O DESVENTRAR DO SER SOCIAL
2
© 2015 p.a.marangoni
Marangoni, P.A. 1949-
Capa sobre tela “Lição de anatomia do Dr. van der Meer” de van
Mierevelt, 1617....
O DESVENTRAR DO SER SOCIAL
Da Miséria, da Loucura e do Real
coletânea de p.a.marangoni
Maria da Silva – A conspiração de S...
APRESENTAÇÃO
Longe da exagerada ficção, as vidas de Maria, J.C. e
Arthur estão, diria eu, aquém do cruel e indiferente rea...
cujo cerne desconhece ou finge não conhecer.
Diariamente Marias morrem de inanição e doenças não
tratadas, numa breve e tr...
mais que era formado o Todo, peças intercambiáveis
construindo ao acaso. E o acaso dotara Arthur de uma
qualidade duvidosa...
Sumário
APRESENTAÇÃO...................................................................................7
MARIA DA SILVA......
MARIA DA SILVA
Apenas um retrato do cotidiano
Não se pode afirmar ser “Maria da Silva” um trabalho de
ficção pois é um ret...
Não é um despertar, não se desperta para um pesadelo.
Enrolada num novelo sobre o velho colchão mofado,
velada pelos olhos...
Mas acorda. Uma velha quase adolescente, pele e ossos
e uma presumível idade entre 18 e 20 anos. Cabelo
castanho escuro, f...
amassadas por pedradas compõe o teto. Olha-o quase
todo sem mexer a cabeça. Os vãos, os buracos, tapados
com pedaços de pl...
é isso, vinte anos, aquele homem do bar disse: ela deve
ter uns vinte anos...
Acabou-se. Terminou o curto sono.
Vamos lá, ...
dia. Mas o soco no estômago que a fome desfere é
brutal, os vermes se agitam e exigem a diária ração.
Fecha de vez o sembl...
irmãos na mesa, tomando café. Devem ter nascido lá,
nos prédios do conjunto...
Assusta-se. Não há tempo, tem que sair à ru...
Gargalhadas. Maria continua, não se volta, não ergue a
cabeça, não fala. Aprendeu com os cães de rua a ser
humilde para nã...
indesejada troca de olhares, lâmina que gira por dentro
com mais dor ainda se os olhos são de moças de vinte
anos, pintado...
balcões em busca de um improvável convite: quer um
pedaço? Porque guarda na memória a vez que, a única
vez em toda sua peq...
que a satisfeita humana entre no estabelecimento.
Meio dia, madames, Maria, meio vida, meia morte, a
rotina diária sem esc...
escárnio, olhando para ela.
Debaixo de gargalhadas a constrangida Maria agarra
seu carrinho e desabala a correr, moedas fi...
entre goles de refresco. Teriam as elegantes madames
nos caros restaurantes pago também tão dignamente
suas refeições?
O c...
palavras a chicoteiam, ali exposta aos humanos, sem as
protetoras tábuas do barraco:
-Vagabunda!
-Olha a indolência desta....
carregado de porquês que penetraria no âmago dos
sentimentos encarcerados do cão de guarda, apenas um
outro infeliz sobrev...
A CONSPIRAÇÃO DE SANTO
ANTONIO DO DESAMPARO
Nota 1 (Edição)
Publico na íntegra o arquivo de texto contido no pendrive
anex...
máquinas vulneráveis aos ataques virais.
PREFÁCIO
Paranoia. S. f. Psiq. Psicopatia, de que há várias formas
clínicas, cara...
onde colocaram as câmeras, estão me filmando de algu-
ma maneira, posso sentir suas risadas idiotas. O que ga-
nham com is...
gou toda, estragando a embalagem! Foi aí que dei um
basta, é preciso passar à ofensiva, decidi que vou deixar
anotado pass...
núncia será feita, ganharei a luta, mexeram com quem
não deviam. Estou com um gosto estranho na boca.
Será o café? Podem t...
comprá-la? Transcrevo aqui minhas deduções para que
fique claro que estou plenamente consciente do que está
acontecendo e ...
envolvido.
Estive sentado na sala a noite toda, amanheceu, nem ao
menos jantei buscando colocar as ideias em ordem a
respe...
não terminei. Estou exausto, mas é uma questão de vida
ou morte. Estou me alimentando mal, fui pego de surpre-
sa e tenho ...
que tinha que ser feito infelizmente já fizeram, com as
câmeras e demais parafernálias eletrônicas. Eles de al-
guma forma...
mento do inimigo, uma manobra de mestre. Primeira
grande vitória! Chega a ser fascinante, não fosse essa
ameaça sinistra q...
coberto de poeira, faminto e dolorido, estava deitado no
meio de cacos de reboco e tijolos. Não tenho coragem
de enfrentar...
certezas: as câmeras continuam com bateria e eles es-
tão sempre próximos. Mas tive uma ideia que vai deixá-
los apavorado...
ANGÚSTIAS DE UM PEIXE-
VOADOR
O mais patético dos animais, o Homem-peixe-voador,
neste salto de um segundo de consciência ...
Transitoriedade é a palavra que bem definia Arthur
porque assim se sentia: um ser passando de uma forma
para outra. Via-se...
dúvidas, resultantes do importuno cérebro carregado
acima do conjunto de calça e camisa, a mais importante
seria se era el...
casamento tardio, preocupados com o futuro do filho
introvertido.
-Oras Charlotte, sejamos sinceros –sorrindo, desabafava
...
ouvindo dos médicos, psicólogos, psiquiatras os mais
diversos disparates sobre sua pessoa: autista,
introvertido, ligeiro ...
sociais, pronto a saborear as mais diversas paisagens
como pano de fundo ao seu filosofar. Questionamentos
de terceiros er...
Nos mesmos parques por horas observava as formigas e
suas tomadas de decisões, sempre aparentemente
fáceis e rapidamente t...
voar? Convencia-se mais e mais da insatisfação
humana, o homem era o único animal descontente
consigo mesmo. Lera em algum...
contínua, as mãos dadas, o envelhecer juntos:
-Você tem que ter mais ambição, Arthur!
-Não se vive de amor, Arthur!
-Preci...
corrigiu com uma série de questionamentos. Olhou para
seu sapato: couro, borracha, cola sintética, fibras,
plástico. Meias...
descansando nas redes. Todos iguais, alimentados e
alojados como as formigas, sem estudo, sem salário,
sem roupa, sem prob...
enrodilhar-se e descansar imediatamente quando vier a
vontade ou o cansaço, não processar os alimentos,
libertar-se dos co...
O ciclista, aborrecido com a aparente falta de educação
de seu interlocutor, endireitou o corpo e ia pressionar o
pedal pa...
Os dois ignoraram de imediato o ciclista e atacaram o
sofá de dois lugares, Chesterfield legítimo de couro e já
atravessan...
Pouco se preocuparam com Arthur ou o
cumprimentaram. Até mesmo -notou ele- procuravam
não olhar em sua direção, aliás, não...
função como um homem na posição de rei ou mendigo.
Quimeras, nuvens que podem, por minutos, esconder o
sol mas que depois ...
confrontos com o mundo dos homens: o cartão de
crédito, as contas de água e energia elétrica, os
impostos urbanos, sua ide...
mesma oficina de mentes, máquinas de engrenagens
não intercambiáveis que a seu ver dava prejuízos à
Espécie na busca de en...
preza realizações perecíveis em detrimento da única
evolução que é a mental...
Talvez num tempo tão longo que ainda inimag...
O desventrar do ser social (trechos)
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

O desventrar do ser social (trechos)

413 visualizações

Publicada em

Trechos da coletânea. Longe da exagerada ficção, as vidas de Maria, J.C. e Arthur estão, diria eu, aquém do cruel e indiferente real. É preciso encarar a vida sem o escudo confortável de um suposto Deus e o estelionato das promessas de paraísos pós morte. A duvidosa benesse de uma consciência fugaz, transitória, presente na inteligência rudimentar desenvolvida nos humanoides só tem produzido resultados desastrosos em relação aos outros animais que se desenvolveram neste mesmo planetinha vulgar; estimulamos e desenvolvemos a agressividade além corpo com armas de destruição, usamos a mente para manter um perpétuo cio superlotando a superfície terrestre além do que ela pode suportar em alimentos e usamos a filosofia equivocadamente partindo de bases frágeis e insanas que nos colocam como seres superiores. Não passamos de um corpo abobalhado e frágil arrastado aos trambolhões por um cérebro instável e desordenado, um computador primário infestado de vírus e sobrecarregado por arquivos inúteis e corrompidos.

A MISÉRIA - Maria é uma catadora de lixo. Sem descrições supérfluas, assim a imaginação do leitor comporá o ambiente lendo o drama com o cenário que conhece, que acontece perto de si, que visualiza no dia a dia e cujo cerne desconhece ou finge não conhecer.

A LOUCURA - Depois entre na mente do professor J.C. Raciocine em conjunto e acompanhe os passos lógicos e convincentes. Olhe para fora e veja um mundo perverso e ameaçador. J.C. é a vítima e o vilão também existe para todos nós que o adulamos, servimos, tentamos conquistar, enchemos-lhe de sorrisos e acenos mas é um monstro hipócrita, amoral, cruel, castrador, dissoluto, ditatorial: a Sociedade.

O REAL - Por fim Arthur e o encarar do real com a coragem de virar as costas para os robotizados cidadãos bem-sucedidos. Via-se como um peixe-voador que havia nascido quando principiava a sair d'água para seu salto e que, momentos depois cairia novamente na inconsciência quando voltasse a tocar na superfície límpida, calma, indiferente de um mar infinito chamado Universo. Era um pobre ser humano, a mais inútil das criaturas numa realidade igualmente inútil.

Aceite o desafio de sair de seu falso conforto psicológico e penetre no mundo miserável da cidadã Maria, na loucura do normal professor J.C. e na real crença do descrente Arthur. Não os veja como personagens fictícios, eles podem estar presentes em você.

