Às Margens Juvenis de São Leopoldo
    Dados para entender o fenômeno juvenil na região*



                              ...
Sumário



Um começo de conversa.............................................................................................
Um começo de conversa



   Esta publicação é uma espécie de “prólogo”                                 pertencente à “gran...
Outra curiosidade “localizadora” e interpre-            b) Conversando sobre o vivido
tativa refere-se à “geografia dos ´b...
Parte I: Na ciranda dos dados



    São vários olhares, visando a uma melhor lo-                  pessoas. Dentre eles, 1...
borracha, 4 curtumes, 8 cerâmicas, 27 fábricas de                     abaixo da linha de pobreza, mesmo sendo o ter-
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após 43 anos de existência. Funcionava no local                          Outro mote orientador dos jesuítas era o de
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   Em 1911, os ...
Em relação à proveniência dos alunos                        4 Evolução demográfica e aperitivo
(2003/1), segundo os municí...
torno de 7.500 pessoas, com indústrias, lojas co-                 teira, mas é conhecida pela violência e pelo
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REDUÇÃO DE DANOS – Visa a prevenir doen-                     tempo, reflete-se não somente a questão da
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Muitos vizinhos e parentes omitem os fatos,            tegorias: mirim, cuja idade varia dos 7 aos 11
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130 (aproximadamente) crianças e adolescen-                         Existe, igualmente, o projeto Pelotão Espe-
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Parte II: Na ciranda das conversas



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Às margens juvenis de São Leopoldo
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  1. 1. Às Margens Juvenis de São Leopoldo Dados para entender o fenômeno juvenil na região* Hilário Dick (coordenador)1 Valburga Schmiedt Streck2 Cátia Andressa da Silva3 Maraike Wegner4 1 Dr. em Literatura Brasileira, coordenador do Curso de Especialização em Juventude Contemporânea da UNISINOS, coordenador do Programa Juventude do Instituto Humanitas Unisinos. 2 Doutora em Teologia pela Escola Superior de Teologia – EST e Pós-Doutora em Psicologia Social pela Universidade de Munique – Alemanha. 3 Estudante do curso de História e colaboradora da pesquisa. 4 Pedagoga formada pela UNISINOS e colaboradora da pesquisa. * Esse trabalho é fruto, igualmente, do envolvimento de Natasha Maria Wangen Krahn, Alessan Coelho Ramos e Maurí- cio Ivam dos Santos. 1
  2. 2. Sumário Um começo de conversa..................................................................................................................................... 3 a) O sentido de algumas perguntas ...................................................................................................... 3 b) Conversando sobre o vivido ............................................................................................................ 4 Parte I: Na ciranda dos dados.......................................................................................................................... 5 1) O que foi São Leopoldo? E hoje, o que é? .................................................................................... 5 1) No campo do Ensino Fundamental e Médio ................................................................................ 6 3) A população universitária ................................................................................................................. 8 4) Evolução demográfica e aperitivo dos bairros .............................................................................. 9 5) Quartéis e criminalidade em São Leopoldo ................................................................................... 10 6) Instituições atuais a serviço da juventude ...................................................................................... 13 7) Locais de encontro da juventude..................................................................................................... 16 Parte II: Na ciranda das conversas................................................................................................................... 19 1) A juventude na voz de alguns profissionais que trabalham com jovens ................................... 19 2) Visões da juventude com base na realidade leopoldense............................................................. 23 À guisa de conclusão provisória ........................................................................................................................ 30 Referências bibliográficas .................................................................................................................................. 34 Anexo Aspectos do fenômeno juvenil brasileiro: Realidade e valores .............................................................................. 35 Uma primeira aproximação................................................................................................................... 35 Ser jovem ................................................................................................................................................. 36 Religião ..................................................................................................................................................... 37 Política ...................................................................................................................................................... 37 Trabalho ................................................................................................................................................... 38 Educação.................................................................................................................................................. 39 Sexualidade e gênero .............................................................................................................................. 39 A cultura dos “jovens”........................................................................................................................... 40 À guisa de conclusão: Desafios culturais ............................................................................................ 41 2
  3. 3. Um começo de conversa Esta publicação é uma espécie de “prólogo” pertencente à “grande Porto Alegre”, no Rio de algo que está planejado para ser feito. Mo- Grande do Sul, chamada São Leopoldo2. Além ve-nos a questão dos valores juvenis, em suas de outros dados relevantes que existam sobre mudanças, na cidade de São Leopoldo (Rio este município, São Leopoldo é conhecida como Grande do Sul). A pesquisa está integrada com a região mais violenta do Estado e a região onde outras, em nível latino-americano, através da Red morrem, proporcionalmente, mais jovens e ado- Latinoamericana de Investigadores en Juventud, com o lescentes. Não vai ser uma pesquisa sobre a vio- mesmo objetivo1. O estudo articula-se com algo lência, mas o contexto violento, aliado a outros “irmão”, que está sendo feito em Santiago do aspectos, colaborou em nossa decisão por esta Chile, em Manágua (Nicarágua), em Assunção e localidade. em Montevidéu. Consideramos “Às margens ju- Com a finalidade de “localizar-nos”, procura- venis de São Leopoldo” como uma “conversa in- mos responder a algumas perguntas. Uma primei- trodutória”, mas necessária. Não desejamos “es- ra refere-se à história da cidade, sem termos a tudar” uma realidade sem “conhecer” o “ambien- preocupação de escrever sua história, mas de ter- te” em que nos vamos deter para observar um fe- mos uma noção de sua caminhada, como cidade. nômeno específico. A questão juvenil relaciona-se com a “preocupa- ção educativa”. Perguntamo-nos, por isso, sobre a origem dos “colégios” e escolas, o lugar onde as a) O sentido de algumas perguntas crianças, os adolescentes, os jovens e – de certa forma – as famílias se encontram com seus so- O objetivo desta “sistematização” é iniciar nhos de construir uma “sociedade”. Importante, uma pesquisa sobre a mudança de valores que os por isso, é dar-nos conta do significado e da situa- jovens, especificamente os do mundo da perife- ção de estabelecimentos de ensino superior na re- ria, protagonizam na sociedade atual. Isso por- gião. Tudo isso se relaciona com a utopia do que, ao que os sintomas apontam, estamos viven- povo dessa região ou é um fato que depende ex- do um profundo processo de mudanças culturais, clusivamente de figuras ou instituições isoladas, afetando particularmente o mundo dos jovens. que sonham com realizações que têm pouco a Tomamos como local de verificação uma cidade ver com a felicidade desta coletividade? 1 Esta Rede se constituiu em setembro de 2001 e, no Seminário realizado de 16 a 18 de outubro de 2002, na UNISINOS, ela se definiu como una red de trabajo que reune a investigadores en juventud y que tiene como objetivo producir conocimientos sobre la te- mática juvenil y desarrollar actividades en ese campo de trabajo. Específicamente se trata de conocer la forma de expresión de los valores juve- niles en las áreas de educación, trabajo, género, sexualidad, política, cultura y religión. Os objetivos que a Rede Latino-Americana de Pesquisadores sobre Juventude definiu, são: a) Producir y difundir cononocimientos en temáticas de juventud a nivel académico, gubernamental y no gubernamental; b) promover y favorecer el intercambio de investigadores, docentes, estudiantes, metodologías, bibliografía y material pedagógico relacionado con temáticas de juventud; c) fortalecer los vínculos institucionales entre las entidades de la red y fuera de ella; d) contribuir a la formulación de políticas públicas de juventud en América Latina; e) desarrollar procesos de capacitación y formación en materia de juventud. 2 Anexamos a este estudo um sintético diagnóstico sobre a juventude brasileira, chamando a atenção para o fenômeno juvenil mais amplo: brasileiro, baseados em dados de uma pesquisa que consideramos uma das melhores do gênero. 3
