Relações precoces

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Relações precoces

  1. 1. EU COM OS OUTROS
  2. 2.  Relação precoce: relação recíproca que tem por base o conjunto de comportamentos (sorrir, chorar, vocalizar, agarrar, gatinhar) que nos primeiros tempos de vida permitem estabelecer a ligação afectiva entre a criança e quem dela cuida. O ser humano nasce inacabado (neotenia), o que faz faz com que, após o nascimento, dependa durante muito tempo dos adultos para sobreviver.
  3. 3.  Wilfred Bion (psicanalista britânico especialista em dinâmica de grupos, 1897-1979), face à ansiedade vivida pelo bebé, sugere três possibilidades da actuação por parte da mãe: Interpretá-la como teatral: agrava a situação de ansiedade (mãe não- continente). Ficar alarmada: passa para o bebé a sua própria ansiedade (mãe não- continente). Acolhê-la para si: transforma a inquietação em segurança (mãe continente).
  4. 4.  “As caras que ela faz para o bebé, a maneira como utiliza a fala, não só naquilo que diz, mas nos sons que emite, os movimentos da cabeça e do corpo, as coisas que faz com as mãos e os dedos, a posição que toma em relação ao bebé, e o tempo e o ritmo das suas reacções, tudo isto se torna diferente.” STERN, D. Bebé-Mãe: Primeira relação humana, Moraes, 1980.
  5. 5.  A 1ª teoria consistente sobre a vinculação precoce é proposta em 1969 por John Bowlby (1907- 1990), psiquiatra e psicanalista inglês. VINCULAÇÃO designa a necessidade inata, básica - e não dependente de outras necessidades como, por exemplo, a alimentação - de ligação do bebé à mãe e desta ao bebé, e que se expressa por um conjunto de comportamentos característicos da espécie.
  6. 6.  Afirma que os fundamentos da personalidade do adulto são construídos a partir das ligações precoces e socioafectivas da criança e que estas ligações – vínculos – repousam sobre necessidades e fundamentos biológicos. A base do desenvolvimento humano radica, assim, na sensação de confiança. Confiança esta que apenas se desenvolve com base em ligações afectivas sólidas - vinculação (attachment) - construídas ao longo da infância.
  7. 7.  A teoria da vinculação trouxe novas perspectivas sobre a psicopatologia e desenvolvimento infantil, contribuindo quer para a alteração drástica de atitudes e comportamentos em relação à 1ª infância, quer ainda para a remodelação e humanização de instituições (creches, orfanatos, prisões, hospitais, etc.)
  8. 8.  O comportamento de vinculação (reacção observável) destina-se a favorecer a proximidade e informa a mãe do desejo de interacção do bebé. Incluem-se nos comportamentos de vinculação o sorriso, a vocalização, o agarrar, o gatinhar, mas também o choro.
  9. 9.  O sorriso aparece prematuramente. É inicialmente um acto reflexo, automático. Entre as 6 e as 12 semanas aparecem os primeiros sorrisos activos e intencionais, produto da comunicação entre o bebé e a figura de vinculação. Aos 6 meses, o sorriso constitui já um acto social dirigido a figuras preferenciais.
  10. 10.  O choro constitui um modo eficaz de atrair a atenção de quem cuida da criança. Existem quatro tipos de motivação para o choro (dor, fome, aborrecimento e desconforto) O choro provoca automaticamente nos adultos reacções de preocupação, de responsabilidade.
  11. 11.  As vocalizações do bebé funcionam desde muito cedo como estímulo para as vocalizações dos adultos. A troca depressa adquire a forma de conversação, servindo a interacção social e compensando os adultos pela atenção dispensada.
  12. 12.  As emoções manifestam-se através de expressões faciais. O psicólogo Carrol Izard defendeu uma semelhança entre a expressão das emoções básicas do bebé e as do adulto (alegria, tristeza, medo, desejo, surpresa, raiva, repugnância). As expressões faciais têm um valor comunicacional.
  13. 13.  “A mãe é uma necessidade biológica; o pai um acidente social.” Margaret Mead(antropóloga cultural norte americana-1901-1978)
  14. 14.  Associado ao conceito de comportamento de vinculação está o de figura de vinculação, conceito que inicialmente, por uma questão de simplificação, se reportava exclusivamente à mãe, mas que, graças às progressivas definições, hoje conhece novas interpretações.
  15. 15.  É conveniente que as crianças tenham várias figuras de vinculação (mãe, pai, irmãos mais velhos, avós, tios, educadoras, etc) . Apesar de hierarquias de preferência entre elas, a existência de diversas figuras facilita a aprendizagem por observação, a estimulação rica e variada. O importante, mais do que a quantidade, é, porém, a qualidade da relação de vinculação.
  16. 16. Dos 0 aos 6 meses •Desenvolvem-se os processos de discriminação de figuras de vinculação, sendo particularmente sensível o período dos 4 aos 6 meses. •É importante a presença contínua de uma figura de vinculação. •As separações devem ser breves.6 meses aos 3 anos •Entram em acção os esquemas de vinculação ligados ao objectivo principal: manter-se bastante próximo da figura de vinculação. •O sistema de vinculação está completamente estabelecido entre os 7 e os 9 meses. •Os bebés manifestam preferências pelas figuras de vinculação. •Os bebés revelam medo e, por vezes, rejeição total por certas figuras.Após os 3 anos •A criança desenvolve vontade própria e compreende as acções do outro. •O desenvolvimento da linguagem e da sua capacidade de pensar em função do tempo e do espaço permite-lhe suportar o afastamento da figura de vinculação.