Publicada em: Aperfeiçoamento pessoal
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
413
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

O desventrar do ser social (trechos)

  1. 1. O DESVENTRAR DO SER SOCIAL 2
  2. 2. © 2015 p.a.marangoni Marangoni, P.A. 1949- Capa sobre tela “Lição de anatomia do Dr. van der Meer” de van Mierevelt, 1617. ebooksmarangoni ____________________________________________________ http://ebookspamarangoni.blogspot.com.br ebooksmarangoni@gmail.com printed in Brazil 2015 3
  3. 3. O DESVENTRAR DO SER SOCIAL Da Miséria, da Loucura e do Real coletânea de p.a.marangoni Maria da Silva – A conspiração de Santo Antonio do Desamparo – Angústias de um peixe-voador 4
  4. 4. APRESENTAÇÃO Longe da exagerada ficção, as vidas de Maria, J.C. e Arthur estão, diria eu, aquém do cruel e indiferente real. É preciso encarar a vida sem o escudo confortável de um suposto Deus e o estelionato das promessas de paraísos pós morte. A duvidosa benesse de uma consciência fugaz, transitória, presente na inteligência rudimentar desenvolvida nos humanoides só tem produzido resultados desastrosos em relação aos outros animais que se desenvolveram neste mesmo planetinha vulgar; estimulamos e desenvolvemos a agressividade além corpo com armas de destruição, usamos a mente para manter um perpétuo cio superlotando a superfície terrestre além do que ela pode suportar em alimentos e usamos a filosofia equivocadamente partindo de bases frágeis e insanas que nos colocam como seres superiores. Não passamos de um corpo abobalhado e frágil arrastado aos trambolhões por um cérebro instável e desordenado, um computador primário infestado de vírus e sobrecarregado por arquivos inúteis e corrompidos. Maria é uma catadora de lixo. Sem descrições supérfluas, assim a imaginação do leitor comporá o ambiente lendo o drama com o cenário que conhece, que acontece perto de si, que visualiza no dia a dia e 5
  5. 5. cujo cerne desconhece ou finge não conhecer. Diariamente Marias morrem de inanição e doenças não tratadas, numa breve e trágica passada pela vida levando consigo toda uma história ignorada pelos demais distintos cidadãos. Depois entre na mente do professor J.C. Raciocine em conjunto e acompanhe os passos lógicos e convincentes. Olhe para fora e veja um mundo perverso e ameaçador através da fragilidade do chip orgânico chamado cérebro, de uso contínuo, acumulando os arquivos fragmentados de sonhos desfeitos, ódios recalcados, medos, decepções e tristezas sem que seja feita no decorrer de sua vida útil uma manutenção efetiva, uma limpeza de disco, uma desfragmentação, um escaneamento com antivírus. J.C. é a vítima e o vilão também existe para todos nós que o adulamos, servimos, tentamos conquistar, enchemos-lhe de sorrisos e acenos mas é um monstro hipócrita, amoral, cruel, castrador, dissoluto, ditatorial: a Sociedade. Por fim Arthur e o encarar do real com a coragem de virar as costas para os robotizados cidadãos bem- sucedidos. Via-se como um peixe-voador que havia nascido quando principiava a sair d'água para seu salto e que, momentos depois cairia novamente na inconsciência quando voltasse a tocar na superfície límpida, calma, indiferente de um mar infinito chamado Universo. Sabia que nesta reentrada por mais que se agitasse apenas provocaria alguns respingos que logo desapareceriam. Sabia que era nada e tudo ao mesmo tempo, pois era de Arthurs, pedras, árvores, água e tudo 6
  6. 6. mais que era formado o Todo, peças intercambiáveis construindo ao acaso. E o acaso dotara Arthur de uma qualidade duvidosa, a de, neste salto milimétrico e efêmero, fazer uso de uma consciência transitória, ver- se, sentir-se, observar. Era um pobre ser humano, a mais inútil das criaturas numa realidade igualmente inútil. Aceite o desafio de sair de seu falso conforto psicológico e penetre no mundo miserável da cidadã Maria, na loucura do normal professor J.C. e na real crença do descrente Arthur. Não os veja como personagens fictícios, eles podem estar presentes em você. 7
  7. 7. Sumário APRESENTAÇÃO...................................................................................7 MARIA DA SILVA.................................................................................13 A CONSPIRAÇÃO DE SANTO ANTONIO DO DESAMPARO.........65 Nota 1 (Edição).....................................................................65 Nota 2 (Secção de Psiquiatria da Faculdade Dr. Eusébio Figo) ...........................................................................................................65 PARTE 1 - TRANSCRIÇÃO – texto de J.C. 54 anos, professor............66 Nota 3 (Editor)......................................................................90 Nota 4 (autoria).....................................................................91 PARTE 2- A VERSÃO OPOSTA..........................................................91 Nota 5....................................................................................93 ANEXO 1 – Análise do Prof. Dr. Ernesto F. Wuller , Chefe da Fundação Corbetta para a Saúde Mental.................................................................94 Notas finais..................................................................…....…..100 ANGÚSTIAS DE UM PEIXE-VOADOR...........................................103 8
  8. 8. MARIA DA SILVA Apenas um retrato do cotidiano Não se pode afirmar ser “Maria da Silva” um trabalho de ficção pois é um retrato do cotidiano sem retoques. Um pequeno livro sobre a curta vida de uma catadora de lixo. Aqui não há descrições supérfluas, assim a imaginação do leitor comporá o ambiente lendo o drama com o cenário que conhece, que acontece perto de si, que visualiza no dia a dia e cujo cerne desconhece. Diariamente "Marias da Silva" morrem de inanição e doenças não tratadas, numa breve e trágica passada pela vida, levando consigo toda uma história ignorada pelos demais cidadãos. É hora de enxergá-las como seres humanos e este pequeno livro pode ajudar. Sinto que a obra não é minha, sou apenas o apresentador da mensagem de Maria da Silva. Acredito que se alguns leitores após conhecê-la mudarem, que seja apenas a expressão do olhar para os catadores de lixo – que garimpam o desprezado, não esmolam – a missão a mim confiada pelo acaso terá sido cumprida... p.marangoni 9
  9. 9. Não é um despertar, não se desperta para um pesadelo. Enrolada num novelo sobre o velho colchão mofado, velada pelos olhos da desgraça, Maria abre os olhos mas não se move. Permanece na posição fetal, esquálidos braços envolvendo os joelhos, fazendo de si mesma o reforço ao cobertor esfarrapado, daqueles cor cinza e com algumas listras em vermelho, já esmaecidas. O colchão, apenas a parte de espuma, provavelmente fora verde ou azul e agora marrom, tingido pelo barro do córrego de onde foi retirado. O mofo é contínuo, mas para Maria é o cheiro da segurança, o cheiro de seu barraco. O novelo humano continua quieto. A mente não. Maria é humana, embora seja difícil para os demais, os escolhidos de Deus, imaginarem ou entenderem que ela pensa, tem emoções e sobretudo que visualiza e avalia sua posição no mundo dos homens -sabe que é descartável e tem apenas um desejo: quer ir embora... Maria não queria acordar, levantar-se, ser obrigada a viver. O seu viver se confunde com sobreviver. Apenas sobreviver, cada dia por vez, sem tréguas, sem descanso. Ela sabe que para os outros tipos de animais seria normal a busca diária da comida, mas porquê ela tem que suportar isso e para quê? Qual o seu ganho? Qual o seu prazer? Saciar fome, sede, não é prazer,é o atenuar de uma necessidade que ela dispensaria em troca de não acordar. 10
  10. 10. Mas acorda. Uma velha quase adolescente, pele e ossos e uma presumível idade entre 18 e 20 anos. Cabelo castanho escuro, fino e liso, pele alvíssima nas partes onde a sujeira das ruas não encardiu. Os seios caídos, alguns poucos dentes, nos olhos apenas uma sombra de dignidade... Abrir os olhos, despertar, é sempre um choque desagradável, o começo do pesadelo. Gostaria de fechar as pálpebras novamente e apagar a consciência, fugir do real. Mas sabe que não vai conseguir, quem a desperta não é o sono satisfeito, é o estômago que exige sua perene, insaciável cota. Gêmea da fome, da irmã nada separa e, se para nada jogada foi à terra desde logo aterra a esperança que é cara, da cara o sorriso desterra... A contragosto começa a assumir sua sina de ser vivente. Move os olhos. Mas somente os olhos. Sempre na vã esperança de estar apenas tendo um pesadelo, um sonho mau. Acordar assustada numa cama limpa, ter irmãos, mãe, pai, casa, comida, saber ler, escrever, cumprimentar as pessoas e ser cumprimentada nas ruas, existir de verdade. Ou então porque não se transformar num cão vadio, sem ter que pensar, se ver, se comparar? Não é um cão, mas não é humana também, o que ela é, afinal? Se fala, não respondem, às vezes a escorraçam exatamente como fazem aos animais de rua, mas também às vezes lhe dão ordens como se dá aos humanos. Seus olhos percorrem o barraco, ainda na penumbra. Mais ou menos uma placa de compensado -daquelas de construção- de largura, por duas de comprimento. Uns dois metros por quatro. Uma, duas, três... cinco telhas de zinco enegrecidas e 11
  11. 11. amassadas por pedradas compõe o teto. Olha-o quase todo sem mexer a cabeça. Os vãos, os buracos, tapados com pedaços de plástico negro. Agora vai mover a cabeça um pouquinho à direita para ver o resto, a tábua da porta. Se estiver lá é porque não roubaram nada esta noite. O pedaço de queijo apodrecido que achou ontem está garantido embaixo do colchão, mas o resto de seus bens, o pequeno armário de quatro prateleiras, o garrafão de plástico de 20 litros pela metade com a água da bica, o carrinho de criança transformado em carregador de papelão, o saco plástico cheio de páginas de revistas com fotos de modelos, podem desaparecer como outros pertences valiosos para ela. Está tudo lá hoje. Suspira. Agora vai ter que se sentar na cama. Vai começar mais um dia. Entende que não há nada mais que ar à sua volta, mas sabe que ao se levantar vai sentir como se o mundo a apertasse, a empurrasse para algum canto, como se atrapalhasse os demais, como se ocupasse um espaço alheio, é um feto grande sem direitos num mundo ventre que amassa. Respira mais fundo. Estremece, um arrepio percorre o magro corpo. O ar que entra em seus pulmões não é fresco, é espesso, acre, cheiro de urina seca, podridão, cheiro de abandono. Mas é o cheiro que conhece mais, é o cheiro da toca, animal, é o cheiro que lhe dá o máximo de privacidade que consegue sentir, o mínimo de estar separada dos demais seres por algumas tábuas, folhas de zinco, plástico, não ser vista, ser ignorada. Um certo prazer de se sentir ignorada porque não está visível, melhor que ao sair, ser ignorada sendo vista. Será que a enxergam como iguais a eles, apenas mais pobre? Será que a enxergam como uma moça de 20 anos, acho que 12
