O principe

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Uma pequena provocação
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O principe

  1. 1. Patrícia Franconere O Príncipe Patrícia Franconere 1
  2. 2. O Príncipe O Príncipe São Paulo 2011 Título Original: O Príncipe Copyright© 2011 por Patrícia Franconere ISBN 2
  3. 3. Patrícia Franconere 3
  4. 4. O Príncipe Sinopse Osama Bin Laden,o terrorista mais procurado do planeta veio refugiar- se em terras brasileiras.Numa das ruas de comércio de maior movimento de São Paulo,a Vinte e Cinco de Março,o terrorista abre a Salat-ul-Juma” uma loja de tapetes orientais e se torna um dos mais prósperos comerciantes da região. Com seu jeito tímido e bem educado o muçulmano cativou a simpatia de seus funcionários, dos comerciantes da região e de Guida, mulher pelo qual ele se apaixonaria. No seu encalço, estava Moshê, um garoto judeu de dezesseis anos que inexplicavelmente se afeiçoara a ele, sem saber na realidade sua verdadeira identidade. Aqui o ardiloso líder da Al Qaeda, tramaria mais um atentado contra os Estados Unidos da América. Mas antes disso, ele iria conhecer o verdadeiro amor, a lealdade e a compaixão 4
  5. 5. Patrícia Franconere O Príncipe Essa é uma obra de ficção, portanto não tem compromisso nenhum com a realidade. Entretanto, o personagem principal dessa trama é figura conhecida em todo o planeta. Seu nome: Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo. Não faço apologia ao terrorismo em momento algum do livro, tão pouco tento traçar o perfil de ninguém, apenas ir mais adiante, explorar as possibilidades e contar como poderia ser a vida de um homem que fora banido da sociedade, expulso do seio da família, de sua terra, vivendo num país como o Brasil, conhecido pela Democracia Racial e sem a Intolerância Religiosa vista em outros países. Esse livro, portanto, não foi escrito para causar nenhum tipo de polêmica, nasceu apenas para explorar o outro lado da moeda e satisfazer a necessidade da autora de colocar de lado alguns preconceitos, refletir sobre algumas "verdades" que nos são impostas pela mídia e um bom motivo para levantar a tona velhas questões: O Homem é produto do meio em que vive? Uma pessoa é totalmente má ou totalmente boa? 5
  6. 6. O Príncipe Capítulo 1 A rua 25 de março estava tomada pela polícia federal, agentes da CIA e do FBI munidos de armamento pesado e rádios comunicadores. O trânsito na região estava totalmente impedido. Nenhum carro entrava ou saia sem a permissão. Apenas duas ambulâncias, dois carros do corpo de bombeiros e as viaturas da polícia tinham acesso ao local. A multidão assustada, porém curiosa aglomerava-se atrás da corda de isolamento colocada estrategicamente pelos policiais brasileiros fortemente armados.Estava terminantemente proibido no espaço aéreo em torno daquela região o vôo de helicópteros de emissoras de rádio e TV. Apenas os da polícia federal tinham permissão para trafegar.As pessoas que ali estavam tinham consciência do perigo, porém à vontade de ajudar ou até mesmo de aparecer na televisão era maior que qualquer sentimento de medo.O clima era de pânico, angústia dor e sofrimento.Anunciava-se uma tragédia como nunca se vira naquele local.Nenhum atrito da guarda municipal com os ambulantes da região foi capaz de dar tanta audiência.Vários repórteres de diferentes emissoras tentavam passar aos espectadores ao vivo o clima de horror que imperava no lugar.As emissoras internacionais também tinham colocado correspondentes para a reportagem; entre eles um correspondente da Al Jazira o principal canal de notícias da televisão árabe por satélite radicada em Qatar.Todos estavam atentos a movimentação.O cenário era de 6
  7. 7. Patrícia Franconere terror.As atenções estavam voltadas para uma grande loja de tapetes orientais e utilidades domésticas. Ainda na rua, uma cena chocava e emocionava os espectadores. No meio fio uma senhora que usava um lenço escuro na cabeça estava de joelhos e gritava aos prantos pelo nome de seu filho. — Moshê... Moshê... Liberte o meu filho pelo amor de Deus! — gritava a mulher desesperada. A seu lado, um senhor com um kipá na cabeça fazia orações em voz alta ao lado de outras pessoas que pareciam ser membros da família. — Que Deus tenha piedade de nós!Que ponha suas poderosas mãos sobre esse louco e impeça-o de cometer mais uma atrocidade contra um civil inocente!Meu filho é pouco mais que uma criança! Tenha piedade! — disse o senhor judeu emocionado. Várias pessoas choravam ao ver o desespero do casal. Alguns policiais tentavam consolá-los, no entanto a tentativa era em vão. Nada poderia trazer tranqüilidade àquelas pessoas a não ser a presença do filho são e salvo. — Moshê meu filho!Saia daí!Fuja! — continuava a mulher entre soluços. Mas nada do filho amado aparecer. Só de imaginar no que aquele fanático poderia fazer com o jovem rapaz já era motivo para deflagrar a ira dos que ali estavam presentes. A Polícia americana estava com gana de vingança, não viam a hora de invadir o local e dar cabo daquele lunático. Mais à frente, uma bela mulher com os olhos inchados de tanto chorar era atendida por um médico do resgate. Com o coração 7
  8. 8. O Príncipe dilacerado a mulher tentava explicar o que tinha acontecido dentro do estabelecimento comercial com a chegada da polícia. — Ele ordenou que todos os funcionários evacuassem rapidamente a loja. Ele não permitiu que ninguém pegasse nada. Saíram todos sem seus pertences. Ele estava agindo como um louco gritando o tempo todo. Nunca o vi assim antes. — dizia a mulher como se estivesse em transe. O choque com a realidade deixou aquela bela mulher desorientada. — Ele é bom... Ele não é quem vocês estão pensando... Ele é meu marido... Todos aqui gostam muito dele... Ele é muito bom... Eu o amo... Ele jamais faria nada para machucar alguém... Ele é muito bom... — Então porque ele não deixa o rapaz judeu sair? — perguntou em inglês Paul Mcdoell um dos chefões da Cia enquanto Ricardo um agente da polícia federal traduzia simultaneamente para que a mulher pudesse entender. — Eu não sei... Ele não é quem vocês estão pensando... Está havendo um enorme engano... Ele não é esse monstro... Ele deve estar com medo... Vocês o estão confundindo com um terrorista... Por isso essa atitude tão intempestiva. — Ela não está falando com coerência. Vamos deixar que ela se acalme só depois a interrogaremos. — disse Paul. Enquanto isso, os funcionários não menos assustados respondiam as perguntas insistentes dos repórteres de televisão. Todos eles queriam dar um furo de reportagem. — Vocês não desconfiaram de nada? — perguntou o correspondente da Al Jazira num português enrolado a uma das funcionárias. A moça aparentava ter uns quinze anos no máximo. 8
  9. 9. Patrícia Franconere — Não. Ainda não estou acreditando no que estou vendo. Isso tudo parece um pesadelo. Ele não se parece nada com esse monstro que vocês estão dizendo. Como poderíamos adivinhar! — disse a jovem aos prantos. — por favor, não deixem que aconteça nada ao Moshê, ele é nosso amigo! — continuou a adolescente. — E você, acha que ele poderá ferir o rapaz? — perguntou uma repórter da CNN espanhol para Gilberto outro funcionário da loja. — Não sei dizer. Só sei que ele apareceu na loja armado com uma metralhadora. — informou. — E isso era comum? — continuou a repórter. — Não. Ele nunca apareceu armado. No entanto parecia ter uma intimidade muito grande com a arma. — explicou ainda perplexo. — Acha que ele poderia ferir o rapaz? — Já não sei mais de nada. Ele poderia nos manter dentro da loja, mas nos deu a impressão que ele queria nos poupar. — Por que você está sangrando desse jeito? — Tentei tirar a metralhadora das mãos dele e acabamos por nos engalfinhar. Ele apesar da idade é muito mais forte que vocês imaginam. — revelou. — Você foi muito valente. Ele poderia ter te matado. — observou a repórter. — Poderia com certeza. Mas acho que ele não queria machucar ninguém. — E quanto ao menino?Porque ele não o soltou? — Não sei dizer... Enquanto isso parecia que a comunidade judaica do planeta estava toda concentrada naquele lugar. Tanto os modernos quanto os 9
  10. 10. O Príncipe ortodoxos se reuniam ao lado dos pais de Moshê numa demonstração de solidariedade. A comunidade muçulmana também marcava presença no local para demonstrar que não compartilhavam dos mesmos ideais daquele louco que estava dentro da loja.Todas as raças, credos estavam presentes.Um rabino acabara de chegar, juntou-se aos pais do menino e em voz alta começaram a fazer suas preces em hebreu. Paul Mcdoell, vendo que nada acontecia, pegou um mega-fone e começou a fazer ameaças para o homem que permanecia no interior da loja. Dessa vez não precisou de um interprete, afinal ele sabia que o seqüestrador entendia muito bem a sua língua. — Esse é meu último aviso. Não faça nada contra esse rapaz!Ele é um inocente!Solte-o agora ou seremos forçados a invadir.E tenha a certeza que não teremos o menor constrangimento em eliminá-lo caso aconteça algo com o garoto judeu! — disse Paul num tom ameaçador. Todos permaneceram em silêncio para ver se o homem se entregava. — Se acontecer alguma coisa com o meu filho eu me mato!Eu me mato! — gritou a mãe judia meio ao desespero. — Vamos, se entregue! Você está cercado!Temos homens espalhados por toda redondeza!Você não terá chance nenhuma!Se entregue e terá um julgamento limpo e honesto... De repente, enquanto o chefe da CIA falava, um violento estrondo foi ouvido no interior da loja. As pessoas assustadas saíram correndo em disparada na direção contrária. A explosão levantou uma poeira infernal e provocou desabamento no interior da loja. Por alguns instantes ninguém conseguia ver nada. Estilhaços de vidro e restos de 10
  11. 11. Patrícia Franconere escombros voaram por todas as partes. Os policiais atônitos não esperavam por isso e por um tempo ficaram sem reação. Alguns que estavam mais à frente se machucaram com os estilhaços, mas sem maior gravidade. A seguir, labaredas enormes tomaram conta de tudo. A mãe de Moshê desesperada saiu correndo em direção da loja, mas foi impedida pelos policiais. — Meu filho está morto!Esse maldito matou o meu filho! — gritou a mulher horrorizada. — Eu quero morrer com ele! — disse histérica lançando-se ao chão. Uma equipe médica foi ao seu encontro para aplicar-lhe tranqüilizante na veia. A mulher não tinha mais condições de ficar sem medicamento. Os repórteres, os fotógrafos e os cinegrafistas se esqueceram por um momento seu ofício e abalados começaram a chorar como crianças. Era impossível não se comover com o trágico desfecho. Os dois caminhões do corpo de bombeiros pararam diante da loja, e mais do que depressa seus destemidos homens entraram com valentia empunhando pesadas mangueiras e atirando fortes jatos d’água nas ardentes chamas. — Meu Deus!Ele deve ter acionado a bomba que estava presa a sua cintura! — deduziu Gilberto. — Será que eles morreram mesmo? — perguntou o agente Ricardo a Paul Mcdoell. — Acho impossível que alguém tenha sobrevivido a essa explosão. — respondeu o americano de cabeça baixa. — Você acha que ele se matou e matou o garoto também? 11
  12. 12. O Príncipe — Certamente. Ele estava cercado. Não tinha como escapar. É do tipo que prefere morrer a se entregar a um inimigo e certamente deu cabo à vida de mais um inocente. Deve ter acionado a bomba como o rapaz falou. — Então está tudo acabado? — perguntou Ricardo. — Parece que sim. Vamos esperar os bombeiros apagarem o fogo para retirarmos os corpos. Paul Mcdoell tentou esconder uma pequena lágrima que corria no canto dos olhos. — O que será que tem nesse país que encanta esses monstros internacionais? — Não foi aqui que se escondeu durante anos o nazista Joseph Mengueli e aquele ladrão londrino Ronald Biggs? — perguntou o agente Paul ao colega. Estava visivelmente inconformado com o desfecho do cerco policial. — Foi. Acho que depois de tanto aterrorizarem as pessoas pelo mundo eles vêm para cá para se esconder e acabam encontrando calor humano do nosso povo. Só pode ser isso. — respondeu o agente Ricardo. Capítulo 2 Dois anos antes... — Você conseguiu fechar o negócio Fahad? — perguntou um homem ao telefone em árabe. 12