  4. 4. Outra curiosidade “localizadora” e interpre- b) Conversando sobre o vivido tativa refere-se à “geografia dos ´bairros´”. O porquê das individualidades geográficas escon- Num segundo momento, procuramos ir de razões que, para ler o fenômeno juvenil, po- além do simples “ver” e/ou “constatar”. Procu- dem ser importantes. Mesmo quando se trata da ramos pessoas para conversarmos sobre o que vivência de valores novos ou velhos, a geografia gostaríamos de compreender melhor. Realiza- pode ser relevante. Por isso a necessidade de mos, por isso: olharmos – mesmo que de forma ligeira – para a 1) Uma “pesquisa de campo”, fazendo entrevis- evolução demográfica da região e para caracte- tas com pessoas selecionadas, registrando suas rísticas de “bairros”, vivendo e cultivando valo- respostas. Foram entrevistados, assim, vários res que são frutos daquilo que admitimos como adultos envolvidos no trabalho com jovens. “circunstâncias”. Estas entrevistas foram gravadas em fitas de áu- O fato de uma cidade do porte de São Leopol- dio e transcritas. do sediar ou ter sediado três quartéis de significa- 2) Quatro grupos focais: dois formados por jo- do, ou o fato de uma cidade como São Leopoldo, vens e dois, por adultos. Quanto aos “adultos”, ser a sede de um Seminário Maior ou de uma Facul- devido ao crescente empobrecimento, opta- dade de Teologia de corte luterano, não deixaria res- mos por fazer um grupo focal numa Vila de pe- quícios para a população que, de alguma forma, riferia do município para poder ouvir o que acolhia ou acolhe essas realidades, inclusive de esta população pensa sobre a juventude atual. traço juvenil? O grupo contou com a presença de 15 pessoas, Quando se olha tudo isso, uma questão como das quais treze eram moradores da Vila. A faixa a “criminalidade juvenil” não pode deixar de ter etária deste grupo era de 35 a 67 anos. Um se- conotações que precisam ser compreendidas. gundo grupo focal foi realizado com diferentes Por isso é importante, também, percebermos, profissionais relacionados, de diversas formas, num primeiro momento, a visão geral dessa “cri- com jovens. minalidade” ou dessa “situação juvenil” sendo 3) Foram organizados, igualmente, dois grupos enfrentada e descrita. Que instituições existem, focais com jovens. Um deles, formado por adoles- além das escolas e colégios, que procuram aten- centes de 13 a 17 anos, provindos do centro da der a aspectos que surgem como necessários para cidade, de um bairro de classe média baixa e de serem trabalhados, visando a uma sociedade mais um bairro periférico. O outro constituiu-se por harmônica e feliz? É por isso que procuramos dar jovens de 18 a 30 anos, oriundos do centro da ci- uma atenção especial às instituições históricas dade e por jovens de bairro de classe média baixa. e/ou atuais que estão a serviço do segmento ju- Neste grupo focal, faltaram jovens de periferia. venil da cidade. Os critérios básicos eram a representatividade Outra pergunta importante – e que vai além social e o sexo. É importante observar que foi o de uma mera curiosidade – refere-se aos “locais grupo mais difícil de ser formado devido, aparen- de encontro” da juventude da região, fora do lo- temente, à agenda das pessoas que convidávamos. cal de trabalho e da escola. A “sociedade” en- É esse conjunto de “dados” que apresentare- frenta essa necessidade de que forma? A juven- mos a seguir, tendo sempre em vista que objeti- tude sente-se satisfeita com relação aos espaços vamos estudar a mudança de valores que os jo- de lazer e de encontro? Como se dá isso em São vens de São Leopoldo, especialmente, os da peri- Leopoldo? feria estão vivendo, ou não. 4
  5. 5. Parte I: Na ciranda dos dados São vários olhares, visando a uma melhor lo- pessoas. Dentre eles, 1.347 eram solteiros. Consi- calização. A pretensão não chega ao “científico”: derando que havia 4,6 filhos por família e que sonha-se com um “vistaço” sob vários ângulos, 20% teriam de 14 a 29 anos, teríamos um total de julgados iluminadores. 1.760 moradores considerados “jovens”. Como escreve Amado, “os moradores de São Leopoldo (eram) extremamente jovens em seu conjunto – 1 O que foi São Leopoldo? E hoje, o que é? 53,8% tinham menos de 20 anos de idade, 72,8%, menos de trinta, em 1845”4. Em 1842, 37,0% da Antigamente, São Leopoldo – conhecida população alemã teuto-brasileira tinha de 10 a 30 como o “berço da imigração alemã no Rio Gran- anos. O mesmo vale para os anos de 1848 e de do Sul” – tinha uma população com outros ti- 18505. Embora o aspecto juvenil não apareça pos de “moradores”. Os primeiros moradores da nesta história dos imigrantes, é necessário região foram os índios kaigangs, que se opuseram dar-nos conta de uma afirmação de um dos “co- de diferentes formas à vinda dos 4.856 imigrantes lonos” de situação econômica média, com 38 alemães, entre os anos de 1824 e 1830. Havia, anos de idade (1870), preocupado com o futuro e também, outros moradores, especialmente escra- sabendo que a volta para a Europa era impossí- vos negros que se localizavam na Feitoria do Li- vel: “os velhos que conheço têm razão. Eles são nho Cânhamo onde se encontra, atualmente, a muito sábios e muito conhecedores da vida, estes Casa do Imigrante. A questão das terras a serem ditos velhos”. (...) E continuava: “... mas eles são ocupadas pelos imigrantes foi, sem dúvida, a fon- velhos e já estão passando para a outra vida (...) e o te dos maiores conflitos dos recém-chegados da mundo aqui embaixo é dos moços, como os meus Alemanha com essas populações autóctones. filhos Carlos e Pedro e as minhas filhas Elizabet, Foi, igualmente, muito tumultuada a oficialização Carolina e Ana, e a mais nova de todas, a Ana Ca- dos lotes, considerando as sesmarias e os donos rolina” (Amado, p. 97-8). Estávamos 36 anos após delas. Além disso, deram-se, aos poucos, “con- a chegada da primeira leva de imigrantes. centrações ambíguas de terras”. Como informa Janaína Amado (p. 84), em 1870, 50% dos pro- Dados econômicos e culturais prietários eram donos de 71 a 82% das terras da O fato é que a cidade de São Leopoldo cres- Picada Verão, Ferrabraz e Bica. ceu muito, principalmente em dois aspectos: o Interessante perceber que – segundo historia- econômico e o cultural. São Leopoldo é, hoje, dores como Petry (Leopoldo) – o maior adversá- com 180 anos, a décima economia gaúcha. Perce- rio dos “invasores” foi o cacique João Grande. bemos que, 140 anos depois da chegada dos imi- Reunira, em torno de si, vários índios, assaltando grantes (1963), apesar de todas as dificuldades e matando o que podia3. De 1824 a 1853, vieram enfrentadas, havia, na localidade, 20 lojas de cal- da Alemanha 1.309 famílias, num total de 6.144 çados, 19 olarias, 7 metalurgias, 8 indústrias de 3 Para ter mais pormenores, leia-se PETRY, Leopoldo. São Leopoldo berço da colonização alemã do Rio Grande do Sul. 2. ed. São Leopoldo, editado pela prefeitura de São Leopoldo, 1964, p. 24 et seq. 4 AMADO, Janaína. A revolta dos Muckers. São Leopoldo: Unisinos, 2002. p.43. 5 AMADO, Janaína, op. cit., p. 119. 5
  6. 6. borracha, 4 curtumes, 8 cerâmicas, 27 fábricas de abaixo da linha de pobreza, mesmo sendo o ter- calçados e 22 de artefatos de couro. Hoje, eviden- ceiro município gaúcho para investimentos. É o temente, são muito mais. São Leopoldo, neste nono município mais populoso do Estado. momento, é o 11º colégio eleitoral do Estado. É, também, um centro geográfico e econômico da região metropolitana de Porto Alegre, possuindo 2 No campo do Ensino Fundamental e (segundo os dados do IBGE e fontes oficiais do Médio município) cerca de 202. 000 habitantes em seus 103,10 km2 de área total. No momento atual, 57% das crianças e ado- Culturalmente, o município também cresceu lescentes do município, com mais de 14 anos, es- muito. Além de seus estabelecimentos de ensino tudaram, no máximo, até a quinta série do Ensi- para crianças, adolescentes e jovens, em 1969 ela no Fundamental. Cento e vinte e oito delas estão podia ver implantada, em sua geografia, uma em situação de rua. 95,6% dos habitantes de São Universidade. Leopoldo são alfabetizados e, em 2003, foram feitas 34.274 matrículas no Ensino Fundamental, Dados geográficos em 67 estabelecimentos de ensino, públicos e São Leopoldo limita-se com os municípios de particulares. No total, São Leopoldo possui Novo Hamburgo, Portão, Canoas, Sapucaia do 41.881 estudantes, nos níveis fundamental e mé- Sul e Gravataí, e situa-se na região nordeste do dio e 2.166 professores, divididos também nestes Rio Grande do Sul. Fica a 34 km da capital do níveis. Nas 23 escolas estaduais, estão matricula- Estado, Porto Alegre. Segundo dados da revista dos 20.598 alunos, servidos por 969 professores. Rua Grande (edição 1934, ano 38, de 18 a 31 de ju- Nas 10 escolas particulares do município, traba- lho de 2003) possui 24 bairros, 152 vilas, 93 pra- lham 413 professores, tendo nas salas de aula ças, 1.789 ruas e 63 avenidas, por onde circulam 3.950 alunos. São Leopoldo possui 33 escolas seus moradores. Entre eles, 80.000 são estudan- municipais, com 784 professores para 19.773 alu- tes e mais de 18.000, idosos com mais de 60 anos. nos. Não consideramos, nestes casos, a situação Em São Leopoldo, vivem mais de 10.000 pessoas da Pré-Escola. Ensino Médio Ensino Fundamental Pré-Escola Matrículas Docentes Estabelec. Matrículas Docentes Estabelec. Matric. Docentes Estabelec. Escola Pública Estadual 6380 336 12 14.214 633 23 338 15 8 Escola Municipal - - - 17.337 784 33 2.436 118 36 Escola Particular 1.218 173 10 2.723 240 11 487 44 14 TOTAL 7.598 509 22 34.274 1.657 67 3.261 177 58 Antes... alfabetizar e educar as crianças e os jovens, o pri- Em seus inícios, boa parte da história das ins- meiro “colégio” que apareceu e fez história foi o tituições educacionais, em São Leopoldo, gira em Ginásio Imaculada Conceição, em 1869, por iniciati- torno de uma falta de tradição de “escola”, junto va dos jesuítas. Em 1903, este Ginásio tinha 268 aos índios e caboclos. Isso se foi modificando, internos. aos poucos, sendo importante a tradição que os Conceição imigrantes alemães carregavam consigo. Em 1870, num total de 14.103 habitantes, havia 1.868 Um colégio de grande significado para a histó- estudantes e 43 escolas. Embora os evangélicos ria de São Leopoldo, portanto, é o Colégio Con- luteranos tenham criado, desde cedo, formas de ceição, fundado em 1869 e fechado em 1912, 6