  12. 12. é isso, vinte anos, aquele homem do bar disse: ela deve ter uns vinte anos... Acabou-se. Terminou o curto sono. Vamos lá, Maria de vinte anos, diz a si mesma e vem o rápido ritual só seu, sua loucura de todas as manhãs, sua esperança de estar apenas sonhando: fecha novamente os olhos, bem apertados e repete, verdade, mentira, verdade, mentira, verdade, mentira! E neste último grito, levanta-se de um salto e encara o mundo. E, mais uma vez, é verdade...é ela, Maria, apenas um lixo, sozinha, sem nada... Senta-se novamente, solta o corpo, desaba sobre a beira do colchão e murmura: porquê...para quê...quero ir embora...dormir sempre, não acordar... Como o estômago, seu sono é sempre vazio, sono sem sonho, sono medonho, que ao acabar desemboca num mundo venal e vadio... Cobre seu corpo apenas uma camiseta de malha que um dia foi branca. Olha para suas descarnadas pernas quase translúcidas, veiazinhas azuis, brancura que termina no pé escuro, encardido, arranhado, feio... Passa a mão pelos seios, quase nada, caídos, murchos, pensa então nas mulheres das revistas e seus corpos. Terão elas menos que seus vinte anos? Com a ponta da língua procura os poucos dentes. Distrai-se pensativa. Teima em ignorar o vazio no estômago a lhe chamar, é o chamado que lhe agonia, tenta vaguear com a mente, mas em que pensar se nada tem? A única sensação, o único sentimento de que nunca separa é esse vazio, esta força que a faz permanecer dobrada com os braços cruzados na barriga. Quase sorri com a língua brincando com os poucos dentes que restam, amolecendo dia a 13
  13. 13. dia. Mas o soco no estômago que a fome desfere é brutal, os vermes se agitam e exigem a diária ração. Fecha de vez o semblante, apaga o esboço de sorriso, esmaga a esperança vã que sonha em cada acordar e o véu espesso de tristeza cai implacável sobre o maltratado rosto de quase adolescente. Adolescência que se tornou passado sem ter sido presente... Enfia a mão sob o colchão, agarra o pedaço de queijo e sem sequer olhar para ele o enfia na boca e mastiga ligeiramente, engolindo e tentando não sentir o gosto podre. Levanta-se de vez, enfrenta o seu vazio. Bebe alguns goles d’água tão mecanicamente como fez com o queijo. Não há expressão alguma em seu rosto. Não há sonhos para lembrar, apenas desemboca, é lançada à realidade. Empurra a tábua que se veste de porta, espia o mundo, o mundo dos outros... Coloca a cabeça para fora do barraco, com cautela. Encara ao longe a riqueza que lhe é cega, traçado que foi seu destino com linha torta, sorve o ar, mas é morto o viver a que tudo se nega... Respira profundamente com a sensação de usar algo que não lhe pertence, olha para os edifícios ao longe, conjuntos populares tão inatingíveis para Maria como um palácio o é para a maioria dos mortais. Imagina lá, em uma das muitas janelas, uma menina de vinte anos também se levantando e tomando café com leite e pão com margarina, quanto pão, quanta margarina, quanto leite quiser! Recua, encosta a tábua-porta. Devaneia. Se tivesse comida todos os dias, teria seios cheios também? Pensa em folhear pela milésima vez suas páginas arrancadas das revistas, com fotos de moças brancas, limpas, cabelos suaves, sorrindo, com os pais e 14
  14. 14. irmãos na mesa, tomando café. Devem ter nascido lá, nos prédios do conjunto... Assusta-se. Não há tempo, tem que sair à rua, catar papelão, latinhas ou os outros pegarão antes dela. Enfia com destreza a calça comprida masculina e o vestido velho, estampado com florezinhas azuis e rosas sobre a camiseta. Precipita-se para fora calçando as sandálias de plástico e puxando o carrinho para o papelão; escora a porta com um pedaço de pau e sem olhar para trás inicia o caminho para o asfalto, cabeça baixa, braço direito dobrado sobre o peito, a si mesmo abraça, conforto e defesa, tentando romper a força de um mundo que a recusa, que nada com ela reparte. Recebe nos sujos trapos a tepidez do sol, solitária, estremecida, no beco onde a turba palpita está só e principia a caminhar, frouxa, lassa... -Maria Linguiça! Pequenos demônios em forma de crianças sujas, descalças, seminuas, surgem do nada como se sempre estivessem na espreita. Os rotos que se sentem mais fortes diante do esfarrapado... Seu braço se cola com mais força ao corpo, a mão fechada, agarrando-se ao vestido. Fixa o olhar no chão, acelera o passo cambaleante na tortuosa trilha de terra. Nada pensa a não ser no objetivo, a calçada lá embaixo, no asfalto. -Maria Palito! Começa a correr, o carrinho que puxa vai aos trambolhões, ora sobre as quatro rodas, ora de lado, arrastado. Algumas pedras são lançadas pelos moleques, uma laranja apodrecida, mole, a atinge em cheio nas costas. 15
  15. 15. Gargalhadas. Maria continua, não se volta, não ergue a cabeça, não fala. Aprendeu com os cães de rua a ser humilde para não apanhar mais, como eles, aguentar calada ser chamada de vadia enquanto luta por uma sobrevivência que não quer, não pediu. Aprendeu a ser muda aos que não a ouvem. Sai em busca da esquiva comida, garimpeira cambaleante, lambendo a alma ferida, uma felina decadente que caça papéis, garrafas, lixo... Ofegante, chega finalmente à parte baixa, à calçada; agora, no meio da multidão finalmente se sente um pouco mais segura, pois está sozinha, sabe que é quase invisível, é só não ficar no caminho dos humanos que nunca se desviam. Ocupa seu lugar -o meio-fio- e inicia a caçada: papéis, latas, lixo, descartáveis e desprezados como ela, única dádiva que o planeta lhe concede, pois não tem que pedir nem ouvir a eterna negação, apenas recolhe, silenciosa. É o maná dos bastardos de Deus que não vem dos céus, cresce diuturnamente nas sarjetas. Divina bondade para Maria e os cães... Dois copos plásticos, uma garrafa, duas, cabeça baixa (pés que passam rente à Maria, sapatos, sandálias, unhas pintadas) agora o cesto de lixo preso ao poste, o caminhão da limpeza só passa mais tarde. É bom, tem papelão aos montes, já amarrados, o ruim é ter que erguer a cabeça, os cabelos escorridos, a boca desdentada.(troncos que passam rente à Maria, paletós, blusas, gravatas, colares. Braços alvos, limpos, pulseiras, relógios. Sutiãs, rendas, seios...) Agarra os fardos de papelão quase pelo tato, como uma cega, evita a faca cravada na alma que é a ocasional e 16
  16. 16. indesejada troca de olhares, lâmina que gira por dentro com mais dor ainda se os olhos são de moças de vinte anos, pintados, cílios e sobrancelhas tratadas, o paradoxo do perfume suave acompanhando o ar de nojo, repulsa, medo... Maria não queria acordar para isso, desculpar-se a todo momento por existir, por tornar o dia das pessoas que passam mais feio, porque não se transforma numa planta, numa flor? Uma latinha! Duas, três, restos de festa! O estômago colado às costelas, assume o comando, empurra o cérebro para o lado. Célere, as apanha, amassando uma a uma com os pés -esquece as moças, esquece a transmutação em flor- coloca-as separadas num saco, valem mais, quase um pão! A crescente expectativa de alimentar-se vai transformando-a num autômato cego e surdo com tudo que não seja o valioso lixo. Maria deixa de ser a mocinha dos sonhos frágeis e dos pesadelos brutalmente reais, assume a figura trôpega de Maria Palito, Maria Linguiça, afoita, atarefada, amarrando os fardos de papelão no frágil carrinho -o anterior, herdado não sabia de quem, fora roubado- e a manhã transcorre como num transe. Depois da passagem dos caminhões de lixo seu garimpo torna-se mais árduo, mais incerto, alonga os trajetos estéreis em busca de lanchonetes, restaurantes, bares, onde a sujeira nas calçadas se renova rapidamente, é preciso alcançar este maná antes dos concorrentes mais fortes. É preciso respirar fundo, tomar o fôlego que não tem justamente nos momentos em que a fraqueza aperta mais, em que a fome mais aflige, que a faz, às vezes, esperançosa, ingênua e desesperada olhar para os humanos que comem nos 17
  17. 17. balcões em busca de um improvável convite: quer um pedaço? Porque guarda na memória a vez que, a única vez em toda sua pequena vida, que uma menina repartiu com ela um sanduíche de pão, manteiga, queijo, presunto, uma coisa deliciosa... Meio dia, meio vida, meia morte, aperta a fome. Maria calcula o volume que tem de papelão, a quantidade de latinhas e plástico, sabe exatamente o que precisa para que o homem do depósito lhe dê o dinheiro justo para o lanche, sem troco. Outras vezes ficara até o final do dia mas sempre o dinheiro recebido era o mesmo, as moedas de sempre, na pesagem rápida e imprecisa. Mas é por volta da metade do dia, no imperativo de recolher as abundantes e valiosas latinhas para completar o carregamento que sente que sua presença começa a incomodar mais,é enxotada para fora das calçadas por gestos de porteiros, não a querem no caminho e na visão dos fregueses que vêm almoçar. Desfila então pelos belos restaurantes, passa sem olhar, ultrajada pelas madames nobres, elegantes, que como os próprios restaurantes, sobre um interior podre, uma bela fachada... É quando, mesmo sem olhar sente mais o desprezo, o nojo, a irritação das senhoras que não gostam de repartir o mesmo ar que ela respira, se sentem indignadas. Algumas param nas portas do carro, eretas, sem se mover, as duas mãos segurando a bolsa defronte ao corpo, olham para o funcionário e em seguida para Maria, nariz para cima, arrogantes, esperando providências. O segurança ou porteiro, solícitos, servis, com os braços estendidos lateralmente desviam Maria sem tocá-la, como se conduzindo uma manada, para 18
