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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)          Dorneles, Leonardo Castro                     Os diálogos...
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AGRADECIMENTOS       Agradeço a todos que tornaram o mestrado uma experiência instigante e desafiadora.À professora Magali...
“Hoje   nos    encontramos       numa   fase     nova   nahumanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, àTerra: os p...
RESUMOEste estudo analisou a relação entre Interculturalidade e música a partir do encontro entreindígenas e não-indígenas...
ABSTRACTThis study examined the relationship between Intercultural and music from the encounterbetween Indians and non-Ind...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO ...........................................................................................................
INTRODUÇÃO       Nossa discussão surge em um cenário histórico, de colonização e barbárie contra acultura indígena latino-...
A temática central desta pesquisa será a possibilidade de uma relação interculturalentre indígenas e não-indígenas, tendo ...
possível processo de reconhecimento e de diálogo intercultural. Para tanto, o principalembasamento teórico desta analise f...
Guarani; e por último, analisar o entendimento e a importância para os indígenas do encontrogerado pela pesquisa.       No...
I REFLEXÕES SOBRE INTERCULTURALIDADE E FILOSOFIA       A Interculturalidade é um elemento fundamental nesta investigação. ...
1.1 Pensamento colonizador e a interculturalidade: Edward Said       É importante tratar, primeiramente, de compreendermos...
A possibilidade de dialogar com o outro, postulada por Said, expressa ainterculturalidade enquanto ação que busca reconhec...
somente são valorizadas, na medida em que alimentam o mercado de consumo com novos„produtos‟, provenientes deste territóri...
1. 2 Filosofia Latino-americana e Filosofia Intercultural: Raúl Fornet-       Betancourt       A universalidade – que marc...
referência as obras Interculturalidade: críticas, diálogos e perspectivas (2004) eTransformación Intercultural de la Filos...
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Assim, nem „encontro de dois mundos‟, nem „encontro de duas culturas‟ resultam                        ser expressões aceit...
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não consegue conhecer outras culturas completamente, a partir de seus pressupostos, nenhumacultura tem essa capacidade e i...
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A crítica desenvolvida pela Filosofia intercultural está diretamente ligada ao históricodo pensamento dos grupos que o pro...
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II INTERCULTURALIDADE E SUA DIMENSÃO ÉTICA COMO                  UMA NOVA PERSPECTIVA EPISTEMOLÓGICA       A investigação,...
Ao acompanharmos um pouco esta história, percebemos que no século XVIII, aestética passa a ser entendida como a ciência da...
interculturais, estabelece, através de autores que compreendem a interculturalidade comoelemento fundamental, em seus trab...
interdisciplinaridade.   Esse pensar passará, indispensavelmente, pela tradução e terá dealguma maneira, a marca das ident...
pela insegurança, pelo novo, pelo Outro, para que assim, as perspectivas envolvidas searticulem. Sobre esse lugar do filós...
utópico” no próprio método investigativo, que deve reconhecer os discursos narrativosinternos (destas diferentes comunidad...
[...] aceitar que a comunicação intercultural é sempre um produto inconstante da                         inter-conexão de ...
O encontro intercultural, ao compartilhar informações e formas de proceder no mundo,não pressupõe abrir mão das identidade...
Esta pesquisa tem, como abordagem metodológica, a Etnopesquisa. Essa não seconstitui numa metodologia científica, determin...
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Um fator relevante, para o desenvolvimento dessa pesquisa, foi o nosso contato préviocom indígenas das três aldeias Guaran...
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Trabalho relaciona música e ética a partir da perspectiva dos ameríndios M'byá-Guarani e da Filosofia Intercultural.

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEEVALE MESTRADO EM PROCESSOS E MANIFESTAÇÕES CULTURAIS LEONARDO CASTRO DORNELESOS DIÁLOGOS INTERCULTURAIS A PARTIR DA MÚSICA M’BYA- GUARANI Novo Hamburgo 2011 0
  2. 2. Universidade Feevale Mestrado em Processos e Manifestações Culturais LEONARDO CASTRO DORNELESOS DIÁLOGOS INTERCULTURAIS A PARTIR DA MÚSICA M’BYÁ-GUARANI Trabalho de Conclusão apresentado ao Mestrado em Processos e Manifestações Culturais como requisito para a obtenção do título de mestre em Processos e Manifestações Culturais. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Lurdi Blauth Co-orientadora: Prof.ª Dr.ª Magali Mendes de Menezes Novo Hamburgo 2011 1
  3. 3. DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Dorneles, Leonardo Castro Os diálogos interculturais a partir da música M‟Byá-Guarani / Leonardo Castro Dorneles. – 2011. 98 f.: il.; 30 cm. Dissertação (Mestrado em Processos e Manifestações Culturais) – Feevale, Novo Hamburgo-RS, 2011. Inclui bibliografia. “Orientadora: Profª. Drª. Lurdi Blauth “ ; “Co-Orientadora: Profª. Drª Magali Mendes de Menezes”. 1. Interculturalidade – Índios – M‟Byá-Guarani. 2. Música –Índios – M‟Byá-Guarani. 3. Etnomusicologia . I. Título. CDU 316.722(=981):78 Bibliotecária responsável: Elena da Costa Plümer – CRB 10/1349 2
  4. 4. Universidade Feevale Mestrado em Processos e Manifestações Culturais LEONARDO CASTRO DORNELES OS DIÁLOGOS INTERCULTURAIS A PARTIR DA MÚSICA M’BYÁ-GUARANI Trabalho de Conclusão de mestrado aprovado pela banca examinadora em nove dejaneiro de 2012, conferindo ao autor o título de mestre em Processos e ManifestaçõesCulturais. Componentes da Banca Examinadora: Profª Drª Lurdi Blauth Universidade Feevale Prof. Dr. Antonio Sidekum Universidade do Oeste de Santa Catarina Prof. Dr. Valdir Pedde Universidade Feevale 3
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradeço a todos que tornaram o mestrado uma experiência instigante e desafiadora.À professora Magali Mendes de Menezes, pela dedicação, sensibilidade e orientaçãoincomparáveis. À professora Lurdi Blauth, pela orientação e cordialidade. Aos professores domestrado, pelo incentivo e apoio na elaboração e organização das primeiras ideias sobre otema de pesquisa. Ao professor João Alcione Figueiredo pelo apoio e estimulo no início dosestudos. Aos colegas do mestrado, pela companhia amorosa e partilha de ideias. Ao José Cirilo Morinico, pela interlocução e convivência que possibilitaram minhasreflexões. Aos M‟byá-Guarani, que encontrei nesses últimos anos, e que deram sentido aoestudo. Pelos comentários valiosos dos professores Antonio Sidekum e Valdir Pedde, naqualificação do projeto de pesquisa. À Rosane Maria Maitelli pela correção e diálogo. Aos professores Raúl Fornet Betancourt, Ricardo Salas e Neusa Vaz, pela cordialidadee palavras de incentivo. Ao Fabiano Castro e à Altamira Castro, pela companhia silenciosa nos momentos deestudo. À Caroline Faria, pela dedicação e amor que tornaram mais leves os dias e noites deestudo. A todos que acreditam na música humana. 4
  6. 6. “Hoje nos encontramos numa fase nova nahumanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, àTerra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões.Todos trocamos experiências e valores. Todos nosenriquecemos e nos completamos mutuamente (...)" Leonardo Boff “É interessante tua pesquisa, eu vou falar comliberdade, e tu vai falar com liberdade, então é um momentointercultural. Nós estamos conversando e seria interessantesaber qual caminho poderia tomar junto.” Cirilo Kuaray 5
  7. 7. RESUMOEste estudo analisou a relação entre Interculturalidade e música a partir do encontro entreindígenas e não-indígenas. Nosso principal interlocutor foi o representante dos M‟byá-Guarani, no Rio Grande do Sul, Cirilo Kuaray, residente na aldeia Anhetenguá. Buscou-secompreender os elementos que estruturaram esse encontro, e de que maneira a música tornou-se importante para um possível processo de reconhecimento e de diálogo intercultural. Estaperspectiva foi fundamental para a defesa de uma reflexão sobre a Ética, desde a necessidadedos diálogos interculturais. Para tanto, o principal embasamento teórico desta analise foi aFilosofia Intercultural, tendo como referência o pensamento de Raúl Fornet-Betancourt eRicardo Salas, bem como os estudos sobre Etnomusicologia realizados por Deise LucyOliveira Montardo, Maria Elizabeth Lucas e Marília Stein. A metodologia utilizada foi oestudo de caso, através da aproximação com a aldeia e, em especial, com nosso interlocutor ea Etnopesquisa, compreendida como uma vivência que permite tanto pesquisador comosujeitos da pesquisa interagirem, fazendo desse modo, que a interculturalidade não surjaapenas como um elemento teórico, mas como uma compreensão investigativa.PALAVRAS-CHAVE: Filosofia Intercultural; M’byá-Guarani; Música; ÉticaIntercultural. 6
  8. 8. ABSTRACTThis study examined the relationship between Intercultural and music from the encounterbetween Indians and non-Indians. Our main speaker was the representative of M‟byá-Guaraniin Rio Grande do Sul, Cirilo Kuaray, resident in the village Anhetenguá. We sought tounderstand the elements that structured this meeting, and how music has become importantfor a possible process of recognition and intercultural dialogue. This perspective has beenfundamental to the defense of a reflection on ethics from the need for intercultural dialogue.To this end, the main theoretical basis of this analysis was the Intercultural Philosophy, withreference to the thought of Raúl Fornet-Betancourt and Ricardo Salas, as well as studiesconducted by Etno-musicology Montardo Deise Lucy Oliveira, Maria Elizabeth Lucas andMarilia Stein. The methodology used was a case study, by bringing to the village, and inparticular with our interlocutor, and Etno-research understood as an experience that allowsboth researcher and research subjects interact, thereby making that inter-culturality not toarise only as a theoretical element, but as an investigative understanding.KEYWORDS: Intercultural Philosophy; M´byá-Guarani; Music; Intercultural Ethic. 7
