“Vamo 
tomá banho seu 
Giuseppe?” 
Por: 
Patrícia Franconere 
(São Paulo) 
2013 
Qualquer utilização da obra para montagem...
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Cenário: 
Um quarto. Nele há uma cama de solteiro, ao lado um criado mudo com um cinzeiro cheio de 
bitucas de cigarro,...
Em off: Ouve-se o som de violino. Ferdinando está tocando Chopin /Nocturne op.9. n.2. A 
música para de repente. Ouve-se a...
Giuseppe - Ecco. De boa ela não tem niente. 
Ferdinando - Essa já é a quarta enfermeira que eu contrato. Se o senhor espan...
mãos trêmulas e cara amarrada, o saco ele deixa sobre a cama e começa a limpar o criado 
mudo com a flanela. 
Ferdinando -...
Giuseppe -Ora é. 
Ferdinando – Então vê se se aquieta de uma vez, que eu tenho mais o que fazer. 
Ferdinando está fechando...
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Vamo toma banho seu giuseppe

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Numa tarde quente de verão Ferdinando e seu pai Giuseppe vivem situações corriqueiras expressando o amor incondicional e o perdão.

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Vamo toma banho seu giuseppe

  1. 1. “Vamo tomá banho seu Giuseppe?” Por: Patrícia Franconere (São Paulo) 2013 Qualquer utilização da obra para montagem (com ou sem fins comerciais) entrar em contato com a autora pelo facebook .
  2. 2. 2 Cenário: Um quarto. Nele há uma cama de solteiro, ao lado um criado mudo com um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro, um maço de cigarros cheio, outro maço vazio e amassado, uma caixa de fósforos com palitos espalhados, uma garrafa de água mineral e um copo de vidro. Há também uma cadeira estofada, uma janela com cortinas brancas, uma porta e um ar condicionado na parede oposta o da porta. Personagens: Ferdinando – Homem de cinqüenta e poucos anos. Veste calça jeans e camiseta pólo. Tem cabelos lisos e grisalhos. Nasceu na Itália, aos vinte anos, após a morte da mãe, veio para o Brasil à procura do pai que os abandonou na penúria quando ele tinha apenas dez anos. Tem pouco sotaque. Quando irritado solta algumas palavras no seu idioma natal. Hoje é um empresário bem sucedido. Giuseppe – Senhor de oitenta e poucos anos. É alto e calvo. Está vestindo pijama longo de listras. Mesmo morando a mais de quarenta anos no Brasil mantém o sotaque Italiano. Abandonou mulher e filho na Calábria, constituiu nova família no Brasil. Na velhice foi abandonado pelos filhos brasileiros num asilo. Foi resgatado por Ferdinando, filho ignorado a vida toda. Detalhe: Giuseppe está com o rosto, o dorso das mãos e o pescoço impregnado por uma sujeira negra, mas Ferdinando não vê. A sujeira tem que estar visível para a platéia. Trilha sonora: Chopin /Nocturne op.9. n.2. /solo de violino. Vinícius de Moraes/ Eu sei que vou te amar/solo de violino.
  3. 3. Em off: Ouve-se o som de violino. Ferdinando está tocando Chopin /Nocturne op.9. n.2. A música para de repente. Ouve-se a voz de Ferdinando e seu Giuseppe. Ferdinando – Ma o que o senhor ta fazendo aqui no corredor com a bunda de fora? Giuseppe - Io vim pedi pra você desligá quela peste de ar que têm no quarto. Eu to com molta tosse, caspeta. Será que tão querendo me matá? Se for isso, fala logo, que io me jogo daqui do arto e acabo com o sofrimento de vocês tutto! Ferdinando – O senhor mesmo me encheu a paciência pra ligar o ar porque tava morrendo de calor. Giuseppe - É...Ma eu num to mais. Ferdinando – E eu sou adivinho por acaso pra saber o que o senhor quer? Vai... Vamo lá que eu desligo... O senhor nem devia ter vindo até aqui. O senhor ta cansado de saber que não pode sair da cama e ficar perambulando por aí sozinho. Podia ter tropeçado em algum tapete e se estatelado no chão. Eu não instalei uma campainha do lado da cama pra enfeite. É pro senhor tocar quando precisar de alguma coisa. Ferdinando e Giuseppe entram em cena. Giuseppe está com um braço apoiado no braço do filho e com a outra mão tenta segurar a calça do pijama que está caindo. Giuseppe caminha com dificuldade. Giuseppe – Ma eu toco, toco questa percaria e ninguém aparece, porca miséria! Acho que vocês são tutte gente surda! Você fica tocando questa porra de violino e esquece que io existo. Ferdinando – Sem drama, seu Giuseppe. Silêncio Ferdinando - Já pensou se a Dominice vê o senhor com ao badalo de fora? O senhor precisa ter mais cuidado quando anda pela casa. A sua neta já é uma moça e o senhor não ta em nenhum bordel da Itália pra ficar se exibindo desse jeito. Giuseppe - Ma o que você queria que eu fizesse caspeta! Questa percaria de carça ta froxa! Ferdinando – Ta frouxa porque o senhor não amarrou o cordão. (Ferdinando se abaixa e amarra o cordão) Além disso, o senhor devia ta com a fralda geriátrica. Por que tirou? Giuseppe - Io não quero ficar parecendo um bambini! Ferdinando – Então não se comporte como tal. O senhor não tem mais condições de ir toda hora no banheiro. Já troquei seu colchão três vezes em menos de um ano. Não dá para trocar de colchão cada vez que o senhor se mijar. Vou pedir pra enfermeira colocar a fralda novamente. Cadê ela? Giuseppe - Sei lá onde ta quela porca gorda. Deve ta na cozinha enchendo quela pança enorme. Io non gosto dela. Ferdinando - O senhor não gosta de ninguém. Giuseppe - Quela enfermeira só pensa em me da banho! Acho que ela gosta de me vedere nudo. (voz afeminada) “Vamo toma banho seu Giuseppe?” (voz normal) Quarque hora, mando quela tarada vécchia botá a boca em mio cazzo. Ferdinando – Pai não começa. A dona Maria é boa enfermeira. 3
  4. 4. Giuseppe - Ecco. De boa ela não tem niente. Ferdinando - Essa já é a quarta enfermeira que eu contrato. Se o senhor espantar essa, juro que te coloco num asilo! Giuseppe - Era só o que me fartava. Você jogá tuo padre num depósito de vecchio! Ferdinando – Assim como fez seus filhos brasiliani? Os preferito? silêncio Ferdinando - Não se preocupe seu Giuseppe. Não vou te abandonar na miséria como o senhor fez comigo e minha mãe lá na Calábria. O senhor não vai morrer na merda como ela morreu. Silêncio Ferdinando – A dona Maria tem razão em querer te dar banho. O senhor não ta mais Itália. Aqui se toma banho todos os dias. O senhor parece que gosta de ficar fedendo pelos cantos da casa! Ninguém é obrigado a agüentar velho fedorento. Fico me perguntando como minha mãe pôde sentir tanto, a falta dessa sua inhaca. Silêncio Ferdinando - Olha só esse quarto que porquice! Nem parece que é limpo todos os dias... E esse cinzeiro? Nunca vi tantas bitucas, num único lugar. Qualquer dia o senhor bota fogo no apartamento. Giuseppe - Você só reclama! Ferdinando – Tive a quem puxar. Giuseppe – Você é ruim. Ferdinando – O senhor me chama de ruim desde que eu me entendo por gente. Uma boa desculpa que o senhor arranjou pra justificar as surras que me dava. Giuseppe – Você era una peste, tava sempre fazendo qualcosa errata. Ferdinando – Criança é como cachorro. Nunca se preocupa se o que ta fazendo é certo ou errado. Ela simplesmente faz, sem maldade alguma. Silêncio Ferdinando – Ficou quieto agora? A verdade dói, né? Giuseppe observa Ferdinando enquanto ele estica o lençol e ajeita os travesseiros. Ferdinando – Porra, caralho! Esse quarto fede couro velho e tabaco! Depois me vem reclamar da tosse! Fuma três maços de cigarro por dia e ainda tem coragem de dizer que é o ar condicionado que faz mal. Giuseppe – nhenhenhe... Ferdinando – (depois de arrumar a cama) Vem velho malcriado, eu te ajudo a se deitar. Giuseppe - Ma io não quero deitar! Ferdinando - Larâdxa! E o que o senhor quer? Giuseppe - Io quero comer una banana. Ferdinando - Agora? O senhor já comeu duas na hora do almoço? Giuseppe — Agora vai ficá regulando as percaria das banana? Ferdinando ajuda o pai se sentar na cadeira. Ferdinando - O médico falou pro senhor diminuir o carboidrato. Giuseppe - Médico... Médico... Esses médico num entende niente. Ferdinando – E o senhor como sempre entende de tudo. Giuseppe – (emburrado)Ecco! Da minha fome io entendo. Ferdinando - Ta bom véio, eu vou na cozinha pegar a sua banana.Se bem te conheço, o senhor não vai me dar sossego enquanto não meter a fruta no estômago. Giuseppe - Io quero due. Ferdinando – (saindo do quarto)Due o cazzo.Vou pegar uma só.Eu não trabalho pra sustentar lombriga de metro. Giuseppe – Ma vá...Male creato! Ferdinando sai de cena. Volta logo em seguida com uma banana descascada, um saco plástico e uma flanela umedecida em água. A banana ele entrega ao pai que a recebe com as 4