  18. 18. que a satisfeita humana entre no estabelecimento. Meio dia, madames, Maria, meio vida, meia morte, a rotina diária sem escapatória da fome e humilhação. Planeta dentro de planeta, nada lhe diz respeito à sua volta, o mesmo sol que aos outros bronzeia sua pele greta, seus lábios seca e seca é a revolta... Acrescida deste peso injusto que a esmaga, Maria finalmente empurra o carrinho completo, é hora da permuta no depósito que recebe, a rouba e insulta... Entra pelo portão, entra na fila. Outro bastardo de Deus chega depois dela, sujo, barbado e feroz. Rosna e sem cerimônia arrasta o carrinho de Maria para trás. Ela nada diz, abaixa mais o focinho. Se tivesse cauda a colocaria entre as pernas, mas não tendo, procura repassar esta postura, é melhor que apanhar. O dono do depósito ri, cumprimenta o recém-chegado com um palavrão. Pesa tudo com cuidado, entrega duas notas e algumas moedas. Era menos material do que Maria tem, mas sabe que só vai ganhar as moedas do lanche, se reclamar não ganha nada. -E aí Linguiça, vai se encher de pinga hoje? Coloca o papelão na balança, dá um tapa no peso que corre no braço de medição, nem mesmo olha o resultado, abre o saco das latinhas, despeja no monte ao lado. Enfia a mão no bolso, retira as moedas que Maria conhece, duas grandes e uma pequena e as coloca nas magras mãos estendidas. Mostra uma nota, o coração da menina acelera, os olhos cheios de esperança e gratidão antecipada miram o homem, na expectativa. -Desce essas calças, Linguiça, quero ver o que tem embaixo! Os dois ajudantes param de trabalhar e soltam gritos de 19
  19. 19. escárnio, olhando para ela. Debaixo de gargalhadas a constrangida Maria agarra seu carrinho e desabala a correr, moedas firmemente presas na mão. Vai direto à praça onde um companheiro de desgraça tenta sobreviver com uma grelha improvisada de carvão e uma caixa de isopor com carne e refresco. No carrinho da esquina, sem porteiro, é bem recebida pelo irmão de desprezo, irmão sobrevivente, vai comprar pão, carne, aliviar a sede, aplacar o estômago que resmunga. O segurança, um cão magro deitado na grama abana o rabo em saudação à madame que chega. A freguesa fiel é recebida com um sorriso e o velho capricha no espetinho de carne de terceira que começou a preparar assim que avistou Maria. Esta lhe estende as moedas e recebe uma garrafinha de líquido amarelo gelado, oferta da casa. Sentada no chão aplaca sua sede sentindo o cheiro bom do churrasco, antevendo o melhor momento do dia. Com habilidade o homem corta um pão e prendendo o espetinho com ele, desliza a haste de bambu, deixando somente a carne no interior. O cão magro descura da segurança, seus olhos fixam a carne, não mexe um músculo do corpo. Maria evita olhar para ele, mas não consegue -recorda-se sempre da menina que lhe ofereceu um pedaço do sanduíche- e antes de dar a primeira mordida estende-lhe um pedacinho, que desaparece numa abocanhada relâmpago. Agora, em silêncio, em paz, Maria cidadã que trabalhou desde a madrugada e pagou pela refeição, com as inevitáveis lágrimas que sempre aparecem neste momento, mastiga seu pão lentamente, procurando saborear cada pedaço, 20
  20. 20. entre goles de refresco. Teriam as elegantes madames nos caros restaurantes pago também tão dignamente suas refeições? O calor no estômago, os goles de refresco, enlaçam Maria com uma sensação boa, de paz, não sente agressividade do vendedor nem do cão, por momentos está vestida de gente, alguém que existe, trabalha e paga sua comida. Suspira... Mastiga os últimos bocados com uma gratidão que não entende por quê ou para quem, mas é como se sente, grata... Mas, menina velha na vida, sabe que já ocupou o lugar que pagou, agora que já se serviu é hora de voltar para casa, para seu ninho. Mas não aguentará voltar à toca. O corpo exige agora seu prêmio, está feliz, está bem, não quer se mover. O calorzinho, a carícia no estômago... as leves pernas tão finas agora, depois do calvário percorrido, estão pesadas. Os restaurantes. As madames... Detém-se um pouco antes, não quer atrapalhar. Junto do poste, ao lado da lixeira, cheiro amigo... na sarjeta, sem concorrência. Senta. Sente-se. Consente-se amolecer. As pernas formigam, as pálpebras caem. Lentamente se estende na calçada, o descanso, prêmio merecido... o alimento quente parece que percorre seu corpo, abraça- o, acarinhando. Como é bom comer, pensa Maria, o trabalho compensado. Deixa-se afundar no negrume que a vai tomando, dormirá um pouquinho e sabe que acordará fortalecida para voltar ao ninho e lá se entocar na segurança da solidão, envolvida pelo nada. Mas só o corpo vai desfalecendo, não a consciência, as 21
  21. 21. palavras a chicoteiam, ali exposta aos humanos, sem as protetoras tábuas do barraco: -Vagabunda! -Olha a indolência desta... -Está faltando polícia! -Estão faltando cadeias! -É de tirar o apetite! -Esse povo vive bebendo, como podem!? Mas o consolo na barriga lhe sorri, dá as mãos para a fadiga e Maria adormece, com um esboço de sorriso... agora está em seu paraíso. Acorda com um forte pontapé. Tomada por um choque confuso, o paraíso é inferno, o negrume, claridade que fere, o torpor, uma dor aguda na coxa, a rua, um palco de ópera bizarra onde o silêncio é atropelado por um coral de engalanadas madames que cantam com estridência: De pé, andando vagabunda, Aqui não fica, não é seu lugar, Sua figura de pobre imunda, espanta nosso apetite, nos faz vomitar! O maestro, em traje de gala chuta Maria enquanto grita: fora do palco, fora do palco! Tropeça na consciência e cai esparramada na realidade sólida, dura, vê acima de si um segurança, terno preto barato fantasiando um irmão em desgraça adestrado para cão de guarda. -Fora da calçada! Escorraçada com gana e maldade para que o espetáculo satisfaça à exigente plateia, Maria reage com a dignidade e o desprezo de um silêncio amargo, deixa na bainha do sofrimento contumaz o punhal de um olhar 22
  22. 22. carregado de porquês que penetraria no âmago dos sentimentos encarcerados do cão de guarda, apenas um outro infeliz sobrevivente. Ambos são dois cristãos em mais um Coliseu que Deus consente... (CONTINUA) http://ebookspamarangoni.blogspot.com.br 23
  23. 23. A CONSPIRAÇÃO DE SANTO ANTONIO DO DESAMPARO Nota 1 (Edição) Publico na íntegra o arquivo de texto contido no pendrive anexado ao processo batizado de “Conspiração”, arqui- vos que me foram cedidos em CD pelo Exmo. Sr Delega- do de Polícia de nossa cidade, com autorização do MM Sr Juiz da Comarca de Piracema de Água Abaixo, a cuja jurisdição pertence Santo Antonio do Desamparo. Foi de- positada em juízo a quantia simbólica de R$200,00 (du- zentos reais) relativos aos direitos autorais que possam a ser reclamados, com ciência de possíveis reajustes su- jeitos à negociação. Nota 2 (Secção de Psiquiatria da Faculdade Dr. Eusébio Figo) O objetivo não é desnudar um ser humano ou julgá-lo. A presente edição produzida a nosso pedido para uso in- terno da Faculdade como complemento paradidático visa fornecer aos alunos subsídios para que, ao empreender essa trágica viagem a uma mente sob ataque do impon- derável, entender a nossa própria fragilidade e acolher seus futuros analisandos não como doentes mas como irmãos numa caminhada cheia de obstáculos chamada Vida onde o Bem e o Mal são tratados e computados em arquivos muitas vezes corrompidos em nossos cérebros, 24
  24. 24. máquinas vulneráveis aos ataques virais. PREFÁCIO Paranoia. S. f. Psiq. Psicopatia, de que há várias formas clínicas, caracterizada pelo aparecimento de ambições suspeitas, que se acentuam, evoluindo para delírios per- secutório e de grandeza estruturados sobre base lógica. (Aurélio) Abra essa obra. Não se trata de um livro e sim da porta para o interior de uma mente alheia. Entre, raciocine em conjunto e acompanhe os passos lógicos e convincentes da vítima. Olhe para fora e veja um mundo perverso e ameaçador... PARTE 1 - TRANSCRIÇÃO – texto de J.C. 54 anos, professor. RELATÓRIO DE ACUSAÇÃO PARA SER ENTREGUE AO CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU COM GRAVES ACUSAÇÕES CONTRA A PREFEITURA MUNICIPAL, POLÍCIA E ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA DESCONHECIDA NA CIDADE DE SANTO ANTONIO DO DESAMPARO, MINAS GERAIS, BRASIL. Não dá mais, urge deixar anotado, de alguma forma al- guém tomará conhecimento do que estão fazendo comi- go caso passem à violência e eu apareça morto. Falo dos psicopatas que me cercam e vigiam. A gota d'água foi a poucos minutos, começando o dia. Nem a tranquili- dade do café da manhã tenho mais mesmo com a casa toda fechada, levantando-me sem ruído. Embora tenha vasculhado a casa toda e não conseguido encontrar 25
  25. 25. onde colocaram as câmeras, estão me filmando de algu- ma maneira, posso sentir suas risadas idiotas. O que ga- nham com isso? Prazer em suas vidas vazias? Volta e meia olho para algum ponto de onde provavelmente po- dem me ver e com a maior expressão de desprezo que consigo, balanço negativamente a cabeça e às vezes, quando exageram, respondo com um gesto obsceno que embora me desgoste tais atos sei que eles merecem, não há outra maneira de tratá-los, pelo menos saberão que eu sei de suas ações contra mim. A caixinha de fil- tros de café era nova, fechada. Tenho certeza porque quando fui comprá-la verifiquei cuidadosamente depois que um indivíduo alto, magro, de uns 50 anos permane- ceu um longo tempo defronte à prateleira dos filtros. Era um deles. Passei várias vezes por ele e não parei, até que desistiu e saiu de lá e então pude apanhar a minha caixa. Mas certamente ele deve ter aberto várias e retira- do alguns filtros, feito alguma coisa pior; pelas gravações eles sabem que ontem eu usei meu último filtro de papel e teria que comprar mais. Mas examinei minuciosamente e escolhi uma lá detrás, talvez intocada. E eu estava cer- to, pois hoje claramente senti que estavam me vigiando, aguardando alguma coisa quando fui preparar meu café. E apesar de todas as precauções, me pegaram nova- mente, mais uma brincadeira boba, ridícula, uma agres- são à minha tranquilidade, à tranquilidade que tenho di- reito, por quê fazem isso, eu nada fiz a eles, tudo isso é recalque, inveja pelo que consegui, pelo que sou? Esta- va escrito na caixa: “aperte aqui para abrir” Apertei e nada aconteceu, apertei mais e a tampa virou para den- tro hermeticamente fechada, devem ter usado uma cola forte. Forcei o máximo que pude e ela finalmente se ras- 26
