PODER E POLÍTICA
1
Poder e
política
EDITORA
ÁGORA DA ILHA
EDIÇÕES ANTERIORES - Volume 2
Org. Dalma Nascimento
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
2
COPYRIGHT: Ágora da Ilha Livraria e Editora Ltda/Jornal
O Correio
RIO DE JANEIRO - RJ. TEL....
PODER E POLÍTICA
3
Aediçãodojornal“Paraqueserveopoder”teveaeficiente
colaboraçãodoantropólogo,professorJoséSávio Leopoldi,...
PODER E POLÍTICA
5
Parapreservaramemóriadesignificativostextosdeantigos
númerosdeOCorreio–umjornalculturalque,comoumfórum
...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
6
Poder e política, esta obra reproduz os escritos de “Para que
serveopoder?”(NºLXII)aqueseun...
PODER E POLÍTICA
7
elas,Angola,queatualmentevivefortesconvulsõespolíticas.Em
Guiné,oconflitovoltoueopaíscontinuamenteseenc...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
8
nossasociedadenumfuturopróximo,opapeldoItamaratyna
viradadomilênio,alémdasagudasreflexõesso...
PODER E POLÍTICA
9
Ondehouverdoissereshumanos,umtentarásubjugarooutro.
Éalutapelopoder.Paraconsegui-lo,ohomemsevaledequalq...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
10
doscargos,quandonãomaisservemaosnegóciosdapolíticada
comunicação.Sobobrilhodanovela,dosjog...
PODER E POLÍTICA
11
Parte I
Para que serve o poder? 13
Parte II
OcaldeirãodaAméricaLatina 49
Parte III
África de língua po...
PODER E POLÍTICA
13
Para que serve
o poder?
PARTE I
PODER E POLÍTICA
15
Índice da Parte I
O poder e a definição de política
Eduardo Raposo 17
Osimbolismomágicodopoder
José Ca...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
16
O paletó do governador
Lula Basto 37
Cuidado com os picaretas
Sérgio Caldieri 39
O poder c...
PODER E POLÍTICA
17
Apolíticavemsendodefinida,atravésdostempos,pordife-
rentesreferênciasteóricasehistóricas.Noqueconcerne...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
18
Anoçãodepoderganhaenormepluralidadeaoserassocia-
daàsideologias,àsutopias,àsesperanças,àsr...
PODER E POLÍTICA
19
Recentementepudemosacompanharpelaimprensaque,quan-
dodofalecimentodoAiatoláKomeini,emmeioacenasde“his-...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
20
sentido.Elenãoseresumeasuasdimensõesmais“históricas”e
circunstanciais.Nãoserestringeaalgod...
PODER E POLÍTICA
21
Opoder,assimcomoacontececomaigualdadeealiberdade,
sótemsentidosepensadoemtermosrelacionais.Ouseja,épre...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
22
prestígioparasuaspropostasebuscandosoluçõespalatáveisàs
partesemlitígio,semqueninguémsesin...
PODER E POLÍTICA
23
Remotíssimaéanoçãodopoderdemocráticocomoresultado
de aceitações recíprocas por parte dos governados. P...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
24
mundialacrise.Etudosedissolveemdiscursos,simpáticosexer-
cíciosdedemagogia(noexatosentidod...
PODER E POLÍTICA
25
Após30anos,omovimentoqueeclodiunomundonofinal
dadécadade60rendeufrutos.Nãoexistemmaisascátedras,a
dita...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
26
Pensamentoúnico?
Respeito à diferença e à solidariedade parecem coisa do
passado. Agora,ma...
PODER E POLÍTICA
27
UmadastemáticasmaisdiscutidasnasCiênciasHumanas,sem
dúvida,éadopoder.Tornou-seconsensualquenãohávidaso...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
28
Poderdochefes
NosEUA,oFederalismoresultounumarelativaautonomia
dosgovernosecomunidadesloca...
PODER E POLÍTICA
29
“Enquantooshomensexercemseuspodrespoderes”,que
nos seja permitido sonhar com poderes maduros, na medid...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
30
poderrompercomtodasasnormasecânonesporumamorao
espanto,aonovo.
Poder viver a arte, viver c...
PODER E POLÍTICA
31
Há o poder da vontade e o da fé, o poder da arte enquanto
manifestação do espírito e o poder das idéia...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
32
podesubsistir.Devemosconsiderar-nosresponsáveis,pesso-
almente responsáveis por tudo o que...
PODER E POLÍTICA
33
Umacoisaévocêlersobreoanarquismodoutrina,decunho
utópico,fundadanaabsolutaliberdadedoindivíduo“semlein...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
34
seboebrechó,artistaplástico,poetazen,empalhador,herborista
–tudoexerceurevolucionariamente...
PODER E POLÍTICA
35
Costuma-sedizerqueopreçodaliberdadeéaeternavigi-
lância,masdevemosatentarqueháduasmodalidadesdevigi-
l...
PODER E POLÍTICA
37
Eram14horasdeumsábadonosjardinsdoPaláciodasLa-
ranjeiras.Estavaeu,juntamentecomoutraspessoas,aguardand...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
38
japonês:“Aausênciadacríticaedaautocríticafavoreceperver-
sõesdepoder”.Eprofetizavaqueodelí...
PODER E POLÍTICA
39
Aseleiçõesseaproximameoscandidatosestãoàprocurade
eleitores.Naturalmente,elesrepetirãoosmesmosdiscurso...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
40
aboca”equesedêporsatisfeito.Sabe-se,porém,felizmente,
quenemtodosospolíticosagemdessaforma...
PODER E POLÍTICA
41
Acríticaaosrepresentantesdopodersempreestevepresente
noscontospopulares,fonteprimeiradaliteraturainfan...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
42
reizinhosdeRuthRochaeaHistóriameioaocontráriodeAna
MariaMachadosãoclássicosdestemomentoemq...
PODER E POLÍTICA
43
Eraumartistasonhador:sonhavacomaglória,comafama,
esperavacomansiedadeessediaque,tinhacerteza,chegaria....
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
44
do. Seria a qualidade da tinta? Não adiantou nada, cada vez
piorafaixa.Raspouecomeçououtra...
PODER E POLÍTICA
45
OcineastaitalianoRobertoRossellini,nofilmeAtomadado
poder por Luiz XIV, mostra o ritual de investidura...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
46
Bíblia,ochefeiratéaumlocalsagrado,opontíficerecebero
cajado e celebrar a missa onde, no fi...
PODER E POLÍTICA
47
Bactériasfabricamsubstânciastóxicase,expelindo-asem
seusnichosconquistados,tratamdegarantiroterritório...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
48
das, alimenta-se de comidas nobres e respira o ar puro das
montanhas.Certavez,umacoruja,to...
PODER E POLÍTICA
49
O caldeirão da
América Latina
PARTE II
PODER E POLÍTICA
51
Não me convidem para essa festa
Márcia Paraquett 53
Globalizaçãoeneoliberalismo:umademocraciaeconômico...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
52
Alca:contrafaçãodeumideal
José Lisboa Mendes Moreira 71
DiscriminaçãodaArtelatino-american...
PODER E POLÍTICA
53
Entraremosnoano2000com500anos.ARedeGlobonão
nos deixa esquecer que, desde 1500, somos uma nação. Mas
s...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
54
dequeaterranãoéparasertomada,massimconquistada.
Deixemosdebrincadeiraepensemossério.Falare...
PODER E POLÍTICA
55
AAméricaLatinachega,nestefinaldeséculo,semresolver
problemasbásicosdesuapopulação.Asprecáriascondições...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
56
ricos.Nessecaso,contraditoriamenteaodiscurso,oEstadodes-
sespaísesmostra-seimprescindívelp...
PODER E POLÍTICA
57
Os problemas da América Latina já são conhecidos e al-
guns,inevitáveis,comoéocasodasecanoNordestebras...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
58
condiçõesdeconvivênciadosertanejocomela.Precisamosde
obrasperenes,damaximizaçãodosrecursos...
PODER E POLÍTICA
59
Estranhocontinenteestenosso.Suahistóriaémarcadapela
constantepresençadeditadoresemdiferentesépocasepaí...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
60
plosdestaafirmação.Sãotantasasobrasquenemsequerpo-
deríamoslistá-las,menosaindaanalisá-las...
PODER E POLÍTICA
61
No mundo político de hoje, em grande parte dos Estados
latino-americanosestá-seobservandoumfenômenoint...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
62
chilenacontinuousendotuteladapelasForçasArmadas,lidera-
dasporPinochet.
Em geral, os paíse...
PODER E POLÍTICA
63
PorqueolegadodasditadurasmilitaresnospaísesdoCone
Sul sempre retorna como pesada herança? Essas ditadu...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
64
paramdereclamarojulgamentodestesmilitares.
OEstado,asociedadecomoumtododeveriamanalisarcom...
PODER E POLÍTICA
65
AvisãoantropológicadeDarcyRibeirocaracterizaopro-
cessocivilizatóriodasAméricasemtrêsestágios:osPovosT...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
66
maçãodaAlcasobopoderionorte-americano.
É necessário dizermos NÃO, como sugere Eduardo
Gale...
PODER E POLÍTICA
67
Ahistóriadamulherlatino-americanaestáprofundamente
comprometidacomaprópriahistóriadedominaçãodaAmérica...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
68
desdequeseinstalouosistemapatriarcalenaAméricaapartir
dosistemacolonial.
Se,nassociedadesa...
PODER E POLÍTICA
69
Numcaldeirãocultural,borbulhamemisturam-seimagens,
contos,cantosetradições.Istodeveriaacontecernocampo...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
70
ampliaçãodehorizontesculturaisparaascriançasejovensbra-
sileiros.Asnovasgeraçõesmuitolucra...
PODER E POLÍTICA
71
AoproporarealizaçãodoCongressodoPanamá,em1825,
osonhodeBolívareraunirtodosospaíseshispano-americanos.
...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
72
no sucesso do Mercosul, que é um acordo sem pretensão
hegemônica.
TambémoeconomistaGouveaN...
PODER E POLÍTICA
73
EnraizadanoRealismoFantásticoenoImaginário,aArte
latino-americanavemobtendointeresseinternacional,apes...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
74
Art in America, Art Nexus e Gallery Guide.
Em1995,numeventoinéditoemNovaIorque,11galerias
...
PODER E POLÍTICA
75
UmespectroexistenaAméricaLatinadesdeoséculoXIX:é
oimperialismo.Responsávelpelaexploraçãoedependênciada...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
76
DoutrinadeSegurançaNacional,ondenemsempreoCongresso
funcionava.
Essesregimesfacilitaramaen...
PODER E POLÍTICA
77
AArgentinasepreparaparaumaviradaemsuapolíticain-
terna. Depois de dois mandatos, o Partido Justicialis...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
78
asdecorrupçãoeesquemasdefavorecimentoquepartiramda
imprensaedopróprioministroCavallo.Istog...
PODER E POLÍTICA
79
ATeologiadaLibertaçãorepresentouumimportantemar-
conaHistóriadaAméricaLatina,emparticular,enaHistóriad...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
80
PorrompercomaconcepçãotradicionaldeIgreja,dialo-
garcomomarxismo,denunciarasmazelassociais...
PODER E POLÍTICA
81
Para a Comissão da União Européia, inúmeros fatores são
favoráveisàreaproximaçãodaEuropacomaAméricaLat...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
82
Re-conquistarademocracia
Apósosufocantedomíniodasforçasarmadaslatino-america-
nas,osanos80...
PODER E POLÍTICA
83
Se,comoretornodademocracia,surgiramperdaseconômicas,
oabandonodoprotecionismoeaspolíticasdeajustesestr...
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
84
cenaprincipal,mascontinuamamanobraraeconomia.AUnião
Européia,pondonocentrodacooperaçãoaclá...
PODER E POLÍTICA
85
Fazalgunsanosliopoema“Adormidera”,donicaragüense
PabloAntonioCuadra.Talleituraalavancouumpasseiocurio-...
