica, tal e qual um filme documentário ou uma
novela da TV Globo, para que desperte, interesse dos críticos pelo menos. Se
repararmos bem, os livros que são considerados clássicos da literatura nacional,
discorrem sobre elementos presentes na história brasileira, como escravidão, a
18
Para os pioneiros da narrativa etnográfica, gente como Malinowski, Boas e outros, se tratava de
desmistificar o relato clássico feito por viajante, missionário e agente colonial; relato no qual os
compromissos estavam fora da sociedade em questão (DAMATTA, 1993, p.41).
42
miscigenação inter étnica, o hibridismo da sociedade. Assim, a questão da
verossimilhança é invariavelmente colocada e, junto com ela, a questão normativa,
para que serve? Como pode ser utilizada? DaMatta (1993), toma o texto literário
como uma narrativa mítica, estudado primeiramente através de suas determinações
internas. Somente depois, tentaria examinar a obra em seu contexto histórico social.
Com o desejo de apresentar a possibilidade de ler uma obra literária buscando nela
“princípios estruturais” e “categorias sociais básicas”. Por causa disso, o texto como
conto era mais interessante, para DaMatta (1993), do que o texto como
representante de um gênero literário que necessariamente pertencia a uma série
histórico-social.
Ilana Seltzer Goldenstein (2002) em uma investigação sobre Jorge Amado
escreve que o trabalho artístico necessariamente estabelece uma relação arbitrária
e deformante com a realidade, devido a despreocupação com a fidelidade e
exatidão, e considera que o sucesso deste autor, vai muito além da venda de um
produto “ao gosto do público” de massa e uma rede de boas relações pessoais. É
questão de “eficácia simbólica”: o escritor soube tocar as pessoas de duas maneiras:
por conseguir transpor poeticamente para a literatura formas populares de viver e de
narrar e por saber manipular e recriar representações identitárias da Bahia e dos
baianos. Cita então, o politólogo Benedict Anderson (1985) e o historiador Eric
Hobsbawm (1983 e 1990), quando discutindo “nação”, ambos os autores
consideram a língua e a literatura como os principais vetores da consolidação de
uma identidade nacional (GOLDENSTEIN, 2002, p.126).
Se optasse por seguir os rumos de Roberto DaMatta (1993), este trabalho
seria dirigido por uma metodologia comparativa, exigindo analisar mais uma obra
literária, na busca de elementos para tratar de rituais fúnebres, lágrima e relações
sociais na Bahia que seriam pensadas como histórias míticas. A opção por trabalhar
com somente uma obra, dificulta o estranhamento e a relativização exigidos pelo
fazer antropológico. No entanto, permite ir além dos personagens e da história
narrada, possibilita estudar mais a fundo o todo em que a obra surge, o contexto
histórico e as possíveis relações com o meio social, a influência da biografia do autor
na narrativa e assim mais. Concordando com DaMatta que noutro momento aponta
a necessidade de, quando se analisa uma obra literária, levar em consideração, o
autor e o momento histórico-social que a produziu. E nesse sentido, é tolerável dizer
que se faz uma comparação entre a estória literária e história histórica.
43
O que guia a escolha desse método, é a tentativa de saber como está
relacionada a história de Jorge Amado, da Bahia, Salvador e os personagens diante
da morte. Essa metodologia que privilegia o histórico e social, e a biografia do autor
é fundamental para validar as representações da sociedade na obra.
Assim, o texto literário pode ser entendido como fonte de representação
social de uma determinada época e grupo. Para explicar melhor, Emile Durkheim,
como outros pensadores da Escola Sociológica Francesa, na busca da origem social
das categorias de entendimento, destacam a relevância de algo que nominaram de
representação19
. Inicialmente Durkheim (1994) e Marcel Mauss (1979) a usaram
como forma de analisar a realidade coletiva, por expressar conhecimentos, crenças
e sentimentos do grupo social, já que para eles, o que orienta as ações humanas vai
muito além da fisiologia cerebral, como acreditava a psicologia na época. Tempos
depois, por força da psicologia social, o conceito de representação é retomado, e
Serge Moscovici20
promove a substituição do termo coletivo por social e lhe amplia o
significado, afirmando que as representações também produzem conhecimentos.
Assim, as representações sociais, oriundas das práticas sociais do grupo, podem ser
usadas como categorias de análise social. É o que Marisete Horochovski defende
em artigo publicado em 2004, e bem antes dela, Durkheim, contribui no sentido de
consolidar sociologia como ciência, tendo objeto e método.
Durkheim em As regras do método sociológico (1987), define os fatos
sociais como objetos/coisas que são anteriores e exteriores ao indivíduo, coercitivos,
gerais e comuns a todos os membros do grupo, independente das manifestações
individuais. Estes fatos sociais por sua vez, que só podem ser entendidos por meio
de observação e experimentação, passando progressivamente dos caracteres mais
externos e mais imediatamente acessíveis para os menos visíveis e mais profundos
(Durkheim, 1987, p.XXI). As representações, tal quais os fatos sociais, tem sua
existência independente dos fatos individuais, sendo exteriores a consciência
individual, afinal só existe nas partes porque antes existem no todo. E assim
Durkheim (1994) afirma que as representações coletivas traduzem a maneira pela
qual o grupo enxerga a si mesmo, nas relações com os objetos que o afetam.
19
Representação individual e representação coletiva, sendo essa última de maior relevância para a
Sociologia, por auxiliar na compreensão da realidade.
20
Segundo Marisete Horochovski, em artigo intitulado “Representações sociais: Delineamentos de
um categoria analítica”, publicado na Revista Eletrônica TESE, dos Pós-Graduandos em Sociologia
Política da UFSC,Vol. 2 nº 1 (2), janeiro-junho/2004, p. 92-106
44
Representações que não exprimem nem os mesmos sujeitos, nem os mesmos
objetos, não poderiam depender das mesmas causas.
Para melhor expressar essa ideia, Durkheim (1994) fez uso das religiões,
pois considera que com elas surgem as principais categorias de entendimento,
ferramentas que usamos para classificar como certo e errado, sagrado e profano,
que nos ensinam noções de vida, de morte, de gênero, que são dinâmicas. É no
meio social que as formas de classificar surgem, por necessidade de se estabelecer
relação entre os espaços, laços de parentesco etc.. É também no social onde essas
categorias de modificam. Segundo ele, todas as religiões possuem as mesmas
causas e respondem as mesmas necessidades, se apoiam no real e o exprimem,
possuindo certo número de representações fundamentais e de atitudes rituais, que
em suma, tem o mesmo significado e a mesma função.
Nas sociedades tribais a consciência de grupo é mais forte, ali existe uma
representação coletiva estruturada na religião, que possibilita os indivíduos
conceberem o mundo de forma homogênea, onde a religião se apresenta como um
sistema de representações, eminentemente social, do mundo. Assim, dentro da
religião, as representações compreendem um sistema de ideias que, juntamente
com os ritos e o culto, compõe um sistema de práticas que procura exprimir o
mundo. Mauss (1979) usa-se das ideias de Durkheim ao estudar os rituais funerários
australianos, citando a lágrima, os cânticos, o luto como expressão coletiva do
sentimento como sendo da mais perfeita obrigação, sem negar o sentimento
individual, ressalta o caráter social e simbólico. São representações coletivas que
comunicam, transportam conhecimento e orientam ações.
Deste modo, Durkheim (1996) afirma que os mais bárbaros ritos, ou mais
bizarros, os mais estranhos mitos traduzem alguma necessidade humana, algum
aspecto, seja individual ou social, da vida. Assim como a religião, a ciência também
constitui um sistema de representações do mundo, que orienta a ação dos homens
com base em outras ideias e outros ritos, igualmente responde às necessidades
humanas, individual ou social. A importância dessa ferramenta de análise está em
possibilitar a percepção de ações coletivas independentemente do caráter
econômico, político, social ou cultural, isso tudo dentro de determinado tempo e
espaço em que são produzidos. A questão central das representações sociais é de
cognição e comunicação, pois o objetivo é clarificar a realidade do grupo, mudanças
e permanências. Moscovici (1985) afirma que as representações sociais nas
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MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE AMADO.pdf

  • 1. UNIOESTE UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CAMPUS TOLEDO PATRÍCIA DAIANA LOEBENS MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE AMADO. TOLEDO 2012
  • 2. PATRÍCIA DAIANA LOEBENS MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE AMADO. Trabalho monográfico apresentado como pré-requisito para a conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus Toledo. Orientador: Profª. Esp. Taísa Carvalho. TOLEDO 2012 i
  • 3. TERMO DE APROVAÇÃO PATRÍCIA DAIANA LOEBENS MORRER NO PLURAL: UMA REFLEXÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA DE JORGE AMADO. Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciatura em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, pela banca examinadora formada por: ___________________________________________ Orientador: Taísa Carvalho UNIOESTE ____________________________________________ Professor: Nilceu Jacob Deitos UNIOESTE ____________________________________________ Professor: Roberto Biscoli UNIOESTE Toledo, 12 de novembro de 2012 ii
  • 4. AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço Andressa, pela persistência em manter debates - de horas e horas de devaneios e asperezas, - e por toda a contribuição intelectual e cultural ao longo desses cinco anos. Aos amigos e colegas de graduação, dos quais guardarei boas lembranças, especialmente, Jorge, Diane, Everton, Marcão, Aline, Conrado, Samara, Simone, Caroline e Giovane, Alessandra, Andreine, Ricardo, Rafaela... Também Mathias, Christian, Karla e Michael Isenberg. Aos professores, principalmente a minha orientadora Taísa pela coragem de se aventurar nesse novo campo de conhecimento, ao professor Roberto pelos valiosos empurrões, ao professor Nilceu Deitos que se dispôs a compor a banca examinadora. Agradeço juntamente, todos os demais professores do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Toledo. Grata a todos que participaram de alguma forma, da minha formação acadêmica. Minha família, especialmente meu falecido avô, Arnoldo Both, e minha mãe por acreditar em mim. Acreditar é fundamental. Por fim, agradeço aqueles que desacreditam a relevância deste estudo. iii
  • 5. O Eterno Pisca-pisca ...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, Até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre. - E depois que morre - perguntou o Visconde. - Depois que morre, vira hipótese. É ou não é? Monteiro Lobato iv
  • 6. “Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar. Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida. Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado” (AMADO, 2006, p.13). v
  • 7. LOEBENS, Patrícia Daiana. Morrer no plural: uma reflexão antropológica sobre A morte e a morte de Quincas Berro Dágua de Jorge Amado. Monografia apresentada ao curso de Ciências Sociais. UNIOESTE, Campus Toledo, 2012. RESUMO Morrer é tão natural como nascer. Curioso é a vasta gama de elementos que envolvem a morte: entre eles o ritual fúnebre e a lágrima. A morte dos outros é claro, afinal, se fosse a nossa, já estaríamos mortos e nada teríamos com que nos preocupar. Sendo assim, ante a morte alheia, se abre um leque de possibilidades de comportamentos e rituais que variam segundo cada região geográfica, momento histórico e padrão cultural, interelacionados com a particularidade de cada sujeito agente. Deixo claro que, o interesse deste trabalho, é estudar a expressão obrigatória dos sentimentos e as relações sociais diante da morte e no decorrer do ritual fúnebre, entendido como rito de passagem de vivo para morto. O campo de pesquisa fica inicialmente delimitado à morte de Quincas, personagem central do romance de Jorge Amado, intitulado A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (1961), episódio descrito na Bahia, no século XX. Parto do pressuposto que é possível morrer de diversas maneiras, e que morrer é de alguma forma deixar de existir, para o grupo no qual se estava inserido. Assim, a possibilidade de morrer, ou ser morto, mais de uma vez, faz com que Vanda, filha do defunto, não chore quando o pai, Quincas, tem sua “morte biológica”. Para ela, Quincas morreu no momento em que passou a viver vagabundo, boêmio, libertino, envergonhando a família, recusando-se a voltar para casa, e assumir suas responsabilidades de pai, marido, e funcionário público exemplar. Então, esse estudo apresenta como base teórica, pensadores como Marcel Mauss, Roberto DaMatta e Victor Turner, entre outros. Palavras-chave: Ritos funerários, lágrima, literatura, Antropologia. vi
  • 8. LOEBENS, Patrícia Daiana. Dying in the plural: an anthropological reflection on A morte e a morte de Quincas Berro Dágua of Jorge Amado. Paper presented at the Social Science course. UNIOESTE, Campus Toledo, 2012. ABSTRACT Dying is as natural as birth Curious is the wide range of elements involving death, including the funeral ritual and tear. The death of others is clear, after all, if it were ours, we'd be dead and would have nothing to worry about. Thus, before the death of others, opens a range of possibilities of behaviors and rituals that vary according to each geographical region, historical moment and cultural pattern, interrelated with the particularity of each individual agent. I make it clear that the interest of this work is to study the binding expression of feelings and social relationships in the face of death and during the funeral ritual, viewed as a rite of passage for living dead. The research field is initially bounded to the death of Quincas, central character of the novel by Jorge Amado, entitled A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (1961), episode described in Bahia, in the twentieth century. I assume that you can die in many ways, and that dying is somehow cease to exist for the group in which it was inserted. Thus the possibility of dying or being killed, more than once, makes Vanda, daughter of the deceased, do not cry when his father, Quincas, has its biological death. For her, Quincas died when they went to live vagabond, bohemian, libertine, shaming the family, refusing to go home and assume his responsibilities as a father, husband, and exemplary public servant. So, this study presents as theoretical base, thinkers such as Marcel Mauss, Roberto Da Matta and Victor Turner, among others. Keywords: Funeral Rites, tear, literature, anthropology. vii