  9. 9. SUMÁRIOINTRODUÇÃO ........................................................................................................................9I REFLEXÕES SOBRE INTERCULTURALIDADE E FILOSOFIA ............................ 131.1 Pensamento colonizador e interculturalidade: Edward Said .............................................141.2 Filosofia Latino-americana e Filosofia Intercultural: Raúl Fornet-Betancourt ................ 17II INTERCULTURALIDADE E SUA DIMENSÃO ÉTICA COMO UMA NOVAPERSPECTIVA EPISTEMOLÓGICA .............................................................................. 312.1 Ética Intercultural................................................................................................................322.2 Etnopesquisa: uma metodologia tecida pela interculturalidade .........................................38III ETNOMUSICOLOGIA: OS M’BYÁ-GUARANI E SUA MÚSICA ......................... 423.1 Localização e população M‟byá-Guarani ......................................................................... 423.2 A música Guarani a partir da Etnomusicologia ................................................................ 47IV A MÚSICA NA EXPERIÊNCIA DE DIÁLOGO INTERCULTURAL A PARTIRDO PENSAMENTO M’BYÁ-GUARANI .......................................................................... 544.1 O encontro com os M‟byá-Guarani: refletindo a trajetória ............................................... 554.2 Aproximações do entendimento de Mba‟epú ................................................................... 714.3 Considerações sobre o Aete Guarani: principio fundamentador dainterculturalidade..................................................................................................................... 82CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 87REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 93 8
  10. 10. INTRODUÇÃO Nossa discussão surge em um cenário histórico, de colonização e barbárie contra acultura indígena latino-americana, que foi permeado por situações de crueldade e negação dadignidade dessa etnia, desde a chegada de europeus ao Brasil. Para tais colonizadores, osindígenas ora aparecem como desconhecidos e diferentes, ora como sujeitos fáceis decompreender, em sua forma de atuar e desejar. Esses dois entendimentos resultam nalegitimação da violência, para humilhar e tornar os nativos obedientes. No entanto, percebemos que esta história não faz parte apenas de um passado. Aviolência contra as populações indígenas vem, ao longo de nossa história, assumindo muitasfaces. Recentemente, testemunhamos um encontro com fundamentos semelhantes, que ficouconhecido como indigenismo no Brasil. Comumente ligado à demarcação de terras e criaçãode reservas indígenas, gerou prejuízos relevantes a uma série de comunidades indígenas.Embora pareça ter um menor impacto nessas comunidades, pois havia um inicio dereconhecimento das necessidades indígenas, o indigenismo tratava o tema indígena, a partirda ótica dos não-indígenas, desprezando aspectos relevantes dessa cultura, para efetivar açõessob a perspectiva ocidental-capitalista. Nossas interrogações emergem imbuídas deste cenário de exploração e violência quepermeou o contato das culturas indígenas com não-indígenas. Essa situação, na atualidade,gera a angústia e a miséria de uma parte significativa dos M‟byá-Guarani. A consciênciadessas injustiças é fundamental para o reconhecimento de uma dignidade inviolável -expressão utilizada por Fornet-Betancourt (2001) - que portam nossos interlocutoresindígenas. Os M‟byá-Guarani são um subgrupo indígena Guarani, de idioma guarani da famílialinguística tupi-guarani, de tronco tupi. Junto com os Kaiová, Nhandeva e Chiriguano formamo grande grupo Guarani, com provável origem amazônica, de há mais de 3.000 anos.Atualmente, possuem uma população aproximada de 34.000 indivíduos, com cerca de 2.000no Rio Grande do Sul, alojados em 20 aldeias (LUCAS, STEIN, 2009, p. 21). 9
  11. 11. A temática central desta pesquisa será a possibilidade de uma relação interculturalentre indígenas e não-indígenas, tendo a música como um elemento fundamental desseencontro. Desde esta perspectiva, pretendemos pensar uma Ética Intercultural permeada,fundamentalmente, pela musicalidade indígena, buscando responder a seguinte questão:podemos pensar o encontro entre indígenas e não-indígenas, através da música comoexperiência de diálogo intercultural? Para darmos conta desta problemática, necessitávamos compreender o caminho queiriamos percorrer na própria elaboração e configuração deste diálogo com os indígenas. Aquestão metodológica sempre se apresentou como um desafio, pois pensar o caminho era, dealguma forma, pensar a pesquisa e seus diferentes resultados e implicações. Havia, por isso,uma opção prévia, necessária a todo aquele que inicia um processo investigativo: aEtnopesquisa. A possibilidade de abertura, presente nesta metodologia, nos fornecia ascondições, para que pudéssemos viver este diálogo, aproveitando seus “imprevistos”, aquelesacontecimentos que são fundamentais e que nós, enquanto pesquisadores, não poderíamosdeixar passar despercebidos. Tudo, de alguma forma, falava (mesmo que fosse o silêncio) enos fornecia elementos para que, cada vez mais, pudéssemos compreender a dimensãoprofunda que assume a música nesta cultura. Foi, desse modo, que a pesquisa assumiucaminhos desenhados, no exato momento do diálogo. Assim, foi configurando-se comoprincipal interlocutor desta pesquisa, o cacique Cirilo Kuaray, representante dos M‟byá-Guarani no Rio Grande do Sul. Na compreensão das propostas da escolha metodológicapresentes na Etnopesquisa, percebíamos que se fazia necessário pensar, também, osinstrumentos de coleta de dados que nos aproximariam daquele que se tornou a fonte centraldesta investigação. As observações, resultantes de várias visitações à aldeia Guarani e asentrevistas gravadas com o cacique foram, aos poucos, incorporando elementos de um Estudode Caso. Esta forma de inserção no campo trouxe, juntamente com a Etnopesquisa, umaabertura fundamental para compreendermos, de forma mais profunda, a realidade destacomunidade. Através dos depoimentos desta importante representação da cultura Guarani,buscou-se compreender o contexto de uma realidade que atravessa a leitura de um sujeito,mas que ao mesmo tempo, nos fornece elementos ricos para pensarmos esta realidade comoum todo. A música foi o elemento fundamental da investigação, ressaltando, assim, aimportância da arte na cosmovisão desses indígenas. Buscaremos compreender os elementosque estruturaram esse encontro e, de que maneira a música tornou-se importante em um 10
  12. 12. possível processo de reconhecimento e de diálogo intercultural. Para tanto, o principalembasamento teórico desta analise foi a Filosofia Intercultural, tendo como referência opensamento de Raúl Fornet-Betancourt (2001 e 2004), Ricardo Salas (2003 e 2007). No quetange aos aspectos referentes à importância da música na cultura M´byá-Guarani, tomamoscomo referências principais, as investigações de Deise Lucy Montardo (2002), MariaElizabeth Lucas e Marília Stein (2009). A reflexão sobre esse tema é relevante, na medida em que ainda vivemos um profundodesrespeito e desconhecimento da cultura indígena. Ao refletir sobre uma pesquisa queexpressa o diálogo da Universidade com as comunidades indígenas, destacamos ocompromisso que a Academia deve ter com as problemáticas de nosso tempo. Esta pesquisa,ao pensar o encontro a partir da música, propõe um elemento novo dentro do debate sobre ainterculturalidade, principalmente da Filosofia Intercultural. É desse modo, que fazemos adefesa da dimensão ética permeada, fundamentalmente, por uma dimensão estética presentena cultura. E foi essa reflexão que nos ajudou a pensar os diálogos interculturais a partir denovos elementos. Desse modo, enfatizamos que, com essa pesquisa, buscamos compreender oselementos que estruturaram o encontro do pensamento M‟byá-Guarani, a partir do exercíciodo diálogo de um indígena, com um pesquisador. Ou seja, a reflexão sobre todo o processo depensar a problemática, desde o dialogo com esse indígena, foi uma importante fonte dainvestigação. Mais do que pensarmos um resultado ou uma resposta à problemática, queremosentender como respondermos a nossa pergunta essencial, desde esse diálogo entre duasculturas, que foi permeado por tensões, negociações e traduções. Destacamos, também, que a proposta da pesquisa, embora fosse interdisciplinar(princípio importante para pensarmos a interculturalidade), está essencialmente localizada nocampo filosófico. Buscou-se constituir considerações conjuntas que respeitassem asidentidades envolvidas e que originassem um pensamento intercultural fundamentado naparceria fraterna, entre pesquisador e interlocutor. Para o desenvolvimento da investigação, elencamos os seguintes objetivos: reconheceros princípios que permeiam e fundamentam a Filosofia Intercultural; analisar a concepção esignificado da música, na cosmologia M‟Byá-Guarani; identificar as percepções eressignificações culturais produzidas nas relações entre os indígenas, a partir da construção eefetivação de nossa proposta de refletir as implicações da música, no cotidiano desses 11
  13. 13. Guarani; e por último, analisar o entendimento e a importância para os indígenas do encontrogerado pela pesquisa. Nossa investigação foi construída, a partir dos pressupostos da Filosofia Intercultural eEtnopesquisa que, em nosso ponto de vista, possibilitaram uma epistemologia legitimadora daforma do Outro atuar, bem como de todo encontro gerado pela presente pesquisa. Tecemosnossas considerações, na busca dos objetivos citados, imbuídos dessa perspectiva quedetalhamos, nos primeiros capítulos, através de subsídios da Filosofia Intercultural para, dessemodo, enfrentarmos as problemáticas que surgiram, no decorrer de nossa trajetória, com ointuito de responder nossa questão central. Nosso desafio foi o de conviver com os M‟byá,pensando profundamente as ações geradas, nesse encontro, seus significados e a forma comofoi construído o diálogo. 12
  14. 14. I REFLEXÕES SOBRE INTERCULTURALIDADE E FILOSOFIA A Interculturalidade é um elemento fundamental nesta investigação. Mas, aotrazermos o debate sobre a interculturalidade, não pretendemos abarcar a imensa bibliografia,existente sobre este tema, que emerge de diferentes campos, como a Antropologia,Sociologia, Educação, entre outros. Trazemos aqui, para pensar a interculturalidade, osestudos realizados pela Filosofia Intercultural. Tal opção teórica parte da necessidade depensarmos a interculturalidade, desde a perspectiva Ética. Nesse sentido, acreditamos que aFilosofia Intercultural traz importantes contribuições para essa reflexão. Para tanto, faz-seimportante compreendermos de que maneira surge a reflexão sobre a interculturalidade dentroda Filosofia. A interculturalidade surge como um elemento problematizador e de análise da própriahistória do pensamento latino-americano, referência importante para pensarmos a FilosofiaIntercultural. A filosofia latino-americana assume novos questionamentos a partir dainterculturalidade, que passa a repensar em sua origem, o pensamento desde o contextocultural, possibilitando a reflexão sobre novas racionalidades e perspectivas éticas.Buscaremos, desse modo, explicitar e problematizar a seguinte questão: de que maneira ainterculturalidade possibilita repensar o sentido da Filosofia, compreendida aqui, como umareflexão que emerge desde uma cultura ocidental? Para isso, desenvolveremos, também,algumas considerações sobre as compreensões da filosofia e a necessidade de uma filosofialatino-americana, que reconheça a diversidade e singularidade de nossos povos. Mostraremosque o discurso sobre a Filosofia Intercultural surge da constatação de um caráter intercultural,como elemento fundamental e necessário para pensarmos uma filosofia libertadora latino-americana. Posteriormente, analisaremos os pressupostos da filosofia intercultural e aproposta de uma Ética intercultural que serão, mais adiante, pontos fundamentais para aanálise do encontro intercultural. 13