  7. 7. após 43 anos de existência. Funcionava no local Outro mote orientador dos jesuítas era o de onde, mais tarde, surgiria a Universidade do Vale “mente sadia num corpo sadio”, mens sana in corpo- do Rio dos Sinos. O Conceição ou, como era cha- re sano. Prezavam, por isso, a prática de esportes mado, o Colégio dos Padres, foi inaugurado em 03 para sua juventude, além de manterem uma roti- de outubro de 1869. Como diz Bohnen6, na rígida que deveria ser cumprida obrigatoria- não havia grande esperança de aumento de alunos, por- mente todos os dias. Tal rotina diferia em horá- que a comunidade protestante já tinha uma escola, cujo rio, no verão e no inverno. Quanto aos jogos, diretor era o Pastor Borchard. Freqüentavam-na tam- eram abundantes e variados, tais como “bandei- bém alunos católicos. Alunos externos, provindos das ra”, “barra”, “rounder”, “perna de pau”. Em colônias, não era preciso esperá-los, devido às distâncias 1910, formou-se um time de futebol, denomina- demasiado grandes. O impasse foi resolvido como que por um condão de magia, quando vários colonos resol- do Conceição Foot Ball Club. Este time ficou famo- veram entregar seus filhos aos padres como internos. so a tal ponto que era convidado a competir com Com efeito, no dia de Santo Inácio, de 1870, aparece- escolas como o Instituto São José, dos Lassalistas ram os primeiros internos. (Canoas) e o Colégio Anchieta (Porto Alegre), e Em 1872, chegaram da Europa dois reforços com times como o Internacional e o Grêmio. humanos muito importantes: os padres Jacó Rath- Conflitos geb e Luiz Sarrazin, ambos jesuítas. Na abertura do ano letivo, eram vinte e cinco os alunos. Um Os jesuítas foram acusados, não poucas vezes, mês depois, subia para trinta e cinco, e mais tarde, de severidade exacerbada e de “crueldade” con- atingia quarenta e três. Somando-se a estes os ex- tra os alunos. Sempre se defendiam, afirmando ternos, encerrou-se o ano letivo com cento e vinte serem calúnias. Dizem que, uma vez, certo padre alunos. Entre os trinta e cinco alunos, havia três teria dado “tapinhas” em um aluno, porque este ingleses (protestantes). Um dos alunos foi despe- estava ameaçando outro colega com uma faca. dido, porque já completara 17 anos e não se entro- Alguns pais deram fé e, segundo os jesuítas, dis- sava bem com os mais jovens. A comunidade de torceram a realidade, não distinguindo entre fato alunos era formada por descendentes de alemães, e boato. por adolescentes vindos do Uruguai e por meni- O episódio dos muckers, no Ferrabrás, tam- nos de vários estados brasileiros. Com o passar do bém abalou os ânimos dos membros do Colégio tempo, a maioria dos alunos era luso-brasileira. Conceição. Os padres conseguiram que as aulas não fossem interrompidas, mas sabemos que os Jeito de educar alunos e os pais deles eram, muitas vezes, pertur- Algum tempo depois, o Colégio Conceição bados pelos sectários “rebeldes”. Corria um boa- era comparado ao Ginásio Nacional Dom Pedro to que os muckers iriam invadir São Leopoldo e II, do Rio de Janeiro. Assim como no Ginásio do destruir o colégio7... Para coroar a fase dos males Rio de Janeiro, fervilhavam no Colégio Concei- que se abatiam sobre o Conceição, devemos re- ção, jovens dedicados aos estudos, acompanha- cordar a perseguição aos bispos brasileiros de dos pelo controle disciplinar e pelo entusiasmo Olinda e Pará, (a “Questão Religiosa”), que levou pedagógico dos jesuítas. De 1901 a 1910, foram os dois bispos à prisão, por terem suspendido sa- concedidos, a 67 alunos, os títulos de bacharel, já cerdotes que não queriam deixar a maçonaria. que agora o colégio, em sua condição de “giná- Com repercussão desse fato, espalhou-se a notí- sio”, poderia dar tal diploma. cia de que os jesuítas teriam que deixar o Brasil. 6 BOHNEN, Aloysio; ULLMANN, Reinholdo Aloysio. A atividade dos jesuítas de São Leopoldo. São Leopoldo: UNISINOS, 1989. 7 A vinda dos jesuítas não deixou de significar, desde os seus inícios, uma “ameaça” para diversos setores da sociedade do local, quer políticos, quer ideológicos, quer religiosos. Isso fica mais evidente na explosão da revolta dos muckers e no que isso significou, para os jesuítas, na condução do Ginásio Conceição. 7
  8. 8. Fechamento lar das crianças, uma grande preocupação deles, Em 1911, os jesuítas fecharam o Colégio desde 1864, era a formação de pastores. Assim Conceição, com 193 alunos internos e 33 exter- mesmo, apesar de todos os esforços, não conse- nos, tendo havido certa continuidade com o Gi- guiram permissão de criar uma escola nestas ter- násio São Luís, dos Irmãos Maristas. Nos qua- ras a não ser nos inícios de 1900. Desde 1909, de- renta e três anos de sua existência, cerca de dicaram-se ao Seminário Evangélico de Forma- 2.500 alunos externos haviam recebido, aí, for- ção de Professores, transferido de Cachoeira do mação intelectual. Contando com os alunos in- Sul para São Leopoldo, em 1926. ternos, em número de 3.014, o número dos Dez anos depois (1936), inaugurar-se-ia, no “formados” passou dos 5.000. Os jesuítas, por Morro do Espelho, junto ao Instituto Pré-Teoló- sua vez, seguiram por outro caminho. Por isso, gico, o Colégio Sinodal. Como escreve o Prof. um ano após o fechamento do Conceição, co- Willy Fuchs “a escola entrou como uma forma de meçaria, no mesmo local, o Seminário Maior e assegurar a cultura, o ensino da Língua Alemã, Menor de São Leopoldo, de destino regional, pois não tinha quem falasse com os imigrantes. abrangendo os Estados do Sul do Brasil. Este Meu avô recebeu terra em Dois Irmãos, mas não Seminário funcionou até 1959, ano em que ele tinha com quem falar. Naquelas áreas de coloni- foi transferido para Viamão. zação, ou era só alemão, ou só italiano”. Em Os jesuítas, contudo, não pararam. Além de 1940, surgiria, igualmente por iniciativa dos construírem o Colégio Cristo Rei (no bairro evangélicos, a Escola Técnica de Comércio São Cristo Rei) para seus estudantes de Filosofia e Leopoldo. Teologia, na antiga sede do Ginásio Imaculada Conceição (no Centro) surgiria, em 1958, a Fa- culdade de Filosofia, Ciências e Letras, o come- 3 A população universitária ço da futura Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1969). Considerando os universitários, São Leopol- do conta com 82.732 estudantes. Podemos dizer São José que 41,5% da população da cidade, como um Paralela a essa história há, igualmente, a partir todo, estudam. A realidade educacional funciona de 1872, a do Colégio São José, das Irmãs Fran- em oito escolas municipais de Educação Infantil; ciscanas, um colégio encabeçado pela Irmã Sta- 33 escolas municipais; 35 escolas estaduais; 21 es- nisla, apoiada pelas Irmãs Alvina Ferbers e Lud- colas particulares, além de outros cursos. Mais gera Hellwig. Apesar de ter funcionado no centro ainda: além dos 30.000 alunos da UNISINOS, o da cidade, frente ao Colégio Conceição, transfe- município conta, na sua geografia, com a Escola riu-se mais tarde para a Colina da Hidráulica, no Superior de Teologia, no Morro do Espelho, atual Bairro São José. Nascia, assim, o Colégio com 2.518 alunos/as. São José, com duas classes para a juventude de São Leopoldo sedia a maior universidade par- língua alemã de São Leopoldo e arredores. No ticular do Brasil. Fundada em 1969, a Universida- primeiro dia de aula, em 05 de abril de 1872, as ir- de do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS possui mãs tiveram a agradável surpresa de verem diante um campus com 90,55 hectares de terra, 391 salas de si vinte e três pequenas alunas, variando entre de aula, 144 laboratórios, 45 cursos e habilita- sete e treze anos de idade. ções, cursos de pós-graduação, 31.358 alunos (março 2003), 1047 professores e 1252 funcioná- Sinodal rios. Além de tudo, é uma grande concentração Os evangélicos (de Confissão Luterana no de “jovens”, considerando que 80,7% deles têm Brasil), igualmente, tiveram sua tradição educacio- de 17 a 29 anos. 5.035 destes jovens estudantes nal. Embora estivessem atentos para a vida esco- são de São Leopoldo. 8
