Coletânea HADITHI NJOO 3

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Terceira coletânea de afrohistórias e outros escritos organizada pelo Festival Internacional de AfroContação de Histórias HADITHI NJOO. Mais informações em www.festivalhadithinjoo.blogspot.com.br.

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Coletânea HADITHI NJOO 3

  1. 1. HADITHI NJOO organização: Odé Amorim Projeto OFICINATIVA março 2014 terceira coletânea de afrohistórias (e outros escritos)
  2. 2. _____________________________ Projeto OFICINATIVA Caixa Postal 73 Ribeirão Pires, SP CEP 09400 970 projetooficinativa@hotmail.com www.oficinativa.blogspot.com.br ____________________________ Imagens dessa edição: Sarau Fórum HiP Hop em SBC, artista: Opni, fevereiro 2014; ENLACES SOLIDÁRIOS Cuba, julho 2013. Outra árvore, outras palavras..................................................3 Como o mundo foi criado de uma gota enorme de leite..........................4 Por que os macacos não falam.......................5 Canção de ninar................................................7 Iwori Wotura.....................................................8 Provérbios..........................................................9 materiais consultados: - livro Poesía anónima africana (tomo II), Rogelio Martinez Furé - livro El árbol de la palabra, Maritxell Seuba - livro Cuentos y leyendas populares africanos Neste terceiro número da coletânea de afrohistórias e outros escritos, trazemos algumas novidades: ao lado dos contos tradicionais, outras formas e arranjos de palavras utilizados por africanos e seus descendentes. Aqui apresentamos odus, poesias, além dos já apreciados provérbios. E assim vamos nos encantando mais e mais pelas narrativas dos países do genuíno antigo continente. AfroAbraços Odé Amorim
  3. 3. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 3 # Outra árvore, outras palavras Dizem que num país muito distante, num vale precioso, havia um povoado rodeado de bosques e que onde, igual a todo lugarejo, havia uma praça. Dizem também que no centro dessa praça havia uma árvore enorme que todos conheciam como a árvore da palavra. Contam que as crianças do povoado, no trajeto diário pela praça para ir à escola, perguntavam qual a origem de tal nome. Perguntaram então à professora mas ela não pode responder pois a árvore já estava ali antes dela nascer. Tinham tanta curiosidade os pequenos que um dia a professora sugeriu que eles indagassem seus pais e suas mães, seus avôs e suas avós, todos aqueles que talvez pudessem conhecer a procedência de um nome tão estranho para uma árvore. Todas as crianças se entusiasmaram bastante com a ideia porque, como se sabe, todas as crianças do mundo adoram fazer investigações. Imaginem só a surpresa delas quando descobriram que nem seus pais e nem suas mães, nem seus avôs e nem suas avós, ninguém no povoado podia dar informações precisas sobre aquela dúvida, pois também haviam nascido depois da árvore. Comentam que um dia, um dos anciãos do lugar se sentou debaixo da árvore buscando vestígios para esclarecer o mistério do nome. Não encontrou nada, mas notou que ao seu redor foram sentando outras pessoas que nem se conheciam, que nem sabiam como se chamavam e que começaram a conversar umas com as outras, contando mil coisas. A partir de então, quando uma pessoa precisava que alguém lhe escutasse, se dirigia ao centro da praça porque sabia que sempre encontraria debaixo da árvore algum vizinho ou vizinha com quem falar. Pouco a pouco, o tempo passou e deixaram de se perguntar a razão do nome pois descobriram que à sombra da árvore podiam conversar, ser ouvidos e compartilhar tudo aquilo que preocupava. Contam também que, ao saber da notícia, todas as comunidades da região plantaram uma árvore no centro de suas praças e que, desde esse momento, em todo o vale e em todos os povoados existe um lugar onde as pessoas se reunem para DIALOGAR.