  15. 15. 1.1 Pensamento colonizador e a interculturalidade: Edward Said É importante tratar, primeiramente, de compreendermos uma visão de cultura que seafirma a partir de uma ideia de superioridade cultural, visando subjugar o outro. Tomaremoscomo referência, neste momento, a investigação de Edward Said (2007), na obraOrientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, na qual o autor elabora uma análise dasuperioridade cultural do ocidente, representada na ação européia no Egito. Partimos desseestudo para compreendermos a problemática da interculturalidade, pois essa obra, ao mesmotempo em que descreve um pensamento colonizador – denominado orientalismo - elaborauma crítica a esse pensamento, afirmando ser o orientalismo uma invenção do ocidente quedespreza a perspectiva dos nativos. Dessa forma, seus postulados estão imbuídos de questõesinterculturais que explicitam a distância entre uma perspectiva colonizadora e a possibilidadede diálogos interculturais. Said define o Orientalismo como o conhecimento do Oriente, constituído a partir doimaginário de estudiosos ocidentais. Formalmente surgido em 1312, e, embora os traços dessaperspectiva sejam encontrados no pensamento mítico grego, sobretudo nas obras de Homero,seu desenvolvimento efetivo ocorre durante o século XIX. O Orientalismo é uma perspectivapolítica que discrimina o Oriente do Ocidente, sendo o primeiro inferior ao último. Esseconhecimento atinge seu auge pela metade do século XIX, quando é concebido como umvasto tesouro da erudição, tendo assim, assumido o status de disciplina acadêmica. O Orientalismo tem como característica relevante, o pensamento binário, quediferencia os orientais - tidos como portadores de mente imprecisa e carente de simetria,raciocínio descuidado, sem energia e iniciativa - dos europeus, possuidores de um raciocíniológico natural, cético, de inteligência treinada. Apesar de se autodenominarem conhecedoresdo oriente, notamos que tais considerações evidenciam um pensamento que não investiga asperspectivas dos nativos e suas formas de compreender o mundo; ao contrário, constroem talconhecimento sem dialogar com esses sujeitos. Said critica essa postura a partir da atuação deum dos representantes do Orientalismo afirmando que: Não ocorre a Balfour, entretanto, deixar que o egípcio fale por si mesmo, já que é mais provável que qualquer egípcio disposto a falar seja „o agitador que quer criar dificuldades‟, e não o bom nativo que faz vista grossa às „dificuldades‟ da dominação estrangeira (SAID, 2007, p. 64). 14
  16. 16. A possibilidade de dialogar com o outro, postulada por Said, expressa ainterculturalidade enquanto ação que busca reconhecer a existência de outra perspectivalegítima, nesse caso, a dos nativos egípcios. É a partir de sua crítica às iniciativas culturaiseuropeias, no Egito, que percebemos traços fundamentais para pensarmos a interculturalidadeque se expressam: no reconhecimento da validade da perspectiva do outro, na incontestávelexistência da tradução, no reconhecimento da dignidade intocável dos diferentes, napreservação das identidades e da humanidade que participam de um encontro intercultural. Said elabora a seguinte questão sobre a possibilidade de preservar o sentido dehumanidade, na relação entre oriente e ocidente: Será possível dividir a realidade humana, assim como a realidade humana parece ser dividida, em culturas, histórias, tradições, sociedades, até raças claramente diferentes, e sobreviver humanamente às consequências? Será possível evitar a hostilidade expressa pela divisão dos homens em ocidentais e orientais? (SAID, 2007, p. 80) Estas questões, elaboradas por Said, declaram oposições e antagonismos encontradosna concepção do Orientalismo, elementos que impossibilitam uma relação humana –portadora de justiça – e constituem a hostilidade que se expressa em uma relação deexploração e, consequente, coisificação dos egípcios. Portanto, não é possível fazer a defesade um sentido de humanidade, a partir de uma abordagem que tem como fundamento utilizaro conhecimento (Orientalismo) para dominar, explorar e reduzir o outro a objeto gerador delucro. Na perspectiva orientalista, o conhecimento é o pressuposto para a dominação donativo. Ele é constituído pelo exame de uma civilização, desde as suas origens ao seu apogeue declínio, e é gerador de supremacia, possibilitando o domínio e autoridade sobre o objeto e anegação da autonomia. Assim, segundo Said, os países orientais existem, num certo sentido,como o ocidente os conhece, sendo o Orientalismo “o conhecimento do Oriente, que coloca ascoisas orientais na aula, no tribunal, na prisão ou no manual, para escrutínio, estudo,julgamento, disciplina ou governo” (SAID, 2007, p. 74). Analisando este conhecimento que sustenta um processo de dominação, podemosverificar a negação ou distanciamento de uma abordagem que considere e reconheça aexistência de um conhecimento nativo fundamentado em outra perspectiva, capaz de produziroutra cosmologia, concepção de mundo, de humanidade, de natureza. Essas diferenças 15
  17. 17. somente são valorizadas, na medida em que alimentam o mercado de consumo com novos„produtos‟, provenientes deste território „exótico‟ que, muitas vezes, representa o Oriente.Não interessa aos colonizadores (e aqui podemos falar de novos processos de colonização)qualquer manifestação contrária ao movimento colonizador (civilizador). Estas manifestaçõessão vistas como uma expressão inconveniente, ofensiva e atrasada em relação à ideia deprogresso contida nesse processo. Os colonizadores europeus causaram prejuízos relevantes aos nativos, a partir de suascertezas absolutas, subjugando aqueles que discordavam de sua leitura minuciosa do oriente.Said afirma que: “A verdade, em suma, torna-se uma função do julgamento erudito e não dopróprio material que com o tempo parece dever até a sua existência ao orientalista” (Said,2007, p.107). As codificações orientalistas convencem o leitor ocidental não iniciado(consumidor do Orientalismo como conhecimento institucionalizado do Oriente) e, assim, aprópria concepção do Oriente é propriedade do Orientalismo. O termo material utilizado porSaid se refere ao Oriente, que deve sua própria existência àquele que o descreve, oorientalista. Consideramos que o pensamento colonizador se constitui, dentro dessa perspectiva,num movimento de expansão do pensamento próprio de um local, que se torna hegemônico,em vista da dominação de outros grupos humanos portadores de pensamentos distintos. A interculturalidade vai de encontro a essa visão e postula a existência de outrasperspectivas legítimas de pensar o mundo. A ausência de reconhecimento constatada por Saidevidencia o desprezo à forma de agir dos nativos egípcios por parte dos europeus. Ainvestigação desenvolvida por este autor – especialmente sua crítica ao orientalismo – jáanuncia alternativas que podemos chamar de interculturais, pois problematiza a posturaetnocêntrica e dominadora do Ocidente sobre o Oriente. Esta analise, realizada por Said, pode ser transposta para pensarmos a própria historiada Filosofia. É possível percebermos que o pensamento ocidental sempre foi um exercício queteve como característica marcante a hegemonização de um modo de ver o mundo. É sobreesta história que buscaremos agora tecer algumas análises. 16
  18. 18. 1. 2 Filosofia Latino-americana e Filosofia Intercultural: Raúl Fornet- Betancourt A universalidade – que marca o pensamento (logos) grego – é um elemento relevantena constituição da reflexão da cultura ocidental. Este aspecto delineou fundamentos queserviriam para o entendimento de qualquer comunidade, tendo assim, em sua essência, aimposição de uma forma de conceber o mundo, desprezando outras cosmologias e formas depensar e constituir suas práticas cotidianas. Neste sentido Leopoldo Zea (2005, p.51) nos dizque o logos grego introduz um modo de pensar e organizar o mundo, em que tudo que escapaa esta ordem passa a ser considerado bárbaro. Donos do logos, é esta a única expressão possível da ordem. Qualquer outra expressão resulta bárbara, isto é, balbuciante, mal dita, mal expressa [...]. Centros de poder e, à margem, homens ou povos que não sabem ou não podem se expressar em um logos que não lhe seja próprio. Os outros são os mal falantes e, portanto, entes que devem ser submetidos. (ZEA, 2005, p. 51) Assim, esses pressupostos ocidentais, não reconhecem diferentes percepções demundo, como dotadas de racionalidade, de expressão, uma vez que estas não sustentam umapercepção legítima do viver humano. Toda e qualquer outra percepção apenas balbucia ideias.Trataremos de aprofundar a crítica a esse entendimento, no âmbito filosófico, a partir dacompreensão da necessidade em pensarmos uma Filosofia latino-americana e, posteriormente,intercultural. Os filósofos latino-americanos que traremos para nossa discussão partem daindagação sobre até que ponto a historia da Filosofia não se traduziu em um pensamentoeurocêntrico e hegemônico. Compreende-se por América Latina o conjunto de países onde se fala português,espanhol e francês e que abriga uma imensa diversidade de pensamentos, cosmologias eformas de atuar no mundo. No entanto, mesmo diante desta diversidade cultural,corroboramos com a perspectiva da filosofia intercultural, que afirma o desprezo dospensamentos nativos e, o não reconhecimento destes, como formas legítimas de racionalidade.Mesmo na busca da constituição de um pensamento legítimo latino-americano, a diversidadede concepções e lógicas nativas não foram consideradas nos estudos filosóficos latino-americanos. Buscaremos explicitar, neste momento, essa problemática tomando como 17
  19. 19. referência as obras Interculturalidade: críticas, diálogos e perspectivas (2004) eTransformación Intercultural de la Filosofía (2001) de Raúl Fornet-Betancourt, na qualencontramos uma descrição crítica de elementos e fatos fundamentais da história da filosofialatino-americana e da importância da interculturalidade nessa Filosofia. A Filosofia latino-americana buscou a constituição de um pensamento próprio que setornasse cada vez mais independente dos fundamentos do pensamento europeu e colonizador.Portanto, é constante nessa Filosofia a real conquista pela independência através davalorização de um pensamento latino-americano, ou seja, a necessidade de umadescolonização do próprio pensar. Para tanto, buscou-se a compreensão sobre a forma de serlatino-americana, que tornasse possível o projeto de libertação da América Latina, quenecessariamente necessitava passar por uma libertação do próprio pensamento, na relaçãocom o Outro. Destacamos que, embora o início desta Filosofia seja marcado por traços da Filosofiaeuropéia e inexista o diálogo com as culturas autóctones, percebemos que este pensamentoserá fundamental para o desenvolvimento de uma reflexão sobre interculturalidade no âmbitoda Filosofia. É desse modo, que se verificará, nas investigações posteriores (analise que serádesenvolvida mais adiante) de pensadores fundamentais para a América Latina, uma “guinadapara a interculturalização da Filosofia”, como denomina Fornet-Betancourt (2004). Um pensador importante que reflete a Filosofia a partir do reconhecimento dadiversidade da América foi José Martí, postulando uma América Latina de todos, incluindoameríndios e afro-americanos. Raúl Fornet-Betancourt (2004), ao referir-se a José Martí,enfatiza o pensamento desse autor como fundamental na constituição de uma filosofia latino-americana. O termo “Nossa América”, utilizado por José Martí, expressava a ideia detransformação social, política e econômica, que postulava a possibilidade de autonomia dospovos oprimidos e sua consequente libertação cultural. “La universidad europea ha de ceder ala universidad americana. La historia de América, de los incas acá, ha de ensiñarse al dedillo,aunque no se enseñe la de los arcontes de Grecia. Nuestra Grecia es preferible a la Grecia queno es nuestra”(MARTÍ, 1891). Oposta ao colonialismo, essa perspectiva compreendia “Nossa América” como “[...]novedad histórica; novedad a fraguar en su perfil concreto en la lucha histórica por la 18
