1Publicado em: 30/01/2009 - por César MunhozFONTE http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=264366Mu...
2Administrativamente, o CAS está vinculado à Secretaria de Educação. Todos nós somosfuncionários da Secretaria — ou fomos ...
3A chave das principais dificuldades está nesse entendimento?Sim, vejo que a mudança de concepção em relação à surdez e ao...
4a maioria das pessoas, é não ouvir, não falar, ser um deficiente da linguagem. Por não ouvir enão falar, o processo de al...
5viável agora. Ainda não temos um número grande o suficiente de educadores, formados emcursos de nível superior, que sabem...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Entrevista Dra Sueli de Fatima

490 visualizações

Publicada em

Muitas pessoas, quando veem um surdo tentando falar ou mesmo quando leem seus textos sem artigos nem flexão verbal, associam a ausência de audição à deficiência intelectual. Para a doutora em Linguística Sueli Fernandes, esse conceito é o principal obstáculo à inclusão do surdo na sociedade.

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
490
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Entrevista Dra Sueli de Fatima

  1. 1. 1Publicado em: 30/01/2009 - por César MunhozFONTE http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=264366Muitas pessoas, quando veem um surdo tentando falar ou mesmo quando leem seus textossem artigos nem flexão verbal, associam a ausência de audição à deficiência intelectual. Para adoutora em Linguística Sueli Fernandes, esse conceito é o principal obstáculo à inclusão dosurdo na sociedade. Um conceito que confunde a sociedade e, até pouco tempo, os governos,levando-os a adotar políticas públicas equivocadas. Ela, que é coordenadora do CAS — Centrode Apoio aos Profissionais de Educação de Surdos no Paraná, acredita que a popularização doensino de Libras é a chave para o fim desse preconceito, mesmo que a longo prazo. “O surdonão é uma pessoa com deficiência de comunicação. Ele deve ser visto como uma pessoa quefala outra língua, que é a Libras”, explica. Veja o que mais ela tem a dizer sobre a inclusão dosurdo na escola e na sociedade, na entrevista a seguir.Como funciona o CAS — Centro de Apoio aos Profissionais de Educação de Surdos?O CAS é um programa do governo federal, em parceria com as prefeituras e as Secretarias deEducação dos Estados, cujo objetivo é capacitar profissionais que trabalham na educação desurdos e dar visibilidade à língua de sinais. Ele tem um grande programa, no âmbito federal,que é o Interiorizando Libras, que visa tornar a Libras acessível para um número cada vezmaior de pessoas. O CAS funciona assim: o Ministério da Educação fornece os equipamentos,enquanto os governos municipais e estaduais se encarregam de fornecer e manter o espaço etambém manter o corpo de profissionais que trabalharão nesse local.Sou a coordenadora do CAS Paraná. Aqui, só temos a sede de Curitiba, mas há a possibilidadede abrirmos uma extensão em Cascavel. Trabalho com uma equipe de mais três pessoas: umaintérprete de língua de sinais que também é pedagoga e dois pedagogos surdos. O trabalho seorganiza em alguns núcleos. Um deles é o de apoio didático-pedagógico, que visa desenvolvertextos de apoio aos professores que trabalham com alunos surdos incluídos no ensino regular.Outro é o núcleo de tecnologia, que produz materiais em diferentes mídias para difundir alíngua de sinais. Estamos, por exemplo, preparando um acervo com histórias infanto-juvenis ecom documentários de temáticas variadas, sempre sinalizados. São materiais que já existemem língua portuguesa e serão transformados em um acervo digital em Libras. Esse é umtrabalho ainda incipiente, pela falta de pessoas que entendam do assunto. Mas, mesmo quede forma amadora, estamos produzindo alguns materiais. O terceiro núcleo é o decapacitação, que oferece cursos para a comunidade. Desde junho de 2008, oferecemos cursosde Libras, mas eles estão voltados, principalmente, para professores envolvidos no processode inclusão. Como, em Curitiba, temos o apoio da Universidade Federal do Paraná, podemosoferecê-los também para pessoas da comunidade interessadas no tema. Outro núcleo, que,para mim, é o mais importante, é o de convivência, que traz a comunidade para dentro doCAS, a fim de debater problemas, dificuldades, enfim, as demandas de seu dia a dia notrabalho, na escola, na família. Os encontros ocorrem a cada 15 dias, sempre com umatemática específica. Surdos e familiares vêm aqui, conversam uns com os outros, e tentamosdar um encaminhamento às questões levantadas. É o núcleo que trabalha com as questõesmais concretas da inclusão nos diferentes segmentos sociais.