  26. 26. gou toda, estragando a embalagem! Foi aí que dei um basta, é preciso passar à ofensiva, decidi que vou deixar anotado passo por passo deles, eu rirei por último pois um dia os malditos saberão que eu sabia de tudo, não estava sendo enganado, os verdadeiros palhaços eram eles. E vou ficar atento a cada detalhe, não é possível que o objetivo seja somente diversão, querem me enlou- quecer, talvez provocar meu suicídio, tenho que desco- brir a razão que deve ser algo muito importante que des- conheço. Importante pelo grupo de pessoas envolvidas nessa operação, pela sua movimentação para me seguir em todos os lugares, o custo dos materiais eletrônicos usados para espionagem. Pesquisei e vi que existem câmeras do tamanho de uma cabeça de alfinete, aparelhos que rastreiam o telefone, outros que amplificam os sons, até de meus passos den- tro da casa. Tenho que me preparar, enganá-los o tempo todo, vencer essa luta. Pode ser que buscam algo es- condido, enterrado nos porões ou nas paredes. Dinheiro, ouro, documentos? Seriam antigos nazistas? Moro numa casa antiga, pode haver algum segredo que desconheço. Enquanto escrevo vou batendo os pés compassadamen- te no assoalho de madeira, confundirei os que estão na escuta, pensarão que estou andando, pendurei coberto- res à volta de meu computador e eles não terão certeza de onde estou. Obviamente o computador em que escre- vo este relatório não é o mesmo que ligo à Internet, não sou estúpido. Cada parte que termino passo para o pen- drive que por enquanto levo o tempo todo comigo até en- contrar um esconderijo seguro. Retirei o invólucro de plástico dele, fica só o chip e a conexão usb, pequenos o suficiente para serem engolidos em caso de perigo. A de- 27
  27. 27. núncia será feita, ganharei a luta, mexeram com quem não deviam. Estou com um gosto estranho na boca. Será o café? Podem ter contaminado a água, seria muito fácil, o encanamento é público. Voltei. Estou completamente alerta. Salvei o texto anteri- or assim que veio o gosto ruim na boca e deduzi correta- mente que poderia ser algo na água. Peguei o pendrive -nada pode ser deixado de lado, nem por minutos, tudo pode acontecer- e fui espiar a rua pelas frestas da jane- la. Da entrada da água em minha casa onde está o reló- gio de leitura até o meio da rua, há um corte claro na cal- çada e no asfalto, indicando que foi escavado e fechado posteriormente. Parece um serviço antigo, mas pode ter sido camuflado para que assim parecesse. Se fizeram isso ontem, foi depois das 23 horas, até esta hora fui di- versas vezes espiar pelas janelas da frente e traseiras, andando no escuro, luzes apagadas, embora tenha ciên- cia que podem estar usando câmeras com infravermelho para visão noturna. Mas se contavam com luzes acesas e o equipamento é comum, ganharei terreno até instala- rem outras. Se mexeram na água, pode ter sido instala- do algum tipo de mecanismo que vai soltando pouco a pouco alguma droga, tudo parecerá normal, enlouquece- rei paulatinamente. Decisão: usarei a água só para ba- nhos e lavagem de roupa, passarei a beber água mine- ral. Mas mudarei de supermercado, não voltarei no que mexeram na caixinha de filtros do café, vou confundi-los. Agora, senhores, é gato e rato! Mas porque não me envenenam de uma vez? Ou inva- dem a casa e me matam? E se é para conseguir algo que está na casa, não seria mais fácil se oferecer para 28
  28. 28. comprá-la? Transcrevo aqui minhas deduções para que fique claro que estou plenamente consciente do que está acontecendo e tenho mantido o raciocínio claro e coe- rente. Sei que não sou nenhum paranoico, mas provavel- mente estou lidando com psicopatas, talvez uma seita, uma sociedade secreta. E o caso da água demonstra que a Prefeitura está envolvida, talvez a própria Polícia, não posso contar com ninguém por isso a importância em deixar tudo registrado. Estou intrigado. Nenhuma oferta de compra da casa. Nenhuma tentativa de me as- sassinarem. Por que observam todos os meus passos? Por que estão tentando me drogar ou enlouquecer? Ob- viamente querem-me vivo em suas mãos mas não de forma violenta, como se sem minha concordância não conseguissem o seu objetivo. Interrogar-me? Mas nada sei de nada, não tenho segredos! Discretamente pesquisei na Internet como se buscasse algum romance sobre segredos que o corpo humano pode conter e descobri muita coisa sobre chips implanta- dos nas pessoas. Passei a tarde pensando nisso, não seria no meu cérebro, pois neste caso poderiam me con- trolar e não seria necessário todo este cerco, as filma- gens, os aparatos e a sabotagens para me descontrolar, a menos que o chip seja de algum grupo rival, mas aí eu teria essas informações repassadas eletronicamente para me proteger. Meu medo é que com minha resistên- cia e inteligência que provavelmente eles não contavam passem a radicalizar suas ações. Mas tenho raciocinado e não chego a nenhuma conclusão coerente pois mesmo se fosse um chip, minha morte resolveria a questão, sa- queariam meu túmulo à noite, tranquilamente ou retirari- am na própria funerária, dependendo de quem estiver 29
  29. 29. envolvido. Estive sentado na sala a noite toda, amanheceu, nem ao menos jantei buscando colocar as ideias em ordem a respeito do chip. Nada. Irei eliminando por partes todas as possibilidades para chegar a uma razão concreta, descobrir o objetivo deles e organizar minha defesa. Dei- xarei por ora a hipótese do chip de lado, não encontrei nenhum evento em minha vida que proporcionasse algu- ma chance de ser injetado com alguma coisa, pelo me- nos na fase adulta. Se fosse em criança os problemas já teriam aparecido mas só agora, poucos meses depois que me aposentei e tenho ficado recluso em casa é que os indícios de ser espionado começaram. Por que estou recluso? E o que tem lá fora para ver? Pensem bem. Pessoas feias, mal-educadas, crianças barulhentas, vio- lência, drogas. Aqui dentro tenho meu mundo perfeito, pelo menos até há pouco. Mas lutarei por ele. Finalmente uma luz: se é com a casa e não a compram nem me matam é porque não querem aparecer, se en- volver, preferem que tudo pareça muito natural. Gente importante envolvida... Organizei tudo em partes como decidira, primeiro ataca- rei a hipótese da casa. Serrei um pedaço de caibro de uns 20 centímetros, peroba rígida, e durante o dia bati nas paredes, palmo por palmo, atento a algum som oco. Não me preocupei em disfarçar, quero que saibam que estou na ofensiva, que desconfio e posso estar no cami- nho certo, quero que saibam que estão lidando com al- guém inteligente, um opositor a ser respeitado. Marquei com um pedaço de carvão todos os pontos onde o som foi estranho, são até agora 32 só no porão, que ainda 30
  30. 30. não terminei. Estou exausto, mas é uma questão de vida ou morte. Estou me alimentando mal, fui pego de surpre- sa e tenho poucos víveres. A água mineral acabou, estou bebendo refrigerantes. Terei que ferver a água várias ve- zes para usá-la pois uma fervura simples não resolve, visto o caso do café. Mas talvez tenha só ficado o gosto sem mais efeitos. Não me deixo sugestionar. Quarto dia vasculhando as paredes, finalmente mapeei todos os pontos ocos, 61 ao todo. Sentei no sofá para descansar mas dormi, vencido pelo cansaço. Agora é partir para a perfuração das paredes, também tem vários pontos marcados no chão do porão e por sorte o assoa- lho da casa é de madeira, limpo por baixo, o que me poupou muito trabalho. O teto não vai ser preciso pois já o vasculhei anteriormente em busca das câmeras, mas foi infrutífero o esforço, foi como buscar uma agulha num palheiro escuro e cheio de fios, alguns podem até ser de- les, mas não consegui diferenciar. Tomei uma resolução ao pensar nos fios: desligarei a energia assim que aca- bar o que tenho de comida na geladeira, sem alimenta- ção as baterias das câmeras e outros aparelhos eletrôni- cos começarão a falhar e acabarão nulos. Escreverei os relatórios em um caderno, prontos para serem passados para o computador e aí então ligo a energia, escrevo ra- pidamente e desligo novamente. Acredito que os cinco ou seis minutos escrevendo não será suficiente para que as baterias deles recarreguem, já que estão continuada- mente em operação. Terei que sair para comprar alimentos, sei que não me atacarão. Mas e a casa? Não me transformarei num pa- ranoico como querem: a casa pode ficar sozinha, pois o 31
  31. 31. que tinha que ser feito infelizmente já fizeram, com as câmeras e demais parafernálias eletrônicas. Eles de al- guma forma entram e saem na casa quando querem. E os pontos marcados nas paredes devem estar deixando- os enlouquecidos! Que se divirtam, estou no comando agora! Voltando. Fiz tudo muito rápido. Fingi que estava limpan- do as portas da entrada e da cozinha, mas já as havia trancado e discretamente colei com fita adesiva transpa- rente um fio de cabelo indo da porta ao batente. Se fo- rem abertas o fio se soltará ou romperá e ficarei sabendo da invasão. Depois liguei o carro, abri o capô do motor como se estivesse fazendo manutenção e ao mesmo tempo abri o portão e com a vassoura ensaiei uma lim- peza na calçada. E em alguns segundos corri para o car- ro, sai, tranquei o portão e acelerei rumo à saída da cida- de. Um olho na estrada e um no retrovisor. Acho que os confundi. Diminui a velocidade e ostensivamente dei a seta para a direita, curvei à esquerda e voltei para a ci- dade, saindo pelo lado oposto. Querem brincar senho- res? Estamos brincando! Em uma cidadezinha vizinha comprei muita carne seca, caixas de água mineral, velas, ferramentas que vou precisar e um saco de arroz de 60 quilos. Antes de abrir a porta chequei os fios de cabelo que co- locara. Intactos... Não posso subestimá-los. Detectaram e entraram pelo telhado. Provavelmente trocaram as câ- meras por outras de visão noturna. Mas agora vou desli- gar a energia da casa, lá nos fusíveis do relógio. Conta- gem regressiva para os aparelhos de espionagem come- çar a apitar. Um verdadeiro jogo de xadrez, a cada movi- 32