  • 9. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................9 2 NOTAS SOBRE A BAHIA, JORGE AMADO, E A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA......................................................................................12 2.1 O AUTOR, JORGE AMADO...............................................................................12 2.2 NOTAS DE HISTÓRIA .......................................................................................27 2.3 A OBRA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA.....................29 3 NOTAS SOBRE COMO O CIENTISTA SOCIAL PODE USAR A LITERATURA PARA FALAR DA SOCIEDADE...............................................................................39 4 A EXPRESSÃO OBRIGATÓRIA DO SENTIMENTO E O RITUAL FÚNEBRE.....47 4.1 NOTAS SOBRE AS MORTES DE QUINCAS.....................................................47 4.2 O RITUAL E SEUS COMPONENTES................................................................52 4.3 A LÁGRIMA COMUNICANDO............................................................................59 5 CONCLUSÃO ........................................................................................................63 REFERÊNCIAS.........................................................................................................65 vii
  • 10. 1 INTRODUÇÃO Mas porque é que a Vanda, filha do defunto, não chorou no funeral de seu pai? Ou não é obrigação de filho chorar quando pai ou mãe morre? Pois bem, o interesse desta pesquisa está justamente em refletir sobre a obrigatoriedade da expressão do sentimento em rituais fúnebres. Para isso, contaremos com a colaboração de Jorge Amado (1912 – 2001), que nos narra o velório de Quincas Berro Dágua. Escolher a obra literária de Jorge Amado, A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua1 (2008), se justifica pela riqueza que a narrativa oferece para pensar relações sociais, rito funerário, lágrima, sagrado e profano, a sociedade baiana, etc.. A narrativa conta a história de Joaquim Soares da Cunha, “pai de família respeitável, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó preto de alpaca, pasta sob o braço”, (AMADO, 2008, p.18) que abandona sua casa, mulher e filha, para viver boêmio e vagabundo, festejando com malandros e mulheres de má fama nas ruas de Salvador, Bahia. Com essa virada existencial Joaquim, de apelido Quincas passa a ser reconhecido por novo nome: Quincas Berro Dágua, como todo personagem que troca de posição na hierarquia social, e recebe um nome que o torna único. Assim, um homem que vive duas vidas tão contrastantes, parece justo que tenha também duas mortes. Duas vidas e três mortes, segundo Jorge Amado, pois a morte biológica ocorrida dez anos depois do abandono do lar, que é considerada como a morte moral, é seguida por uma terceira morte quando de fato o corpo do falecido desaparece, se jogando ao mar. O objeto de estudo, fica restrito a obra literária citada, focando na expressão obrigatória do sentimento de familiares e amigos, durante o ritual fúnebre de Quincas. Este ritual tem início quando o personagem renega a família, gerando assim, um processo de realocação do sujeito na organização social, do antigo grupo, o qual pertencia. Objeto que se amplia com a análise da relação entre a biografia do autor e esta obra. É essa relação entre o contexto histórico de produção e a obra 1 Essa confusão em saber se é novela ou romance deriva do fato da narrativa ser lançada inicialmente como novela em 1959, pela Revista Senhor, e mais tarde, em 1961, publicada em livro juntamente com outra estória de Jorge Amado. Leia mais na sessão 2.3.
  • 11. 10 literária, que tem o objetivo de testar a proximidade entre a realidade e a narrativa, numa tentativa de conhecer elementos da sociedade baiana da época, ou seja, as representações da sociedade no texto literário, mostrando as práticas sociais, o jeito de viver e o jeito de morrer. O momento histórico de investigação fica delimitado entre o final século XIX e o século XX, onde Jorge Amado viveu, permitindo um espaço de tempo histórico, equivalente ao tempo disponível para buscar elementos que contribuem para esta investigação sobre rituais fúnebres e relações sociais nesse “canto” do Brasil – Salvador, Bahia, onde a história de um homem que morre três vezes é narrada. Estudar uma obra literária brasileira, escrita por um regionalista, como Jorge Amado, remete a possibilidade de olhar o Brasil e mais especificamente a Bahia, por outro ângulo, o artístico. A literatura se apresenta como uma forma de representação das categorias sociais de entendimento e ação, permitindo ponderar essa produção textual como outro modo de apresentar o Brasil para estudantes do ensino médio, levando em consideração as contribuições e as limitações das informações contidas nesse gênero textual. Em síntese, é uma oportunidade de se pensar um momento histórico e regional do Brasil a partir de uma narrativa quase poética. É uma tentativa de viabilizar a interdisciplinaridade tão desejada pelos educadores, no qual a História, língua portuguesa, Sociologia conversam sobre o mesmo tema, que neste trabalho é a cidade de Salvador e o funeral de Quincas, mas que poderia ser qualquer outro clássico da literatura nacional, como esses que devemos obrigatoriamente ler quando pretendemos prestar vestibular, justamente porque falam, usando certo código como diria Roberto DaMatta (1993), da história do nosso país. Assim, a literatura é considerada como expressão da sociedade por certo código, e a ciências sociais podem usar suas categorias de análise para aprofundar a compreensão da relevância desse tipo artístico. Foi dada ênfase aqueles fatos que apresentam de forma mais clara a expressão do sentimento perante a morte de Quincas, num processo de passagem de vivo para morto. Isso sem deixar de anteceder uma exposição da obra como um todo. Assim, esta pesquisa é orientada por uma investigação bibliográfica, utilizando fontes literárias, históricas, sociológicas, antropológicas, entre outros. O uso de fontes biográficas e históricas serviram para contextualizar quem narra, Jorge Amado, o fato estudado, a sociedade onde este fato ocorre, e curiosidades sobre a obra, reunidas no próximo capítulo. O capítulo seguinte defenderá a importância do
  • 12. 11 diálogo entre Ciências Sociais e a literatura, e como o cientista social pode usar fontes literárias para falar da sociedade, seus limites e possibilidades. O capítulo posterior mais especificamente, será dedicado à expressão obrigatória do sentimento diante a morte de Quincas, como um elemento que compõem o rito de passagem de vivo para morto, exemplificando o que seria esse rito de passagem. Para finalizar, apresento algumas observações acerca da hipótese: de que a expressão obrigatória do sentimento, lágrimas e oralidades, existe devido ao caráter social da morte, e que varia, segundo o momento histórico e o espaço geográfico, e também, devido ao tipo de morte e a relação pessoal que cada um tinha com o morto, isso tudo dentro do sistema moral e cultural onde se está inserido. A expressão obrigatória do sentimento, além disso, pode ser pensada como um elemento de comunicação e solidariedade, que contribui no processo de realocação do “indivíduo morto” na sociedade, fazendo relacionar entre si, parentes e amigos do falecido.
  • 13. 2 NOTAS SOBRE A BAHIA, JORGE AMADO, E A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA. 2.1 O AUTOR, JORGE AMADO Para comentar a vida de Jorge Amado (1912-2001), contei em grande parte com a publicação online nominada Cronologia 2 . Com Companhia das Letras, a vasta obra de Jorge Amado é relançada sob coordenação de Alberto da Costa e Silva e Lilian Mortiz Schwarz, por eles, Jorge Amado é considerado um dos maiores protagonistas da literatura brasileira. Um escritor atemporal, por ter leitores de diversas idades, livros publicados em mais de cinquenta países e tendo seus textos adaptados para o rádio, cinema, televisão e teatro, onde seus personagens acabaram se tornando parte indissociável da vida brasileira. Filho de João Amado e Eulália Leal, Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazendo Auricída, em Ferradas, distrito de Itabuna, sudeste baiano. O pai, João, havia migrado de Sergipe para a Bahia, para se tornar fazendeiro de cacau. Além de Jorge, primeiro filho, o casal teve Jofre (1915), que morreu aos três anos, Joelson (1920) e James (1922). Por volta de 1914, a família migra de Ferradas para Ilhéus, fugindo de uma epidemia de varíola (a “bexiga negra”). Em 1917, a família se muda para uma fazenda em Itajuípe, onde o pai volta a trabalhar na lavoura de cacau. 2 http://www.jorgeamado.com.br/vida.php3 e http://www.jorgeamado.org.br/?page_id=75 Publicação composta por uma parceira entre Academia Brasileira de Letras, Biscoito Fino, Fundação Casa de Jorge Amado, Instituto Moreira Salles, SESC-SP – Serviço Social do Comércio, São Paulo –, Videofilmes, que conta com o apoio educacional da Volkswagen, onde apresentam a vida e todas as obras de Jorge Amado, publicadas depois de 2008 pela editora Companhia das Letras. Segundo consta, o crédito pelo texto é de Bruno Zeni e Ilana Seltzer Goldstein.
  • 14. 13 Figura 1 - Mapa - Algumas cidades da Bahia onde Jorge Amado viveu. Fonte: Google Mapas – Organizado pelo aor mim. No litoral sul da Bahia, o menino Jorge desenvolve intimidade com o mar, elemento que se torna fundamental em seus livros, e onde vive alguma das suas mais marcantes experiências. Como relatado por Bruno Zeni e Ilana S. Goldstein3 , Jorge Amado cresceu em meio às lutas políticas, disputas pela terra e brigas de jagunços e pistoleiros. Aos dez meses de idade, viu seu pai baleado em uma tocaia na própria fazenda. Já em companhia do caboclo Argemiro que, em dia de feira colocava o menino na sela e o levava a Pirangi, conheceu as casas de mulheres e rodas de jogo. A região cacaueira seria um dos cenários favoritos do autor, presente em toda a sua carreira literária, em livros como Terras do sem-fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Gabriela, cravo e canela (1958) e Tocaia Grande (1984), onde relata as lutas, a crueldade, a exploração, o heroísmo e o drama associados ao cultivo do cacau que se desenvolveu nos arredores de Ilhéus, no início do século XX. Jorge Amado conheceu as letras através da mãe, que o alfabetizou com a leitura de jornais. Em 1918, Jorge Amado retorna a Ilhéus, onde frequenta a escola de D. Guilhermina, professora que contava com o apoio da palmatória e outros castigos aos seus alunos. Aos dez anos, cria um jornalzinho, A Luneta, que é 3 Com base no texto publicado em http://www.jorgeamado.com.br/vida.php3.
  • 15. 14 distribuída para vizinhos e parentes. Aos onze anos foi conduzido a Salvador para estudar no Colégio Antônio Vieira, de padres jesuítas. O internato causava em Jorge Amado a sensação de encarceramento, e apesar da saudade que sentida, da liberdade e do mar de Ilhéus, o menino experimentou ali a paixão pelos livros. Seu professor de português era o padre Luiz Gonzaga Cabral, que lhe emprestou livros de autores como Charles Dickens, José de Alencar, Jonathan Swift e clássicos portugueses. Cabral foi o primeiro a perceber que Jorge Amado se tornaria escritor, ao ler uma redação do estudante, intitulada “O mar”. Em 1924, aos 12 anos, quando o pai o trouxe de volta para a escola, depois das férias, Jorge Amado foge do internato e passa dois meses andando pelo sertão baiano, até chegar à Itaporanga, Sergipe, onde morava seu avô paterno, José Amado. A pedido de seu pai, seu tio Álvaro, uma das figuras mais importantes de sua infância, foi buscá-lo na fazenda do avô, e o leva de volta para Itajuípe. Assim, continua os estudos em outro internato, o Ginásio Ipiranga, onde conhece o dirigente do jornal do grêmio da escola. Pouco tempo depois funda outro jornal em oposição a este. Em 1927, Jorge Amado, passa para o regime de externato, indo morar em um casarão no Pelourinho, em Salvador. O prédio serviria, mais tarde, de inspiração ao seu terceiro romance, Suor, publicado em 1934. Com quatorze anos, consegue seu primeiro emprego, como repórter policial no Diário da Bahia, e escreve artigos para vários jornais. Nessa época, participava intensamente da vida popular e da boemia de Salvador, frequentava casas de raparigas, botecos, feiras e costumava sair com os pescadores em seus saveiros, barcos geralmente de madeira, usados por pescadores para velejar próximo da costa. Em 1928, com uns 16 anos, fundou com amigos a Academia dos Rebeldes, reunião de jovens literatos que pregavam uma arte moderna, sem ser modernista, antecipando a ênfase social e o teor realista que caracterizariam o romance do Movimento de 304 . O grupo era liderado pelo jornalista e poeta Pinheiro Viegas e dele faziam parte Sosígenes Costa, Alves Ribeiro, Guilherme Dias Gomes, João 4 O movimento de 30 se caracteriza como um movimento político-militar que pôs fim a Primeira República (1889 – 1930), motivado por insatisfações das oligarquias nacionais e de grupos radicais do exercito, com o resultado das eleições presidenciais de 1930, e dando início a Era Vargas (1930 – 1945).