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Dalma nascimento   poder e politica
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Dalma nascimento poder e politica

659 visualizações

Publicada em

book

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
659
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
40
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
15
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Dalma nascimento poder e politica

  1. 1. PODER E POLÍTICA 1 Poder e política EDITORA ÁGORA DA ILHA EDIÇÕES ANTERIORES - Volume 2 Org. Dalma Nascimento
  2. 2. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 2 COPYRIGHT: Ágora da Ilha Livraria e Editora Ltda/Jornal O Correio RIO DE JANEIRO - RJ. TEL.: 0 XX 21 - 393 4212 DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS À EDITORA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM SUA AUTORIZAÇÃO EXPRESSA. CAPA: Editora Ágora da Ilha. Ilustração: Escravo, do artista mexicano José Clemente Orozco RIO DE JANEIRO, DEZEMBRO DE 1999 EDITOR: PAULO FRANÇA EDITORA ÁGORA DA ILHA - TEL.FAX: 0 XX 21 393 4212 E-mailagorailh@ruralrj.com.br EDIÇÕESANTERIORESVOL.II/Poder e política Org. Dalma Nascimento Editor responsável: Paulo França RiodeJaneiro,dezembrode1999 156páginas Editora Ágora da Ilha - ISBN 86854 Literatura brasileira CDD - 869B Ensaiosemportuguês 869.4 FICHA CATALOGRÁFICA
  3. 3. PODER E POLÍTICA 3 Aediçãodojornal“Paraqueserveopoder”teveaeficiente colaboraçãodoantropólogo,professorJoséSávio Leopoldi, daUFF,empenhadoemcontactararticulistasquediscutissem questõesrelativasaotema. Para“OcaldeirãodaAméricaLatina”, OCorreiocontou comoauxíliodasprofessoras-doutorasLeilaRoedel,deHistó- ria,daUFRJ,eMárciaParaquett,deLínguaeLiteraturaLati- no-americana,daUFF.Ambasconvidaramespecialistasefize- ramocopidesquedealgunstextos. Quantoà“ÁfricadeLínguaPortuguesa”,foiintensooapoio daprofessora-doutoraCarmenLúciaTindóSecco,coordena- dora do Setor de Literaturas Africanas, da UFRJ, indicando nomes,enviando-nosinformaçõessobrefatoshistóricos,além de copidescar textos de seus alunos e participar do processo editorialdaquelenúmero. Parao“Brasilemtransição”,agrandecolaboraçãoveioda doutoraMariaAntonietaLeopoldi,professoradoProgramade Pós-graduaçãoemAntropologiaeCiência, daUFF, edoPro- gramadeApoioaNúcleosdeExcelência,aosugeriroassuntoe articulistaseselecionartextosdeseusorientandos. Aosprofessoresacimamencionados,osagradecimentosda EditoriadeOCorreio. Agradecimentos
  4. 4. PODER E POLÍTICA 5 Parapreservaramemóriadesignificativostextosdeantigos númerosdeOCorreio–umjornalculturalque,comoumfórum dedebateepesquisa,visaadiscutirtemasdecandenteatualidade – o editor chefe deste periódico, Paulo França, com a lucidez costumeira,resolveutransformá-losemlivros.Ocomprovadoêxito doprimeirovolume,intituladoTempomítico,comquefoiaberta acoleçãoEdiçõesAnterioresedoqualconstaramosartigospu- blicadosem“AfascinanteIdadeMédia”,“Oscaminhosdosa- grado”,“Eraumavez”(sobreLiteraturaInfantil)e“Oenigmado mito”,levou-oaprosseguirnesteauspiciosoprojeto,certodas suasressonânciasnopensamentocríticodosleitores,voltadospara visõesmaisabrangentesemdiversificadosâmbitosdoconheci- mento. Cadavolume–ejáestãoprogramadosmaisde15–reunirá semprequatroedições,havendoentreelas,apesardasdiferenças dostemasdiscutidos,umaidentidaderadicalarticuladoraemtor- nodaqualosartigos,diretaouindiretamente,secongreguem. Assim,variadosmatizesdeidéiasdiversas,masconvergentes,irão reviver,noamplomosaicodacoletânea,ospassosemarcosdeO Correio,esteperiódicoderesistência,cuja atuaçãoquinzenal ininterruptacompletaráquatroanosemabrilpróximo,quandoserá lançadooterceirovolumedasEdiçõesAnteriores. Prosseguindo,pois,nopropósitodeanalisaraspectos,porvezes submersosnasdobras,atalhoseavessosdosprocessosculturais, estesegundotomoversasobreoPoder,seussignosereflexosnos paísesemergentesdaAméricaLatina–Brasileasnaçõesdeco- lonizaçãoespanhola–alémdosrecém-criadosgovernosdaÁfri- calusófona,ouseja,dascinconações:Angola,Moçambique, SãoToméePríncipe,CaboVerdeeGuiné-Bissau.Sobotítulo O viés da Política
  5. 5. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 6 Poder e política, esta obra reproduz os escritos de “Para que serveopoder?”(NºLXII)aqueseuniramosdasedições“Brasil emtransição”(NºLII),“Áfricadelínguaportuguesa”(NºLXI)e “OcaldeirãodaAméricaLatina”(NºLIV). Aindaqueostextosapareçamdivididosnosblocos,pertinen- tesaosjornaisespecíficos,emquasetodospulsaomesmointuito de pensar crises e conflitos étnicos, políticos, sociais e mercadológicosqueturbilhonameseespraiamnessesterritórios comsituaçõestãosemelhantes,aoconviveremcomademocracia eaeconomianofiodanavalha.Driblesemaquiavélicosjogosda duplamoralidadecomqueoPoderseimpõedeformaautocráti- ca e perversa se dão a ler, explícitos ou nas entrelinhas destas escritasquestionadorasdiantedetantasinjustiçaseopressões. Algumasdasnaçõesfocalizadasaindavivenciamgolpesmi- litares ou se lembram das recentes cenas dramáticas, onde o eternofantasmadoLeviatãdizimouvidasesonhos.Entretanto, aselitesaindacontinuamencasteladasempreservadosbolsões, enquantooshumilhadoseofendidosdaTerraaguardamoque “Deusquer”.NocasodoBrasil,amilagrosacestabásica. Sãoveiaspulsantesquenãosefecharamnosangrantecorpo socialdaAméricaLatinaedaÁfricaportuguesaemincandescente ebulição,àbuscadeumPaiSalvadorcomutópicosdesejosde preenchercarênciasfundamentais.Ofervilhantecaldeirãolatino- americano,ondesecozinhaopassadoesetemperaofuturocom oscondimentosdopresente,continuanoimpasse:Mercosulou Alca?Hádoisanos,emSantiagodoChile,houveareuniãoda CúpuladasAméricascom34paísesparticipantes,excetoCuba, maspermaneceumgritoparadonoar:quaisassuasdiretrizes colocadasemprática? Portudoisso,nocalordahora,opresentelivroPoderepolí- ticavemremexernestecaldocultural,reeditandoreflexõesque provaram/provocaramnovasreceitasetemperoseengrossaram poções/soluçõesrevitalizadorasparanossaAméricadesnutrida. Eemmeioatantaspolêmicas,constata-sequeomundosetrans- forma.AEuropaficouprontaparaoeuro,porémocontinente americanofervilhaemencruzilhadas,aguardandoinsuspeitados rumos. Assimtambém,asex-colôniasportuguesasdaÁfrica,entre
  6. 6. PODER E POLÍTICA 7 elas,Angola,queatualmentevivefortesconvulsõespolíticas.Em Guiné,oconflitovoltoueopaíscontinuamenteseencontranum caos.MoçambiqueeCaboVerdeestãocomcertapaz,intentan- doareconstituiçãonacional,comintensasdificuldades.Nestatran- sição,conturbadaepletórica,asnaçõesafricanasdelínguaportu- guesalutamparasairdoatraso,paraafirmar-seemsuaindepen- dência e reanimar as raízes, em grande parte, soterradas ou esmaecidaspelosinetedodominador. PortugalchegouàÁfricanaexplosãoexpansionistadoséculo XV,entretanto,preocupadocomotráficonegreiro,sócolonizou aquelasterrasemmeadosdoXIX.De1926a1974,aditadura deSalazarexerceunelasgranderepressão,porém,nosanos60, iniciou-seaguerracolonialcontraodomínioportuguês.Após74, comaRevoluçãodosCravoseaconseqüentequedadoditador português,sãoproclamadasasindependênciasdascolônias,à exceçãodeGuiné-Bissau,ocorridaem24desetembrode1973. AdeMoçambiquedeu-seem5dejulho,adeSãoToméePrín- cipeem12dejulhoeadeAngolaem11denovembro,todasno mesmoano.Taisrevoluções,deorientaçãomarxista,foramlide- radasporAgostinhoNeto,deAngola,AmílcarCabral,deCabo VerdeeGuinéBissau,eEduardoMondlane,deMoçambique. EmboraestelivrodasEdiçõesAnteriorestangenciequestões político-sociaisdacorajosaÁfricalusófonaemseus“caminhose descaminhosdeutopiaseresistência”,amaioriadostextos,publi- cados na edição de 22 de agosto de 98, neste livro reeditados, centrou-se,sobretudo,emdiscussõessobreaLínguaeaLiteratu- ra daquelas regiões. Duas razões nortearam tal enfoque: a oficializaçãodaNovaReformaOrtográficadosPaísesdeLíngua Portuguesa, em Cabo Verde, a 17 de julho de 98, e a vinda ao Brasil,exatamentenaquelesdias,dosescritoresmoçambicanos MiaCoutoeVírgiliodeLemos. Jáonúmero“Brasilemtransição”tentouequacionarquestões relativasaocidadãobrasileironoterceiromilênioeosde-safios políticosaseremenfrentadosparaatransiçãodoBrasildianteda globalizaçãofinanceiraehegemoniaamericana.Discutiupossíveis reformasdoEstadoedosistemafinanceiro,apolíticadeteleco- municação,osnovosparâmetrosparaaEducaçãoedosmodelos industriais,oMercosuleoempresariado,osrumosdoDireitona
  7. 7. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 8 nossasociedadenumfuturopróximo,opapeldoItamaratyna viradadomilênio,alémdasagudasreflexõessobreoquesecele- brarnaquelasintençõesmercantilistasdos500anosdainvasão lusaemnossoterritório. Emgamasmultifacetadas,todasestasescritasemtornodo BrasilnasteiasdoPoderpossueminteraçõesprofundascomos artigosdasoutrastrêsedições,espelhandoumarealidademais amplaecomplexa.Sãoitineráriosquesecruzam,seexplicamese iluminam,instaurandoodiálogointertextualeconvidandooleitora co-participardesteinstigantedebate,afimdeque,comseupo- tencialcrítico-criativo,eletambémanaliseerepenseosfundamen- taisproblemasaquiverticalizados. DalmaNascimento-Editoradetextosde OCorreio,ex-professorada UFRJedoutoraemTeoriaLiteráriaeLiteraturaComparada.
  8. 8. PODER E POLÍTICA 9 Ondehouverdoissereshumanos,umtentarásubjugarooutro. Éalutapelopoder.Paraconsegui-lo,ohomemsevaledequalquer estratagemaeimpõesuapolítica.Devezemquandoumgovernante vemapúblicodizerquecomandaréumatarefadificílima,solitária. Então, perguntamos: por que as pessoas arriscam tudo para alcançaremcargos?Paraagrandemaioria,arespostaéóbvia: pelavaidadedepodermandaredeserobedecido. Costuma-sedizerqueoBrasiléabençoadoporDeus,mas que não avança por causa do povo. E este mesmo povo é o responsávelpelaconduçãodospéssimospolíticosemtodasas esferasdepoder.Defato,aclassemédiaéquemfazpolítica,a classericaindicaamaioriadoscandidatoseaclassepobreelege oscandidatosdaclasserica,quenadatêmemcomumcomestes eleitores. Oproblemaéagravadopelobaixoíndiceeducacionaldopovo, gerado,emgrandeparte,pelapoucaimportânciaqueosgovernos dão-deliberadamente,ounão-aocrescimentointelectualdos seuscomandados.Assim,atelevisãotorna-seomestredemilhões debrasileiros.Esuaimportâncianapolíticaenadivisãodopoder noBrasiléimensa. Mas,comotelevisãoéconcessãopública,seus“proprie-tários” dirigemaprogramaçãoparashows,esportes,entreteni-mentoe notíciasgerais,semaprofundamentopolítico.Destemodo,evitam atritoscomoPoderquelhesconcedeuatrans-missãoe,dequebra, aindaganhambilhõesdereaisempublicidade.Semcontaros favores. Só quem perde, claro, é quem paga por tudo isto, ou seja,opovo. O poder da informação é superior ao poder político em si, fazendoprefeitos,governadoresepresidentes,edestituindo-os Pior do que a bomba atômica
  9. 9. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 10 doscargos,quandonãomaisservemaosnegóciosdapolíticada comunicação.Sobobrilhodanovela,dosjogos,dosprogramas deauditórioedosfilmes,temperadoscomimagensdaviolência humana,queultrapassamospesadelosmaisbizarros,eafúriada Natureza,atelevisãobrasileiradesinformaedificultaaeducação dopovo.Comisto,opoderpúblicoeoprivadounem-senapolítica demandarnoBrasil,desviandoocaudalosoriodedinheiropúblico paraseusinteressespessoais. OséculoXXseráconhecidocomoaEradaTecnologia,onde acomunicaçãoevoluiuassustadoramente.Masserá,também,a EradaMorte,poisduasguerrasmundiais,dezenasdeoutrasen- trepaísesvizinhoseascivis,aspioresdetodasasguerras,levaram àexplosãodebombasatômicaseaofimdavidademilhõesde sereshumanosedemaiscriaturasnoplaneta.OséculoXXI, no entanto,podesermenostraumático,e,paraisso,osquedetêmo Poderecontrolam aPolíticaprecisamsermaisvoltados para a coletividade. O que se vê, contudo, são fusões aceleradas de poderosos manipuladoresdamídiamundial. Eistoépiordoqueabombaatômica. Paulo França - Jornalista, Editor chefe de O Correio.
  10. 10. PODER E POLÍTICA 11 Parte I Para que serve o poder? 13 Parte II OcaldeirãodaAméricaLatina 49 Parte III África de língua portuguesa 87 Parte IV Brasil em transição 131
  11. 11. PODER E POLÍTICA 13 Para que serve o poder? PARTE I
  12. 12. PODER E POLÍTICA 15 Índice da Parte I O poder e a definição de política Eduardo Raposo 17 Osimbolismomágicodopoder José Carlos Rodrigues 19 Poder e chefia na sociedade indígena José Sávio Leopoldi 21 Poderes distantes, arrogantes e triunfantes João Luiz Duboc Pinaud 23 O poder escondido Léa da Cruz 25 EleiçãoecidadanianoBrasil José Eduardo Pereira Filho 27 Até não poder mais Lena Jesus Ponte 29 Os matizes do poder Lauro Gomes de Araújo 31 Meuanarquistafavorito Latuf Isaías Mucci 33 Poderevigilância José Lisboa Mendes Moreira 35
  13. 13. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 16 O paletó do governador Lula Basto 37 Cuidado com os picaretas Sérgio Caldieri 39 O poder como personagem na Literatura Infantil Márcia Lisboa 41 Afaixapresidencial Jorge Picanço Siqueira 43 A encenação do poder Isidoro Alves 45 A coruja e a fênix José Américo de Lacerda Júnior 47
  14. 14. PODER E POLÍTICA 17 Apolíticavemsendodefinida,atravésdostempos,pordife- rentesreferênciasteóricasehistóricas.Noqueconcerneànos- satradiçãoocidental,depoisdesuainauguralinserçãonouni- versoreflexivodaAntigüidadeGrega,éconsideradacomoa afirmaçãodainterdependênciadocidadãoparacomasuacida- de, espaço onde recebe sua educação, realiza sua vocação e encontraseusignificadomaisamplo. Éassimquechamamdeidiotésocidadãosolitárioeegoísta quenãooferecenenhumacontribuiçãoàcidadee,portanto,aos seussemelhantes.Talconcepção–segundoaqualsedescrevia maisoqueoshomensdeveriamfazer(colaboradoresdacida- de)emenosoqueporvezesfaziam(estrategistasdeseuspró- prios benefícios) – atravessa a Antigüidade Grega e a Idade Média,desembocandonoRenascimento. Apartirdeentão,NicolauMaquiavelinauguraumextraordi- nário trabalho – prosseguido e desenvolvido por autores dos séculosposteriores–nosentidodereverosignificadodo“espí- ritopolítico”,oquenoslevouadescobrirereconhecerdimen- sõesecaracterísticas,atéàquelaépoca,inéditasdoquesehavia pensadosobrepolítica.Todaumaliteraturapassaadedicar-sea refletirmaissobreaeficáciadapolíticaemenossobrearazão moral.Pelascontribuiçõesque,desdeentão,foramfornecidas, apolíticacontinuaaserobjetodediversasconcepções,todas, porém,convergindoparaanoçãodepoderemseusentidomais específico.Naorigemdessaconcepçãodepoderencontra-sea separaçãoentregovernantes,lídereseliderados,oquesemani- festanassociedadesmodernasatravésdeumvigorosoproces- sodedivisãosocialdotrabalhoenaesferapública,daconstru- çãodoEstadoedossistemas,cadavezmaisinstitucionalizados. O PODER E A DEFINIÇÃO DE POLÍTICA EduardoRaposo
  15. 15. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 18 Anoçãodepoderganhaenormepluralidadeaoserassocia- daàsideologias,àsutopias,àsesperanças,àsrevoluções,mas tambémàsgrandesdecepçõesetragédiasquemarcamaHistó- ria.Adespeitodasdiferentesdimensõesdoconceitodepoder, todas parecem reconhecer a importância de seu estudo para compreendermosohomemnasdiversassociedadesquesefor- maramemnossahistória. Adinâmicadopoderedapolíticaconstrói,constantemente, cenáriosdesconhecidos.Nostemposatuais,assistimosauma inéditaaceleraçãodasinovaçõestecnológicasedascomunica- ções,comadiluiçãodasfronteirasedasantigasreferênciasa quefomoshabituados,modificando,maisumavez,odestino humano. EduardoRaposo–DoutoremCiênciaPolítica,diretor,pesquisador e professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.
  16. 16. PODER E POLÍTICA 19 Recentementepudemosacompanharpelaimprensaque,quan- dodofalecimentodoAiatoláKomeini,emmeioacenasde“his- teriacoletiva”,desmaios,auto-flagelaçõesemortes,“fanáticos”se digladiavampeloprivilégiodebeijaracadeiradosumo-sacerdote edetocaremseucaixão.Osrelatosdavamcontadequelocuto- resdasrádiosetelevisõesiranianas,emtompatético,imploravam: “Rios,paremdecorrer!Astros,paremdebrilhar!Perdemosnos- sopai!” Comestalembrança,querochamaraatençãoparaumaspec- topoucoconsideradodopoder:seucaráterdeconfluênciaentre ocósmicoeosocial.Opoderexisteporquetodasociedadeestá continuamentesubmetidaàstransformaçõesdaexistência,por- queestásempreameaçadaporincessantesturbilhões. Diantedessasameaçaseprovocações,aunidadedasocieda- desóéencontrávelpelamaterializaçãodeumaimagemauto-im- posta.Estasópodeserobradeumpoderquerecortaasocieda- deeadelimita;deumpoderquedesenhe,paratodoseparacada um,orostoprópriodacomunidade.Noseuquererviver,toda sociedadeéessencialmenteumpoderqueadestacadosfluxos infinitosdoquenãoéela.Umpoderqueaprotegedaquiloqueé contraela. Todasociedadeseconstróicontraoqueamutila,contraoque quebraocursonormaldascoisas,contraoqueameaçasuacoe- sãoesuasolidariedade.Comounidadequevisaaproduzirepre- servarsuadiferença,todasociedadeéumsistemadepoder,um complexodeaparatosededispositivosmágico-simbólicosquese opõemaocontra-poderdocaosedaentropia. Opoder,emtodasassociedades,édaordemdomágicoedo sagrado.Nãoé namerasociologiaoupolíticaqueeleadquire OSIMBOLISMO MÁGICO DO PODER JoséCarlosRodrigues
  17. 17. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 20 sentido.Elenãoseresumeasuasdimensõesmais“históricas”e circunstanciais.Nãoserestringeaalgodisputadoeconflitual.Não seesgotanissoquenormalmentechamamosde“político”. Opoderé,essencialmente,aquiloquedefineumcertocon- sensoquantoàquiloqueseráobjetodedisputa.Queestabelece uma certa concordância a respeito de quais serão as regras do discordar.Quedefineospontossobreosquaisserápossívelcom- petir.Opoder,sobretudo,éaquiloquerealizaaproezadereunir, nomesmotodosimbólicoeafetivo,oexploradoeoexplorador,o senhoreoescravo.Eestaproezaémuitomaisfreqüentedoque costumamosreconhecer. Éimportanteteremmenteestespontos,especialmenteem contextos como o atual, em que, por todo o espectro político, candidatosemaiscandidatosseproclamamdispostasa“mudar” ou“abolir”osistemadepoder.Etambémemcircunstânciasem que,fazendo-seusodegigantescoarsenalmágicoesimbólico, materializadoemdiscursosepropagandas,somosconvidadosa esqueceranaturezamágicaesimbólicadopoder.Elevadospaci- ficamenteaaceitaraidéiadequeopoderseja–oudevaser–de caráter“técnico”e“racional”. JoséCarlosRodrigues–ProfessortitulardoDepartamentodeAntro- pologiadaUFF.AutordeEnsaiosemAntropologiadoPoder, Editora TerraNova,1992,alémdeoutroslivros,inclusivesobreasexualidadee amortenumenfoqueantropológico.