  13. 13. Patrícia Franconere — Ainda não. — respondeu Fahad no mesmo idioma. — O proprietário só fecha o negócio por trezentos mil dólares nem um centavo a menos. — concluiu o outro. — Trezentos mil dólares por aquela espelunca da foto? — perguntou o estranho homem visivelmente irritado como se dinheiro fosse problema para ele. — Ele disse que o local é disputadíssimo naquela região e é mesmo. A Rua 25 de Março é conhecida em todo o território brasileiro por ser uma das maiores zonas de comércio de São Paulo. — explicou Fahad ou pelo menos tentou. — Então pague logo a porcaria desse dinheiro. — disse o homem sem titubear. — Não tenho tempo a perder.Quero embarcar para o Brasil em quinze dias no máximo. — concluiu. — Mas a loja está precisando de umas reformas... — Não quero saber!Você tem quinze dias para tornar esse pardieiro um ambiente agradável de trabalhar. Estou levando comigo vários lotes de tapetes orientais para vendê-los nesse país. Não comprei essa loja para continuar a vender esses tapetes belgas do Paraguai tampouco os lixos fabricados aí. Já que vou ter a minha própria loja quero vender do bom e do melhor. — disse o árabe num tom quase ameaçador. — Tudo bem senhor...A loja estará funcionando a pleno vapor quando o senhor chegar...Mas eu queria também saber o que farei com os trinta funcionários da loja.O senhor quer que eu os demita e contrate outros no lugar? — Onde você esta com a cabeça Fahad? Não podemos nos dar ao luxo de dispensar essa gente!Como já disse quero tudo funcionando a 13
  14. 14. O Príncipe todo o vapor para quando eu chegar!Você está sendo muito bem pago para realizar suas tarefas sem me trazer problema. Fahad enquanto ouvia o patrão afastava um pouco o telefone do ouvido para não correr o risco de explodir seus os tímpanos com a gritaria do árabe do outro lado da linha.Ao mesmo tempo inflava os pulmões com ar renovado e se enchia de valentia para fazer mais uma pergunta besta. — O senhor vai mesmo querer morar no andar superior da loja? — perguntou Fahad já esperando pela explosão do árabe do outro lado da linha. — Que Alá mande você arder nos quintos mais profundos dos infernos! — blasfemou o árabe a beira de um colapso nervoso. — É claro que vou morar lá!Não foi para isso que pedi para que encontrasse um comércio com residência! — Eu sei disso!Digo porque o local é muito perigoso à noite.As imediações são freqüentadas por mendigos, andarilhos e traficantes de droga durante toda à noite e piora nas madrugadas. O árabe soltou uma gargalhada do outro lado da linha e completou: — Eles é quem deveriam ter cuidado comigo! — advertiu o homem com cinismo. — Tem mais uma coisa que eu queria salientar... Como o senhor já foi informado, aqui no Brasil principalmente na rua onde o senhor vai estabelecer seu comércio há gente de todas as raças e credos. Todos aqui vivem em plena harmonia. Judeus, muçulmanos, católicos, presbiterianos, budistas etc. Nunca houve em momento algum nenhum tipo de discórdia nem desavenças entre eles. 14
  15. 15. Patrícia Franconere — Você não está me contando nenhuma novidade! — interrompeu o árabe sem paciência. — O mundo inteiro sabe que aí no Brasil tudo vira samba!É justamente por isso que escolhi esse país para me esconder!Enquanto o exército burro e incompetente dos Estados Unidos se matam de me procurar no deserto do Afeganistão, eu fico bem escondido atrás de um balcão planejando inocentemente mais um ataque terrorista contra eles. — Dessa vez o senhor tem que planejar algo abominável...Uma bomba atômica talvez? — Quem sabe Fahad...Quem sabe... Antes de desligar o árabe fez questão de dar a data de sua chegada ao Brasil já que Fahad fora incumbido de recebê-lo no aeroporto de Guarulhos. — Eu já anotei meu senhor, a data, a hora e o número do vôo.Sé tem um pequeno problema...Eu não sei como o senhor está agora já que como o senhor mesmo me disse passou por uma transformação radical no visual. — Não precisa se preocupar com isso Fahad. Esteja na sala de desembarque na hora marcada que eu me apresento diante de você.E não se esqueça.Daqui a diante não me trate mais pelo meu verdadeiro nome e sim por Amir Abdul Zaiefi Safatli.Osama Bin Laden até segunda ordem está escondido dentro do labirinto escuro de uma caverna do longínquo, mas querido e saudoso Afeganistão. Capítulo 3 15
  16. 16. O Príncipe Eram quase seis horas da manhã de uma quinta-feira. Fahad suava em profusão enquanto andava agitado de um lado para o outro no meio do saguão de desembarque do Aeroporto Internacional de Cumbica. Ansiava por ver como tinha ficado as feições do chefe da Al- Qaeda após as diversas cirurgias plásticas a que ele se submetera numa clinica clandestina que ficava numa pequena cidade próxima a Ma Chu Picchu no Peru onde se escondia até então. Assim que a voz feminina do aeroporto ressoou através de uma caixa acústica avisando a chegada do vôo “três meia sete” vindo de Lima, Fahad se apressou em chegar até a porta de vidro por onde os passageiros iriam desembarcar.O homem não parava de fumar.Acendia um cigarro atrás do outro sem se importar com as pessoas que estavam ao seu redor.Após uma espera agonizante de cinqüenta minutos, finalmente os passageiros do vôo “três meia sete” começaram a sair com suas bagagens de mão e seus carrinhos abarrotados de malas e caixas de equipamentos eletrônicos.Fahad que era de origem árabe nasceu e cresceu no Brasil.Quando Osama Bin Laden decidiu-se se lançar na luta para expulsar os soviéticos do Afeganistão em mil novecentos e setenta e nove organizou um recrutamento em todos os países muçulmanos.Na época, Fahad ainda jovem, estudava nos Estados Unidos e se cadastrou como voluntário para desgosto de seus pais que hoje são falecidos.No Afeganistão, Fahad especializou-se em guerrilha e sabotagem.Ele foi o mentor da fuga do líder da Al-Qaeda para o Brasil. Fahad era o oposto de Bin Laden.Não era tímido tão pouco tinha a aparência de matuto como seu líder.Um homem até que bonito no alto de seus quarenta e quatro anos de idade; alto de pele 16
  17. 17. Patrícia Franconere clara e uma vasta cabeleira grisalha que estava sempre penteada para trás.Fahad era inteligente e muito culto.Não que Bin Laden não fosse inteligente, isso ninguém podia negar,já Che chegou a cursar faculdade de engenharia, no entanto lhe faltava conhecimentos gerais coisa que Fahad tinha de sobra. Diante da porta de vidro, o guerrilheiro olhava não só para ela como também para todos os lugares para se certificar que não havia policiamento no local.Como quem deve teme, tinha sempre a sensação de estar sendo perseguido pela polícia.(Interpol, CIA, etc.).No entanto, Fahad nunca andava desarmado.Por baixo do seu paletó cinza ele guardava no coldre uma arma russa de pequeno calibre para não ser percebida nos detectores de metais.Qualquer tumulto ele sabia muito bem como se defender descarregando a arma mortal de mira laser.Após anos infindáveis de treinamento, Fahad tinha uma mira perfeita mesmo a metros de distância. Sem que ele percebesse, um homem alto, magro, vestindo paletó azul escuro de corte impecável postou-se bem a seu lado apoiado em uma bengala de madeira marfim.Sentindo a presença do estranho ao seu lado, Fahad olhou por cima do ombro e se deu conta de que se tratava de ninguém menos que o líder da Al-Qaeda.Ao contrário do que ele esperava, Osama Bin Laden não havia feito nenhuma cirurgia radical.Apenas o nariz tinha mudado.Estava ligeiramente mais fino e empinado do que antes, porém sem perder o traço de masculinidade.Foi feita também uma adição de cabelos em sua calvície num tom de castanho escuro tirando-lhe todo e qualquer sinal de grisalho.E apesar de estar ainda muito curto, dava tranqüilamente para ser repartido de lado e era assim que ele os mantinha.O homem 17
  18. 18. O Príncipe estava imberbe sem um único pelo no rosto.Havia rejuvenescido pelo menos dez anos com as poucas mudanças.Sem o turbante,a túnica, a barba grisalha e com o implante de cabelos ninguém poderia imaginar se tratar do líder terrorista mais procurado do mundo.Estava até um pouco mais gordinho.”Ma Chu Picchu fez muito bem a ele” pensou Fahad assim que reconheceu seu mestre. Sem dizer uma única palavra, Osama acenou com a cabeça e Fahad entendeu que ele queria sair de lá o mais rápido possível. Apesar de estar totalmente irreconhecível o árabe não queria dar sorte ao azar. Sendo assim, Fahad chamou um dos carregadores e pediu que ajudasse com as bagagens que eram muitas. O carregador colocou todas em um grande carrinho e seguiu os dois homens até o estacionamento do aeroporto. Após guardá-las no carro recebeu das mãos de Osama uma nota de vinte dólares para sua alegria. Capítulo 4 A pick up preta que Fahad dirigia acabara de entrar na rua 25 de Março no centro da cidade.Dentro do confortável automóvel Bin Laden se lembrava com uma ponta de saudade de seu leal e frágil jumento no qual ele se servia para se deslocar pelas montanhas e vales afegãos. Era final de fevereiro, um calor descomunal assava não só os transeuntes como as pessoas que estavam dentro dos carros.O ar condicionado de Fahad estava com problemas, por isso tiveram que 18
  19. 19. Patrícia Franconere percorrer todo o caminho com os vidros abertos.A toda hora Fahad tinha que tirar o pé do acelerador para dar passagem aos pedestres apressados.Por estar próximo ao carnaval às pessoas se atulhavam nas ruas em busca de boas ofertas.Nessa época as lojas se enchiam de fantasias, máscaras e acessórios para a ocasião.As pessoas caminhavam abarrotadas de pacotes e sacolas.Depois do natal, essa era a época em que os comerciantes mais faturavam.Osama olhava a tudo atento devidamente escondido atrás de um par de óculos escuros.Aquele calor infernal e a aglomeração de pessoas não eram novidade para ele.O comércio em certos lugarejos em seu país de origem também parecia coisa de doido.Além do tumulto, de pessoas se acotovelando tinham que conviver com a gritaria dos mascates vendendo suas mercadorias.Multidão nunca foi problema para ele já que liderou uma verdadeira massa de guerrilheiros.E o calor escaldante não era nada perto do que estava acostumado nos desertos do oriente.A única coisa que o deixava de boca aberta e estupefato eram as roupas curtas e coladas ao corpo das mulheres brasileiras.Um colírio para seus olhos e uma imoralidade para o coração.E o que ele achou ainda mais anormal era o comportamento dos homens.Passavam por mulheres praticamente nuas sem dar a menor importância.Aquilo parecia ser comum para eles.Se fosse no Afeganistão a metade dessas mulheres teriam sido mortas a pedradas ou coisa pior. “Pensava o homem em silencio”.Outra coisa que ele reparou foi no povo brasileiro.Como tantos outros estrangeiros, imaginou que aqui só havia negros e índios no meio da selva.Ficou espantado ao ver a diversidade de raças.Eram louros, morenos,ruivos, 19
  20. 20. O Príncipe orientais.Pessoas altas,baixas,magras,gordas.Não seguiam um único padrão. — Falta muito para chegarmos? — perguntou Osama ansioso. — Não. — disse Fahad enquanto manobrava seu carro para entrar num estacionamento. — Vou deixar o carro aqui porque não conseguiremos vaga lá na frente. — explicou. — Iremos andando.A loja fica a duas quadras daqui.Assim o senhor aproveita e vai se ambientando com o lugar. Os dois homens desceram do carro. — Não tire os óculos por enquanto. — alertou Fahad. Um jovem manobrista que vestia um macacão azul caminhou na direção deles. — Boa tarde seu Fahad!Como vai o senhor? — perguntou o manobrista. — Boa tarde Alemão!Como é que vão as coisas por aqui? — perguntou Fahad com um sorriso nos lábios. — E doutor!Muita correria!O estacionamento está lotado! — respondeu o manobrista falador. — Mas tem vaga para o meu carro,não tem? — perguntou Fahad enquanto entregava as chaves ao homem. — Pro senhor tem vaga cativa! — respondeu Alemão. — O senhor veio com um amigo hoje?___perguntou sempre muito simpático. — Vim sim.Esse é um grande amigo meu.O nome dele é Amir Abdul.Chegou hoje da Arábia Saudita.Ele é o proprietário daquela loja de tapetes que foi reformada. — Ah!Então esse é o novo dono?Muito prazer.O meu nome é Marcelo, mas todos aqui me chamam de Alemão (porque eu sou meio 20