  9. 9. Em relação à proveniência dos alunos 4 Evolução demográfica e aperitivo (2003/1), segundo os municípios de origem, o dos bairros quadro é o seguinte: Canoas, 1.934; Esteio, 1.314; Novo Hamburgo, 2.380; Porto Alegre, 7.408; Dando uma olhada na evolução da densidade São Leopoldo, 5.035; Sapucaia, 1.474. Com mais populacional de São Leopoldo, verificamos que, de 500 alunos, estão os municípios de Bento enquanto, de 1970 a 1980, houve um crescimento Gonçalves (505), Cachoeirinha (500); Gravataí populacional de 34,3%, de 1980 a 1990, este cres- (833) e Montenegro (685). cimento foi de 41,6% e, de 1990 a 2000, de, so- Olhando a origem dos alunos por regiões do mente, 13,2%. Assim como a cidade foi grande re- Estado do Rio Grande do Sul, vemos que, do ceptora de migrantes do interior, de 1970 a 1990, o Vale dos Sinos, vêm 14.170 alunos; do Vale do mesmo não sucedeu na década de 1990. Esse fato Taquari, 699; da Região das Hortênsias, 473; do esclarece, possivelmente, um dado sobre a popu- Vale do Paranhana, 16; da Região da Serra, lação juvenil. É bem provável que a vinda de estu- 1481; da Região do Litoral, 543; da Região Me- dantes universitários para São Leopoldo, na déca- tropolitana, 8.715; do Vale do Caí, 1.680; e da da de 1970 a 1980, foi bem mais significativa do Região Centro Sul, 283. (As outras regiões têm que na década posterior. De 1970 a 2000, São Leo- número bem menor). poldo cresceu mais de 66,0% em população. Ano 1970 % 1980 % 1990 % 2000 Pop. Geral 64.433 Cresc. de 98.093 Cresc. de 167.969 Cresc. de 193.547 34,3% 41,6% 13,2% Pop. Jovem de 28.941 44,9% 31.982 32,6% 47.104 28,0% 51.995 15 a 24 anos São Leopoldo tinha, em 2003, 21.727 adoles- dustrial; o bairro Fião é conhecido pelos seus centes de 12 a 17 anos, e 26.895 jovens, de 18 a 25 eventos sociais, sua vida comunitária, tendo um anos. Tinha, também em 2003, 157.955 habitan- comércio em expansão. É vizinho dos bairros tes de 10 anos ou mais. Os analfabetos eram Cristo Rei, Padre Reus e Vila Vicentina, esta com 6.950, sendo 1.362 jovens de 15 a 24 anos. No atividades de lazer, esporte e filantropia, que be- mundo rural, moravam somente 652 pessoas. neficiam seus moradores. Ali também se localiza São Leopoldo tem 104 Associações e Entidades uma escola de tradição chamada Castro Alves, registradas no COMDEDICA. Destas, 19 estão um padrão de estabelecimento escolar na região. relacionadas com crianças e adolescentes. Só o O bairro Scharlau é possuidor de reconhecida PROAME se refere a “crianças de 15 a 18 anos”8. pujança socioeconômica. Com estrutura, rede es- Dos bairros de São Leopoldo, Feitoria é o his- colar padrão, clubes sociais e de serviços, o bairro tórico berço da imigração alemã, sendo o bairro Scharlau tem tradição e receita de trabalho e de- mais numeroso, com 34.378 habitantes. Os ou- senvolvimento. É o maior bairro da zona norte, tros bairros mais numerosos são Arroio da Man- cortado pela RS 240 e pela BR 116. Outro bairro teiga, com 17.464 habitantes, Santos Dumont, antigo e tradicional é o bairro Rio dos Sinos (o com 16.113 e Scharlau, com 14.435. O bairro Rio mais antigo bairro da cidade), pequeno em área Branco é um forte pólo de desenvolvimento in- territorial, mas com uma população que gira em 8 A diocese de Novo Hamburgo, à qual São Leopoldo pertence, conta com 1.132.272 habitantes, é formada por 23 municípios, onde vivem 98.351 adolescentes de 12 a 17 anos. Estudam na UNISINOS 10.736 pessoas dessa diocese, o que significa 30,6% da população estudantil da Universidade. 9
  10. 10. torno de 7.500 pessoas, com indústrias, lojas co- teira, mas é conhecida pela violência e pelo merciais, prestadoras de serviços e escolas, além tráfico de drogas. Isso faz com que, muitas de atividades sociais que contribuem com a cons- vezes, seja discriminada e não encontre trução de um município forte. emprego. Quanto ao consumo de drogas, Conforme um dos entrevistados, que trabalha há um índice alto, mas o ponto de consu- com jovens de alguns destes bairros, podemos mo não é necessariamente dentro da Vila. ter uma noção das diferentes juventudes que há Quanto ao tipo de droga, o crack é, atu- nas diversas Vilas. Quanto mais próximo do cen- almente, a droga mais barata e comerciali- tro, mais a juventude tem acesso à cultura urbana; zada. Observemos que, nestes bairros, há quanto mais longe, mais ela mantém os traços menos negros e predominam os descen- culturais de sua etnia; quanto mais longe do cen- dentes de alemães. A música dos bailes é tro, mais organizada é a juventude; quanto mais tocada por “bandinhas”. próxima do centro, mais desorganizada e mais 5) Arroio da Manteiga é um dos bairros mais violenta. pobres da cidade e o segundo mais popu- Num levantamento rápido sobre as Vilas da loso. Mais de 20% de seus moradores es- zona norte da cidade de São Leopoldo, feito pelo tão entre a faixa etária de 14 e 28 anos de entrevistado, temos o seguinte quadro: idade. Não possui áreas de lazer nem es- 1) Vila Santa Marta – É onde existe o grupo paços de cultura para a juventude, além de de jovens mais organizado. É um bairro não contar com nenhuma escola de Ensi- que fica mais longe da cidade e há menos no Médio. problemas de drogas. Temos aí uma “ju- ventude sóbria que não é ligada à igreja, mas que se reúne”. Os jovens sofrem para 5 Quartéis e criminalidade em sobreviver e, ao mesmo tempo, são mais São Leopoldo acessíveis. Os únicos grupos de jovens que funcionam aos finais de semana, ge- Quartéis ralmente aos sábados à tarde, são os gru- O reconhecimento do município de São Leo- pos de jovens das igrejas. Na Vila Santa poldo é incompleto, caso não se situem nele o Marta, é comum ver grande parte dos mo- significado de três tipos de quartéis, instituições radores dirigindo-se, nesse horário, para que lidam diretamente com jovens. Em São Leo- as igrejas pentecostais. poldo, até 1966, funcionavam três: o 8º Batalhão 2) Novo Sinos (próximo à BR 116 e ao centro) de Caçadores (hoje 19º Regimento de Infantaria), – Os jovens desta Vila estão vinculados à inaugurado em 1922, o I/6º Regimento de Obu- igreja, gostam de cantar, têm banda. É uma ses 105 e a 6ª Companhia de Comunicações (que juventude mais agressiva, que vive mais o se transferiu em 1966). Pelo 19º RI, passaram, de comercial, querendo estar incluída na 1999 a 2003, 1.200 soldados. Dezoito deles aderi- moda. A música dela é o pop. Há adolescen- ram à carreira militar. Dos 1.200 militares, oito ti- tes extremamente rebeldes e mal-educa- nham o 3º grau completo, 228, o 2º grau comple- dos, que não gostam de religião. to, 632 estavam fazendo o 2º grau e 134 tinham o 3) Vila Campina – É a zona mais antiga com 1º grau completo. 60,3% deles eram católicos, muita influência da imigração alemã. 25%, evangélicos e 9%, espíritas. Os soldados 4) Na Vila Brás (entre Novo Hamburgo e São eram oriundos de Novo Hamburgo, São Leopol- Leopoldo), a gurizada é mais doida. São jo- do, Campo Bom, Montenegro, Sapucaia e Esteio. vens que se espelham mais no perfil do jo- É evidente que instituições desse porte mexam vem do centro da cidade. Fazem questão com a cidade e, conseqüentemente, com a reali- do hip hop ou do pop rock. A juventude é fes- dade juvenil da região. 10
  11. 11. Criminalidade me” (como é o caso dos furtos de veículos). Afir- Quanto à história da criminalidade em São ma o comandante do Batalhão de Polícia Militar, Leopoldo, é interessante lermos em Leopoldo que “cerca de 80% das pessoas presas pela polícia Petry9 que ela sempre apresentou um coeficiente na região tem menos de 21 anos de idade”, ha- quase insignificante. De 1835 a 1865, verifica- vendo um aumento de 22,6% no número de ado- ram-se, na região, apenas cinco crimes de morte e lescentes que respondem por atos infracionais no ferimentos graves, praticados por imigrantes, Vale do Sinos. sendo três deles por questões políticas. Bem ou- Diz Carmen Silveira de Oliveira, pesquisadora tra é a situação atual, quando São Leopoldo é co- do assunto, que “a criminalidade registrada em nhecida como a cidade mais violenta de todo o São Leopoldo está intimamente ligada ao tráfico Estado do Rio Grande do Sul, especialmente na de entorpecentes”. “O uso muito pesado de dro- morte de adolescentes. gas diferencia São Leopoldo de municípios de Verificamos que, em número de óbitos de igual porte. Ele se aproxima de Porto Alegre e de adolescentes de 12 a 17 anos, por causas exter- Caxias do Sul, com consumo principalmente de nas, São Leopoldo se destaca. 77% dos óbitos de cocaína e de crack”. jovens são por causa externa (acidentes, assassi- O sistema penal gaúcho está passando por um natos...). Nos últimos 15 anos, houve um aumen- processo de juvenilização. Em torno de 53% dos to de 50,0% desse tipo de mortes. Em Alvorada adolescentes gaúchos, que cumprem medidas so- (conhecido como um município de muita pobre- cioeducativas com restrição de liberdade na za e de periferia violenta), este número, por ano, FASE (antiga FEBEM), são usuários de drogas e é de 12 adolescentes; em Canoas (bem mais nu- estão sob tratamento de desintoxicação. Para merosa que São Leopoldo), é de 15; em Gravataí, Carmen Oliveira, “os jovens são um reflexo do é de 13; em Porto Alegre (com quase 2 milhões meio social” e “a redução da violência juvenil de habitantes), é de 63. Em São Leopoldo, com passa necessariamente pela efetivação de políti- menos habitantes que Canoas e muito menor que cas públicas, o que significa um ensino público Porto Alegre, o número de óbitos é de 19. atraente e de qualidade, medidas de geração de As ocorrências na Brigada Militar (em 2003), emprego, acesso a planejamento familiar e elabo- envolvendo jovens de 14 a 29 anos, acontecidas ração de programas voltados a famílias em vulne- no Bairro Feitoria (o bairro mais populoso), no rabilidade social”. Bairro Centro e no Bairro Scharlau, foram em Segundo dados da FASE, instituição sediada número de 231. 61,3% delas ocorreram no Cen- em Porto Alegre, 26,4% dos seus internos são tro; 22,9%, no Bairro Scharlau e 16,0% no Bairro oriundos da Comarca de Novo Hamburgo (à Feitoria. Destacam-se os furtos simples, a desor- qual São Leopoldo pertence). O Juizado da dem e o furto qualificado. As ocorrências envol- Infância e da Juventude desta cidade atesta que, viam, ainda, o roubo (9,9%), o tóxico (6,9%), o entre os 12 municípios da Comarca de Novo porte ilegal de arma (5,6%) e, em proporção me- Hamburgo, São Leopoldo colabora com 40,9% nor, danos e lesão corporal. dos internados. Acrescentando um outro dado, A face jovem da violência em São Leopoldo podemos ver que a cidade de Novo Hamburgo, tem traços muito específicos. “O envolvimento com mais habitantes, colabora com 27,1%. de jovens em crimes na região é bastante signifi- Pesquisando o jornal Vale do Sinos (que abran- cativo”, afirma o coronel Evaldo Gomes, da Bri- ge todos os municípios do vale do Sinos, mas gada Militar. “Na grande maioria destas ocorrên- com ênfase em São Leopoldo), de janeiro e feve- cias, há a participação de dois ou três menores e reiro de 2003, percebemos um possível retrato de de um adulto, que geralmente encomenda o cri- como a sociedade ou a mídia olha a juventude e 9 São Leopoldo – Berço da Colonização Alemã do Rio Grande do Sul (2º volume). Editado pela Prefeitura de São Leopoldo. 11