  20. 20. emancipacíon política y económica, así como por la liberación cultural de los pueblos todosque la componen” (FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 74,75). José Martí vislumbrava um horizonte, onde os povos latino-americanos, convictos desua autonomia cultural, dialogassem entre si, na construção de uma unidade latino-americana.Fornet–Betancourt afirma a importância do trabalho de José Martí, como propulsor do desafiode buscarmos novos caminhos, no âmbito cultural e filosófico da história da América Latina edestaca, assim, a necessidade de repensarmos a história do pensamento latino-americano,superando a visão monocultural que sustentou a Filosofia clássica. Fornet-Betancourt (2004) vem, ao longo de sua reflexão, mostrando de que maneira adiscussão sobre interculturalidade atravessa a Filosofia latino-americana, a partir do momentoem que esta, busca pensar outra relação entre dois mundos, que não a do colonizador ecolonizado. Desse modo, faz referência a uma série de pensadores que afirmam essa ideia: [...] Francisco Bilbao (1823-1865) que opõe à “unidade da conquista” um novo tipo de unidade que deverá estar baseado no respeito às diferenças e conduzir assim a consecução da “fraternidade universal” [Bilbao, 1993, p.55]; de Eugenio Maria de Hostos (1839-1903) que denuncia o crime que dignifica fazer o índio, o africano ou o chinês, solidários de “uma civilização que não compreendem”, de Pedro Henriquez Ureña (1884-1946) que, desde sua visão de uma universalidade (REVER) não desgastada, propõe como ideia-força para a criação da cultura latino-americana esta norma:” Nunca a uniformidade, ideal de imperialismos estéreis; sim a unidade, como harmonia das multiples vozes dos povos”; ou de José Martí (1853-1895) que acaso com mais clarividência que nenhum outro soube articular em sua obra o apelo de compreender e reorganizar a América Latina desde sua real constituição intercultural (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 19,20). Uma marca fundamental de avanço significativo da Filosofia latino-americana é a nãoaceitação do entendimento de um encontro natural entre europeus e latino-americanos; aocontrário, afirma a barbárie como meio de impor uma forma de pensar e agir legitimadora daexploração, por parte dos europeus. Sobre isso, o filósofo faz referência ao pensamento deEnrique Dussel: Digo que falar sobre „encontros‟ é um eufemismo [...] porque oculta a violência e a destruição do mundo do outro, e da outra cultura, foi um „choque‟ e um choque devastador, genocida, absolutamente destruidor do mundo indígena. (DUSSEL, 1992, p.75 apud FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 53). Essa ideia também está presente no pensamento de Arturo A. Roig: 19
  21. 21. Assim, nem „encontro de dois mundos‟, nem „encontro de duas culturas‟ resultam ser expressões aceitáveis, em particular se tem presente a desigualdade de relação entre os pretendidos „mundos‟ e „culturas‟, submetidos ao contrário do que se quer significar, a saber, a „aculturação‟, fenômeno que em suas formas extremas chegou aos limites de „morte cultural‟ e, em tal sentido, de etnocídio (ROIG, 1994, p.15 apud FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 39). Não é suficiente, então, pensarmos o encontro entre culturas, mas fundamentalmente,o que caracteriza um verdadeiro encontro. Enrique Dussel, expoente importante deste pensamento, propõe uma nova relaçãoentre América Latina e Europa. Para tal, explicita a necessidade de uma “reação da filosofialatino-americana, ante o desafio da conjuntura histórica, criada pelos 1992”, como comentaFornet-Betancourt (2004, p. 50). Data essa que marca, o que autor afirma, ao referir-se àinterculturalidade emergente: “[...] emergencia consciente de tradiciones de pensamiento quehan sido sepultadas o marginadas por la dinámica de expansión imperial de un logosmonocultural que há tratado de uniformar la historia de la filosofía (2001, p. 57). Enrique Dussel é o precursor de uma importante virada da filosofia latino-americana,pois sua proposta defende um pensamento genuinamente próprio. Essa proposta tratou deafirmar a necessidade do reconhecimento e desenvolvimento de pressupostos filosóficoslatino-americanos. No entanto, segundo Fornet-Betancourt (2004), Dussel não pensa a interculturalidadeentre os latino-americanos, constituindo assim, uma proposta singularizante e homogênea dospovos que habitam este território. É inegável a importância de seus estudos que constituem aFilosofia da Libertação, pois sua investigação é o primeiro movimento, de tomada deconsciência, de uma filosofia que deve acompanhar o processo de libertação dos povos latino-americanos. Dussel defende uma América ameríndia que deve sair do encobrimentoeurocêntrico (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 57). Porém, na visão de Fornet-Betancourt, Dussel não relativiza a própria noção de racionalidade européia e a possibilidadede outras racionalidades, como a ameríndia, mantendo-se dentro de uma perspectiva filosóficatradicional. É o que podemos perceber na afirmação de Dussel, ao referir-se aos ameríndios: O que não tinham, de maneira explicita e „técnica‟, era filosofia. Se por filosofia se entende o discurso metódico que se iniciou historicamente com o povo grego e cuja estrutura intrínseca vem definida pelo uso de instrumentos lógicos, ou mediações metódicas perfeitamente reconhecíveis, no que explicitamente se denomina história 20
  22. 22. da filosofia, não houve filosofia ameríndia (Dussel, 1994, p.27 apud FORNET- BETANCOURT, 2004, p. 62). Fornet-Betancourt considera, finalmente, que Dussel, embora mais tarde realize umaautocrítica a esse seu argumento, olha as culturas ameríndias a partir de pressupostos dafilosofia eurocêntrica. Para o autor, cada grupo tem sua cosmologia e autodeterminação, o quepossibilita pensarmos outras concepções de Filosofia e, consequentemente, a necessidade dainterculturalidade na Filosofia. Seguindo a análise da obra de Fornet-Betancourt, encontraremos pensadores que têm ainterculturalidade como marca relevante em seus estudos. As perspectivas mais recentes da Filosofia, que enfatizam a interculturalidade, sãorepresentadas por filósofos ainda pouco conhecidos (principalmente no Brasil). Essesconstituem uma corrente de pensamento, que expressa pressupostos fundamentais da FilosofiaIntercultural e nos dão aporte para pensarmos uma Filosofia que contempla a diversidade ereconhece os pensamentos nativos como dotados de potencial para determinarem sua ação nomundo e seu “que fazer filosófico”, conforme comenta Fornet-Betancourt (2004). Éimportante destacar que Fornet-Betancourt, compreende a cultura como algo que: [...] não significa uma esfera abstrata, reservada à criação de valores espirituais, e sim o concreto pelo qual uma comunidade humana determinada organiza sua materialidade com base nos fins e valores que quer realizar. Em outras palavras, o autor nos diz que não há cultura sem materialidade interpretada ou organizada por fins e valores representativos e específicos de uma sociedade ou etnia humana. Nos grupos humanos em que as metas e os valores, pelos quais se define essa comunidade, tem incidência na organização social do grupo, manifestos no contexto material próprio. Nesse grupo, há uma cultura própria. A cultura abrange mais do que os “nobres valores” do saber teórico, da religião e da arte, como equivocadamente alguns creem [sic] (VAZ E SILVA, 2009, p. 47/48). Esse entendimento de cultura é essencial para compreendermos um ponto fundamentalda filosofia intercultural: os contextos, com suas práticas que constituem o sentido do viverem comunidade, expressando formas diversas de pensar, e estas não são desveladas apenaspor uma única ideia de cultura. Essas práticas cotidianas constituem a realização concerta deuma comunidade e formam uma cultura, vista aqui não mais como representação homogêneade um coletivo, mas como composta por uma diversidade. A complexidade dessas lógicasestá na sua materialidade, na concretização de seus projetos de vida, constituídos na esferacoletiva. Mesmo postulando os pressupostos universais, a partir dos diálogos interculturais, ainterculturalidade reconhece a limitação epistemológica que caracteriza uma cultura, pois esta 21
  23. 23. não consegue conhecer outras culturas completamente, a partir de seus pressupostos, nenhumacultura tem essa capacidade e isso exige uma postura humilde diante do outro. Auniversalização é possível no intercâmbio, que prioriza a preservação das identidadesenvolvidas e reconhece o histórico de exploração dos povos latino-americanos. Poderíamosdesse modo, diferenciarmos dois movimentos de um processo de universalização: umauniversalidade hegemônica, que se afirma no desprezo violento ao Outro, e umauniversalidade sempre negociada, que se fundamenta em condições necessárias para o diálogointercultural . Portanto, a universalização surge na instância intersubjetiva, não é propriedadede uma cultura. Fornet-Betancurt nomeia esse movimento de “[...] un nuevo saber, un saberintercultural del mundo y de la historia que sabe aprender de nuevo, y que, por ello aprende,entre otras cosas, que universalizar no es expandir lo proprio sino dialogar con las otrastradiciones [...]” (FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 17). A Filosofia contextualizada intercultural critica a Filosofia profissionalizada, que éconcebida como propriedade da academia e dos filósofos profissionais. Esta concepção deFilosofia é distorcida e exclui outras formas de entendimento do que é Filosofia. Propõeentão, um fazer filosófico intercultural, que surge da reflexão crítica de nossos tempos emparceria com o Outro. Esta se configura, na ausência de expansão de um único pensamento,na cooperação mútua das racionalidades autônomas e no reconhecimento da dignidadeinviolável que constitui cada cultura. Essa Filosofia critica a hegemonia e postula uma nova forma de constituir a Filosofia,a partir de duas dimensões: metodológica e hermenêutica; e a transformação libertadora domundo histórico latino-americano. Há, nesse entendimento, a substituição da ideia deFilosofia unilateral, que estabelece critérios próprios e fechados a partir de um ponto de vista,pela Filosofia contextual e intercultural, que se constitui no diálogo que atinge os povosexcluídos e reconhece estes como diferentes, com os mesmos direitos que têm todas asculturas. Assim, a própria diversidade é uma propagadora da universalização – instânciaimportante para o estabelecimento de uma ética intercultural que não privilegia uma cultura.Essa postura impede o encontro violento e não se constitui como ação de vingar a barbárieperpetrada em nossa América Latina, ao contrário, postula uma Filosofia para todos, que sefundamenta numa proximidade fraterna. Contudo, não dá as costas para situações deexploração e para a realidade de um mundo globalizado e neoliberal, que privilegia ospoderosos, as grandes corporações e os governos injustos e corruptos. Portanto, a filosofiacontextualizada intercultural é, 22