  18. 18. PODER E POLÍTICA 21 Opoder,assimcomoacontececomaigualdadeealiberdade, sótemsentidosepensadoemtermosrelacionais.Ouseja,épre- cisohaveroutro(s)indivíduo(s)paraqueelepossaexercer-se. Mas,satisfeitatalexigência,suapresençasetornainevitável,pois nuncadeixademanifestar-se,querentreindivíduos,quernosvá- riosgrupossociais,dafamíliaàsociedadecomoumtodo. Permeando relações pessoais, a questão do poder é geral- mentetratadapelasáreasdoconhecimentoassociadasàPsicolo- gia.Jáoestudodopoderpolíticoformalmenteestabelecidoedas instituiçõespolíticasqueotornamefetivoemdadasociedade,cons- tituiobjeto,porexcelência,daCiênciaPolítica. ÀAntropologiaSocial,atravésdoramoespecíficodaAntro- pologiaPolítica,cabeoestudodopodernaschamadassocieda- desprimitivas,tribaisouindígenas,emqueelesemanifestade maneiraconsensual,independentementedeleisescritasoucon- tratosformaisparadisciplinarasuaprática.Nessassociedades,à faltadeumalegislaçãoquedefinaseustermoselimites,aquestão dopodersuscitainteressantesdiscussões. Háantropólogosquetendemaressaltarosaspectosdeequi- líbrio,homogeneidadeeigualdadeque,aseuver,seriamcaracte- rísticasessenciaisdessassociedades.Assim,consideramquene- las,arigor,opodernãoseconcentranasmãosdeninguém,nem mesmodochefe.Aocontrário.Paraeles,oquemostraumbom desempenhodequalquerchefiaéexatamenteamanutençãoda pazpelaconciliaçãoquepromoveentregruposemdisputa,evi- tandoumacisãoquesempreenfraqueceoconjuntosocial.Sem poderdepolícia,ochefecompetenteéaquelequeserevelaexce- lentenegociador,conquistandooapoiodosindivíduosdemaior PODER E CHEFIA NA SOCIEDADE INDÍGENA José Sávio Leopoldi
  19. 19. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 22 prestígioparasuaspropostasebuscandosoluçõespalatáveisàs partesemlitígio,semqueninguémsesintairremediavelmentelesa- do. Outrosestudiosos,nãodiscordandodanaturezapacíficado trabalhodachefia,noentanto,percebemqueaposiçãodochefe indígenaserevestedeumpoderqueétãoeficaz,quantodissimu- lado.Afinal,oprestígioeacapacidadedeconvencer,necessaria- menteassociadosaopapeldochefe,podemoperarnosentidode facilitaratomadadeumadecisãoouoencaminhamentodeuma propostafavorávelaseusinteressespessoaisouaosdogrupoao qualestejamaisligado. Direitoàpoliginia Alémdisso,écomumobservar-sequeumdosprivilégiosdos chefeséapráticadapoliginia,ouseja,ocasamentocommaisde umamulher.Nessecaso,elesacabampossuindoumafamíliamai- ordoqueadosoutrosindígenas,oqueresultaemmaiorimpor- tânciaemaisnumerosasaliançascomoutrosgrupos,resultantes docasamentoentreseusfilhosefilhas. A força desse conjunto de indivíduos, próximo à chefia, indubitavelmentefortaleceasuaautoridade.Grandeparentelaem torno do chefe acrescenta, portanto, ao domínio de que ele já desfrutava,umpoderdefatoqueinapelavelmentesetraduzem forçapolítica,contaminandooexercíciodachefiaemtermosde isenção.Afinal,seugrupodeapoiotemsempreinteressesespecí- ficosereivindicaçõesquenãopodemserignorados,oquetorna evidenteadificuldadedodesenvolvimentodeumtrabalhocom- pletamenteindependenteeimparcial. José Sávio Leopoldi – Professor do Departamento de Antropologia da UFF, estudioso da sociedade e cultura indígenas, com tese e pes- quisas de campo sobre o tema. Doutorando em Antropologia Social pelaUSP.
  20. 20. PODER E POLÍTICA 23 Remotíssimaéanoçãodopoderdemocráticocomoresultado de aceitações recíprocas por parte dos governados. Platão, no Criton, menciona a Lei – e o poder que vem dela – como um quase-contrato. Entretanto,noséc.XVIII,Jean-JacquesRousseauéquemo caracterizacomoumContratoSocial:todos–hipoteticamente– entregampartedaliberdadeindividual,construindoavontade coletiva.Marx,jánoXIX,desvendouasligaçõeseconômicas dosjogosdopoderpolítico,marcandoadistância,ouoantago- nismoentreaforçadequemmandaeasnecessidadesdequem obedece. A atuação política, para os gregos do séc. V e IV aC., por exemplo,eraaparticipaçãopública,quandoopoder,afastando- se do palácio real, deslocou-se para praça, tornada espaço co- mumdebemadministrarapólis.Talpensamentopermitiudesven- darque,nadistânciaentreogovernanteeopovo,habitaadife- rençaentreescravoselivres.Dondeseinferequetodapolíticade dominação,parasejogarnotabuleirodoxadrezpolítico,precisa serdistante,arrogante,triunfante. Deveafetardesconhecerosreaisproblemas,mistificá-los,hu- milharosgovernadosedesqualificaropositores.Deveacenarpara mudanças,emboraelasnuncacheguem,sacrificandoumagera- ção por um futuro nem mesmo planejado. O resto é empenho popular,transitando“foradopoder”,malinformadoesempossi- bilidadedecomunicaçõesplenas. Nocasobrasileiro,ogoverno,comseusmesmoseconomistas epolíticosdeplantão,usandoamídiaqueescondeascriseseas causasdosproblemas,ficaexoneradodasculpas,dizendoser PODERES DISTANTES, ARROGANTES E TRIUNFANTES João Luiz Duboc Pinaud
  21. 21. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 24 mundialacrise.Etudosedissolveemdiscursos,simpáticosexer- cíciosdedemagogia(noexatosentidodeguiarenganosamenteo povo).Mas,relaçõeseconômicasdesiguaisacabam–cedoou tarde–condenando-nosàestagnaçãoeàmiséria. Nossa“dependência”,defendidanateoriaenapráticapelo atualpresidente,vemsendovelozeimpunementeagravadacoma entrega criminosa da riqueza nacional. Mas os entreguistas neoliberaisdehojesãotantos,contentes,arrogantes,triunfantes, governantes,quetaisqualificativossoamatécomoelogio. Enfim,éinútilconcentrarbaterianaspessoaseabsolveromodelo econômico, do qual elas são escravas. Ao cabo de contas, são apenaspessoasesóissoasaproximadosgovernadosmutilados, quenasceram,vivememorrerão.Desaparecerão,comotodos, naordemdascoisas,emborafiquedelasobemouodanocausa- dos. Fechemos,então,comosatuaisgregosdosséculosVeIV antesdeCristo:submeteràdeliberaçãoacondutaaserseguida significa“depositaroassuntonocentro”,ficando,assim,opoder partilhadocomogrupopresente,bempróximo,poisapraçaera oespaçopolítico.E,segundoafórmulaarcaica,oarautoconvida- va:“Quemquertrazeraocentroumaopiniãoprudenteparaasua cidade?”Emuitosedeviadiscutiredeliberar.Algumacoisacomo o votar em eleições próximas. Mas, imagine só, o arauto e os discutidoresnatelinhadatelevisãodeagora! Seráquevãocontinuartodossalvos,inocentados,referenda- dos,ospoderessorridentes,distantes,arrogantesetriunfantesneste jogodoxadrezpolítico? JoãoLuizDubocPinaud–Advogado,professordeDireitonaUFFe Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros.
  22. 22. PODER E POLÍTICA 25 Após30anos,omovimentoqueeclodiunomundonofinal dadécadade60rendeufrutos.Nãoexistemmaisascátedras,a ditadura,osexcedentesnosvestibulares...Poderíamosafirmar quetemosumasociedadejusta,igualitáriaedemocrática?A relaçãodeperguntaséinterminável.Sãoquestõesqueinquie- tam,porqueasrespostassuscitamoutrasnumareaçãoemca- deia,revelandoenganoseomissões. Recentemente,assistiaumaconferênciadeTeotôniodos Santossobredireitoshumanose,aotocarnocomportamento dosjovensdehoje,suaobservaçãofoi:háumflagrantedesinte- ressedosalunosquandooassuntoéarealidadesocialepolítica dasociedade.Porqueamarchadosvaloresindividualistasfru- tificoudeformatãocompetente? Apesardosaresdedemocracia,aúltimametadedoséculo tornaumperíodoespecial.SeaHistóriaéaexperiênciavivida, esteséculosecaracterizacomoumtempoemqueseproduziua barbárie.Estápresentenestalógicaonãoreconhecimentodo outroeodesrespeitoàdiferença. Sinaisdestacontradiçãosãoclaros,tantonocomportamen- toisoladodaspessoas,comonomovimentopolíticoquesees- truturanomundo,comespaçoparaoneofascismo. O fantasma do fascismo traz consigo uma forma de ver a vida apenas pela valorização da ciência e pela racionalidade tecnocrática.Oquepareciaserumexercíciodefuturólogosse apresentacomoverdadeirrefutável:vivemosemummundoad- ministrado,embaladopeloindividualismo,isolandooshomens. O PODER ESCONDIDO Léa da Cruz
  23. 23. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 26 Pensamentoúnico? Respeito à diferença e à solidariedade parecem coisa do passado. Agora,maisdoquenunca,nosvemosreduzidosàs verdadesúnicaseinexoráveis.Éocapitalismoouocapitalis- mo,aglobalizaçãoesóaglobalização.Emquesentidoaeduca- çãopoderiavincular-seaestepensamentoúnico? Existeumtraçoconservadornopresenteeentravesparase construirumaverdadeirademocracia.Naeducação,torna-se importante olhar as relações que se estabelecem no âmbito institucional.Espelhoscôncavoseconvexoscomimagensque convergemerefleteminterações,quetantopodemsignificarde- mocraciacomosubmissão. Eisporqueestánaordemdodiaaverdadeiraemancipação, aquelaquerompecomatendênciadeoshomensseassociarem apersonalidadesautoritárias,seguindo-ascomoalgomagnéti- co.Aeducaçãoassimpensadaécampodecrescimentonaver- dadeiraliberdadeenaemancipaçãoqueconstróiaidentidade. Háumalinhatênue,difícildeserpercebidaerespeitada.Por isso,esteéumespaçopararefletirsobretaisquestõesqueenvol- vemossubmissoseamedrontados.Talocorreeminstituiçõesque repetemadominação,substituindoaautoridadenaturaleautênti- cadosaberpeloautoritarismo.Éapseudo-liberdade. Valeapenarefletirsobreisso.Comcerteza,devehaveruma relaçãoentredemocraciaquepensamosvivernaeducaçãocom aqueexistenasociedade. LéadaCruz–ProfessoradoDepartamentodeFundamentosdaEduca- çãodaUFFedoutorandaemSociologianaUSP.
  24. 24. PODER E POLÍTICA 27 UmadastemáticasmaisdiscutidasnasCiênciasHumanas,sem dúvida,éadopoder.Tornou-seconsensualquenãohávidasocial semoexercícioeadistribuiçãodocomandopolítico.Sendoas- sim,associedadesegrupossociais–demaneiraformalouinfor- mal–seorganizampormeiodetalmecanismo. NocampodaCiênciaPolítica,ressalta-seoclássicoOPrín- cipe,deMaquiavel,onde,numainterpretaçãorealista,oautor demonstracomo,umaveznocomandopolítico,nelepermanecer. Amáximaparagarantirtalpermanênciaéjustificarosfinspelos meiosatravésderefinadaaçãoestratégica.Emboraaambiência histórica do autor italianos seja a de uma Itália fragmentada, renascentista,católicaenãodemocrática,suareflexãoémaisdo queatual. Emoutraperspectiva,AdemocracianaAmérica,deAlexis Tocqueville,retrataaemergenteedemocráticasociedadenor- te-americanadoséculoXIX,experiênciaúnicanaquelemomento históricodesteregimenoNovoMundo.OsEUAsãoumpaís quelegitimaopoder,tantopormeiodarepresentaçãopolíticae eleitoral,quantopelomecanismodaparticipaçãocivil.Naquela sociedade, a democracia é permanente e solidificada em um infindávelnúmerodeassociaçõesdetodanatureza. Deláimportaram-seosmodelosRepublicanoeFederativo, contudo,porherançanãodemocrática,obtivemosoutroresulta- do. A estratégia política brasileira emerge da rede de relações pessoaisenãopormeiodeumcidadãoimpessoalizado.Nossa identidadepolíticanãosefundaemumideárioparaquetodos partilhemdosdestinosdocorposocial. ELEIÇÃO E CIDADANIA NO BRASIL José Eduardo Pereira Filho
  25. 25. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 28 Poderdochefes NosEUA,oFederalismoresultounumarelativaautonomia dosgovernosecomunidadeslocais.NoBrasiltalprincípioteve comoconseqüênciaquasequeexclusivaodomínioterritoriale políticodoschefeslocais. Aqui,acidadaniaseexpressa,momentaneamente,porelei- çõesperiódicas.Entretanto,nemporissodevemosdeixardeapre- sentarnossasvisõesdemundo,atravésdoescrutínionasesferas federaleestadual,queoraseapresenta. Mas é necessário ter, sobretudo, em mente que, além de delegar poderes, temos o poder de agir e participar da esfera pública,fatoquedizrespeitoatodososmembrosdasociedade. José Eduardo Pereira Filho – Mestre em Ciência Política pelo Pro- gramadePós-GraduaçãoemAntropologiaeCiênciaPolíticadaUFF eprofessordaFaculdadedeBelfordRoxoedaFaculdadedeAdmi- nistração São José.
  26. 26. PODER E POLÍTICA 29 “Enquantooshomensexercemseuspodrespoderes”,que nos seja permitido sonhar com poderes maduros, na medida exatadadoçura. Poderseralguémomaispróximodagentemesmo,dosnos- sosescondidos,comdireitoamáscarasapenasparavivenciar fantasias.Equererbemaosirmãosemsuasdiferençasdepeles, sexos,gostos,idéias,crenças,sentimentos...Poderserchama- do e chamar o outro pelo nome próprio, nome comum, sem senhornemdoutornemprofessor,excelênciasapenaspelofato simplesdesenascergente.Nãoterpodersobreaspessoasnem estarsubmetidoaqualquerjugo:opoderosoencantododiálo- go, do olho no olho, das mãos dadas. Poder dizer sim e não, semqueomundoseacabe. Podersermeninotododia,omundoumeternobrinquedo, buscaroladodeládosmuros,afaceocultadaLua,olhossem limites,pelesemfronteiras,ouvidossemdivisas,línguaparasa- boreartodasaslínguas.Sentir-seumpoucobicho,planta,mine- ral,coisa,privardafraternidadecósmica.Podersentirocami- nho, os passos, o passar de tempo e espaço, o gozo de estar a metaemcadaaquieagora. Poderincluirnocurriculumvitae,ladoaladocomexperi- ênciaprofissionalecursosrealizados,otempodedicadoaodes- canso,aolazer,aoafeto,aoprazer,aoscuidadoscomocorpoe a alma, ao cultivo das plantas e outras formas de vida. Poder nãocompetir,nãotornar-sehomemdesucessooumulherobjeto detodososdesejos.Respeitarseuritmo,comporsuamelodia, semcronômetros,compassos,esquadros,moldes,modas,fôr- mas, peças de engrenagem ou manuais de auto-ajuda. Poder preservar normas e cânones por uma reverência à tradição e ATÉ NÃO PODER MAIS Lena Jesus Ponte
  27. 27. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 30 poderrompercomtodasasnormasecânonesporumamorao espanto,aonovo. Poder viver a arte, viver com arte. Nascer e morrer num fluxodepermanênciaerenovaçãocontínuas,mãosenlaçadas aos pais e aos filhos. Envelhecer tendo tesão pelas marcas e mudançasimpressasnocorpo,esselivrodehistóriasfantásti- cas.Sonhartodasasimpossibilidadesatéchegarodiadonão- podermaior,libertador,definitivo(?). LenaJesusPonte–DinamizadoradaOficinadaPalavraLuizSimões Jesus.