  12. 12. de “como anda” a juventude. Fica patente que a Outras entidades que envolvem partes do maioria das notícias que envolvem os jovens (de mundo juvenil leopoldense, são a Câmara Júnior 15 a 29 anos) está na página policial. A percenta- de São Leopoldo e a Orbis Clube de São Leopol- gem é de cerca de 40,0%. Em janeiro de 2003, as do, encarnando a preocupação da formação de ocorrências com jovens, noticiadas pelo jornal um clube para rapazes que lhes conferisse um sobre fatos relacionados com os jovens de São verdadeiro ideal de companheirismo e se consti- Leopoldo atingem 39,3%. As notícias “sociais” tuísse numa escola de responsabilidade e serviço. (não falando da percentagem das fotos de moças O Orbis foi fundado em junho de 1963. Estáva- e jovens) referem-se ao campo afetivo-sexual, à mos na década de 60, década importante nas ma- questão teórica da drogadição, ao “mapa da gan- nifestações de descontentamento dos jovens em, daia”, a debates sobre algumas situações (idade praticamente, todas as partes do mundo. Neste penal, evasão escolar), à projeção de alguns jo- mesmo ano (1963), com finalidade diversa, mas vens, a um encontro de enxadristas e à vida esco- integrada na mobilização estudantil brasileira (fo- lar universitária. De resto, nesses dois meses, há 7 ram os melhores anos da União Nacional de notícias de jovens que mataram ou foram mor- Estudantes), fundava-se, igualmente, a Federa- tos; 12 notícias de jovens que assaltaram ou rou- ção dos Estudantes Universitários do Vale do baram; 7 notícias de jovens que foram feridos ou Rio dos Sinos. Já existia, nesta época, o Centro que se afogaram. Acadêmico Balduino Rambo (criado em 1956) e o Diretório Acadêmico Fernando Ferrari, com A sociedade em busca de soluções e suas atividades protagonizadas pelos estudantes. respostas Instituições criadas, em São Leopoldo, para atender adolescentes e jovens abandonados fo- 6 Instituições atuais a serviço da ram o Educandário da Cruz Vermelha Brasileira juventude (1950), o Centro de Cultura e Caridade Medianei- ra, explorando o lixo da cidade (a partir de 1958), Numa olhada sintética para as instituições que o Lar da Menina São José (1959) e a Granja do se preocupam, atualmente, com jovens e adoles- Menino (fundada em 1961). centes, em São Leopoldo, destacamos algumas. Recordamos que, em fevereiro de 1965, uma Embora os dados não acentuem as realidades ju- reportagem do jornal Folha da Tarde dizia que venis na perspectiva protagônica de jovens, po- (contrastando com a afirmação de Leopoldo demos ter uma idéia de como anda o relaciona- Petry, de 1964) “São Leopoldo reconhecidamen- mento da sociedade leopoldense com a situação te sempre foi o maior foco de delinqüência juve- atual da “juventude”, na dimensão do respeito nil na região industrial, principalmente, da proli- (ou não) ao protagonismo juvenil. feração de sua zona de meretrício, onde o tráfico de tóxicos se desenvolve de maneira incessante.” 6.1 O ASPA – prevenção contra a AIDS Uma das formas que a sociedade leopoldense O ASPA é o único órgão da região do Vale do encontrou para responder às inquietações juve- Rio dos Sinos que atua com Aids. É formado por nis foi a implementação de espaços de lazer, com uma turma mista de estudantes universitários, espe- a Sociedade Orpheu, a Sociedade Recreativa cialmente vinculados à Faculdade de Teologia dos União, o Clube Náutico Iguassu, a Sociedade de luteranos, situada no Morro do Espelho. A entida- Caça e Tiro São Leopoldo, o CTG “Tio Lautério” de participa, entre suas iniciativas, das discussões e a Sociedade Ginástica São Leopoldo. A última, das políticas públicas, fazendo parte do Conselho fundada em 1885, tem como fim desenvolver a Municipal e Estadual de Saúde Às vezes, não é con- cultura física da juventude leopoldense, por isso vocada, mas faz “ouvir sua voz” e procura agir. O merece destaque. ASPA possui vários projetos, que citamos a seguir. 12
  13. 13. REDUÇÃO DE DANOS – Visa a prevenir doen- tempo, reflete-se não somente a questão da ças. O trabalho é feito, basicamente, com de- AIDS, mas, segundo a realidade dos grupos, pendentes químicos da cidade e da região. Em abrem-se discussões sobre temas diversos. São Leopoldo, existem cinco áreas onde se rea- Existe um grupo de mulheres no Morro de Pau- liza esse trabalho: Vila Paim, São Miguel (2), la que já se encontra há cerca de três anos. O Vila dos Tocos e Vila Santos Dumont. Na objetivo desses grupos é de as próprias mulhe- Vila Duque, está começando o trabalho. Se res se organizarem e fazerem as articulações um dos “usuários” do projeto demonstra inte- com a sociedade civil. Esses grupos geralmente resse por algum tratamento, os agentes do acontecem em comunidades carentes que pos- ASPA procedem encaminhamentos tanto para suem um alto índice de mulheres portadoras clínicas quanto para a realização dos testes de do vírus da AIDS. DST/AIDS, hepatite, tuberculose, gravidez, etc. A maioria dos usuários que fazem as “trocas”, 6.2 O Conselho Tutelar têm entre 20 e 30 anos. O Conselho Tutelar de São Leopoldo é for- DESENVOLVENDO REDES DE SUSTENTA- mado por uma assistente social e cinco conselhei- BILIDADE – Antigamente o ASPA era forma- ras. A função do conselheiro é requisitar servi- do por uma turma de amigos que se reunia e ços; as visitas deveriam ser feitas por um/a assis- realizava esse tipo de trabalho. Atualmente, tente social. Devido aos poucos recursos, o con- visa a estruturar a organização: reformular o selheiro acaba representando o papel do psicólo- estatuto, mudar o logo, firmar objetivos mais go, do assistente, do pai, da mãe, entre outros. concretos para a organização, etc. O ASPA rea- Para que seja realizado um atendimento com- liza um curso de capacitação para DST/AIDS e pleto existe muita burocracia. O Conselho só voluntariado com profissionais da área, sob o pode prender em flagrante, caso contrário, os respaldo da Escola Superior de Teologia, do conselheiros podem ser processados. O trabalho Morro do Espelho. do Conselho também fica dificultado pela falta A PREVENÇÃO VAI Á ESCOLA E AO de políticas públicas ou de programas que aten- TRABALHO – O ASPA atende escolas de toda dam crianças e adolescentes. a região, realizando oficinas com todas as tur- Em média, são feitos 25 a 30 atendimentos mas dos colégios que são capazes de atingir, por dia. Na sua maioria, são problemas de com- desde a Pré-Escola até o Ensino Médio. Para portamento, problemas escolares, de adaptação e cada faixa etária, é feita uma abordagem dife- familiares. São atendidos mais casos de meninos renciada. Os jovens de hoje, em geral, já são do que de meninas. A população atendida é de bem informados sobre sexualidade e AIDS, até 16 anos, embora o público-alvo seja de 8 a 15 porém pouco informados sobre as DSTs. São anos. Acima dessa idade, são considerados infra- visitadas, em média, duas escolas por mês, com tores e, em geral, já estão na rua. Já aprenderam a o objetivo de prevenir e formar multiplicadores. ler e “viram gente”, não dependendo mais dos SOLIDÁRIOS DA NOITE – Visitam bares e casas pais. Meninas com 15 e 16 anos possuem proble- noturnas para a divulgação dos projetos. Não mas relacionados com prostituição e gravidez. dão palestras, apenas dizem rapidamente A população atendida é, na sua maioria, dos quem são e o que fazem e se mostram à dispo- bairros do Rio dos Sinos, da Vila dos Tocos, da sição para eventuais dúvidas ou curiosidades. Vila Vicentina, da Vila Paim, da Vila Duque, Fei- Não querem chamar a atenção, já que, geral- toria e Santos Dummont. Os atendimentos na mente, tratam de assuntos delicados. zona norte vêm aumentando. São realizados MULHER: PREVENÇÃO E RESPONSABILI- poucos atendimentos no Centro. 80,0% dos pais DADE – São grupos de conversa sobre sexua- que procuram o Conselho não sabem o que fazer lidade. Como esse assunto se esgota com o com seus filhos. 13