  32. 32. mento do inimigo, uma manobra de mestre. Primeira grande vitória! Chega a ser fascinante, não fosse essa ameaça sinistra que paira no ar, a minha busca pelos motivos, até agora infrutífera. Por quê é a grande per- gunta. Começarei as escavações. O primeiro dia foi cansativo, comecei usando um martelo e uma talhadeira mas não deu certo e então passei a usar somente uma picareta, basta algumas pancadas e já posso ver os tijolos. Mas a ferramenta é bastante pe- sada, dormi com fortes dores, meu braço direito está rígi- do. A fumaça das velas também me enjoou um pouco, provoca tosse, mas sem energia elétrica tenho que usá- las. Os malditos até a isso me obrigaram, viver sem ele- tricidade. Mas não posso apelar para ninguém, não sei até que ponto essa organização ou seita é poderosa, quem é membro, de repente posso pedir ajuda justamen- te para o inimigo. Mas hoje, segundo dia, me sinto mais forte, menos cansado, o trabalho até agora sem resulta- dos prossegue mais acelerado, já pesquisei metade do porão. Os pontos que deram os sinais de serem ocos são apenas cacos de tijolos ou falhas na argamassa, re- mendos de encanamento e trincas antigas. Mas irei em frente até descartar esta hipótese, não me deixarei aba- ter, quantos mais subsídios recolher, quanto mais moti- vos descartar, mais perto estarei da verdade. Afinal estava mais cansado que pensava, acordei so- bressaltado com um ruído e não sabia onde estava, qua- se entrei em pânico. Por segundos foi aterrador, perdido numa completa escuridão, julguei estar cego, permaneci congelado sem mover um músculo até ter consciência que anoitecera e eu havia adormecido no porão. Estou 33
  33. 33. coberto de poeira, faminto e dolorido, estava deitado no meio de cacos de reboco e tijolos. Não tenho coragem de enfrentar um banho frio, malditos, transformaram mi- nha vida num inferno mas minha mente continua sólida, lúcida. Vou para cama. A manhã já vai alta. Dormi muito, o cansaço venceu até a fome, farei o almoço agora, independente da hora. E muito café. Nada de banho, consegui dormir sem ele e daqui a pouco estarei novamente empoeirado, não é tempo de preocupações com a higiene. Estou um pouco alarmado, agora vejo que ontem eu fiquei completamen- te vulnerável, nem raciocinei na hora e agora começo a pensar no tal barulho que me acordou. Seriam eles? Po- dem muito bem ter pensado que eu estava morto, pois adormecera sobre o entulho das paredes quando ainda era dia e com as velas me iluminando. Se as baterias das câmeras ainda estavam boas, ficaram horas me ob- servando inerte. E se foram eles que fizeram o barulho, podem ter vindo trocar as baterias por outras novas, de nada me valeu o sacrifício desses dias sem energia. Mas tudo tem demostrado que estou sendo monitorado, deve ter sido um barulho muito forte para que eu tenha saído daquele estado de torpor. Bingo! Minha mente é maravilhosa! Tomando café e co- mendo, repentinamente mais uma luz! É claro que com tudo o que fizeram até agora, não cometeriam erros pri- mários como fazer barulho, foi de propósito, eles me acordaram, se preocuparam comigo, de nada sirvo mor- to, querem-me vivo! Com o passar das horas vendo-me caído, decidiram fazer algum ruído forte para se certifica- rem que eu estava apenas dormindo. Com isso, duas 34
  34. 34. certezas: as câmeras continuam com bateria e eles es- tão sempre próximos. Mas tive uma ideia que vai deixá- los apavorados se realmente me querem vivo: encenarei minha morte. (CONTINUA) http://ebookspamarangoni.blogspot.com.br 35
  35. 35. ANGÚSTIAS DE UM PEIXE- VOADOR O mais patético dos animais, o Homem-peixe-voador, neste salto de um segundo de consciência transitória coleciona tudo o que pode amealhar, penas ao vento, grãos de poeira, alguma folha que porventura esteja a boiar na superfície. Esbarra no peixe que salta ao lado, toma-lhe a frente. E depois se dissolve na água com alguns respingos que rapidamente desaparecem. Se no micro momento antes de tocar a cabeça no oceano do Nada perguntássemos a cor do maravilhoso céu que acabara de percorrer, não saberia a resposta... 36
  36. 36. Transitoriedade é a palavra que bem definia Arthur porque assim se sentia: um ser passando de uma forma para outra. Via-se como um peixe-voador que havia nascido quando principiava a sair d'água para seu salto e que, momentos depois cairia novamente na inconsciência quando voltasse a tocar na superfície límpida, calma, indiferente de um mar infinito chamado Universo. Sabia que nesta reentrada por mais que se agitasse apenas provocaria alguns respingos que logo desapareceriam. Sabia que era nada e tudo ao mesmo tempo, pois era de Arthurs, pedras, árvores, água e tudo mais que era formado o Todo, peças intercambiáveis construindo ao acaso. E o acaso dotara Arthur de uma qualidade duvidosa, a de, neste salto milimétrico e efêmero, fazer uso de uma consciência transitória, ver- se, sentir-se, observar. Era um pobre ser humano, a mais inútil das criaturas numa realidade igualmente inútil. Mais que tudo, ele usava a capacidade de observar em suas longas caminhadas sem rumo. Já se achara: peixe- voador. Também se via, refletido nas vitrines como um conjunto andante de sapatos, calças e camisa; procurava sentir-se e muitas vezes, propositalmente, não se desviava dos transeuntes em sentido contrário para certificar-se que existia e era visto. O resultado aumentava suas dúvidas, pois terminava invariavelmente em encontrões, como se fosse invisível aos demais. Existiria ele apenas quando do encontro? Ou o transeunte pertencia a outras esferas e não o via? Das 37
  37. 37. dúvidas, resultantes do importuno cérebro carregado acima do conjunto de calça e camisa, a mais importante seria se era ele igual aos demais seres supostamente humanos. Comportavam-se como imortais, não da espécie de peixe-voador momentâneo que eram, mas uma espécie de golfinho ou baleia, que saltam, respiram e cujo mergulho de volta não parece definitivo, com a pretensão de aparecer outra e outra vez. Talvez por isso amealhassem tudo o que podiam, esbarravam-se, procuravam passar à frente uns dos outros durante a pequena aparição no indiferente Universo. Arthur até agora só tinha uma certeza: dos que mergulharam durante sua vida, nenhum voltara à superfície... Saberiam eles que eram peixes voadores que só existiriam durante o salto ou realmente não eram como Arthur, que se perguntado saberia a cor do céu, o cheiro das flores, o andar das formigas. Porque ele era um observador de tudo que podia ser visto, de tudo que se encontrava à sua volta e que o prêmio-castigo da consciência transitória permitia ver e sentir. Nada procurava mudar, quer pela inutilidade quer pela perda de tempo, tão exíguo. Tentava apenas olhar para todos os lados que pudesse, ávido de conhecimento mas sem desejo de alterar. Um passageiro não deve aspirar mudar a cor ou a performance da nave onde viaja. Porque sabia ser apenas mais um transeunte entre infinitos, viajando no acaso. Aos cinquenta anos, nada amealhara e sobrevivia graças a pequenos trabalhos de carpintaria, à casa e um pouco de renda deixada pelos previdentes pais, que já não eram jovens quando nasceu, gravidez tardia de um 38
  38. 38. casamento tardio, preocupados com o futuro do filho introvertido. -Oras Charlotte, sejamos sinceros –sorrindo, desabafava o pai- nosso Arthur é no mínimo estranho! Recém-saído da adolescência e órfão, logo abandonou a universidade onde tentou cursar Filosofia mas não encontrara utilidade em nenhuma matéria. Aluno brilhante na escola, foi tido como contestador no curso superior, com os mestres pífios e restritos vingando-se nas notas sempre baixas e as observações com que procuravam justificá-las: fugiu do assunto... E Arthur achava que eram os mestres e os filósofos estudados é que fugiam ao assunto, com pensamentos que não iam além da casca do ser humano, quando somos parte do Todo, do Universo. Estudando apenas a unha do gigante nunca chegaremos a conhecê-lo! -protestava Arthur. Aliás, sua busca era também por alguma suposta utilidade em viver, que talvez houvesse mas ninguém lhe ensinara. Tentou ainda trabalhar em escritórios, balconista e finalmente encontrara um pouco de paz em serviços braçais, pouca conversa e mais resultados; foi pedreiro e depois carpinteiro onde se mostrou um hábil profissional. Mas cansado de ser repreendido por mudar as plantas originais por conta própria buscando mais praticidade, resolveu ficar em casa, sem horários e patrões, realizando pequenos consertos para a vizinhança. Mais e mais se desligava da desvairada sociedade. Arthur meditava. Volta e meia deixava-se vagar junto aos pensamentos, esquecido do corpo físico. Por isso muitas vezes permanecia estático, até mesmo, quando ainda os pais eram vivos e procuravam tirá-lo do aparente torpor, 39
  39. 39. ouvindo dos médicos, psicólogos, psiquiatras os mais diversos disparates sobre sua pessoa: autista, introvertido, ligeiro retardo mental. Arthur simplesmente pensava, cismava. E para isso não era necessário locomover-se, movimentar braços e pernas, complementos inúteis que pouco durariam e nada construiriam que não se dissolvesse no tempo infinito do Universo. Cansou-se de ser detido: -identidade! -por quê? -recebemos uma denúncia de comportamento estranho em via pública. -não estou fazendo nada. -por isso mesmo. -mas sou obrigado a fazer alguma coisa? -o senhor está parado na calçada olhando para uma árvore há mais de uma hora, segundo a denúncia. -é crime olhar para uma árvore? -erhh, ahh, não, mas é que... Identidade! -sem identidade não se pode olhar uma árvore? -lhe prendo por desacato! -perguntar a uma autoridade que deve servir ao cidadão é desacato? -acompanhe-me, o senhor está preso! E lá ia Arthur, sem demostrar a mínima preocupação ou constrangimento, acompanhando o confuso policial até a presença da autoridade de plantão, onde esperava por horas, pacientemente, olhar perdido, retomando os pensamentos interrompidos. Era um cérebro instalado em um barco de carne e ossos ao sabor das ondas 40