  28. 28. PODER E POLÍTICA 31 Há o poder da vontade e o da fé, o poder da arte enquanto manifestação do espírito e o poder das idéias. Há o poder da palavraeopoderdoexemplo,comoháodoamoreodamãe- Natureza:comesteoHomembrinca,desrespeita...daqueleanda umtantoesquecido!Contudo,aolongodatresloucadaaventura humananocorrerdosséculosoquemaisparecehaveréopo- derdohomemsobreoutroshomense,nosdiasatuais,valendo- sedeumaformidávelferramentasuplementar:ainformação. Sem dúvida,informaçãoépoder.Numa palavra:aselites quecontrolamainformaçãotambémcontrolam,porviadecon- seqüência,oarbítriosobreavidademilhõesemilhõesdeseres humanosnumalógicaalucinante.Osmétodosdecontroleda opiniãopúblicaatingiramtalníveldesofisticaçãoquepassaaser amplamentediscutívelopróprioconceitodedemocracia,vez queamanipulação,atendenciosidade,ocomprometimento,a barganha,tudoconspiranamãoenacontra-mãodeinteresses dosquaisjamaistomaremosconhecimento. Assim, entendo oportuna a citação do grande romancista MorrisWestemAfragilidadedossistemas,reflexãodaqual transcrevemosparte:“Cadaumdenósdeveassumirplenares- ponsabilidadepessoalnaadministraçãodasociedade.Nenhum de nós pode eximir-se dessa responsabilidade ou delegá-la à coletividadeanônima.Temosdecriarordememnósmesmose emnossomeio.Nãodevemoscriarumtiranoqueaimponha pornós.Devemosserjustospornósmesmo–justiçapessoal, justiçasocial–antesquereclamemosjustiçanosoutros. Temos de oferecer amor primeiro, ainda que o amor com quenosretribuamsejamenosqueoqueesperamos.Éesseo verdadeirocontratosocial,semoqualnenhumoutrocontrato OS MATIZES DO PODER Lauro Gomes de Araújo
  29. 29. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 32 podesubsistir.Devemosconsiderar-nosresponsáveis,pesso- almente responsáveis por tudo o que é feito em nosso nome pornossosrepresentanteseleitosoupelosfuncionáriospúbli- cospagoscomodinheirodosnossosimpostos.Devemospro- testarpessoalmentecontraalegislaçãoerradaeoserviçoinfi- el. Temosquereconhecerqueumadoençanoorganismopolíti- coéumadoençaemnossosorganismosequenoscabeodever decooperarpessoalmentenacura.Sehouverinvasãonosdirei- tos de outro, cada um de nós deve levantar-se para resistir à invasão.Quantomaioréocaso,quantomaiscomplexaéaques- tão, mais importante é ouvir a voz humana isolada acima do clamordodebatepartidário. Cadaumdenóstemodireitodeproporasuaorientaçãonas assembléias,dereunir-selivremente,dedecidirpelovotoda maioria. Cada um de nós tem o dever pessoal de proteger os direitosdaminoria.Cadaumdenóstemobrigaçãodetolerância ecompreensão,porqueDeususaumafacediferenteparacada homem,porquetodasasdefiniçõessãoinsuficientesequeimar umhomememnomedeumafórmulaéumatobárbaro. Cadaumdenósdeverespeitaralei.Cadaumdenósdeve lutarparamelhoraralei,sabendoqueelaésempremenosjusta, queétantoumaarmaquantoumescudoequesuasinjustiças podem impelir os homens à desordem e à violência. Não há códigocompleto;nãohálegislaçãoquenãopossasercontesta- da;nãodevehaverregulamentosquepossamdesprezaroseu objetivofundamental:dispensarjustiçanumacomunidadedeci- dadãoslivrescapazesdesedirigirem.Nãoéumsistemaquenos salvará.Somosnósmesmoquenossalvaremos,umporum,um aum,cadaumatodosetodosacadaum.” LauroGomesdeAraújo-Escritor,membrodaAssociaçãodePesquisado- resdeMPBedaAcademiaNiteroiensedeLetrasevice-presidenteda AABB/Niterói.
  30. 30. PODER E POLÍTICA 33 Umacoisaévocêlersobreoanarquismodoutrina,decunho utópico,fundadanaabsolutaliberdadedoindivíduo“semleinem rei”que,associadaaoutrosindivíduos,igualmentelivres,consti- tuiriauma“sociedadelivredepessoaslivres”.Segundooaxio- madeProudhon,fundadorfrancêsdomovimentoanarquista, “quemquerquesejaqueponhaasmãossobre mim,para me governar,éumusurpador,umtirano.Euodeclaromeuinimigo”. DeacordocomBakunine,oniilistarusso,“repudiamostoda legislação,todaautoridadeetodainfluênciaprivilegiada,paten- teada,oficialelegal,mesmooriundadosufrágiouniversal,con- vencidosdequeelajamaispoderáfuncionarsenãoemproveito deumaminoriadominanteeexploradoracontraosinteressesda imensamaioriasubmissa”.Proclamaoanarquismo:“NemDeus, nem senhor!” Ou, como na lenda do náufrago espanhol que, aportadoaumailha,teria,arfantemente,inquirido:“Haygovierno? Soycontra”.Outracoisa,muitooutra,évocêconhecerumver- dadeiroanarquista,emcarne,ossoerevolta. Dosmaioresprivilégiosquetenhotidoestá,indelevelmente, odeterconhecidoeconvividocomPedroPauloMussi,profes- sordaredesecundáriaestadualemMacaé-RJ.Aomeabordar, numbelíssimojardimmacaense,encontrava-mesentadonum banco,comumlivrosobreosjoelhos. Apresentando-se também como professor, de chofre me declarouterqueimadotodososseuslivros,guardandoapenas Os grandes escritos anarquistas, antologia organizada por GeorgeWoodcock.Comopodeumprofessorviversemlivros, indagava-meeudiantedetalgestodadaísta. ConvivendocomoPedroPaulo,fuientendendoeamando suaformadevida.Ex-mongebudista,tarólogo,comerciantede MEU ANARQUISTA FAVORITO Latuf Isaías Mucci
  31. 31. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 34 seboebrechó,artistaplástico,poetazen,empalhador,herborista –tudoexerceurevolucionariamenteecomarte...Atégrevede fomecontraogovernopraticouedistribuía,narodoviáriade Macaé,panfletoscontraapolíticadeeducação,panfletoscom crassoserrosdevernáculo,ocúmulodarevoltasintática.Atingi- donacabeçaquandodecovardeassalto,foihospitalizado,mas fugiu,preferindo,aos42anos,comoanunciou,“entregarseu corpoàterra”,numgestohumano,livrementehumano.Impossí- veldesenhar,em35linhas,oretratoanarquistadePedroPaulo Mussi,cujoíconeultrapassaameramoldurademinhaoceânica saudade. Latuf Isaías Mucci – Doutor em Poética (UFRJ), mestre em Teoria Literária(UFRJ),mestreemCiênciasSociais(UniversitéCatholique de Louvain – Bélgica), professor de Teoria da Arte na UFF, poeta e ensaísta.
  32. 32. PODER E POLÍTICA 35 Costuma-sedizerqueopreçodaliberdadeéaeternavigi- lância,masdevemosatentarqueháduasmodalidadesdevigi- lância:aqueseexercedentrodocírculodopodereaeleserve, e a que se exerce do lado de fora e permite contrastá-lo. O símbolodaprimeiraéoPanópticodeBentham*:noanelperifé- ricoseétotalmentevistosemnuncaver;natorrecentralvê-se tudosemnuncaservisto. Foiessetipodevigilânciaquesofreramoseuropeussobotacão nazistaeoslatino-americanossobasbotasmilitares.Hoje,navigên- ciadopoder“democrático”,ocontrolepolicialdasditadurastor- nou-seautocontroleintrojetado,suple-mentadopelamídiacomer- cial.PinóquiotomouolugardoPanóptico. Opapeldos“maquis”e“montoneros”dehojenãoéempu- nharmetralhadoras:éarmar-secomumpensamentocríticoque possa reinventar, para o século XXI, o conceito de liberdade socialemoposiçãoàditaduradopensamentoúnicoimposto peloneoliberalismo. PODER E VIGILÂNCIA “Mallarmé é uma metralhadora!” Viviane Forrester, em O horror econômico. José Lisboa Mendes Moreira *O Panóptico foi imaginado pela filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832)comomodeloidealparaprisõesehospícios.Éumaconstru- çãocircularcomumatorrenocentro.Oanelperiféricoédivididoemcelas que se estendem da parede externa até a torre. Cadacelatemduasjanelas:umaquepermiteaentradadaluzexterior e outra, colocada na torre, de onde um vigia pode controlar tudo que se passa na totalidade das celas. JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGerais daUFFeautordolivroSíndromedoprogresso.
  33. 33. PODER E POLÍTICA 37 Eram14horasdeumsábadonosjardinsdoPaláciodasLa- ranjeiras.Estavaeu,juntamentecomoutraspessoas,aguardando achegadadonossocandidatoaoSenado.Sentia-meaborrecido comoacúmulodecarrosque,estacionadoaoredordobelopré- dioneoclássico,desfiguravamoambiente,ecomasufocantees- taçãodoano:suávamosmuitoporcontadocalorcarioca. Nessemomento,eisquedespontapordebaixodaquelasolei- ra o nosso tão aguardado candidato. Vinha acompanhado por grandenúmerodeaguerridoscorreligionários,osquais,“cami- nhandoecantando”,bradavamorefrão:“Vivaogovernador!Viva ogovernador!” Naturalmente,aaltatemperatura,aindamaiselevadapeloar- dordamilitância,fezcomqueonossocandidatosesentisseterri- velmenteincomodadocomopaletóazul-marinhoquetrajava,o queolevouafazermençãodelivrar-sedele. Porém,nemmesmohaviaencaminhadoasmãosàgola,eis quesurgedomeiodosfeéricospartisansumindivíduoalto,ma- gro,quaseesquálidoeportadordeumprotuberantebigodemar- rom:“Podedizer,excelência,queeuajudo!”Aomesmotempo emqueseguravacommãostrêmulasopaletódojovempolítico, vociferavaentretorrentesdelágrimas:“Governador,meugover- nador!...” O“governador”continuouemmeioaoentusiasmocortêsem direçãoàescadariadopalácio,enquantoemsuaretaguardase instalava,impávido,oexultantecaboeleitoral,apertandodevota- mente o sóbrio paletó contra o peito. No semblante, o embevecimentodecarmelitadescalçaque,“prenhedoamordivi- no”,“viveemDeus”. Lembrei-mededuasmáximasdeShiroFujita,pensadorepoeta O PALETÓ DO GOVERNADOR Lula Basto
  34. 34. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 38 japonês:“Aausênciadacríticaedaautocríticafavoreceperver- sõesdepoder”.Eprofetizavaqueodelíriodoepelopoderleva inexoravelmenteao“empavonamento”. Aperversãoconsistiaemqueaqueleesfuzianteserviçal,assim como fora também “amaralista” e “chaguista”, agora se autoproclamavacaboeleitoraldo“governador”desdecriancinha. Aexecrávelfiguradofisiologismocomezinhopululoudescarada- mentediantedosmeusolhosatravésdomaisdesprezíveloportu- nismocalculado. Quanto à outra sentença, deixa-se perceber que o “empavonamento”trazemseuseioumdevanearmelancólico:é queenquantoacaudaseenfeitacomopaletó,ospéschafurdam nalamado“puxa-saquismo”. Ironicamente,porém,essamodalidadedegente,aindaquese esforceemaprimorarosseustruquezinhosbaratos,serásempre umserperifériconoâmbitodopoder.Pormaisquetentesealçar às“benesses”dessepoder,pormaisqueseesmerenessadireção, o retorno obtido jamais passará de migalhas, pois esse tipo de personalidaderastejanteaninguéminspiraconfiança.Crêem-se maquiavélicossujeitospredestinadosapolpudasfatiasdeum“bolo promissor,elaboramumabanalegrosseirafantasia,acreditando- sea“boladavez”. Mas,naverdade,nãopassamdedeploráveisobjetos,desem- penhandoaqualquerpreçoopapeldasubserviência. Obs.Jogodecinturademaisvirarebolado,jádiziaaminha comadreLiginha. Lula Basto – Músico, poeta e dramaturgo.
  35. 35. PODER E POLÍTICA 39 Aseleiçõesseaproximameoscandidatosestãoàprocurade eleitores.Naturalmente,elesrepetirãoosmesmosdiscursosefa- rãomilpromessas,aproveitando-sedamemóriafracadapopula- ção.Afimdeevitarqueunscarreiristasseelejamedepoisdeban- demparaoutrospartidos,depreferêncianabancadadamaioria governamental,algumasagremiaçõesestãoexigindotermodecom- promissodefidelidade.Geralmente,éabandapodrequemuda embuscadevantagens. Oscaboseleitorais,quetrabalhamparaeles,tambémdeveri- amseprecavercomumtermodecompromissoparacomseus companheirosdecampanha.Émuitocomumseelegeremede- poisnãodaremnem“banana”aosqueoajudaram. Paraquemjáparticipoudeumacampanhaeleitoralepresen- ciouseueleitosedeslumbrarcomoscargoscomissionadosde gabinete,sabecomoasituaçãoélamentável.Exemplodessefato équandoumvereadorchegaàCâmaraMunicipaledádecara comseuprimeirocontracheque,novalorlíquidodeR$3.200,00, comdireitoa20cargoscomissionadosemváriosníveisevalores. Aíentão,otalvereadoréprocuradopelosseuscompanheirosde campanhaparatrabalhar,pois,afinal,elenãofoieleitosozinhoe teveaajudadeváriaspessoas.Opolíticofisiológicocomeçaa dividirossaláriosentrefuncionáriosparaquepossaagradaragre- gos e troianos que, naturalmente, acabarão com apenas umas “merrequinhas”,vistoque,paraquemestavadesempregado,jáé algumacoisa.Aconteceque,nestecaso,ofuncionárionãopode reclamaroudenunciar,paranãocorreroriscodeperderoem- prego. Naverdade,ocaboeleitoralsóservemesmoparafazercam- panha,porquenahoradeserbeneficiadoganhaapenas“umcala CUIDADO COM OS PICARETAS Sérgio Caldieri
  36. 36. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 40 aboca”equesedêporsatisfeito.Sabe-se,porém,felizmente, quenemtodosospolíticosagemdessaforma.Algunssãohones- tosetratamseuscompanheirosdecampanhacomosereshuma- nosecommaisdignidade. Sérgio Caldieri – Jornalista.