  • 16. 15 Cordeiro, o etnólogo Edison Carneiro, entre outros. Foi este último quem apresentou Jorge Amado ao pai de santo Procópio, de quem o escritor recebeu o título de ogã de Oxóssi (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé. A descoberta do candomblé, religião celebrativa em que não existe a noção do pecado, o contato com as tradições afro-brasileiras e com a história da escravidão, levaram Jorge Amado a desenvolver uma visão específica da Bahia – e do Brasil – que perpassa toda a sua criação literária: uma nação mestiça e festiva. Aos dezoito anos, Jorge Amado, vê publicado pela Editora Schmidt seu primeiro romance, O país do carnaval, com prefácio de Augusto Frederico Schmidt e tiragem de mil exemplares. O livro recebe elogios dos críticos e sucesso de público. No mesmo ano, 1931, em que é aprovado, entre os primeiros colocados, para a Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, cidade onde passou a morar, e formou-se em 1934, porém nunca exerceu a profissão. No ano de 1932, muda-se para um apartamento em Ipanema com o poeta Raul Bopp. Conheceu José Américo de Almeida, Amando Fontes, Gilberto Freyre e Rachel de Queiroz – através de quem se aproxima dos comunistas, sensibilizado com as fortes desigualdades sociais do país, se filia ao PCB, Partido Comunista Brasileiro em 1932. Sai a segunda edição de O país do carnaval, desta vez com tiragem de dois mil exemplares. Começa a escrever Cacau, publicando em 1933 pela editora Ariel do Rio de Janeiro, com tiragem de dois mil exemplares, com capa e ilustração de Santa Rosa. O livro se esgotou em um mês. A segunda edição sai com três mil exemplares. Partindo deste, Jorge Amado dá início ao ciclo de livros que retratavam a civilização cacaueira. Torna-se redator chefe da revista Rio Magazine. E em dezembro de 1933, em Estância, Sergipe, se casa com Matilde Garcia Rosa. Juntos, lançaram pela Schmidt, o livro infantil Descoberta do mundo. Em 1934, publicou, também pela Ariel, o romance Suor, ficção que se aventurou pela realidade urbana e degradada da capital Salvador. Trabalhou na Livraria José Olympio Editora, do Rio de janeiro, primeiro escrevendo lançamentos e depois na parte editorial propriamente dita. Influenciando a publicação de O conde e o passarinho, primeiro livro de Rubem Braga, e no lançamento de autores latino-americanos como o uruguaio Enrique Amorim, o equatoriano Jorge Icaza, o peruano Ciro Alegria e o venezuelano Rómulo Gallegos, de quem traduziu o romance Dona Bárbara.
  • 17. 16 Em 1935, nasceu à primeira filha de Jorge Amado com Matilde, Eulália Dalila Amado, falecida subitamente com apenas catorze anos. Escreve em A Manhã, jornal da Aliança Nacional Libertadora, pelo qual cobre a viagem do presidente Getúlio Vargas ao Uruguai e à Argentina. Cacau é publicado pela Editorial Claridad, de Buenos Aires. Neste mesmo ano Cacau e Suor seriam lançados em Moscou. Em 1936, sofreu sua primeira prisão por motivos políticos, acusado de participar do levante ocorrido em novembro do ano anterior em Natal, chamado de "Intentona Comunista” é detido no Rio. Lança Jubiabá, em 1936, pela José Olympio Editora, romance protagonizado por Antônio Balduíno, um dos primeiros heróis negros da literatura brasileira. O livro tornou-se seu primeiro sucesso internacional. Publicou Mar morto, protagonizado pelo mestre de saveiro Guma. Recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. O livro inspirou o amigo Dorival Caymmi a compor a música “É doce morrer no mar”. Pode ter sido essa música, inspirado o personagem de Jorge Amado, Quincas Berro Dágua, a querer a liberdade do mar para o seu corpo morto. É um elemento da vida do autor que se entrelaça a sua obra. Aos 23 anos, Jorge Amado começou a ganhar fama e projeção, e em meio à efervescência cultural do Rio de Janeiro, então capital do país, Jorge Amado travou amizade com personalidades da política e das letras, como Raul Bopp, José Américo de Almeida, Gilberto Freyre, Carlos Lacerda, José Lins do Rego e Vinicius de Moraes. A convivência com o chamado Movimento de 30 marcou profundamente sua personalidade e a preocupação que reteve com os problemas brasileiros. Em meados dos anos 30, Jorge Amado fez uma longa viagem pelo Brasil, pela América Latina e pelos Estados Unidos, durante a qual escreveu Capitães da Areia, publicado em 1937. Ao retornar ao Rio de Janeiro, em 1937, foi preso pela segunda vez, devido à supressão da liberdade política resultante da proclamação do Estado Novo entre 1937 e 1945, regime de exceção instituído por Getúlio Vargas. Em Salvador, mais de mil exemplares de livros de Jorge Amado, foram queimados em praça pública por determinação militar. Liberto em 1938, Jorge Amado se muda do Rio para São Paulo, onde dividiu apartamento com o cronista Rubem Braga. Voltou a morar no Rio de Janeiro e entre 1941 e 1942 se exilou no Uruguai e na Argentina, onde escreveu a biografia de Luís
  • 18. 17 Carlos Prestes, nominada O cavaleiro da esperança, publicada originalmente em espanhol, em Buenos Aires, e proibida no Brasil. De volta ao país, teve sua liberdade restrita pela terceira vez, agora em regime de prisão domiciliar, na Bahia. Em 1943, escreveu o romance Terras do sem- fim, que foi o primeiro livro publicado e vendido depois de seis anos de proibições de suas obras. Em 1944, Jorge Amado se separou de Matilde, depois de onze anos de casamento. No ano seguinte, em São Paulo, chefiava a delegação baiana no I Congresso Brasileiro de Escritores quando conheceu Zélia Gattai. A escritora se tornaria o grande amor de sua vida. Jorge Amado foi eleito deputado federal pelo PCB para a Assembleia Constituinte em 1945, mesmo ano da sua união com Zélia Gattai, assumiu o mandato no ano seguinte. Algumas de suas propostas, como a que instituiu a liberdade de culto religioso, liberdade religiosa, e a emenda que garante os direitos autorais, foram aprovadas e viraram leis. Já em 1947, o partido foi colocado na clandestinidade e Jorge Amado teve o mandato cassado em 1948, seus livros foram considerados material subversivo. Em 1947, nasceu o primeiro filho do casal, João Jorge. Quando o menino completou um ano, recebeu do pai o livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, escrito em 1948, presente pelo primeiro aniversário. Em 1976, o livro foi publicado com ilustrações de Carybé. O casal teve também a filha Paloma, nascida em 1951, na Tchecoslováquia. Jorge e Zélia oficializaram a união apenas em 1978, quando já eram avós. Ainda em 1948 fixou-se em Paris, em exílio voluntário, na Europa conheceu Jean-Paul Sartre e Picasso, entre outros escritores e artistas. Em 1950, o governo francês expulsou Jorge Amado do país, por motivos políticos. Jorge Amado e a família se mudam para a Tchecoslováquia, e nos anos seguintes viajou pelo Leste Europeu, visitando a União Soviética, a China e a Mongólia. Escreveu seus livros mais engajados, como a trilogia Os subterrâneos da liberdade, publicada em 1954. Em 1956, após as denúncias de Nikita Khruchióv contra Stálin no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Jorge Amado se desliga do PCB. Se pensarmos Jorge Amado, e a produção gerada durante o período de concordância com o viés político comunista, percebemos uma literatura engajada, preocupada com a transformação social e militante por certo tempo.
  • 19. 18 Quem escreve sobre isso é Matheus de Mesquita e Pontes (2009) à Revista Revelli5 num artigo intitulado Jorge Amado e a Literatura de combate: da literatura de engajada à literatura militante de partido, onde explica que o engajamento ocorre quando o escritor opta por contribuir para a transformação do mundo através de sua produção, por mais que isso fique subliminar em sua narrativa. Ser militante, segundo o posicionamento adotado por Mesquita e Pontes (2009) é ir para além do engajamento. Significa construir uma obra acreditando na vitória, se enquadrando, dessa maneira, numa das tendências que disputam ou elaboram teses e mecanismos que almejam a transformação do homem e do mundo. O militante não atua apenas pela boa vontade de contribuir nas transformações, pois isso é engajamento. O escritor militante não é espontâneo em suas narrativas e considerações, mas coerente ou centralizado numa proposta política, isto é, seu texto parte de um eixo político já existente e sua produção vem reafirmar essa linha de pensamento ou estratégia transformativa. Assim, Jorge Amado oscila, ainda segundo Mesquita e Pontes, “de acordo com o período de produção de suas obras, do escritor engajado ao militante e, até mesmo, um vanguardista” (MESQUITA E PONTES, 2009, p.149). Ao olhar para a biografia de Jorge Amado, se esclarece que era filho de fazendeiro e oriundo da classe média. Sua inserção no mundo literário ocorre com a participação no Movimento Modernista, cuja proposta vanguardista, através da Academia dos Rebeldes, em Salvador, na Bahia, no final dos anos 20, no plano político, tal movimento tinha como atitude dominante a rejeição ao coronelismo provinciano e a denúncia da situação de pobreza e atraso em que vivia o país, em especial, o Nordeste. Sobre Modernismo e Jorge Amado, Roger Bastide afirma que a Literatura brasileira se manteve fixada segundo as tendências da Literatura europeia até 1922, ano em que foi realizada a Semana de Arte Moderna, evento que elevou o Modernismo a um divisor de águas no que se refere à produção literária nacional. Esta nova tendência, segundo a interpretação de Bastide, apresenta duas correntes internas: uma de traços neorrealistas e de cunho sociológico, caracterizada pela tentativa de descrever com a maior exatidão possível a realidade circundante; e outra de traços neorrealistas, cuja intenção não consiste em pintar o real, mas mudá-lo em nome de uma ideologia socialista. Amado insere-se nesta última corrente, sendo seus romances 5 Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG, Inhumas. Matheus de Mesquita e Pontes é mestre em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor substituto de História do Brasil da Universidade Estadual de Goiás - Unidade Universitária de Iporá.