  24. 24. [...] una propuesta que invita a transformar la filosofía que hacemos en un saber que sepa ejercerse como teoría y prática de proximidad entre los seres humanos y sus culturas en el mundo de hoy, para que ése nuestro sea realmente nuestro mundo, un mundo del nosotros. (FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 20). A capacidade dos latino-americanos, em pensar a diversidade de suas realidadesculturais, deve ser percebida a partir do reconhecimento do Outro, que representa tanto aalteridade de sujeitos de uma mesma cultura, como de culturas distintas que compõem aAmerica Latina. Assim, a interculturalidade fundamenta-se na alteridade e reconhece adiferença e dignidade daqueles que são próximos e distantes de seu contexto e história. Nessaperspectiva configura-se outro pensar: Pensar seria, assim, um ato de comunhão, e não de objetivação nem de definição, que leva a cabo, por certo, não o famoso sujeito cartesiano dominador e possuidor da natureza, senão justamente um “sujeito comunitário” [Picotti, 1990, p.15] que conhece em e desde a memória histórica da comunidade. Mais ainda, trata-se de um pensar que atualiza o comunitário e se configura como consciência histórica da comunidade, que faz e funda a comunidade (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 99). O contexto e o arraigo de uma comunidade constituem e são constituídos pelo pensar,que, na investigação de Dina Picotti - expressiva filósofa citada por Fornet-Betancourt (2004)na guinada para a interculturalização da Filosofia - afeta a instância comunitária e produz umatomada de consciência da legitimidade de sua história. A troca dessas experiências é umfenômeno que ocorre no espaço interlógico, que seria “o âmbito da comunicação intercultural,do intercâmbio entre as muitas expressões contextuais do filosofar ou do pensar” (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 102). Portanto, nessa concepção, a mestiçagem não é controladapelas elites ocidentalizadoras, mas é entendida como unidade na alteridade que assimilatermos diferentes. Compreendemos que o desafio de investigar uma cultura, a partir de sua própria formade ser, é constituído por uma complexa junção de elementos que exigem a constante revisãoda forma de agir, diante das descobertas e considerações oriundas do encontro de culturasdistintas. A interculturalidade configura-se, assim, como um aporte teórico para a discussãosobre as possibilidades de uma relação justa entre seres humanos e, ao mesmo tempo,problematiza, radicalmente, encontros que, aparentemente, parecem interculturais, mas, na 23
  25. 25. verdade, fundamentam-se em premissas colonizadoras, defensoras de uma única ideia decultura. Assim, Fornet-Betancourt afirma como um dos fundamentos da interculturalidade aconsciência de que existe, no Outro, uma forma de compreensão e atuação no mundo, que nosdesafia e aponta diferenças. Ao contrário de uma perspectiva colonizadora, deve haver oreconhecimento recíproco entre os sujeitos de cada cultura. Povos que defendem sua diferença, que mobilizam a vitalidade de suas tradições e afirmam a diversidade, são povos que demonstram, com sua simples presença, que na América Latina, história e cultura se gestam no plural e que, por consequência, há que contar com eles tanto na interpretação como no desenho da América Latina (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 29). É necessário enfatizar que o encontro intercultural pressupõe a legitimação de todas asidentidades envolvidas, ou seja, um pesquisador, ao encontrar-se com um nativo ameríndio,por exemplo, não incorpora a cultura ameríndia para facilitar sua aproximação ecompreensão. Ao contrário, conserva sua forma de pensar e atuar, ao mesmo tempo em quebusca dialogar com a ótica do Outro. Não há aculturação de nenhuma das partes, mas sim, aafirmação da diferença, como pressuposto da convivência pacífica e cooperativa, que preservaessas culturas que se encontram e não aceitam qualquer tipo de violência. Sobre o encontroentre indígenas e não-indígenas e a possibilidade de estabelecer uma parceria igualitária – queem nosso entendimento, constitui-se por elementos semelhantes aos pressupostos da FilosofiaIntercultural -, nosso interlocutor, M‟byá-guarani, afirma que: “É interessante tua pesquisa, euvou falar com liberdade e tu vai falar com liberdade, então é um momento intercultural. Nósestamos conversando e seria interessante saber qual caminho poderia tomar junto” (CIRILO,Entrevista, 18.07.2011). O argumento do Cirilo revela a vontade de pensar coletivamente, apartir da liberdade recíproca, a constituição de uma ação prática que beneficie a comunidadeGuarani, da qual é representante. No entanto, esse indígena tem consciência da importância desuas informações, para a pesquisa, e que esta trará benefícios para o pesquisador Juruá (não-indígena). Esta percepção, sobre o diálogo intercultural, se dá no exercício deste diálogo. Portanto, a negação da superioridade entre culturas é uma marca fundamental dainterculturalidade. Há a preservação das formas de pensar e agir no mundo e oreconhecimento da impossibilidade de um pensamento único que une duas ou mais culturas.Este não é o pressuposto de uma convivência pacífica, uma vez que gerá-lo é abrir mão de sua 24
  26. 26. cosmologia, ou impor sua lógica ao outro. Portanto, o fundamento do viver juntos é aafirmação da própria diferença. No entanto, é nesta afirmação que se encontra nosso desafio, ou seja: como o diálogointercultural afirma as diferenças e cria, ao mesmo tempo, uma instância neste diálogo queseja comum e que, justamente, possibilite a compreensão? Há, na interculturalidade, a consciência de um histórico de primazia do pensamento,calcado numa lógica ocidental capitalista, que se autolegitima e julga-se superior. Essapostura, eurocêntrica, considera as formas de pensar e agir dos povos nativos, como menorese deficientes. Pensar, a partir da interculturalidade, as formas de ser latino-americanas é,também, buscar a transgressão do pensamento etnocêntrico, adotando uma postura que vai àcontramão do pensamento hegemônico e europeu. Ao mesmo tempo - sobretudo quando serefere ao campo da ética - a interculturalidade reconhece um histórico de racionalidadesdiversas e autônomas, latino-americanas, que constituem sua realização nas práticas geradorasde formas de convívio entre os sujeitos comunitários e entre estes e o mundo. E, nessesentido, a análise e constituição de uma ética intercultural partem, de dentro dessas lógicas,para pensar pressupostos universais de uma proposta de liberação dos pensamentos que, atéentão, ficaram de fora da Filosofia tradicional. Assim, no desenvolvimento dessespressupostos, surge outra ideia de filosofia e do próprio pensar. Outro desafio da interculturalidade é refutar o discurso das concepções ocidentais eetnocêntricas e postular a investigação e legitimação de pensamentos dos povos nativos epopulares latino-americanos, enfatizando a necessidade do diálogo intercultural no interior daprópria América Latina. Simultaneamente, à busca em fundamentar essa crítica dopensamento etnocêntrico, defende a superação das limitações de um pensamento autêntico,que se sustentou, sem levar em conta a diversidade cultural latino-americana. Portanto, não háum só pensamento latino-americano, mas pensamentos latino-americanos plurais,caracterizados por tensões e busca de diálogos. É, dessa maneira, que Raúl Fournet-Betancourt aponta uma limitação da Filosofialatino-americana, afirmando que “[...] se desenvolveu em suas linhas dominantes de costas aodesafio da interculturalidade em seu próprio contexto. Seu desenvolvimento não responde aoapelo da justiça cultural articulado nas lutas sociais e nos testemunhos intelectuais [...]”(FORNET-BETANCOURT, 2004, p.22). E acrescenta: “[...] a filosofia latino-americana não 25
  27. 27. soube levar o processo de contextualização e de diálogo com “a história e a cultura latino-americanas” a suas últimas consequências.” (Id. Ibid., p. 22). Ressaltamos que os estudos sobre interculturalidade, no campo da Filosofia, assumemconcepções e propostas variadas, porém há, neste debate, elementos importantes para adiscussão que pretendemos desenvolver. Um desses elementos é a “[...] recuperação detradições marginalizadas pela filosofia acadêmica (eurocêntrica), na América Latina”(FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 44). Assim, a Filosofia Intercultural reconhece ohistórico de exploração e etnocídio dos ameríndios e afro-americanos, constituindo-se comoperspectiva que abre o campo para a investigação do pensamento indígena. Outro elemento que destacamos na Filosofia Intercultural é a constituição de relaçõeshumanas em vista de pressupostos que sustentem formas justas de convivência entre os sereshumanos. A própria ideia de justiça, nesse contexto, se redimensiona, constituindo-se, a partirda alteridade, em que há um apelo à dignidade do Outro. Nesse sentido, a discussão acerca de formas justas de convivência evidencia,primeiramente, as limitações e, ao mesmo tempo, a necessidade de práticas de tradução entreculturas, relativizando a convicção de um entendimento pleno acerca do Outro. Sobre isso Fornet-Betancourt postula que a interculturalidade: É uma atitude que, por nos tirar de nossas seguranças teóricas e práticas, permite- nos perceber o analfabetismo cultural do qual nos fazemos culpáveis quando cremos que basta uma cultura, a “própria” para ler e interpretar o mundo. (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 13). Segundo Fornet-Betancourt, o pesquisador que busca conhecer a cosmologia e aforma de agir de uma cultura, será sempre um tradutor consciente de que não basta umacultura para interpretar o mundo. Dessa forma, a interculturalidade propõe uma práticaantagônica à objetivação e dominação, caracterizando-se essencialmente pela legitimação doOutro. Nessa perspectiva, o diferente não é ameaçador ou oprimido, mas é, justamente, umparceiro que constitui o pensar que aproxima e une culturas. Nessa postura diante do Outro, o pensamento não é estático, ele funda e constitui acomunidade, está na ação cotidiana da vida prática, na busca da solução de problemas diários.Assim, identidade e contexto estão intimamente ligados, formando, com outras instâncias, arealidade dos coletivos e grupos humanos. Os sujeitos comunitários aparecem numa rede de 26