  37. 37. PODER E POLÍTICA 41 Acríticaaosrepresentantesdopodersempreestevepresente noscontospopulares,fonteprimeiradaliteraturainfantil.Istoacon- teceriaporqueopovocriavataishistóriassobretudocomoestra- tégiaderesistênciacultural,meiodetransmissãodevaloresesa- beres.Nestescontos,gigantes,rainhasereisdespóticossãoder- rotados pelo herói, armado de coragem, astúcia e bondade ou porumaintervençãomágica,assinalandoqueháesperançapara aquelesquesofremsobodomíniodesenhorespoderososemal- vados. NoséculoXVII,LaFontaine–quenãoescreveuparacrian- ças–usouasfábulasparadenunciarosdescaminhosdasocieda- dehumanaeosabusosdosdetentoresdepoder e de força.As fábulasforamincorporadasàLiteraturaInfantil,eseuspersona- genssobapeledeanimaistornaram-separadigmas:oReiLeão estánocentrodopodereporissoébajuladopelacorte;araposa éocortesãoastucioso;otigre,ourso,olobosãoospoderosos que se valem da força bruta. Do outro lado do poder estão o asno,ocordeiroeaovelha,representandoospobres,honestose puros–asvítimasdopoder. Dandoumgrandesaltonotempo,chegamosaoBrasildosé- culo XX, mais precisamente à década de 70. Nesta época, a produçãoparacriançasviveumperíodobastantefecundo.Num contextodeviolentacensura,aproduçãoparaainfânciafoium meioderepresentarmetaforicamenteopoderedeexerceruma críticacontundenteaoestadoautoritário. JáqueaLiteraturaInfantilévistacomoumtipodetextomenor, engraçadinhoeinócuo,osresponsáveispelacensuranãopresta- ram muita atenção ao que estava sendo dito ali. O ciclo dos O PODER COMO PERSONAGEM NA LITERATURA INFANTIL Márcia Lisboa
  38. 38. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 42 reizinhosdeRuthRochaeaHistóriameioaocontráriodeAna MariaMachadosãoclássicosdestemomentoemque,engajada na luta contra-ideológica, a Literatura Infantil é muitas vezes panfletária. Alémdedenunciaroexercícioditatorialdopoder,aLiteratura Infantiltambémassumiuposiçõeslevantadasemmaiode68,na França.Assim,ostextosparacriançassãoporta-vozesdeuma novaéticaedenunciamaeducaçãopautadaporestereótiposse- xuais,oautoritarismonarelaçãoadulto-criança,asinjustiçasda sociedadedeclasseseopreconceitoracial–formaspluraisde exercíciodopoder. Márcia Lisboa – Especialista em Literatura Infantil e doutoranda emSemiologiapelaUFRJ.
  39. 39. PODER E POLÍTICA 43 Eraumartistasonhador:sonhavacomaglória,comafama, esperavacomansiedadeessediaque,tinhacerteza,chegaria. Pintava,diaenoite.Erasóoquesabiafazerefaziamuitobem, maserasempadrinho,sempistolão. Parecequechegousuaveznumaencomenda,aconfecção deumapinturacomoretratodopresidente,dopresidenteeleito –poreleiçãoindireta,diga-sedepassagem.Masaencomenda era urgente, era para o dia da posse: o presidente com traje soleneefaixapresidencial. Começousuaobra-prima.Pensounosvelhosmestres:pri- meiro,umprojetobemfeito;sódepoisaampliaçãodefinitivaeo acabamentorigoroso. Trabalhouintensamente.Buscoufotografiasdopresidente– nãopodiavê-loaovivo,estavanaEuropa–mostrouacolegas, tudo bem, o projeto pronto, o início da obra final. Uma tela encomendadaespecialmente,linhopuro,chassisdecedro,mão francesa,atelacomváriascamadasdegessoecola,camadas finas,secasnaverticale,porfim,umacamadadealvaiade.Tela branquinha,pedindotinta.Tintaestrangeira.Materialpara500 anos,comodiziaacolega... FoinaHistóriadaArte.EstudouTicianoeoutrosmestres. Tudomentalizado,trabalhocomeçadocommanchabemdiluída comoseuamigodeateliersemprefalava:“Primeiromanchara tela,pinturamuitorala,tintadissolvidacomterebintinaeumpouco deóleodelinhaçasecamaisrápido,nãotrinca,pinturadequa- lidade.” Veiooacabamento:umaperfeição.Todomundogostando. Sófaltavaafaixapresidencial,omaisfácil.Maisfácilnada.Co- meçouenadadefaixadarcerto,astintasseembolando,sujan- A FAIXA PRESIDENCIAL Jorge Picanço Siqueira
  40. 40. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 44 do. Seria a qualidade da tinta? Não adiantou nada, cada vez piorafaixa.Raspouecomeçououtra.Nada!Afaixanãoqueria encaixarnoretrato.Odiachegando,diadaposse.Davatempo, masafaixanãosaía. Veioavéspera.Usousecante,pintouduranteanoite,demanhã cedinhoentregariaotrabalhocomfaixaetudo.Muitaconcen- traçãoedesesperoaté.Oqueestariaacontecendo?Afaixanão davacerto. Nãodavaenãodeu...Iriasemfaixa mesmo,mas nãopoderiaser,tinhaquesercomfaixapresidencial.Exausto, nãodesmaiou.Otrabalhoprontosemfaixa,nodiadaposse... Demanhã,sótevetempodeligarorádioeouviranotícia:“O presidenteeleitonãotomouposse,adoeceu.Doençademorte. Oviceassumiu...” Oretrato–semfaixapresidencial–desapareceu.Oartista abandonouastintasparasempre... Jorge Picanço Siqueira – Escritor, poeta e presidente da Academia Brasileira de Literatura.
  41. 41. PODER E POLÍTICA 45 OcineastaitalianoRobertoRossellini,nofilmeAtomadado poder por Luiz XIV, mostra o ritual de investidura do Rei da Françacomossímbolosconcernentesàmonarquia.Oantropó- logoinglêsMaxGluckmannanalisaasformasdeencenaçãodo podernoimportanteensaioRituaisderebeliãonoSudesteda África,ondedemonstraqueaquelequeassumetambémsesub- mete,ritualisticamente,aossubalternosparaentãoassumirple- namentenodomíniopolítico.Maianowiski,autordoclássicoOs argonautasdoPacífico,contaqueentendeumelhorokula– processodetrocasrituaisentreostrobriandeses–aosedepa- rarnoMuseuBritânicocomasjóiasdaCoroaInglesa. Paraqueestasserviam?Paraqueasvestes,ocetroeaco- roadoReidaFrança?Porqueochefeafricanosesubmetiaao escárnioeàrevoltasimbólicadeseussúditos?Emverdade,a ascensãoeaposseexigemumcomplexosistemadeencenação, ondeossímbolosdopodersãocolocadosemcena.Opoderé públicoe,portanto,exigeque,publicamente,serepresente.Tudo aquiloquesejacapazdeindicarqueelevaiserexercidotemque condensar-seemummomentoousituaçãoquedefinaapassa- gemdeumestágioaoutroousuaafirmaçãooureafirmação. Todasassociedadeseossistemasdepoderdesenvolvemas maisvariadasformasdedramatização.Éprecisodizeremcerto momento–especialmentenasinvestiduras–quemotemeque oexerce.Porisso,aexigênciadosrituaiseamanipulaçãode instrumentossimbólicos,tornadoclarooprocesso.Éassimque podemosfalardeencenação,quandotestemunhamoscerimôni- asqueosacralizam. Oritualtemcomofunçãomostrarasuaexcepcionalidade.O reipodeinvocarsuaorigemdivina,ogovernantejurarperantea A ENCENAÇÃO DO PODER Isidoro Alves
  42. 42. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 46 Bíblia,ochefeiratéaumlocalsagrado,opontíficerecebero cajado e celebrar a missa onde, no final, obtém a obediente reverênciadeseuscardeais. Enfim,aencenaçãoobedeceaumaespéciedescriptimplí- cito,noqualtodososelementosdevemcomporumalinguagem compreensível,comsuagramáticaesuasemântica. Coroa,manto,fraque,cartola,faixas,cetros,cumprimentos, gestos de obediência, as festas, as recepções etc.., todos reú- nemalinguagemdeencenaçãoquedefineoâmbitoeasacralidade dopoder.Estenãoprecisasersimplesmenteexercido.Éneces- sárioquetambémsejaencenado,sejaumdramasocial. IsidoroAlves–DoutoremAntropologia,pesquisadordoCNPqedo MAST.
  43. 43. PODER E POLÍTICA 47 Bactériasfabricamsubstânciastóxicase,expelindo-asem seusnichosconquistados,tratamdegarantiroterritório.Árvo- resproduzemtoxinasemsuasraízesparaimpediroavançode outras, consideradas concorrentes no mesmo espaço. Já os mamíferosutilizamváriasformasemuitosrituaisparademarcar seulugar-no-mundo. Disputas corporais, gritos, xingamentos e outras práticas menosnobressãorecorrentes,quandosetratadefazervaleros direitosdaconquista.Mesmoaslongínquaseromânticasestre- lasdizem,travambatalhasferozes:valendo-sedesuaimensa densidade,curvamoespaçoparaengolirem-seumasàsoutras. Com os humanos poderia ser diferente? Não. Até porque nascemosdasestrelas.Inventamosrituais,cargos,hierarquias, deuses,estadosetodaumagamadeinstituiçõesparagovernar nossasexistênciasminguadaseatenderàvaidadedaquelesque, porneuroseoupormaldade,realizam-seemmandarsobreos demais.Poderpraquê?Dequeserveessaexternalidadegestada paraquealgunspudessembrincardegovernaravidaeavonta- demilhões? Nãohácomonãorecorreradoismísticos,umtaoístaeum cristão:ChuangTzueSãoJoãodaCruz.Oprimeiroconta-nos queoreiHsiuestavaapavorado,porqueouviraanotíciadeque ele,ChuangTzu,tramavaumgolpeparatomaropoder.Para prevenirtalcoisa,oreimandoucaçarChuangportodooterri- tórioematá-lo.ChuangTzu,sabendodanotícia,antecipou-see foiatéorei:“Carorei,vocêconheceahistóriadacorujaeda fênix?” “Não”,respondeuooutro.RetomouTzu:“Afênixéumaave nobre,quevoanasalturas;sópousaemalgumasárvoressagra- A CORUJA E A FÊNIX José Américo de Lacerda Júnior
  44. 44. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 48 das, alimenta-se de comidas nobres e respira o ar puro das montanhas.Certavez,umacoruja,todasujadeterra,comiaum ratomortonochão.Quandoolhouparaocéueviuafênixpas- sar,abraçoufortementeorato,commedodequeafênixpudes- seroubá-lo.Masesta,indiferente,seguiuseucaminho.Porque vocêpensa,corujavelha,quequeromeintoxicarnapodridão deseucargo?” SãoJoãodaCruz,apósmuitasperseguiçõeseprisões,con- seguiuagrandezadealmadeperdoarseusalgozeseaindafor- mularumamísticaquesuperaasimplesresignaçãodianteda vida.Éeleoautordeumafraselapidar:“Paraojusto,nãohá lei.”Sim,opoderseafirmasobrenóstodos,porqueperdemos, emalgumpontodavida,anoçãodojustoecolocamosemseu lugarofamosointeresseprópriodoliberalismo. Aí,vêmunsfilósofosinglesesefrancesesenosconvencem de que precisamos de um poder para reger nossa vida social, um Leviatã que nos impeça de nos tornarmos uns lobos dos outros.Puraficção!Lobosquesãolobosnãosecomemmutu- amente. Ao contrário, colaboram entre si para que a matilha sobreviva. Opoderexauriunossacapacidadedesermosinternamente justosebons.Destaforma,damo-nosodireitodepraticarmos delitos para que depois as leis nos julguem e, se formos aquinhoadosemdinheiro,nosabsolvam.ÉumÉdipomuitomal resolvido,esse... José Américo de Lacerda Júnior – Bacharel em Filosofia, mestre emEducaçãonaUFF.
  45. 45. PODER E POLÍTICA 49 O caldeirão da América Latina PARTE II
  46. 46. PODER E POLÍTICA 51 Não me convidem para essa festa Márcia Paraquett 53 Globalizaçãoeneoliberalismo:umademocraciaeconômico- social para a América Latina? Hiran Roedel 56 Convivendo com a seca Sérgio Carneiro 57 Que continente é este? Lívia de Freitas Reis 59 Osatuais“democratas” Valeriano Altoé 61 Sem perder a memória Ludmila Catela 63 É preciso dizer não! Rivo Gianini 65 AdependênciadamulhernaAméricaLatina Philomena Gebran 67 Sobre caldeirões, bruxas e livros Márcia Lisbôa Costa de Oliveira 69 Índice da Parte II
  47. 47. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 52 Alca:contrafaçãodeumideal José Lisboa Mendes Moreira 71 DiscriminaçãodaArtelatino-americana Adílson Figueiredo 73 Afinal,atéquando? Rubim Santos Leão de Aquino 75 AArgentina:umapossívelmudançapolítica Fernando Antônio da Costa Vieira 77 TeologiamadeinAméricaLatina Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva 79 A Aliança da Europa com a América Latina Marcelo Ossandon 81 Cantigasdeninar:traçosdeumaidentidadecultural Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento 85
  48. 48. PODER E POLÍTICA 53 Entraremosnoano2000com500anos.ARedeGlobonão nos deixa esquecer que, desde 1500, somos uma nação. Mas seráquesomosmesmo?Cadavezqueo“plim-plim”medesperta paraessarealidade,ficorefletindosobrenossopaísetodosos outrosqueconstituemaAméricaLatina.Etenhoconcluídoque nãohámotivosparafesta. Apenasparacomeçar,éprecisoquenoslembremosdeque ospovosqueconstituemnossocontinentenãochegaramaquino anoemqueoseuropeusnosdescobriram.Jáhaviamuitapopula- çãoporessasterra.SónoBrasilhaviaumagrandequantidadede tribosdistribuídasemdiferentesregiões,cadaumacomseuspró- prioscostumes.NaáreaconhecidahojecomoAméricaCentrale México,concentravam-secivilizaçõestãoprogressistasqueos espanhóis,maisconquistadosquedescobridores,trataramdeinau- guraradisseminação. Aliás,parecequeessatarefa,tãobeminiciadapelosnossos avóseuropeus,integrou-sedetalmaneiraemnossoshábitosque, atéhoje,matarindígenaéesportepreferidodealgunsguerreiros frustrados.Noanopassado,tivemosqueconvivercomasduras imagensdaquelepataxóqueimadovivoemBrasília.Afinal,aquele trapohumanoqueseprotegiacomfolhasdejornalserviuperfeita- menteparadistrairalgunsjovensdaclassemédia,aborrecidos comamesmicedatelevisãoecomafaltadeprojetossociaisque osenvolvam,convocando-osaseremcidadãos. Fazpoucotempotambémque,emChiapas,suldoMéxico, umagrandepopulaçãoindígenafoimassacradaemnomedodi- reitoàterra.Aquelesinvasores,segundoaopiniãodoexército, precisaramserexpulsosàmorteparaqueseaprendessemalição NÃO ME CONVIDEM PARA ESSA FESTA Márcia Paraquett
  49. 49. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 54 dequeaterranãoéparasertomada,massimconquistada. Deixemosdebrincadeiraepensemossério.Falaremcome- moraçãodos500anosdenossopaísedeoutrostãooprimidos comooBrasildeveserfaltadoquefazer,ounecessidadedetam- paroSolcomapeneira.Bastadarumaolhadinhanascarasde nossos“sem-terra”paradescobrirnelesorestinhodostraçosin- dígenas em suas peles e olhos. Não é por coincidência que os conflitossedãoaoNortedopaís.Nãoeraláqueseconcentrava omaiornúmerodeindígenasantesdachegadadoseuropeus? Suasterrasforaminvadidaspelagrande“civilização”européiado séculoXVIe,hoje,nãolhesrestaoutracoisasenãodesaparece- remparanãomacularemumaimagemque,atodocusto,sequer manter Porfavor,nãomeconvidemparaessafesta! MárciaParaquett–DoutoraemLiteraturasHispânicaspelaUSPe professoradeLínguaeLiteraturaEspanholanaUFF.