  • 20. 19 concebidos como mensagens voltadas à ação revolucionária (BASTIDE, 1972, p. 39-45, apud MESQUITA E PONTES, 2009, p.149). A partir do final da década de 50, a literatura de Jorge Amado passou a dar mais prestígio ao humor, à sensualidade, à miscigenação e ao sincretismo religioso, mesmo já presente em suas narrativas, esses elementos passam agora a ocupar um espaço privilegiado, onde antes apresentam um posicionamento político mais evidente. Aparentemente a discussão política cede lugar às narrativas que valorizam um lado mais descontraído da vida, percebido fundamentalmente em Gabriela, cravo e canela, 1958, que marca essa grande mudança. O escritor, porém, preferia dizer que com Gabriela houve uma afirmação e não uma mudança de rota. Algo que já vinha acontecendo. Roberto DaMatta observa, ao estudar Gabriela, cravo e canela, que Jorge Amado (...) começou a inventar personagens com duas vidas e mudou radicalmente a postura de seus heróis. Assim, se até Gabriela os heróis são homens, depois se transformaram em mulheres. E se antes levavam uma vida coerente com os princípios do Partido Comunista, agora tinham uma existência muito mais livre, contraditória e autêntica. (...) Gabriela é o início da elaboração da ruptura de Jorge Amado com o Partido Comunista. A mudança dos personagens (tendo duas vidas radicalmente opostas) correspondia, num plano lógico ou biográfico mais profundo, as duas vidas do autor. A presença dos personagens femininos corresponderia, ao mesmo plano, a atenção dada pelo autor aos aspectos pessoais e familísticos (tudo o que diz respeito ao mundo da casa) no universo social brasileiro. (DAMATTA, 1993, p.48) Demonstra assim, como já dito, a importância de situar historicamente o autor da obra investigada, que corresponde a sua biografia. Quando escreveu Gabriela, cravo e canela, em 1958, Jorge Amado estava em Petrópolis, Rio de Janeiro e em duas semanas o livro vendeu vinte mil exemplares. No ano seguinte ultrapassou a casa dos cem mil exemplares vendidos. Ilana Goldenstein (2002), interessada em fazer uma leitura antropológica deste autor, relata que no início pensava que as razões pelo sucesso de Jorge Amado estivessem vinculadas somente ao marketing, ofertando um produto ao gosto do público de massa, juntamente com uma rede de boas relações pessoais, tanto do povo, quanto da elite econômica e intelectual, mas aos poucos foi se convencendo de que, para além das manipulações, oportunismos e facilidades linguísticas, o escritor soube tocar as pessoas de duas maneiras “por conseguir transpor poeticamente para a literatura formas populares de viver e de narrar, e por
  • 21. 20 saber manipular e recriar representações identitárias da Bahia e dos baianos” (GOLDENSTEIN, 2002, p.125). Nessa época, Jorge Amado passou a se interessar cada vez mais pelos ritos afro brasileiros. Em 1957, conheceu Mãe Menininha do Gantois, e em 1959 recebeu um dos mais altos títulos do candomblé, o de obá Arolu do Axé Opô Afonjá, OBÁ OROLU. No mesmo ano, saiu na revista Senhor, como novela, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, objeto de estudo desse trabalho, considerada uma obra prima, que depois seria publicada juntamente com o romance O capitão de longo curso no volume Os velhos marinheiros (1961). Mais tarde, viriam algumas de suas obras mais consagradas, como Dona Flor e seus dois maridos (1966), Tenda dos Milagres (1969), Tereza Batista cansada de guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977). Promoveu em 1960, num shopping em Copacabana o Festival do Escritor Brasileiro, na condição de vice-presidente da União Brasileira de Escritores e a data do evento, 25 de julho, foi consagrada por decreto governamental como o Dia do Escritor. Fora eleito por unanimidade em primeira votação para a Academia Brasileira de Letras em 1961, ocupando a cadeira 23 que após sua morte foi ocupada por Zélia Gattai. A nova fase de sua literatura compreende os livros protagonizados por figuras femininas, ao mesmo tempo sensuais, fortes e contestadoras. As mulheres inventadas por Jorge Amado se consagraram no imaginário popular e ganharam as telas da televisão e do cinema. Nas décadas de 70, 80 e 90, os livros do autor viraram filmes e novelas, em adaptações realizadas por Walter George Durst, Alberto D’Aversa, Marcel Camus, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Bruno Barreto, Aguinaldo Silva, Luiz Fernando Carvalho, entre outros diretores e roteiristas. Glauber Rocha e João Moreira Salles realizaram documentários sobre o escritor. Em 1962, Jorge Amado vendeu os direitos de filmagem do livro Gabriela, cravo e canela, para a Metro-Goldwyn-Mayer. Com o dinheiro, comprou um terreno em Salvador e construiu uma casa, Rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho, onde foi morar com a família em 1963. A casa era também uma espécie de centro cultural. Além de abrigar um grande acervo de arte popular, Jorge Amado e Zélia recebiam amigos, artistas e intelectuais. Abriam as portas até para admiradores desconhecidos, de vários lugares do Brasil e do mundo. Em 1983, Jorge e Zélia, passaram a viver metade do ano em Paris, metade na Bahia. Na Europa, o escritor era reconhecido e celebrado como um dos maiores
  • 22. 21 romancistas brasileiros. Seu apartamento no charmoso bairro do Marais, lugar mais tranquilo que sua movimentada casa em Salvador, era como refúgio para escrever. Durante a década de 80, Jorge Amado escreveu O menino grapiúna, suas memórias de infância, e o romance Tocaia Grande, dois livros que retomam o tema da cultura cacaueira, que marcou o início de sua carreira literária. Nessa época escreveu também O sumiço da santa. Em 1987, foi inaugurada a Fundação Casa de Jorge Amado, com sede em um casarão restaurado no Pelourinho, possui em seu acervo publicações sobre o escritor, como teses, ensaios e outros textos acadêmicos, artigos de imprensa, registro de homenagens e cartas. Quando redigiu as últimas notas de memória que compõem Navegação de cabotagem, publicado por ocasião de seus oitenta anos. Também em 1992, recebeu de uma empresa italiana a proposta de escrever um texto de ficção sobre os quinhentos anos do descobrimento da América. Produziu então, a novela A descoberta da América pelos turcos, publicada no Brasil em 1994. Em 1995, o autor foi agraciado com o Prêmio Camões, uma das maiores honrarias da literatura de língua portuguesa. Durante a década de 90, a filha Paloma, ao lado de Pedro Costa, reviu o texto de suas obras completas, a fim de suprimir os erros que se acumularam ao longo dos anos e das sucessivas edições de seus livros, é o que também fez a editora Companhia das Letras, de 2008 pra cá, como citado no início desta sessão, talvez seguindo as orientações de Paloma e Pedro Costa. Em 1996, Jorge Amado sofreu um edema pulmonar em Paris ao voltar para o Brasil, foi submetido a uma angioplastia, depois se recolheu na casa do Rio Vermelho, já com um quadro clínico agravado, deprimido devido a cegueira parcial, que o impediu de ler e escrever. O escritor morreu em agosto de 2001, poucos dias antes de completar 89 anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas junto às raízes de uma velha mangueira, no jardim de sua casa em Salvador, ao lado de um banco onde costumava descansar, à tarde, em companhia de Zélia. Ao longo das décadas, os livros de Jorge Amado foram traduzidos e editados em mais de cinquenta países. Seus personagens viraram nomes de ruas, batizaram estabelecimentos comerciais e foram associados a marcas de vários produtos. O escritor foi tema de desfiles de Carnaval, frequentou rodas de capoeira,
  • 23. 22 envolveu-se com questões ambientais e teve suas histórias recriadas por trovadores populares ligados à poesia de cordel. Além do reconhecimento que o fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras proporcionou, o escritor recebeu o título de doutor honóris causa em universidades europeias e centenas de homenagens ao longo da vida. Mas se orgulhou, sobretudo, das distinções concedidas no universo do candomblé. Em Caderno de Leituras, Reginaldo Prandi (2009)6 publica um artigo intitulado Religião e sincretismo em Jorge Amado, onde comenta que em matéria de religião, Jorge Amado foi, antes de qualquer coisa, sincrético. Assim como é sincrética a Bahia, cenário principal de suas narrativas. “Jorge Amado, dava pouca importância à pretensão deste ou daquele terreiro de ser mais “puro”.” (PRANDI, 2009, p.49). Tratava a todos como igualmente importantes e misturava todas as nações de candomblé7 . Tanto os santos católicos como os orixás se confundem nos enredos de seus romances, na mais fina tradição do sincretismo (PRANDI, 2009, p.49). De acordo com Prandi (2009, p.50) “o sincretismo foi um mecanismo cultural decisivo para a reconstituição das religiões africanas no Brasil.” Lembrando que sincretismo é aqui entendido como sendo a fusão de doutrinas de diversas origens, podendo ser religiosas ou filosóficas, uma mistura, no caso, entre a católica e o candomblé. Ele explica como até os termos foram se tornando sinônimos ou parte de uma mesma nominação. A própria palavra “santo” serviu de tradução para “orixá”, inclusive nos termos “mãe de santo”, “filho de santo”, “povo de santo” e outras palavras compostas em que originalmente a palavra africana era orixá. E esse santo é o santo católico. O candomblé se formou e se transformou no contexto social e cultural católico do Brasil do século XIX. Pelo sincretismo, os orixás passaram a ser identificados com os santos, sendo louvados, assim, tanto nos terreiros como nas igrejas. Os seguidores dos orixás no Brasil, especialmente nos primeiros tempos, eram também católicos, e muitos rituais realizados no terreiro eram complementados por cerimônias atendidas na igreja. Isso mesmo, candomblé e Igreja católica andam juntos. Nem podia ser diferente. Antes da primeira constituição republicana brasileira, de 1891, o 6 Disponível online em http://www.jorgeamado.com.br/professores.php. 7 Uma curiosidade explicativa apresentada por PRANDI sobre as Nações de candomblé “Há muitas variantes rituais do candomblé, dependendo da origem étnica africana predominante nos terreiros fundados na origem dessa religião. Cada variante étnica é chamada de nação de candomblé. As principais nações de candomblé originárias dos povos Iorubá – também chamados nagôs – são as nações queto, alaqueto, ijexá e efã” (PRANDI, 2009, p.51).
  • 24. 23 catolicismo era a religião oficial do Estado e a única tolerada (PRANDI, 2009, p.50). Um período em que ser brasileiro era também ser católico de religião, o Candomblé se fez no Brasil, inicialmente, como uma “segunda religião de negros católicos, fossem escravos ou livres, nascidos no Brasil ou na África” (PRANDI, 2008, p.50). Só de uns tempos para cá, 1960, que o candomblé ganha espaço para ser mais autêntico, e se tornando religião para todos, “sejam negros, pardos, brancos ou amarelos, sem fronteiras de etnia, classe social ou origem geográfica” (PRANDI, 2008, p.50). Observando nos romances de Jorge Amado, como diz Prandi, a mistura entre o candomblé e o catolicismo ainda está presente, não tem essa separação. Segundo Prandi (2009), os africanos desconheciam a figura do Diabo, ignorando essa separação entre o bem e o mal em campos ou personagens opostos e irreconciliáveis como na tradição judaico-cristã. Para eles, “o bem e o mal andam juntos em cada coisa, em cada pessoa. Nessa cultura, Exu era tão somente o mensageiro dos orixás” (PRANDI, 2009, p.54). Entretanto, esse caráter de herói divino trapalhão, de Exu, que gosta de brincar e confundir, que adora comer e beber sem limite, que cobra pelos seus favores, que exibe a própria sexualidade e induz à quebra das regras e à ruptura dos costumes. Tudo isso fez de Exu, aos olhos dos primeiros cristãos que conheceram a religião dos orixás, ainda na África, entenderam como um candidato natural ao posto de demônio. No sincretismo que mais tarde se constituiu no Brasil, já tinha lugar demarcado. O orixá da transgressão, do movimento e da mudança foi posto injustamente no lugar do Diabo. Mas é um diabo alegre, domesticado, com o quem se pode negociar e conviver. “Muitos o tratam com intimidade e o chamam de compadre. É assim também o Exu sincrético de Jorge Amado” (PRANDI, 2009, p.55). Prandi (2009) ressalta que o sincretismo é tema polêmico, e possibilita diversas interpretações. A concepção de Jorge Amado é diferente daquela entendia por Roger Bastide, onde sincretismo significa uma justaposição, ou seja, os três folclores — índio, negro, branco — não se confundem eles se sobrepõem e coexistem. “O folclore não mistura nem as cores, nem as classes” (PRANDI, 2009, p.55). A postura de Jorge Amado mostra a brasilidade dos africanismos, acreditava na fusão harmônica de tradições de origens diferentes, e sempre reiterou que santa Bárbara e Iansã são uma só entidade, assim como ocorre com santo Antônio e
  • 25. 24 Ogum, e outros tantos pares sincréticos. Para Jorge Amado, ainda, segundo Prandi (2009), o orixá brasileiro, com a nova face católica, é diferente do orixá africano original. É algo novo. É a Bahia de Jorge Amado, encerra Prandi (2009, p.57), com sua gente e seus deuses quase humanos, “acima de tudo sincrética, povoada por negros, mulatos e brancos que se ajoelham nas igrejas e dançam nos terreiros, com a mesma devoção e total sinceridade.” Gente que sabe que o melhor da vida é viver, e viver bem, e que não há nenhum lugar melhor do que este nosso velho mundo, como ensina a tradição dos terreiros, perpetuamente lembrada por Jorge Amado. Maria Lucia Montes (1998) lembra que as religiões afrobrasileiras adentrariam a um período de modernização brasileira, presente nos anos 30, ainda sobre o duplo peso da estigmatização e da perseguição. Seria em meio à elite intelectual que escritores e artistas da Semana de Arte Moderna em São Paulo, ou abertamente de esquerda, como Jorge Amado, se dedicaram, ao longo da década de 20 e 30, “resgatar em algum sentido positivo as tradições culturais dos africanos no Brasil, revalorizando suas práticas religiosas como constituintes da própria identidade da nação”. Ao mesmo tempo, “denunciavam as condições de abandono e pobreza” do estado para com os negros (MONTES, 1998, p.94). Não sem propósito, o romancista escolheu o orixá Exu, representado no desenho abaixo, criado pelo amigo Carybé, como marca pessoal. Trata-se de uma figura da mitologia iorubá que simboliza o movimento e a passagem. Exu está associado à transgressão de limites e fronteiras. A escolha indica tanto a filiação à cultura popular mestiça baiana como a valorização da arte de transitar entre universos sociais e culturais diferentes. Figura 1 - Ilustração de Kiko Farkas sobre Exu de Carybé Fonte: Imagem reproduzida do livro de Jorge Amado. Arquivo pessoal.