  2. 2. 2Administrativamente, o CAS está vinculado à Secretaria de Educação. Todos nós somosfuncionários da Secretaria — ou fomos contratados especificamente para isso, ou já éramosmembros do próprio quadro do Estado. O Paraná tem uma política própria de educaçãobilíngue para surdos.Além disso, na Universidade Federal do Paraná, sou coordenadora do curso superior de Letras— Libras. É um curso a distância, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal deSanta Catarina. Toda a concepção é deles, e há polos no Brasil todo. No Paraná, temos 31alunos no curso de bacharelado, que se dirige a pessoas que querem trabalhar comointérpretes de língua de sinais, e 30 alunos na licenciatura. Estes são alunos surdos quequerem ser professores de Libras.De que forma vocês divulgam esse serviço na comunidade escolar? Qualquerprofessor pode procurar o CAS para pedir orientação?Sim, qualquer professor da rede de ensino pública ou privada. Todas as ações quepromovemos no CAS são difundidas para a comunidade por dois canais. Um deles é aSecretaria de Educação, por meio dos Núcleos Regionais de Educação, e também a prefeituramunicipal. É assim que atingimos os professores da rede pública. O outro, voltado à redeparticular, é o site do Napne — Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais, daUniversidade Federal do Paraná.• Acesse o site do Napne.Quais são as principais dificuldades do estudante surdo no Brasil hoje?Gosto de falar sobre isso não do ponto de vista da dificuldade, mas, sim, da diferença. Oensino de qualquer aluno com necessidades especiais requer uma reflexão especial doprofessor sobre sua singularidade, sobre aquilo que tem de diferente em relação àquelesalunos com os quais está acostumado a lidar. Então, a diferença dos surdos hoje é de ordemlinguística. Esse professor terá de pensar em adequações curriculares, na sua forma de pensara prática pedagógica em termos linguísticos, passando, primeiramente, pela comunicação, oque demanda uma língua comum. O professor que trabalha com um aluno surdo precisaconhecer a língua de sinais. É o ponto de partida para ele estabelecer uma relação pedagógica.No entanto, a maioria dos professores, dos alunos, enfim, dos atores que compõem acomunidade escolar desconhece a língua de sinais e tem preconceito em relação a ela.Que tipo de preconceito?Primeiramente, o surdo é um sujeito que fala outra língua. Ele é um brasileiro estrangeiro. Eledeve ser visto assim, e não é. É visto como um deficiente da linguagem, em vez de ser vistocomo um indivíduo que tem um potencial linguístico diferenciado.
  3. 3. 3A chave das principais dificuldades está nesse entendimento?Sim, vejo que a mudança de concepção em relação à surdez e aos surdos é o primeiro passo.Quando começarmos a entender que as crianças surdas são falantes de uma línguaminoritária, todas as políticas educacionais passarão a ser políticas bilíngues, e não políticaspara “deficientes”.A maioria das escolas básicas do Brasil oferece um segundo idioma. Não seria o casode Libras ser uma das opções? Existe uma proposta para que isso aconteça?Existe, sim. Faço parte da comissão que está discutindo esse processo no Senado. O Senadoestá programado para votar, no dia 3 de fevereiro de 2009, a inclusão de um artigo na LDB quetornará obrigatório o ensino de Libras para todos os estudantes surdos matriculados naEducação Básica.Só para os surdos?Esta é a primeira questão: tornar obrigatório, além do ensino de língua portuguesa, o deLibras. Então, todo surdo terá acesso a ela na escola. Já é um avanço em relação ao que ocorrehoje. Qual o desdobramento disso? Em todas as escolas em que estiverem matriculadosalunos surdos, a Libras será um componente curricular obrigatório na Educação Infantil e umadisciplina obrigatória nas séries iniciais do Ensino Fundamental para todos os alunos, não só ossurdos.Se o aluno surdo e os demais estudantes que estão na mesma escola que ele souberem Libras,isso já representa um avanço, porque, dessa forma, a escola se torna bilíngue, e não apenas osurdo e seu intérprete. O que acontece hoje é que o surdo usa a Libras apenas quando há umintérprete em sala de aula, e a interação se restringe aos dois.A escola está preparada para receber o aluno surdo no Brasil?Vou falar do Paraná, que é a realidade que conheço. A língua de sinais foi reconhecida comolíngua oficial no Estado em 1998. Foi o segundo Estado do Brasil a fazer isso — o primeiro foiGoiás. A partir daí, tornou-se muito mais fácil estabelecer políticas públicas, e um dos eixosdessas políticas é a formação e a contratação de intérpretes nas escolas. Hoje, na rede pública,a Secretaria de Educação abre anualmente processos seletivos. O problema é que não háprofissionais qualificados. Alguns alunos não têm intérpretes porque não existem profissionaisqualificados em seu município. Na rede privada, a situação é mais complicada. Na EducaçãoBásica, há ainda uma resistência muito grande em relação à contratação desse profissional,bem como à aceitação do aluno surdo na escola.De que outras formas o preconceito se manifesta hoje para o estudante surdo na escolaregular?Independentemente de a escola ser pública ou privada, vejo que o grande problema queatrapalha o aluno surdo é a representação que se faz dele. O que significa ser surdo hoje? Para