  50. 50. PODER E POLÍTICA 55 AAméricaLatinachega,nestefinaldeséculo,semresolver problemasbásicosdesuapopulação.Asprecáriascondiçõesde saúde,educação,moradia,empregoesaneamentocontinuamna ordem do dia. No plano internacional, a submissão ao grande capitalpermanececadavezmaisforte. Dessemodo,globalizaçãoeneoliberalismosãoapresentados como solução consensual pelas elites. O primeiro refere-se à integraçãoeconômicainternacionalsustentada,emgrandeparte, pelainfra-estruturatecnológicaquepermitiuagradativadiminui- çãodastarifasdecomunicaçãoetransporte.Logo,tantoaprodu- çãotempodidoseorganizaremcadeiasprodutivasglobais,quan- toosistemafinanceirotemestabelecidoumaintegraçãotambém emâmbitoglobal.Jáosegundorelaciona-seaodiscursopolítico quelançaasdiretrizesparatalintegraçãosustentadopelatesedo Estadomínimo. Apesar do discurso neoliberal e do processo objetivo da globalização,issonãonospermiteaindaabandonaroconceitode paísescentrais,poisasprincipaisatividadeseconômicasetécni- co-científicoscontinuamsobcontroledessespaísescentrais,tais comoEUA,Alemanha,Inglaterra,FrançaeJapão,principalmen- te.Comisso,odiscursoneoliberaldedesestatização,desregulação, flexibilizaçãodotrabalho,reduçãodocustodaprodução,arrocho salarialetc.constituiimportantepilardesustentaçãoparaafirma- çãodonovomodeloespoliativodeintegraçãoqueseforma. Assim,diantedaexclusãodeparcelaconsideráveldapopula- çãodasbenessesdodesenvolvimentotécnico-científico,ogrande capitalinternacionalavançasobreosmercadosdospaísesperifé- GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO: UMA DEMOCRACIA ECONÔMICO-SOCIAL PARA A AMÉRICA LATINA? Hiran Roedel
  51. 51. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 56 ricos.Nessecaso,contraditoriamenteaodiscurso,oEstadodes- sespaísesmostra-seimprescindívelparagarantiraimplantação depolíticasqueasseguremasvantagensparaocapital,poiseste continuaextremamenteterritorializadonospaísescentrais. Comisso,aseliteslatino-americanasvêmimpondoàpopula- çãodessecontinente,atravésdo“cantodassereias”depossível melhoriadosníveisdevida,enormessacrifícios.Apolíticaadotada de“queimatotal”dopatrimôniopúblicotempermitidooacesso docapitalinternacionalasetoresestratégicosdaeconomia,bem comolevadoaoaumentodaconcentraçãoderendaseaoconse- qüenteempobrecimentodorestantedapopulação.Semcontar queosrecursosobtidoscomasvendassãoutilizadosparasusten- tartalpolítica,emdetrimentodosgastoscomaáreasocial. Essessintomaspodemserpercebidosnospaíseslatino-ame- ricanosmaisimportanteseconomicamente–México,Chile,Ar- gentinaeBrasil–cujaadequaçãoaosditamesneoliberaisseen- contraemcurso,agravandoaindamaisamisériaestruturaldo continente,sustentadapelaaliançaincondicionaldesuaelitecom ograndecapitalinternacionalespoliativo. HiranRoedel–DoutorandoemComunicaçãonaUFRJeprofessor doCentroUniversitárioMoacyrBastos.
  52. 52. PODER E POLÍTICA 57 Os problemas da América Latina já são conhecidos e al- guns,inevitáveis,comoéocasodasecanoNordestebrasileiro. Mas, apesar de ser um fenômeno natural, os homens podem utilizaratecnologiaparapermitirqueosertanejoconvivacoma agudaescassezdeágua. Agoraogovernoprometeatenderemergencialmenteàme- tadedapopulaçãonordestinacommedidaspaliativas.Nãopode dizerquenãofoialertadoporparlamentares,pelaimprensa,por setoresorganizadosdasociedadeeatémesmopelasmodernas imagensdesatélite.Averdadeéqueasecaseassemelhaauma guerraquedizimapessoasdeformalentaegradual,transfor- mandohomensemulheresemsaqueadores,migrantesemdireção àsgrandescidades,acabandocomaesperançadasgerações. OsburocratasdeBrasíliasóconhecemasecapelasestatís- ticas. Já sabem que são 9,6 milhões de pessoas atingidas, ou 21,44%dapopulaçãonordestina.SabemqueaBahiaéoesta- do com maior número de flagelados: 3.421.539, seguido do Ceará,com1.397.000,Pernambucocom1.371.421,Paraíba com 890.250, Piauí com 842.539, Alagoas com 489.650 e Sergipecom140.000.Masedaí? Na seca de 1993, o número de flagelados foi de 11,9 mi- lhões.Eoquefizeramdeláparacá?Idéiaseprojetosnãofal- tam,masosrecursossãomalempregados.Agoramesmo,anun- ciamaaplicaçãodeR$180milhõesparaofornecimentodeces- tas básicas, a construção de açudes e frentes de trabalho. O BancoMundialassinarácontratocomogovernobrasileiropara financiarmetadedosUS$330milhõesparaoitoobrasdecom- bateàsecanordestina. O problema é que a seca não se combate. É preciso criar CONVIVENDO COM A SECA Sérgio Carneiro
  53. 53. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 58 condiçõesdeconvivênciadosertanejocomela.Precisamosde obrasperenes,damaximizaçãodosrecursoshídricosdaregião, dousodaságuassubterrâneasedoempregodatecnologiada dessalinização,porexemplo. Sóparaficarcomestesdoisúltimositens,citareidadosda CompanhiadePesquisaeRecursosMineraisqueestimamem 110trilhõesdemetroscúbicosdeáguaopotencialsubterrâneo doNordeste,oquedáparaabasteceros42milhões,387mile 328habitantesdetodooNordestedurantecincoanos,enãosó os17milhõese854milqueresidemnaquelesemi-árido. Quantoaosdessalinizadores,aocustodeR$10milaunida- de,poderiamresgatarodinheirodocontribuintegastoemaber- turademaisde20milpoços,hojetamponadoseinativosnos noveEstadosdoNordesteporteremproduzidoáguasalobra. R$10milvezes20milpoçosdariamR$200milhõesque,divi- didos por quatro anos de governo, resultariam em R$ 50 mi- lhões/ano.Achamuito? Sobreaimportânciadadessalinizaçãodaságuasnotocante àsaúde,aoturismo,àagriculturafamiliar,àirrigação,aomeio ambiente,àmelhoriadaqualidadedevida,realizamosSeminá- rioInternacionalnoúltimodiaseisdemaio,naCâmaradosDe- putados,emBrasília. SérgioCarneiro–Ex-deputadofederalpelaBahiaeex-vice-líderdo PDTnaCâmara. Nota: Texto escrito em abril de 1998, quando o autor ainda era depu- tado federal.
  54. 54. PODER E POLÍTICA 59 Estranhocontinenteestenosso.Suahistóriaémarcadapela constantepresençadeditadoresemdiferentesépocasepaíses. Aliteratura–reflexodasociedade–sempreexpressouestetica- menteestamarcaque,infelizmente,fazpartedolegadocultural comprofundasraízesnavidaenahistóriadetodoocontinente. Pensarocaudilhismonahistóriaounaliteraturalatino-ameri- cananãoéapenasabrirasgavetasdamemóriaelembraroque sequeresquecer:asditadurasmilitaresque,pordécadas,con- trolaram,muitasvezescomviolência,avidapolíticaemdiversos países. Oautoritarismoaquemerefiroseinstalanocernedetodas as relações sociais desde o tempo da conquista e do conse- qüenteesmagamentodascultuasautóctones,subjugandovalo- resculturaisereligiososemnomedeoutrosquelhespertenciam. Alínguaeareligiãoforamosprincipaisagentesautoritários emnossahistória.Semfalaraindadasrelaçãoentreosdonosde terrasoudosmeiosdeprodução,pequenoscaudilhosquede- têmopoderincontestesobreossubordinadosnasrelaçõesde trabalho. Asditadurassãoapenasapontamaisvisíveldoicebergdas relaçõessociaisquegovernaramamaioriadospaíseslatino- americanosdesdetemposimemoriais.Comodiziaoescritor peruanoMarioVargasLlosa,“aseqüênciaderegimestotalitári- osnocontinenteacabouinfluenciandoaliteratura...Doponto devistadocumental,aliteraturalatino-americanaéomelhorins- trumentoquetemosparaestudarahistóriadabrutalidadeeda violênciaemnossocontinente.” Aliteraturaeasartes,emgeral,sãovigorosasexpressões dospovos.Assim,ahispano-americanaebrasileirasãoexem- QUE CONTINENTE É ESTE? Lívia de Freitas Reis
  55. 55. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 60 plosdestaafirmação.Sãotantasasobrasquenemsequerpo- deríamoslistá-las,menosaindaanalisá-las. Ficam,noentanto,algumasdicasdeleituraparaosqueainda tentamentenderestenossoestranhocontinente:OSenhorPre- sidente,deMiguelÁngelAstúrias; CemanosdesolidãoeO general em seu labirinto de Gabriel García Márquez; Eu, o supremo,deAugustoRoaBastos;SãoBernardo,deGraciliano Ramos,Ahoradosruminantes,deJ.J.Veiga,emuitosmais. Lívia de Freitas Reis – Doutora em Letras Hispânicas pela USP, professoradeEspanholeLiteraturaHispano-AmericanadaUFF.
  56. 56. PODER E POLÍTICA 61 No mundo político de hoje, em grande parte dos Estados latino-americanosestá-seobservandoumfenômenointeressan- te.Trata-seda“democratização”demilitaresqueatébempou- cotempoeramfavoráveisoumesmoparticiparamativamente degolpescontraasinstituiçõescivis.Venezuela,Colômbia,Bo- líviaeParaguaisãoexemplos.Neles,ex-golpistasestão-seapre- sentandocandidatospresidenciais.Sãoosnovos“democratas”. Desdesuaemancipação,aAméricaLatina,emgeral,contou comumapresençamilitaratuanteedecisiva.Amilitarizaçãode suas instituições deveu-se muito à instabilidade política e econômica após a independência. Os generais idealistas das guerrasdeindependênciaforamsubstituídosnopoderporam- biciosasgeraçõesmilitarizadas.AolongodoséculoXIXfor- mou-seummilitarismoqueseligouàelitecivil.Estauniãocons- tituiuelementomaisdinâmicoepersistentequeosdebatespar- lamentares. Apartirdadécadade1960aparticipaçãomilitarnosdesti- nosdealgunspaíseslatino-americanosdeu-seatravésdegolpes militarescontraopodercivil.Brasil(1964),seguidopelaArgen- tina,Uruguai,Paraguai,PerueChile.EsteeoUruguaihaviam gozado, antes dos golpes, de democracias sociais e políticas amplaseeramchamadosde“SuíçadaAméricaLatina”. Adeposição,noChile,dogovernosocialistadeSalvador Allendeconstituiumcasosingular.Osmilitares,lideradospelo generalPinochet,tiveramoapoiodaDemocraciaCristãede outrasfacçõesdireitistas.Alémdeterinstauradoomaisviolento regime,foitambémoúltimoadeixaropodernoConeSul.Ape- nasem1990,PatrícioAlwynassumiuapresidência,dandoiní- cioàinstitucionalizaçãodopaís.Apesardisso,a“democracia” OS ATUAIS “DEMOCRATAS” Valeriano Altoé
  57. 57. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 62 chilenacontinuousendotuteladapelasForçasArmadas,lidera- dasporPinochet. Em geral, os países da América do Sul saíram do regime militarostensivosobduasimportantestutelas:adocapitalfinan- ceironacionaleinternacional,principalmente;eadasForças Armadas.NoBrasil,atutelamilitarobserva-senofimdaisonomia entre civis e não-civis. Criou-se, assim, uma casta especial e privilegiadaacimadequalquercidadãocomum.Jáemoutros paísesdoConeSulobserva-sequemilitaresex-golpistasestão buscandoopoderpela“viademocrática”.NaVenezuela,oco- ronelHugoChaves,queem1992tentouderrubarCarlosAndres Peres;naBolívia,ogeneralHaroldBedoya,enoParaguai,o generalLinoOviedosurgemcomofavoritosnaseleiçõespresi- denciais. AsituaçãomaisintriganteéadoChile.Ogal.Pinochet,a13 demarçoúltimo,fezseujuramentocomosenadorvitalíciope- ranteoParlamento.Opresidente,EduardoFrei,diantedaopo- siçãodaincorporaçãodomilitarnavida“democrática”,pediu: “Temosquecuidardoquejáconseguimos.” OmilitarismopresentenaAméricaLatinadesdesuainde- pendênciaparecequerercontinuarinfluindonosdestinosdos países,masdeumaformamaisdiscretaemenosrejeitadainter- nacionalmente:pela“viademocrática”. ValerianoAltoé–DoutoremHistóriaSocialpelaUFFeprofessorda Universidade Veiga de Almeida e do Centro Universitário Moacyr Bastos.
  58. 58. PODER E POLÍTICA 63 PorqueolegadodasditadurasmilitaresnospaísesdoCone Sul sempre retorna como pesada herança? Essas ditaduras se caracterizam,emmaioroumenorescala,pelatortura,detenções clandestinasedesaparecimentodepessoas.Quandochegaram aofim,osmilitarestinhamumproblema:proteger-sedainvestiga- çãodasviolaçõesaosdireitoshumanose,paratanto,ditaramsuas própriasleisdeanistia. Emagostode1979,nogovernodeFigueiredo,aLei6.682 “perdoava”osatosdeexceçãocometidosdesde1964noBrasil. Talanistiaincluíanãosómilitares,mastambémpresospolíticos exilados.Nototal,beneficioucercade5.000pessoas.Emsetem- brode1983,osmilitaresargentinoscriaramsuapróprialeide auto-anistia, mas a chegada do novo governo a revogou. Mas tarde,contudo,oGovernoAlfonsinoutorgariaasleisdePonto FinaleObediênciaDevida,beneficiandomaisde1.500oficiais. NoChile,decretodeabrilde1978beneficiouosresponsáveis pelaviolaçãodosdireitoshumanosqueatuaramentre11dese- tembro de 1973 (data do golpe) até abril de 1978. Em 1986, o UruguaicriouaLeideCaducidadedaPretensãoPunitivadoEs- tado.ParaguaieBolívia,apesardehaveremtidolongasditaduras, sãoosdoisúnicosdoConeSul,ondenãoforamsancionadasleis desteteor. Dentrodosconsensospolíticosnegociadoscomoretornodas democracias,asleisdeanistiaobjetivamcontribuirparaareconci- liaçãoepacificaçãonacionais.Naprática,impuseramumsilêncio difícildeseraceito.Asferidasnãoestãofechadas.Porissomes- mo,estassociedadesreagem,dasformasmaisdiversas,manifes- tando-secontraaimpunidade.Osdiretamenteatingidopelosanos dechumbo(ex-presospolíticos,familiaresdasvítimasetc.)não SEM PERDER A MEMÓRIA LudmilaCatela
  59. 59. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 64 paramdereclamarojulgamentodestesmilitares. OEstado,asociedadecomoumtododeveriamanalisarcomo acharoequilíbrioentreanecessidadedeverdadehistóricaeuma ordemjurídicaqueconsolideaordemconstitucional,semesque- ceropassado.OsEstadosdospaísesdoConeSuloptaram,em maioroumenormedida,peloperdãoaosculpáveis,semobterem trocaaquilodequeasociedadeprecisava:informaçãosobreos anosdeobscurantismopolítico,arrependimentodosculpáveis, ressarcimentoàsvítimas. Averdadeeajustiça,pormaisdolorosasquesejam,sãoos únicosmeioslegítimosquepermitiriamàssociedadesenterrarseus mortoseanalisaropassadosemperderamemória. Ludmila Catela – Doutoranda do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais(PPGD)daUFRJ.
  60. 60. PODER E POLÍTICA 65 AvisãoantropológicadeDarcyRibeirocaracterizaopro- cessocivilizatóriodasAméricasemtrêsestágios:osPovosTes- temunhos,sobreviventesdasantigasculturasamericanasquese chocaramcomosconquistadoreseuropeus;osPovosNovos, resultantesdamiscigenaçãoedaaculturaçãooperadasnocon- tinente,eosPovosTransplantados,categoriaemqueseincluem oscontingenteshumanosformadosatravésdamigraçãoeuro- péiaparaajovemAmérica,ondeconservaraminstituiçõese estilosdevidadoVelhoMundo. NoconsagradolivroAméricaLatina-Malesdeorigem, ManoelBonfimestabeleceasdiferençasdaformaçãodaAmé- ricadoNorteedaAméricaLatina.Emrealidade,taisdiferen- ças,querepresentamnossasdificuldadesdedesenvolvimento, nãoresultamdeumaintegraçãoincompletanacivilizaçãoindus- trial,massimdofatodesermossustentáculosdessesistema, quenosexpeledeseucentro,consentindoquegravitemosape- nasnaórbitacomoeconomiascomplementareseculturasrefle- xas. Apesardetermosmelhoradomuitonoplanodemocrático nosúltimosanos,aindapersistemproblemascomoodaVenezuela que,apóslongoperíododeconsolidaçãodemocrática,estápres- tes a eleger um militar que quase conseguiu dar um golpe de estado.NaColômbia,onarcotráficoeaguerrilhasãomotivos deapreensão.NoPeru,Fujimorimantém-senopoderenoChile vive-seumademocraciaconsentidapelosmilitares. SomadasaestasquestõestemosoproblemadoMercosul queseconstituinoesboçodeumpromissorblocoeconômico dospaíses,sobretudodoConeSul,ondeoBrasilindiscutivel- menteassumealiderança,ameaçado,maisumavez,pelafor- É PRECISO DIZER NÃO! Rivo Gianini
  61. 61. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 66 maçãodaAlcasobopoderionorte-americano. É necessário dizermos NÃO, como sugere Eduardo Galeano,atodaestapolíticadeirracionalidadeeconômicade- nominadaneoliberalismo,impostapelospaíseshegemônicos,que penalizamospovoslatino-americanos,ebuscarmosnossaiden- tidadevocacionadapelosideaisdesoberaniaeliberdade. RivoGianini–Prof.-adjuntodaUFFedepós-graduaçãodaUCP.Presi- dentedoComitêdaAliançaFrancesadeNiterói,Diretorregionalda AssociaçãoNacionaldePolíticaeAdministraçãodaEducaçãoeSubse- cretárioMunicipaldeDesenvolvimentodeNiterói.