  21. 21. Patrícia Franconere branquelo sabe...).Se o senhor quiser pode me chamar também. — disse o manobrista enquanto oferecia a mão a Osama para um aperto amigo.No entanto Osama ficou olhando sem entender nada do que o homem dizia.Para quebrar o gelo, Fahad explicou que Amir (Osama), não falava uma única palavra em português. — Puxa doutor, que mancada! E eu aqui tagarelando feito um doido e o homem não entendendo uma palavra.Deve estar me achando um doido...Desculpe-me senhor...Sorry...Sorry... — disse o humilde rapaz despejando uma das duas únicas palavras que ele conhecia em outro idioma. (Além de sorry ele também conhecia thank you). Após esse papo amigável Fahad e Osama se despediram caminharam lentamente entre as pessoas em direção a loja.Essa atitude de se juntar à multidão serviu como um teste.Se ninguém Ali reconhecesse o líder da Al-Qaeda ninguém mais reconheceria.O próprio Osama decidiu não se esconder.Tomou uma atitude que parecia ser a mais correta no seu entendimento.Se começasse a se esconder poderia levantar suspeitas.Agindo naturalmente poderia alcançar mais facilmente seus objetivos.Muitas das pessoas que passaram por eles olharam para Osama.Seu coração começou a apertar dentro do peito, só depois se conscientizou que mesmo quando era um João Ninguém nunca passara desapercebido por causa da sua altura de um metro e noventa.Num país onde a maioria da população é de estatura média ter um metro e noventa é atração de circo.Pensou Osama.Enquanto caminhavam, Fahad contava um pouco da historia da 25 de Março para Osama ir se ambientando. Explicou que aquela rua era o grande centro de atacado e varejo de 21
  22. 22. O Príncipe tecidos, vestuários e armarinhos. Culminou por ser a região de maior volume de arrecadação, dentre os centros comerciais, de tributos estaduais e municipais. Osama notou que havia policiamento ostensivo em todos os lugares, mas Fahad o tranqüilizou dizendo se tratar da guarda municipal, que seu único objetivo ali era impedir que os camelôs ilegais montassem suas barraca nas calçada. O líder da Al-Qaeda ouvia tudo com atenção, porém estava cansado da viagem e morrendo de sede. Enquanto caminhava olhava para todos os lugares, principalmente dentro das lojas. Dois objetos em exposição numa das lojas chamou sua atenção. Osama parou diante de uma loja que vendia fantasias. Olhou atento para uma das prateleiras e não resistindo entrou sem a menor cerimônia. Dentro de uma caixa de plástico havia dezenas de máscaras de plástico do ditador Sadan Hussein e outras com sua própria imagem. O homem nunca havia visto nada igual. A molecadinha que estava ao lado se divertia com aqueles suvenires. Ele próprio quis comprar uma de cada apesar de não entender nada do que estava acontecendo. Só depois quando saíram da loja, é que Fahad explicou que no carnaval as pessoas costumavam se fantasiar e depois do onze de setembro e da invasão dos americanos no Iraque aquelas máscaras se tornaram uma das mais requisitadas para folia. Capítulo 5 22
  23. 23. Patrícia Franconere Finalmente os dois amigos chegaram em frente à loja comprada por Osama.Na fachada tinha um grande letreiro luminoso com o nome da loja: “Salat-ul-Juma” que queria dizer: “As orações de sexta-feira” dia sagrado dos muçulmanos, nas mesquitas.O nome antigo fora trocado por esse escolhido a dedo pelo próprio Osama. A loja fora toda reformada e era imensa.Tinha pe direito alto e dois pavimentos.No andar térreo eram vendidos os tapetes orientais e algumas utilidades domesticas como louças,porcelana chinesa e panelas importadas da França.Mais o fundo ficava o escritório onde trabalhavam mais de dez funcionários.Gigantescas janelas de correr com grades pelo lado de fora davam a iluminação natural necessária ao ambiente.O piso que antes era de cerâmica foi todo trocado por granito cinza.As instalações e fiações elétricas foram todas renovadas.Aquela loja era a mais bem iluminada da rua.As várias pilhas de tapetes persas e paquistaneses eram separados por tamanho.Toda mercadoria viera de seus países de origem de navio.Todas elas sem exceção tinham notas fiscais.A grande maioria em nome de Amir Abdul Zaiefi Safatli e algumas notas tiradas em nome Fahad Hassein.Osama queria tudo preto no branco para não levantar suspeitas principalmente da policia internacional que vivia no seu encalço.Assim que os homens entraram na loja, um dos funcionários se adiantou em recebê-los.Era Adalberto um senhor de meia idade um dos mais antigos vendedores da loja. — Como vai seu Fahad? — Perguntou o homem ao se aproximar. — Vou bem seu Adalberto.Este aqui é o proprietário da loja. — Então esse é o seu Amir Abdul? — perguntou o atencioso vendedor. 23
  24. 24. O Príncipe — Isso mesmo.E como já havia mencionado ele não fala uma única palavra em português. — Vai ser meio complicado da gente se entender... — Mas só por enquanto.Já providenciei uma professora que dará aulas particulares de português para ele. — É a dona Latifa não é? — perguntou o vendedor. — Isso mesmo.Ela está aqui no Brasil dês dos quatro anos de idade.Agora que está com setenta fala melhor o português que qualquer um de nós. — Isso é verdade. — disse o vendedor. Enquanto os dois homens conversavam, Osama olhava tudo atento. A loja estava repleta de clientes. Pelo visto, a loja com toda a reforma, estava agradando os compradores. Mais ao fundo Osama avistou uma bela moça magra de cabelos cacheados num tom castanho dourado e olhos verdes que conversava com um jovem rapaz.Osama não conseguia desviar os olhos da mulher.Ao notar que estava sendo observada ela caminhou em sua direção com passos largos.A bela moça distribuía sensualidade dentro de uma calça jeans e uma camisa de seda estampada com um generoso decote insinuando um belo colo e seios fartos. A moça se posicionou ao seu lado e lhe ofereceu o mais belo dos sorrisos o que o fez estremecer por dentro. Sem saber direito como agir, Osama abaixou a cabeça a tal ponto que seus óculos escuros quase caíram de seu rosto. — Bom dia seu Fahad?Chegou mais tarde hoje? — perguntou a mulher. 24
  25. 25. Patrícia Franconere — Bom dia Guida!Atrasei-me um pouco hoje porque tive que passar no aeroporto para apanhar meu amigo e patrão de vocês. — Então quer dizer que ele é o senhor Amir? — perguntou a mulher enquanto olhava para Osama. — Ele mesmo. Fahad explicou em árabe para Osama que Adalberto era um dos vendedores e Guida que na realidade se chamava Eqüídea era a gerente da loja.Após as apresentações, Fahad pediu licença e subiu para o segundo pavimento acompanhado de seu líder através de uma porta lateral que ficava bem na entrada da loja.Para subir no segundo andar havia dois acessos.Esse por dentro da loja e outro que ficava na rua.No entanto nenhum desses acessos era permitido aos funcionários.Apenas Fahad e Osama tinham a chave que abria as portas.Assim que os amigos subiram as escadas deram de cara com um imenso corredor de paredes claras.No final dele estava a porta de entrada.Uma magnífica porta blindada Pentágono importada da Espanha.Essa porta era impenetrável.Apenas um cartão magnético podia abri-la.Assim que Fahad inseriu o cartão no orifício foi possível ouvir o clique.Os dois entraram e se depararam com um pequeno hall de entrada.Sem delongas, Osama foi entrando com passos largos até chegar finalmente no interior do seu refúgio.Depois de ser expulso da Arábia Saudita, o líder da Al-Qaeda nunca estivera abrigado num lugar tão amplo e confortável como aquele.Naquele local funcionava o depósito da loja, mas com a reforma Fahad pediu que transferissem o depósito para um galpão que estava abandonado nos fundos e que pertencia a loja.Tudo ali fora modificado.Fahad havia movido céus e terra para deixar aquela espécie de salão num ambiente mais 25
  26. 26. O Príncipe acolhedor. O piso em madeira era coberto por enormes tapetes paquistaneses. Ali quase não existiam paredes internas, e porta somente as da entrada e a do banheiro. Apenas um balcão separava a pequena cozinha do resto do ambiente. As janelas possuíam vidros a prova de bala e som, caso contrário Osama não teria sossego com o barulho infernal que vinha de fora. Persianas foram colocadas estrategicamente para dar mais privacidade ao lugar.Todas as paredes estavam pintadas num tom acinzentado.A decoração era simples com poucos objetos.Os poucos móveis que havia ali eram rústicos confeccionados em imbuia maciça.Numa escrivaninha de dois metros de comprimento ficava um lep top de última geração com internet de banda larga.Havia também um televisor de plasma na parede com TV por assinatura um luxo que não poderia faltar,afinal de contas,Osama tinha que estar antenado com tudo o que estava acontecendo no mundo.Sem dúvidas Fahad não havia poupado esforços muito menos capital para proporcionar esse mimo ao líder. — E então!O que o senhor achou? — Perguntou Fahad ávido pela resposta. Osama tirou os óculos e colocou-os sobre um aparador.Olhou para todos os lugares.Era visível a sua satisfação, mas Fahad queria ouvir da própria boca do mestre o que estava achando. — Comparado com as grutas escuras por onde vivi esses anos todos, esse lugar é um verdadeiro Taj Mahal. — disse Bin Laden. — como sempre com poucas palavras. — Tenho mais uma surpresa par o senhor! — disse Fahad. — Venha até aqui que eu lhe mostro. 26
  27. 27. Patrícia Franconere Ambos caminharam até uma estante de livros que estava embutida na parede. Com uma pequena chave que estava em seu poder Fahad abriu uma das portas. Dentro da estante havia vários livros de literatura corânica.Fahad se ateve ao livro que possuía uma encadernação mais luxuosa e tirou-o do lugar, atrás dele fez uma leve pressão assim que ouviu um clique retirou o fundo falso, assim que ele saiu, Fahad digitou alguns números em um pequeno painel preso a parede e disse: “Abre-te Sésamo!”.Em tom de brincadeira.A parede que ficava atrás da escrivaninha se moveu lateralmente como num passe de mágicas.Atrás dela um pequeno closet abrigava um verdadeiro arsenal.Dentre as armas escondidas várias pistolas automáticas,rifles,metralhadoras com mira a laser, AR15,outras armas de baixo calibre,Três lança chamas,granadas,e duas bombas relógios com o poder de destruir um quarteirão inteiro se acionadas.Todas essas beldades estavam acomodadas em prateleiras junto a várias caixas de munição como se estivesse esperando um momento oportuno para atacar. — Satisfeito? — perguntou Fahad ao seu líder. — Muito. — respondeu Osama pensativo. — Tenho mais uma surpresinha para o senhor. — informou Fahad. — Olhe para baixo! — disse o homem apontando para o chão.Osama vendo do que se tratava abriu um sorriso de orelha a orelha. Os dois muçulmanos permaneceram no closet por mais de meia hora. Assim que voltaram para a sala Fahad disse: — Tomei todas as providencias para que não lhe faltasse nada na sua estadia aqui no Brasil. 27
  28. 28. O Príncipe — Já percebi isso. — disse Osama ainda com um sorriso nos lábios. O local como o senhor mesmo pediu está bem simples para não chamar a atenção.Uma das faxineiras da loja está incumbida de fazer a faxina aqui a cada quinze dias. — informou o prestativo Fahad. — O que?Uma faxineira aqui dentro?Você ficou louco Fahad? — perguntou Osama inquieto. — Não precisa se preocupar!Eu já pensei em tudo. — disse Fahad. — Para que as pessoas não desconfiem de nada o senhor terá que se comportar da forma mais natural possível.O senhor sabe que o ser humano é muito curioso.É obvio que morando aqui sobre a loja irá atiçar a curiosidade dos funcionários o que é muito natural.Sempre haverá um querendo saber como o senhor vive aqui em cima como é a casa, coisas assim.Se todos forem proibidos de entrar, é lógico que irá atiçar ainda mais a curiosidade deles.No entanto, se de vez enquanto um ou outro tiver a permissão para subir e entrar essa curiosidade irá diminuir, pois os funcionários saberão da boca de outros que aqui é uma casa comum e que o senhor tem costumes simples apesar de ser um muçulmano.Ninguém melhor que uma faxineira para espalhar isso por aí. Osama ouvia atentamente Fahad sem pronunciar uma única palavra. — Ficar enclausurado também não é uma boa tática.O senhor terá que ficar na loja todos os dias nem que seja por meia hora até que todos se acostumem com sua presença.Conhecer outros comerciantes daqui também será necessário.Se comportar da forma mais natural possível é fundamental nesse momento.Ninguém jamais 28