  4. 4. 4a maioria das pessoas, é não ouvir, não falar, ser um deficiente da linguagem. Por não ouvir enão falar, o processo de alfabetização desse aluno é muito diferenciado em relação ao dosdemais. A escrita do aluno surdo é muito peculiar. E acaba sendo sua única forma demanifestação concreta que pode ser avaliada pelo professor, uma vez que ele não fala e,muitas vezes, tem dificuldade em fazer leitura labial. Como ele tem dificuldade de se apropriarda escrita, as pessoas acabam vinculando a surdez à deficiência mental. Então, todo surdo tematrasos na aquisição da linguagem e escreve como um deficiente mental. Não usa artigos, nãousa preposições, não faz flexão verbal. Enfim, são singularidades na escrita muito próximas dasexistentes em textos de estrangeiros que estão aprendendo português. Se você observar otexto de um japonês que está aprendendo português e o texto de um brasileiro surdo,provavelmente encontrará as mesmas particularidades. Só que, no caso do surdo, isso éencarado como um sinal de deficiência, e não como uma interferência cultural.Quanto ao projeto que você mencionou há pouco, de tornar obrigatório o ensino de Librasnas escolas que tenham alunos surdos, ele pode ajudar a desfazer esse preconceito?A inclusão da Libras no currículo dos demais alunos tem um impacto imediato na diminuiçãodo preconceito, pois, a partir do momento em que há uma língua comum por meio da qual osalunos possam interagir com seu colega surdo, acabam as diferenças. Ou melhor, as diferençasentre os alunos que ouvem e os surdos passam a ser as mesmas: de classe, religiosas, deinteresse. Mas eles podem trocar ideias sobre isso. É como se eu conversasse em inglês comum aluno estrangeiro e me interessasse, a partir desse momento, pelo universo cultural dele,que eu desconhecia até então.Vemos isso acontecendo nas escolas em que a Libras já faz parte no currículo. O resultado éque os colegas aprendem essa língua e há casos em que, mesmo quando não estão com ossurdos, comunicam-se por meio dela. Eles a usam até para colar e fazer fofoca (risos)! A Libraspassa a fazer parte do cotidiano deles como uma coisa natural, como mais um dos muitosconhecimentos que adquirem na escola.Em relação à sociedade, o impacto ocorre a longo prazo, porque, quando um pai vê seu filhoaprendendo Libras na escola, nem sempre vê isso como algo positivo. Como a representaçãosocial do surdo ainda é a de um deficiente, ele acha que o filho “está aprendendo aquilo que odeficiente faz”. Precisa-se de outros mecanismos mais potentes, como a televisão. O fato de jáhaver intérpretes em programas de tevê, como em muitos dos programas religiosos epolíticos, já fez com que muitas pessoas passassem a ver a Libras como um produto culturaldos surdos. Isso é importante, mas a língua deve ser disseminada em outras instâncias. Aspessoas têm de ver intérpretes em hospitais, delegacias, bancos, lojas, e não só na escola,senão esse processo vai demorar muito.Então, por que não tornar a Libras obrigatória em absolutamente todas as escolas do Brasil?Pela falta de profissionais qualificados neste momento. A versão original do projeto, elaboradapor Cristovam Buarque, previa que a Libras seria obrigatória em todas as escolas. Mas, quandoforam ouvidos consultores da área e outros atores da sociedade, percebeu-se que isso não era
  5. 5. 5viável agora. Ainda não temos um número grande o suficiente de educadores, formados emcursos de nível superior, que sabem Libras. A primeira turma do curso de Letras — Libras doBrasil vai se formar em 2010.Enquanto isso, existe o Prolibras, um exame nacional anual de proficiência que avalia osconhecimentos de pessoas que já usam a língua de sinais, mas não tiveram uma formação paraensiná-la. Passando no exame, elas podem ser contratadas para dar aulas. A lei está seadequando a esse momento de transição. Sueli Fernandes Doutora em Linguística e coordenadora do CAS — Centro de Apoio aos Profissionais de Educação de Surdos no Paraná.

×