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Antes do princípio...
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O que é o passado?
Um arquivo imaginário de onde, muitas vezes, escapam cenas que você daria tudo para
esquecer e que, n...
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O Sonho de Júlio Venturo
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Os olhos da menina brilharam ao ganhar o presente há muito esperado...
- Papai, se tivesse dinheiro, eu também te daria ...
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- Mas se foi há trinta anos? Quantos anos você tinha?
- Acho que tinha mais ou menos a sua idade.
- Não entendi...
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- A Fada dos Sonhos mandou te dar. Eu conversei com ela, como te prometi
ontem. Na verdade, é só um empréstimo... Você s...
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Interessante... Ele pensou. Mas quem realmente teria dito isso a ela? Era muito
nova para ser dona daquelas palavras... ...
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No meio do caminho que fazia todas as manhãs para o trabalho, havia sempre
um engarrafamento. Naquela manhã, porém, algo...
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Sem acender a luz, Júlio recostou-se no sofá e começou a dar corda no relógio,
no sentido anti-horário, como Marine reco...
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Foi com inegável espanto que reconheceu alguns traços do antigo menino que
ainda morava nele.
“Será que você nunca vai ...
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Sim, é claro... Não poderia ter sido em outra ocasião, senão naquele fim de tarde,
três décadas passadas, quando para s...
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- Não parece não!!! Quem quer ser tudo acaba não sendo nada e não ser nada
não é uma opção pra você! Vamos, estou falan...
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O menino tinha tudo para temer aquele chamado, mas seu coração lhe dizia que
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Marine, a menina azul

  1. 1. 1 Antes do princípio...
  2. 2. 2 O que é o passado? Um arquivo imaginário de onde, muitas vezes, escapam cenas que você daria tudo para esquecer e que, no entanto, insistem em te assombrar de vez em quando? Ou um baú impalpável no qual você vasculha em busca de algo que, com clareza, gostaria de relembrar, e que teima em desaparecer, ao sabor do vento... Assim como desaparecem as bolhas de sabão sopradas por uma criança? Difícil definir... O certo é que é ali, no passado, que se encontram todos os tipos de lembranças - tudo o que você tem vivido e que talvez nem tenha acontecido exatamente do modo como se recorda... Tudo que é apropriado existir em um lugar impreciso. Sendo assim, permita-me fazer-lhe uma pergunta: Se pudesse voltar no tempo, se pudesse escolher apenas um único dia, ou melhor, uma única noite daquelas que já viveu, qual delas escolheria viver novamente?
  3. 3. 3 O Sonho de Júlio Venturo
  4. 4. 4 Os olhos da menina brilharam ao ganhar o presente há muito esperado... - Papai, se tivesse dinheiro, eu também te daria o melhor presente do mundo! O pai sorri simplesmente e diz com sinceridade aquilo que, por hábito, todos os pais costumam dizer: - Eu já ganhei o melhor presente do mundo... - E qual é? - Você. - Ah, isso não vale, pai! Tirando eu, qual outro presente seria o melhor do mundo pra você? - Hum... Já que insiste, deixe-me pensar... Acho que escolheria voltar no tempo. - Voltar no tempo?! - Isso mesmo... - Quanto tempo? - Uns trinta anos, talvez... - Trinta?! - Sim. - Mas se pudesse voltar tanto tempo assim, eu não ia existir! O pai não contém o riso antes de esclarecer... - Eu voltaria no tempo para sonhar novamente um sonho que tive há trinta anos. Só gostaria de sonhá-lo mais uma vez antes de voltar para o presente. - O que tinha de tão especial naquele sonho pra querer sonhar ele de novo? - É difícil de explicar... Acho que deveria ter aprendido umas coisinhas importantes com ele, mas infelizmente acabei me esquecendo de tudo, inclusive do próprio sonho... Na verdade, tenho apenas um pressentimento de que realmente o sonhei... - Que coisinhas são essas que acha que deveria ter aprendido, pai? - Coisas que você talvez não entenderia se te contasse, filha... Coisas que talvez tivessem tornado a minha vida mais fácil... - Coisas de gente grande?