  17. 17.  Estruturação da sexualidade: pode estar relacionada com as representações relacionais que se constroem durante a primeira infância. Regulação emocional: está dependente de toda uma construção da afectividade que a vinculação permite. Interacções sociais positivas: um vinculo seguro e confiante desenvolve sentimentos de segurança e confiança nos outros.
  18. 18.  INDIVIDUAÇÃO: necessidade sentida pelo ser humano de criar a sua própria identidade, a sua individualidade, e de se distinguir dos outros que lhe são próximos.
  19. 19.  Em articulação com o processo de vinculação desenvolve-se o processo de individuação. O conceito de individuação diz respeito à necessidade primária do ser humano criar a sua própria identidade, a sua individualidade, de se distinguir daqueles com quem mantém laços de vinculação.
  20. 20.  Na primeira infância a vinculação tem um papel importantíssimo, dominando as relações que a criança mantém com os outros, designadamente com os progenitores. Na adolescência, que é uma etapa do ciclo vital que se caracteriza pela necessidade de autonomia, domina o processo de separação – individuação.
  21. 21.  Durante a primeira metade do século 20, muitos psicólogos acreditavam que demonstrar afecto pelas crianças era apenas um gesto sentimental que não servia de nada. O psicólogo Comportamental John B. Watson, uma vez chegou a alertar os pais, "Quando tiver vontade de acariciar o seu filho, lembre-se que o amor materno é um perigoso instrumento." De acordo com muitos pensadores da época, o carinho só espalharia doenças e levaria a problemas psicológicos no futuro.
  22. 22.  Harlow(psicólogo norte-americano, 1905-1981), através das suas experiências com macacos Rhesus, vem provar que a necessidade de conforto e afecto cria um vinculo mais forte com a figura materna do que a satisfação das necessidades básicas de nutrição.
  23. 23.  Harlow separou da mãe 8 macacos Rhesus pequenos e criou-os em jaulas, com duas mães substitutas. Uma é um bloco de madeira, suavizado com esponja e coberto de pano. A outra é feita de arame e está munida de um sistema de alimentação que termina numa tetina.
  24. 24.  Verifica que os macacos passam a maior parte do seu tempo agarrados ao substituto coberto de pano. Este laço mantém-se mesmo depois de longas separações. Em situações estranhas agarravam-se à mãe de pano até se acalmarem.
  25. 25.  Harlow concluiu que a necessidade de conforto afectuoso é inata e que é mais forte do que a necessidade de nutrição.
  26. 26.  Foi Spitz (1887- 1974, psiquiatra infantil e psicanalista) quem, pela primeira vez chamou a tenção para a Dor Psíquica (depressão) em fases precoces de desenvolvimento, resul tante da privação afectiva.
  27. 27.  A síndrome do Hospitalismo resulta da ruptura total e duradoura da relação afectiva precoce, durante os primeiros 18 meses de vida. Caracteriza-se por um atraso global de desenvolvimento (psíquico, relacional, mas também físico e biológico).
  28. 28.  No primeiro mês de separação, a criança abandonada chora e procura a proximidade e o conforto de outros seres humanos.
  29. 29.  No segundo mês, o choro contínuo vai dando lugar ao lamento e ao gemido. A criança perde peso e o seu desenvolvimento psicomotor é interrompido.
  30. 30.  No terceiro mês de separação, a criança evita o contacto humano e a actividade motora. Passa longas horas deitada (marasmo) e sofre de insónias.
  31. 31.  Mary Ainsworth(psicóloga canadiana – 1913-1999) passou 3 anos no Uganda, mais precisamente de 1953 a 1956, onde realizou um estudo que desenvolveria anos mais tarde em Baltimore, EUA. A metodologia assentava num procedimento para a avaliação da segurança da vinculação, denominado Situação Estranha, aplicado em crianças entre os 12 e os 18 meses .
  32. 32. A Situação Estranha comporta diversos elementos geradores de insegurança na criança: Um ambiente estranho, desconhecido; Presença de pessoas estranhas; Separação da mãe.
  33. 33.  O procedimento pretende verificar se, e de que forma a criança consegue utilizar o apoio da mãe para manter/recuperar a segurança e a capacidade de explorar o ambiente.
  34. 34. A Situação Estranha é composta por 8 etapas: A criança entra com a mãe para uma sala alcatifada, onde há brinquedos; A criança é encorajada a ir para o chão e explorar os brinquedos, sem que a mãe interfira; Uma mulher estranha entra, começa a conversar com a mãe, depois tenta interagir com o bebé; A mãe sai, deixando o bebé com a estranha, que interage com ele; A estranha sai, deixando o bebé sozinho na sala; A mãe reentra.
  35. 35. Vinculação Segura - ± 65% Procuram e mantêm activamente o contacto com a mãe após o reencontro; Rapidamente se acalmam e retomam a exploração com a chegada da mãe.
  36. 36. Vinculação Evitante - ± 20% Mostram-se aparentemente pouco perturbadas com a separação; Evitam o contacto com as mães no reencontro (evitando o olhar e quando se encontram ao colo da mãe querem voltar para o chão).
  37. 37. VinculaçãoResistente/Ambivalente - ± 15% Reagem às separações com muita perturbação; São difíceis de consolar na reunião; Têm visível dificuldade em “sintonizar” com a mãe.
  38. 38.  A resiliência é a capacidade de adaptação positiva a situações humanas ou naturais adversas.
  39. 39.  Engloba dois conceitos fundamentais: O risco – onde se incluem características da personalidade e/ou ambientais; Factores de protecção – de ordem psicológica, familiar e ambiental, que permitem fazer face à situação de risco.
  40. 40.  Não há possibilidade de resiliência se não existirem, ou se o sujeito não encontrar, factores alternativos de protecção.

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