  29. 29. Patrícia Franconere irá desconfiar que o grande Osama Bin Laden está em terras brasileiras.E com essa mudança de visual ninguém irá reconhecê- lo.Como o senhor mesmo sabe, o povo aqui tem outras preocupações, o terrorismo não está entre elas. — Mas uma faxineira aqui dentro não é muito arriscado? — interrompeu Osama. — Nesse caso não.Foi tudo minuciosamente esquematizado por mim.Todos nossos documentos estão devidamente guardados no closet com o armamento.O computador tem senha e ninguém terá acesso a ele.Quanto ao nosso esconderijo, ninguém jamais irá desconfiar, mesmo porque a chave da estante estará em seu poder. — E se a tal da faxineira quiser limpar dentro da estante. — Basta o senhor dizer que aquele local é sagrado e que o senhor não quer que ninguém mexa que ela não se oporá. Pelo contrário, irá dar graças a Deus por ter um serviço a menos para fazer. E é claro que também teremos que ter cuidado para não largar nenhuma prova de quem somos pelo meio da casa. Aqui temos duas linhas telefônicas que não tem nada a ver com as linhas lá de baixo.Comprei também um celular novo para o senhor caso os funcionários precisem entrar em contacto.Sabe como é empregado, estão sempre querendo mostrar serviço.Dando esse acesso a eles também evitará suspeitas. Capítulo 6 29
  30. 30. O Príncipe O nome completo do inspirador deste romance é: Osama Bin Muhammad Bin Awad Bin Laden, também conhecido como: Osama Bin Laden, "O Príncipe", "O Emir", "Abu Abdallah", "Mujahid Shaykh", "Hajj" ou "O Director".Nasceu em Riad em mil novecentos e cinqüenta e sete, décimo sétimo dos cinqüenta e dois filhos de um rico construtor civil da Arábia Saudita, Muhammad Bin Laden que teve quatro mulheres, sendo sua mãe a quarta.O pai de Osama era natural do Iêmen e sua mãe da Síria. Muhammad Bin Laden pai foi um "self made man", disciplinador e religioso, que cedo iniciou o seu negócio de construção e conseguiu estabelecer os contatos necessários com a real casa de Saud para obter as grandes empreitadas. A sua empresa construiu palácios para a família real e ganhou contratos tão importantes como a auto-estrada Medina -Jeddah e a manutenção das mesquitas de Meca e Medina. O pai também não descuidava dos contatos com os Estados Unidos da América e um dos irmãos de Osama chegou mesmo a ser sócio de uma empresa de exploração petrolífera fundada por George W. Bush, que viria a fracassar. A dada altura, a fortuna da família era avaliada em cinco milhões de dólares e a sua empresa de construção ainda é a maior da Arábia Saudita, tendo tido um faturamento de dez milhões de dólares em dois mil. A juventude de Osama foi vivida na abundância e na despreocupação. Quando o pai morreu no final dos anos sessenta, pilotando um avião, Osama herdou uma fortuna até hoje incalculável. Apesar de ter nascido numa família religiosa, na sua juventude Osama não era propriamente um exemplo. Nos seus tempos de estudante, 30
  31. 31. Patrícia Franconere era mais visto nos bares do que nas mesquitas. Há quem o descreva como bebedor e desordeiro outros o recordam apenas como um jovem discreto,vestido a oriental e sem barba. Aos dezenove anos, Osama inscreveu-se num curso de engenharia civil, em Jeddah. Mas, aos vinte e dois anos, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, a sua vida conheceu uma mudança radical. "Fiquei enraivecido", disse Osama Bin Laden, em mil novecentos e sessenta e seis, numa entrevista a um jornalista britânico. Aconselhado pelo chefe do serviço secreto saudita e ajudado pela fortuna da família, começou a treinar combatentes para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Quando Osama Bin Laden decidiu lançar- se na luta para expulsar os soviéticos do Afeganistão, em mil novecentos e setenta e nove, transferiu para este país os seus negócios e levou com ele os empregados e a maquinaria pesada das suas empresas de construção. Organizou um programa de recrutamento em todos os países muçulmanos, levado a cabo por uma organização que criou com a ajuda de Abdallah Azzam, líder da Irmandade Muçulmana palestiniana: a Maktab al-Khidamat (MAK – Services Office).A MAK abriu escritórios de recrutamento por todo o mundo, incluindo os EUA e Europa.Osama Bin Laden pagava o transporte dos recrutas para o Afeganistão, abriu campos de recrutamento, contratou monitores militares estrangeiros especialistas em guerrilha e sabotagem. Pensa-se que teria treinado aí dez a onze mil guerrilheiros, dos quais, metade, oriundos da Arábia Saudita, três mil argelinos, dois mil egípcios e os restantes de países como o 31
  32. 32. O Príncipe Iêmen, Paquistão e Sudão. A CIA apoiou os mudjahidin (havia sete facções importantes) que lutavam contra os soviéticos com cerca de quinhentos milhões de dólares por ano. Não há indicações de que Osama Bin Laden tenha sido diretamente apoiado pela CIA (o próprio nega-o), mas é indubitável que beneficiou de apoio americano. Os americanos forneceram generosamente os mudjahidin com armas sofisticadas (como o míssil terra-ar Stinger).Com a expulsão da União Soviética do Afeganistão, uma grande parte dos mudjahidin regressaram aos seus países exportando a ideologia islâmica fundamentalista e levando consigo a retórica da violência. Mas os campos de treino continuaram a operar e a fornecer guerrilheiros para os conflitos que os solicitavam: Somália Bósnia, Kosovo, Chechenia. Um especialista francês em islamismo afirma categoricamente que o maior trunfo da Al Qaeda é o fato de milhares de combatentes espalhados pelo mundo já não encararem a sua luta como nacional, mas sim global, o que os torna "imunes" a pressões políticas e militares normais. As ações de Bin Laden, diz o especialista “não são a continuação da política por outros meios". Bin Laden é diferente. "Ele não quer negociar". Após a vitória sobre os soviéticos, em mil novecentos e oitenta e nove, Bin Laden regressou à Arábia Saudita. Os seus apelos à Jihad contra os EUA e as suas críticas ao poder saudita levaram o Governo deste país a expulsá-lo em mil novecentos e noventa e um por "comportamento irresponsável" retirou-lhe a nacionalidade em Abril de mil novecentos e noventa e quatro. Osama Bin Laden dedica um ódio particular ao regime saudita, que acusa de se ter vendido à América, 32
  33. 33. Patrícia Franconere permitindo-lhe que ocupe militarmente os lugares sagrados da Península Arábica: é na Arábia Saudita que se encontra Meca e Medina, os lugares onde viveu o profeta Maomé. Acompanhado pela sua numerosa família e por inúmeros seguidores, Bin Laden partiu para Cartum, capital do Sudão, cujos dirigentes possuíam fortes laços. Uma vez aí, relançou a sua atividade como empresário de construção civil e instalou novos campos de treino para os mudjahidin desocupados.A rede de empresas de Osama Bin Laden no Sudão chegou a incluir setenta a oitenta companhias e organizações sem fins lucrativos, muitas das quais se pensa que tinham como único objetivo: servir de fachada a operações terroristas e fazer lavagem do dinheiro usado nessas operações.Entre essas empresas encontrava-se uma fábrica de curtumes, uma empresa de construção e estradas,empresas que comercializam maquinaria e produtos agrícolas,um banco, uma plantação de girassol, uma empresa de importação e exportação,um jornal diário, uma quinta no Nilo Azul onde levava os amigos para passear a cavalo, nadar e fazer piqueniques e empresa de investimentos. Desconhecem-se os laços que possa manter com estas empresas, ainda que se saiba que mantém interesses em imensos países e em numerosas empresas. O gestor dos negócios da OBL que se encontra preso nos Estados Unidos, descreveu a um tribunal de Nova Iorque as atividades empresariais de Osama altamente profissionais, ao nível de qualquer grupo moderno, com um "staff" considerável nas áreas de investimentos e usando as ferramentas de informáticas habituais em qualquer grande empresa. Segundo ele a Osama Bin Laden tinha grandes depósitos em grandes bancos espalhados por vários países. 33
  34. 34. O Príncipe O governo de Clinton tentou prender Osama Bin Laden no Sudão, com a intenção de enviá-lo para a Arábia Saudita, mas o governo saudita rejeitou a idéia por recear uma contestação por parte dos seus asseclas. Cedendo a pressões dos Estados Unidos com quem tentava reatar uma relação. O Governo sudanês acabou por pedir a Osama Bin Laden que partisse de Cartum. Em Maio de mil novecentos e noventa e seis o saudita apátrida regressou ao Afeganistão, onde o Talibã lhe abriu de novo as portas, dando início a uma relação de forte cooperação. A sete de agosto de mil novecentos e noventa e oito no oitavo aniversário da chegada das tropas americanas à Arábia Saudita, após a invasão do Kuwait, têm lugar os atentados contra as embaixadas dos EUA em Nairóbi (capital do Quênia) e Dar-es-Salam (capital da Tanzânia), matam duzentas e vinte e quatro pessoas. É a partir deste momento que os Estados Unidos começam a avaliar devidamente o risco que Bin Laden representa. A responsabilidade da rede Al-Qaeda é estabelecida pela polícia americana (nomeadamente através de escutas eletrônicas) e, a vinte de agosto de mi novecentos e noventa e oito os Estados Unidos bombardeiam seis campos de treino de terroristas no Afeganistão e uma fábrica de produtos farmacêuticos no Sudão, suspeita de produzir um componente de uma arma química (gás VX). Bin Laden foi localizado devido a um telefonema, mas não foi sequer ferido. Desde esse dia, deixou de usar telefones ou quaisquer outros dispositivos eletrônicos e a Al-Qaeda parece ter passado a confiar mais nas mensagens transportadas por mensageiros do que nos meios eletrônicos (telefone, internet), no entanto, também os usa. O ataque aos alvos afegãos saldou-se pela morte de cerca de duas dezenas de pessoas, mas a rede não foi 34
  35. 35. Patrícia Franconere afetada. As autoridades dos Estados Unidos viriam mais tarde a admitir que o bombardeamento da fábrica sudanesa foi um erro. Em mil novecentos e noventa e nove, a administração Clinton tenta de novo capturar Bin Laden treinando sessenta comandos paquistaneses que deverão ser lançados no Afeganistão. Mas a operação acabou por não se realizar devido ao golpe de Estado de Pervez Musharaf, que depôs o governo democrático paquistanês. Recentemente, Clinton veio admitir ter "autorizado à prisão e, se necessário, a morte de Osama Bin Laden", mas não ter sido bem sucedido por falta de informações. Apesar de a sua organização não possuir um "caderno reivindicativo", pois não está interessada em negociar, os objetivos de Bin Laden transparecem nos seus escritos: antes de mais, quer que os Estados Unidos saiam da Arábia Saudita, quer ainda que os Estados Unidos e todos os ocidentais saiam de todos os países muçulmanos, finalmente quer que estes adotem regimes fundamentalistas islâmicos que se rejam pela "Shariah", à imagem do Regime Talibã.O programa é, porém, antes de mais, um programa de ódio, que incita a espalhar o terror entre os infiéis e a matá-los sempre que for possível e seja onde for "um dever religioso”, segundo Osama Bin Laden. Osama Bin Laden, também é conhecido como "O Príncipe", "o Emir", "Abu Abdallah", "Mujahid Shaykh", "Hajj" ou "o Director", Sabe- se que muda com freqüência de residência, que vive em tendas ou grutas com pouco ou nenhum conforto. Os raros jornalistas que o entrevistaram descrevem um homem determinado, lacônico, frio, mas cortês, inteligente, mas não particularmente bem informado sobre o 35