  4. 4. Como o mundo foi criado de uma enorme gota de leite No princípio havia uma enorme gota de leite logo Doondari veio e criou a pedra, e a pedra criou o ferro, e o ferro criou o fogo, e o fogo criou a água, e a água criou o ar. Então Doondari desceu pela segunda vez, tomou os cinco elementos e os modelou em homem. Mas o homem era orgulhoso. Assim Doondari criou a cegueira e a cegueira venceu o homem. Mas quando a cegueira se tornou extremamente orgulhosa, Doondari criou o sonho e o sonho venceu a cegueira. E quando o sonho ficou orgulhoso, Doondari criou a ansiedade e a ansiedade venceu o sonho. E quando a ansiedade ficou orgulhosa, Doondari criou a morte e a morte venceu a ansiedade. Mas quando a morte se tornou bastante orgulhosa, Doondari desceu pela terceira vez, e veio acompanhado de Gueno, o eterno, e Gueno derrotou a morte. Gueno: Deus Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 4 #
  5. 5. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 5 # Por que os macacos não falam Naqueles tempos passados nos quais os animais falavam, os macacos conviviam nas aldeias com os homens e com eles conversavam. Mas aconteceu que os humanos celebraram uma grande festa: durante uma semana inteira tocaram, bailaram e beberam todas as noites sem parar. Abundantemente havia vinho de palma porque o rei da localidade havia ordenado colocar 200 tinas grandes cheias do licor na praça do povoado. Todo mundo havia tomado dele até se saciar, mas o chefe, como lhe correspondia, bebeu muito mais que os outros. Por isso, ao despontar a madrugada, suas pernas tremiam como 2 palmeiras frágeis, seus olhos se confundiam e seu coração se sentia inundado por um mar de felicidade. Suas mulheres, vendo esse estado, levaram-no ao palácio mas ele se negou a permanecer ali e, saindo de novo, foi para a aldeia dos macacos. Quando chegou, estes, rindo e saltando, o cercaram. Um lhe dava tapas no traseiro, outro lhe arrancava a toca, um terceiro lhe puxava a língua, mais outro lhe virava o ombro ou fazia um gesto sem vergonha. E assim a diversão era enorme, sendo o monarca a razão da zombaria de todos os símeos. O soberano, já um ancião, se irritou muito ao ver a conduta desrespeitosa daqueles animais e, cheio de raiva, foi se queixar com Nzamé – simplesmente Deus. Este escutou com atenção a queixa do amo dos homens e, querendo fazer justiça, chamou o rei dos macacos. Uma vez em sua presença, perguntou bem bravo: - “Diga-me, por favor, por que seus companheiros insultaram tão grosseiramente e sem motivo o chefe dos homens”? O rei dos macacos não sabia o que responder. Então Nzamé disse com tom severo: - “De hoje em diante, você e seus filhos servirão aos homens e eles lhes castigarão. Então, desde já, ficam submetidos a esta autoridade”. O amo dos homens e o rei dos macacos se foram mas quando o primeiro ordenou ao segundo que fosse trabalhar, este, apesar da indicação recebida, respondeu de forma insolente: - “Está sonhando? Trabalhar, eu? Não está bem da cabeça”. O chefe não insistiu. Chegou à aldeia, se deitou e quando estava descansando, organizou um plano para se vingar dos micos sem vergonha. Quando chegou a seguinte festa, ordenou que colocassem no centro da praça da aldeia centenas de tinas grandes cheias de rico vinho de palma.