  14. 14. Muitos vizinhos e parentes omitem os fatos, tegorias: mirim, cuja idade varia dos 7 aos 11 ao serem questionados. Existem casos em que a anos; pré-adolescentes, dos 11 aos 14 anos, e o mãe e o padrasto espancam seus filhos, mas as grupo dos adolescentes, dos 14 aos 17. crianças, com medo, não denunciam. A propa- Os adolescentes e as crianças chegam ao pro- ganda feita na mídia para incentivar a denúncia de grama pela indicação das escolas e instituições li- maus tratos, juntamente com o aumento da po- gadas ao PEI, ou por inscrições na própria breza e a falta de recursos, tem gerado um núme- UNISINOS. As ações são desenvolvidas em forma ro maior de denúncias. de oficinas interdisciplinares, tendo o esporte Enquanto realizávamos este levantamento, como eixo estruturador. O objetivo central é con- estava nos planos da entidade a construção de tribuir para a formação integral e contínua dos uma casa para o tratamento da drogadição, com acadêmicos da UNISINOS, oportunizando a vi- verba provinda da Prefeitura Municipal. Nessa vência do esporte de forma crítica e reflexiva, con- casa, serão ajudadas 56 crianças e adolescentes tribuindo para o exercício da cidadania, construin- (12 meninas e 44 meninos) que usufruirão de um do e disseminando os conhecimentos produzidos atendimento completo: escola, cursos especiali- com vistas a influenciar significativamente no pro- zados, etc. O adolescente ficará interno até que cesso histórico da comunidade envolvida. Pela po- seja reintegrado na sociedade. Segundo o parecer tencialização de diferentes modalidades, alicerça- dos que estão envolvidos neste trabalho, para das nas quatro áreas de atuação do PEI (arte e cul- que esse projeto tenha bons resultados, é de tura, sociedade e comunidade, saúde e meio am- suma importância que se trabalhe a família, sen- biente e o esporte), são estruturadas as oficinas es- do necessário uma presença educativa junto aos portivas. Nelas se pretende problematizar o espor- pais para melhor prepará-los a fim de acompa- te como fenômeno social, oportunizando às crian- nharem seus filhos. ças e adolescentes aprendizagens significativas que Também existe um projeto para que seja cria- visam à construção e ao exercício da cidadania, do um novo Conselho Tutelar na zona norte da tendo como base o desenvolvimento da saúde do cidade, onde os casos vêm aumentando. Acredi- indivíduo e da sociedade. tamos que os serviços de atendimento deveriam se localizar nas próprias vilas, pois assim poderia 6.4 O PROAME – atendimento ao menor ser iniciado um processo de reconstrução das As atividades desenvolvidas por este progra- suas histórias e das suas comunidades. ma referem-se a quatro situações: 1) Prevenção primária – “Educação, diversão e 6.3 O Programa Escolinhas Integradas arte” – atividades realizadas na COHAB Feito- O Programa Escolinhas Integradas (PEI) é ria e na Vila Duque Velha. Esse programa tor- uma iniciativa da Universidade do Vale do Rio nou-se uma política permanente adotada pelo dos Sinos e tem como objetivo a promoção da PROAME, permitindo a realização de diferen- prática criativa da integração com a comunidade, tes projetos. Trabalha com o protagonismo por meio de programas de educação continuada, juvenil e comunitário, inclusive com mulhe- atividades culturais e serviços à comunidade, de- res. O objetivo não é formar atores ou artistas, finidos pela prospecção e pela avaliação das de- mas formar uma base de adolescentes que mandas sociais internas e externas. O PEI recebe possam ser um grupo de apoio. Uma atividade crianças e adolescentes com idade entre 7 e 18 desenvolvida no projeto é a das oficinas espe- anos, por meio de cinco núcleos de atuação. Cada cíficas, como, por exemplo, a de arte com ma- núcleo corresponde a uma equipe de acadêmicos terial reciclado onde se produzem instrumen- de diferentes cursos que se integram para formar tos musicais de percussão. as equipes que atenderão a estas crianças e ado- 2) Situação de rua – É um espaço que se baseia lescentes. Estes grupos são divididos em três ca- na educação social de rua e na abordagem dos 14
  15. 15. 130 (aproximadamente) crianças e adolescen- Existe, igualmente, o projeto Pelotão Espe- tes que trabalham ou moram na rua. É realiza- rança, realizado em parceria com um dos quartéis da uma oficina por semana com essa clientela. de São Leopoldo. Ele não possui profissionais De dois em dois anos, é feita uma pesquisa qualificados. As pessoas que trabalham no proje- para analisar a situação dessas crianças e ado- to, punem com sanções disciplinares qualquer lescentes. Também são realizados encaminha- atitude considerada “errada”, já que os partici- mentos daqueles que possuem problemas pantes são considerados jovens “normais” e dis- com drogas, violência, infração, que são víti- ciplinados. Os jovens chocam-se com uma reali- mas da negligência familiar, entre outros. dade diferente da rua, com horários e disciplina. 3) Violência doméstica – É um conjunto de ati- Muitos deles não permanecem no projeto por vidades que se realizam nas escolas públicas não se adaptarem.10. (estaduais e municipais). Não há uma inter- venção direta, mas são formados grupos de 6.5 O PRUMO – saúde coletiva apoio. O Programa Unidades Móveis de Saúde Cole- 4) Fazendo Direito – “Orçamento Criança”. tiva (PRUMO) é um programa de extensão vincula- São atividades que visam a captar todas as ar- do ao Centro de Ciências da Saúde da UNISINOS, recadações destinadas a essa faixa etária e con- com participação da Unidade de Ciências Huma- trolar sua aplicação, bem como corrigir dire- nas. Há 10 anos, atua diretamente no cotidiano trizes e falhas do orçamento. Foram realizadas de cinco comunidades de São Leopoldo: Santa oficinas de capacitação sobre o Estatuto da Marta, Parque Campestre, Parque Mauá, Santa Criança e do Adolescente em Porto Alegre, Helena e Santa Ana. Na Santa Marta, existem Canoas e São Leopoldo. dois grupos de trabalho: um de mulheres e outro Cinqüenta por cento das crianças e adolescen- de adolescentes de 12 a 15 anos. No grupo de tes em situação de rua no município de São Leo- mulheres, participam muitas mães com 16 anos poldo são da Vila dos Tocos. Essas crianças e ou mais. Elas já são tratadas como mulheres pelo adolescentes, em sua maioria, são os provedores fato de já terem um filho. Precisam de uma orien- da família, pois trabalham desde os seis anos, ex- tação diferenciada da atribuída às jovens meninas plorados pelos próprios pais. Em vista disso, que não tiveram seu primeiro filho. O objetivo apresentam alta defasagem escolar, diretamente desse grupo é o de estreitar o vínculo entre mãe e relacionada com os valores da família. filho(a). Com os meninos, é trabalhada a questão Existe um projeto do Banco do Brasil em do esporte, atividades práticas, etc. É comum que parceria com a Caixa Econômica Federal que as meninas das camadas populares tenham seu abrange a faixa etária dos 16 aos 24 anos. Para primeiro filho já com 15 anos, ou até menos. Para ingressar nele é necessário que os candidatos es- elas, “engravidar” significa deixarem de ser crian- tejam no Ensino Médio. É difícil achar jovens ças, saírem da escola e tornarem-se mulheres. É que estejam na escola, pois as necessidades nes- como se fosse uma espécie de status. sa fase da vida mudam. É preciso trabalhar, e Essas meninas não têm a crise da adolescên- muitos ainda não possuem a experiência que um cia, tão freqüentes nas classes média e alta. Elas emprego requer, ou seja, muitos projetos desti- não têm tempo para isso, não têm perspectivas nados a essa faixa etária não levam em conside- de uma vida melhor com as quais se confronta- ração a realidade. rem. Em vista disso, também não sonham. Na in- 10 Como publicações do PROAME, destacamos: Criança e adolescente: Futuro no presente – Cartilha para meninos e meninas; Maus-Tratos e abuso sexual contra crianças e adolescentes - Uma abordagem multidisciplinar. Série Cadernos CEDECA, 1997; Crian- ças e adolescentes sem situação de rua, Série Cadernos CEDECA, São Leopoldo/RS, 2002; Pesquisa: O perfil da escola frente à vio- lência doméstica e ao abuso sexual de crianças e adolescentes. Série Cadernos CEDECA/PROAME, São Leopoldo, 2003. 15
  16. 16. fância, elas possuem a boneca que é o objeto pelo atende 1.560 alunos. Existem muitas crianças que qual demonstram afeto, já que, em casa, sofrem estão na lista de espera. Os encontros ocorrem na negligências e abusos múltiplos. Quando chegam Associação do Bairro em três turnos semanais. à idade dos 12-13 anos, não brincam mais de bo- Lá são realizados projetos diversos, levando em neca e produzem seu objeto de afeto. Um dos fa- conta a interdisciplinaridade, trabalhando com tores que faz com que não existam grupos de dança, teatro, música e esportes. São abordados, apoio para jovens com idade superior a 18 anos, é igualmente, temas como sexualidade, saúde... en- o fato de que, nessa idade, eles já estão trabalhan- tre outros, que estejam relacionados com o Esta- do e não podem freqüentar esse projeto, que tuto da Criança e do Adolescente (ECA). ocorre, geralmente, durante os dias úteis, em ho- Muitos dos participantes possuem dificuldades rário comercial. de leitura e escrita, ou seja, a maioria dos alunos é considerada analfabeta (variando nos níveis). O 6.6 Serviço de Atenção, Pesquisa e Estudos abandono escolar também é comum, havendo com Crianças e Adolescentes (SAPECCA) uma desmotivação em freqüentar a escola, em- É um projeto da UNISINOS que visa a uma bora sejam motivados a participar dos projetos intervenção interdisciplinar na comunidade da promovidos pelo SAPECCA. Percebemos um pro- Vila Brás de São Leopoldo. Tem como objetivo blema grave no processo de ensino-aprendiza- desenvolver um trabalho integrado entre a Uni- gem que é muito difícil de ser solucionado devido versidade do Vale do Rio dos Sinos e a comuni- à sua complexidade.11. dade, visando a contribuir na construção e no exercício da cidadania das crianças e dos adoles- centes. O papel social que se propõe é contribuir 7. Locais de encontro da juventude efetivamente, para que os adolescentes consigam alternativas de sobrevivência, proporcionando Os locais de encontro da juventude em São conhecimentos, pela ação educativa, sobre o Leopoldo têm mudado, acompanhando a ten- mundo do trabalho, podendo capacitá-los por dência de todos os centros urbanos no contexto meio de cursos profissionalizantes e pré-profissi- brasileiro. Se antes a cidade era mais pacata e pos- onalizantes. Outra função importante do progra- sibilitava a seus habitantes uma rua principal para ma é contribuir para a elaboração, execução e in- passeios à noite, agora se torna um lugar menos vestigação de políticas sociais da infância e da acolhedor. Os comerciantes mantêm as vitrines adolescência, junto a órgãos públicos e privados. fechadas à noite, com medo de assaltos, e as pes- Nele trabalham professores de diversos cursos soas se sentem menos seguras para caminhar pela da UNISINOS e acadêmicos dos cursos de Ser- “Rua Grande”. Os cinemas há muito tempo cer- viço Social, Psicologia, Educação Física e Filoso- raram suas portas e o único Shopping Center da fia. O SAPECCA já existe desde 1995. Atualmen- cidade também fechou, e, com isso, não há mais te, atende a cerca de 60 adolescentes e jovens, en- cinemas na cidade12. Na “Rua Grande”, há mui- tre 14 e 18 anos. tos bingos e muitas farmácias – um sinal evidente A Vila Brás é um bairro pobre de São Leopol- de que algo vai mal. Para os jovens há vários locais do, com cerca de 13 mil habitantes. Para uma de- de encontro no centro da cidade. A maioria exige manda tão grande, existe apenas uma escola que que o jovem possua algum dinheiro para consu- 11 Fica patente que as instituições que têm como objeto a “juventude”, num sentido mais estrito (18 a 30 anos), pratica- mente inexistem em São Leopoldo. É exceção parcial (nestas seis instituições), o ASPA. Embora se preocupe com “jovens”, boa parte de suas atividades se orienta para “adolescentes”. Não queremos dizer que deixam de ser “boas” e “necessárias”, queremos alertar para o fato de o “jovem” (18 a 30 anos) se encontrar, praticamente, desassistido. A própria UNISINOS, em vez de montar serviços para sua clientela majoritária, atua “fora” da faixa etária à qual pertencem seus “alunos”. 12 Estamos falando de 2003 e 2004. Houve mudanças, depois. 16