  28. 28. relações, impulsionados pela comunhão e consciência de seu pertencimento e ligação com arealidade. Portanto, o sujeito promove a comunhão, não somente com a comunidade, mas como mundo da vida, onde se faz necessário à defesa de um sujeito não mais visto comodominador da natureza, mas pertencente a esta natureza. Neste sentido, as culturas indígenastêm muito a nos ensinar. Dina Picotti, citada por Fornet-Betancourt (2004), descreve o pensamento interculturalcomo um elemento essencial no impedimento da recolonização, impetrada na sociedadeglobalizada, que é sempre a imposição de formas de ser, determinadas por interesseshegemônicos. Em lugar da colonização surge “o intercâmbio de diferentes modos de vida”(FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 106). Percebemos então, a partir dessas analises, que a perspectiva intercultural possibilita eamplia o campo da discussão sobre o encontro entre indígenas e não-indígenas – foco destainvestigação - apontando elementos que delineiam pressupostos de uma relação justa,antagônicos à postura colonizadora, pois esta é sempre a negação do Outro, que constituirelações assimétricas legitimadas atualmente pela globalização, representando um novoprocesso de colonização. Sobretudo, a interculturalidade permite e pressupõe formas de agir próprias dos gruposem relação, ou seja, não determina pressupostos para classificar a postura de umacomunidade, mas sugere elementos que dão espaço à legitimação dos fundamentos éticos decada grupo. Então, é preciso traduzir, cuidadosamente, a expressão desses pressupostos quefundamentam uma relação entre grupos e, a partir desses elementos, analisar o encontro entrediferentes culturas. Dessa forma, a interculturalidade afirma a singularidade das culturas e anecessidade de cuidado, para estabelecer alguns pressupostos universais, na definição do quechamamos latino-americanos. Esses são elementos necessários para o diálogo entre os povos,sobretudo os latino-americanos. A interculturalidade é assim: [...] postura ou disposição pela qual o ser humano se capacita para, e se habitua a viver “suas” referências identitárias em relação com os chamados “outros”, quer dizer, compartindo-as em convivência com eles. Daí que se trata de uma atitude que abre o ser humano e o impulsiona a um processo de reaprendizagem e recolocação cultural e contextual (FORNET-BETANCOURT, 2004, p. 13). 27
  29. 29. A partir desta contextualização da constituição da Filosofia Intercultural no cenáriolatino-americano, buscaremos pensar com os Guaranis suas formas de agir, sobretudo, narelação e encontro com não-indígenas. É relevante, desse modo, mencionar a importância da Filosofia contextualizadaintercultural, na reflexão sobre o próprio procedimento metodológico desta pesquisa, que sefaz a partir do encontro de diferentes. Nesse sentido, essa postura deve legitimar ospressupostos apresentados anteriormente, sobretudo ao constituir o diálogo intercultural. Essaforma de ação filosófica proposta por Fornet-Betancourt, afirma a necessidade de umaabertura à crítica, ao confronto de ideias, superando a mera explicação, defensiva e rígida. Oautor nomeia essa postura de “estilo”, necessário para desenvolver uma nova Filosofia. Dessa forma, a investigação intercultural busca, incansavelmente, o aprofundamentodo pensamento do outro e a exposição e o contraste com outros pontos de vista. Nessemovimento hermenêutico, a universalidade surge do sentido das racionalidades e não aocontrário. Assim, há, na Filosofia intercultural, uma mudança radical na compreensão dauniversalização dos pressupostos filosóficos de comunidades distintas, pois a universalizaçãoé constituída pelos universais de cada grupo pensante. Uma cultura descreve as condições depossibilidade da ação humana, não somente de sua cultura, portanto, existe em cada culturapressupostos, o que implica em universais multiculturais. Pensar o próprio pensar, movimentoeste definidor da filosofia ocidental, sempre teve um alicerce que legitimou ou não opensamento local: a universalidade monocultural. Nessa nova proposta de se fazer Filosofia, aforma de ser do Ocidente, por exemplo, não é imposta ao nativo indígena, mas, ao contrário, oinvestigador legitima a cosmologia indígena e busca pensar a partir dos pressupostos dessaetnia, sem compreendê-la como menor e sem abrir mão de sua identidade. Assim, ainterculturalidade é oposta à colonização e, consequentemente, à imposição de uma forma deser única e superior. Aqui evidenciamos o desafio de estabelecer um diálogo intercultural, noqual é fundamental abrir mão de velhos entendimentos, de formas estagnadas de conceber omundo e a vida humana. A convicção, baseada na ciência, não tem a mesma validade, porexemplo, quando adentramos no pensamento de povos indígenas. Fornet-Betancourt define a Filosofia contextualizada intercultural, no que tange aoprocedimento, como: “[...] confrontación discursiva con los factores todos que forman yconforman el horizonte de vida y de pensamiento del tiempo histórico correspondiente.”(FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 56). 28
  30. 30. A crítica desenvolvida pela Filosofia intercultural está diretamente ligada ao históricodo pensamento dos grupos que o produzem e a situação em um mundo globalizado eneoliberal. A problematização, decorrente do confronto entre essas instâncias, visa constituirpossibilidades de um mundo que seja para todos, e supere efetivamente situações deexploração e violência. A interculturalidade configura-se, nesse aspecto, como uma qualidadeindispensável da Filosofia. A segunda qualidade, dessa Filosofia, é sua interdisciplinaridade, que é “o método deconsulta” (FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 57) desses saberes plurais das tradiçõeslatino-americanas que têm racionalidades distintas e conflitivas. O autor propõe uma compreensão da interdisciplinaridade, a partir de um ponto devista problematizador, que repensa o entendimento e a função desta. Uma de suas definiçõespara interdisciplinaridade é a seguinte: “[...] oportunidad de acceso a una cualificaciónepistemológica nueva para cada ciencia” (FORNET-BETANCOURT, 2001, p. 117). Há umanecessidade de distinguir as racionalidades autônomas vigentes e reelaborar uma nova formade entendimento da interdisciplinaridade, abrindo possibilidades para o diálogo. Nessesentido, a interdisciplinaridade está intimamente ligada aos fundamentos da própriainterculturalidade, pois a questão central é estabelecer uma troca equânime e recíproca,baseada na cooperação, entre as distintas racionalidades científicas autônomas. Percebemos, no entendimento de Fornet-Betancourt sobre interdisciplinaridade, umcaráter irreverente, quando afirma a necessidade de superar o fechamento que caracterizou,até o momento, as racionalidades disciplinares: Nuestro esbozo de planteamiento tiende más bien a la visualización de la interdisciplinariedad en el sentido de una tarea programática que nos desafía a la con-vocación de las racionalidades disciplinares para que éstas – superando desde si su “disciplinamiento” interno – se comprometan en la contro-versia argumentativa [...] (Ibid., p. 118). Essa perspectiva expressa, também, a necessidade de legitimação das diversasracionalidades, ao propor a interdisciplinaridade como “[...] una oportunidad metodológico-epstemológica incomparable para trabajar dialógicamente con otros saberes en el programadel vivir [...]”(Ibid., p. 123), pois é essencialmente inclusiva. Pensamos, a partir desses pressupostos, que a interdisciplinaridade, em nosso trabalho,teve como uma função relevante, colaborar na reflexão a partir das controvérsias e 29
  31. 31. aproximações entre as próprias racionalidades envolvidas na investigação, sejam elasdisciplinas ou provenientes de uma cultura. Assim, interessa-nos a análise acerca da Filosofia intercultural como “críticahistórica”, que nos permite uma aproximação da cosmologia M‟byá-Guarani e sua música.Entendemos que a Filosofia intercultural e sua compreensão sobre a ética dão aporte parainvestigações que visam o entendimento da forma de outras etnias pensarem e agirem nomundo da vida. 30
  32. 32. II INTERCULTURALIDADE E SUA DIMENSÃO ÉTICA COMO UMA NOVA PERSPECTIVA EPISTEMOLÓGICA A investigação, que propomos, situa-se no campo da Filosofia, levando emconsideração sua dimensão ética e estética, concepções estas que sofreram mudançassignificativas, ao longo de sua história. Estas duas dimensões e sua inter-relação tornam-seimportantes, porque a música M‟byá-Guarani carrega, em si, a força e a comunicação destesdois elementos. Mas de que maneira podemos pensar a relação entre Ética e Estética, e por que estaquestão torna-se importante para este trabalho? A ética como ciência da conduta – definição clássica – também passou portransformações expressivas. Inicialmente, é compreendida como orientadora da ação humananas relações em sociedade, que teria a capacidade de fornecer fundamentos capazes de valer,em qualquer comunidade. Destaca-se aí seu caráter universal. Contudo, esse entendimento jáé relativizado, a partir da constatação da ambiguidade da noção de bem. Dividida entre o idealda essência humana e as causas da conduta do homem, a ética esbarra nas distintas formas deproceder de cada grupo, dependendo das condições em que vive e de sua cultura. A busca dedeterminados pressupostos universais para a ação humana é uma postura marcante, tanto naFilosofia clássica ocidental, como no pensamento oriental. Deparamo-nos então, com aproblemática de como pensarmos uma ética universal, dentro de contextos culturais tãodiversos. Da mesma forma, o debate sobre a questão estética, também apresenta, ao longo dahistória, uma série de problemas. 31
  33. 33. Ao acompanharmos um pouco esta história, percebemos que no século XVIII, aestética passa a ser entendida como a ciência da arte e do belo. Será com Immanuel Kant, noentanto, que encontramos uma reflexão importante sobre a Estética e que, de alguma forma,até hoje traz importantes implicações a este campo. Kant, em seu livro Crítica da Faculdadedo Juízo (1993), traz a reflexão sobre a importância de pensarmos o espectador muito mais doque o artista ou a própria obra. Será desse modo, que defenderá a impossibilidade de fazermosuma ciência sobre o Belo, mas de instaurarmos a critica, ou seja, as condições depossibilidade para falarmos sobre o Belo. Assim, uma questão fundamental, que emerge dopensamento kantiano, será a possibilidade universal, de todo ser humano, em sensibilizar-secom o Belo. Kant não define o que é Belo, mas nos fala da universalidade em sentir e apreciaro Belo. Anteriormente, a arte e o belo eram compreendidas como instâncias distintas pelosgregos antigos, e precisavam do aval da filosofia para se legitimarem. Mas é no século XVIII,que as noções de belo e arte se vinculam pelo conceito de gosto. Hoje a Estética, enquanto umconhecimento que buscou autonomia independe de teorias, é entendida como toda ainvestigação, que tenha como objetos de estudo, a arte e o belo. (ABBAGNANO, 2000).Defendemos que a arte, nos contextos latino-americanos, inclusive, toma uma importânciafundamental na composição de pressupostos essenciais da esfera ética, e que seusentendimentos e importância são diversos e complexos. É, dentro deste contexto, que os estudos sobre a ética intercultural fundamentarão areflexão sobre o possível diálogo intercultural e as condições justas do encontro entreindígenas e não-indígenas tendo como elo a música.2.1 Ética intercultural Antes da apresentação de pressupostos específicos da ética intercultural,descreveremos, brevemente, sua relação com a Filosofia intercultural, pois esta propostafilosófica foi o ponto de partida para a investigação sobre ética intercultural, desenvolvida porRicardo Salas (2003). A Filosofia intercultural, ao afirmar o atravessamento da interculturalidade nopensamento latino-americano e apontar uma dívida deste pensamento com as questões 32