  • 26. 25 Este é o símbolo de Exu, orixá do Candomblé, muito usado por Jorge Amado, tanto em seus livros quanto nas suas casas, conhecido como o Orixá da comunicação ou como o Guardião. Em diversas obras de Jorge Amado se nota a presença desse símbolo, dentro ou na contra capa de alguns. A edição de 2008 de A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, analisada neste trabalho, a figura é encontrada no centro da segunda folha, e novamente na página 110, depois de terminada a narrativa. Exu foi escolhido como guardião da Casa de Jorge Amado a pedido do escritor. Mesmo antes que a casa fosse inaugurada, Jorge Amado fez questão de que se assentasse o orixá na entrada da casa, como um sinal de proteção. Curiosidade interessante sobre Exu é ser ele sempre, o primeiro a receber oferendas, por se acredita que seja o responsável pela ligação entre mundo material e mundo espiritual. Alegre, brincalhão e generoso, é também ciumento, podendo trancar os caminhos, provocar discussões e criar armadilhas aos que estão em falta com ele. É comum que se assente o Exu na entrada das casas de candomblé como guardiões assim como fez Jorge Amado. Nas palavras do próprio Amado, Exu come tudo que a boca come, bebe cachaça, é um cavalheiro andante e um menino reinador. Gosta de algazarra, senhor dos caminhos, mensageiro dos deuses, correio dos orixás, um capeta. Por tudo isso “misturaram e confundiram” com o diabo, na verdade ele é apenas o orixá em movimento, amigo de um bafafá, de uma confusão mas, no fundo, excelente pessoa. De certa maneira é o Não onde só existe o Sim, o Contra em meio do a favor, o intrépido e o invencível. Toda festa de terreiro começa com o padê (despacho) de Exu, para que ele não venha causar perturbação, com suas brincadeiras e estripulias. Sua roupa é bela: azul, vermelha e branca e todas as segundas-feiras lhe pertencem. Exu leva o ogó (bastão com cabaças), sua insígnia, e gosta de sentir o sangue dos bodes e dos galos correndo em seu peji (altar), em sacrifício8 . Até o mais célebre dos ateus baianos, o comunista Jorge Amado, cujo centenário se comemora este ano, 2012, tinha sua queda religiosa pelos orixás. 8 A maioria das informações sobre Exu, escrevi com base na publicação online da Fundação Casa de Jorge Amado, que contém a fala de Jorge Amado e Myriam Fraga. O ano de publicação não foi encontrado. Disponível em http://www.jorgeamado.dreamhosters.com/?page_id=53 visitado em agosto de 2012.
  • 27. 26 Todo mundo lá sabe disso: era o ateu que “simpatizava” com o Candomblé. Há relatos de que, havia uma cruz atrás do caixão no velório do escritor, em 2001. E uma senhora da Irmandade da Boa Morte, confraria afro-católica do recôncavo, que cantava, disse saber que ele era ateu, mas também que era do culto afro. O casal Amado pertencia a um tipo bastante comum na Bahia o “ateu de todos os santos”, é o que comenta Cynara Menezes em artigos publicados online em abril deste ano. Jorge Amado chegou a exercer o posto de Obá de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá, o respeitadíssimo terreiro de mãe Stella de Oxóssi, no bairro do Cabula. Ser Obá, um cargo honorífico, significa ser amigo e protetor do terreiro. Ainda moço, o escritor tinha recebido do pai de santo Procópio seu primeiro título no candomblé, Ogã, o “guardião das chaves da casa”. Bem, a propósito, uma das frases mais belas sobre a fé que conheço, de Caetano Veloso, dizem que foi inspirada em Jorge Amado: “Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar,/ Nem cansam de esperar”. Ateus baianos enxergam milagres…9 Apesar de sua amizade com personalidades de destaque – como Pablo Neruda, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro – e do amplo reconhecimento de sua obra, Jorge Amado recusava grandeza à sua trajetória de vida. Diz ele em Navegação de Cabotagem (2006) que aprendeu com a vida, se diz um escritor e não um literato, “em verdade sou um obá, em língua ioruba da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo” (AMADO, 2006, p.9). E mais adiante, fala ainda que não nasceu pra ser famoso nem para ilustre, se sente apenas escritor e homem. Jorge Amado foi um dos escritores que mais teve sua obra adaptada para cinema e televisão. Tieta, Tereza Batista, Capitães de Areia, Os Pastores da Noite, Terra do Sem Fim. Em 2010, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua vai aos cinemas como Quincas Berro Dágua, e em 2012, Gabriela, cravo e canela, vira novela. Em vários momentos da pesquisa foi mencionado Jorge Amado como um escritor regionalista, e em busca de saber mais sobre isso me deparei com um artigo publicado pela Fundação Getúlio Vargas10 , que de forma resumida, se nomina 9 Últimos dois parágrafos, com base na publicação online, ambos os artigos foram escritos por MENEZES, Cynara. Não existem ateus na Bahia. 2012 IN: Carta Capital. Disponível em http://www.cartacapital.com.br/cultura/nao-existem-ateus-na-bahia/, e https://religioesafroentrevistas.wordpress.com/2012/04/06/nao-existem-ateus-na-bahia/. Visitado em julho de 2012. 10 FGV. Anos de Incerteza (1930 – 1937) > Romance Regionalista. IN: Eras Vargas: dos anos 30 a 1945. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30- 37/IntelectuaisEstado/RomanceRegionalista acesso em agosto de 2012.
  • 28. 27 "romance regionalista" ou "romance de 30" um conjunto de obras de ficção escritas no Brasil a partir de 1928, geralmente associados aos romances nordestinos, especialmente às obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Esse fenômeno é bem mais abrangente, incluindo também a produção de autores como Érico Veríssimo, Marques Rebelo, Ciro dos Anjos, Lúcio Cardoso e Cornélio Pena, José Américo de Almeida com A bagaceira. Os romances tidos como regionalistas veem mostrar as contradições e conflitos de um Brasil que se desejava moderno, urbano e industrializado, mas que guardavam ainda traços arcaicos da diversidade regional. O Brasil na época, composto de uma mistura entre alguns estados mais desenvolvidos, de modernos centros urbanos em expansão, do campo dominado por uma sociedade patriarcal em decadência, de cidades, onde havia o homem comum, enfrentando problemas sociais. “Assim como os autores da literatura proletária, os autores regionalistas tinham uma preocupação sociológica e documental, distinguindo-se dos modernistas com seu experimentalismo estético” (FGV, Romance Regionalista). E também citam que a temática agrária aparece no romance regionalista em obras que retratam o problema da seca, como O Quinze (1930) de Raquel de Queirós, e Vidas Secas (1938) de Graciliano Ramos, ou a decadência dos engenhos de açúcar, como Menino de engenho (1932), Bangüê (1934) e Usina (1936), de José Lins do Rego. Igualmente a temática urbana é trabalhada nas obras de Jorge Amado, que contam histórias de Salvador, ou de Érico Veríssimo, como Clarissa (1933) e Caminhos cruzados (1935).11 2.2 NOTAS DE HISTÓRIA Notavelmente a lágrima acompanha a morte. Entretanto, em cada lugar, em cada época, segundo cada religião e grupo cultural, a intensidade da expressão o sentimento durante o ritual fúnebre varia, um exemplo é o relato de Câmara 11 Sobre romances regionalistas contei com o apoio da publicação online da Fundação Getulio Vergas, disponível em http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30- 37/IntelectuaisEstado/RomanceRegionalista.
  • 29. 28 Cascudo (2001) sobre as Carpideiras12 no nordeste brasileiro, herança portuguesa, quase inexistente no sul do Brasil. No entanto, percebemos que a presença ou ausência de um “profissional do choro” nos rituais funerários, nada altera a necessidade das lágrimas: “defunto sem choro, índice [símbolo] de suprema indiferença e abandono total” (CASCUDO, 2001, p.117). Quando se pensa o ritual fúnebre, este não pode ser resumido em lágrimas. Existem “n” variáveis que podem ser observadas, como símbolos, objetos, orações, o momento histórico, o significado da morte, as influências religiosas etc. e tudo o que envolve esse rito de passagem que realoca o indivíduo vivo em seu lugar de morto na organização social e biológica. Essa mudança de estado físico e status social são fundamentais para compreendermos o que é isso que chamamos de ritual fúnebre, assim como sua relação com o funeral descrito por Jorge Amado. Falando de história, José João Reis (2004), professor e historiador baiano, realizou uma pesquisa interessante sobre Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, onde apresenta com detalhes um episódio ocorrido em outubro de 1836, a Cemiterada, evento onde a população de Salvador, revoltada, sai às ruas em protesto, contra os governantes que impuseram uma “lei proibindo o tradicional costume de enterros nas igrejas e concedendo a uma companhia privada o monopólio dos enterros em Salvador por trinta anos” (REIS, 2004, p.13). Esse episódio de modo geral, faz pensar a relação que se estabelece com a morte e todo o processo de despedida do corpo sem vida, que a partir da lei, tem um novo destino: a cova na terra, longe das igrejas, morada de Deus e antessala do paraíso. Com essa nova tendência, o encaminhamento da alma para o outro lado, segundo a moral religiosa vigente na época, em Salvador, se torna mais complicado. Eventos, como o acima citado, ocorrido cerca de cem anos antes da obra de Jorge Amado, mudam a relação desse povo com a morte e o morrer. Comprar um terreno ou lote, construir uma cova e tudo mais que é preciso, inicia uma fase mais intensa de comercialização da morte. Morrer como negócio, diz Reis (2004). Tais despesas com a morte também se fazem presentes em A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, em vários momentos. Por exemplo, quando 12 Profissão feminina que consiste em chorar para um defunto alheio, mediante vontade dos familiares ou do próprio falecido, necessário para garantir que a alma do morto fosse bem encaminhada, ou ficasse tranquila. Esse serviço pode ser pago ou gratuito, dependendo de quem morre, ou dos costumes locais ou da Carpideira. Segundo CASCUDO (2001) não existiu Carpideira profissional no Brasil.