  40. 40. sociais, pronto a saborear as mais diversas paisagens como pano de fundo ao seu filosofar. Questionamentos de terceiros eram apenas o murmúrio do mar, assovios dos ventos. Deixar-se levar preso era como ser rebocado, sem precisar remar... Gostava de andar pelos parques, observando os passeadores de cães. Para ele era um retrato perfeito da loucura vivida sem ser sentida, o passeador de cães transmitia uma imagem dupla face divertida e preocupante ante o absurdo da coisa: de um lado uma dezena de animais de vários portes, força, gostos, instintos, obrigados a se espremerem contra a pelagem alheia sem poder marcar seu território e sem escolher o rumo, por mais que puxassem de seu lado e tentassem demostrar sua vontade; de outro lado o suposto animal superior, apenas um, preso a várias guias que apesar de variantes de força, acabavam todas seguindo um mesmo caminho. Arthur invertia a dupla face e via um homem sendo conduzido por várias guias, seguras pela Crença, pelos Dogmas, pelas Leis, pelas Regras Não Escritas, pelo Medo, pelas Ilusões. A guia mais forte e que parecia determinar a trilha a seguir era a das Ilusões. Não chegava à conclusão quem puxava quem nesta guia, quem verdadeiramente estava na coleira. A Ilusão dominava ou o Homem a puxava? Embora em outras coleiras como a Lei, o Homem tentasse arrastar-se por outros caminhos, parecia satisfeito em enfiar a cabeçorra vazia na Ilusão, vontade própria... Não havia cães, eram homens levando homens a passear num caminho sem volta e sem ponto de chegada. A caminhada era para o grande Nada. 41
  41. 41. Nos mesmos parques por horas observava as formigas e suas tomadas de decisões, sempre aparentemente fáceis e rapidamente transmitidas às demais para que não repetissem o erro. Por vezes as grossas gotas da chuva pesada que se anunciava e espantava a todos os frequentadores, trazia novidades à observação microscópica e lá ficava Arthur, aos poucos se encharcando, encantado com as medidas emergenciais das formigas. Os humanos, rapidamente desapareciam, salvo um ou outro solícito ou irreverente indagando: -o senhor está bem? -precisa de ajuda? -sai da chuva otário! -e aí tio, vai se molhar! Arthur não respondia, entretido, e não foram poucas as vezes que foi praticamente arrastado para debaixo de alguma árvore ou quiosque. -o senhor pode adoecer! -por quê? -a água! A água! Mas nosso corpo é constituído de até 75% de água, somos seres líquidos, respondia, antevendo o olhar de espanto de seu interlocutor, que geralmente ou sorria ou esbugalhava os olhos e discretamente ia embora, certo que falava com um louco ou um drogado. Na loucura da metrópole, seu meditar volta e meia era interrompido pelo estardalhaço dos helicópteros, no seu vai e vem levando pessoas ocupadas, que numa posição privilegiada de águias em voo, não tiravam os olhos de papéis a serem assinados ou estudados. Eram homens se complicando cada vez mais. Voar... O tigre almeja 42
  42. 42. voar? Convencia-se mais e mais da insatisfação humana, o homem era o único animal descontente consigo mesmo. Lera em algum lugar que o helicóptero era uma máquina que voava graças a forças contraditórias e bastava algum pequeno problema e tudo se destruía rapidamente sem aviso. E o comparava com as mulheres, com quem tivera pequenas experiências todas elas desastrosas, forças conflitantes a quem bastava uma pequena falha para tudo vir abaixo. Isto em tempos idos quando ainda tentava interagir com os demais para descobrir até que ponto ia sua normalidade oficial, no estranho padrão exigido pela sociedade. Desistira delas –não sem pesar- após a última, a quem -prometera a si mesmo- tratou com aplicação, sem cometer os erros anteriores apontados por iradas companheiras em queda vertiginosa e rodopiante. Tudo fora impecável por algum tempo até que, do nada, os mesmos problemas surgiram, como se repetido tivesse todos os erros, todas as falhas anteriormente lançadas em sua cara e que o deixava totalmente perplexo. Do nada o nada distorcido estava contra ele e ela era a vítima... Sentiu que finalmente estava entendendo as mulheres, um comportamento cíclico no qual pouco ou nada importava o que ele fizesse ou deixasse de fazer. Nenhum curso ou esforço bastaria para aprender a pilotá-las... Arthur, um homem-trator, máquina mais grosseira e direta, desistiu por completo daqueles seres estranhos, helicópteros de hormônios conflitantes que se desmantelavam no ar se um parafusinho afrouxasse. Descobriu que não bastava sentir a delícia do calor dos corpos, o enrodilhar-se em silêncio, a companhia 43
  43. 43. contínua, as mãos dadas, o envelhecer juntos: -Você tem que ter mais ambição, Arthur! -Não se vive de amor, Arthur! -Precisamos ter um carro! -Quero vencer sozinha! E ele concluíra que o desenvolvimento do cérebro afastara os machos e as fêmeas, que cada vez mais se transformavam em espécimes diferentes, incompatíveis. Só se lembrava delas quando o bater das pás das máquinas voadoras o tirava do quase transe observador. O mundo tornou-se assexuado para ele e ficou mais fácil de suportar, ciente que no curto voo de peixe sobre o oceano, qualquer tentativa de interação com humanos apenas tumultuaria seu efêmero planar... Cada vez mais se afastava de sua espécie e se acercava dos ditos animais irracionais. Destes, as que mais lhe ensinavam eram as formigas e também se encantava com o cão, que sabia se equilibrar entre o natural e a plena loucura dos homens, algo difícil para Arthur, que sem ser uma formiga que pode ignorar o ser humano, também não era um sábio cão. Passou a estudar os cães, conversar com eles que quase sempre lhe ouviam com atenção e as formigas, que o ignoravam solenemente. Certo dia, sentado no banco de um parque, curvado observava uma linha de formigas. Seguiam céleres pelo chão, forçando-o a desviar o pé, numa atitude condescendente de "ser superior", pensamento que logo 44
  44. 44. corrigiu com uma série de questionamentos. Olhou para seu sapato: couro, borracha, cola sintética, fibras, plástico. Meias, algodão industrializado, calças idem, cinto de couro, metal, e assim foi, desde os pés tentando resgatar toda a complicada cadeia de eventos que foram necessários para que ele estivesse simplesmente vestido. E as formigas nuas, cuidando da vida... Voltou para casa -veículos, asfalto, semáforos, postes, sinalizações- cérebro fervilhando: tijolos, cimento, telhas de barro, vidros, fios elétricos. Pensou nos relógios, celulares, óculos. E as formigas nuas indo e vindo. Passou pelo ainda imprescindível supermercado -troca de papel moeda por serviços, comida industrializada. Pegou a chave, desligou o alarme, abriu a porta de sua casa e entrou. E as formigas, todas iguais, se recolhendo ao formigueiro. Um suficiente furo na terra. Todas devidamente alimentadas, alojadas, com papel social definido em prol do bando. Olhou pela janela da sala, humanoides apressados ao fim de um dia de trabalho, disputa para um acúmulo individual inútil, já que são tão mortais como as formigas. Fechou as cortinas e abriu outra para o mundo através de um controle remoto. A televisão se iluminou e começou a falar apressadamente: as autoridades comunicam o encontro de índios isolados no distante Brasil. Distante de onde? -Arthur perguntou-se. Para os brasileiros, nós é que moramos distante, pensou com um sorriso... Fotos de satélite, sobrevoo de aeronaves. E os índios com suas malocas e plantações à volta, 45
  45. 45. descansando nas redes. Todos iguais, alimentados e alojados como as formigas, sem estudo, sem salário, sem roupa, sem problemas, a não ser os "seres superiores" já pensando em “ajudá-los” lá de cima com seus rádios, computadores... Na selva, quantas espigas de milho vale um não comestível computador? -meditava Arthur. Quantas raízes de mandioca vale um inútil avião? Com os olhos fechados aproveitando o calor do sol, o mesmo sol e calor do jardim de sua casa, o que importa um satélite? Há apenas algumas décadas atrás, não existia o imprescindível computador, o absolutamente necessário telefone celular. E os índios estavam lá, nas redes, como agora. Afinal, quem precisa cada vez mais de tantos complementos, ferramentas e assessórios para existir é um ser inferior, incompleto e que se torna mais e mais dependente, regredindo. Muito aquém das formigas e dos índios, estáveis num patamar, seres já completos... Arthur exultava com a claridade que penetrava em sua mente, como conseguia repentinamente ver-se de fora para dentro, como muitas de suas insistentes perguntas eram respondidas, e respondidas pelas formigas e pelos ditos selvagens! Assim iluminado, feliz, Arthur decidiu se despir de tudo que é caro aos humanos, quase envergonhado de sua espécie. Queria experimentar, dentro do possível e sem confrontos, um comportamento animal do qual poderia experimentar no meio humano circundante, o canino: comer, beber, passear, dormir, sempre no presente, absolutamente sem futuro previsível; ser formiga, cuidar da toca, limpa e protegida, sem supérfluos; ser uma águia, olhando de cima, visão privilegiada, a desordenada correria dos homens... Fugir das ameaças, não guardar rancor dos ataques gratuitos, 46
  46. 46. enrodilhar-se e descansar imediatamente quando vier a vontade ou o cansaço, não processar os alimentos, libertar-se dos complementos inúteis. No primeiro sábado seguinte, manhã se anunciando cheia de luz, céu azul sem nuvens a borrá-lo, a rua tranquila de classe média iria experimentar uma agitação passageira mas incomum. Na típica casa de dois pavimentos, ombro a ombro com as vizinhas, jardim bem cuidado na frente, a porta abriu-se com decisão puxada por Arthur, olhar brilhante, meio sorriso nos lábios, formigas e índios na cabeça. Respirou fundo. Colocou as mãos na cintura, ar de quem vai iniciar uma grande obra. Sumiu por uns instantes e voltou carregando a televisão e a depositou com cuidado, no limite entre o gramado e a calçada, no lugar destinado normalmente ao lixo reciclável. Retornou para o interior da residência e voltou com um eletrodoméstico. E outro, mais outro. Todos colocados em absoluta ordem, lado a lado, como numa feira de garagem. Um vizinho de frente apareceu à janela e logo a seguir sua esposa que como um cuco de relógio esticou a cabeça para fora, curiosa. Um ciclista parou e quando Arthur voltava com uma cadeira, perguntou se era uma venda. - Não - foi a resposta sucinta de Arthur, que balançou negativamente o focinho e continuou em seu vai e vem. O ciclista farejando algo no ar insistiu: -Está mudando? -Não - foi a resposta sucinta de Arthur, que novamente balançou negativamente o focinho e continuou em seu vai e vem. 47