  62. 62. PODER E POLÍTICA 67 Ahistóriadamulherlatino-americanaestáprofundamente comprometidacomaprópriahistóriadedominaçãodaAmérica Latina.ApartirdoséculoXVI,avidadamulherlatino-america- na mescla-se a um longo processo histórico, cuja marca é a violência,aopressão,adominaçãoe,finalmente,aexclusão. Comoemtodasociedadeexploradaecolonizada,aneces- sidadedaproduçãodeumexcedentelevouinicialmenteosiste- macolonialedepoisocapitalistanãosóaescravizaramassa nativa,deumaformamaisgeral,maspermitiuametrópolea exercersobresuasáreasdominadasumasuperexploraçãotam- bémdamão-de-obrafeminina.Exploraçãoessarealizadaatra- vésdaprópriahierarquiacriadapelosistemacolonial. Aolongodoprocessocolonial,asmulhereslatino-america- nas,pertencentesentãoàssociedadesnativas,sofreramuma brutaldominação,subjugadasaoseuropeuscolonizadores.De- pois,nosistemacapitalista,passaramasofrer,nocampo,por exemplo,asubjugaçãoaopai,aomaridoeatémesmoaosfi- lhos.Amulherurbanaoperáriaoudaclassemédiafoiecontinua sendovítimadamesmaexploração. Hoje,nafábrica,naempresa,noescritório,nocomércioou emqualqueroutrotipodetrabalho,elacontinuasendoexplora- daatravésdesaláriosreduzidosedecondiçõesdetrabalhosem- preinferiores.Istoporqueasociedade,deummodogeral,parte do pressuposto de que é ou deve ser sempre sustentada por alguém.Nestesentido,amulhersofreváriasformasdeexplora- ção,desdeadopatrãoatéadomaridoefilhos,devendocum- priresuportarsempreumaduplajornadadetrabalho.Essasitu- açãotemsidoconstanteaolongodaHistória.Acreditamosque A DEPENDÊNCIA DA MULHER NA AMÉRICA LATINA PhilomenaGebran
  63. 63. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 68 desdequeseinstalouosistemapatriarcalenaAméricaapartir dosistemacolonial. Se,nassociedadesagráriase/oupré-capitalistas,haviauma divisãomaisigualitáriadotrabalhoemuitasvezesatédopoder, nassociedadesposterioresocidentaise/oucapitalistas,asmu- lheresforamcompletamenteafastadosdoscentrosdedecisão do poder, ou seja, daqueles em que se trata efetivamente do presenteedofuturodahumanidade. Amulherfoietemsidodiscriminadaemarginalizadapelo olharmasculinodaHistória.Parasermosimparciais,podemos atéreconhecerquehouveouqueháalgunsmomentosemquea situaçãodamulherfoimelhoroupior,mas,enquantogruposo- cial,semprefoimantidadistantedopoderemtodasasinstânci- as,desdeoséculoXVIatéoXX.Esealgumasvezesnodecor- rerdoprocessohistóricolatino-americanoamulherexerceual- gumpoder,foiocupandoasmargensoudeformaindiretaatra- vésdesuainfluênciasobreoshomensouquandoelespermiti- ram. PhilomenaGebran–DoutoraemHistóriadaAméricaLatinaepro- fessora da UFRJ e da USS.
  64. 64. PODER E POLÍTICA 69 Numcaldeirãocultural,borbulhamemisturam-seimagens, contos,cantosetradições.Istodeveriaacontecernocampoda produçãoeditorialparacrianças,masnemmesmoasbruxasda LiteraturaInfantilforamcapazesdejuntarnummesmocaldeirão oBrasileaAméricaEspanhola. EnquantoaLiteraturaInfanto-Juvenilbrasileiraalcançaboa receptividadenomercadolatino-americano,noBrasilsãopou- cas as traduções de textos hispano-americanos. Além de MonteiroLobato,todososprincipaisautoresbrasileiroscon- temporâneostêmsuaobraeditadaemespanhol,deLygiaBojunga Nunes,AnaMariaMachadoeRuthRochaaRogérioAndrade BarbosaeCiçaFittipaldi,passandoporMaryeEliardoFrança, ZiraldoeFernandaLopesdeAlmeida. UmsintomadoisolamentobrasileiroéofatodequeMaria HelenaWaish,aprincipalautoraargentinadecontosemúsicas paracriançasdeimportânciacomparávelàqueLobatotempara nós,nuncafoipublicadaaqui.Nestecontexto,destacam-seal- gumasiniciativasquerompemabarreiralingüístico-cultural.A editora Ática desenvolve em co-edicão com outros países a coleçãoContoslatino-americanos,queobjetivapromovero intercâmbiocultural,agrupandocontosdeautoresdediferentes nacionalidades.Tambémacoleção Cantolatino-americano, daeditoraAutores&Agentes&Associados,pretendetrazer às crianças brasileiras o “contato com o belíssimo mundo da línguaespanhola,proporcionandoumarealintegraçãoentreos paíseslatino-americanos”.Asediçõesbilíngüespermitemqueo leitordeleite-secomamusicalidadeoriginaldostextos. Seguindoocaminhodestascoleções,apublicaçãodeauto- resdedestaquenaAméricaLatinarepresentariaconsiderável SOBRE CALDEIRÕES, BRUXAS E LIVROS Márcia Lisbôa Costa de Oliveira
  65. 65. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 70 ampliaçãodehorizontesculturaisparaascriançasejovensbra- sileiros.Asnovasgeraçõesmuitolucrariamcomtextosquere- presentamumimagináriotãoricoediverso. Quevenham“lasbrujas”! P.S.:Algumasinformaçõescontidasnesteartigoadvieramda ProfªLauraSandroni,citandopesquisadaFundaçãoNacional doLivroInfantileJuvenil. MárciaLisbôaCostadeOliveira–EspecialistaemLiteraturaInfan- tiledoutorandaemSemiologiapelaUFRJ.
  66. 66. PODER E POLÍTICA 71 AoproporarealizaçãodoCongressodoPanamá,em1825, osonhodeBolívareraunirtodosospaíseshispano-americanos. Maistarde,vencidaadesconfiançacomqueencaravaamonar- quiabrasileira,incluiuoBrasilnumsonhomaior:aintegraçãode todaaAméricaLatina.Oqueelerealmentenuncaadmitiufoia uniãocomosEstadosUnidos,eporumarazãomuitosimples:não seria uma união em termos igualitários e sem propósitos hegemônicos. FoiessemesmomotivoquelevouoadvogadoNoronhaGoyos, árbitrodaOrganizaçãoMundialdoComércioeex-representante dogovernobrasileironaRodadaUruguaidoGatt,adeclarar,no EncontroSul-AmericanodeRelaçõesInternacionais,realizadono PalácioItamaraty,noRiodeJaneiro,nofinalde97,queaadesão doBrasilàAlca“seriaumpéssimonegócioparaonossopaís”. Osetordeserviços,segundoGoyos,seriaomaisprejudica- do.Parailustrarsuaanálise,usouaimagemdeumarodadebici- cleta:osEUAseriamocentrodarodaeosraios,ospaísesque aderissemàAlca.Estesdeixariamdenegociarentresietratariam detudodiretamentecomocentro,ondeserealizariamosnegóci- osbancárioseoutrastransaçõesfinanceiras.Aagriculturabrasilei- ratambémseriaafetadapelaadesãoàAlca,poisteríamosonos- somercadointernoinvadidoporprodutosagrícolasaltamentesub- sidiados.AmelhoralternativaparaoBrasil,naopiniãodeGoyos, seriaintensificarosacordosmultilateraisecontinuaracreditando ALCA: CONTRAFAÇÃO DE UM IDEAL José Lisboa Mendes Moreira “A necessidade real de mercados maiores modificará a velha aspira- ção (dos grandes países industriais) de manter-nos ilhados, através do novo truque de integrar-nos para servir-lhes melhor.” RobertoCiriloPerdiaeFernandoVacaNarvajain Novaestratégiado FMI.
  67. 67. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 72 no sucesso do Mercosul, que é um acordo sem pretensão hegemônica. TambémoeconomistaGouveaNeto,professordaUniversi- dadedoNovoMéxico,nosEUA,eligadoaoInstitutoBrasileiro de Mercado de Capitais, considera a adesão à Alca nociva à economiabrasileira.OBrasiléhojeumnegociadorglobale,seos EUArespondempor20%denossocomércioexterior,apartici- paçãodosdemaispaíseséde80%.SeaderisseàAlca,noster- mosqueosEUAqueremimpor,estariaalijandoparceirosimpor- tantíssimoscomoaUniãoEuropéiaeospaísesasiáticos. NoMercosul,ocomércioentreosquatropaísesqueocom- põemcresceu400%desde1990,masnãoatrapalhouasoutras relaçõescomerciais.OmesmonãoocorrerianaAlca,pelofato deumdosmembros,osEUA,terumaeconomiamuitomaisforte, capazdedistorcerospadrõesdecomércio. MilêniosantesdeBolívaredostécnicosaquimencionados, estavaescritonaBíblia:“Nãoteassociescomoqueémaisricodo quetu.Comoopotedebarropodeseligarcomocaldeirãode ferro?”(Eclesiástico,XIII,2) JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGe- rais da UFF, professor e autor do livro Síndrome do progresso.
  68. 68. PODER E POLÍTICA 73 EnraizadanoRealismoFantásticoenoImaginário,aArte latino-americanavemobtendointeresseinternacional,apesarde aindamaisvoltadaamostraseexposiçõesqueàcomercialização. Defato,ascasasdeleilõesChristie’seSotheby’s,detempos paracáconcedemàpinturadaAméricaLatinamaisatenção, emboraestaestejabemlongedasmegamilionáriascifrasdas produções européias e norte-americanas. Nenhuma obra do nossocontinentealcançou,emvenda,abarrademeiomilhãode dólares. Alémdisso,poucosartistastêmconseguidofurarobloqueio emarcarnorestritomercado.UmafoiFridaKahlo,aprincípio conhecidacomomulherdomuralistamexicanoDiogoRivera, mas cujo talento se impôs, estando hoje em alta cotação no mercado.TambémFernandoBotero,colombiano,morandoem Madri,valorizandopelovigordotrabalhoevivêncianametró- poleecertostraçosdoclassicismoeuropeu. OequatorianoOswaldoGuaysamim,comtemasdelutas sociais e retratos de Fidel e Alain Garcia, do Peru, obtém o reconhecimentodaexpressãolatina.Noâmbitobrasileiro,Cân- didoPortinaridetém,atéagora,amelhorcotaçãoeo“Abapuru”, deTarsiladoAmaral,vendidoemleilão(aindabemqueficou emterrassul-americanas!)énossoquadrodemaiselevadaci- fra. Em meados do anos 90, reaqueceu-se a discussão sobre culturasetraçosnativoscomascomemoraçõesdoDescobri- mentodaAmérica.DaíointeressemaiorpelaArteBrasileira, comdestaqueemrevistasespecializadas.LygiaClark,Jacques LeinereRosângelaRennótêmsuascriaçõesnasconsagradas DISCRIMINAÇÃO DA ARTE LATINO-AMERICANA Adílson Figueiredo
  69. 69. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 74 Art in America, Art Nexus e Gallery Guide. Em1995,numeventoinéditoemNovaIorque,11galerias expuseram,simultaneamente,16artistasbrasileiroscontempo- râneos.Hápouco,tambémocorreua6ªBienaldeHavana,uma dasprincipaismostraslatino-americanas,dequenossapátria participoucom21nomesselecionados. Esta concorrida Bienal teve como pauta redimensionar a memóriadasAméricas,enfatizandoareflexãosobreaperdade referênciasautóctonesnestasociedadeglobalfinissecular,subli- nhandotambémocotidianodohomememmeioàsmúltiplas tendênciasartísticasdocontinenteemmutação. Adílson Figueiredo – Artista plástico e Arte-educador
  70. 70. PODER E POLÍTICA 75 UmespectroexistenaAméricaLatinadesdeoséculoXIX:é oimperialismo.Responsávelpelaexploraçãoedependênciadas sociedadeslatino-americanas,comandadasdeforaparadentro, contacomaconivênciadasclassesdominantesdocontinente. Assim,naépocadocapitalismoagrário-exportador,cujaburgue- siaruralmantinhasuahegemoniamedianteprocessoseleitorais escusosepráticasrepressivascontraopositores,ocapitalismo, internacionalfaziavistagrossa. Asváriasconjunturasdecrisesqueparalisaramassociedades capitalistascentraispossibilitarammodificaçõessocioeconômicas nasAméricaLatina.Foipossível,então,desenvolverindústriasde substituição,tendocomoconseqüênciaocrescimentosdoprole- tariadoedaburguesiaindustrial,oqueexplicaoPopulismodomi- nante,sobretudoapós1945. Compolíticapoliclassista,aburguesiaindustriallevouadiante umprojetocapitalista.Viveu-se,então,ocapitalismoindustrial,ou decrescimentoparadentro,queenfatizavaaadoçãodepolíticas econômicasprotecionistas. Contudo, a conjuntura internacional não favorecia o Populismo.ComaGuerraFria,osEUAnãoadmitiamqueas sociedadesperiféricasfugissemaoseucontrole.Contraodis- cursonacionalistadosdirigentespopulistaslevantou-seaban- deiradocomunismo.Alémdisso,amplossegmentosdaburgue- siaindustriallatino-americanahaviam-seassociadoaoimperia- lismoeviamcomtemorofortalecimentodaconsciênciapopu- lar. Oresultadofoiasucessãodegolpesmilitaresemquasetodaa AméricaLatina.OsEUAparticiparamdeformaveladaouosten- sivanamontagemdeEstadoshipertrofiadosfundamentadosna AFINAL, ATÉ QUANDO? Rubim Santos Leão de Aquino
  71. 71. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 76 DoutrinadeSegurançaNacional,ondenemsempreoCongresso funcionava. Essesregimesfacilitaramaentradadocapital,sobretudonor- te-americano,sejaatravésdevultososempréstimos,damultipli- cação de joint-ventures e de facilidades para a instalação de multinacionais,tendocomoconseqüênciaaeliminaçãodedireitos econômicosepolíticosdostrabalhadores. Com o fim da Guerra Fria e o esgotamento do Estado de Segurança Nacional, a América Latina caiu nas malhas do neoliberalismo. Este, na verdade, deveria chamar-se Paleoliberalismo,porqueseusprincípiosdoutrináriosrevitalizamo corpoteóricodovelholiberalismodaEscoladeManchester,re- vestindodenovasroupagensocorpodoutrináriodoatualespec- trodoimperialismo.Palavrasmágicasdãomaioratrativoàatual aliançaentreaburguesialatino-americanaeocapitalnorte-ameri- cano:globalização,modernização,minimizaçãodacompetitividade, terceirização... CúmplicesdeWashington,essesgovernantesempenham-se emprivatizaraeconomiaediminuirosgastosnaáreasocial.As- sim,aindaqueainflaçãocaísse,adesnacionalizaçãodaeconomia, aconcentraçãodariquezaeoagravamentodamisériaconstituem facesdistintasdeumamesmamoeda. “Dequemdependeacontinuaçãodessedomíniosenãode nós?/Dequemdependeasuadestruição?Igualmentedenós./ Oscaídosqueselevantem!/Osqueestãoperdidosquelutem!/ Como pode calar-se quem reconhece a situação? (Elogio da Dialética,poemadeBertoltBrecht). RubimSantosLeãodeAquino–Autordediversoslivros,dentreosmais conhecidos: História das sociedades – Das sociedades modernas às sociedades atuais; História das sociedades americanas e Do homem dasrevoluçõesàNovaordemmundial. ÉtambémprofessordoLiceu Franco-brasileiro.