  • 30. 29 Tio Eduardo explica: - Caro mesmo é o caixão. E os automóveis, se for acompanhamento grande. Uma fortuna. Hoje não se pode nem morrer (AMADO, 2008, p.31). A filha comenta como faria o velório e enterro do pai. Depois de vestir decentemente o cadáver, transportá-lo para casa, enterrá- lo ao lado de Otacília, num enterro que não fosse muito caro, pois os tempos andavam difíceis, mas que tão pouco os deixassem mal ante a vizinhança, os conhecidos, os colegas de Leonardo (AMADO, 2008, p.25). Ressalta, igualmente, o caráter social, comunicativo da morte, e do velório, pois é para os outros que se veste decentemente o cadáver. Exemplifica como o nosso meio social, organizado com base no econômico, influencia em todos os aspectos da vida e da morte do grupo. Fatos como a cemiterada, analisada por Reis (2004), a vida de Jorge Amado, os ares da Bahia, avanços da medicina, questões de higiene, o catolicismo, religiões e crenças africanas, vão se misturando, harmonicamente ou não, e fornecem inspiração para um contador de histórias criar personagens, mesmo um tanto exagerado, com um jeito peculiar de encaram a morte e o modo de dar fim ao corpo, como Quincas no nordeste do país. E sem mais delongas darei início a conversa sobre a obra escolhida para este trabalho, A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. 2.3 A OBRA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA Para fins de melhor organização do texto, vou apresentar nessa sessão um apanhado geral da obra A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, juntamente com algumas notas de análise sociológica e antropológica do conteúdo da narrativa. A história de Quincas foi publicada inicialmente em 1951, em forma de novela, para as primeiras edições da revista Senhor, como o título de A discutida morte de Quincas Berro Dágua, ilustrada por Glauco Rodrigues. Escrita por encomenda do amigo, pintor e artista plástico Carlos Scliar, responsável na preparação da revista, fazia indispensável à presença do nome de Jorge Amado na edição de estreia, qualquer coisa leve, rápida, engraçada... Zélia Gattai Amado, escreve que “em 1959 Jorge Amado estava inteiramente mergulhado na escrita do livro de Vasco Moscoso, quando o pintor Carlos Scliar apareceu lá em casa”, “Jorge capitulou, deixou Vasco Moscoso de
  • 31. 30 Aragão descansando um pouco, colocou papel novo na máquina e começou a escrever a história de Quincas Berro Dágua”. “ Ele escrevia e passava para eu fazer cópias”, “fui me apaixonando pela figura maravilhosa do vagabundo de tantas mortes” (AMADO, 2008, p.91)13 . Considerada por muitos como obra prima de Jorge Amado, depois da publicação em 1958 de Gabriela, cravo e canela, um memorável sucesso, A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, foi publicada pela primeira vez em livro no ano de 1961, no volume Os velhos marinheiros14 . O sociólogo Roger Bastide elaborou um longo estudo que serviu de prefácio à edição francesa da novela, o livro marcou uma virada em sua obra, o texto foi publicado em mais 21 países e ganhou algumas adaptações para o teatro, a primeira em 1972, em 1988, foi encenado na França. Na televisão, virou novela da TV Tupi em 1968. Dez anos depois, Walter Avancini e James Amado realizaram As mortes de Quincas Berro Dágua para a série Caso Especial, da Rede Globo, com participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio e Antônio Pitanga. Em 2006, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua foi apontado como o melhor livro de Jorge Amado, numa enquete feita pela revista EntreLivros, da qual participaram Antonio Dimas, Milton Hatoum, Ferreira Gullar, Fábio Lucas, João Ubaldo Ribeiro e Boris Schnaiderman.15 Em 2010 a narrativa volta ao cinema. A comédia de cento e dois minutos intitulada Quincas Berro Dágua, dirigida por Sérgio Machado, conta com a participação de Marieta Severo, Mariana Ximenes e Vladimir Brichta no elenco, numa produção toda brasileira. Bom, para resumir,16 o livro conta a história da dupla, ou tripla, morte de Joaquim Soares da Cunha, apresentando assim o pluralismo de Jorge Amado, nas 13 Informações contidas na breve nota que Zélia escreve sobre a obra, que acompanha a edição de 2008 da editora Companhia das Letras. 14 A novela vinha acompanhada da narrativa A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão-de-longo-curso, texto que depois seria editado à parte como O capitão-de-longo-curso. 15 Disponível online em http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1. Blog acessado em 25 de junho de 2012 às 13:45 horas. 16 Para compor essa sessão que apresenta o resumo da obra, contei com as publicações online disponíveis em: http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1 e http://www.gargantadaserpente.com/resenhas/87.shtml e http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_morte_e_a_morte_de_qui ncas_berro_dagua.
  • 32. 31 múltiplas possibilidades de morte, biológica, social e moral, que faz o leitor sentir aquela curiosidade gostosa de saber quando, de fato, Quincas morre? A primeira morte, moral, é registrada quando Joaquim deixa de existir no grupo familiar. Aquele Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços, esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão. Como pode um homem, aos cinquenta anos, abandonar a família, a casa, os hábitos de toda uma vida, os conhecidos antigos, para vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos, frequentar o meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável? Vanda não encontrava explicação válida. Muitas vezes, à noite, após a morte de Otacília – nem naquela ocasião solene Quincas aceitara voltar para a companhia dos seus – discutira o assunto com o marido. Loucura não era, pelo menos loucura de hospício, os médicos tinham sido unânimes. Como explicar, então? (AMADO, 2008, p.24) A verdade é que Joaquim só começara a contar em suas vidas [da família] quando, naquele dia absurdo, depois de ter tachado Leonardo de bestalhão, fitou a ela [Vanda] e a Otacília e soltou-lhes na cara, inesperadamente: – Jararacas! E, com a maior tranquilidade desse mundo, como se estivesse a realizar o menor e mais banal dos atos, foi-se embora e não voltou (AMADO, 2008, p.42). A família sem entender o que motivava essa virada existencial de Joaquim Soares da Cunha, Quincas, tenta convencer o sujeito a voltar para casa, mas sem sucesso. Dalí em diante, falavam dele no passado, as crianças acreditavam que o avô, de saudosa memória havia a muito falecido, rodeado pelo carinho de parentes e amigos. Tia Marocas, irmã de Quincas comenta, – Coitado do Joaquim... Tinha bom gênio. Não fazia nada por mal. Gostava dessa vida, é o destino de cada um. Desde menino era assim. Uma vez, tu lembra, Eduardo?... quis fugir com um circo. Levou uma surra de arrancar o pêlo – bateu na coxa de Vanda a seu lado, como a desculpar-se. – E tua mãe, minha querida, era um bocado mandona. Um dia ele arribou. Me disse que queria ser livre como um passarinho. A verdade é que ele tinha graça (AMADO, 2008, p.34). Então, com a morte biológica de Quincas o santeiro amigo, único que sabia da existência e da localização da residência da filha do falecido, foi até a pequena, porém bem arrumada casa da família Barreto, declarar o ocorrido, causando-lhes um suspiro de alívio. O santeiro contava de Quincas a Leonardo [genro], não havia quem não gostasse dele na ladeira do Tabuão. Por que se entregara ele – homem de boa família e de posses, como o santeiro podia constatar ao ter o prazer de travar conhecimento com sua filha e seu genro – àquela vida de vagabundo? Algum desgosto? Devia ser, com certeza. Talvez a esposa o houvesse carregado de chifres, muitas vezes sucedia. E o santeiro punha os indicadores na testa, numa interrogação frascária: tinha adivinhado? – Dona Otacília, minha sogra, era uma santa mulher!
  • 33. 32 O santeiro coçou o queixo: por que então? Mas Leonardo não respondeu, foi atender Vanda, que o chamava do quarto (AMADO, 2008, p.20). Logo depois, o santeiro encontrou sua resposta, Na sala, o santeiro admirava um colorido retrato de Quincas, antigo, de uns quinze anos, senhor bem-posto, colarinho alto, gravata negra, bigodes de ponta, cabelo lustroso e faces róseas. Ao lado, em moldura idêntica, o olhar acusador e a boca dura, dona Otacília, num vestido preto, de rendas. O santeiro estudou a fisionomia azeda: – Não tem cara de quem engana marido... Em compensação, devia ser um osso duro de roer... Santa mulher? Não acredito... (AMADO, 2008, p.21) Além das considerações expostas pelo santeiro, outros detalhes da vida de Joaquim, relatados ao longo na narrativa, mostram essa falta de gosto pela vida que levava. A casa cheia de gente. Vanda era mocinha, começava a namorar. Nesse dia quem estourava de contentamento era Otacília, no meio do grupo formado na sala, com discursos, cerveja e uma caneta-tinteiro oferecida ao funcionário. Parecia ela a homenageada. Joaquim ouvia os discursos, apertava as mãos, recebia a caneta sem demonstrar entusiasmo. Como se aquilo o enfastiasse e não lhe sobrasse coragem para dizê-lo (AMADO, 2008, p.41). Depois dessa virada existencial que marcaria a morte moral, a segunda se caracteriza pelos danos que causa ao corpo. Anunciada pelo santeiro à família, logo depois de Quincas ser encontrado por uma negra do Candomblé, morto no leito pobre de uma pocilga, da ladeira do Tabuão onde morava. Sujo, com o dedão do pé escapando por um buraco na meia furada. Ouvindo isso tudo, Vanda, a filha, Leonardo, o genro, Tio Eduardo e Tia Marocas, irmãos, ao mesmo tempo em que se apresentam enlutados, davam graças pelo ocorrido. Finalmente morrera a vergonha da família. Quanto ao velório, os familiares buscavam um acordo. Eduardo reclama, – Tudo isso está muito bem, Vanda. Que ele seja enterrado como um cristão. Com padre, de roupa nova, coroa de flores. Não merecia nada disso, mas, afinal, é teu pai e meu irmão. Mas porque manter o defunto em casa... (AMADO, 2008, p.35). Decidem então, velar o parente ali mesmo na Ladeira do Tubão, no quarto onde morrera. No caixão, porém, Quincas ostenta um sorriso maroto. Estaria mesmo morto? A morte de Quincas foi sentida, por aonde a notícia chegara, nos bares, botequins e armazéns, "imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irreparável" (AMADO, 2008, p.50). Afinal, quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume (AMADO, 2008, p.50).
  • 34. 33 Todos que lhe queriam bem, mulheres baratas, vagabundos, malandros, marinheiros desembarcados, comerciantes e jogadores, derramaram lágrimas pela perda. À noite, no velório não poderiam deixar de faltar os amigos, companheiros de farra, em especial os inseparáveis Curió, Cabo Martim, Pé-de-Vento e Negro Pastinha, este que chamava Quincas de paizinho. Já chegaram úmidos de cachaça e lágrimas se colocando a disposição para auxiliar a família no que fosse preciso. Como opostos que não se atraem, foi um encontro pouco amistoso. A família suspendeu a animada conversa, quatro pares de olhos hostis fitaram o grupo escabroso. Só faltava aquilo, pensou Vanda. Cabo Martim, que em matéria de educação só perdia para o próprio Quincas, retirou da cabeça o surrado chapéu, cumprimentou os presentes: – Boa tarde, damas e cavalheiros. A gente queria ver ele... Referir-se ao morto usando o termo “ele” é como uma medida de segurança. Afinal, usar o nome é uma forma de entrar em contato com o morto, um meio do torná-lo vivo, um meio de evocá-lo (RODRIGUES, 2006, p.78). Cabo Martim, então, Deu um passo para dentro, os outros o acompanharam. A família afastou- se, eles rodearam o caixão. Curió chegou a pensar num engano, aquele morto não era Quincas Berro Dágua. Só o reconheceu pelo sorriso. Estavam surpreendidos os quatro, nunca poderiam imaginar Quincas tão limpo e elegante, tão bem vestido. Perderam num instante a segurança, diluiu-se como por encanto a bebedeira. A presença da família – sobretudo das mulheres – deixava-os amedrontados e tímidos, sem saber como agir, onde pousar as mãos, como comportar-se ante o morto (AMADO 2008, p.63). Agora estavam ali em silêncio, de um lado a família de Joaquim Soares da Cunha, filha, genro e irmãos, de outro lado os amigos de Quincas Berro Dágua. Pé-de-Vento metia a mão no bolso, tocava na jia amedrontada, como gostaria de mostrá-la a Quincas! Como se executassem um movimento de balé, ao afastarem-se do caixão os amigos, aproximaram-se os parentes. Vanda lançava um olhar de desprezo e reproche ao pai. Mesmo depois de morto, ele preferia a sociedade daqueles maltrapilhos (AMADO, 2008, p.64). Pastinha empurrou com a mão o pé incômodo do amigo, sua voz soluçou: – Ele era o pai da gente! Paizinho Quincas... Foi como um soco no peito de Vanda, uma bofetada em Leonardo, uma cusparada em Eduardo. Só tia Marocas riu, sacudindo as banhas, sentada na cadeira única e disputada (AMADO, 2008, p.66). Vanda sentia-se melhor. Expulsara para um canto do quarto os vagabundos, impusera-lhes silêncio. Afinal não lhe seria possível passar a noite ali. Nem ela nem tia Marocas. Tivera uma vaga esperança, a começo: de que os indecentes amigos de Quincas não demorassem, no velório não havia nem bebida nem comida. Não sabia por que ainda estavam no quarto, não havia de ser por amizade ao morto, essa gente não tem amizade a ninguém (AMADO, 2008, p.68). Mais tarde,
  • 35. 34 Tia Marocas começou a dizer de seu desejo de retirar-se, sentia-se cansada e nervosa. Vanda, tendo ocupado seu lugar na cadeira ante o caixão, não respondia, parecia um guarda cuidando de um tesouro. – Cansados estamos todos – falou Eduardo. – Era melhor mesmo elas irem embora... – Leonardo temia a ladeira do Tabuão mais tarde, quando houvesse cessado completamente o movimento do comércio e as prostitutas e os malandros a ocupassem. Educado como era, e querendo colaborar, cabo Martim propôs: – Se os distintos querem ir descansar, tirar uma pestana, a gente fica tomando conta dele. Eduardo [o irmão] sabia não estar direito: não podiam deixar o corpo sozinho com aquela gente, sem nenhum membro da família. Mas que gostaria de aceitar a proposta, ah! como gostaria! (AMADO, 2008, p.66). Antes de escurecer Vanda e Tia Marocas foram para casa, e perto das dez horas da noite, Leonardo também foi. Combinaram então, que Tio Eduardo deveria passar a noite com o falecido. Estava consideravelmente cansado, ainda reflexivo perguntou, – Vocês vão ficar a noite toda? – Com ele? Sim senhor. A gente era amigo. – Então vou em casa, descansar um pouco – meteu a mão no bolso, retirou uma nota. Os olhos do Cabo, de Curió e Pé-de-Vento acompanhavam seus gestos. – Tá aí para vocês comprarem uns sanduíches. Mas não deixem ele sozinho. Nem um minuto, hein! – Pode ir descansado, a gente faz companhia a ele (AMADO, 2008, p.72). Aceitando a proposta ficou ao encargo dos amigos a responsabilidade de cuidarem do defunto durante a madrugada. Os amigos de tão emocionados, dão de beber ao morto, vestem-no com suas roupas habituais, dividindo entre si o terno novo, os sapatos e a camisa. Consideravam um desperdício, – Bom paletó... – cabo Martim examinou a fazenda. – Besteira botar roupa nova em defunto. Morreu, acabou, vai pra baixo da terra. Roupa nova pra verme comer, e tanta gente por aí precisando... (AMADO, 2008, p.76). No decorrer da conversa, lembraram-se de um evento a acontecer naquela noite, e levaram o amigo para comer moqueca no barco do seu Manoel. Caminham de braços dados com Quincas pelas ruas, buscaram as mulheres, vestidas de luto, Quitéria do Olho Arregalado, toda de negro, mantilha na cabeça, inconsolável viúva, sustentada por duas mulheres. – Cadê ele? Cadê ele? – gritava, exaltada. Curió apressou-se, trepou nos degraus da escadaria, parecia um orador de comício com seu fraque roçado, explicando: – Tinha corrido a notícia de que Berro Dágua bateu as botas, tava tudo de luto. Quincas e os amigos riram.