  5. 5. mãos trêmulas e cara amarrada, o saco ele deixa sobre a cama e começa a limpar o criado mudo com a flanela. Ferdinando - O que foi dessa vez? Não era a banana que o senhor queria? Giuseppe – (choramingando) Quantas vezes io tenho que parlare que non gosto quando me dão banana descascata? Ferdinando - (irritado)O SENHOR VAI MANGIARE A CASCA POR ACASO? Giuseppe fica calado. Ferdinando pega a fruta de volta e dá uma mordida com raiva. Sai contrariado para pegar outra. Volta logo em seguida. Ferdinando – Toma. Essa ta com a casca. Ta bom assim para o senhor? Era isso que o senhor queria? Giuseppe - A otra era maior. Ferdinando – Agora eu vou ter que andar com uma trena para cima e para baixo pra medir as bananas para o senhor? Deixa de ser esganado! O mundo não vai acabar amanhã. Giuseppe – Pra você non. Ferdinando – Nem pro senhor. Giuseppe ignora. Ferdinando - Vê se come logo essa porcaria, caso contrário ela volta para fruteira. Giuseppe com as mãos trêmulas descasca lentamente a banana enquanto Ferdinando esvazia o cinzeiro dentro do saco plástico. Ao notar a lentidão do pai ele se irrita. Ferdinando – Me dá aqui essa porcaria que eu descasco... Toma. Vê se come logo e se deita. Dá um pouco de sossego. Giuseppe come a banana lentamente. Giuseppe – É por isso que io gosto de comê ca casca. Essa percaria suja toda a mão! Ferdinando - Suja a mão porque o senhor não tem cuidado! Precisa apertar desse jeito? Isso é uma banana, não uma mulher. Giuseppe da uma risadinha maliciosa. Após comer, Ferdinando pega a flanela umedecida e limpa as mãos e a boca do pai que recebe o carinho de olhos fechados.Mas ele não pode limpar a sujeira negra. Ferdinando - O senhor é pior que criança! Da próxima vez vou pedir para a enfermeira amassar a banana. Se quiser vai comer no prato com uma colher. Giuseppe - Ma ta pensando o quê? Que sono porco para comer lavagem? Ferdinando Ignora Ferdinando - Pronto, o senhor já ta limpo. Agora vê se deita e dorme um pouco. Capisce? Giuseppe - Nesta casa, vecchio só serve para dormir, caspeta! Ferdinando ignora as reclamações do pai, o ajuda a se deitar e o cobre com uma manta fina. Giuseppe – (enquanto Ferdinando o cobre) Você non é bom... Ma também não é de todo ruim. Ferdinando – (arredio) Vai véio. Deita logo. Silêncio Giuseppe – Você se parece com tua madre. Ferdinando – Sorte a minha. Se eu me parecesse com você eu já teria me matado. Giuseppe da uma risadinha. Giuseppe - (deitado) Você acha que io to molto sujo mesmo? Ferdinando – Acho. Mas não se preocupe demais com isso. Há certos tipos de sujeira que nem palha de aço consegue limpar. Giuseppe – Dipende da voi. Nesse momento as luzes do cenário se apagam. Apenas uma luz ilumina pai e filho na cama. Toca a música”Eu sei que vou te amar” solo de violino. Com a flanela úmida Ferdinando começa a limpar lenta e delicadamente a sujeira negra do rosto, pescoço e o dorso das mãos de Giuseppe até acabar a música. Depois disso acendem-se novamente as luzes do palco. Giuseppe – Questo cuscino ta molto arto! Ferdinando ergue a cabeça do pai, retira um dos travesseiros e, o ajeita carinhosamente. Ferdinando - Ta bom assim? 5
  6. 6. Giuseppe -Ora é. Ferdinando – Então vê se se aquieta de uma vez, que eu tenho mais o que fazer. Ferdinando está fechando a porta do quarto. Seu pai mais uma vez reclama. Giuseppe – (tossindo muito) O ar! Ferdinando volta e contém o riso. Caminha até onde está o ar condicionado e o desliga. Sai com uma rapidez meteórica. Sequer olha para o pai, cujo olhar ele sente queimar na nuca. Giuseppe – Dio ti benedica mio figlio...Dio ti benedica... 6 FIM

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