  5. 5. 5 - É. - Mas se foi há trinta anos? Quantos anos você tinha? - Acho que tinha mais ou menos a sua idade. - Não entendi... - O que você não entendeu? - Se você tinha mais ou menos a minha idade é porque ainda era criança, e se era criança, por que teve um sonho em que aprendeu coisas de gente grande? Aquela era uma pergunta que ele tinha feito a si mesmo a vida toda, sem obter uma resposta satisfatória. Suspeitava, contudo, que os sonhos tinham suas próprias regras... - Eu também não sei... Só sei que por não ter entendido, acabei esquecendo... Ou melhor, guardo na memória apenas uma vaga lembrança do que sonhei... - E gostaria de voltar a lembrar, agora que já está velho para entender? - Bem, não sou tão velho assim, mas acho que se voltasse a sonhar aquele sonho, possivelmente entenderia o que deveria ter entendido. - Já sei !!! - Já sabe o quê? - Já sei qual o presente que vou te dar, pai! - Olha lá o que você vai aprontar, Marine! - Tive uma ideia genial! É só eu pedir à Fada dos Sonhos aquele sonho pra você! Ela costuma atender meus pedidos... O homem achou graça da ingenuidade da criança e, para agradá-la, concordou. O que ele não esperava é que ela estava realmente falando sério... Na manhã seguinte, bem cedo, a garotinha colocou sobre a mesa do café, dois objetos que jamais tinham sido vistos naquela casa: um velho relógio, daqueles que só funcionam à corda, e um espelhinho meio embaçado. - Toma papai! - Que coisas são estas, filha?
  6. 6. 6 - A Fada dos Sonhos mandou te dar. Eu conversei com ela, como te prometi ontem. Na verdade, é só um empréstimo... Você sonha aquele sonho de novo e depois devolve, pode ser? Os adultos se entreolharam sem saber o que dizer. Lunna logo fez uma cara de quem não estava gostando nada daquilo e já estava pronta para acabar com a brincadeira quando Júlio, adivinhando seus pensamentos, lançou-lhe um olhar que ela conhecia muito bem; um olhar que poderia ser traduzido assim: “Não se preocupe, isso é coisa de criança...” Mais uma vez ela deixou passar; mas começou a achar que deveriam ter uma conversa sobre o fato de ele estimular a menina a criar muitas fantasias em sua cabeça, mais do que a própria infância costuma inventar. - O que eu vou fazer com isso? – perguntou o pai com os dois inusitados objetos em suas mãos. - Servem para voltar no tempo, pai. É só dar corda no relógio ao contrário... O espelhinho, a Fada me disse que é uma isca de sonhos, ele vai pescar aquele que você escolher. - Ah, bom... - Só tem um probleminha... - Que probleminha? - A Fada disse que só podem entrar no mundo dela, que é cheio de surpresas e mistérios, quem tiver um coração de criança... Será que vai conseguir deixar o seu coração assim, pai? - Não sei... É preciso ter o coração puro como o seu? - Sim, acha isso muito difícil? - Sinceramente, acho. Ele sabia muito bem que, após a infância, era praticamente impossível manter o coração naquele estado. Na verdade, vinha até observando que, ultimamente, nem mesmo nessa fase da vida se constatava mais tanta “inocência”. O que ele não sabia, porém, é que pureza e inocência nem sempre são sinônimos... - Pai, a Fada me disse uma coisa que pode te ajudar. Quer ouvir? - Claro que sim, filha. “Quando você diz que vai conseguir fazer uma coisa e age como se fosse conseguir, acaba conseguindo mesmo!”
  7. 7. 7 Interessante... Ele pensou. Mas quem realmente teria dito isso a ela? Era muito nova para ser dona daquelas palavras... Além do mais, tinha a sensação de já ter ouvido ou lido algo semelhante em algum lugar... - Obrigado, acho que isso vai me ajudar! Se te deixa feliz, vou fazer um esforço... Vou tentar sonhar aquele sonho outra vez, ok? – disse quase só para alegrá-la. - É assim que se fala, pai! Mas se, mesmo assim, continuar achando difícil, a Fada receitou quinze cambalhotas para curar o problema de falta de pureza. Tudo bem? - Oh, isso certamente mudará o meu ponto de vista... – Júlio disse sorrindo. ***
  8. 8. 8 No meio do caminho que fazia todas as manhãs para o trabalho, havia sempre um engarrafamento. Naquela manhã, porém, algo mais tirava o sossego de Júlio Venturo: não podia deixar de pensar em como sua filha conseguira aquelas coisas ou com quem aprendera as palavras que lhe dissera... E, principalmente, não podia deixar de querer que a noite chegasse logo - estava muito ansioso para comprovar que tudo aquilo não passava de “coisa de criança”. Só assim, o assunto estaria encerrado de uma vez por todas. E seria um alívio voltar à rotina. Como era de se esperar, as horas passaram mais lentas do que de costume durante o expediente daquele dia... E à noite, quando ele finalmente abriu a porta de sua casa, foi recebido pela filha com grande entusiasmo: - Vai ser essa noite, hein, pai?! - disse Marine, abraçando-o. - Hã? Ah sim... Acho que vou sonhar aquele sonho de novo, graças a você e à sua amiga