  • 36. 35 – Ele tá aqui, minha gente, é dia do aniversário dele, tamos festejando, vai ter peixada no saveiro de Mestre Manuel (AMADO, 2008, p.83). Quitéria, quando alcançou seu Berrito, declara, – Quase morri com a notícia e tu na farra, desgraçado. Quem pode com tu, Berrito, diabo de homem cheio de invenção? Tu não tem jeito, Berrito, tu ia me matando... (AMADO, 2008, p.84). Dirigiram-se todos para comer peixada no saveiro do Manuel, Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada, comida ali mesmo na rampa, não iria sair barra fora quando apenas marítimos rodeavam o caldeirão de barro. No fundo, ele não chegara em nenhum momento a acreditar na notícia da morte de Quincas e, assim, não se surpreendeu ao vê-lo de braço com Quitéria. O velho marinheiro não podia falecer em terra, num leito qualquer. – Ainda tem arraia pra todo mundo... Suspenderam as velas do saveiro, puxaram a grande pedra que servia de âncora. A lua fizera do mar um caminho de prata, ao fundo recortava-se na montanha a cidade negra da Bahia. O saveiro foi-se afastando devagar (AMADO, 2008, p.87). Quando no barco, a passear mar adentro, se forma um forte temporal e em meio ao caos, Quincas pronuncia sua frase derradeira, No meio da confusão Ouviu-se Quincas dizer: “Me enterro como entender Na hora que resolver. Podem guardar seu caixão Pra melhor ocasião. Não vou deixar me prender Em cova rasa no chão.” E foi impossível saber O resto de sua oração. (AMADO, 2008, p. 92) Ouvida por Quitéria, que estava ao seu lado, lançando-se em seguida, ao mar. Quincas ficou na tempestade "envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade". No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo, à luz dos raios, viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira. Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade (AMADO, 2008, p.90). Texto enxuto e denso, poético e debochado, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua de Jorge Amado, trata do conflito entre a ordem instituída e a liberdade da boemia, como os dois lados de uma mesma moeda (sociedade). DaMatta (1993) diz que Antonio Candido percebe em Tese e antítese e, posteriormente em Vários escritos a problemática da vingança e da mudança do nome como sinais de mudança da posição social em Guimarães Rosa. Essa questão da troca de nome em virtude da mudança de posição social, pode ser
  • 37. 36 percebia em muitos casos na história do país como, por exemplo, o jogador de futebol Pelé, antes reconhecido por Édson Arantes do Nascimento, ou da apresentadora de programas infantis na televisão Xuxa, antes reconhecida por Maria da Graça Meneghel, igualmente acontece com um personagem de Jorge Amado, de nome Joaquim Soares da Cunha, apelidado desde sempre de Quincas, que se torna único, quando passa a ser Quincas Berro Dágua. Não é que esses sujeitos perdem seu nome “inicial”, apenas são reconhecidos perante o grupo em que estão inseridos como um ser diferente daquele que era antes, desempenhando assim outros papeis, com um nome distinto daqueles que corriqueiramente encontraríamos. Pelé, Xuxa, Quincas Berro Dágua são nome únicos que remetem a personalidades únicas e não a uma Maria, ou Edson, ou Joaquim qualquer. Bom, mas e de onde será que surge a ideia para escrever a fantástica história de um homem que rompe com esse ideal moderno de vida bem sucedida e estável, para curtir na boemia e rodas de jogo? Affonso Romano de Sant’Anna no posfácio da edição de 2008, de A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, edição que baseamos este estudo, conta que essa “história tão inventada é verdadeira” em dois sentidos. Primeiro “porque o personagem Quincas ganhou vida própria desde que” foi publicado em 1959, na Revista Senhor, justamente por Jorge Amado criar tipos tão verossímeis que pareciam competir com a realidade civil, passando a “viver no imaginário de incontáveis leitores”. A “história também é verdadeira porque deriva de um fato realmente sucedido”, diz Sant’Anna, Quincas existiu de fato, claro, com outro nome, cabo Plutarco, que por sinal nem era baiano, era cearense. E aquela cena do enterro e todas as diabruras dos amigos carregando o Quincas morto/vivo pelas ruas e fazendo tomar um porre com eles, ocorreram não nas ladeiras de Salvador, mas em torno da Praça da República, no Rio de Janeiro, em Abril de 1950 (AMADO, 2008, p.96). Isso foi descoberto graças a curiosidade insistente de José Helder de Souza, que pesquisou sobre a gêneses da obra, depois de ouvir uma vaga declaração de Jorge Amado, durante um seminário, em 1981, portanto 22 anos depois da história de Quincas, rodar “por este mundo de vivos e mortos”, quando Jorge recebia da Universidade Federal do Ceará o titulo de doutor honoris causa. Na declaração em parte, dizia, ... Refiro-me a A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Esse vagabundo dos becos e ladeiras da cidade da Bahia, que hoje trafega mundo afora em mais de vinte línguas, em trinta países, que virou peça de teatro, balé, programa de televisão. Quincas Berro Dágua foi gerado em Fortaleza, onde
  • 38. 37 brotou a ideia deste pequeno romance. Deram-me notícia de caso acontecido quando da morte de um boêmio, contam-me como a solidariedade dos amigos na hora da ausência transformou a dor da despedida em festa (AMADO, 2008, p.98). Acabaram por descobrir que Jorge Amado tinha ouvido a narrativa original e originária da história de Quincas Berro Dágua na boate Maracangalha, que era na verdade um nome criativo dado as sessões de encontros de amigos na casa do advogado Zequinha de Morais, na rua Senador Pompeu, 959, em Fortaleza. Pelas pesquisas o personagem inspiração tem sua origem familiar, nos primeiros colonizadores dos sertões de Acara. Cabo Plutarco cai na vadiagem e no picaresco, quando, numa viagem de navio do Rio a para Fortaleza, tomou um porre e aprontou tanta coisa que foi necessário chamar a polícia do porto do Recife, despi-lo para que não fugisse, localizar um psiquiatra, que o tirou do hospício, levando-o sob sua guarda ao navio (AMADO, 2008, p.102). Uma aproximação entre realidade e ficção está presente quando lembramos o fato de que Quincas cearense, numa outra viagem, foi dado como náufrago e morto quando os alemães torpedearam o navio Baependi, em que ele deveria estar, e não estava, por ter ficado em Salvador, pelos castelos ou prostíbulos da cidade e em arruaças na ladeira do Tubão (AMADO, 2008, p.103). Enquanto sua família lamentava sua morte, ele reaparecia lépido e fagueiro, dias depois. O Quincas baiano, por sua vez, naufraga daquele saveiro numa noite de tempestade, mas com seu corpo desaparecido fica o mistério sobre sua morte, se tornando um mito. “Pois um bom personagem mítico morre, mas não deixa vestígio do corpo” (AMADO, 2008, p.103). Então “caso alguém queria homenagear o personagem que deu origem” a esta obra literária, “terminada a leitura do livro, dirija- se ao canteiro 6059 do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, e deposite ali uma flor” (AMADO, 2008, p.104). Affonso (2008) comenta, ainda no posfácio da edição de 2008, de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua que “Jorge Amado tinha um ouvido danado de bom para transformar fatos particulares em narrativas de utilidade pública, e é isso que o artista é, um indivíduo de utilidade pública” (AMADO, 2008, p.96). Isso caracteriza Jorge como um escritor oral, um grande contador de casos. E como indivíduo de utilidade publica, misturando vida e literatura, realidade e ficção, faz com que “a realidade injeta vida na ficção e a ficção injeta vida na realidade”. É isso que Affonso Sant’Anna faz no posfácio, mostrar essa proximidade entre a realidade e o inventado que se torna realidade, e que gera novas invenções...
  • 39. 38 E assim, não se trata de autor falando sobre o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele, numa brincadeira lúdica onde Jorge Amado flerta entre o surreal e a realidade, loucura e racionalidade, amor e desamor, ternura e rancor, de forma envolvente e instigante, uma das características das obras de Jorge Amado e de seu orixá Exu. Bem, agora que a história, de um modo geral, foi apresentada, proponho pensarmos o funeral de Quincas como um ritual de passagem de vivo para morto, iniciado quando abandona a família e que termina quando Quincas se joga ao mar. Juntamente, refletirmos sobre como a lágrima está presente nesse processo. Logicamente, existem outras possibilidades de análise, usando a mesma teoria e esse mesmo caso, e que certamente este trabalho negligenciará discussões relevantes, mas como todo recorte investigativo exige delimitações, esta análise é organizada e orientada com base a ordem instituída, representada na narrativa de Jorge Amado, pela família e a religião cristã.