  72. 72. PODER E POLÍTICA 77 AArgentinasepreparaparaumaviradaemsuapolíticain- terna. Depois de dois mandatos, o Partido Justicialista e o menemismocorremorisodeperderemaeleiçãopresidenciala serrealizadaemmaiode1999.Quaisascausasdestedesgaste? Quaisasperspectivaspolíticascomavitóriadaoposição? ApolíticaeconômicaempreendidaporMenemfoicentrada emtornodospreceitosdefendidospeloFMIequeseconfigu- raramnumconjuntodepráticasdenominadasneoliberaispauta- dasnocontrolemonetárioe,conseqüentemente,noaumentodo desemprego.Comesteprograma,ainflaçãofoidebelada,mas opreçopagofoielevado. Paraosquemantiveramseusempregos,asituaçãotambém foicrítica.Osindicalismo,atreladoaojusticialismo,rachouem duas facções: pró-governo e outra que defendia a adoção de medidasdecarátersocial. Menemconseguiuduasimportantesvitórias:umafrutode negociaçõescomseuprincipalopositor,aUnionCívicaRadical (UCR),quelherendeuaaprovaçãodereformasconstitucio- nais,permitindoareeleiçãopresidencial,eaoutraem1995,ao serreeleito,usandoumaretóricaquecombinavamanutenção docontroledainflaçãocompromessasdecombaterarecessão naeconomia. Noentanto,comumaeconomiacadavezmaisdependente doinvestimentodoscapitaisinternacionais,tornou-seimpossí- velparaMenemromperoscompromissoscomosorganismos financeirosinternacionais.Logo,nãoimplantouumapolíticade investimentospúblicosparagerarempregoserecomporosetor produtivonacional.Aomesmotempo,surgiramgravesdenúnci- A ARGENTINA: UMA POSSÍVEL MUDANÇA POLÍTICA Fernando Antônio da Costa Vieira
  73. 73. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 78 asdecorrupçãoeesquemasdefavorecimentoquepartiramda imprensaedopróprioministroCavallo.Istogerousuademis- são,oqueabalouomenemismoeincentivouoaparecimentode umanovaforçapolítica:aFrentePaísSolidário(Frepaso),que aliadaàUCRsaíramvitoriosasnaseleiçõesmunicipaisde1997. Temerosodiantedaperspectivaqueseapresentadevitória daaliançaFrepasoeUCR,Menemtentaumúltimogolpe:argu- mentandoqueaemendaconstitucionalfoiaprovadadurantea vigênciadeseuprimeiromandato,eledefendeuodireitodere- eleiçãoque,segundoseusargumentos,sópassariaacontara partirdosegundomandato. Na prática, Menem depende do Judiciário. O Congresso argentinojánãolheapóiaincondicionalmente.Eamédioprazo, atendênciaéocrescimentodacandidaturadaaliançaFrepaso/ UCR. FernandoAntôniodaCostaVieira–MestreemHistóriadoBrasilpela UFRJeprofessordaFaculdadedeEducaçãodaUFF. Nota:Estetextofoiescritoem maiode1998,estando,portanto,algunsde seus dados já desatualizados.
  74. 74. PODER E POLÍTICA 79 ATeologiadaLibertaçãorepresentouumimportantemar- conaHistóriadaAméricaLatina,emparticular,enaHistóriado Cristianismo,emgeral.Aindaquenascidaparaatenderàsne- cessidadeseaspiraçõesdopovolatino-americano,aTeologia daLibertaçãoapresentaantecedentesemfenômenoshistóricos decaráteruniversal,emespecialapartirdopontificadodeLeão XIII,voltadoparaarenovaçãodocleroeaaberturadaIgreja Romanaparaomundo. AIgrejaCatólicaencontrava-se,portanto,emviasdetrans- formação.Esteprocessochegouaseupontoculminantecoma realizaçãodoConcílioVaticanoII,quefoiumpassoimportante paraoposteriordesenvolvimentodaTeologiadaLibertação,vis- toque,duranteestaassembléia,seformulouumanovaconcepção deIgreja,pautadanãomaisnahierarquiaclerical,masnauniãodo clerocomoconjuntodefiéis. Partindodestaeclesiologia,emfinsdadécadade60nas- ceuaTeologiadaLibertação,comoobjetivoderefletirejusti- ficaropapeldaIgrejaparaatransformaçãodaAméricaLatina, marcada pela injustiça, miséria, violência, corrupção e totalistarismo. Elaboradaporlatino-americanoseparalatino-americanos, aTeologiadaLibertaçãonãopossuíapretensõesuniversalistas. Muitoaocontrário!Aoindicarcomopontodepartidaarealida- desocialvividapelopovo,buscavarespostasespecíficaspara osproblemasdaAméricaLatina.Mascomoconhecerafundo estes problemas? A Teologia da Libertação não propõe uma leituraalegóricaoutipológicadotextobíblico,massimliteral, preocupadaemidentificaraaçãodivinadelibertaçãonaHistó- riaHumana. TEOLOGIA MADE IN AMÉRICA LATINA Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva
  75. 75. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 80 PorrompercomaconcepçãotradicionaldeIgreja,dialo- garcomomarxismo,denunciarasmazelassociaislatino-ameri- canas,proporumanovaleituradaBíbliaepropagarumasalva- çãohistórica,aTeologiadaLibertaçãosuscitouinúmerosdeba- tes,alémdecríticasesançõesdacúriapapal. Hoje, apesar de não provocar tanta polêmica como em anosatrás,aTeologiadaLibertaçãocontinuaainfluenciaraprá- ticapastoral;otrabalhocomascomunidades;areflexãoteoló- gica e a exegese bíblica. E não só no seio da Igreja Católica Romana,mastambémemoutrasIgrejascristãs,emespeciala Luterana. AndréiaCristinaLopesFrazãodaSilva–ProfessoradeHistóriado DepartamentodeHistóriadaUFRJedoutoraemHistóriaAntigae Medieval.
  76. 76. PODER E POLÍTICA 81 Para a Comissão da União Européia, inúmeros fatores são favoráveisàreaproximaçãodaEuropacomaAméricaLatina. Primeiro,fatoreshistóricoseculturais.Defato,aconstruçãodo EstadodeDireito,osprincípioslegais,asidéiasdeliberdadeede democraciafazempartedeumconjuntodeconceitosfilosóficose jurídicosadvindosdopatrimônioeuropeu. Emseguida,acrescenteeconomia,jáesboçadanaAmérica Latina,permitetransformá-lanumpólodinâmico,comnovasopor- tunidadesparaocomércioeinvestimentos.Alémdisso,oreavivar daintegraçãolatino-americanacontribuiparaodinamismodas trocas,aexpansãodacompetitividadeeodesenvolvimentode outraspossibilidadesparaestespaísesnoplanointernacional.Eis, portanto,promissoresíndicesquenecessitamprosseguirempolí- ticasdeausteridade,àmaneiradasinstituiçõesdeBrettonWoods. Todavia,aComissãodirigeaoConselhoeaoParlamento europeus advertências a serem observadas. Em verdade, ela afirma–estaondadecrescimentocomportatambémzonasde sombra,inegavelmenteúteisacadapaís.Amodernizaçãodo processodeproduçãoeosníveiseconômicossãoaindainsufi- cientes.Estruturas“duais”perduram:aAméricaLatinasofregri- tantesdesigualdadessociaiseimportanteszonasdeexclusão. Apesardaexpansãoeconômica,odesempregoabrangegrande parte da população e o setor informal não cessa de crescer. A AméricaLatinadeverásuperartrêsdesafios:consolidaroEstado deDireito,enfrentaraquestãodapobrezaeodesequilíbriosocial eampliaroníveldecompetitividade. A ALIANÇA DA EUROPA COM A AMÉRICA LATINA Marcelo Ossandon
  77. 77. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 82 Re-conquistarademocracia Apósosufocantedomíniodasforçasarmadaslatino-america- nas,osanos80foramosda“transição”dosregimesautoritários parasistemasmaisdemocráticos.Paraaeconomia,tornou-se“um decênio perdido”, enquanto o setor político assistia ao restabelecimentoinstitucionaldademocracia.Nosanos90,con- solidou-seademocraciacomeleiçõeslivres,comarestauração dasliberdadespúblicasecomopluralismopolítico,constituindo autênticosavanços,oqueilustraosesforçosdosdirigentespara restauraraidéiadoEstado. Taisprocessosdetransiçãoapresentaramformasdiversas, porém,quasesempre,chegaramaumademocracia,nãoraro, frágil.Assassinatosdemeninosderuaoudemarginaispelos esquadrões da morte não permitem que se fale em Estado de Direito.Multiplicaram-severdadeirosexércitosparticularesdo- minadospelosnarcotraficantes,concorrendocomaviolência doEstado. Estesexemplosdemonstramqueaconsolidaçãodemocrática estámuitolongedeconquistar-se.Apósorecuoearelativadimi- nuiçãodopodermilitar,asexperiênciaspós-autoritáriaspermane- cemmarcadaspeloselodaimpunidade,beneficiandoreconheci- dos autores de violações do direitos humanos. Por trás dos “revisionismos”latino-americanosenopretensodesejoderecon- ciliaçãonacional,cresceadeterminaçãodasForçasArmadasde nãopermitirqueosresponsáveissejamlevadosàJustiça. Criseeconômica,falênciadasditaduras AAméricaLatinasaiudasditaduraspelaincapacidadedes- tasdeenfrentaremoendividamento.Oprocessodedemocrati- zação, iniciado antes da queda do Muro de Berlim, fez-se ao preçodeumaabertura–noconjunto,muitorápida–deecono- miasantesfortementeprotegidas.Istosignificaoabandonoge- neralizadodoEstadoprovidênciaeaadoçãodemedidasque visaramàdrásticareduçãodosdéficitsorçamentárioseàdimi- nuiçãodosinstrumentossociaisreguladores.Oresultadosfoia perdadepartesignificativadopoderdeintervençãodosEsta- dosnascondiçõesdevidadasociedadecivil.Aspolíticaspre- conizadaspeloFMIdeixarammarcas.
  78. 78. PODER E POLÍTICA 83 Se,comoretornodademocracia,surgiramperdaseconômicas, oabandonodoprotecionismoeaspolíticasdeajustesestruturais nãofacultaramnemtempo,nemcapacidadeparaosgovernos estabelecerempolíticasquepermitissematenuaroempobrecimento daspopulaçõesmarginais,antesprotegidaspeloEstado-prove- dor.Assim,orecuodestetevecomoconseqüênciasoabandono desubvençõesaosprodutosdeprimeiranecessidade,aredução daspolíticassociaiseamaciçaprivatização. As“curasdeemagrecimento”,senosreferirmosaosparâmetros macro-econômicos,trouxeramfrutos:domíniodainflação,déficits dasfinançaspúblicasestranguladas,retornoforçadodecapitais expatriados.Seria–aexemplodosaficionadosdoneoliberalismo –louvarosefeitosbenéficosdorefluxodopoderpúblicoepedir sempre“menosaoEstado”? Umacoisaécerta:osmecanismosreguladoresentreoapare- lhodoEstadoeasociedadecivilforamabalados.Ossindicatos, ospartidos,asinstituições,noseioouforadasadministrações públicas,nãomaisasseguramatransmissãodasdemandassociais aoaparelhodedecisãopolítica.Aatualconjunturadoempobreci- mentodascamadassociais,comaperdadoEstadodeseusins- trumentosreguladores,correoriscodeprovocarrevoltasesporá- dicas.Nãohouveaindaumaluzparaossegmentosmarginaliza- dos.Daíaemergênciadenumerososatoressociaisemesmode novosatorespolíticos. Os movimentos sociais, criando outros meios de intermediaçãoentreasociedadecivil,oEstadoeomercado, longedereduziremsuaaçãoàúnicaconquistadedireitosàci- dadaniaeàinstauraçãodeumestadodeDireitoexigem,tam- bém,queestesejaeficiente.Taismovimentosencontram-sena origemdenovasdemandaseformasdemediaçãopolítica.Seja comofor,asociedadecivil,conceitoquerecobremúltiplasrea- lidades,manifestanaAméricaLatinanovodinamismoligadoao próprioprocessodedemocratização,assimcomoaoimportan- tedesenvolvimentodaeconomiainformal. Prioridadesconvergentes Oenraizamentodademocracialatino-americanaserálongo, poisváriasdificuldadespersistem:osmilitaresnãomaisocupama
  79. 79. EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II 84 cenaprincipal,mascontinuamamanobraraeconomia.AUnião Européia,pondonocentrodacooperaçãoacláusulademocráti- ca,contribuiparaancoraraidéiadeque,alémdosimplesdesen- volvimentoeconômico,orespeitoaosdireitosdohomem,acon- solidação do Estado de Direito e a manutenção da paz são, de agoraemdiante,incontornáveis. Istoconstituielementorelativamentenovoeimportantenas relaçõesdaUniãoEuropéiacomospaísesdoTerceiroMundo, selevarmosemcontaque,noTratadodeRoma(1957),nenhuma referênciaarespeitodosDireitosdoHomemfoimencionadaso- bretaisligações.NaEuropa,apassagemdacidadaniapolíticaà cidadaniasocialefetuou-segradualmente:aaquisiçãodaprimeira permitiuqueosassalariadosestabelecessemumarelaçãofavorá- velcomasegunda. Porsuavez,naAméricaLatinaademocraciaformalinstau- rou-sesemcidadãos,oquealimentouafraudeeleitoral,acompra devotoseocorporativismoestatal.Nela,osdireitosdoscida- dãosformalmenteexistem,massópartedapopulaçãodesfruta deles.Asdesigualdadespermanecemonipresentes.Etalquestão valeparaoprocessodeintegraçãolatino-americana,cujoêxito passapeloacessoaomercadodeamplossegmentossociaisaté agoramarginalizados. Convémenfatizarque,naEuropa,igualmenteafraturasocial seaprofundoucomamarginalização.Certaconvergênciadospro- blemaseuropeuselatino-americanosé,muitasvezes,sublinhada pelomundoassociativo.Porém,naEuropa,“lamarchemulticolore”, Clabecq,Renault-Vilvordeealutapeloempregonoslembram queoscidadãosexigemqueohomemsetorneocentrodaeco- nomia.Averdadeiracooperaçãoétecidapelasrelaçõeshumanas e fundada sobre a elevada noção do homem como centro da novaparceria,propostapelaComissãoàAméricaLatina. MarceloOssandon–Ex-ministrodaEconomiadoGovernoAllende(Chi- le)eatualpesquisadordoCentrodeEstudosdasRelaçõesentreaComu- nidadeEuropéiaeaAméricaLatina(Cercal).ProfessordaUniversidade LivredeBruxelas.Traduçãode DalmaNascimento.
  80. 80. PODER E POLÍTICA 85 Fazalgunsanosliopoema“Adormidera”,donicaragüense PabloAntonioCuadra.Talleituraalavancouumpasseiocurio- so/sentimentalpeloricouniversodascantigasdeninar,poisfez assomar, num ir e vir de cadeira de balanço, o eco de muitas cançõesbemguardadasnofundodamemória. Emsuaaparenteingenuidade,acantigadeninardesdobraao ouvido atento e curioso do observador da alma popular um multifacetadotecidoemcujatramaseenredaboapartedatra- diçãooral,enquantopõeàmostra,numretratosutileencantatório, elementossócio-econômicos(talvezhistóricos)daAméricaLa- tina.Deixar-noslevarpelojogofônicoqueseestabelece,levan- taraquiealientecidassugestões,entreter-senamagiaameaça- doradosseresfantásticosdoimagináriopopularéumaformade participardeumexercíciodinâmicoefascinante.Ascantigasde ninarestãoaí,ricas,palpitantesdevidaedelembranças,memó- riavivaaconvidarparaumaleituraaproximadoradaalmapo- pulardenossaAmérica,desuatradição,desuavariadaexpres- são. Nofundodamemóriademuitosdenósecoaavozmaterna e/ououtrasvozesigualmenteacalentadoraspelasquaistransita- vamseresfantásticos,criadospeloimagináriopopular,alguns chegadosaoBrasilatravésdacolonizaçãoportuguesa,aquien- riquecidos,modificadospelamisturadeelementosdacultura africanaedaculturaindígena.Dessas vozessaltamseresmito- lógicos,criaturasdeproporçõesfantásticaseterríveiscomafun- çãoirracionale/ouafetivadeadormecerumacriançaquerida cujosolhosmeninossãoforçadosasefecharemdiantedafigura terrível,fantástica,queaimaginaçãofaztãograndequantoo CANTIGAS DE NINAR: TRAÇOS DE UMA IDENTIDADE CULTURAL Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento

×