Fada... – respondeu ele sem muito ânimo, fingindo ter se lembrado daquilo apenas após sua filha ter tocado no assunto. Lunna viu a cena e logo desviou os olhos para o teto, mordendo os lábios, tentando não rir do constrangimento do marido. Porém, a menina não estava achando aquilo nada engraçado. - Se você acha, então é porque não acredita de verdade! É melhor a gente devolver o relógio e o espelhinho para a Fada dos Sonhos! - disse ela irritada, andando com passos pesados pela sala, como se procurasse o lugar onde o pai deixara os objetos que lhe entregara. - Não precisa! Eu acredito! Eu acredito! Júlio disse essas palavras com tanta ênfase e comicidade que custou um enorme esforço para sua esposa não explodir numa sonora gargalhada. Ele percebeu o papelão que estava fazendo diante dela, mas a verdade, porém, é que não tinha mentido... Bem lá no fundo, bem lá no fundinho de sua alma, resistia uma certa esperança de que poderia voltar àquele sonho. No entanto, era muito difícil admitir isso, até para si mesmo. Sendo assim, para resguardar a sua imagem de homem sério e maduro, ao chegar a hora em que sempre se deitavam nos dias de semana, achou melhor esperar que a mulher pegasse no sono para ir até o escritório, onde estavam guardados o relógio e o espelhinho. Antes, tomou a precaução de deixar, sobre seu travesseiro, um aviso que já era conhecido dela: Estou trabalhando em uma nova ideia! Ao lê-lo, Lunna entenderia que seu marido tinha acordado no meio da noite com uma solução para algum projeto inacabado e respeitaria sua privacidade. Afinal, aquele lugar era o canto de sua casa de que mais gostava, pois nele se encontravam todos os seus livros e CDs favoritos, além de uma mesa de trabalho e um confortável sofá no qual podia se deitar de frente para uma porta de vidro que lhe permitia ver o jardim. Um ambiente propício, portanto, para as atividades nada convencionais que estava preste a realizar.
  9. 9. 9 Sem acender a luz, Júlio recostou-se no sofá e começou a dar corda no relógio, no sentido anti-horário, como Marine recomendara... E, enquanto o fazia, ainda que se sentisse um tanto ridículo, notou que uma parte dele estava gostando muito daquilo - como se por um lapso de tempo, pudesse tirar uma folga do chamado “mundo real”. Porém, nem bem tinha começado sua lúdica tarefa, surgiu em sua mente o seguinte pensamento: “Não acha que isso é um sinal óbvio de que está começando a enlouquecer?” Era a velha vozinha estraga-prazeres que invariavelmente aparecia em ocasiões que parecessem fugir da normalidade. Ela era a zeladora de todos os seus pontos fracos e fracassos, na verdade, sua função parecia ser relembrá-los repetidas vezes... “Você considera lógico o que está fazendo? Sabe muito bem que Nós já perdemos a conta de quantas noites você falhou tentando ter ao menos uma vaga recordação daquele sonho...” Foi o que ela disse, do alto de sua ponderação irrepreensível e, de fato, olhando sob sua ótica, realmente não era muito lógico o que ele estava fazendo ali, ainda que aquelas coisas estivessem especialmente encantadas pela imaginação fértil de sua amada filha. Principalmente porque já havia um bom tempo que se tornara um homem que tinha desaprendido a sonhar... Pois, os sonhos que acaso tinha, se desfaziam assim que abria os olhos, como castelos de areias engolidos pelas ondas de um novo dia. Era como se estivesse um século distante de quem fora naqueles tempos em que, como sua garotinha, fantasiava o mundo em mil e um cenários diferentes... Estava, assim, absorto nestes pensamentos nada agradáveis quando percebeu que dera corda suficiente no relógio, já que este começou a funcionar no sentido anti- horário, é claro. A princípio os ponteiros seguiam a duração habitual do tempo, mas aos poucos, começaram a girar numa velocidade incrivelmente rápida. Ele tinha que admitir: algo estranho estava acontecendo... E tão logo constatou isso, uma suave brisa começou a adentrar no escritório às escuras, através da porta de vidro que deixara entreaberta... Sentiu então uma irresistível vontade de sentar-se no banco do jardim, onde poderia observar melhor as estrelas. Não hesitou em sair para vê-las, e assim que o fez, notou que, coincidentemente ou não, tinham o mesmo aspecto das que vira na noite que agora tentava resgatar... “O que você procura, nesses anos todos, estará refletido no espelho.” Será que tinha pegado no sono sem perceber? Não sabia ao certo, mas teve a nítida impressão de que uma voz (diferente daquela outra que azedava seus dias) lhe falara essas palavras; olhou em volta, não havia ninguém. Mas logo a ouviu novamente: “O que você procura, nesses anos todos, estará refletido no espelho...” Em seu rosto, um sorriso travesso se formou espontaneamente e quase independente de sua vontade, voltou ao escritório para dar uma olhada no espelhinho que tinha deixado sobre o sofá.