  17. 17. mo, mas também há a praça ao lado do ginásio. co). No Pub, sempre se apresenta uma banda Ao fazer um levantamento sobre estes locais, ao vivo, o que possibilita um ambiente mais percebemos que eles se dividem conforme a clas- descontraído para conversa entre amigos. É se social e a idade de seus freqüentadores. Um um local conhecido para um happy hour. Há outro fato mais recente é que uma grande dance- também o ambiente externo, na calçada, com teria foi aberta para jovens que vêm de bairros da mesas e serviço de garçom. periferia. Isso tem mudado muito o perfil das noi- 3) Bar Bistrô. É a maior danceteria da cidade, tes em São Leopoldo, pois centenas de jovens de destinada a um público de 14 a 24 anos, da classe baixa invadem o Centro à noite, causando classe baixa. Há quatro pistas de dança: vane- insegurança para quem reside no local. rão (gaúcho, ao vivo), pagode (ao vivo), funk Como locais de encontro, distinguimos boa- (som mecânico), e a rave (onde toca de tudo, ás tes e bares com música ao vivo. vezes, é ao vivo, com presença de algum DJ). A entrada é R$ 10,00, para homens e R$ 5,00 a) Boates para as mulheres. Se as mulheres entrarem até Destacamos três: a meia-noite, não pagam e podem beber de 1) Bar: E xpresso 356. Nesta boate, o públi- graça até este horário. No Bistrô tem, geral- co-alvo são secundaristas e estudantes univer- mente, uma mulher para cinco homens. Jo- sitários da classe média de 15/16 a 25 anos. A vens que freqüentam o Bistrô disseram que, música é som mecânico, predominando o hip ao chegarem no bar, a primeira coisa que fa- hop, a modinha do momento. É um bar muito zem é dar uma volta para ver se “têm gurias”. conhecido em São Leopoldo; quase uma “O Bistrô”, dizem os meninos da vila, “é para “marca-registrada” da adolescência leopoldense. classe média baixa, é coisa para vila. Lá vão to- Há festas variadas, conforme o dia da semana. das as classes, e a gente tem medo. Mesmo as Terça-feira: Balada universitária; quarta-feira: pessoas da vila, às vezes, têm medo. Têm Digue Band; quinta-feira: “confirmada” geral- medo da saída do Bistrô, não tem polícia na mente com shows ou Festa “Mulher Brasileira rua, os da vila batem nos outros, esse é um dos em Primeiro Lugar” com entrada liberada até motivos para muitos não irem. Tem uma gan- a meia-noite, somente para mulheres e com gue de 30 a 40 jovens que esperam na rua, eles cerveja também liberada. Ao permitirem a en- tiram o boné e o tênis das pessoas, não pegam trada dos homens, as mulheres fazem um dinheiro. Não é um assalto, são pessoas das “corredor polonês”, para beijar quem passa. torcidas”. É importante observar que os inte- Na sexta-feira: show com alguma banda. É grantes da gangue são, na maioria da Vila uma noite não muito freqüentada; sábado: Esperança, Boca da Fumaça, Feitoria e da Co- festa com DJ em que o público-alvo são os hab. A maioria desta gang é da torcida colora- adolescentes de 16 a 18 anos; domingo: Talk da. Há poucos gremistas. É importante obser- Show, com os Formigos. É uma noite em que var que a torcida colorada domina o centro de há jovens de todas as idades. São Leopoldo. A previsão é de que, com o 2) Bar: Factory Beer. Nesta boate, a maioria dos novo shopping, que está para ser aberto em de- freqüentadores tem de 18 a 30 anos. Pessoas zembro, no centro de São Leopoldo, a torcida mais velhas também vão ao local. O públi- do Grêmio se instale nas imediações como co-alvo são os universitários e os assalariados seu local de domínio. das classes média e alta A música é som mecâ- nico, conforme ambiente. Na boate, existem b) Bares com música ao vivo e outros duas pistas de dança: uma onde toca todo tipo Bar do André – localizado no centro da cidade de música (isolada) e no restante do espaço para um público universitário de 20 a 30 anos, toca, em grande parte, som techno (eletrôni- da classe média alta, com música e show ao 17
  18. 18. vivo. Geralmente, o público é variado. Um jo- Bar Central – para todas as faixas etárias. Públi- vem diz que “lá é legal!”. “Pessoal mais velho, co-alvo: jovens e adultos da classe média alta. uma noite diferente, onde não precisa ficar Conforme os jovens, há um ambiente acon- dançando a noite inteira. Gosto de sentar, to- chegante, onde acontecem atividades cultu- mar minha ceva e ficar olhando alguém tocar, rais variadas. ou conversando”. Um jovem comenta: “Pes- Ba Favorité – para um público de todas as faixas soal mais cabeça, as pessoas vão mais para etárias da classe média alta. A música é mecâ- curtir música e não tanto para dançar”. nica. Oferece um local amplo que inclui cafe- Bar Marrakech – para um público de classe média teria, loja e cybercafé. É freqüentado por al- baixa na faixa etária dos 20 anos para cima. Os guns jovens como local de bate-papo, como jovens consideram que foi um bom bar nos cybercafé ou para jogar xadrez. Também é anos 1997 – 1999. A música que tocavam era pop uma charutaria e, no fundo do café, há uma rock. “Todo o mundo que ia no Expresso, passa- área fechada para quem fuma. A loja é uma li- va antes no Marrakech. Naquela época, era fre- vraria onde também são vendidos chocolates, qüentado pela classe média e média alta. Como charutos e cigarros importados. o lugar era muito pequeno, foi feita uma refor- Bar Café Rua Grande – para todas as faixas etárias ma, aumentando o bar. Infelizmente, depois da classe média alta. Oferece música variada. disso, não atraiu mais tanta gente. Para reanimar, É um local freqüentado por um público com trouxeram bandas de estilo pop rock, samba e pa- maior poder aquisitivo. Em determinadas ter- gode e conseguiram um outro público”. ças-feiras do mês, acontece o Sarau Filô dos BarAtelier – Zumbi – seu público são universitá- acadêmicos de Filosofia da UNISINOS. É rios na faixa de 16 a 30 anos, da classe média. como uma mostra de talentos que sempre tem A música é de todos os estilos, desde MPB até um tema base para discussão. Nesse dia, mui- rock. É um local que só abre às sextas-feiras. O tos universitários freqüentam o café, inclusive curioso é que é no apartamento de um casal de os freqüentadores do Bar Andar de Cima e do namorados. Às sextas-feiras, eles “arredam” Atelier Zumbi. as cadeiras para o lado e colocam mesinhas de Postinhos ou lojas de postos de gasolina. Nos fins de bar. Ocasionalmente toca uma banda, mas ge- semana, os postinhos estão cheios de pes- ralmente é colocada música pelos donos. soas jovens que estacionam seus carros cada Quem quiser também pode levar um CD e pe- qual com música diferente. São grupos de dir para “rolar”. Freqüentado por jovens mais amigos que se reúnem para tomar cerveja ou alternativos: lá é um típico local de “conversas vinho em volta dos carros. Isso tem virado filosóficas”. moda nos últimos tempos. O Posto Kauer Nos últimos anos, vem aumentando, na cida- foi o primeiro dos postinhos a virar encontro de, o número de “cafés” que são um ponto de en- de jovens depois que a loja de conveniências contro dos jovens, geralmente à tardinha ou em abriu. Mencionamos ainda os postos Unisi- fins de semana. Mencionamos alguns: nos e Axial. 18
  19. 19. Parte II: Na ciranda das conversas Com esses dados em mãos, partimos para um problema. “Nossa juventude não se põe momentos de escuta. Falamos da juventude em como protagonista. O que acontece é que temos geral, entrevistando pessoas da cidade. Fize- adolescentes de 20, de 30 anos... Um adolescente mo-lo de maneira individual e grupal: entrevis- espichado” (...) “E, por isso, há uma crise de tas e “grupos focais”. São “discursos” impor- identidade em nossa juventude (...) o lugar de tantes que vão delimitando marcos e apontando maior protagonismo que o jovem consegue ter é novos horizontes. na delinqüência e aí ele enfrenta as instituições, enfrenta – de uma maneira boba – porque acaba suicidando-se”. 