  36. 36. O Príncipe que se passa no mundo, com uma imagem ascética cuidadosamente cultivada, rodeado de guerrilheiros que lhe dedicam uma fidelidade total e sempre ladeado pela sua metralhadora. Bin Laden nunca reivindicou um atentado. É "demasiado modesto" para isso, dizem os seus admiradores. Limita-se a felicitar os seus autores e a fornecer-lhes inspiração. Capítulo 7 Seis meses haviam se passado desde a chegada do terrorista em inocentes terras brasileiras. O líder da Al-Qaeda tinha diariamente aulas de português com a alegre dona Latifa e já conseguia pronunciar algumas palavras com um pouco de dificuldade. No começo, Osama pouco ficava na loja. Passava a maior parte do tempo refugiado em sua casa no andar de cima, hora rezando (sempre com o corpo curvado sobre os joelhos e em direção a Meca), hora planejando novos atentados com a ajuda de seus leais seguidores que vira e mexe apareciam por lá com suas vestimentas extravagantes (túnicas compridas e turbantes coloridos), um estilo de roupa que Osama adorava, mas sabia não poder mais usar caso não quisesse chamar a atenção. Havia adotado agora um novo estilo de se vestir apesar de continuar com sua marca registrada que era a simplicidade. No seu atual vestuário fazia parte calças sociais sempre num tom escuro (cinza, azul marinho e preto) e camisas de manga comprida (sempre 36
  37. 37. Patrícia Franconere em tons pastéis) que ele usualmente colocava para fora da calça. Com o tempo, e percebendo que não havia mais perigo de ser reconhecido o árabe começou a dar mais vezes o ar da graça dentro de sua loja.Ficava a maior parte do tempo sentado numa cadeira atrás de um dos balcões da loja apenas observando.Osama era um homem discreto, tímido e de poucas palavras (o contrario do que imaginamos ser um terrorista) apesar disto era inevitável o contato com os outros comerciantes da região.Seu Chalita era um desses turcos bem humorado dono de um armarinho que estava sempre por lá tentando fazer amizade com Osama. Por várias vezes convidou o líder da Al Qaeda a participar de algumas reuniões da associação dos lojistas da 25 de março, mas ele evitava sempre que possível enviando Fahad para representá-lo. Outros comerciantes de outras nacionalidades como os chineses, os coreanos e os judeus também marcavam presença constantemente em sua loja. Fahad já havia alertado a respeito da amizade que unia todos os povos de todas as raças e todos os credos no Brasil. No entanto, Osama resistia a algumas raças principalmente os judeus. Fugia deles como o diabo foge da cruz. Ele não suportava vê-los entrar em sua loja como se fossem pessoas comuns. Abominava aquela raça que se julgava superior, porém tinha que disfarçar o seu ódio repulsivo, caso contrário poderia colocar tudo a perder. Moshê era filho de Yoss e Éster um casal de judeus proprietários de uma fábrica de jóias que localizada nas imediações. O rapaz tinha apenas descêsseis anos de idade e sempre que possível dava um jeito de ir até a loja de Osama para desespero do terrorista. O rapaz nascera em Israel, mas morava nos Estados Unidos com a irmã mais velha Sarah e o cunhado Jacks. Vinha com freqüência ao 37
  38. 38. O Príncipe Brasil para visitar os pais que morava com Rubi seu irmão mais velho por isso seu português era impecável. O garoto apesar da pouca idade tinha quase um metro e oitenta de altura. Vestia-se esporadicamente com casaca preta e chapelão como os judeus ortodoxos mais por gostar do figurino do que propriamente pela religião, já que pertencia a uma família judia que mantinha costumes modernos. O rapaz possuía os cabelos curtos, com dois cachos compridos na lateral (peyot). Moshê tinha feito amizade com Renato e Olívia dois dos balconistas da loja, por isso estava sempre por perto para alegria das moças que ali trabalhavam. Moshê apesar de ser de uma família abastada, era um rapaz simples e desprovido de preconceitos; que gostava da companhia daqueles humildes funcionários. Por incrível que pareça, o rapaz quando via Osama se aproximava na tentativa de fazer amizade, mas o líder da Al Qaeda se mostrava indiferente. Sentado atrás do balcão, Osama observava o movimento da loja. Era um entra e sai o dia inteiro de clientes, fornecedores e curiosos. Seus funcionários tinham pouco tempo livre. Estavam sempre atarefados correndo de um lado para o outro, hora atendendo a clientela, hora repondo as mercadorias nas prateleiras. No começo Osama passava apenas alguns minutos na loja, agora ficava quase tempo integral se ausentando apenas nas horas das refeições, quando se comunicava com seu filho Abdullah Bin Laden através de um aparelho via satélite de última geração (um pequeno mimo que ele que ele podia se der), para saber notícias de seus outros filhos (sabe-se que são mais de dez entre homens e mulheres) e das esposas (cinco “Dulcinéias” sendo três delas ex viúvas, afinal de contas como todo bom muçulmano não se contentava em ter apenas uma mulher) ou 38
  39. 39. Patrícia Franconere quando precisava do apoio de algumas personalidades importantes da milícia do Talibã. Com a ajuda deles, Fahad e alguns outros membros da inteligência da Al-Qaeda que estavam morando aqui arquitetavam mais um violento atentado contra os Estados Unidos da América. O árabe parecia ter tomado gosto pelo comércio e pelo corre e corre do dia a dia. Afinal de contas, após anos e anos de reclusão essa era a primeira vez que ele se sentia livre. Osama continuava sentado. Por um instante levantou-se vagarosamente da cadeira e foi até o balcão caminhando a passos lentos com o auxílio de sua inseparável bengala. Dentro de uma das gavetas havia duas caixas de remédios distintos: uma continha remédio para a pressão arterial e outros remédios para os rins. Osama tirou um comprimido de cada caixa foi até o bebedouro e tomou os dois de uma só vez.O terrorista já não tinha mais vinte anos, e os problemas de saúde começavam a se manifestar.Depois de tomar os comprimidos, Osama voltou a se sentar.Guida conversava animadamente com Gilberto um rapaz alto que trabalhava no escritório.Osama enfurecia-se constantemente ao vê-la sempre metida dentro de trajes sensuais e conversando sempre com homens.Aquilo lhe provocava calores pelo corpo todo e ele imaginava ser de raiva.Ao ver a cena, Osama levantou-se da cadeira e caminhou lentamente com a ajuda de sua inseparável bengala até onde ela estava. — Precisa de alguma coisa senhor Amir? — perguntou Guida ao ver seu patrão do seu lado. Osama não respondeu, porém ficou olhando insistentemente para sua saia na altura dos joelhos. 39
  40. 40. O Príncipe — O senhor entendeu o que eu disse? — perguntou Guida na ponta dos pés na tentativa de chegar mais próximo possível do ouvido do patrão. — Sua saia está curta demais! — revelou o homem com um português enfadonho. — Como? — perguntou Guida não acreditando no que acabara de ouvir. — Sua saia deveria estar mais comprida. — disse Osama sem olhá-la nos olhos. Guida teve vontade de arrancar os cabelos do árabe, mas se conteve. — O senhor então acha que minha saia não está num comprimento apropriado? — perguntou Guida com ar arrogante. — Como? — perguntou Osama.Para que ele pudesse entender o português as pessoas tinham que falar bem devagar quase parando.Caso contrário ele não entendia patavina do que era dito. — Amanhã eu venho com outra. — disse a gerente em poucas palavras. — Satisfeito Osama afastou-se e voltou para o fundo da loja. — Você viu só que petulância? — perguntou Guida a Gilberto que tentava disfarçar o riso. — A minha saia está muito curta para os padrões dele...Que bonitinho...Ele ficou assustadinho com as minhas pernas... — debochou Guida. — Eu acho que ele ficou com ciúmes! — provocou Gilberto. — Ciúmes que nada!O que esse cara está pensando?Que aqui é o Afeganistão?Que vivemos sob o regime do Talibã?Eu não sou 40
  41. 41. Patrícia Franconere Muçulmana para andar vestida dos pés à cabeça!Só falta ele exigir que as mulheres daqui usem burgas! __ Coitado, acho que ele não falou por mal. — disse Gilberto com toda sinceridade. — Vocês homens são todos iguais.Estão sempre defendendo uns aos outros...Ele que me aguarde. Capítulo 8 Osama continuava no fundo da loja.Para seu desespero Moshê acabara de entrar acompanhado de uma mulher de cabelos castanhos.Ambos foram atendidos por Olívia uma das balconistas que os acompanhou até o segundo andar.Provavelmente iriam comprar alguma coisa.Pensou Osama.Dez minutos se passaram, quando Osama se deu conta Moshê estava indo a sua direção. — E ai seu Amir Abdul tudo bem? — perguntou Moshê com seu sorriso habitual escancarado nos lábios. — Tudo bem. — respondeu Osama sem tirar os olhos das notas fiscais que estavam em suas mãos. — A minha mãe veio comprar uns lençóis para nossa casa. Eu disse que o senhor vendia coisas lindas, por isso viemos até aqui. Osama não sabia o que o irritava mais, se era esse moleque tagarela o se era a franja implantada em sua cabeça que insistia em cair sobre a testa. 41
  42. 42. O Príncipe — Minha mãe disse que vai gastar muito dinheiro.Meu pai fica doido quando ela sai para fazer compras. Osama fingia não ouvir nada. — O Renato disse que os funcionários vão dar um churrasco no domingo à tarde nos fundos da loja é verdade? — Não estou sabendo de nada. — respondeu Osama. — Nem sei o que é esse tal de churrasco. — Então o senhor não sabe o que está perdendo. Eles assam a carne numa churrasqueira a carvão.No ano passado nas minhas férias de verão, eu estava aqui e eles me convidaram.É muito divertido.Tem bastante comida boa.A minha mãe é que não gosta muito que eu participe porque a comida dos brasileiros é diferente das nossas, mas como é só de vez em quando ela libera desde que eu não coma carne de porco é claro. — explicou o rapaz. — E sem falar que tem muito pagode e eu adoro! — Pagode?O que é isso? — perguntou Osama.Essa era a única vez em que ele parecia interessado em alguma coisa dita pelo jovem judeu. — Pagode é um estilo de música.É bastante alegre.Todo mundo canta e dança ao mesmo tempo. — revelou o rapaz entusiasmado. — Mas eu não estava sabendo disso. — Foi seu Fahad quem liberou.O cara é gente fina. Osama deu de ombros e continuou a fingir que examinava a nota fiscal. Nesse instante Moshê viu sua mãe descer as escadas rolantes com um monte de sacolas. — Mãe vem aqui um pouquinho! — gritou o rapaz. Dona Éster aproximou-se lentamente até onde o filho estava. 42
  43. 43. Patrícia Franconere — Mãe, esse aqui é o senhor Amir.O dono da loja. Dona Éster abriu um simpático sorriso e ofereceu a mão amistosamente para um aperto. Sem alternativa Osama cumprimentou-a. — Meus parabéns.A loja do senhor está um encanto! — elogiou a simpática mulher. — Sukran (obrigado). — respondeu Osama sem muito entusiasmo. — Meu filho não sai mais dessa loja.Espero que não esteja atrapalhando o trabalho dos funcionários. — disse Éster. Osama sentiu uma vontade enorme de dizer que o garoto atrapalhava o andamento do trabalho, sem dizer que ele abominava a presença de qualquer judeu dentro da sua loja, no entanto algo o fez refletir melhor e ele desistiu da queixa. — Não. Ele não nos importuna. — Ainda bem.Moshê estava estudando num excelente colégio nos Estados Unidos,porém encheu tanto a cabeça do pai para viver aqui no Brasil,que nós acabamos cedendo a pressão.No ano que vem ele estará morando de vez em terras brasileiras. “E eu com isso?” Pensou Osama enquanto o rapaz sorria satisfeito bem do seu lado com a maldita aba do chapéu quase dentro de sua boca. Moshê sentia uma simpatia incomum por Osama.Nem mesmo ele sabia porque, mas isso pouco importava, o rapaz sabia que mais cedo ou mais tarde iria fazer amizade com o muçulmano. Dona Éster despediu-se e caminhou para o outro lado da loja a procura de mais novidades, enquanto isso, Moshê continuava a 43