  34. 34. interculturais, estabelece, através de autores que compreendem a interculturalidade comoelemento fundamental, em seus trabalhos, uma nova postura que legitima outrasracionalidades. Portanto, a Filosofia intercultural, ao trazer a reflexão da interculturalidadepara seu campo de investigação, já adentra na esfera ética, inclusive apontando critérios parao estabelecimento de relações mais justas no interior de nossa América. Nesse sentido a éticaintercultural, a partir do referencial teórico que nos propomos investigar, surge das indagaçõessobre interculturalidade da Filosofia. Salas (2003) investiga a possibilidade de se estabelecercritérios possíveis de universalização, no âmbito ético, postulando a importância dahermenêutica crítica e de perspectivas pragmáticas para o estabelecimento de uma éticaintercultural. Trataremos de descrever algumas considerações sobre a Ética Intercultural e aEtnopesquisa, buscando destacar os pressupostos da Ética Intercultural e a forma de proceder,sugerido pela Etnopesquisa. Destacamos que se trata de uma teoria filosófica e umaabordagem metodológica, que, no entanto, têm uma íntima relação no que diz respeito aosseus fundamentos. É desse modo, que não trataremos a metodologia como um instrumentalpara atingirmos determinado resultado. A escolha metodológica tem, aqui, uma profundarelação com a própria problemática desta investigação. Pensar a interculturalidade como outraepistemologia nos exige, necessariamente, repensarmos a maneira como construímos oconhecimento (sobre o Outro) no processo de elaboração deste conhecimento. Isso se dáporque, quando de alguma forma, lidamos com o humano (e toda a natureza) asconsequências e implicações de nosso conhecimento podem ser irreversíveis. Antes de seguirmos, faz-se necessário salientar que a interculturalidade, ao proporuma nova perspectiva intersubjetiva, que seja simétrica e não permita a violência, postula umanova epistemologia, pois reconhece a existência de outras racionalidades e as entende comolegítimas. Essa nova forma de conhecer, que passa pelo reconhecimento, exige novas formasde investigação que legitimem, por exemplo, a forma de atuar no mundo dos indígenas latino-americanos. Os contextos complexos e por natureza conflitivos, suscitam uma nova posturado pesquisador, bem como a inserção em áreas do conhecimento que colaborem para pensaros saberes indígenas, considerando que a postura intercultural prioriza e parte dospressupostos de cada grupo social. Assim, não é a área de conhecimento que determina oprocedimento da investigação, mas sim a necessidade apontada por cada sujeito e grupoinvestigado, que participa e constitui o diálogo intercultural, gerando inevitavelmente a 33
  35. 35. interdisciplinaridade. Esse pensar passará, indispensavelmente, pela tradução e terá dealguma maneira, a marca das identidades do próprio pesquisador. Assim, a própria interculturalidade, reconhecendo que não é possível uma culturaapenas dar conta de descrever outra cultura, reconhece também sua limitação, na busca dedesenvolver uma leitura fidedigna de outras racionalidades, mesmo imbuída de saberes deoutras áreas. No entanto, este reconhecimento é o que faz da interculturalidade um saber queestá em constante construção, não apresentando uma leitura última e definitiva sobre umacultura. Nossa análise, sobre a música M‟byá-Guarani e suas implicações para pensarmos osdiálogos interculturais em sua dimensão ética e estética terá, como um de seus elementos, essapostura de reconhecer as limitações de nossas considerações, por estarmos diante de umpensamento que tem uma diferença epistemológica marcante: a cultura oral. Dessa forma,nossa investigação exige uma análise atenta e crítica das afirmações acerca da música Guaranidesenvolvidas até então. Confrontaremos tais considerações com as descrições de nossointerlocutor visando evidenciar pressupostos que escapam a uma analise monocultural econsequentemente resultam em estudos que se aproximam da perspectiva ameríndia. Esseprocedimento tem a intenção de dar voz a esses indígenas e desenvolver uma postura deabertura para escutá-los. Mas não qualquer escuta e sim uma abertura que nos provoque olharde maneira diversa para a própria pesquisa. Contudo, nos perguntamos como realizar essa aproximação no âmbito do pensar e daFilosofia? Como provocar essa abertura? Fornet-Betancourt sustenta que é preciso desconfiarde nossa instalação e relação com a Filosofia. É preciso, assim, superar a convicção de que osfundamentos da Filosofia que conhecemos e tratamos em nossos estudos escape dacontingência. A Filosofia é fruto de um pensamento localizado, que surge em uma região, epor isso, traz perspectivas a partir de um contexto, mas a Filosofia latino-americana - mesmosendo contextualizada - desprezou outras racionalidades. Apresentamos, maisdetalhadamente, este postulado de Fornet-Betancourt no capítulo anterior. O autor afirma que a Filosofia intercultural reconhece a necessidade de dialogo entreas culturas em vista da legitimação de pensamentos nativos, os quais constituem nossaAmérica. Portanto, nossa pesquisa é constituída, sobretudo, pelo desafio de traçar suasconsiderações, a partir do contexto histórico dos M‟byá-Guarani, o que exige aventurar-se 34
  36. 36. pela insegurança, pelo novo, pelo Outro, para que assim, as perspectivas envolvidas searticulem. Sobre esse lugar do filósofo, Fornet-Betancourt afirma, En efecto, pues es en ese nuevo horizonte de horizontes donde aprendemos a relativizar nuestra instalacíon en la filosofía y donde nos empezamos a relacionar con ella, no como con un todo absoluto, sino más bien desde la percepción de la misma como una “regíon”(FORNET-BETANCOURT, 2001, p.69). É desse modo, que percebemos que não há como falar de interculturalidade sem nosremetermos à ética. A ética intercultural, aqui pensada, tem como principal referência osestudos de Ricardo Salas Astrain (2003 e 2007), proposta constituída desde a FilosofiaIntercultural, que busca olhar para uma cultura a partir dela própria, sem imposições. Por isso,não pressupõe um encontro de iguais, mas o reconhecimento da dignidade do outro a partir dadiferença. Salas (2007, p.26,27) define interculturalidade como: [...] una noción indefinible desde los marcos de la perspectiva intercultural, lo que implica romper con los modos habituales de las ciencias, de las lógicas disciplinarias y de definiciones teóricas. Ella es mas bien una categoría ético-política inherente a esta época de globalización, época en que tomamos cada vez mayor conciencia de vivir e convivir „entre‟ tiempos y espacios que son proprios e ajenos, pero que requiere generar los caminos de reconocimiento para establecer unos caminos comunes, si se quiere evitar caer en despeñadero del fundamentalismo y del cierre cultural, que conduce no solo a la exclusión del outro (xenofobia), sino a veces a la eliminación del outro, bajo la forma colectiva de etnocidio o individual del xenocidio. Uma postura ou ação intercultural não provoca a perda das identidades culturais, aocontrário, busca repensar, recontextualizar e ressituar, permanentemente, essas identidades,tendo, como movimento simultâneo, argumentar e reconstruir valores e normas, que, segundoSalas (2007), podem gerar uma ética universal. A aproximação dessa universalidade dar-se-iaa partir da argumentação e reconstrução de valores de cada cultura. Esses valores não serãoem si universais, mas sim os critérios para atingi-los, que pressupõem a necessidade derealizar justiça e reconhecimento do Outro, como portador de uma dignidade inviolável. A ética intercultural apresenta o diálogo intercultural - primeiro aspecto relevante quedestacamos - como nova forma de relação entre comunidades. Essas relações serão dialógicase nos exigem pensar a própria forma como elaboramos nossas reflexões, organizamos eformamos conceitos, ou seja, pensar a metodologia do encontro intercultural é nos abrirmospara novas maneiras de compreender o mundo, o Outro e nós mesmos. Salas (2003, p.27)denomina este movimento do pensar (que não pode estar descolado do agir) de um “proceder 35
  37. 37. utópico” no próprio método investigativo, que deve reconhecer os discursos narrativosinternos (destas diferentes comunidades) e recuperar o ponto de vista argumentativo expressosnessas visões de mundo. Um segundo elemento relevante na proposta de Salas (2003) é o conflito. O conflito éinerente às sociedades humanas, sendo a conflitividade um fenômeno dinâmico, constituídopor acordos e desacordos, encontros e desencontros em diversos níveis e um orientador daprópria ética, pois é, através dele, que se podem gerar acordos e possibilidades de construçãocomunitária. A ética intercultural entende que o dinamismo e a reconstrução dos valores queorientam a ação deve ser uma marca da compreensão sobre a ética. É preciso, pois, convivercom a mudança, com a releitura das formas de convívio humano, a partir das atividadespráticas de cada grupo social. Nesse sentido, a ética intercultural opõe-se ao etnocentrismo e auma racionalidade monocultural, pois propõe o reconhecimento de outras lógicas. Ao referir-se à Filosofia contextual e a um projeto de emancipação e libertação, Salas afirma o seguinte:“[...] exigem o reconhecimento da especificidade dos processos míticos, culturais, narrativos ediscursivos que caracterizam o ethos ou os ethos desta América indígena, africana e mestiça”(SALAS, 2010, p. 96). Certamente, esses processos aparecerão aleatoriamente, conforme cadacontexto, e resultarão da diversidade latino-americana, contudo o reconhecimento dessasespecificidades será um pressuposto universal, uma forma de proceder que compõe a éticaintercultural. Conforme destacamos anteriormente, o diálogo intercultural é fundamental no estudode Salas. Para compreendermos as possibilidades de praticar este diálogo, é necessário,primeiramente, tomarmos conhecimento de seus cinco critérios: Primeiro: “[...] a regulamentação de todo discurso intercultural exige critérios reguladores derivados, aomesmo tempo, de princípios formais e abstratos e das características do próprio contexto, pois auniversalidade ética surge de uma dupla fonte” (SALAS. Ibid. p. 144). Segundo: 36