  10. 10. 10 Foi com inegável espanto que reconheceu alguns traços do antigo menino que ainda morava nele. “Será que você nunca vai tomar jeito?!” Era a vozinha atacando outra vez. No entanto, agora ele não estava interessado em suas recriminações, algo extraordinário estava acontecendo naquele exato momento... “Você está ficando louco de verdade... Isso não pode continuar!” A vozinha, como legítima sentinela de sua sanidade, tentava de tudo para convencê-lo a não embarcar naquela viagem. Mas por que ele deveria interromper aquilo? Afinal, seria um crime se divertir um pouco, criando o que lhe parecia ser a sua própria ficção? Além do mais, também não era muito razoável que ele desse tanto crédito a uma voz insignificante que falava dentro dele. Ora, só por aquela noite se daria ao luxo da perda da razão! Por umas poucas horas a lógica do mundo não o interessaria, criaria a sua própria! - Quer saber de uma coisa? Posso voltar a sonhar aquele sonho e é justamente o que vou fazer! - disse ele, conseguindo pela primeira vez, em anos, fazer a vozinha se calar. Só então a Voz voltou a lhe falar... “Tudo o que você sabe, tudo o que lhe dá algum tipo de certeza e segurança, deve cair por terra. Mantenha sua mente leve, livre!” No espelhinho, o reflexo do seu rosto desapareceu e deu lugar a uma série de cenas um tanto bizarras... Como se o pequeno espelho fosse uma espécie de tela, onde passavam os “vídeos” com todos os seus sonhos, dos mais recentes aos mais antigos. Lembrou-se, então, da última recomendação de Marine: - Fique bem atento papai, não deixe aquele sonho passar! Quando ele aparecer no espelhinho, você deve dizer: “É este!”. Realmente, ele tinha que prestar toda a atenção possível, o que não era muito fácil já que, ao mesmo tempo em que assistia àquela retrospectiva de todos os seus sonhos, continuava a ouvir a Voz: “Não adianta querer entrar com todo este peso... Você tem que ser leve, muito leve... Quando não se vibra na mesma frequência deste lugar, é inútil forçar... Livre-se de todo o peso inútil! Vamos, venha comigo, vamos para o antes... Quero lhe agradecer por ter cumprido o prometido... Tente se lembrar da primeira vez em que ouviu minha voz...” Então, não era só uma impressão, já tinha mesmo ouvido aquela voz, mas quando teria sido?
  11. 11. 11 Sim, é claro... Não poderia ter sido em outra ocasião, senão naquele fim de tarde, três décadas passadas, quando para se distrair de uma dúvida que seu pai plantara em sua cabeça, tentava capturar borboletas que voavam pelo quintal da casa imensa e pouco habitada em que morava – cujas grades lembravam as de uma prisão, pois o separavam da rua que lhe inspirava grandes aventuras... Aventuras que só conhecia através da televisão; sua melhor amiga. É que sentado a pouca distância da tela, compenetrado, absorto, contagiado pelos mágicos programas que passavam diante de seus olhos, era transportado para além dos limites daquela cidade; limites estes que eram considerados intransponíveis. Gostava tanto dos Desenhos Animados como dos Noticiários. O pequeno Júlio não fazia esse tipo de distinção e seus pais também não faziam restrições para o conteúdo da programação que estivesse assistindo. Afinal, tudo estava sob controle das autoridades... Mas ele só podia ter acesso a este seu maior prazer depois de ter feito os deveres de casa; obrigação que cumpria com um esforço sobre-humano, pois detestava a escola, apesar de ter um grande interesse por livros, principalmente pelos raros livros de poesia da biblioteca de seu avô. O seu principal drama, a propósito, era acordar bem cedo, tomar rapidamente o café da manhã, e ir pegar o ônibus que o levaria para a escola. Julinho se sentia um estranho no ninho naquele lugar, como se estivesse cumprindo pena num reformatório disfarçado. Mas era preciso aturar tudo aquilo em prol do futuro. Aliás, a tal dúvida que seu pai plantara em sua cabeça, quando o levava de carro para o colégio numa manhã, tinha justamente a ver com isso. - Filho, já pensou no que vai querer ser quando crescer? Julinho não sabia, mas naquele instante, seu pai estava representando o papel que todos os pais que se prezem um dia têm que representar. Afinal de contas, é preciso ganhar dinheiro para poder comprar um carro, um ingresso no cinema, arranjar uma namorada, comprar um anel de noivado, financiar um apartamento, casar e ter um filho, para finalmente poder ter a oportunidade de fazer uma pergunta como aquela... - Já papai! - Ótimo, filho! Diga-me: o que você vai querer ser? - O que eu quero ser? Ah... Eu quero ser tanta coisa... - O que, por exemplo? - Eu quero ser veterinário, advogado, maquinista, arquiteto, pescador, barbeiro, médico, professor, astro de rock, pintor, carpinteiro, motorista de ônibus, engenheiro, prefeito, farmacêutico, dentista, marinheiro... Ufa! A lista era interminável. Seu pai estava chocado. - Mas você quer ser tudo?! - Ser tudo parece ser divertido, papai.