  44. 44. O Príncipe tagarelar como se tivesse perdido o freio da língua.(os dois se pareciam com os personagens Sid e Manfred do desenho “ A Era do Gelo”.Um simpático e tagarela e outro rabugento e contido). — O senhor já entrou numa sinagoga? — perguntou o jovem judeu. — Não. — respondeu Osama sem rodeios. — Por quê? — insistiu. — Porque minha religião é outra. — Eu tenho vontade de entrar numa mesquita.Mas ninguém me leva. — revelou Moshê como quem não quer nada. — Coitado do rapaz!Por que você não o leva para conhecer uma mesquita? — perguntou Fahad que acabara de chegar. Osama olhou o amigo como quem quisesse fulminá-lo e no seu português medíocre respondeu: — A mesquita não é lugar para judeus assim como a sinagoga não é lugar para muçulmanos. — Aqui no Brasil não tem nada disso.Não tem problema nenhum se eu quiser conhecer uma mesquita. — Deixa de ser ranzinza Amir! — leva qualquer dia o menino para visitar uma mesquita.Aquela da Avenida dos Estados fica bem pertinho.O garoto só quer conhecer. — Osama detestava ser pressionado.No entanto sabia que o amigo estava forçando a barra para que assim não pairasse nenhuma desconfiança sobre ele inconformado ele cedeu. — Está bem, qualquer dia eu o levo para conhecer ta bom?Agora me deixe trabalhar.Tenho muito que fazer.Vá ajudar a sua mãe com as sacolas. — disse Osama sem deixar de ser Cortez. 44
  45. 45. Patrícia Franconere Satisfeito Moshê deixou os dois amigos a sós e foi ajudar sua mãe com pesadas sacolas. — Que bonito! Você ainda fica incitando o rapaz. — reclamou Osama em voz baixa ao amigo Fahad. — Se o senhor quiser saber não gosto nenhum pouco desse judeuzinho.No entanto temos o dever de mantermos as aparências.É claro que o senhor nunca levará esse moleque para uma mesquita, mas não custa fingir.A propósito o pessoal já chegou para a reunião. — informou Fahad para seu líder. — E onde eles estão? — Lá em cima aguardando. — Todos vieram? — perguntou Osama. — Quase todos.O Senhor Hassein ainda não saiu do Paquistão. — Como não? — perguntou Osama entre sussurros. — Me parece que ele teve problema com o passaporte. — Sei...Sei... — Mas ele me pediu que o tranqüilizasse. Garantiu que estaria aqui no mais tardar na próxima semana. — Espero que sim.Não podemos perder tempo. Fahad e Osama saíram juntos da loja e silenciosamente subiram as escadas. Essa não era a primeira vez que os militantes da Al Qaeda se reunião na casa de Osama. Todos os funcionários já estavam habituados com aquele entra e sai de pessoas estranhas e esquisitas na casa do patrão.Muitos deles ainda usavam túnicas e os famosos turbantes sobre a cabeça.Alguns até se aventuravam dentro da loja, e eram normalmente simpáticos com os funcionários, apesar de não falarem nenhuma palavra em português.Enfim, nada ali 45
  46. 46. O Príncipe levantava suspeita quanto à verdadeira identidade de Amir Abdul.Ninguém poderia jamais imaginar que aquele homem calmo, modesto e tímido pudesse ser um dos mais procurados terroristas do mundo e que sua cabeça valia a bagatela de quase dez milhões de dólares.Com as portas fechadas Bin Laden e seus seguidores tramavam algo diabólico dentro de quatro paredes. Capítulo 9 Eram oito horas da manhã do dia seguinte.As portas da “Salat-ul- Juma” estavam sendo levantadas pelos funcionários e os clientes já se acotovelavam do lado de fora.Bin Laden acabara de descer e se posicionara ao lado de uma delas.O homem comia tranqüilamente um pedaço de pão sírio enquanto olhava para a movimentada rua.Todos os comerciantes da região já conheciam o simpático senhor Amir Abdul e o cumprimentavam sempre que o via.Bin Laden já não tinha mais a fisionomia tensa de antes.Com o passar do tempo seu sorriso fácil voltara a fazer parte do seu semblante.Caminhando tranqüilamente pela rua, vinha Guida.Osama quase se engasgou com o pão seco ao ver sua funcionária metida dentro de uma minúscula mini-saia.Apesar de quase engolir as belas coxas da mulher com os olhos o muçulmano não aprovava aquelas vestes. — Bom dia senhor Abdul! — cumprimentou Guida com um sorriso assim que se aproximou do patrão. — Bom dia. — respondeu Osama com a cara fechada. 46
  47. 47. Patrícia Franconere Guida percebeu a repentina mudança do semblante do patrão e deduziu que aquela mudança repentina fora provoca por sua saia.No entanto ela não estava nenhum pouco preocupada, afinal de contas o “ modelito” fora escolhido a dedo para provocar a ira de Osama.Guida não gostou nenhum pouco do comentário que ele fizera no dia anterior.Mini-saias não fazia parte do seu guarda-roupas, a saia que vestia era emprestada de sua irmã mais nova que tinha o mesmo corpo.As palavras de Osama ecoaram em sua cabeça a noite toda.Com essa atitude, Guida queria mostrar que não era uma mulher submissa como as das terras dele. A bela gerente entrou na loja e caminhou para o fundo sem perder tempo.Osama, no entanto girou a cabeça e com olhos arregalados seguiu cada movimento dos quadris da funcionária como se estivesse em transe.Por sorte todos os funcionários da loja estavam ocupados, caso contrário teriam visto o papel ridículo que o patrão estava fazendo secando a funcionária dos pés a cabeça.Mesmo sem olhar para trás Guida sabia que o Osama a examinava.Essa não seria a primeira vez.Ela certamente se divertia com isso.Apesar de ser uma mulher madura de mais de trinta anos, possuía um belo corpo malhado adquirido após anos de musculação. A loja começou a encher de clientela.Alguns se aproximavam de Osama pensando que ele era um dos vendedores.Gentilmente ele os encaminhava até algum vendedor.Mas mesmo assim,ele não tirava Guida da cabeça.O árabe estava há muito tempo sem mulher.(imagine só um homem que é casado com quatro “beldades” de repente se ver sem nenhuma) e isso o estava deixando louco.Vez ou outra, ele 47
  48. 48. O Príncipe pagava uma prostituta para lhe dar prazer, mas isso não o satisfazia.Estava acostumado e gostava de estar casado, ter mulher sempre a mão para satisfazer suas necessidades.Nesses meses aqui no Brasil foi apresentado a algumas muçulmanas, mas nenhuma lhe chamou a atenção.No entanto essa gerente lhe provocava constantemente com suas roupas sensuais e perfumes que lhe despertavam a libido. Com a cabeça ainda em “pandarecos” o terrorista subiu até o escritório da loja para falar com Guida.Sua intenção era repreende-la, mas o tiro acabou saindo pela culatra.Guida disse poucas e boas na frente de outros funcionários. — O senhor não pode me tratar como se estivesse com uma das mulheres de sua tribo.Eu não costumo usar saias curtas principalmente no meu local de trabalho, fiz isso justamente para mostrar ao senhor e a qualquer que seja que ninguém manda em mim.Que sou dona do meu próprio corpo e das minhas roupas.Se o senhor resolveu vir aqui para o Brasil, já deveria saber que nossos costumes são outros.Se queria ver mulheres cobertas dos pés a cabeça não deveria ter saído de onde veio.Daqui a pouco o senhor vai querer pregar na parede um memorando exigindo que as funcionárias usem burgas e os funcionários túnicas com aqueles turbantes ridículos. Os sentimentos do terrorista estavam envoltos num emaranhado de emoções. Por um lado, queria esbofetear aquela funcionária arrogante 48
  49. 49. Patrícia Franconere que estava bem a sua frente, ao mesmo tempo queria tê-la nua e submissa sob os lençóis de sua alcova. — Se o senhor quiser me demitir, fique a vontade.Sei que sou uma excelente profissional e emprego certamente não irá me faltar. — disse a funcionária com certa petulância. “Ela não imagina com quem está lidando” pensou Osama, enquanto Guida descarregava um arsenal de palavras duras. Não custaria nada a ele pedir que algum de seus seguidores desse cabo da vida daquela mulher por vingança. No entanto, ele nada fez para sua própria surpresa. Simplesmente sorriu em meio à artilharia pesada de palavras, deu de ombros e desceu as escadas como se nada tivesse acontecido. Será que estava nascendo naquele momento um novo Osama Bin Laden?Um homem capaz de perdoar?De engolir a seco uma desfeita sem nenhuma retaliação?Um homem capaz de aceitar desaforos de uma mulher sem dizer uma palavra?Isso só o tempo poderá dizer. Capítulo 10 Os dias se passaram sem que nenhum acontecimento novo alterasse a vida do inimigo número um dos Estados Unidos.Há muitos anos ele não se sentia tão bem.Aqui no Brasil o terrorista se sentia livre como um pássaro.O medo e a angústia de ser reconhecido ficara para trás. 49
  50. 50. O Príncipe Passavam das onze horas da manhã de domingo. Osama sentado em sua escrivaninha diante de seu comunicador via satélite conversava a mais de duas horas como de costume com seu filho Abdullah em “pashtu” (um dialeto conhecido por poucos).Os assuntos eram dos mais variados possíveis.Ia desde informações básicas sobre a família até as mais maquiavélicas conspirações de ataques terroristas.Um barulho e uma movimentação estranha do lado de fora chamou a atenção do terrorista.Em segundos ele se despediu do filho e foi até a janela dos fundos ver o que estava acontecendo.Os funcionários da loja estavam se movimentando freneticamente do lado de fora e cada um cumpria uma tarefa.Dois dos empregados da loja carregavam uma pesada mesa de madeira enquanto as mulheres vinham com as cadeiras.Depois de postas nos seus devidos lugares,as mulheres começaram a fazer a arrumação com a toalha os pratos e os talheres.Na outra extremidade do pátio onde estava localizada a churrasqueira outros dois funcionários se incumbiam de assar a carne.Uma música alegre começou a tocar.Vinha de um aparelho de som portátil que estava ao lado da churrasqueira e quem estava colocando o cd era a bela Guida.Dessa vez a mulher usava um vestido com estampa floral na altura dos joelhos e um rabo de cavalo do topo da cabeça.Osama admirava a alegria daquelas pessoas.A maioria gente humilde que vivia apenas com o pouco que ganhavam na loja, no entanto sabiam como ninguém como curtir a vida. O cheiro do churrasco começava a entrar pela janela.Osama sentiu vontade de ir até lá, mas sua timidez não permitiu.Com fome ele foi até a pequena cozinha e lá apanhou uma travessa dentro da geladeira que continha uma rala e envergonhada sopa de lentilha.Sem 50
  51. 51. Patrícia Franconere opção ele a colocou no microondas para aquecer.Enquanto a sopa aquecia, a companhia tocou.Osama limpou rapidamente as mãos em um pano de prato, abriu a suntuosa porta Pentágono e desceu as escadas para ver quem era.Assim que abriu a porta de baixo se deparou com a figura desajeitada de Moshê e Olívia sua funcionária. — Bom dia seu Abdul. — disse o rapaz sorridente. — Bom dia Moshê. — respondeu o velho Osama desconfiado. — Vai...Fala... — disse a tímida Olívia enquanto cutucava o rapaz. — O pessoal da loja está convidando o senhor para o churrasco. — disse Moshê eufórico. Osama ficou por um tempo ali parado sem resposta. — E então seu Abdul vamos lá.Tem coisa pra caramba pra gente comer. — disse o judeuzinho usando e abusando das gírias que aprendeu. — Eu já estava esquentando o meu almoço. — disse o solitário do Islã. — Deixa o almoço para janta.O pessoal da loja quer muito que o senhor vá e eu também. — explicou o menino. Apesar de querer muito participar, Osama tinha receio de se envolver demais com aquelas pessoas. O alarme do microondas começou a tocar. — Vá lá desligar seu Abdul. Vamos comer um churrasco lá com o pessoal. Bin Laden não teve alternativa senão concordar com o rapaz. Está bem.Vou subir para trocar de roupa e volto já. Quando Osama começou a subir as escadas Moshê perguntou sem o menor constrangimento: 51
  52. 52. O Príncipe — Posso subir com o senhor? Osama parou no quinto andar da escada, deu um suspiro profundo e balançou a cabeça afirmativamente. — Vamos lá Olívia! — disse o rapaz afoito. — Eu não vou não.Sobe você que eu vou lá para festa. A jovem era tímida demais.Mal conseguia encarar o patrão quanto mais subir até a casa dele. Moshê segui Osama em silencio até chegarem lá em cima. Assim que entraram Osama disse. — Espere aqui que eu vou trocar de roupa no banheiro e já volto.Não toque em nada até eu voltar. — alertou Bin Laden. — Fique a vontade.Eu espero. — respondeu Moshê. Enquanto Osama se trocava no banheiro Moshê percorria com os olhos todos os cantos do loft. A companhia do microondas tocou novamente.Dessa vez o rapaz foi até a cozinha e abriu a porta do microondas.A sopa havia fervido e transbordado da travessa.O menino mais que depressa retirou o recipiente do forno e com o auxílio de uma buchinha e detergente começou a limpar o forno.Osama que já tinha saído do banheiro assistia aquela cena em silêncio.Aquele judeuzinho era na realidade um bom rapaz.Concluiu Osama mesmo contra a vontade. “Só poderia ter sido criado dentro de uma boa família”.Pensou.Por um momento censurou-se por ter tido um pensamento tão altruísta, mas deixou o pensamento de lado e voltou novamente a sua atenção ao garoto. — O que você está fazendo menino? — Perguntou Osama enquanto se aproximava do rapaz. 52