  38. 38. [...] aceitar que a comunicação intercultural é sempre um produto inconstante da inter-conexão de contextos específicos. Eles definem as relações estruturais dos interlocutores, de modo que, para poder gerar uma verdadeira reciprocidade discursiva, é necessário partir das formas argumentativas existentes historicamente de fato, e não dissolvê-las em modelo abstrato, para conseguir um nível comum de racionalidade discursiva (SALAS. Ibid. p. 145). Terceiro: “[...] todo diálogo intercultural deve partir dos interesses dos diversos sujeitos e comunidadeem discrepância em uma escala histórica, de modo a situar sempre os interesses divergentes de todosos implicados: passados, atuais e potenciais” (SALAS. Ibid. p. 145). Quarto: “[...] toda comunicação contextual precisa ser analisada a partir da brecha entre todos osconflitos existentes e os que podem ser resolvidos entre os sujeitos e comunidades, o que implicadefinir como prioritários aqueles conflitos que podem ser resolvidos” (SALAS. Ibid. p. 146). Quinto: [...] nega à pretensão intercultural a possibilidade de recorrer a um tipo de resposta que repudia a compreensão mutua. Assim, o critério regulador decorrente afirma que, no processo da definição das normas contextuais, fica descartado qualquer recurso à violência. Isso exige, de todos os interlocutores, um rechaço à violência para manter suas posições de poder (SALAS. Ibid. p. 147). O diálogo intercultural surge na convivência entre diferentes que reconhecem a formade atuação do Outro e buscam compartilhar suas ações, relevando o histórico dascomunidades envolvidas. O pensar, nesse sentido, está imbricado com a ação histórica, comas formas de um povo resolver seus conflitos e constituir sua realização no mundo. É dessemodo, que conhecer perpassa, necessariamente, um re-conhecer, ou seja, todo e qualquerconhecimento sobre Outro deve emergir de um diálogo de re-conhecimento. Nessaperspectiva, o diálogo é permanente recriação, não é possível determiná-lo a priori, ele é frutoda relação que prioriza a justiça recíproca. 37
  39. 39. O encontro intercultural, ao compartilhar informações e formas de proceder no mundo,não pressupõe abrir mão das identidades envolvidas, no entanto, há a inclusão recíproca deaspectos culturais das cosmologias que dialogam, pois a própria cultura é dinâmica. Essatransformação pressupõe a mutua compreensão, e dessa forma, a ausência de imposições ouopressão. Salas busca as condições do diálogo intercultural, expondo, minuciosamente,elementos que estruturam formas de proceder, nas esferas pragmática e hermenêutica.Postula, sobretudo, através dessas duas instâncias, a possibilidade de constituir o diálogointercultural. Percebemos em sua exposição, inclusive, a necessidade de estabelecer talrelação de alteridade, que está intimamente imbricada com o histórico de exploração dospovos latino-americanos. Sua análise, ao reconhecer o conflito como parte dodesenvolvimento de uma cultura, defende a resolução destes, a partir de acordos quepriorizam a viabilidade de resolvê-los. Essa resolução é essencial para uma “ética comunitáriae axiológica” (SALAS, 2010, p. 96). As condições de um diálogo intercultural, expostas anteriormente, estão marcadas pelaradicalidade, característica da Filosofia, ou seja, definem, de forma lúcida, elementos queestruturam essa postura, rejeitam uma leitura que não contempla a raiz da ética e que não faz acrítica aos procedimentos que, historicamente, vêm causando prejuízos aos latino-americanos.Assim, Salas afirma a necessidade de reconstituição do sentido do discurso moral, a resoluçãode desacordos, de forma justa, e a preservação das igualdades. Os fundamentos do diálogo intercultural postulados por Fornet-Betancourt e Salas,orientarão nossa análise das entrevistas com os M‟byá-Guarani, bem como, tada nossaatuação no campo empírico da pesquisa, pois seria contraditório analisarmos o discurso denossos interlocutores, a partir de pressupostos da filosofia e ética intercultural, e atuarmos apartir de uma ótica monocultural. Foi, desde essas questões sobre ética e Filosofia intercultural, que percebemos aimportância em pensarmos a metodologia de pesquisa.2.2 A Etnopesquisa: uma metodologia tecida pela interculturalidade 38
  40. 40. Esta pesquisa tem, como abordagem metodológica, a Etnopesquisa. Essa não seconstitui numa metodologia científica, determinada ou fechada em si mesma. Ao contrário, osmétodos são aplicados, conforme a necessidade de cada situação social. Esta proposta buscare-significar o rigor científico, ao agregar uma dialética dialógica ao processo investigativo,de acordo com as evidências e necessidades percebidas pela escuta sensível. Essa, portanto, éum elemento essencial para alcançar um rigor fecundo nessa análise. Referindo-se à compreensão dos etnométodos, Macedo afirma que: “[...] aetnometodologia é uma teoria do social que, ao concentrar-se no interesse em compreendercomo a ordem social se realiza, mediante as ações cotidianas, consubstanciou-se numa teoriados etnométodos” (MACEDO, 2006, p. 68). O autor crítica o uso de um método como um “ato simplório de dominar de forma nãoreflexiva instrumentos de pesquisa” (Id. Ibid., p. 68), pois a Etnopesquisa enfatiza anecessidade de reflexão constante sobre o contexto social, que é constituído, cotidianamente,no plano intersubjetivo, ou seja, na relação entre os autores sociais e o pesquisador. É nessacompreensão, que a presente pesquisa foi se aproximando dos sujeitos, na busca de locutorese interlocutores da cultura Guarani. Salientamos, neste momento, a importância de umaescuta sensível, que passe pela alteridade na constituição da ação do pesquisador, que ésempre um intérprete. Macedo compreende a interpretação, a partir da perspectivafenomenológica e hermenêutica, em que os fatos, as relações e o campo social apresentamelementos que exigem uma constante ressignificação. É desse modo, que a fenomenologiadiferencia-se de um cientificismo: “De fato, na fenomenologia, a compreensão passa a serdefinida como um mundo de conhecimento predominantemente interpretativo, por oposiçãoao modo cientificista, que é o da explicação”. (MACEDO, 2000, p. 14) A Etnopesquisa busca compreender e explicitar a realidade humana como é vividapelos autores sociais. A partir do diálogo, as instâncias teóricas e empíricas vitalizam evivificam o conhecimento, que é, predominantemente, interpretativo. Este processo foiatentamente observado, no decorrer desta investigação, bem como o próprio método, quepode reconfigurar-se. Essa abertura ao dinamismo e à transformação da pesquisa agregaatenção ao inesperado. A hermenêutica crítica é outro pilar importante para a Etnopesquisa, pois possibilita aaproximação com os sujeitos pesquisados, que se tornam parceiros na compreensão etransformação das realidades. 39
  41. 41. [...] o círculo hermenêutico nos sugere que toda compreensão do mundo implica na compreensão da existência e, reciprocamente (Heidegger), essa antecipação é a pré-compreensão de que, a partir desse entendimento, se poderá desenvolver uma explicitação compreensiva (MACEDO, 2000, p. 13). Para Macedo, a hermenêutica também é um elemento fundamental, e surge como um“esforço interpretativo e compreensivo sobre as situações de vida em geral” (Id. Ibid., p. 13).Trazemos esta perspectiva metodológica, por compreendermos que apresenta caminhos quemelhor nos conduzem ao próprio entendimento da Interculturalidade. Para tanto,precisávamos de uma metodologia que não se apresentasse apenas como um instrumentoinvestigativo, mas que estivesse em profunda consonância com nossa fundamentação teórica.É desse modo, que buscamos, na etnopesquisa, o desenvolvimento da “escuta sensível”necessária a todo pesquisador que busca, não apenas compreender uma realidade, masfundamentalmente, dialogar com esta realidade. A observação participante foi um dos procedimentos centrais de nosso estudo. Mais doque um instrumento de coleta de dados, essa observação caracteriza a própria pesquisaparticipante “tal o grau de autonomia e importância que assume em relação aos recursos deinvestigação de inspiração qualitativa” (MACEDO, 2006, p. 96). Por isso, interessam-nos aproximidade e a permanência no campo de pesquisa que a observação participante possibilita. Outro procedimento foi a entrevista com aquele que se definiu como o principalinterlocutor desta investigação, o cacique Guarani José Cirilo Morinico. Devido à riqueza dedados, proveniente de sua historia de vida e de sua representação política, como umaimportante liderança, a pesquisa foi também se apresentando com um Estudo de Caso. A denominação [estudo de caso] refere-se evidentemente ao estudo de um caso, talvez o de uma pessoa, mas também o de um grupo, de uma comunidade, de um meio, ou então fará referência a um acontecimento especial [...] (LAVILLE, C. E DIONNE, J. 1999 p. 155). Percebemos, desse modo, a importância de trazermos múltiplas possibilidadesmetodológicas quando se trabalha com uma pesquisa no campo social. Utilizamos, para tanto,de gravador para registrar depoimentos - estes fizeram parte do corpo do texto de nossapesquisa - bem como diário de campo e câmera fotográfica. 40
  42. 42. Um fator relevante, para o desenvolvimento dessa pesquisa, foi o nosso contato préviocom indígenas das três aldeias Guarani. Isso proporcionou uma inserção, no campo maisaprofundado, pois existia, no convívio, uma reciprocidade e um grau de intimidadepreviamente adquiridos, o que facilitou o desenvolvimento e aprofundamento do estudo. É importante destacarmos que nossos interlocutores centrais (os M‟byá), além deserem possuidores de uma cotidianidade distinta do dia-a-dia dos não-indígenas, atualmente,ressignificam sua atuação diária a partir de uma vida em constante contato com centrosurbanos. Esse fato exige a observação detalhada das novas formas de organização e relaçãodesses indígenas com uma sociedade globalizada. É dessa forma, que as analises dos dadosbuscaram, na Filosofia Intercultural, nosso principal aporte teórico. O debate sobre ainterculturalidade na Filosofia surge num contexto globalizado que influencia,significativamente, a vida prática de grupos sociais. A esse respeito Salas (2007) afirma queos pensadores latino-americanos elencam suas críticas a partir de uma relação de poderassimétrica entre os povos latino-americanos e governos e instituições internacionais naglobalização neoliberal. Esses estudos ofereceram aporte para problematizarmosressignificações e mudanças geradas num contexto social indígena, permeado pela lógicacapitalista-neoliberal da globalização. Compreendemos, também, que as concepçõesfundantes da Etnopesquisa corroboraram com princípios da Filosofia Intercultural, sobretudoao postularem a necessidade de proximidade e de reconhecimento com o Outro, diferente,imerso em uma cultura distinta. Esse entendimento torna-se indispensável para odesenvolvimento de nosso estudo e para repensarmos outras possibilidades metodológicasquando se trabalha as questões interculturais. Na música M‟byá-Guarani especificamente – essa manifestação não é a única, poistemos os grafismos em cestos, artesanato e outras manifestações – percebemos a relaçãoíntima entre estética e ética, a partir da noção de mba‟epú (música), que revela formas de agirdiante de situações cotidianas, originadas no contato dos Guarani com a mundo espiritual.Esses pressupostos fundamentam a ação desses ameríndios, na esfera social, divina e com anatureza, possibilitando o convívio harmônico e a teko (vida). A música é a geradora de vida,portanto, da não-violência, produzindo assim sentimentos de solidariedade e união queafirmam e fortalecem os costumes que devem ser preservados. Aprofundaremos nossainvestigação e, posteriores considerações sobre a relação entre mba‟epú (música) e aete(ética), no quarto capítulo. 41

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