  12. 12. 12 - Não parece não!!! Quem quer ser tudo acaba não sendo nada e não ser nada não é uma opção pra você! Vamos, estou falando sério, o que pensa em fazer no futuro? - Sabe pai, o que eu gostaria mesmo era de ser um poeta... - Um poeta! Que absurdo! Quer morrer de fome?! Já vi que não tem condições de escolher por si mesmo, então vou facilitar as coisas pra você, vou te dar três opções dentre as que você me disse: médico, engenheiro ou advogado. Se depois quiser ser prefeito, tudo bem... Então era assim que coisa aparentemente funcionava: como num passe de mágica, ele só teria que escolher uma dentre aquelas três opções e o grande dilema da sua vida estaria resolvido! Mas é claro que era assim que as coisas, certamente, não funcionavam para Julinho. Afinal, como ele poderia escolher uma só coisa para fazer na vida, se a própria vida era como uma vitrine de uma doceria que lhe oferecia uma quantidade infindável de guloseimas? Queria provar todas elas e, só então, escolher aquela de que mais gostasse. No entanto, isso estava fora de cogitação, principalmente naquela cidade, e o menino ficou tão chateado que não quis nem saber de assistir à sua querida TV. Sentia- se inquieto demais para isso e como não podia sair por aí, foi caçar algumas borboletas que voavam pelo quintal da casa imensa e pouco habitada... Bem, isso já foi dito, e ele estava justamente ocupado em tão inglória distração, quando, curiosamente, nuvens pesadas e escuras cobriram o céu - algo que lhe encheu de mórbido contentamento, já que de repente, estava começando a sentir certa afeição pelas tempestades, pelos ventos fortes que arruínam tudo em sua passagem... Mas ao contrário do que ele poderia supor ou desejar, não foi uma ventania tempestuosa e sim uma brisa que parecia conter em si todo o azul dos oceanos, que soprou em seus ouvidos... “Deite-se e se encontre comigo na Fonte do Tempo...” Ela disse e um arrepio eletrizou cada músculo do seu pequeno corpo... Ao mesmo tempo, o manto cinzento feito de nuvens de chuva – que pouco antes ameaçava cobrir por inteiro a noite nascente - começou a se dissipar; revelando assim, as maravilhosas estrelas que, naquela noite, pareciam incrivelmente vivas... - Quem é você?! – perguntou o menino, menos amedrontado do que seria de se esperar. Contudo, não obteve uma resposta para sua pergunta, apenas ouviu aquela Voz dizer novamente: “Deite-se e se encontre comigo na Fonte do Tempo...” Não tinha a menor ideia de quem se tratava, mas como poderia resistir a um convite feito por aquela voz de inusitado encanto? “Venha, estou a sua espera...”
  13. 13. 13 O menino tinha tudo para temer aquele chamado, mas seu coração lhe dizia que não havia verdadeiras razões para se preocupar; a íntima certeza de que poderia interromper aquilo a qualquer instante lhe dava essa segurança. Só não pôde deixar de querer saber para onde iriam... “Para o lugar onde moro, um lugar onde o tempo se conta de uma maneira diferente... Um lugar que certamente irá adorar, meu amiguinho!” - Estou sonhando, não é? “Tudo faz parte de um sonho, tanto em cima quanto embaixo... Tudo faz parte de um grande sonho sem fim que para ser traduzido em palavras, seria necessária uma nova forma de linguagem...” ***

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