  53. 53. Patrícia Franconere — Estou limpando o microondas.A sopa do senhor transbordou e sujou todo o forno por dentro. — Deixa isso para lá.Isso é serviço da empregada não seu. — Eu sei.Mas estou acostumado.Minha mãe disse que as pessoas tem que ajudar sempre que preciso e é o que estou fazendo. Osama ficou olhando para o rapaz e reparou que ele não estava usando as roupas pretas habituais.Usava calça jeans e camisa social.Não fosse pelo Kipá e os cachos ninguém saberia se tratar de um judeu. — Cadê suas roupas pretas de urubu?Estão lavando? — perguntou Osama em tom de ironia. — Não. — disse o Moshê sorridente. — A minha mãe me deixa usar roupas comuns.Nós somos judeus, mas não seguimos a risca as tradições da nossa religião.Para falar a verdade eu uso os cachos e as roupas pretas porque gosto.Acho bonito e não por imposição de meus pais.É claro que uma coisa ou outra a gente segue, no entanto meus pais sabem que é difícil seguir ao pé da letra todos os ensinamentos do Torah principalmente aqui no Brasil onde tudo vira pizza. — disse o rapaz rindo de si mesmo. Osama também não conseguiu conter o riso com o comentário inocente do rapaz. Apesar de ser praticamente um inimigo, Osama achava Moshê às vezes muito divertido. — Bom eu já estou pronto.Vamos descer? — perguntou Osama. — Será que eu poderia usar o banheiro do senhor?Estou meio apertado. — informou o menino. — Claro. — disse Osama meio contrariado. Moshê ia a direção ao banheiro, mas algo chamou sua atenção. 53
  54. 54. O Príncipe — O que é aquilo? — perguntou Moshê apontando para o comunicador. — É um comunicador via satélite. — explicou Osama.O rapaz o havia pego de surpresa e ele não teve tempo de pensar em outra desculpa. — Caraca meu, que legal! — disse o menino entusiasmado. — E com quem é que o senhor se comunica? — Com alguns amigos que deixei na Arábia. — respondeu Osama desses vês com a expressão sombria. — O senhor tem parentes por lá também? — perguntou o rapaz xereta. — Não.Sou sozinho.Isso é mais uma distração do que qualquer outra coisa.Eu usava mais quando morava lá, agora ele pouco tem serventia. — revelou Osama para disfarçar. Moshê ao invés de entrar logo no banheiro foi até onde estava o comunicador. — Esse aparelho é irado!O senhor me deixa ver como é que se usa? — perguntou o menino mal sabendo que estava provocando taquicardia no árabe. — Um outro dia quem sabe.Ele está com problemas.Quando eu mandar consertar eu te chamo. — Mas eu posso pelo menos... — Você não me disse que precisava ir ao banheiro?Então vá logo, caso contrário perderemos a festa com tanta demora. — disse Osama na tentativa de tirar o judeu o mais breve possível dali. Sem ter mais argumentos, Moshê usou o banheiro.Na saída até queria fazer mais uma ou duas perguntas a Osama, mas este sem 54
  55. 55. Patrícia Franconere perder tempo já o esperava do lado de fora da porta.Assim que o rapaz saiu ele fechou a porta e inseriu o cartão para que ninguém mais pudesse entrar. Capítulo 11 O churrasco estava bastante animado. Enquanto a carne assava algumas pessoas ali presentes jogavam conversa fora enquanto outras dançavam alegremente ao ritmo de axé.Osama chegara bem de mansinho sem fazer estardalhaço.Após ser recepcionado com entusiasmo pelos seus empregados ele se acomodou em uma cadeira próximo a mesa que a essa altura já estava repleta de iguarias árabes como o tabule,kibe cru,charuto de folha de uva,pão sírio,e deliciosos molhos a base de iogurte(feitos especialmente para agradá-lo), fora as saladas de folhas verdes e a brasileiríssima e insubstituível salada de maionese. Moshê foi até uma cooler que estava abarrotada de refrigerantes e cerveja, apanhou uma lata de coca-cola bem gelada e ofereceu a Osama. — Obrigado, mas eu não quero. — respondeu Osama. — O senhor quer uma cerveja? — também não obrigado. Sem mais nem menos, Osama levantou-se da cadeira e sem dizer uma palavra subiu para sua casa.Moshê ficou ali parado sem entender nada assim como as pessoas que estavam presentes.Todos acharam aquela atitude uma falta de consideração.Se não estava gostando da 55
  56. 56. O Príncipe festa poderia ao menos ficar mais um pouco para disfarçar.Esse foi o comentário.No entanto, todos se calaram quando o patrão desceu carregando uma pesada caixa de papelão.Ao ver que seu amigo carregava com uma certa dificuldade a caixa, Moshê mais que depressa foi ao encontro de Osama para ajudá-lo. — Eu tinha essa caixa de vinhos sobrando lá encima.Espero que vocês gostem da bebida. — Puxa seu Abdul, não precisava se preocupar! — disse Gilberto assim que Osama com a ajuda de Moshê depositaram a pesada caixa na mesa.A caixa continha doze garrafas do delicioso e caríssimo vinho tinto chileno Cabernet Sauvignon “Vinä Los Vascos”. Claro que aquelas pessoas humildes nunca tiveram a oportunidade de tomar um vinho como aquele.A maioria com certeza estava acostumada a vinho de garrafão, porém não eram burros e sabiam se tratar de um vinho muito caro. — O meu pai já comprou desse vinho! — disse Moshê. — Mas ele gosta mais do “Jacobs Creek Shiraz.” — Eu conheço.É um vinho australiano.Muito bom por sinal. — disse Osama enquanto abria o vinho. Essa era mais uma das facetas de Osama Bin Laden. Quem poderia supor que a generosidade fazia parte do caráter desse homem.Odiado nos quatro cantos do planeta.Ele poderia muito bem subir e tomar seu vinho sossegado e tranqüilo em sua casa, no entanto quis compartilhar desse prazer com seus funcionários. A carne já estava sendo servida. Osama sentado à mesa experimentava de tudo. Não se lembrava de quando teve a oportunidade de comer tão bem assim. Ele se deliciava com a 56
  57. 57. Patrícia Franconere maionese. Essa era a primeira vez em sua vida que ele experimentara um pedaço de picanha. Saboreava com prazer à gordura bem passada da carne que desmanchava lentamente em sua boca.Moshê como não poderia deixar de ser estava sentado bem ao seu lado e se empanturrava cada vez mais de comida.A Sobremesa ficou por conta do judeuzinho.Com a grana dos pais ele passou numa delicatessem e comprou uma torta Holandesa, e um magnífico bolo “ Floresta Negra”para delírio de todos.O churrasco estava durando mais que o previsto.Estava tão animado que as pessoas não queriam sair dali.Osama meio alto(embriagado) não despregava os olhos de Guida que a essas alturas dançava leve e fagueira em companhia de Olívia e Gilberto.Sem o menor constrangimento, a bela funcionária caminhou até o patrão e o convidou para dançar. — Seu Abdul venha dançar um pouquinho! — convidou Guida sem se dar conta que Osama se sentia atração por ela. — Não minha filha. Eu não sei dançar essas coisas. — Mas é fácil.Eu ensino o senhor. — Osama tentou desconversar, mas a moça o puxou pelo braço não lhe restando nenhuma alternativa. O diabo do homem não se parecia com nada. Permanecia estático enquanto ela rebolava bem a sua frente. Ah se ele pudesse abraçá-la e beijá-la...Ter posse daquele corpo sensual e da boca vermelha...Nenhuma de suas esposas tinha a graça e a docilidade de Guida.Se ele pudesse cobriria a funcionária com a mais escura e pesada burga que já existiu na face da terra só para que nenhum homem pudesse pôr os olhos naquela maravilha.Pensamentos pecaminosos passavam a todo instante por sua Um cabeça. samba 57
  58. 58. O Príncipe lento começou a tocar e sem cerimônia nenhuma Guida juntou seu corpo esguio nos dele, colocou os braços no patrão em sua cintura e começou a dançar deixando o árabe maluco de desejo.O terrorista queria possuí-la de qualquer maneira, afinal de contas o próximo mês seria do Ramadan que é um feriado não fixo que se movimenta a cada ano e se localiza no nono mês do calendário muçulmano. Acredita-se que no mês do Ramadan o Alcorão sagrado foi enviado do céu como uma orientação aos homens e como um meio de sua salvação. É durante este mês que os muçulmanos jejuam. Este mês é chamado de Jejum do Ramadan e dura um mês inteiro. O Ramadan é um período quando os muçulmanos se concentram na sua fé e gastam menos tempo nas suas preocupações cotidianas. É um período de adoração e contemplação. ·Durante o jejum do Ramadan várias restrições rígidas são feitas nas vidas diárias dos muçulmanos. Não é permitido comer ou beber durante as horas que se tem luz do dia. Fumar e manter relações sexuais também são proibidos durante o jejum. Ao término de cada dia o jejum é finalizado com uma oração e uma refeição chamada “iftar”. Na noite que segue ao iftar é habitual que os muçulmanos saiam com a família para visitar amigos e familiares. O jejum é retomado na manhã seguinte.O velho Bin Laden, nunca fora lá muito religioso.No entanto costumava respeitar o Ramadan.Nesse período o homem rezava cinco vezes ao dia voltado para Meca como se isso fosse redimi-lo de seus pecados. Osama estava com a cabeça tão repleta de pensamentos impuros que nem percebeu que a música tinha acabado. Guida se afastou para pegar mais um copo de vinho. A bela mulher estava muito alegre por conta da bebida, mas sabia exatamente o que estava fazendo. Apesar 58
  59. 59. Patrícia Franconere de achar o patrão uma pessoa um tanto deferente, ela percebeu que estava sentindo algo mais por ele. Aquela atitude de se juntar aos funcionários sem nenhum tipo de preconceito foi de uma grandeza imensurável.Guida sempre gostou de homens tímidos e de poucas falas assim como ele.Sempre ouviu dizer que as águas calmas eram sempre as mais profundas, e pelo andar da carruagem ela estava decidida a tirar a prova. Capítulo 12 Passava das oito horas da noite.A festa havia acabado.A maioria dos funcionários já tinham ido para casa.Alguém buzinava com insistência na rua. — É meu pai! — disse Moshê. — Preciso ir embora. — disse o rapaz visivelmente cansado.___Amanhã eu volto para os Estados Unidos. — disse o menino a todos ali presente. — Quando você vai voltar? — perguntou Olívia com tristeza no olhar. — Volto para o natal. — respondeu o judeu. — Mas o seu natal não é como o nosso não é? — perguntou Guida ainda com um copo de vinho na mão. — Não.Mas meus pais gostam de comemorar mesmo assim.Eles dizem que se estamos nessa maravilhosa terra,temos que nos acostumarmos também aos seus costumes.Eu particularmente adoro natal com árvores e presépios. 59
  60. 60. O Príncipe — A gente vai ficar com saudade... — disse Renato. — Olívia já estava aos prantos. Moshê deu um beijo no rosto da menina. — Não se preocupe.Faltam menos de três meses.E dessa vez se Deus quiser volto em definitivo. Bin Laden sentado numa cadeira assistia ao dramalhão sem se pronunciar.Moshê se despediu de todos deixando por último aquele que imaginava ser seu maior amigo.Ninguém mais que Bin Laden. — Eu vou sentir muitas saudades do senhor! — disse Moshê com o coração partido. Osama sorriu para o menino.Apesar de não querer aceitar estava se acostumando com a presença constante daquele rapaz tagarela. Ambos se abraçaram e Moshê saiu logo em seguida para que as pessoas não vissem as lágrimas correrem de seus olhos azuis.Após o lesco-lesco do menino, Osama voltou sua atenção novamente aos contornos graciosos de Guida. — Sobrou várias garrafas de vinho!O senhor quer que eu o ajude a leva-las lá para cima? — perguntou Gilberto. — Não.Podem ficar com elas. — disse Osama para a alegria dos poucos funcionários que ainda restavam.___Eu tenho mais em casa. — concluiu.Agora vou me recolher para uma oração e depois dormir.E seria bom que vocês também fossem embora.Já está ficando tarde e amanhã cedo vocês pegam no batente. Com essas palavras, Osama se despediu, sem antes é claro dar mais uma olhada insistente para Guida e subiu logo em seguida. Osama acabara de tomar banho.Estava vestindo um pijama cumprido de malha.Não havia mais barulho do lado de fora,certamente 60