  • 40. 3 NOTAS SOBRE COMO O CIENTISTA SOCIAL PODE USAR A LITERATURA PARA FALAR DA SOCIEDADE. Diria Raymond Quivy, em Manual de Investigação em Ciências Sociais (1998), que um pesquisador na área das ciências sociais, com ênfase em antropologia, optaria em trabalhar com documentos – e não com etnografia como era de se esperar - por duas razões completamente diferentes. Uma delas se refere ao estudo de documentos por si próprios, partindo do documento se extrai elementos para construção do problema, “como quando examina a forma como uma reportagem televisiva expõe um acontecimento, ou faz análise sociológica de um romance” (QUIVY, 1998 p.201). O outro motivo é a busca, no documento, de informações úteis para discutir o objeto de estudo, como por exemplo, usar autos de processos criminais municipais para traçar um perfil dos crimes mais frequentes na cidade, assim o que se quer é descobrir quais os crimes mais frequentes, e para isso se resolve usar tais documentos. Como no primeiro caso, “os problemas encontrados derivam da escolha do objeto de estudo ou da delimitação do campo de análise, e não dos métodos de” coleta “de informações propriamente ditas”, e nem de uma pergunta problema, Quivy, considera a pesquisa em documentos como técnica complementar de uma investigação (QUIVY, 1998 p.201). Este trabalho mistura um pouquinho dessas duas justificativas, num primeiro momento, em fase de escrita do projeto, a obra A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, publicado em 1959, chama atenção, tendo em vista a riqueza de elementos sobre a sociedade baiana e sobre a morte. Deste sai o problema da expressão do sentimento no velório, narrado por Jorge Amado. Com a leitura de outros textos e o amadurecimento da ideia, o texto é revisitado como uma representação possível da realidade, na intenção de obter informações úteis, em maior ou menor grau de profundidade, sobre identidade, relações sociais, família, religião e principalmente a expressão do sentimento durante o ritual fúnebre, de Quincas, personagem que Jorge Amado reinventa17 , sobre a sociedade baiana do século XX. 17 Affonso Romano de Sant’Anna no posfácio da edição de 2008 de A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, conta que ocorreu uma investigação e o personagem Joaquim Soares
  • 41. 40 Fica evidente que este trabalho, pretendendo lidar especificamente com fontes textuais, carece de uma discussão inicial abordando os limites e possibilidades da antropologia estudar textos tidos como literários. Para tal, conto com o embasamento teórico fornecido por Roberto DaMatta (1993), que realisou algumas investigações antropológicas, de cunho etnográficos, em textos literários que falam da sociedade, no qual, desenvolveu estratégias para lidar com as importantes e difíceis questões poéticas que envolvem um texto classificado como literário. Primeiramente DaMatta prestou mais atenção na “história” narrada, e ao modo pelo qual revelava atividades e valores que serviam para dar sentido a sociedade brasileira, já que investigar sobre a identidade nacional é elemento sempre presente em seu trabalho. E nessa perspectiva tomou as peças literárias como narrativas míticas, como momentos em que a sociedade fala de si mesma, seguindo um modelo comparativo, onde os “mitos” são a própria sociedade representada por meio de certo código (DAMATTA, 1993, p.35). Então, segundo ele, a sociedade pode ser invocada por meio de muitas vozes, perspectivas ou textos, o que não quer dizer que ela não possa ter uma visão integrada de si mesma e, por isso mesmo, não tenha estabelecido modos de falar de si própria que considere mais adequados ou mais corretos. É ela que funda modos mais “claros” e mais legítimos de falar de si mesma. Na tentativa de classificar o que é literário, separando daquilo que é outra coisa, DaMatta (1993) desenvolve a ideia de que o texto literário poderia ser chamado de texto deslocado. Por exemplo, numa sociedade dominada por valores religiosos, um texto profano tenderia a ser tido como literário, um espaço onde se pode expressar o que fora deste seria menos aceitável. Do mesmo modo, se uma sociedade normalmente não permite falar de sexo, a literatura fala, e discursa sobre ele de modo aberto e escandaloso. Assim, a teoria do deslocamento pode ajudar a determinar o que é literário sem cair em armadilhas essencialistas e metafísicas. Fica evidente que, segundo DaMatta (1993), nas sociedades ocidentais guiadas por uma ordem prática, o texto literário seria o oposto, é arte, definida como atividade sem fins práticos, algo feito por amor, paixão, aptidão. Assim, quanto mais contemplação e renúncia do cotidiano, mais artística seria a obra. Diferente das da Cunha, que “vira” Quincas Berro Dágua, é inspirado por um cearense, que teria vivido tal história, menos fantástica talvez, com um fim menos autêntico, mas de história verídica, que ocorreu no Rio de Janeiro.
  • 42. 41 experiências científicas e etnográficas que possuem um objeto, problemáticas a solucionar, que reduzem a experiência de viagem, ao ponto de partida e de chegada, a experiência literária ressalta o caminho, o deslocamento, só o gênio do artista é capaz de perceber como o mundo se faz em dramas, tragédias e emoções. Assim, o texto monográfico busca enfrentar ou resolver um problema, podemos então, concordando com DaMatta (1993), diferenciar os relatos antropológicos de viajantes, onde se encontra uma série de aventuras, relatado em primeira pessoa, um tanto ao acaso, e cujo alvo é achatar e padronizar o comportamento de humanidades radicalmente diferenciadas, das monografias etnográficas que são narrativas motivadas por responder a questões raramente formuladas pelo seu autor. São questões colocadas por outros autores em outros livros, épocas e aldeias, que são reconstruídas e (re)experimentadas pelo pesquisador, e validada por testemunhas. O que caracteriza esse tipo de narrativa é um problema ou indagação mais que um povo, e na reposta está a busca deliberada do padrão, do sistema e da estrutura enquanto paralelamente evita-se tudo o que é acidental, inesperado e anedótico. De fato, a respeitabilidade do discurso etnográfico jaz precisamente nisso (DAMATTA, 1993, p.41). 18 Mesmo os antropólogos sociais se entendendo por meio de textos, seu objeto não é escrever literalmente, mas inventar modos de vida, sistemas políticos, mitologias e quadros de valores. Eles sabem que a virtude da monografia é a descoberta que certas coisas acontecem aqui, melhor do que lá (DAMATTA, 1993, p.44). e vice versa. Enquanto a narrativa antropológica é motivada pela tentativa de descrever regras e responder a questões, na literatura, se trata de descrever sistemas de ações individuais, talvez para fazer aquela pergunta que ninguém, exceto os escritores literários, tem a coragem de responder. DaMatta (1993) continua dizendo que, para tal, o romance brasileiro tem que ser obrigatoriamente uma narrativa da realidade nacional, mantendo com ela uma relação de verossimilhança fotográfica, tal e qual um filme documentário ou uma novela da TV Globo, para que desperte, interesse dos críticos pelo menos. Se repararmos bem, os livros que são considerados clássicos da literatura nacional, discorrem sobre elementos presentes na história brasileira, como escravidão, a 18 Para os pioneiros da narrativa etnográfica, gente como Malinowski, Boas e outros, se tratava de desmistificar o relato clássico feito por viajante, missionário e agente colonial; relato no qual os compromissos estavam fora da sociedade em questão (DAMATTA, 1993, p.41).
  • 43. 42 miscigenação inter étnica, o hibridismo da sociedade. Assim, a questão da verossimilhança é invariavelmente colocada e, junto com ela, a questão normativa, para que serve? Como pode ser utilizada? DaMatta (1993), toma o texto literário como uma narrativa mítica, estudado primeiramente através de suas determinações internas. Somente depois, tentaria examinar a obra em seu contexto histórico social. Com o desejo de apresentar a possibilidade de ler uma obra literária buscando nela “princípios estruturais” e “categorias sociais básicas”. Por causa disso, o texto como conto era mais interessante, para DaMatta (1993), do que o texto como representante de um gênero literário que necessariamente pertencia a uma série histórico-social. Ilana Seltzer Goldenstein (2002) em uma investigação sobre Jorge Amado escreve que o trabalho artístico necessariamente estabelece uma relação arbitrária e deformante com a realidade, devido a despreocupação com a fidelidade e exatidão, e considera que o sucesso deste autor, vai muito além da venda de um produto “ao gosto do público” de massa e uma rede de boas relações pessoais. É questão de “eficácia simbólica”: o escritor soube tocar as pessoas de duas maneiras: por conseguir transpor poeticamente para a literatura formas populares de viver e de narrar e por saber manipular e recriar representações identitárias da Bahia e dos baianos. Cita então, o politólogo Benedict Anderson (1985) e o historiador Eric Hobsbawm (1983 e 1990), quando discutindo “nação”, ambos os autores consideram a língua e a literatura como os principais vetores da consolidação de uma identidade nacional (GOLDENSTEIN, 2002, p.126). Se optasse por seguir os rumos de Roberto DaMatta (1993), este trabalho seria dirigido por uma metodologia comparativa, exigindo analisar mais uma obra literária, na busca de elementos para tratar de rituais fúnebres, lágrima e relações sociais na Bahia que seriam pensadas como histórias míticas. A opção por trabalhar com somente uma obra, dificulta o estranhamento e a relativização exigidos pelo fazer antropológico. No entanto, permite ir além dos personagens e da história narrada, possibilita estudar mais a fundo o todo em que a obra surge, o contexto histórico e as possíveis relações com o meio social, a influência da biografia do autor na narrativa e assim mais. Concordando com DaMatta que noutro momento aponta a necessidade de, quando se analisa uma obra literária, levar em consideração, o autor e o momento histórico-social que a produziu. E nesse sentido, é tolerável dizer que se faz uma comparação entre a estória literária e história histórica.
  • 44. 43 O que guia a escolha desse método, é a tentativa de saber como está relacionada a história de Jorge Amado, da Bahia, Salvador e os personagens diante da morte. Essa metodologia que privilegia o histórico e social, e a biografia do autor é fundamental para validar as representações da sociedade na obra. Assim, o texto literário pode ser entendido como fonte de representação social de uma determinada época e grupo. Para explicar melhor, Emile Durkheim, como outros pensadores da Escola Sociológica Francesa, na busca da origem social das categorias de entendimento, destacam a relevância de algo que nominaram de representação19 . Inicialmente Durkheim (1994) e Marcel Mauss (1979) a usaram como forma de analisar a realidade coletiva, por expressar conhecimentos, crenças e sentimentos do grupo social, já que para eles, o que orienta as ações humanas vai muito além da fisiologia cerebral, como acreditava a psicologia na época. Tempos depois, por força da psicologia social, o conceito de representação é retomado, e Serge Moscovici20 promove a substituição do termo coletivo por social e lhe amplia o significado, afirmando que as representações também produzem conhecimentos. Assim, as representações sociais, oriundas das práticas sociais do grupo, podem ser usadas como categorias de análise social. É o que Marisete Horochovski defende em artigo publicado em 2004, e bem antes dela, Durkheim, contribui no sentido de consolidar sociologia como ciência, tendo objeto e método. Durkheim em As regras do método sociológico (1987), define os fatos sociais como objetos/coisas que são anteriores e exteriores ao indivíduo, coercitivos, gerais e comuns a todos os membros do grupo, independente das manifestações individuais. Estes fatos sociais por sua vez, que só podem ser entendidos por meio de observação e experimentação, passando progressivamente dos caracteres mais externos e mais imediatamente acessíveis para os menos visíveis e mais profundos (Durkheim, 1987, p.XXI). As representações, tal quais os fatos sociais, tem sua existência independente dos fatos individuais, sendo exteriores a consciência individual, afinal só existe nas partes porque antes existem no todo. E assim Durkheim (1994) afirma que as representações coletivas traduzem a maneira pela qual o grupo enxerga a si mesmo, nas relações com os objetos que o afetam. 19 Representação individual e representação coletiva, sendo essa última de maior relevância para a Sociologia, por auxiliar na compreensão da realidade. 20 Segundo Marisete Horochovski, em artigo intitulado “Representações sociais: Delineamentos de um categoria analítica”, publicado na Revista Eletrônica TESE, dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC,Vol. 2 nº 1 (2), janeiro-junho/2004, p. 92-106
  • 45. 44 Representações que não exprimem nem os mesmos sujeitos, nem os mesmos objetos, não poderiam depender das mesmas causas. Para melhor expressar essa ideia, Durkheim (1994) fez uso das religiões, pois considera que com elas surgem as principais categorias de entendimento, ferramentas que usamos para classificar como certo e errado, sagrado e profano, que nos ensinam noções de vida, de morte, de gênero, que são dinâmicas. É no meio social que as formas de classificar surgem, por necessidade de se estabelecer relação entre os espaços, laços de parentesco etc.. É também no social onde essas categorias de modificam. Segundo ele, todas as religiões possuem as mesmas causas e respondem as mesmas necessidades, se apoiam no real e o exprimem, possuindo certo número de representações fundamentais e de atitudes rituais, que em suma, tem o mesmo significado e a mesma função. Nas sociedades tribais a consciência de grupo é mais forte, ali existe uma representação coletiva estruturada na religião, que possibilita os indivíduos conceberem o mundo de forma homogênea, onde a religião se apresenta como um sistema de representações, eminentemente social, do mundo. Assim, dentro da religião, as representações compreendem um sistema de ideias que, juntamente com os ritos e o culto, compõe um sistema de práticas que procura exprimir o mundo. Mauss (1979) usa-se das ideias de Durkheim ao estudar os rituais funerários australianos, citando a lágrima, os cânticos, o luto como expressão coletiva do sentimento como sendo da mais perfeita obrigação, sem negar o sentimento individual, ressalta o caráter social e simbólico. São representações coletivas que comunicam, transportam conhecimento e orientam ações. Deste modo, Durkheim (1996) afirma que os mais bárbaros ritos, ou mais bizarros, os mais estranhos mitos traduzem alguma necessidade humana, algum aspecto, seja individual ou social, da vida. Assim como a religião, a ciência também constitui um sistema de representações do mundo, que orienta a ação dos homens com base em outras ideias e outros ritos, igualmente responde às necessidades humanas, individual ou social. A importância dessa ferramenta de análise está em possibilitar a percepção de ações coletivas independentemente do caráter econômico, político, social ou cultural, isso tudo dentro de determinado tempo e espaço em que são produzidos. A questão central das representações sociais é de cognição e comunicação, pois o objetivo é clarificar a realidade do grupo, mudanças e permanências. Moscovici (1985) afirma que as representações sociais nas