1 A juventude na voz de alguns profis- O jovem não sabe qual o seu papel na socieda- sionais que trabalham com jovens de. O papel que a sociedade lhe oferece é o de ser um sujeito consumidor ou treinado para que se Na tentativa de compreender o que é a juven- encaixe na engrenagem de produção. Além disso, tude e de como ela é percebida, realizamos entre- a juventude é imediatista. Não faz nada que exija vistas com nove diferentes profissionais que li- esforços a longo prazo. Apenas busca uma segu- dam com juventude. Fizemos, basicamente, duas rança que nunca irá encontrar, “pois é uma segu- perguntas: uma sobre os valores da juventude e rança montada em cima de algo inseguro, um sis- outra sobre o sentido de uma pesquisa sobre ju- tema completamente plástico, furado e inseguro”. ventude. Refletindo sobre o que ouvimos, as idéias e posturas são muito diversificadas, como não Comparando as gerações, o papel do medo poderia deixar de ser. Tentamos, inicialmente, fa- Diz o mesmo professor que, antigamente, os zer um relato fiel destes “momentos de escuta”. jovens tinham anseio de sair de casa, de viajar e Mais adiante, sistematizamos dois discursos: o conhecer o mundo. Isso não representava uma das entrevistas, comparado com o discurso que crise na família, pois os pais encaravam isso apareceu nos quatro grupos focais (com pessoas como algo fundamental para o crescimento do diversificadas). indivíduo. Hoje essa situação mudou. Os jovens não viajam para aventurar-se; são viagens progra- A. Do conceito “juventude” ao protagonismo madas, garantindo uma “experiência profissio- Na perspectiva de um professor de Filosofia nal”. Saem de casa com passagem de ida e volta “a juventude é um conceito que contemporanea- garantida. Aos jovens da periferia cabe uma “vol- mente está em crise” (...) “A juventude é um con- ta” pela cidade. “Falta ao jovem arriscar mais e ceito um pouco ideológico, diferente de adoles- não ter tanto medo. O jovem quer tudo e não cente, que é um sujeito perdido e confuso”. Ele quer arriscar a perder nada”. entra, depois, na questão do protagonismo. “Jo- Comparando a juventude de hoje com a do vem é um sujeito que passa de uma situação de passado (do tempo da juventude do professor), não-protagonista para a de protagonista. Ele é al- ele afirma que “existem muitas diferenças gritan- guém que faz acontecer. Ele vive. Não é um para- tes. Na minha época, o jovem queria fazer 18 sita. Ele propõe coisas para o mundo. Ele é um anos e sair de casa para viajar e conhecer o mun- protagonista”. Em vista disso, ele aponta para do, pedir carona e viajar. Hoje as pessoas não pe- 19
  20. 20. dem mais carona, têm preguiça de sair. Ir para da periferia com os quais lida, “têm a preocupa- onde? É sempre melhor ficar onde se está, fumar ção de querer entender um pouco mais esse mun- na esquina e espairecer (...) Na minha juventude, do, essa vida. Eles têm uma procura muito gran- o grande lance era viajar para a Cordilheira dos de e com muito pouco acesso”. A estética é valo- Andes, ir para a Colômbia ou o Peru, mas não rizada e vulgarizada tanto pelo homem quanto para comprar cocaína barata, e sim para conhecer pela mulher. O corpo e a sexualidade se vulgari- novas culturas”. E conclui dizendo: “De um zam. As questões que lhe chamam mais a atenção modo geral, acho que falta ao jovem arriscar-se são a dificuldade de relacionar-se e a falta de soli- mais e não ter tanto medo, pois o jovem quer dariedade. “Tudo é instantâneo nesta sociedade tudo e não quer arriscar-se a perder nada”. globalizada”. Os jovens da “sua geração” conviviam com B. O jovem precisa retomar coisas, um movimento político nos movimentos sociais, mesmo num ambiente consumista diferentemente dos de hoje. Os jovens que estu- Uma professora de Psicologia, mãe de família, dam na UNISINOS e nas outras universidades tem outro discurso. Tem um consultório particu- particulares, na maioria, trabalham todo o dia, e lar e atende principalmente jovens das classes estão preocupados em adquirir seu diploma e média e alta. “Na minha opinião, os jovens estão melhorar o salário. É a valorização do ter, pois passando por uma fase em que necessitam reto- quanto mais temos, melhor somos. O que é pre- mar uma série de coisas em sua vida, como valo- ciso investigar, segundo a assistente, são “as res, o seu jeito de ser, suas questões internas. Por questões da intolerância, da instantaneidade dos parte dos adolescentes (13 a 16/17 anos), há um relacionamentos, a falta de uma coisa mais dura- anseio por coisas novas e por serem entendidos; doura, de construção de algo mais em comum, nos jovens de 18 a 24 anos, percebe-se que há em conjunto, que fosse mais duradoura”. perguntas mais relacionadas a suas práticas pro- fissionais e indagações sobre sua aceitação ou D. Jovens, mas manipulados. não no mercado de trabalho”. Quanto à sexuali- Estar com eles... dade, vê as relações precoces entre os jovens com Um educador popular inicia a entrevista, di- bons olhos. “É uma forma de trabalhar a afeti- zendo que “a juventude hoje, é muito apegada – vidade que existe”. Quanto aos valores, perce- por incrível que pareça – ao próprio fato de ser be que “a juventude atual agrega mais valores jovem” (estar unidos, construir grupos, estar jun- materiais, relacionados com uma ideologia de tos, fazer alguma coisa juntos...). Quem é, no en- vida mais imediatista”, relacionados, portanto, tanto, o jovem? “Quando é que somos jovens?” a um contexto social consumista e cheio de Uma segunda questão à qual se refere é ao poder preconceitos. da mídia, isto é, ao fato de a juventude buscar, na mídia, “coisas para se sentir jovem”. Não é sério C. Será que há muita diferença? o que a TV fala dos jovens. O que vemos são A professora universitária e assistente social “manipuladores da juventude, querendo arrastar inicia sua entrevista dizendo: “Não existem mui- a massa para uma única coisa que acaba sendo a tas diferenças entre os jovens de periferia e os jo- droga, a diversão, a curtição do outro (...), aglo- vens que não são de periferia. Em termos de con- merando a juventude para outras coisas que não sumo, são iguais; em termos de acesso à informa- vão trazer benefícios para a sociedade”. ção, via TV, eles são iguais”. Aborda, depois, a O mesmo educador considera a importância questão da vivência afetiva e sexual em que se de “estar com o jovem” para construir grupos, transa só por transar, algo assim como o ato cor- estar juntos, fazer alguma coisa juntos. “Gostaria riqueiro de tomar banho. Esquecendo o que ti- de estar junto à juventude, e não trabalhar junto a nha dito anteriormente, reconhece que os jovens ela. Para isso é preciso descobrir os valores dos 20
  21. 21. jovens e o que eles têm para oferecer. É preciso F. Criatividade e força de vontade um empenho maior para o acompanhamento Outra assistente social, mineira, mas residente dos jovens, pois eles não precisariam estar aban- em São Leopoldo, exalta, como primeiro valor, a donados e perdidos pelas esquinas se drogando e criatividade juvenil. “A criatividade no mundo se envolvendo em crimes”. Prossegue dizendo político, no mundo social e no mundo religioso. que “a juventude é uma das fases mais efetivas, Eles têm muita criatividade que precisaria ser ca- uma das fases em que a gente tem mais gás para nalizada”. Acrescenta a esse valor, ainda, “a força fazer, para mudar, e, muitas vezes, somos barra- de vontade da juventude. Ressalta que esta criati- dos, porque somos desacreditados, porque a vidade acontece, quando lhe é dada a oportunida- grande maioria dos jovens está nessa questão da de para tal e ela se manifesta na convivência com insegurança”. outros, nos estudos, no romper com a própria Estudar juventude, para ele, significa “buscar alienação, ao buscar os valores da família”. E descobrir neles o que eles estão sentindo, o que acrescenta: “E este valor não é reconhecido pela eles têm para oferecer, principalmente esses mais sociedade”. perdidos que a gente diz que estão aí, mas não têm envolvimento algum, no máximo para jogar Vivência familiar uma “peladinha” ou para ficar na esquina conver- Como migrante, acha que precisa ser pesqui- sando ou fumando”. sada, na juventude leopoldense, a dificuldade de E. Violência e auto-estima convivência familiar nos dias atuais. Os jovens com 14/15 anos de idade abandonam os lares e O coordenador da AMENCAR começa sua preferem ficar longe da família. Isso acontece entrevista dizendo: “Nunca me vou esquecer do com jovens de baixa renda, mas também com jo- exemplo dos guris que botaram fogo nos índios, vens de maior poder aquisitivo. Por um lado, filhos de classe média” e conclui: “Não se fala do acontece essa “fuga” e, por outro, aponta que os ´direito de ter limites´”... A ONG onde trabalha é jovens com mais idade não conseguem sair de uma entidade que tem um planejamento, uma or- casa e ficam morando com os pais. Diz que isso é ganização administrativa e um projeto pedagógi- algo típico do estado do RS e principalmente de co. Comenta que, na história brasileira, a maioria São Leopoldo. Ela provém de Minas Gerais e diz das organizações que trabalha com crianças e jo- que isso não acontece por lá. Lembra sua própria vens na área social vem do campo da assistência juventude como um caso exemplar de convivên- social, do serviço social. Muita gente entrou na cia familiar em que havia diálogo entre os pais e área do serviço social por caridade, por amor, por filhos e liberdade para poder se realizar. benevolência, por precisar de um emprego. Hoje essa situação já mudou muito, mas, mesmo as- G. O sentido da convivência, o momentâneo sim, ainda é limitada, porque o nível salarial, nes- e levar o jovem a se envolver na pesquisa sas instituições, é baixo e porque elas têm uma re- Um publicitário, professor universitário, ini- ceita muito baixa. Faltam recursos para essas cia falando do valor da convivência juvenil. “... organizações. um valor que aparece constantemente é o sentido A ênfase, no trabalho deles, é a questão peda- de convivência, de comunidade e de interação”. gógica, dando a importância para a auto-estima. Mas não quer falar de qualquer interação. “... in- Trabalham com jovens que se encontram em rea- teração em torno de questões mais sociais, ideo- lidades muito difíceis em que, muitas vezes, não ti- lógicas, políticas, estudantis, de categorias profis- veram pai, não tiveram mãe, não tiveram casa, não sionais e preferências culturais, estéticas, com- tiveram comida. Assim treinam os educadores portamentais”. Outro valor apontado é a sobre- para que possam fazer um trabalho a fim de que valorização “em torno do presente, o tempo con- os jovens possam recuperar a sua auto-estima. temporâneo, o agora. É um valor muito forte”. 21

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