  6. 6. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 6 # Mas no vinho havia mandado despejar a erva que faz dormir. Advertiu os seus conhecidos que só tomassem dos recipientes sinalizados. Depois convidou os macacos para a festa. Os símeos não podiam recusar tal convite e foram se divertir e beber. Mas já nos primeiros goles sentiram profundos desejos de dormir e caíram num sono pesadíssimo. Então, o vingativo monarca ordenou que amarrassem todos os animais. Feito isso, os humanos começaram a açoitá-los com enormes chicotes. Os símeos, ao sentirem os golpes, despertaram imediatamente, numa agilidade tremenda e nunca vista. Saltavam e bailavam que era uma maravilha! Terminada a memorável surra, os macacos andaram agachados, agitando e arrancando os pelos. Então o chefe dos homens ordenou que lhes marcassem com ferro em brasa e lhes obrigou a fazer os trabalhos mais difíceis da aldeia. Os micos não tiveram opção a não ser obedecer, mas um dia, fartos de trabalhar e sofrer, foram ao amo reclamar melhor tratamento. - “Muito bem,” – respondeu ele – “ agora verão o tratamento que vou dar”. No mesmo momento, ordenou que seus guerreiros dessem uma nova surra nos que protestavam e que lhes cortassem as línguas. - “Assim terminam as reclamações. Ao trabalho, vagabundos”! Indignados, os macacos não podiam proferir mais que sons sem articulação e como, ao invés de obter justiça, tinham sido tratados com crueldade e pouca caridade, decidiram fugir para a floresta. Os descendentes deles nasceram dotados de línguas mas, como temem que os homens queiram novamente obrigá-los a trabalhar, não pronunciam nenhuma palavra. Continuam a saltar e a brincar como no dia que lhes deram aquela surra. E soltam muitos, muitos gritos, isso sim.
  7. 7. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 7 # Canção de ninar Durma meu filho e não chore que te trarei um sapo de nossa fazenda em Awututu. Durma meu filho e não chore. Não chore meu filho, tua mãe foi a fazenda com seu grande seio. Não chore meu filho, logo ela retornará com seu grande seio. Por que chora, Olukorondo? Um espinho nunca pica o pé de uma criança. Não te carrego sempre em minhas costas? Por que chora então, Olukorondo?
  8. 8. Odù é a palavra em iorubá para destino. Também pode ser compreendida como a poesía de Ifá, o oráculo, o adivinho de tal cultura Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 8 # Iwori Wotura Todo aquele que encontra a beleza e não a olha logo será pobre As penas vermelhas são o orgulho do papagaio As folhas novas são o orgulho da palmeira Iwori Wotura As flores brancas são o orgulho das folhas A galeria bem varrida é o orgulho do patrão Iwori Wotura A árvore ereta é o orgulho da mata A galeria bem varrida é o orgulho do patrão Iwori Wotura O arco-íris é o orgulho do céu A mulher bonita é o orgulho do marido Iwori Wotura Os filhos são o orgulho da mãe A lua e as estrelas são o orgulho do sol Iwori Wotura Ifá diz: “A beleza e tudo a ela relacionada se aproximam, se conectam“ _____________________________ obs.: Iwori Wotura é o nome do odù aqui exposto
  9. 9. Coletânea de AfroHistórias HADITHI NJOO # 9 # Provérbios "Mostra sua força para que possa manter suas amizades" Suaíle "A chuva não cai só num telhado" Efik, Nigéria "Um dedo só não consegue recolher o grão do chão" Malinké / Bambara, Mali "A flecha mortal só alcança o elefante uma vez" Pigmeus, Gabão "Quanto mais lenha colocar, mais a chama crescerá" Jasaniya, Mauritânia "Melhor caminhar com quem te ama que descansar com quem te odeia“ Tigrai, Etiópia
  10. 10. _____________________________ www.festivalhadithinjoo. blogspot.com.br ____________________________ "Hadithi Njoo" significa "história vem" ou "que venha a história". É uma expressão em suaíle (swahili / kiswahili) utilizada no leste africano - Quênia, Uganda, Tanzânia, Congo - por contadores tradicionais quando iniciam suas intervenções: hadithi, hadithi, hadithi njoo! (história, história, eles dizem, que venha a história, responde o público). “Os pais que não contam contos a seus filhos vão ficar carecas...“

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