  47. 47. O ciclista, aborrecido com a aparente falta de educação de seu interlocutor, endireitou o corpo e ia pressionar o pedal para ir embora quando pensou na terceira opção, pela qual valia a pena se aborrecer mais um pouquinho. Era um sábado morno mesmo, qualquer novidade serviria para distração em seu habitual passeio. Esperou que um pesado sofá fosse largado sobre o gramado e disparou: - Está jogando fora?! - Sim - foi a resposta sucinta de Arthur, que após um leve abano mental da cauda, continuou em seu vai e vem. Enquanto a casa era calma e metodicamente esvaziada -mesas, sofás, todos os relógios, de parede, mesa, pulso –ausências indispensáveis para a nova vida- e até mesmo talheres, o até então tranquilo ciclista se transformou, agitado. Primeiro tomou posse do bem desejado, a televisão, das grandes, que aparentava estar quase nova. Não sabia o que fazer, largou a bicicleta, colocou a TV na calçada, olhou para a bicicleta, olhou para os lados, mudou o aparelho para o meio fio e encostando-se em seus dois bens, sacou um aparelho celular da cintura e discou freneticamente. Os vizinhos da frente que aparentemente continuavam a vigiar os movimentos de Arthur, logo decodificaram a euforia do ciclista e saíram porta afora, diretos para o butim que se anunciava farto. Como o atarefado peixe- voador-canino respondera seus entusiastas cumprimentos com um abanar de cauda mental, atiraram-se ao ciclista: -Ele está jogando fora?! -Está, mas a TV -e fez uma pausa olhando para os lados- e o toca CDs são meus! 48
  48. 48. Os dois ignoraram de imediato o ciclista e atacaram o sofá de dois lugares, Chesterfield legítimo de couro e já atravessando a rua gritaram ao novo dono da TV: -As poltronas são nossas, é um conjunto! Em momentos chegou uma pequena camionete, chamada pelo ciclista, o que causou desespero ao casal que transportava já a primeira poltrona. Enquanto o marido arrastou sozinho a poltrona, a mulher cuco voltou apressada e aboletou-se no sofá restante, abraçada a um processador de vegetais, mantendo um olhar feroz para os dois que já carregavam o veículo. Em pouco tempo cerca de uma dúzia de respeitáveis cidadãos se digladiavam, com os olhos açambarcando mais do que seus braços podiam segurar, enquanto Arthur, já com a tarefa de limpar seu canil-toca-ninho concluída, deitou-se de bruços na soleira da porta, braços cruzados sob o queixo, orelhas em pé, olhos atentos e passou a observar divertidíssimo, os estranhos humanos amealhando tudo para o nada. Ali, rés ao chão deitado, tinha um novo ângulo de visão nem um pouco desfavorável como se poderia pensar. Sapatos, sandálias, pernas como máquinas de vai e vêm escravas comandadas por cérebros apressados aboletados lá em cima do corpo, que sem um plano de ação preciso transformavam uma simples reta –o caminho mais curto- numa série de idas e vindas, rodopios, marchas à ré cômicas, numa dança que assim vista confirmava ao – canino- Arthur, suas dúvidas sobre a superioridade humana. Pensou: -minhas amigas formigas fariam de maneira mais organizada e provavelmente a limpeza já estaria terminada. Em verdade quase nada levariam pois só o essencial lhes interessa... 49
  49. 49. Pouco se preocuparam com Arthur ou o cumprimentaram. Até mesmo -notou ele- procuravam não olhar em sua direção, aliás, não se olhavam como se avestruzes com a cabeça metida num buraco fossem, tentando crer que se não vissem também não eram vistos naquele saque apressado e socialmente considerado um ato de segunda classe reservado aos mais necessitados. Alguns falavam alto, sem dirigir-se a alguém específico explicando que iriam doar para pobres, para um asilo, ou que a empregada estava precisando daquele item ferozmente abocanhado. Mentalmente Arthur corria em círculos, pulava nas pessoas, saia em disparada e depois voltava repentinamente, língua de fora, ofegante. Livre, feliz, cheio de energia para gastar consigo mesmo, sem nenhum sofá social nas costas, sem ter que carregar uma camionete com pedaços de vida para remendar a sua. Estava leve como nunca experimentara antes, cada vez menos identificado com aqueles incongruentes seres cobertos de desejos, empáfia, preconceitos, avaros colecionadores de inutilidades. Depois, os respingos da agitação desapareceram e os pequenos círculos formados na superfície do Oceano Universo se dissolveram rapidamente. Apenas uma jarra de louça com formato de pera amarelada e cujo cabo imitava uma folha verde restou na calçada. Desprezada, a jarra teimava em permanecer ali como uma prostituta velha que, sem inspirar desejos, oferecia-se esperançosa em liquidação. Arthur colocou-a na cesta de materiais recicláveis com o pensamento que ali ou no centro de uma mesa, o objeto tinha a mesma falta de 50
  50. 50. função como um homem na posição de rei ou mendigo. Quimeras, nuvens que podem, por minutos, esconder o sol mas que depois se dissolvem ou passam, empurradas até por uma fraca brisa. Arthur entrou em sua toca, fechou atrás de si a barreira que mantinha os predadores do lado de fora. Percorreu com uma suavidade de felino os aposentos vazios, contemplou as paredes nuas e tudo parecia maior, mais silencioso, mais seu, mais aconchegante como se a casa o abraçasse. O sentimento era que o vazio revelava-se mais cheio, sem marcas de posse que induzissem e conduzissem o pensar. Agora era sua imaginação ilimitada que preenchia o espaço e a casa nunca pareceu tão completa, tão sua. Num canto ficara a caixa com tudo o que era pessoal de seus pais, papéis, documentos, fotos, não se achou no direito de descartá- los. Centenas de livros de política, religião, filosofia, psicologia e até psiquiatria, onde procurara, como num manual de usuário, conhecer sua espécie, embora com poucos resultados. Ferramentas de carpinteiro, algumas panelas e uns poucos talheres, pois não tinha garras suficientemente fortes para descartá-los por completo como gostaria e o velho aquecedor elétrico, uma vez que, homo sapiens, já não tinha a pelagem espessa para protegê-lo dos rigorosos invernos. Arthur não sonhava de forma inconsequente, era prático, simplificava com o objetivo de poupar-se, não de se colocar em uma situação ridícula, insustentável ou de pouca duração. Por isso não aceitara os teóricos mestres e filósofos, irreais. Num saco plástico dependurado na parede, tudo o que ainda era necessário para viver sem problemas e 51
  51. 51. confrontos com o mundo dos homens: o cartão de crédito, as contas de água e energia elétrica, os impostos urbanos, sua identidade, coleiras com que era identificado entre os cidadãos. Arthur sabia perfeitamente que deveria reservar esses 10% de homem prisioneiro de sua sociedade se quisesse viver como os ainda naturais animais sem ser considerado um louco ou -mais perigoso ainda- alguém que queira fugir das guias do Grande Passeador de Cães. Cairia irreversivelmente nas garras do Leviatã, dado como incapaz e colocado prisioneiro nas jaulas hospitalares como um objeto sem mente, sem jamais voltar a sentir o vento no rosto, respirar o ar frio das manhãs no campo, deitar-se na grama, sujar-se no barro frio, enfiar-se debaixo de uma cachoeira, pensar contemplando o azul do céu, recolher-se ao entardecer à sua toca com seu cheiro e segurança. Não se permitiria passar por demente ou inconsequente hippie, no máximo por alguém exótico quando de suas forçadas incursões ao mundo dito civilizado. Deixara um colchão de casal no centro do quarto e na sala maior uma mesinha, uma cadeira, canetas e cadernos, muitos cadernos vazios para serem preenchidos de vida. Sem que sua experiência fosse aproveitada por seus angustiados iguais, ele seria apenas mais um ser egoísta que amealha avaramente. Lamentava não ter tido habilidade suficiente para pilotar aquelas máquinas complicadas, as mulheres-helicóptero, que poderiam ter contribuído com sua visão certamente diferenciada dos homens-trator, máquinas mais rudes e diretas. Mas era muito difícil e improdutivo manter na 52
  52. 52. mesma oficina de mentes, máquinas de engrenagens não intercambiáveis que a seu ver dava prejuízos à Espécie na busca de encontrar-se e o embate macho- fêmea os distanciava das soluções. A solução, se não era exequível o intercâmbio, que, pelo menos, se somasse os resultados de ambos para o bem comum. Talvez se uma mulher um dia lesse suas anotações, sonhava Arthur... Se conseguisse passar adiante mesmo que para uma única pessoa suas descobertas, sensações, deduções e se esta pessoa em posse de tais informações pudesse pular etapas e pensar mais à frente, adquirindo mais profundidade que Arthur e, seguindo seus passos, deixar acumulado para os que se seguissem, aos poucos teriam num tempo infinito e sem pressa, uma legião de peixes-voadores conscientes de seu curto voo e da necessidade de não desperdiçá-lo com acrobacias aéreas inúteis. Queria que seus escritos fossem lidos e compreendidos, mas não queria criar uma geração de tolinhos radicais como os que têm a pretensão de julgar que o homem pode destruir o planeta, este bloco bruto que nem toma conhecimento dos arranhões humanos e climáticos em sua superfície: - Tudo o que fizermos fisicamente de bom ou de ruim não passará de um pequeno bolor sobre uma pedra, a Terra, que por sua vez não passa de uma manchinha insignificante na pele do Universo. A empáfia humana 53
  53. 53. preza realizações perecíveis em detrimento da única evolução que é a mental... Talvez num tempo tão longo que ainda inimaginável para nós, o animal homem mais consciente deixaria de se reproduzir e se dissolveria para sempre, mantendo apenas suas ondas pensantes a vagar pelo espaço, sem a carga pesada, vulnerável e desgastante do tolamente vaidoso corpo humano e seus complementos. (CONTINUA) http://ebookspamarangoni.blogspot.com.br Ebook: http://www.hotmart.net.br/produto/p2645109p/O- desventrar-do-ser-social--coletanea/---1733734-- Impresso: https://www.clubedeautores.com.br/book/181350-- O_desventrar_do_ser_social#.VP2Lel2HNpo 54

×