  61. 61. Patrícia Franconere todos já haviam ido embora.O terrorista então apagou as luzes e ia iniciar as orações na posição de “ Sujud” ( Posição de oração em que testa, nariz, mãos, joelhos e dedos do pé devem tocar o chão)quando a companhia tocou.O homem colocou o roupão e desceu as escadas rapidamente soltando verdadeiros impropérios em árabe mas calou- se assim que abriu a porta. — Sobrou um monte de comida.Como eu percebi que o senhor gostou das iguarias resolvi trazer-lhe um pouco. — disse Guida com um sorriso encantador. “Alá como sempre está do meu lado!” pensou Osama ao ver tão linda mulher na porta de sua casa. — Obrigado. Não precisava se incomodar! — disse o temível árabe. — Se o senhor quiser eu posso ajeitar a comida na sua geladeira. — disse Guida. Como Osama poderia recusar tal proposta?Era tudo o que ele mais queria naquele momento.Essa era a oportunidade que ele estava esperando.Sem mais delongas ele a convidou a subir e assim ela o acompanhou até a toca do lobo,afinal ela não era nenhuma menina ingênua e sabia muito bem o que estava fazendo.O álcool não lhe tirara as faculdades mentais,apenas a encorajava a fazer o que queria a tempos mas não tinha coragem de assumir. Capítulo 13 61
  62. 62. O Príncipe Guida acabara de descer as escadas.Estava com os cabelos ainda molhado.Tinha acabado de tomar banho e estava com as chaves para abrir as pesadas portas de ferro da” Salat ul Juma” . — Por que demorou tanto Guida? — perguntou Gilberto com uma pontinha de sarcasmo. — Não enche Gilberto. — respondeu Guida sabendo o que o amigo estava querendo insinuar. — Vai, abre logo essa porcaria antes que seu patrão desça para lhe “comer o rabo!”Vociferou Guida. Gilberto apanhou as chaves das mãos de Guida e com a ajuda dela e de Renato levantou as portas da loja enquanto os outros funcionários organizavam as mercadorias. — Cadê o Sheik?Ele não vai trabalhar não?Acho que você o está cansando demais.Antes ele era o primeiro a estar na loja.Agora é sempre um dos últimos.O que você anda fazendo com ele?Cuidado que ele não tem mais idade para certas coisas.O homem pode enfartar qualquer hora dessas! Guida deu um beliscão no braço de Gilberto que o fez urrar de dor. — Puta que o pariu! — esbravejou o homem enquanto passava a mão no braço para aliviar a dor. — Isso é para você aprender a me respeitar! — disse Guida fingindo estar zangada. — Só porque virou mulher do cara está se achando! Guida sabia que as provocações do amigo não passavam de brincadeira.Afinal todos ali a estavam escarnando desde que ela se mudou de mala e cuia para a casa de Osama.Isso aconteceu poucos dias após o churrasco a mais ou menos três meses. 62
  63. 63. Patrícia Franconere — Por mais que eu tente, não consigo entender o que você viu naquele cara. — disse Gilberto inconformado. — Mas você não tem que entender nada.Eu gosto dele e ponto. — disse Guida com um olhar alegre. — Por causa do dinheiro não é. — concluiu o amigo. — Você teve outros caras mais bonitos e ricos aos seus pés e nunca te vi dando bolas a nenhum deles. — continuou. Guida agora arrumava os tapetes da pilha. — O cara não tem atrativo nenhum, é um perfeito matuto. Guida ouvia calada a manifestação do colega. — Também não sei como é que você o entende.O português dele é o pior que eu já vi.Ta certo que você já não é mais nenhuma adolescente, mas dava para arranjar coisa melhor.Daqui mesmo do Brasil.Você não precisava se envolver justamente com um cara vindo das arábias.Ainda se fosse um gênio da lâmpada mágica ou um príncipe vá lá, mas está mais para terrorista do que qualquer outra coisa! Gilberto dizia essas besteiras apenas para provocar a ira da amiga, no entanto ele sequer imaginava ter esbarrado na verdade. — Que culpa tenho eu se os homens daqui não tem as qualidades dele.Eu gosto da simplicidade dele, nunca gostei de homens arrogantes que se acham o dono do mundo.O Amir é um homem que está sempre de bem com a vida, sempre sorridente e muito gentil não só comigo como com todos que o cercam. Gilberto perdeu o ar de deboche e começou a falar sério com Guida. 63
  64. 64. O Príncipe — Ele ainda não tentou te converter para a religião dele? — perguntou o amigo curioso. Gilberto era um desses rapazes boa pinta que tinha uma legião de fãs por todos os lugares. Alto, magro estava sempre enfiado dentro de calças jeans desbotadas com camisa social. O rapaz tinha a pele clara e o cabelo castanho escuro rente à cabeça. Como um bom conquistador já tentou por várias vezes ter um relacionamento com Guida, no entanto ela sempre soube se esquivar de suas investidas amorosas visto que ele era alguns anos mais novo do que ela e a bela moça não estava disposta a criar nenhum garoto bobão. Talvez por isso o cara não consiga se conformar com a opção de ficar com o estrangeiro velhaco. ___Já tentou. Mas deixei bem claro que minha religião é a católica e não estava disposta a mudar. Quer dizer, sou católica, mas não freqüento igrejas.Rezo todas as noites antes de dormir.Mas nada de mais.Jamais me tornaria uma mulçumana para freqüentar mesquitas, ainda mais sabendo que os homens rezam separados das mulheres.Acho isso tudo ridículo. — Você já falou isso tudo para ele? — Claro. — E aí?Ele não achou ruim? — Pelo contrário, ele achou muita graça.Ele mesmo não é de freqüentar mesquitas.Foi poucas vezes nas daqui.O que ele faz muito é se reunir com seus amigos para rezar em casa.Nesses dias tenho sair para que eles possam ficar sozinhos.Como nas mesquitas mulher não poder ficar com homens durante a reza. — E você não reclama? 64
  65. 65. Patrícia Franconere — Nenhum pouco.Se esse é o costume deles não serei eu quem irá mudar. — É por isso que sempre aparecem aqueles homens esquisitões à tarde? — Perguntou Gilberto. — Não.Eles costumam se reunir à noite para rezar.Dizem que tudo fica mais tranqüilo. — E aí como é que você faz?Você não tem pais, nem irmãos.Onde é que você fica? — Costumo ir à casa da minha amiga Rita que mora na Mooca. — Não é aquela que morava com você antes de você se juntar com o Amir Abdul? — Não fala se juntar que é feio! — pediu Guida. — Mas vocês não se casaram no papel! — explicou Gilberto. — Não importa!Se estou vivendo maritalmente com ele é como se estivéssemos casados. — explicou Guida. — Mas porque é que vocês não se casaram mesmo? — Sei lá...Aconteceu tudo tão rápido...Nem eu nem ele tivemos tempo para pensar nessas coisas. — Mas ele sendo um religioso deveria ser o primeiro a fazer tudo como manda o figurino você não acha? — Como eu já disse ele é religioso, mas nem tanto assim.Haja visto que sua religião não permite álcool,no entanto ele não fica sem uma boa garrafa de vinho. — disse Guida com um sorriso divertido nos lábios. — Sei...Sei... 65
  66. 66. O Príncipe Gilberto estava com cara de quem estava desconfiado de alguma coisa.Ele enrolou...Enrolou e acabou despejando o que lhe incomodava. — Você sabe que esses mulçumanos, lá no país deles, se quiserem podem se casar com mais de uma mulher não sabe? — perguntou Gilberto ávido pela resposta. — Claro que sei. — respondeu Guida prevendo o que vinha pela frente. — E eles podem ter tantas quantas puderem sustentar não é assim? — É isso mesmo. — afirmou a mulher. — Sendo assim, quem garante que o “seu” Amir não é casado, não só uma como várias vezes com várias mulheres?Grana para isso pelo visto ele tem. — Guida caiu na gargalhada. — Imagina!Tímido do jeito que ele é?Fui eu quem teve que seduzi-lo, caso contrário ele estaria por aí sozinho. O Amir não é assim como você está pensando. E mesmo se ele tivesse tido outras esposas certamente me contaria. Mas não acredito nisso. Ele jamais deixaria uma mulher desamparada, quem dirá várias. — Toma cuidado que você está colocando muito a mão no fogo por ele e você pode acabar se queimando. Guida não era uma mulher burra.Formada em administração de empresas pela USP, foi uma das mais brilhantes alunas do curso.Culta era sempre vista com um livro de literatura nas mãos.Entre seus autores preferidos estavam Dostoievski e Gustave Flaubert.Nunca acreditou na sinceridade dos homens.Manteve-se 66
  67. 67. Patrícia Franconere sempre com um pé atrás quando o assunto era relacionamento, no entanto agora, parecia estar cega e surda.Osama parecia ser uma pessoa incapaz de fazer mal a alguém.Ele era tão simples,tão humilde que a mulher não tinha por onde, muito menos porque desconfiar.Com sua fala mansa ele a envolvia cada vez mais e a cada dia ela estava mais apaixonada.E realmente ele era um homem excepcional com as pessoas que o rodeavam. — Coloco mesmo!O Amir não é como os homens daqui.Ele é fiel e sincero. — Toma cuidado porque qualquer dia desses poderá aparecer por aqui algum barrigudinho ranhento procura do pai. — disse Gilberto entre risos. — Só se for filho seu! — respondeu Guida enquanto lançava um olhar de reprovação as provocações do amigo. A clientela começou a entrar na loja e isso atrapalhou a conversa dos amigos. Cada um foi para seu lado e assim o dia seguiu. Capítulo 14 — Aquele judeuzinho disse que estaria aqui no começo do ano, mas até agora não deu as caras. — disse Osama em árabe ao amigo Fahad enquanto olhava pela ampla janela de sua casa a movimentação da guarda metropolitana na rua.Havia mais de cem homens trajando fardas azuis e empunhando cassetetes na tentativa de intimidar os ambulantes ilegais que ali se concentravam.Essa era 67
  68. 68. O Príncipe uma rotina vivida na região.Em dias tumultuados como esse às portas da maioria das lojas permaneciam abaixadas.Os comerciantes temendo um confronto violento preferiam não lucrar com as vendas a terem seu estabelecimento apedrejado ou até mesmo saqueado por algum meliante de plantão. — Não vá me dizer que o senhor está sentindo falta daquele branquelo azedo? — perguntou Fahad aturdido com o comentário de seu líder. — É claro que não.Nunca vi rapaz tão chato quanto aquele.Grudou feito chiclete no meu calcanhar.Estou apenas comentando porque ele ainda não apareceu.Mas graças a Alá ele está a milhares de quilômetros de distancia. — Que susto o senhor me deu.Pensei que tivesse se afeiçoado aquele moleque e se esquecido que ele não passa de um judeu.Sendo assim nosso inimigo. — Não precisa se preocupar Fahad; eu não me esqueci desse detalhe.Como você mesmo me disse, tenho que ser o mais natural possível para não levantar suspeitas. — disse Osama tentando acreditar em suas próprias palavras. — Por um momento notei que o senhor falava dele com uma certa emoção.Devo ter entendido errado.Espero que esses meses de convivência com os brasileiros não o tenha deixado tão sensível quanto eles.Caso contrário nosso plano irá por água abaixo. — Fique despreocupado Fahad. Nada nem ninguém farão com que eu desista de meus planos. — Digo isso porque me preocupo com o senhor e com o destino da nossa organização. 68
  69. 69. Patrícia Franconere — Você me conhece como ninguém. Sabe que jamais desistiria do meu objetivo que é o de expulsar todos os norte-americanos do mundo muçulmano. — Eu sei disso, mas é que o senhor acabou se envolvendo também com essa mulher brasileira.Isso não estava nos nossos planos. — Isso não tem nada haver. Não é a primeira vez que me relaciono com uma mulher fora do casamento. — Mas é a primeira vez que o senhor se relaciona com uma mulher que não tem a mesma origem que o senhor. Não se esqueça que ela sequer imagina a sua verdadeira identidade. Suas outras quatro esposas se casaram sabendo quem de fato o senhor é. Elas compartilham do mesmo ideal.Não são como a Guida.Ela sequer suspeita das suas verdadeiras intenções.Foi criada nos princípios da religião católica como a maioria dos brasileiros.Será que ela entenderia os motivos pelo qual nossa organização Justifica a matança de inocentes à luz dos ensinamentos islâmicos? — Não sei. — respondeu Osama com os olhos ainda fixos na movimentação da rua. — Acho que não. — respondeu. — No entanto se um inimigo ocupa um território muçulmano e usa seus civis como escudos humanos é consentido atacar o inimigo.Os americanos e seus aliados promoveram massacres na Palestina na Chechenia, na Caxemira e não satisfeitos invadiram o Iraque.E com qual direito? Sendo assim é claro que nós muçulmanos temos o direito e o dever de atacá-los também. Se matamos civis; paciência essa não é a nossa intenção.No entanto é inevitável que isso aconteça. 69

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